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23.8.08

Raposas em vias de extinção?











Li e reli uma notícia do Expresso de hoje, segundo a qual um aluno passou do 6º para o 7º ano tendo chumbando a oito das nove disciplinas curriculares (só terá passado a Educação Física). Julgo ter percebido que a ideia é que seja chamado para um CEF (Centro de Educação-Formação), «onde poderá adquirir conhecimentos técnicos que lhe servirão para a vida», embora não exista qualquer garantia de que tal venha a acontecer.

Quase todas as pessoas que se pronunciaram parecem estar de acordo com o princípio, desde o Conselho Directivo, a muitos pais e professores. O secretário de Estado diz que chumbar alunos, em casos como estes, é «mandá-los para a marginalidade».

Deve estar a escapar-me qualquer coisa, mas ninguém me convence que esta é a única solução possível, muito menos a melhor ou mesmo que ela seja aceitável.

Porque das duas uma: ou o E (de educação) e o F (de formação) que podem recuperar e salvar da marginalidade não pressupõem, de todo, o mínimo de conhecimentos que um aluno adquire até ao 6º ano (e então o aluno em questão deveria poder ir para o tal Centro mesmo chumbando), ou não é o caso e então ele nunca será Educado nem Formado em coisíssima nenhuma.

Fica a pairar uma dúvida inevitável: a maior preocupação é a marginalidade ou são as estatísticas de reprovações?

Crazy



Patsy Cline - Crazy

22.8.08

Blogar em Agosto












Ainda não percebi se estamos em época de saldos ou se já chegaram as novas colecções, mas este espaço anda esquisito.

Ontem devo ter visto a notícia sobre a medalha de ouro de Nelson Évora em mais de vinte blogues. Algum mal para o mundo? Nem pouco mais ou menos: a Costa do Marfim é quase um PALOP e a nação valente voltou a ser imortal e a marchar contra todos os canhões. Mas esta vocação de voluntários da agência Lusa deixa-me sempre perplexa.

Quanto ao resto, escreve-se uma frase quase sem nexo e chovem comentários interessadíssimos, elabora-se um post mais a sério e reina o silêncio. Pequenas questiúnculas transformam-se em questões de honra nas Caixas de Comentários e nem sei se não provocam duelos reais em off.

Se bem me lembro, nunca houve tanta actividade em Agosto e a razão parece óbvia: andam muitos bloggers de PC a tiracolo e com a milagrosa pen no bolso, à caça de esplanadas ou de areais para satisfazer o vício. Nem sempre é fácil, como se vê por um mail que recebi há alguns minutos: «isto é uma chatice, dentro de casa não tenho rede, fora de casa tenho luz a mais». A ASAE descobrirá um dia que se trata de uma actividade perigosa, emissora de radiações com efeitos ligeiramente esquizofrenantes.

21.8.08

Então?

Não há ninguém na blogosfera que diga que o Nelson Évora ganhou uma medalha de ouro?

Bate-me que eu gosto

ADENDA (*)

«Assim, por exemplo, numa situação de violência doméstica, em que o marido agride a mulher ao longo dos anos (...), é possível aquele obter o divórcio independentemente da vontade da vítima de maus tratos.»

Da mensagem do PR que acompanha o veto à lei do divórcio.

(*) Exactamente:
«Na verdade, o veto à nova lei do divórcio é tão simplificador e atém-se tão pouco à lei recusada que mais parece um veto à ideia de divórcio. No país da Europa onde o número de divórcios mais tem aumentado, é uma espécie de divórcio da realidade. E do país.»

20.8.08

«Proletáři všech zemí, odejděte!»

A mensagem com que Cavaco devolveu à Assembleia da República o diploma sobre a lei do divórcio ainda é mais complicada do que a comunicação ao país sobre os Açores. De facto, deve passar-se algo de estranho naquele palácio cor-de-rosa.

Politicamente correcto seria explicar aqui porque é que a direita, o PR e os bispos são péssimos por serem contra a lei do divórcio, mas não estou para aí virada.

