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1.8.09

Um país, dois presidentes

Deram-me um modelo liberal, democrático

31.7.09

A Susan Boyle que se cuide

Cogitações (4)

«Sem uma classe trabalhadora, sem um objectivo revolucionário a longo prazo, por muito benigno e não-violento que seja na prática, sem qualquer razão particular para supor que irá ter sucesso ou uma base transcendente para acreditar que merece tê-lo, a social-democracia actual é apenas o que os seus grandes fundadores do século XIX temiam que viesse a ser se abandonasse os seus pressupostos ideológicos e afiliação de classe: a ala avançada do liberalismo de mercado reformista. Agora, exactamente quando a morte do comunismo a aliviou da hipoteca paralisante das expectativas revolucionárias, deve a esquerda europeia reduzir-se à defesa de progressos sectoriais arduamente conquistados e olhar de relance, nervosa e ressentida, para um futuro que não consegue compreender e de que não tem a certeza?»

Tony Judt, O Século XX esquecido, pp.431-432.

Na dúvida a inocência mesmo a tempo de concorrer à Câmara ou sou eu que estou a ver coisas?

Acordar lá amanhã seria uma maravilha

30.7.09

Cogitações (3)

«Se a Esquerda é projecto, ela tem de constituir um sistema de ideias, que só o será se existir um critério (ou critérios) que o estruture(m). As ideias poderão ir evoluindo - pois não só o debate não tem fim, como ir-se-á modificando o contexto em que ele decorre -, mas aquilo que as liga e interrelaciona, que as estrutura enquanto projecto, terá de manter-se constante. Será pois parte da ideia de Esquerda e não as ideias que a subconstituem. Para não me alongar demasiado, exemplifico: o critério de emancipação, ou de “libertação”, se preferirem. Ao pronunciar-se sobre tudo - e a Esquerda tem de pronunciar-se sobre tudo -, parece aceitável que o conceito de emancipação deverá ser um elo de ligação permanente entre todas as ideias do sistema. O que já não é indiscutível é o próprio conceito de emancipação, que, ele próprio, para ser “operacional”, merecerá discussão, elaboração, “aperfeiçoamento”. Em termos ideais, dir-se-á que é emancipador tudo o que aproxime um indivíduo do ser responsável que “teoricamente” é. Será pois emancipador tudo o que tenda a reduzir os constrangimentos sociais, económicos e culturais que limitam a liberdade de escolha ou decisão do “indivíduo em sociedade”

João Martins Pereira, No Reino dos Falsos Avestruzes, p.104

A rir é que a gente se entende








É um novo blogue, acaba de nascer e promete...

Jackpot













Todos se lembrarão do momento em que Zapatero atribuiu 2500 euros a cada família pelo nascimento de uma criança, provavelmente não tanto pelo facto em si, mas pela apreensão da revista El Jueves, que mostrava na capa membros da família real em posições consideradas indecorosas.

Tanto quanto me lembro, os pais espanhóis recebem imediatamente um cheque daquela importância, não um depósito numa conta a movimentar dezoito anos mais tarde. Mas adiante, que isto não é a Ibéria embora muitos portugueses o queiram.

Há gestos mais ou menos simbólicos, que até podem ser louváveis, mas que acabam por sair altamente prejudicados por justificações inadequadas, como as que ontem foram ouvidas, a propósito da já célebre medida dos 200 euros : «incentiva a conclusão do ensino obrigatório», «incentiva a criação de hábitos de poupança», «permite que o jovem se possa autonomizar» e é uma «medida de apoio à natalidade». Põem-se a jeito – depois não se queixem…

Mas claro que até pode ser, como diz Manuel António Pina, que os portugueses «excitados pelos 200 euros (o dinheiro tem reconhecidas virtudes eróticas)» desatem «a fazer filhos em vez de ficarem a ver o 'Prós e Contras' e a telenovela.» Nunca se sabe…

Se tivesse sido este mês

Este vídeo já circula há uns dias, mas fica também aqui.



Então e o Facebook?

29.7.09

Novos precários














A Associação República e Laicidade publicou ontem um comunicado sobre o recente acordo entre Estado e Igreja, a propósito da assistência religiosa em instituições públicas.

Retomo o seguinte parágrafo (o realce é meu):

«A Associação República e Laicidade reafirma que o primeiro direito, em matéria religiosa, de qualquer cidadão internado num hospital, conscrito nas forças armadas ou detido num estabelecimento prisional, é receber assistência religiosa de uma determinada confissão religiosa apenas e somente se manifestar vontade expressa de a receber dessa exacta confissão religiosa. Colocar um cidadão na situação de ter que rejeitar assistência religiosa que não pediu, como acontece actualmente, é uma diminuição do seu direito à liberdade de consciência e à privacidade, particularmente grave numa situação de confinamento hospitalar, militar ou prisional.»

