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15.11.08

João Martins Pereira

Desde ontem que estou para escrever sobre a morte de João Martins Pereira, mas tantos já o fizeram que me dispenso de referir mais detalhes ou de tecer mais elogios - merecidíssimos por muitos que sejam.

Conheci-o relativamente bem, não sei quando, nem sei como, certamente na década de 60. Em grupos que se faziam e se desfaziam, em alianças de esquerdas várias que ainda se degladiavam pouco, conspiravam muito, discutiam noites inteiras dentro de nuvens de fumo e se divertiam o mais que podiam (e que não era pouco).

Já em pleno PREC, numa das muitas manifestações que tinha acabado de sair do Terreiro do Paço, não sei se a caminho de S. Bento, se do República ou de um outro qualquer pólo de contestação, eu gritava, como toda a gente à minha volta, um slogan que falava de camponeses e de operários. Alguém, parado à beira do passeio, travou-me o passo, deu-me um abraço e disse-me: «Ah! grande camponesa!». Era o João Martins Pereira.

Lembrei-me da ironia daquele abraço, a propósito de um texto seu, publicado em 1980 na Gazeta do Mês, e que foi hoje recordado:

«A condição feminina é-me exterior, como o é, num outro plano, a condição operária, a mim, intelectual de extracção burguesa. Libertar-me do complexo de “não ser operário” não é distanciar-me do problema da exploração.»

Sempre lúcido e frontal, com uma ironia subtil, acutilante, um tanto ácida. Era assim o João.

Um texto de Mia Couto sobre Obama


E se Obama fosse africano? (*)

Os africanos rejubilaram com a vitória de Obama. Eu fui um deles. Depois de uma noite em claro, na irrealidade da penumbra da madrugada, as lágrimas corriam-me quando ele pronunciou o discurso de vencedor. Nesse momento, eu era também um vencedor. A mesma felicidade me atravessara quando Nelson Mandela foi libertado e o novo estadista sul-africano consolidava um caminho de dignificação de África.

Na noite de 5 de Novembro, o novo presidente norte-americano não era apenas um homem que falava. Era a sufocada voz da esperança que se reerguia, liberta, dentro de nós. Meu coração tinha votado, mesmo sem permissão: habituado a pedir pouco, eu festejava uma vitória sem dimensões. Ao sair à rua, a minha cidade se havia deslocado para Chicago, negros e brancos respirando comungando de uma mesma surpresa feliz. Porque a vitória de Obama não foi a de uma raça sobre outra: sem a participação massiva dos americanos de todas as raças (incluindo a da maioria branca) os Estados Unidos da América não nos entregariam motivo para festejarmos.

Nos dias seguintes, fui colhendo as reacções eufóricas dos mais diversos recantos do nosso continente. Pessoas anónimas, cidadãos comuns querem testemunhar a sua felicidade. Ao mesmo tempo fui tomando nota, com algumas reservas, das mensagens solidárias de dirigentes africanos. Quase todos chamavam Obama de "nosso irmão". E pensei: estarão todos esses dirigentes sendo sinceros? Será Barack Obama familiar de tanta gente politicamente tão diversa? Tenho dúvidas. Na pressa de ver preconceitos somente nos outros, não somos capazes de ver os nossos próprios racismos e xenofobias. Na pressa de condenar o Ocidente, esquecemo-nos de aceitar as lições que nos chegam desse outro lado do mundo.

Foi então que me chegou às mãos um texto de um escritor camaronês, Patrice Nganang, intitulado: "E se Obama fosse camaronês?". As questões que o meu colega dos Camarões levantava sugeriram-me perguntas diversas, formuladas agora em redor da seguinte hipótese: e se Obama fosse africano e concorresse à presidência num país africano? São estas perguntas que gostaria de explorar neste texto.

E se Obama fosse africano e candidato a uma presidência africana?

1. Se Obama fosse africano, um seu concorrente (um qualquer George Bush das Áfricas) inventaria mudanças na Constituição para prolongar o seu mandato para além do previsto. E o nosso Obama teria que esperar mais uns anos para voltar a candidatar-se. A espera poderia ser longa, se tomarmos em conta a permanência de um mesmo presidente no poder em África. Uns 41 anos no Gabão, 39 na Líbia, 28 no Zimbabwe, 28 na Guiné Equatorial, 28 em Angola, 27 no Egipto, 26 nos Camarões. E por aí fora, perfazendo uma quinzena de presidentes que governam há mais de 20 anos consecutivos no continente. Mugabe terá 90 anos quando terminar o mandato para o qual se impôs acima do veredicto popular.

2. Se Obama fosse africano, o mais provável era que, sendo um candidato do partido da oposição, não teria espaço para fazer campanha. Far-Ihe-iam como, por exemplo, no Zimbabwe ou nos Camarões: seria agredido fisicamente, seria preso consecutivamente, ser-Ihe-ia retirado o passaporte. Os Bushs de África não toleram opositores, não toleram a democracia.