À minha volta, conheço muito pouca gente que ainda se case (devo viver num mundo especial...). Há cada vez mais criancinhas de respeitáveis clãs burgueses que dizem, com toda a naturalidade: «Na minha família ninguém se casou». Ouvi isto há uns dias e achei uma delícia.

Agora as meninas que ainda querem vestido branco e flor de laranjeira que aturem o Cavaco, os deputados e o bispo Azevedo. Continuem até a trocar de nome, romanticamente, para terem o apelido do marido (essa então nunca percebi mesmo e não caí nela, nem há trinta e muitos anos).

Claro que sei que não é tão simples assim e que há problemas reais, mas toda esta discussão caseira me pareceu hoje muito pouco interessante. Passei parte do dia a pensar em Praga 1968, a ver filmes com tanques a entrarem na cidade, a ouvir canções de Marta Kubišová.

Enquanto ouvia o Luís Delgado misturar divórcio com manobras eleitorais, não me saíam da cabeça algumas palavras de ordem dos jovens checos do 22 de Agosto:

«Acorda Lenine, que Brezhnev endoideceu»

«Proletáři všech zemí, odejděte!»
(«Proletários de todo o mundo, desapareçam!»)

Estive noutra.

«Prague 1968: La fin d'un rêve»

Peter Heller (realizador), Alemanha, 2008


Hoje, às 20:00, canal ARTE

«Le 20 août 1968, alors que l'intervention soviétique est en cours, Hubert, un étudiant ouest-allemand, arrive en gare de Prague où l'attend Lioubov, sa petite amie ukrainienne. Sur la place Venceslas, devant l'immeuble de la radio-télévision, le couple s'abrite derrière une barricade, mais une balle atteint le jeune homme, le laissant invalide pour le reste de sa vie… Quarante ans plus tard, Lioubov et Hubert se retrouvent à Prague. Dans ce film, le destin douloureux du jeune couple sert de toile de fond pour évoquer la fin de cette période exceptionnelle qui avait fait souffler un vent de liberté sur la Tchécoslovaquie»

Naquele dia fomos todos checoslovacos

Praga - 20/21 de Agosto de 1968



A ler: Praga - luz e sombras em «Caminhos da Memória»

«Pobrezinhos mas olímpicos»

Não perco as crónicas de Manuel António Pina no Jornal de Notícias. Mas esta merece mais do que um simples link e por isso fica aqui na íntegra.

«Afinal, a participação portuguesa nos Jogos Olímpicos não é o fracasso de que se fala e não havia razão para Vicente de Moura se ter demitido. A crer na RTP, parece que "os fatos de banho [da "Speedo"] que levaram Michael Phelps a ganhar oito medalhas de ouro são fabricados em Portugal" e que "a empresa de Paços de Ferreira já recebeu o agradecimento de Phelps".

Assim, feitas as contas, do mesmo modo que a medalha de prata de Vanessa Fernandes foi, como declarou à mesma RTP o pai Venceslau, "uma grande vitória para Perosinho", pelo menos uma das oito medalhas de ouro de Phelps é nossa e constitui uma grande vitória para Paços de Ferreira. Quando a comunicação social portuguesa descobrir que o francês Alain Bernard, medalha de ouro nos 100 metros livres, tem uma "femme de ménage" de Trancoso, e que o jamaicano Usain Bolt é tetraneto de escravos de Angola quando Angola era Portugal, e que a ucraniana Nataliia Dobrynska, medalha ouro no heptatlo, tem um primo imigrado a trabalhar nas obras em Santarém, o orgulho nacional respirará fundo e levantar-se-á hoje de novo o esplendor de Portugal.»


Pobrezinhos mas honrados, contentes com migalhas. Queixinhas também, mas sempre com um olho nos egrégios avós e o outro em D.Sebastião.

18.8.08

Triste Segredo

The Secret foi publicado em 2006, já deu filme e DVD e parece que Oprah contribuiu muito para o seu sucesso (confesso que pouco conheço do programa da dita senhora porque a sua imagem deve provocar um zapping automático no comando da minha TV).

