2.5.09

No país dos budas felizes











(Montanha de Mármore, Hoi An, Vietname)

O reino do papa é (também) deste mundo
















Em Espanha, a Izquierda Unida e a Iniciativa per Catalunya pedem ao Congresso dos Deputados que considere as recentes afirmações de Bento XVI sobre o uso do preservativo como «um atentado inquestionável contra a saúde pública». Sublinham, nomeadamente, que elas interferem com a aplicação do programa de cooperação internacional com países africanos, nos quais a Espanha se envolve muito activamente.
Está lançada uma nova polémica de desfecho imprevisível, com os apoiantes da proposta a defenderem que não está em causa qualquer hipótese de conflito diplomático porque não se trata nem de protestar contra as afirmações de um chefe de Estado (mas sim «de um cidadão que defende posições contrárias à vida»), nem de condenar a Igreja porque o Congresso representa os cidadãos espanhóis e não as suas religiões.
Definições e distinções subtis e de aplicação complexa, sem dúvida, mas que se impõem. O cidadão Ratzinger não fala apenas para os católicos mas também para o mundo – e é legítimo que o faça porque pretende influenciá-lo com a força da sua posição e das suas crenças. O «mundo» e os seus representantes devem reagir quando se sentem atingidos e ameaçados nos seus princípios e nos seus avanços civilizacionais.

(Fonte)

1.5.09

1º de Maio - a última proibição











Um post que publiquei ontem levou-me a um outro que retomo com algumas modificações. Quando se festeja pela 36ª vez em liberdade o Dia do Trabalhador, e quando muitos – e bem – nunca deixarão de ter como referência as imagens de 74, talvez valha a pena recordar o que se passou um ano antes, quando nada, para além da esperança, levaria a pensar que era a última vez que se vivia esta data com ritual de prisões e de fugas à polícia.

Cito uma circular da CNSPP (Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos), de 9/5/1973:
«Tem-se verificado, nas últimas semanas, um acentuado agravamento da repressão política no nosso país: com o pretexto de impedir quaisquer manifestações públicas por ocasião do 1.º de Maio, procedeu a Direcção-Geral de Segurança à prisão indiscriminada de um elevado número de pessoas, em várias localidades e pertencendo aos mais diversos sectores de actividade profissional. Só durante o período que decorreu de 7 de Abril a 7 de Maio tem a CNSPP conhecimento de terem sido presas 91 pessoas, cujos elementos de identificação se possuem já. Sabe-se, no entanto, que muitas outras dezenas de pessoas foram detidas (...)
As forças policiais desencadearam, nos primeiros dias deste mês, uma desusada onda de violência. No 1.° de Maio, as zonas centrais da cidade de Lisboa e Porto foram teatro de grandes concentrações por parte das forças das diversas corporações policias e parapoliciais (com agentes fardados e à paisana). No Rossio e em toda a área circundante essa presença não se limitou ao papel de intimidação ou de repressão, mas adquiriu características de verdadeira agressão: espancamentos brutais e indiscriminados, grande número de feridos, dezenas de prisões. Dessa agressão foram vítimas muitos trabalhadores, assim como estudantes e outras pessoas que se limitavam a passar pelo local».

Na madrugada desse 1º de Maio de 1973, as Brigadas Revolucionários fizeram explodir engenhos que destruíram dois pisos do Ministério das Corporações, na Praça de Londres em Lisboa. Na véspera, tinham distribuído panfletos convocando para as manifestações do 1º de Maio, em cerca de 200 localidades, através do rebentamento de petardos.
Durante a tarde, foram recebidos telefonemas com falsos alertas de bomba em várias grandes empresas de Lisboa. Veio a saber-se depois que se tratara também de uma iniciativa das Brigadas Revolucionárias, cujo objectivo era «libertar» mais cedo os trabalhadores para que pudessem participar na manifestação.

Assim se fintava o poder como se podia, sem poder sonhar, nem com muita imaginação, com o que viria finalmente a acontecer - um ano mais tarde.

30.4.09

Sala com vista

A minha - e já dura há um mês.


