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21.4.07

A religião, serviço público? - Cinco perguntas a Nicolas Sarkozy

Sob a forma de carta aberta, por Henri Pena Ruiz


Texto original em francês e tradução em português, divulgados por
República e Laicidade.

Especialmente oportuno, na véspera das eleições francesas.






@Documentation française

19.4.07

Os Amigos das «Brumas»

Por uma absoluta e incrível coincidência, chegaram ontem ao meu computador dois belos textos sobre o meu livro, com muitas afinidades. Foram escritos por grandes amigos, com quem trabalhei na IBM durante vinte e cinco anos – a Júlia Matos Silva e o Fernando Penim Redondo.

Nenhum dos dois sabia que o outro estava a escrever e, ainda menos, que fariam uma abordagem com muitas semelhanças. Explicam ambos os seus percursos de vida, totalmente afastados dos meios católicos, e as reacções que tiveram ao ler o meu livro.

Fomos, os três, compagnons de route noutras histórias – por exemplo, protagonistas activíssimos de um PREC, absolutamente vertiginoso e sui generis, numa grande multinacional americana. Histórias que dariam para outras «Brumas».

Aqui ficam, já a seguir e com muita gratidão, «Brumas» e «As Bruxas da Memória».

As Bruxas da Memória

Texto de Fernando Penim Redondo

(também publicado em http://dotecome.blogspot.com)

Fernando Penim Redondo desenvolveu a sua actividade profissional no domínio dos Sistemas de Informação, nomeadamente na IBM. Publicou, juntamente com Mª Rosa Redondo, Do Capitalismo para o Digitalismo ( Campo das Letras, 2003). Actualmente, é um fotógrafo exímio e um cibernauta compulsivo.Foi membro do PCP durante 27 anos.

Nasci numa família um pouco esquizofrénica no plano religioso.Por um lado o meu pai era, e ainda é aos 94 anos, profundamente anticlerical. Por outro, a minha mãe foi praticando abnegadamente o catolicismo até que, depois do 25 de Abril e com mais de 60 anos, se afastou irremediavelmente da igreja.

Eu, levado pela minha mãe desde muito cedo, frequentei as missas e só nos meus dezasseis anos me "zanguei" com a igreja sob o pretexto das perguntas indiscretas, e insistentes, durante a confissão dos meus ingénuos "pecados sexuais".

A maravilhosa disponibilidade da adolescência levou-me directamente da admiração pelas realizações do Salazar, descritas ao pormenor no Diário de Notícias, para a militância clandestina no PCP, em 1966. Devo isso a alguns amigos que me acompanharam, e acompanham, ao longo da vida.

Vem isto a propósito do livro da Joana,"As Brumas da Memória", para que se perceba por que vou dizer aquilo que vou dizer.

A juventude é dada aos fanatismos e eu, confesso, pensei durante muito tempo que os fanatismos se dividiam entre os bons, que eram os nossos, e os maus que eram os dos outros. No caso dos católicos progressistas a imagem que eu tinha, na minha fase militante da juventude, era mais a dos equivocados que embora subordinados a um fanatismo dos maus queriam "dourar a pílula" com uns "tagatés" ao contrário.

Uma vez ou outra o funcionário do Partido com que na altura me encontrava lá mencionava uma vigília qualquer, como quem diz "não estamos sós", mas a coisa tinha um certo ar folclórico quando comparada com as elaboradas técnicas conspirativas que nós praticávamos.

Só muito mais tarde a vida me ensinou a abominar os fanatismos todos. O meu problema agora é cuidar, todos os dias, de não os abominar fanáticamente.

Tal como os vírus que habitam, sem consequências, os nossos corpos também o fanatismo, nas suas várias formas, pode permanecer inócuo. Em determinadas circunstâncias degenera em formas agudas de imposição aos outros de "verdades inquestionáveis". A cadeia de raciocínios é simples: se a "verdade" é inquestionável torna-se incompreensível que alguém a não queira ou que a ela resista; essa recusa da "verdade" indicia incapacidade ou perfídia; em qualquer dos casos, como a "verdade" é inquestionavelmente favorável, resulta legítimo impô-la aos relapsos mesmo contra a sua vontade.

