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13.6.09

Days

Outra geração que aguarda













«Tengo treinta y tres años y dos canas. Llevo al menos la mitad de la vida deseando un cambio en mi Isla. En el verano de 1990, me asomaba a las persianas de mi casa en Lealtad esquina a Lagunas, cuando el griterío de la gente me hacía pensar en una revuelta. Desde allí vi pasar las balsas cargadas en hombros hacia el mar y percibí los camiones de policías que controlaban la inconformidad. Las caras ansiosas de mis familiares presagiaban que pronto la situación evolucionaría, pero en lugar de eso los problemas se hicieron crónicos y las soluciones se postergaron. (…)

Este junio ha empezado muy parecido al de aquellos oscuros años del Período Especial. Desasosiego, cortes eléctricos en algunos barrios y una sensación generalizada de que vamos cuesta abajo. (…) Tampoco pienso irme a ningún lado, así que el mar no será en mi caso la solución para este nuevo ciclo de calamidades que comienza.

(...) otra generación que aguarda. Me resisto a creer que serán adultos mirando por la ventana a la espera de que algo ocurra; cubanos llenos de sueños postergados.»

Yoani Sánchez, hoje, em Generación Y

12.6.09

Poeiras das europeias (2)













Talvez comece agora a ser possível reflectir mais ou menos calmamente sobre o que se passou no Domingo – ou talvez não, já que o processo eleitoral em curso veio para ficar durante uns largos meses.

Não foi sem alguma surpresa que constatei o mau perder de muitos eleitores socialistas, tanto quanto ao que se passou em Portugal, como em relação aos resultados da Europa. Os mesmos que sempre reconheceram que as lideranças europeias são fraquíssimas, que criticaram o Tratado de Lisboa, que sempre reclamaram contra os ímpetos burocráticos de Bruxelas e deles se riram, que acusaram de fundamentalistas os rigores da lei anti-tabaco e que querem continuar a comer jaquinzinhos, admiraram-se agora quando um enorme cartão vermelho foi levantado contra tudo isso e mais algumas coisas.

Pretende-se dizer que o projecto europeu não é importante, que não devemos defender valores culturais e civilizacionais? De modo algum. Mas estamos a fazê-lo mal e os resultados destas eleições estão aí para demonstrar que esta Europa envelhecida e aristocrática tem sido mal governada, que ainda se julga o centro do mundo quando já não é, que vai ser repovoada por asiáticos, árabes e muitos outros (realidade para a qual não está de todo preparada, apesar de todos os discursos anti-xenófobos que apregoa), que está a gerir mal a crise e a não tirar partido do que se passa na América.

Foi por todos estes motivos, e por mais alguns específicos de cada país, que o chamado «centro» teve uma grande derrota no Domingo. Em Portugal, com a particularidade de algumas esquerdas se terem reforçado, o que parece ter desesperado a única que se considera ajuizada, razoável, realista. Que entrou em pânico e meteu no mesmo saco o avanço da direita na Europa e o sucesso do Bloco+PCP em Portugal, numa versão sempre actualizada de «quem não é por mim, é contra mim». Porque preferia, em vez destas esquerdas, outras - nem marxistas, nem leninistas, nem trotskistas, mais liofilizadas, talvez simplesmente ecológicas? É bem provável, mas disso não temos…

E não consigo deixar de considerar decepcionante que tantos, que até há bem pouco tempo tinham no horizonte um mundo de esperança bem diferente do reformismo conformado em que vivemos, defendam agora este triste status quo, em nome de seguranças e de uma governabilidade sem crença na possibilidade de diálogo, nem confiança nos que são diferentes – como se tivessem envelhecido de repente, como se o mundo estivesse para acabar o mais tardar no fim deste ano de 2009, como se o «medo de existir», de que fala José Gil, se tivesse espalhado, agora sim, repentina e generalizadamente.

P.S. - Ainda não é desta que falo da CML. Tempo haverá.

Poeiras das europeias













Sem surpresa, li ontem à noite um texto de Rui Bebiano – Um filme que já vimos -, com o qual concordo da primeira à última linha. No cerne da questão: «Isto confirma o absurdo das interpretações de sectores próximos da direcção actual do PS, que, em estado pós-traumático, se centram agora na vertigem da bipolarização e insistem na ideia peregrina segundo a qual escolher opções “menores”, ou que jamais serão governo, é “fazer o jogo da direita”.»

Aqui fica, portanto, uma forte recomendação de leitura. Voltarei ainda hoje ao tema, até porque ele tem características específicas em Lisboa, onde regressaram, agora em força, os apelos à união das «esquerdas» contra a ameaça do «papão» Santana Lopes como candidato â CML.