Vi o livro durante meses em tudo o que é escaparate aquém e além fronteiras, de Cacilhas ao Alasca. Dizem-me que já terão sido vendidos doze milhões de exemplares (até acho pouco), 400.000 só em Portugal.

Fiquei mais intrigada ao saber que dois amigos (vá lá, concedo que foram amigas), com lastro cultural e intelectual suficientes para terem juízo, o ofereceram a filhas trintonas em males de amores e de empregos precários. Uma delas manifestou recentemente uma forte indignação acusando-me de pretensiosismo e pseudo-intectualismo pedante por estar a atacar o que desconhecia – o que era totalmente verdade.

Assim sendo, depois de olhar em volta ainda com alguns resquícios de clandestinidades, entalei-o entre duas lombadas dignas e paguei-o, meia envergonhada, numa caixa da FNAC. Nesta casa onde nunca entrou nenhum livro de Margarida Rebelo Pinto, O Segredo tem agora o seu lugar.

Li a introdução, as primeiras trinta páginas, saltei outras tantas, li mais dez e assim por diante, mais ou menos aleatoriamente. Perfeito: nenhuma dificuldade, nenhum malentendido, nenhuma incoerência na prosa explicada por vinte e quatro «professores».

Quem manda é a Lei da Atracção, «que é absoluta e onde não existem erros», e segunda a qual os pensamentos se tornam realidade: os positivos atraem os positivos, as dúvidas multiplicam dúvidas, etc.

Logo a abrir, é-me dito que posso ser, ter ou fazer tudo aquilo que desejo. A única razão pela qual posso não obter o que quero é pensar mais naquilo que não quero.

Aconselham-me para terminar: «Seja feliz agora. Sinta-se bem agora. É a única coisa que precisa de fazer». Prometo que vou tentar.

Não vale a pena citar mais nada. Penso que se trata apenas de mais um dos chamados livros de auto-ajuda. Não dá para rir nem para fazer humor, não só porque causa um aborrecimento mortal, como porque transpira fatalismo e tristeza quando pretende exactamente o contrário.

Mas porquê tanto sucesso quando é tão, mas mesmo tão mau? Só por causa de Oprah? Por falta de ideologias? Sucedâneo das mesmas? Substituto de fés e de esperanças religiosas? De tudo um pouco? Que mundo é este em que vivemos?

Volto a pensar nas minhas amigas que esperam que O Segredo lhes mude as filhas. Algo na história das nossas vidas, que até podem parecer semelhantes, nos separou radicalmente. Não sei quando e nunca saberei porquê.

Loucos à solta, com passagem pelo Júlio de Matos

... da blogosfera para a Rádio.

Com pedidos de desculpa ao Rodrigo porque não o conheço, Pedro e sobretudo Ana: precisam de ajuda?

Podem ouvi-los aqui.

Mais sobre a China

















Em Rue89, três artigos ligeiros mas interessantes (com fotos, vídeos, etc.), que ajudam a «rever alguma da matéria dada».

L'histoire (1/3). Un siècle et demi d'échecs lavés par les JO?

L'histoire (2/3). L'armée française squatte la Cité interdite

L'histoire (3/3). Le maoïsme est-il soluble dans l'olympisme?


P.S. - Ex-maoistas: podem matar saudades musicais nestes sons da Revolução Cultural.

17.8.08

O pensamento do pensador

«Vá lá que este humildemente pediu desculpas e agradeceu as ajudas que teve do comité olímpico português, isto é, do governo português via impostos dos portugueses, mas que não conseguiu. Valha-nos essa atitude digna e não comum para quem foi empregado da construção civil.»

Num blogue denominado «Clube dos Pensadores».

Vale a pena ver quem são os membros do Clube. Mesmo que não fosse responsável pelo blogue, eu tingiria a minha cara de preto (é de propósito) se visse o meu nome associado a afirmações destas – ou ia para a construção civil.

(Allô Manuel Alegre, Ana Gomes, etc., etc.)

Não fui a única a dar pelo pensador.