O facto de rejeitarmos o fanatismo não significa que devamos rejeitar a adesão a ideais, ideologias, misticismos ou utopias. Significa, isso sim, a adopção da relatividade e falibilidade dos julgamentos humanos que reserve para casos extremos, prementes e inevitáveis, a substituição da persuasão pelo uso da violência física ou intelectual.

Talvez por tudo isto penso que a Joana escreveu o livro no tempo certo; pelo que vai no mundo, porque há uma geração que começa a despedir-se e, para além de tudo o mais, porque só agora eu já estou em condições de o ler.

Se tivesse escrito antes talvez eu não fosse capaz de apreciar a hábil mistura de marcantes experiências pessoais, episódios pitorescos e verdadeiros "factos históricos".

Talvez a ternura com que os leio não tivesse sido possível.

18.4.07

Brumas

Texto de Júlia Matos Silva
Depois de trabalhar quase trinta anos na IBM, Júlia Matos Silva dedicou-se à realização de um projecto de reinserção social no Casal Ventoso. Actualmente é escritora, tendo ganho o «Prémio Miguel Torga Cidade de Coimbra 2000» pelo seu romance A Noite Americana (Palimage, 2001).

Tenho uma forte relação de amizade e cumplicidade com a Joana Lopes, desde o início dos anos 70. Não posso deixar de espelhar aqui o meu apreço pelo seu livro «Entre as Brumas da Memória – Os católicos portugueses e a ditadura», não só pela relevância das matérias tratadas, mas também pela qualidade e clareza da sua escrita.

Foi com grande entusiasmo e curiosidade que acompanhei o projecto da Joana. Num tempo em que a ideologia dos tempos livres arrasta as pessoas para a voragem dos prazeres que ajudam a derrotar o tempo, é gratificante encontrar alguém que se empenha em transmitir o testemunho de uma fase importante do seu passado individual e colectivo.

Em primeiro lugar, interessa salientar que a Joana soube aproveitar «o espaço mental e afectivo» que a vida lhe proporcionou para encontrar o tempo de nos revelar marcas relevantes da história da oposição ao regime salazarista, na década de 60.

Interessa ainda enaltecer a clarividência e rigor que depositou na missão difícil e sensível de «ilustrar com experiências e percursos colectivos», um importante período da luta dos católicos portugueses na oposição ao regime político vigente e às posições oficiais da Igreja Católica. Com este livro, católicos e não católicos devem congratular-se por lhes ser desvendada uma época histórica do seu próprio passado.

Assim que o livro me caiu nas mãos descobri uma nova luminosidade sobre uma época onde tantos combateram de diferentes formas a realidade mais incontornável que os cercava – a natureza arbitrária e desmerecida de um regime claustrofóbico e ditatorial.

Vivi com intenso afecto, a forma como ela própria se pensa e nos desvenda e ajuda a reflectir sobre uma esfera cultural e civilizacional à qual pertenci activamente, embora noutros moldes intelectuais, porque desprovida de convicções religiosas.

Senti, como se fosse minha, a dimensão simbólica do preço dos «íntimos e públicos sofrimentos» a que Pedro Tamen se refere quando, no prefácio, traça o movimento paradoxal da fidelidade a um grupo de pertença e nos alerta para a historicidade da trama dos acontecimentos e para o «aparente fim das histórias» sem fim. E eu sei como é perigoso sentir com muita intensidade… é perigoso para nós próprios e para aqueles que nos rodeiam!

A Joana Lopes consegue encontrar a exposição apropriada para revelar a singularidade dos eventos que narra, sabendo colocar-se, como dizia Jacques Derrida, no papel de «guardião de uma herança diferenciada, mas comum».

Para além de ressuscitar os acontecimentos, a escrita da Joana Lopes soube movimentar as memórias de um meio que, também ele, era tudo menos homogéneo. E soube acrescentar outras visões àqueles que, como eu, não caminhavam na proximidade espacial e temporal dos católicos.