11.6.09

Há mais vida para além das europeias




Imagine there's no heaven
It's easy if you try
No hell below us
Above us only sky
Imagine all the people
Living for today

You may say I'm a dreamer
But I'm not the only one
I hope some day you'll join us
And the world will live as one

Um novo Cavaco?










«Jornalistas, analistas e políticos falaram das eleições. Mas nada se perguntou a Eduardo Beauté ou Lúcia Piloto, cabeleiros. O que é erro. Os grandes momentos do género humano costumam ter repercussões capilares e, se as europeias foram viragem, além do fim do TGV deviam trazer penteados novos. (…)
De cada vez que Cavaco Silva fala, saltam interpretadores das suas palavras, como se fará com o discurso do 10 de Junho. Mas o Presidente resume-se às palavras? Eu (e o Beauté e a Lúcia Piloto) direi até que Cavaco se revelou mais noutras paragens. O corte de há décadas, à Cary Grant - risco e cabelo penteadinho para o lado - mantém o risco mas manda, agora, o resto decididamente para trás. Não sei o que isso quer dizer, mas que há novo Cavaco depois das europeias, há.»

Ferreira Fernandes, no DN.

10.6.09

Condecorados














Cavaco Silva e os seus conselheiros têm toda a legitimidade para escolherem quem vão condecorar e porquê, neste desfilar anual de orgulhos patrióticos.Os vários presidentes da República têm sido por vezes acusados de banalização pela quantidade de nomeados e, pontualmente, por designações mais ou menos polémicas (como foi o caso, há cinco anos, quando Jorge Sampaio atribuiu a comenda da Ordem da Liberdade a Isabel do Carmo).

António Gentil Martins recebeu hoje a Ordem do Infante D. Henrique, aparentemente pelo conjunto da sua carreira como médico. Foi esta importante, não é de louvar que tenha andado pelo mundo a separar siameses? Certamente. Mas é também como médico que tem tomado, ao longo da vida, posições extremistas especialmente intolerantes. Muitos se lembrarão da sua ferocidade na oposição ao aborto durante a campanha sobre a IVG, em 2007, talvez poucos saibam que leva a defesa das famílias numerosas ao ponto de ser contra o uso obrigatório de cadeirinhas para crianças nos automóveis porque este impede os casais de terem mais do que dois filhos!

Mas, precisamente quando há entre nós uma sensibilidade especial para tudo o que se relaciona com o tema da homossexualidade, talvez valha a pena recordar, sem surpresas, que, para ele, ela é «anti-natural», porque, «a natureza humana é feita para se reproduzir como qualquer espécie animal». E vai mais longe quando fala de transsexuais: «Há doidos em todo o mundo. Discordo da transsexualidade. Não me venham dizer que o cérebro é diferente, pois ninguém provou que seja. Há todo o género de aberrações na natureza humana. A transexualidade é um disparate, em termos da natureza humana biologicamente normal, e não tem sentido (...). Pessoalmente, sugeriria o apoio do psiquiatra.»

Repito: não é o cidadão António Gentil Martins que faz estas afirmações, mas sim o médico cuja carreira foi hoje enaltecida.

Arrisco-me a pensar, sem grandes riscos de erro, que Cavaco nunca teria condecorado Isabel do Carmo, nem Jorge Sampaio o faria no caso de Gentil Martins. São as regras deste jogo em que vivemos. Mas há sempre a possibilidade – e a liberdade – de protesto. ILGA, MPI e as quase 7.000 pessoas que aderiram a este movimento: nada a dizer?

(Referência: Entrevista de AGM ao Jornal de Leiria)

O 10 de Junho


Vem de longe a comemoração do dia em que Camões foi transladado para o Mosteiro dos Jerónimos, em 1880. Feriado nacional desde os anos vinte do século passado, a data ganhou um novo significado em 1944, quando Salazar a rebaptizou como «Festa de Camões e da Raça». Fê-lo por ocasião da inauguração do Estádio Nacional, que ocorreu com toda a pompa, em cerimónias a que terão assistido mais de 60.000 pessoas e que foram filmadas por António Lopes Ribeiro (vídeos aqui e aqui). A linguagem é inequívoca - «Às cinco horas, chegou o chefe: Salazar. Salazar, campeão da pátria, era o atleta número um, naquela festa de campeões.» - e ouvem-se comentários como este: «Já não vivemos, graças a Deus, naquela época em que parecia mal às mulheres portuguesas cuidarem da higiene e da saúde do corpo, não se preparando convenientemente para a sua altíssima função.»