Não posso estar mais de acordo. Há meia dúzia de anos, passei semanas em hospitais públicos, como acompanhante, e confirmo que é absolutamente confrangedor ver a aflição que muitos doentes demonstram ao recusarem a ajuda do padre que entra na sala, ou o ar conformado com que a aceitam. Em clara situação de inferioridade, pela doença, pela exposição ao olhar dos outros, até pelo vestuário que exibem, é inaceitável que sejam expostos a mais uma prova complicada, pelo proselitismo piedoso e descabido de uns tantos.

Já agora: leio que estes padres deixaram de ser contratados, que passaram a engrossar as fileiras dos utilizadores de recibos verdes e que serão pagos pelo número de assistências que prestarem. Quem contabiliza, como e o quê?

Agora, sim, isto está a ficar grave












Parece que a crise chegou aos crocs, o que é absolutamente lamentável, quase uma tragédia. Moda efémera, dizem eles. Bem pelo contrário, tinham-me parecido uma das grandes invenções da década para todos, dos 7 aos 77 como o Tintim.

Acompanharam-me nas dunas da Namíbia, nos icebergues da senhora Palin e nos pedregulhos de Angkor. Resta-me agora reabastecer-me antes que desapareçam dos escaparates e não vai ser fácil explicar aos meus netos que, um dia destes, vão ter de usar só sapatos «à séria».

P.S. – Alguém consegue explicar-me porque resiste, há décadas, aquela horrível invenção que dá pelo nome de havaianas? Mistérios…

Mostraram que no tempo deles se estudava bem a tabuada













… mas a cidade lá ficou adiada sine die.

28.7.09

Uma enorme falta de devoção a S. Nuno













40% dos portugueses apoia a união política com Espanha.

La vie est courte et y en a qu'une

Cogitações (2)

«Todavia, no presente, em cada presente, para muitos dos que aguardam uma salvação materializada na remissão do oprimido, e até que outro marco milenar o substitua, Outubro permanece como sinal sagrado de um desejo e de uma possibilidade. Como estrela que orienta a travessia nocturna de um inóspito deserto. Para quem desta forma alguma coisa espera do mundo e do tempo, os monstros que a sua materialização a certa altura produziu afiguram-se apenas como erros menores, desvios de percurso, pausas antes do retomar da caminhada. Para os outros, que olham para trás apenas na medida do indispensável mas acreditam ainda e sempre na aventura do possível, tratam-se de ilustrações em páginas incómodas mas provavelmente viradas.»

Rui Bebiano, Outubro, pp-99-100

Sonhos de outros dias de Verão
















Será provavelmente necessário recuar trinta e quatro anos para recordar um Verão tão animado politicamente como o actual. Mas é muito difícil imaginar hoje a agitação reinante em 75, a poucos dias da tomada de posse do V Governo Provisório, e quando se discutia a possível governação do país por um triunvirato formado por Gosta Gomes, Vasco Gonçalves e Otelo.

Sucediam-se os discursos inflamadíssimos, as conferências de imprensa e as manifestações - com muitos gritos mas sem teleponto, sem internet, muito menos Twitter, sem reuniões com bloggers numa qualquer cantina da 5ª Divisão. Mas, mesmo em pleno mês de Agosto, quem não estava na rua, colava-se à televisão e gravava para a posteridade o que a rádio ia transmitindo. (Foi o que fiz com o homérico discurso de Vasco Gonçalves em Almada, numa fita magnética que ainda hoje guardo num saco de plástico, juntamente com outras que têm óperas de Mozart e, quem sabe, um ou outro concerto para violino d Chopin.)

Nos jornais de 28 de Julho de 1975, PS, PPD e MRPP tomam posição contra a hipótese do triunvirato acima referida. Lê-se também que Otelo regressou de Cuba, onde discursou ao lado de Fidel e afirmou que «a luta heróica do povo cubano é um exemplo magnífico para o povo português».

E, em A Capital, o PS afirma, em jeito de comentário ao momento político: «O que nos divide não é Marx – ou seja a construção do socialismo, de uma sociedade sem classes, onde termine progressivamente a exploração do homem pelo homem; o que nos divide é Estaline – ou seja, a concepção totalitária do Estado, o partido único todo-poderoso, o problema da defesa das liberdades públicas e dos direitos do homem.»

Em 2009, cá estamos.

Fonte: Adelino Gomes e José Pedro Castanheira, Os dias loucos do PREC, p. 225.