Causou-me alguma inquietante perplexidade o facto de eu própria ter vivido aqueles tempos, com um desconhecimento fatal sobre a intensidade e o valor dos factos revelados neste livro. A minha condição de não crente talvez me tenha inibido de olhar para além do que era por mim (e por outros como eu) sentido e vivido naquela época, face ao meu país e ao mundo. O resultado das práticas religiosas e da consequente depauperação intelectual que eu via acontecer à minha volta, naquele tempo, não me permitiu descobrir a existência de tantas pessoas que lutavam dentro do sistema. Julgo mesmo que vivi numa era em que o fardo da vivência obscurantista nos fazia esquecer e até recusar o conhecimento teórico da existência de figuras da laicidade religiosa que, ao longo da história, lutaram pela justiça social.

Não posso deixar de confessar que, mesmo ainda hoje, da acção dos chamados católicos progressistas, eu apenas conhecia sobretudo a exigência utópica do episódio da «Capela do Rato», o papel do Centro Nacional de Cultura e de O tempo e o Modo, as posições individuais dos padres católicos e de alguns nomes significantes e o simbolismo vigoroso da figura do Bispo do Porto.

O condicionamento histórico e familiar do espaço emocional em que nasci, tão dominado pela observação osmótica da figura mítica de um pai agnóstico, anticlerical e anti-salazarista, nunca me conduziu à religiosidade em qualquer das suas formas e sempre me alertou ou protegeu contra o sistema de valores vigentes, religiosos e políticos.

Na minha infância e adolescência, o meu berço foi um nicho ecológico onde primava a luta contra um destino entorpecedor – tão largamente imposto pelas hierarquias políticas e religiosas e pelo sistema educativo (com a excepção rara de alguns professores notáveis). Assim, nas décadas de 40 e 50 e na cidade de província onde cresci, os meus pais fizeram questão de me aliviar das matérias de fé. Centraram a educação dos filhos em dois grandes pólos: despertar-lhes o gosto e o prazer pelas leituras múltiplas e apaixonantes e inculcar-lhes uma forte crença na mitologia activa da cultura humanista, despojada de uma ordem transcendente mas cheia de balizas éticas e morais.

De tudo isto, fiquei apta a acolher a alteridade do outro e a compreender que, em cada momento, esse outro é ele e a sua circunstância. Encontrei sobretudo as razões para compreender o homem na sua totalidade mais profunda quer ele seja habitado por um Deus ou por sucessivos Deuses dos Deuses ou viva os desígnios de um ateísmo militante.

E assim fui ficando até hoje, vivendo o desamparo da improbabilidade de Deus! George Steiner afirma que «o Deus da utopia é um deus cioso» ... e eu vivi, desde sempre, na teimosia de que o deus da minha utopia não tem Deus, tem apenas o homem e a sua própria morte.

E sei que sou, como a Joana, herdeira e sobrevivente de tantas coisas, boas e terríficas que preencheram a nossa geração.

17.4.07

Lista (inédita) dos nomes de 106 padres que pediram substituição do Cardeal Cerejeira por D. Manuel Falcão



Nas pp. 131-132 de Entre as Brumas da Memória..., pode ler-se o seguinte texto:

«No quarto trimestre de 1967, correram boatos insistentes segundo os quais Cerejeira, quase com oitenta anos, teria pedido ao papa exoneração do seu cargo de patriarca. Este facto esteve na origem de uma carta, datada de 25 de Dezembro de 1967, dirigida ao núncio apostólico e assinada por 106 padres (...). Depois de definirem o que lhes parecia dever ser o perfil do novo cardeal, e de invocarem várias razões para sugerirem o nome de D. Manuel Falcão, concluíram:

"Mais nos convence da oportunidade da sua escolha a isenção política que tem mostrado, num momento em que muitos cristãos e alguns dos sectores mais vivos da sociedade portuguesa se interrogam angustiosamente sobre o compromisso da Igreja com o actual regime político."

Entre as 106 assinaturas desta carta há, naturalmente, muitos dos que, mais tarde ou mais cedo, deixaram de ser padres. Mas não só: encontrei na lista nomes de pessoas que ainda hoje ocupam cargos de grande responsabilidade na Igreja, como, por exemplo, o de um bispo de uma das principais dioceses do país [actual bispo de Coimbra].»