Mais graves, e bem mais trágicos, passaram a ser os 10 de Junho a partir de 1963. Transformados em homenagem às Forças Armadas envolvidas na guerra colonial, eram a data escolhida para distribuição de condecorações, muitas vezes na pessoa de familiares de soldados mortos em combate (fotos reais no topo deste post).

Desde 1978 que não é Dia da Raça e, para além de Portugal e de Camões, passou a festejar-se também as Comunidades Portuguesas. Mas continua a haver condecorações – outras, evidentemente, por motivos totalmente diferentes e por razões certamente muito louváveis. Talvez fosse no entanto possível ter escolhido outro dia para as distribuir, já que, no meu entender, é quase inevitável associar qualquer distribuição de medalhas neste dia às trágicas imagens do Terreiro do Paço em tempo de guerra nas colónias.


(Publicado também em Caminhos da Memória)

9.6.09

Bom tema para as autárquicas

Tronco em flor, estende os ramos














Durão Barroso vai continuar à frente da Comissão Europeia, como previsto e mais do que confirmado pelos resultados das eleições dos últimos dias. Nada de novo, portanto, excepto que talvez valha a pena recordar que, em Portugal, tem não só o apoio dos dois partidos de direita, mas também do Presidente da República e do Primeiro-Ministro, Secretário-Geral do PS. Se dúvidas houvesse quanto ao facto de ser o tal «centrão» a deter os nossos poderes, este acto é mais um que contribui para as dissipar. A foto dos Açores foi tirada do álbum, mesmo por aqueles que no passado a condenaram.

Mas é bom não esquecer que tudo tem um preço e que há quem não queira partilhar o regozijo que é proposto - há gestos que se tornam simbólicos e este é um deles. Agitar depois o perigo das esquerdas, a que chamam «não democráticas», e culpá-las de todos os riscos de futuros terríveis que se avizinham é, no mínimo, injusto e irresponsável.

Estamos perante um triste sinal de um patriotismo atávico e provinciano, na véspera de um dia que já foi da Raça - o que, afinal, poderá terá deixado marcas bem mais profundas do que estamos dispostos a reconhecer.

8.6.09

Recortes (6)















«O mais importante para o interesse de Portugal é que Durão Barroso seja eleito como presidente da Comissão Europeia. Ele fez, quanto a mim, um excelente trabalho no primeiro mandato e acho que é positivo para Europa e não apenas para Portugal a sua eleição»
Cavaco Silva dixit. Como Dr. Silva ou como Presidente da República de todos os portugueses?????

Recortes (5)

A arrogância nunca foi boa conselheira.

Vital Moreira, 1 de Junho de 2009

Recortes (4)

«A escolha do eleitorado a captar [pelo PS] não será técnica mas política. Uma maçada.»
José Medeiros Ferreira

Recortes (3)

«Gosto muito dos militantes do PS, como @tbribeiro, que dizem que não foi derrota do PS, foi derrota para a Europa. Continuem assim, please.»
@pedro_sales no Twitter

Recortes (2)

«É realmente uma tristeza, o alargamento ao Leste está a fazer ao PE o que fez à Eurovisão.»
@bossito no Twitter

Recortes (1)

De um mail recebido à 1:00 AM, de um militante do BE:
«Sempre são 10%. Juntando trotskistas, maoístas, anarquistas, altermundialistas, ecologistas radicais, amantes do tofu e do seitan, bombistas reciclados e adeptos do orçamento participativo... dará isso.»

Balanços de uma noite quase de Verão














A vida normal deste país está suspensa desde há algumas semanas e regressará talvez lá por volta das férias do Natal. Se era já esperado que isso acontecesse, tudo se tornou mais evidente ontem à noite: seguem-se duas campanhas complicadíssimas e de desfechos cada vez mais imprevisíveis e o que está em causa não é apenas o que se passará por cá mas, também e muito, o ritmo a que as soluções para a crise evoluírem e o que resultar da recomposição do Parlamento Europeu.

Já tanta gente falou de vencedores e de vencidos que «passo à frente». Mas há duas realidades que parecem ter vindo para ficar: ninguém terá maioria absoluta na próxima legislatura e, pela primeira vez na história da democracia portuguesa, um partido à esquerda do PS iguala, ou ultrapassa mesmo, a votação do PCP. Realidades cruas e extremamente duras para muitos, que não para mim. Mas hoje é tudo menos dia próprio para embandeirar em arco o que quer que seja, quando a direita encheu as urnas por essa Europa fora e também de certo modo em Portugal. O problema é que continua a não ser possível mudar de povos…