Não, não estamos em 30 de Abril de 1973













Leio no Avante! de hoje:
«Em Portugal, a política de direita, que se instalou, golpe a golpe, após o 25 de Novembro de 1975 (...) veio destruindo todos os grandes avanços e conquistas democráticas iniciadas em 25 de Abril de 1974 e cerrando todas as portas que Abril abriu ao viver colectivo dos portugueses (O realce é meu.)
Portanto, para o autor do texto, estamos praticamente no 24 de Abril de 74 – é isso? Confundir tudo com tudo e usar este tipo de linguagem é fazer objectivamente o jogo da direita que apregoa «mordaças» a torto e a direito. É não ter qualquer sentido do passado, é usar mal e demagogicamente a história e a memória.
30 de Abril de 2009 tem pouco a ver com a mesma data em 1973. Nesse dia, estavam presas dezenas de pessoas (quase 100, se bem me lembro) que a PIDE tinha ido buscar a casa para que não preparassem manifestações (clandestinas). Quanto ao que se passou no 1º de Maio desse ano, passo a citar:
«Em Lisboa, numerosos trabalhadores se concentraram na Baixa a partir das 19:30, sendo brutalmente carregados pela PSP à bastonada, soco, pontapé, do que resultaram dezenas de feridos que tiveram de receber tratamento no hospital, sendo feitas várias prisões.» O resto pode ser lido no Avante! de Maio de 1973 - número clandestino, evidentemente.
Não sei se o autor do texto assistiu a isto. Eu estava no Rossio.

29.4.09

O 25 de Abril e a acção dos militares espanhóis

video

Informação detalhada nos Caminhos da Memória.

Não é a Remax, mas podia ser

O Pedro Vieira (Irmão Lúcia) precisa de vender um andar, pede ajuda blogosférica e até criou um blogue para o efeito (curiosamente, sem nenhum boneco até à data).

E o porco?













«Numa sequência acho que de "Pierrot, le fou", Jean-Paul Belmondo queixa-se a Anna Karina de que os seus olhos, os seus ouvidos e todos os seus sentidos estão em autogestão (a expressão é minha, não de Pierrot-Ferdinand), cada um sentindo para seu lado. Ocorre-me sempre essa cena quando vejo os arautos do relativismo multicultural "condenar" por um lado e "compreender" por outro (assim a modos que Diderot: "Ah, madame!, que la morale des aveugles est différente de la notre!") "especificidades culturais" como a mutilação genital feminina nos países islâmicos ou os não-direitos do homem na China. A mim (mas eu sou um primário), quando algo me revolta o estômago revolta-me também a razão. É assim que certas "especificidades religiosas" me fazem sentir (ao meu corpo todo) dentro de uma peça de Ionesco. E, personagem eu próprio, ouvindo na TV um ministro israelita reclamar que não se diga "gripe suína" porque o porco é uma criatura impura para judeus e muçulmanos, dá-me para o multiculturalismo e para tentar ver a coisa também do ponto de vista do porco: "E o porco, que pensará o porco do assunto?"»

Manuel António Pina, hoje no JN.

João Ubaldo Ribeiro fala com Nelson de Matos

... sobre a recente proibição da venda do seu livro A Casa dos Budas Ditosos nas lojas do grupo Auchan em Portugal.
«Pode dizer aos portugueses que eles não têm nada com isso» – mas coramos um pouco, apesar de tudo...

Vídeo aqui.

28.4.09

Do outro lado do mesmo mundo
















Durante a minha recente estadia no Cambodja, escrevi, a propósito de uma viagem de barco no lago Tonle Sap:
À beira de uma estrada e de um canal, e sobretudo num extensíssimo lago, muitos milhares de pessoas vivem numa situação absolutamente inimaginável. Em barracas sobre estacas ou flutuantes, acumulam-se famílias cheias de filhos e até de animais, sem quaisquer condições de higiene.
Deixo hoje aqui algumas fotos que estão longe de poder dar uma pálida ideia da realidade, talvez melhor apreendida através deste pequeno vídeo.