No Anexo 13 do livro, é publicado o texto integral da carta, mas sem as assinaturas, por vontade expressa de quem então o pôs à minha disposição. Essa mesma pessoa tomou agora a iniciativa de me contactar, comunicando-me que reconsiderou e decidiu divulgar os nomes dos 106 subscritores.
Fico-lhe grata por esta contribuição que vem preencher uma lacuna, sublinhada, por exemplo, por José Pedro Castanheira, em artigo publicado no suplemento «Actual» do jornal Expresso (3/3/2007, p.16).

(D. Manuel Falcão era então bispo auxiliar de Lisboa, muito próximo dos chamados “católicos progressistas” e detestado por Salazar.)

106 assinaturas:
104 padres (um dos quais Cónego) e dois Diáconos

P. Abílio Franco
Cónego Abílio Tavares Cardoso
P. Abílio Vieira
P. Agostinho Gomes
P. Alberto Augusto Teixeira Dias
P. Alberto Neto Simões Dias
P. Albino Mamede Cleto
P. Alfredo Manuel Cerca
P. Amilcar Luís Fialho
P. António Antunes Ribeiro
P. António Augusto Sobral
P. António Cândido
P. António Crisóstomo
P. António de Jesus Soares Ferreira Onofre
P. António de Sousa Bento
P. António Dias Matos
P. António do Carmo Vicente
P. António Gonçalves Pedro
P. António Henrique Tomás de Oliveira
P. António José dos Santos
P. António José Paiva Afonso
P. António Manuel de Almeida Janela
P. António Marques Garcia
P. António Melo Cardoso
P. António Mendes Rocha
P. António Mendes Silva
P. António Rodrigues Correia
P. António Sobreiro
P. Armando da Silva Vieira
P. Armindo Marques Garcia
P. Artur José Nobre
P. Artur Lemos de Azevedo
P. Aurélio Marques Matos
P. Avelino Manuel Barata Pinto
P. Carlos Alberto Pessoa Paes
P. Carlos Capucho
P. Carlos Fernando Póvoa Alves
Diácono Carlos José Margaça Veiga
P. Carlos Leonel Pereira dos Santos
P. David de Pinho Esteves
P. Diamantino Henriques Marques
P. Domingos José Luís Morais
P. Elias Ferreira da Costa
P. Ernesto Arantes Rodrigues da Silva
P. Fernando António Tomás de Oliveira
P. Fernando Augusto Mendes Gonçalves
P. Fernando Campos da Silva
Diácono Fernando Matos Oliveira
P. Fernando da Piedade Melro
P. Fernando Ferreira Belo
P. Francisco de Jesus Graça
P. Francisco Escudeiro
P. Francisco Júlio Amorim Fanhais
P. Helder Veríssimo Franco
P. Henrique de Noronha Galvão
P. Henrique Pietra Torres
P. Herculano de Brito Martins
P. Hermenegildo Major Duarte
P. Ismael Nabais Gonçalves
P. Jacinto Gonçalves Pedro
P. Jaime da Silva
P. João António de Sousa
P. João Baptista Bragança Fernandes
P. João Fernandes Salvador Morais
P. João José Seabra Diniz
P. João Maria Baltasar Farinha
P. João Sousa Canilho
P. Joaquim da Conceição Duarte
P. Joaquim Ferreira Roque Abrantes
P. Joaquim Luís Batalha
P. Joaquim Rebelo dos Santos
P. José Augusto Pereira
P. José Carlos da Silva Sousa
P. José do Carmo Vicente
P. José dos Santos Bernardo Gonçalves
P. José Fialho Feliciano
P. José Gonçalves Mendes
P. José Maria Henriques
P. José Mendes Serrazina
P. José Miranda Magalhães
P. José Rodrigues Frade
P. José Rodrigues Paula
P. Júlio Pereira Ambrósio
P. Luís de Azevedo Mafra
P. Luís Filipe C. Gualdino
P. Luís Manuel Vítor dos Santos Moita
P. Manuel Álvaro da Silva Quintas
P. Manuel Alves
P. Manuel Aníbal Mota Sousa
P. Manuel Bernardo Nobre Soares
P. Manuel das Neves Afonso
P. Manuel Francisco Borges
P. Manuel Frango de Sousa
P. Manuel Luís
P. Manuel Martins
P. Manuel Tiago Monteiro Martins
P. Manuel Vieira
P. Manuel Vieira Felicidade
P. Manuel Vitorino da Silva Moreira Fernandes
P. Maximino Salvador
P. Orlando Leitão
P. Paulo da Trindade Ferreira
P. Ricardo Gameiro Lopes
P. Rodrigo Gouveia de Palma
P. Victor Manuel Casqueira Gualdino
P. Zacarias dos Santos Nascimento