3. Se Obama fosse africano, não seria sequer elegível em grande parte dos países porque as elites no poder inventaram leis restritivas que fecham as portas da presidência a filhos de estrangeiros e a descendentes de imigrantes. O nacionalista zambiano Kenneth Kaunda está sendo questionado, no seu próprio país, como filho de malawianos. Convenientemente "descobriram" que o homem que conduziu a Zâmbia à independência e governou por mais de 25 anos era, afinal, filho de malawianos e durante todo esse tempo tinha governado 'ilegalmente". Preso por alegadas intenções golpistas, o nosso Kenneth Kaunda (que dá nome a uma das mais nobres avenidas de Maputo) será interdito de fazer política e assim, o regime vigente, se verá livre de um opositor.

4. Sejamos claros: Obama é negro nos Estados Unidos. Em África ele é mulato. Se Obama fosse africano, veria a sua raça atirada contra o seu próprio rosto. Não que a cor da pele fosse importante para os povos que esperam ver nos seus líderes competência e trabalho sério. Mas as elites predadoras fariam campanha contra alguém que designariam por um "não autêntico africano". O mesmo irmão negro que hoje é saudado como novo Presidente americano seria vilipendiado em casa como sendo representante dos "outros", dos de outra raça, de outra bandeira (ou de nenhuma bandeira?).

5. Se fosse africano, o nosso "irmão" teria que dar muita explicação aos moralistas de serviço quando pensasse em incluir no discurso de agradecimento o apoio que recebeu dos homossexuais. Pecado mortal para os advogados da chamada "pureza africana". Para estes moralistas – tantas vezes no poder, tantas vezes com poder - a homossexualidade é um inaceitável vício mortal que é exterior a África e aos africanos.

6. Se ganhasse as eleições, Obama teria provavelmente que sentar-se à mesa de negociações e partilhar o poder com o derrotado, num processo negocial degradante que mostra que, em certos países africanos, o perdedor pode negociar aquilo que parece sagrado - a vontade do povo expressa nos votos. Nesta altura, estaria Barack Obama sentado numa mesa com um qualquer Bush em infinitas rondas negociais com mediadores africanos que nos ensinam que nos devemos contentar com as migalhas dos processos eleitorais que não correm a favor dos ditadores.

Inconclusivas conclusões

Fique claro: existem excepções neste quadro generalista. Sabemos todos de que excepções estamos falando e nós mesmos moçambicanos, fomos capazes de construir uma dessas condições à parte.

Fique igualmente claro: todos estes entraves a um Obama africano não seriam impostos pelo povo, mas pelos donos do poder, por elites que fazem da governação fonte de enriquecimento sem escrúpulos.

A verdade é que Obama não é africano. A verdade é que os africanos - as pessoas simples e os trabalhadores anónimos - festejaram com toda a alma a vitória americana de Obama. Mas não creio que os ditadores e corruptos de África tenham o direito de se fazerem convidados para esta festa.

Porque a alegria que milhões de africanos experimentaram no dia 5 de Novembro nascia de eles investirem em Obama exactamente o oposto daquilo que conheciam da sua experiência com os seus próprios dirigentes. Por muito que nos custe admitir, apenas uma minoria de estados africanos conhecem ou conheceram dirigentes preocupados com o bem público.

No mesmo dia em que Obama confirmava a condição de vencedor, os noticiários internacionais abarrotavam de notícias terríveis sobre África. No mesmo dia da vitória da maioria norte-americana, África continuava sendo derrotada por guerras, má gestão, ambição desmesurada de políticos gananciosos. Depois de terem morto a democracia, esses políticos estão matando a própria política. Resta a guerra, em alguns casos. Outros, a desistência e o cinismo.

Só há um modo verdadeiro de celebrar Obama nos países africanos: é lutar para que mais bandeiras de esperança possam nascer aqui, no nosso continente. É lutar para que Obamas africanos possam também vencer. E nós, africanos de todas as etnias e raças, vencermos com esses Obamas e celebrarmos em nossa casa aquilo que agora festejamos em casa alheia.

(*) Recebido por mail. Publicado no jornal SAVANA, 14 de Novembro de 2008.

P.S. - Já depois de publicar este post, vi que o mesmo texto está também em A Terceira Noite.

Uma velha guerra

Mac contra PC, em publicidade bem agressiva.


14.11.08

Les emmerdes


Bloggers assexuadas?

ADENDA (*)

Ainda pensei passar pelo IV Encontro de Blogues, em parte para ouvir o que se diria, como resultado de um estudo, sobre Os bloggers têm sexo? Contributo para o mapeamento da participação feminina na blogosfera. De vez em quando, fazem-me umas perguntas sobre o tema e nunca sei muito bem o que opinar.

Mas o DN traz hoje o que parece ser um resumo do que lá vai ser dito e dou-me por satisfeita. Se o parágrafo que se segue corresponde a uma das conclusões do referido estudo, estamos conevrsado(a)s:

«Os homens participam na blogosfera por causa da cidadania, intervenção, debate e da troca de conhecimentos. Elas referem a apresentação de pontos de vista e actualizam os blogues com menos frequência, sendo que nenhuma o faz diariamente.»

