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20.9.08

«Como miragem que orienta a travessia do deserto»

Rui Bebiano publicou hoje, em A Terceira Noite, o décimo e último post da série «Outubro», que sairá em livro ainda este ano.

Calo-me, limitando-me a transcrever o último parágrafo:

«Todavia, no presente, em cada presente, para muitos dos que esperam por uma salvação materializada na remissão do oprimido, e até que outro marco milenar o substitua, Outubro permanece ainda como sinal sagrado de um desejo e de uma possibilidade. Como miragem que orienta a travessia do deserto. Para quem desta forma alguma coisa espera do mundo e do tempo, o monstro que a sua materialização a dada altura produziu afigura-se apenas como um desvio de percurso, uma pausa antes do retomar da caminhada. Para os outros, que olham para trás apenas na medida do indispensável mas acreditam na aventura do possível, trata-se de uma página incómoda mas virada.»

B.B. King












B.B. King, 83 anos, lançou um novo disco há menos de um mês - One Kind Favor.

«Naturalmente boémio», «marido e divorciado sempre que pôde», «orgulhoso do seu Mississipi».
(Ler no DN.)

Deste seu último disco:
Tomorrow Night

Falemos agora de coisas importantes

19.9.08

Memória Histórica, de um lado e do outro









A questão está longe, muito longe de ser pacífica em Espanha:
«Y mire usted, señor Garzón, maldita la falta que me hace que me entreguen unos cuantos restos óseos que no sabría a ciencia cierta si eran los de mi abuelo y tío. (...)
Dejemos las cosas como están, olvidemos rencores y odios, y dediquémonos a mejorar nuestro futuro con políticas adecuadas y ausencia de demagogias».
(El País)

No extremo oposto:
La élite del franquismo fue la que controló la Transición
«En política el consenso no es lo normal. Lo es el conflicto entre opciones y de ahí la democracia.»
(Recomendo a leitura desta entrevista.)

17.9.08

Prémio Especial Máxima


Para Irene Pimentel,
pelo seu livro A história da PIDE.

Mais um prémio
e mais um abraço também.

Este blogue tem pena do Alasca (1)


Convivências domésticas



Cá por casa, é quase assim.

É só um casamento, senhores!

ADENDA (*)














A AR vai discutir em breve dois projectos, apresentados há quase três anos pelo BE e pelos Verdes, sobre casamento civil entre pessoas do mesmo sexo.

Segundo a imprensa, o PS votará contra, sendo ainda duvidoso que vá sequer dar liberdade de voto aos seus deputados. Aparentemente, só pretende discutir o assunto na próxima legislatura para o incluir no respectivo programa eleitoral e assim «consultar» os portugueses. Leio segunda vez para ter a certeza de que percebi: portanto, pôr no programa eleitoral para consultar o povo (viu-se no que deram as «consultas» para esta legislatura...)

Não estou a defender nenhum referendo, muito pelo contrário. Estou é a lamentar que se continue a usar desculpas esfarrapadas para se adiar e adiar e tornar a adiar a vida deste país! É por estas e por outras que estamos na cauda de quase tudo, sem sequer darmos uma olhadela para o que se passa com nuestros hermanos. Apenas porque sim, por falta de audácia, porque somos – e temo que nunca deixemos de ser – o país em miniatura de O’Neill, a casa portuguesa onde basta poucochinho para alegrar uma existência singela.

(*) Exactamente

16.9.08

Natália Teotónio Pereira

«Que força é essa?»
Aqui ao lado, mais uma biografia.

Sobretudo a partir dos primeiros anos da década de 60, foi uma das grandes impulsionadoras de grande parte das iniciativas dos chamados «católicos progressistas»
«Na linha da frente ou na retaguarda, toda a gente sabia – mesmo quando não podia ser dito – que a Natália estava envolvida.»

O discurso de MFL, ainda

Um dos efeitos de a senhora falar pouco é que os ecos do que diz perduram.