16.4.07

Maria Natália Duarte Silva Teotónio Pereira (1930 - 1971)

Durante a preparação do meu livro, recolhi alguns documentos que acabei por não publicar, ou porque me não me pareceram adequados ou, pura e simplesmente, por critérios de razoabilidade quanto ao volume dos Anexos.

É o caso deste texto preparado por Nuno Teotónio Pereira para um colóquio no Museu da República e da Resistência, que teve lugar em 1996.

«1 - Convertida ao catolicismo já na idade madura, não suportou a flagrante contradição entre as solenes e sistemáticas declarações dos políticos do Estado Novo, e da grande maioria dos bispos, em prol da civilização cristã, e a traição permanente às exigências evangélicas, praticadas pela ditadura. Permanentemente revoltada contra a censura, as prisões arbitrárias, a tortura sobre os presos políticos, a violação dos mais elementares direitos da pessoa, a mentira instalada e a injustiça da guerra colonial, a sua luta não conheceu descanso, pois não chegou a ver o 25 de Abril. Pela força das suas convicções, pela coragem e pela determinação que punha em tudo em que se empenhava, pode dizer-se que foi a alma de muitas da actividades contra o regime desenvolvidas nos meios católicos desde a campanha de Humberto Delgado até à sua morte. E fê-lo sempre com um grande sentido de trabalho em comum, suscitando colaborações e entusiasmos.

2 - Entre essas actividades, podem destacar-se:
· o jornal clandestino Direito à Informação, policopiado, de que foram publicados dezoito números de 1963 a 1969;
· a vigília de S. Domingos, com a ocupação da igreja para um debate sobre a guerra colonial, durante toda a madrugada do 1º de Janeiro de 1969;
· o jornal Igreja Presente, impresso em Madrid, passado clandestinamente na fronteira do Caia e depois distribuído pelo país, quando da censura imposta à Imprensa sobre a viagem de Paulo VI à Índia;
· o Manifesto do 101, quando da farsa eleitoral de 1965, que bateu à máquina e para o qual se empenhou em angariar assinaturas;
· a Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos , da qual foi, juntamente com Maria Eugénia Varela Gomes e Cecília Areosa Feio, uma das impulsionadoras;
· os cadernos GEDOC, publicados pelo Pe. Felicidade Alves também clandestinamente;
· os Sete Cadernos sobre a guerra colonial, que passou integralmente à máquina em 1970, publicados depois do 25 de Abril pela editora Afrontamento com o título Colonialismo e Lutas e Libertação, e de que foram distribuídos os primeiros exemplares quando da sua morte.


3 - No meio destas actividades, cultivou em alto grau as relações humanas e de solidariedade, através de contactos estreitos e frequentes com perseguidos pela PIDE ou pelo Patriarcado, nomeadamente padres católicos, entre os quais:
· D. António Ferreira Gomes, bispo do Porto, visitado por duas vezes no exílio, em Lourdes e em Alba de Tormes;
· Pe. Joaquim Pinto de Andrade e restantes padres angolanos deportados para Portugal, entre os quais o futuro cardeal de Luanda Alexandre Nascimento;
· Pe. Adriano Botelho, pároco e Alcântara e de S. João de Brito, exilado para a Patagónia pelo Cardeal Cerejeira;
· Pe. António Jorge Martins, obrigado a ir estudar para França pelo mesmo cardeal;
· Pe. Abel Varzim, visitado no seu desterro, na aldeia natal de Cristelo, pouco antes da sua morte; · Pe. Alberto Neto, visitado quando esteve iminente a sua ida compulsiva para o estrangeiro, felizmente não concretizada;
· Pe. Mário de Oliveira, visitado na sua paróquia de Macieira da Lixa, preso por duas vezes e julgado em Tribunal Plenário;
· Pe. José da Felicidade Alves, demitido de pároco dos Jerónimos e impulsionador dos cadernos GEDOC.