Shyz, Ana, Jonas e tantas outras, esqueçam a cidadania e o debate, nunca, mas nunca escrevam todos os dias e, sobretudo, apresentem os vossos «pontos de vista» - vá lá saber-se sobre o quê, mas pode ser sobre receitas de cozinha ou sobre o guarda-roupa da senhora Obama.


(*) A conversa continua
aqui perto.

13.11.08

Comboio da liberdade











ADENDA (*)

Recordando que, há um século e meio, a ideia de ter um afro-americano como presidente não era apenas utópica mas impensável, o Público (Espanha) traz hoje um interessante artigo sobre as origens do movimento abolicionista nos Estados Unidos.

«A finales del siglo XVIII comenzaron a organizarse fugas en tren de afroamericanos que escapaban de las plantaciones del Sur para alcanzar los estados del Norte y Canadá. La estructura se afianzó y empezó a conocerse, desde 1831, como El ferrocarril subterráneo (The Underground Railroad).»


(*) Contributo de Luís Bonifácio:
Existe um página especial sobre o "Underground railway".

Portanto, correu tudo bem?



Manuela Bernardino citada no Avante! de hoje:


«O que marcou de forma indelével o século XX foi a “possibilidade concreta de transformar o sonho milenar por que lutaram gerações e gerações de homens, mulheres e jovens em realidade”».

12.11.08

Madame la Marquise

No programa Vírus, hoje, no RCP, Pacheco Pereira comentou esta magnífica canção, referindo a seu respeito a Lei de Murphy ( se algo pode correr mal, com certeza que corre).



Não consegui deixar de pensar em Maria de Lurdes Rodrigues.

Grandes memórias

Esta tinha-me escapado. Em recente entrevista ao DN, Sócrates terá afirmado, a propósito da eleição de Kennedy:

«Lembro-me do debate que houve na América quando, pela primeira vez, um católico se candidatou a presidente (…) Lembro-me bem do que isso significou».

Ora Manuel António Pina, no JN de hoje, recorda que isto se passou em 1960, quando Sócrates tinha 3 anos.

(MAP refere também o episódio que já relatei das recordações de Santana Lopes quanto à compra diária de A Bola, quando tinha 8 anos e aquele jornal estava longe de aparecer todos os dias nas bancas.)

Só nos saem amnésicos – ou grandes criativos.

11.11.08

Há 90 anos, fim da 1ª Guerra Mundial

Pinte-se a crise


«Compram-se mais bens inferiores, porque já não se tem acesso a bens mais caros. Mais pão, quando menos salame; mais bâton porque se gasta menos com roupa.»
Ferreira Fernandes

Segundo o NY Times, espera-se que a venda de bâton aumente 40%.
Curioso, mas talvez saudável. Ou uma variante de «Quem não tem cão, caça com gato».

«Biografia de um Inspector da PIDE» - Lançamento










Teve lugar, no passado dia 6, a sessão de lançamento do livro de Irene Pimentel, que tanta polémica gerou neste blogue e não só.

A apresentação esteve a cargo de José Pedro Castanheira, jornalista do Expresso, e o texto que então leu foi hoje publicado no Caminhos da Memória. Quem não teve a oportunidade de ler a obra, tem à sua disposição um bom resumo da mesma, bem como um certo número de reflexões que ela suscita.

Irene Flunser Pimentel, Biografia de um inspector da PIDE. Fernando Gouveia e o Partido Comunista Português, A Esfera dos Livros, 2008, 396 p.

10.11.08

As vozes que não se calaram

Miriam Makeba, essa grande senhora da luta anti-apartheid, morreu ontem com 76 anos. No currículo, trinta e um anos de exílio, que só terminaram com a libertação de Nelson Mandela. Ainda viveu o suficiente para festejar a vitória de um outro negro, o ponto final numa outra forma de apartheid.

Mesmo quem não se lembre do nome, recordará a canção.


Aí estão eles: os concertos para violino de Chopin

Na Pública deste Sábado, uma longa entrevista de Santana Lopes. Mesmo lida em diagonal, dá para matar saudades.

Um exemplo? Aos oito anos de idade, saía de casa todos os dias, às 8 horas da manhã, para comprar o Diário de Notícias e A Bola! Até eu, pouco dada a futebóis, sei que A Bola só passou a sair diariamente nos anos 90 (1995, mais precisamente). Julgo que Santana Lopes não terá nascido tão tarde assim (embora pareça, isso é verdade).

Mas a minha preferência vai para esta resposta, dada a propósito de um convite que terá recebido para participar numa reunião de estudantes marxistas-leninistas (!...):
- Tinha simpatia pelos maoístas?
- Não. Era uma convergência táctica. Nunca me considerei maoísta. Mas lia tudo. Os escritos de Mao Tse-tung, Engels, Estaline.