27.7.09

Je ne fais pourtant de tort à personne

Cogitações (1)

«Querer voltar ao poder como hoje – ou quase sempre se entendeu – não é programa de nada, só dos profissionais do Poder. A essência do socialismo é a de ser – até onde é pensável – uma ideologia do não-poder. É inútil buscar mais longe a razão última dos seus limites e dos seus desvarios como Ideologia e como Política, sem falar da sua inanidade como cultura. Se o Socialismo no Ocidente como horizonte e referência de milhões de pessoas deixou de estar na moda – a ponto até de se ter tornado «impopular»… - à sua incapacidade de ser uma outra visão do Poder e uma outra ética do seu exercício, em grande parte o deve. Não que a cultura do capitalismo neoliberal ou globalizante seja melhor, pois é impossível, mas tão-só e apenas porque o Socialismo nasceu e só tem sentido como crítica, resistência e contenção dos malefícios ou dos efeitos desumanizadores do Capitalismo.»

Eduardo Lourenço, A Esquerda na encruzilhada ou fora da História?, p. 95.

Alguém disse #cpms?
















Li e reli ontem o «Avançar Portugal 2009‐2013», mais exactamente, o «Programa de Governo do Partido Socialista». Estranhei não encontrar uma palavrinha, nem uma, sobre o Casamento entre pessoas do mesmo sexo - nem no capítulo «Reduzir as desigualdades».

Esperei, humildemente, que alguém explicasse porquê. Li mais tarde no Público (edição impressa): «De fora estão por enquanto questões consideradas fracturantes, como, por exemplo, o casamento entre pessoas do mesmo sexo, um assunto que José Sócrates prometeu há seis meses avançar na próxima legislatura .» Hoje vi que é o próprio MPI a sublinhar o facto – já fia mais fino.

Pode alguém ajudar-me a perceber? Agradecida.

P.S. – É que tenho por vezes premonições esquisitas e fiquei com medo que tivesse sido o caso desta vez, já que, em 14 de Julho, escrevi sito num mail enviado a alguns amigos:
«Ando com um pressentimento de que o PS acabará por NÃO incluir no programa o #cpms...»

ADENDA – À hora em que publiquei este post (10:25), o texto chamava-se «Programa de Governo do Partido Socialista» , como indiquei. Se clicar agora no link, vai ter a «Bases programáticas do Partido Socialista» - o programa só será conhecido na 4ªf.

26.7.09

Pourtant, que la montagne est belle

Quando o medo é maior do que a dor

É conhecida a importância que a blogosfera tem em Cuba e a extraordinária solidariedade entre bloggers, que tem permitido ultrapassar toda a espécie de obstáculos que tentam travar a actividade – com coragem, persistência e também alguma imaginação.

Pablo Pacheco é jornalista independente, do chamado «Grupo dos 75», condenado, em 2003, a 20 anos de cadeia, que cumpre neste momento na prisão de Canaleta, em Ciego de Ávila. Há mais de duzentos presos em Canaleta, que passam longos dias com privações de vária ordem, como falta de água que chega a durar dezasseis horas debaixo de um calor abrasador, cortes na autorização para ver televisão, entraves à utilização de telefones.

Tem desde Maio um blogue, Voz tras las rejas, criado por amigos e que ele alimenta ditando os textos por telefone, a partir da prisão. Existe já uma versão em inglês e uma outra em português.

Desde o primeiro minuto, pôs o blogue à disposição das famílias dos companheiros presos: «Na minha opinião, o movimento de bloggers, em Cuba, é uma excelente alternativa aos espaços de liberdade de que a Ilha necessita com desespero. (…) Considero-me, nesta tétrica prisão, a voz dos que não tem blogue. E quem tem hoje menos voz, em Cuba, são os presos - por diferentes motivos, digo sem medo de me enganar, a palavra mais escravizada entre os 11 milhões de cubanos é a dos condenados.
Por isso temos o dever de os ajudar, pois Cuba precisa deles. Convertemo-nos na capa e espada, na voz daqueles com blogue ou sem blogue, pois este é o verdadeiro rosto do poder da solidariedade.»

Assim se tecem as redes das cumplicidades possíveis, que vão quebrando barreiras, em pequenas mas significativas etapas, e que vão matando o tal medo que um dia acabará – inevitavelmente.

Pode ser tudo (mais ou menos) verdade…

Joana Amaral Dias «A bloquista confirmou ontem ao PÚBLICO o convite que era, inclusive, para um lugar de destaque: segunda da lista por Coimbra. Recusou "por motivos óbvios", como respondeu ao PÚBLICO. “Embora o BE me tenha afastado da Mesa Nacional e pelos vistos dispensado das listas de candidatos a deputados, sou militante de base e defensora das ideias e projectos deste partido”.»

Francisco Louçã: «Primeiro ofereceram a Joana Amaral Dias o segundo lugar por Coimbra e depois sugeriram a presidência do IDT - Instituto da Droga e da Toxicodependência ou um cargo no Governo.»

João Tiago Silveira: «Não é verdade que Joana Amaral Dias tenha sido convidada para deputada pelo secretário-geral do PS e não é verdade também que tenha sido convidada para um cargo num instituto público.»