4 - Ao longo desses anos de luta, empenhava-se com a maior dedicação à resolução dos problemas familiares, à educação dos filhos e ao cultivo das amizades. Foi uma Mulher, uma Mãe e uma Amiga exemplar, não se poupando a esforços e a sacrifícios, a despeito da sua precária saúde, e dando-se inteiramente a quem precisava do seu apoio ou do seu conselho.
Organizou a publicação de uma colecção de livros para a juventude, em colaboração com Sophia de Mello Breyner e Madalena Ferin – Colecção Novo Mundo – de que foram publicados dez títulos.
Poetisa de rara sensibilidade, publicou o livro de poemas Mão Aberta. Colaborou com um grupo de jovens da JEC na revista Clube 21.
Em sua memória, foi publicado o livro Cada Pessoa Traz em Si Uma Vida, pela editora Afrontamento, há muito esgotado e no qual foram reunidos textos da sua autoria e numerosos e eloquentes testemunhos de pessoas com quem trabalhou ou que foram tocadas pelo seu exemplo».



15.4.07

Aniversário nas «Brumas»





A M. da Conceição Moita (Xexão para os amigos), personagem incontornável das «Brumas», fez 70 anos - pretexto para um almoço muito agradável, nada brumoso e cheio de excelentes memórias.




Com as companheiras de cela em Caxias: Fátima Fonseca Ribeiro e M. José Campos

Com Nuno Teotónio Pereira e com Francisco Fanhais













Com amigas de juventude, da União Noelista: Joana Veloso, Joana Lopes, M.Cândida Arruela, Fátima Neuparth e Olga Pinheiro

Cantata da Paz

«A passagem do ano de 1968 para 1969 foi marcada por um acontecimento de forte impacto. Depois de uma missa, celebrada pelo Cardeal Patriarca na Igreja de S. Domingos em Lisboa para assinalar o Dia Mundial da Paz, representantes de muitas dezenas de pessoas informaram­‑no de que permaneceriam em vigília na igreja durante toda a noite. Acusaram os bispos portugueses de revelarem "mais uma vez a realidade do compromisso político da Igreja frente ao Estado", em nota pastoral datada de 13 de Dezembro, na qual convidavam os católicos a participarem nas iniciativas de celebração do Dia da Paz e se referiam aos "povos ultramarinos que integram a Nação Portuguesa". Os promotores da vigília pretenderam, nomeadamente, "assumir publicamente, como cristãos, um compromisso de procura efectiva da Paz frente à guerra de África", que disseram não poder "desconhecer, camuflar ou silenciar"». Uma "Cantata da Paz", com versos de Sophia de Mello Breyner e música de Francisco Fernandes – Vemos, ouvimos e lemos –, ficaria para sempre associada a este evento» (Entre as Brumas da Memória..., p. 133).

Divulgo hoje a letra dessa Cantata.


Vemos, ouvimos e lemos
Não podemos ignorar

Nós, o Povo de Deus,
Reunidos imploramos
A graça da Paz .

Vemos, ouvimos e lemos
Relatórios da fome,
O caminho da injustiça,
A linguagem do terror.

A bomba de Hisoshima,
Vergonha e todos nós,
Reduziu a cinza
A carne das crianças.

O corpo humano foi
Queimado em Buchenwald.

Os países inventam,
A máquina produz
Bombas e prisões,
Perfeitas sujeições.

E no terceiro mundo,
Nos campos e na rua,
A fome continua.