31.8.09
Talvez não fosse má ideia

«Se há algo digno de nota neste programa [Fala com elas] é o número imbatível de planos que mostram as pernas das participantes. Não se vê isto na Quadratura do Círculo.»
(Vasco Barreto)
Na «Quadratura do Círculo» é mais barbas, de facto. Também não vale a pena procurar muitas pernas nos dez debates que aí vêm durante a próxima quinzena. Mas mostrar os sapatos não seria uma má ideia – dizem muito mais do que colares, gravatas ou cortes de cabelo. Além disso, com a pedra no sapato estarão todos, cada um achará que os outros não chegam às solas dos seus sapatos - e à espera de sapatos de defunto andamos nós há muito tempo.
Uma questão de probabilidades

Em 1988, eu trabalhava e vivia na Bélgica com a família. Para evitar uma das habituais e terrivelmente cansativas vindas a Lisboa em tempo festivo, decidimos ir aos Estados Unidos, embora eu tivesse regressado de Nova Iorque três semanas antes – nunca se deve contar as vezes que se vai a esta cidade, mas sim as oportunidades perdidas de o fazer.
Por razões de férias escolares do meu filho, só poderíamos partir já bem perto de 24 de Dezembro, de preferência a 21. No meu local de trabalho – o paraíso na terra que Adão e Eva gostariam de ter conhecido -, tínhamos tudo até uma agência de viagens, gerida por um companheiro quase quotidiano dos meus almoços. Quem me conhece sabe que detesto desistir seja do que for e quase o torturei para que me conseguisse os lugares que eu pretendia nos voos Bruxelas / Londres / Nova Iorque – os tais do dia 21. Sem sucesso, fomos obrigados a ir na véspera.
Já num hotel em Manhattan, vi as imagens do PAN NAM 103 do dia 21 de Dezembro de 1988. Sempre que volta a falar-se de Lockerbie, como é o caso agora, ainda fico paralisada.
30.8.09
Há dez anos, em Timor

Foi em 30 de Agosto de 1999 que se realizou o referendo em Timor.
Nos últimos dias, muitas referências na imprensa. Aqui ao lado, nos Caminhos da Memória, um interessante testemunho e excertos de um diário de Diana Andringa.
«Há dez anos, saíamos às ruas a manifestar-nos por Timor-Leste. Há dez anos, o povo timorense afirmava nas urnas o seu desejo de ser livre e ver partir o ocupante indonésio.
David vencia Golias: pagava-o em mortos e sangue, mas garantia a sua independência.»
Entretanto, na Venezuela

«La fiscal general venezolana, Luisa Ortega, ha anunciado que abrirá procesos contra todos aquellos ciudadanos que "por cualquier motivo marchan" y que, en su opinión, sólo buscan "desestabilizar al Gobierno constitucionalmente electo". (…) "(estas) conductas encajan perfectamente en el delito de rebelión civil", que la ley venezolana castiga con penas de 12 a 24 años de cárcel.»
Isto vai acabar mal. Porque nem os venezuelanos vão ficar sossegadamente em casa durante muito tempo, nem Caracas é a Sierra Maestra de 1959.
29.8.09
Cogitações (9)
«Se nós somos “os chineses do Ocidente”, nem um pouco nos assemelhamos aos japoneses. É porque não conhecemos o vazio nem por ele nos sentimos atraídos.Há talvez uma barreira que contribui para isso, a fascinação-repulsa que sentimos pela ausência. A ausência não é o vazio, contraria-o mesmo, em certo sentido. A ausência diz-se de uma presença, enquanto o vazio não se reporta a um cheio. O vazio é primeiro, está aquém da ausência de tudo. Quando toda a presença desaparece e deixa de haver lugar a preencher por uma coisa, então surge o vazio primordial, de onde sairão as forças para, precisamente, criar, agir, pensar. Do vazio nascem os pensamentos únicos, nunca anteriormente pensados, como dele nasce a obra (eventualmente, de arte) absolutamente original. Para que ocorram, é preciso saber produzir o vazio.»
José Gil, O Medo de Existir, p. 103.
Entretanto, na Índia