Vi pessoas beberem a água do lago e é com ela que se cozinha e que se toma banho. Não consegui fotografar, mas também vi, um pequeno curral flutuante com quatro porcos, amarrado à um dos lados de uma casa. Saltavam crianças mais ou menos esfarrapadas de tudo o que era buraco.
Devo dizer que estas imagens ficarão entre as piores que guardo das muitas viagens que já fiz, apenas suplantadas pelo horror que a recordação do Ganges, em Varanasi, me inspira ainda, já a alguns anos de distância. Nesse caso, horror aliado a um sentimento de revolta pelo carácter religioso do que se passa – não fosse eu já ateia quando lá estive e teria certamente vivido o meu último dia de respeito por religiosidades obscurantistas e maléficas. Do Cambodja, vim com a sensação de que a revolta nascerá naquele lago e de que os que sobreviverem acabarão um dia por ter uma vida normal e decente, humanos que são como nós.

A senhora não acerta, porque é que insistem?

«Encruzilhadas da Democracia»





Ciclo coordenado por Miguel Serras Pereira
2ª sessão: Exercício e Concepções da Cidadania
Helena Roseta
Guilherme d'Oliveira Martins
José Neves

29 de Abril, 18:00
R. António Maria Cardoso, 68, Lisboa

27.4.09

Como foi o 25?














A Cristina pediu a dezenas de pessoas, num post com 50 links, que descrevessem o seu 25 de Abril de 74. Porque não?
O meu foi semelhante ao de muitos milhares de portugueses que não estavam na tropa nem andavam na escola primária.
Acordada por volta das cinco da manhã por um telefonema, liguei o rádio, fiz uns telefonemas, percebi que era pedido que ninguém saísse de casa e saí – o primeiro acto de desobediência às novas autoridades que ainda não o eram.
Fui ter com amigos, reunimos máquinas fotográficas e respectivos rolos, deambulámos de carro pela cidade. A meio da manhã estávamos já na Baixa, às 11:00 tirámos a primeira foto (a que está ali em cima), no Largo do Corpo Santo, não sem termos perguntado a alguns soldados o que se passava – que não sabiam, que estavam com Salgueiro Maia e que desta vez é que era.
Tudo se foi encaminhando para o Carmo e nós também. Ao longo do dia, a espera, as dúvidas, os boatos, o megafone de Francisco Sousa Tavares – e já os cravos, o que viria a ser o hino do MFA, Grândola.
Pelo meio algumas corridas, evacuação do Largo quando se pensou que o quartel não se renderia a bem, últimos feijões do fundo de uma panela numa tasca do Largo da Misericórdia, pelo mais total dos acasos na companhia de José Cardoso Pires – o carro estacionado mesmo em frente, com as quatro portas abertas para o que desse e viesse.
Regresso ao Carmo, o desenrolar de tudo o que se sabe, o poder que Marcelo Caetano não quis deixar cair na rua antes de sair de chaimite, os gritos sem fim de vitória e liberdade que se cravaram na memória e ainda hoje fazem arrepiar.
O longo serão à espera do comunicado da Junta de Salvação Nacional, o contraste entre o seu sinistro cinzentismo e a força da rua que tinha ficado colada à pele.
A ansiedade e a festa em frente da sede da PIDE e à porta da prisão de Caxias – mas isso ficou para o dia 26.

Falta a fatídica pergunta: «Foi o dia mais importante da tua vida?» E a reposta que se esperaria: «Sim, excepto o dia x e o dia y, por razões de ordem pessoal».
Excepto coisíssima nenhuma.

IndieLisboa 2009 – Agenda 28/4










Ante-estreia de filme de Joana Cunha Ferreira:
Nuno Teotónio Pereira – Um homem na cidade

Cinema S. Jorge, Sala 1, Lisboa,
28/4, 19:00

E eu que detesto masoquistas

26.4.09

O «forte Dom Nuno»

Ainda não me tinha lembrado de que hoje deve ser «um dia de alegria para todos os Portugueses» – pela minha parte, farei os possíveis.

E registo, com perplexidade, que os portugueses se «revêm» em NAP. Não é um pouco exagerado?