João Miguel Tavares, no DN de hoje:

«Não sei se é por os speech writers estarem de férias ou por as eleições americanas aumentarem a exigência, a verdade é que estive para enviar uma mensagem a Ferreira Leite com o meu número de telemóvel. Eu não percebo muito de política, mas acho que podia contribuir modestamente para lhe endireitar o português. Críticas ao Governo por não mobilizar as pessoas para uma "nova atitude de iniciativa" (hein?) ou por "confundir reacção com concepção" (como?) eram fáceis de evitar. Já para não falar na "capacidade de penetração das polícias".»
(O relevo é meu)

15.9.08

Multiprogramação

Melhor do que num Spa: ouvir em diferido o Nuno no Melancómico, enquanto se vê o telejornal sem som (melhor ainda quando começam as «Páginas Soltas» de António Vitorino) e se escreve este post - garanto que resulta.

E é claro que todos os pretextos são bons para voltar a ouvir Jacques Brel.

Um silêncio esquivo













O suplemento P2 do Público de hoje traz uma reportagem com testemunhos impressionantes de parentes de vítimas da Guerra Civil de Espanha, activamente empenhados na procura do que sobra dos corpos dos seus antepassados.

Em nome da chamado «Pacto de Silêncio», com que se pretendeu evitar reabrir feridas, não existiu em Espanha, durante mais de vinte e cinco anos de democracia, uma verdadeira investigação oficial do número de executados e de desaparecidos.

Mas há anos que historiadores e familiares arregaçaram as mangas, a Lei da Memória Histórica que entrou em vigor em Dezembro de 2007 veio ajudar e é do conhecimento geral a intervenção do juiz Baltasar Garzón no sentido de sentar o franquismo no banco dos réus. Hoje é toda a Espanha que está abalada pela descoberta progressiva da dimensão real da tragédia.

Um artigo publicado ontem em El País fala de tudo isto, mas de mais alguma coisa (também referida, de passagem, no P2): do medo que ainda persiste. Do medo latente que ainda «não descolou da pele» dos velhos que baixam inconscientemente a voz quando se referem aos acontecimentos, que está «incrustado na medula». Que serviu, durante décadas, como «filtro» que ocultou a história. Que espalhou um «silêncio esquivo» - que talvez agora, só agora, comece a desaparecer.

14.9.08

O 25 de Abril pelos olhos de Chávez

Durante uma reunião com Manuel Pinho na Venezuela, Hugo Chávez terá referido a «Revolução dos Cravos, onde o povo português conseguiu lutar contra a tirania em Portugal, do ditador António de Oliveira Salazar», comparando-a à «luta actual que têm os povos latino-americanos contra o Imperialismo».

Ideia no mínimo original. Mas o que eu gostava mesmo de saber era se Manuel Pinho tem alguma opinião sobre este assunto - ou sobre outro qualquer, já agora.
iol

Tragédias exemplares










Em Espanha, os colégios privados católicos têm aulas obrigatórias para adolescentes de 14 e 15 anos, nas quais o manual adoptado compara o aborto ao Holocausto, à bomba de Hisoshima e às grandes guerras do século XX.

A inseminação artificial é considerada condenável, mesmo dentro de um casal «clássico», porque «que todo ser humano tiene derecho a ser concebido, llevado en las entrañas (...), es indigno ser tratado como un objeto que se manipula por un extraño en un laboratorio (...).La persona humana sólo puede ser fruto del acto conyugal específico del amor entre los esposos.»

Quanto ao divórcio: «Qué hacer entonces en caso de desavenencias graves?(...) Hay que seguir esforzándose. (...). La diferencia entre una tragedia sin divorcio y otra con divorcio consiste en que dentro del matrimonio la tragedia puede ser noble y ejemplar».

Nem o professor Cavaco ousaria ir tão longe!

El País