Volta a falar-se de Sampat Pal, a activíssima líder de Atarra, uma pequena cidade situada numa região muito pobre do Nordeste da Índia.
Foi em 2005 que ela criou o seu «bando rosa» (gulabi gang), assim chamado porque as mulheres que o compõem vestem saris daquela cor. Empunham também paus de bambu para o que der e vier - e já foram úties.
De uma casta muito baixa e mal sabendo ler e escrever, Sampat Pal lidera agora cerca de 100.000 mulheres que já conseguiram evitar casamentos infantis, muitas sovas de maridos e vários actos de corrupção. Sequestram camiões com comida destinada aos mais pobres quando sabem que a mesma vai ser lançada no mercado.
«Misto de cacique local e Robin dos Bosques feminina», casada à força quando tinha apenas doze anos, mãe de cinco filhos, Sampat Pal é temida e respeitada por todos no seu país e tornou-se mais conhecida no Ocidente desde que publicou a sua biografia, em 2008.
Assim continua a luta das mulheres por esse mundo – com saris rosa, paus e tudo o mais que ainda for necessário.
(Fonte, entre outras)
28.8.09
Absolutamente revoltante e lamentável
Leio no Expresso online que, no Youtube, os vídeos de uma «Portuguese Grandmother», açoriana e que vive no Canadá, têm dezenas de milhares de visitas. São feitos por um neto de 19 anos e o sucesso deve-se, aparentemente, à «espontaneidade» da senhora que não tem «a mais pequena noção acerca do sítio vão parar as imagens». A notoriedade é tão grande que já terá mais de mil fãs no Facebook.
No fim da notícia, podem ser vistos vários exemplos dos referidos vídeos. Não copio nenhum para não os ver nunca mais. Nem sei se me repugna mais a boçalidade do neto, se a «desgraçada» portuguesa, se a total ausência de espírito crítico com que a jornalista do Expresso dá a notícia.
Triste mundo.
No fim da notícia, podem ser vistos vários exemplos dos referidos vídeos. Não copio nenhum para não os ver nunca mais. Nem sei se me repugna mais a boçalidade do neto, se a «desgraçada» portuguesa, se a total ausência de espírito crítico com que a jornalista do Expresso dá a notícia.
Triste mundo.
Tempo de autocrítica

«É impossível não ver no programa eleitoral do PSD ontem apresentado, e no anúncio pela dra. Ferreira Leite de políticas de firme combate a medidas da dra. Ferreira Leite, a mão maoista (ou o que resta dela) de Pacheco Pereira, a da autocrítica.
Assim, se a chegar ao Governo, a dra. Ferreira Leite extinguirá o pagamento especial por conta que a dra. Ferreira Leite criou em 2001; a primeira-ministra dra. Ferreira Leite alterará o regime do IVA, que a ministra das Finanças dra. Ferreira Leite, em 2002, aumentou de 17 para 19% ; promoverá a motivação e valorização dos funcionários públicos cujos salários a dra. Ferreira Leite congelou em 2003; consolidará efectiva, e não apenas aparentemente, o défice que a dra. Ferreira Leite maquilhou com receitas extraordinárias em 2002, 2003 e 2004; e levará a paz às escolas, onde o desagrado dos alunos com a ministra da Educação dra. Ferreira Leite chegou, em 1994, ao ponto de lhe exibirem os traseiros. No dia anterior, o delfim Paulo Rangel já tinha preparado os portugueses para o que aí vinha: "A política é autónoma da ética e a ética é autónoma da política".
Manuel António Pina, hoje no JN (realces meus)
«I have a dream» - 28 de Agosto de 1963

Uma América certamente diferente, quarenta e seis anos depois de «March on Washington for Jobs and Freedom».
Discurso de Martin Luther King, na íntegra:
27.8.09
Atlantis
The continent of Atlantis was an islandwhich lay before the great flood
in the area we now call the Atlantic Ocean.
So great an area of land, that from her western shores
those beautiful sailors journeyed
to the South and the North Americas with ease,
in their ships with painted sails.
To the East Africa was a neighbour, across a short strait of sea miles.
The great Egyptian age is but a remnant of The Atlantian culture.
The antediluvian kings colonised the world
All the Gods who play in the mythological dramas
In all legends from all lands were from fair Atlantis.
Knowing her fate, Atlantis sent out ships to all corners of the Earth.
On board were the Twelve:
The poet, the physician, the farmer, the scientist,
The magician and the other so-called Gods of our legends.
Though Gods they were -
And as the elders of our time choose to remain blind
Let us rejoice and let us sing and dance and ring in the new
Hail Atlantis!
Way down below the ocean where I wanna be she may be.
Então não se arranja nem uma referência ao Magalhães?

«A Juventude Comunista da Venezuela defende a criação de uma Frente Popular pela Educação que promova a defesa e fiscalize a aplicação da nova lei sobre a matéria aprovada no país.»
Está mal... porque:
«Hugo Chávez anunciou que o computador para crianças vai servir para introduzir nas escolas a nova Lei Orgânica da Educação.»
E viva o photoshop


A primeira fotografia corresponde a uma campanha da Microsoft, «adaptada», na segunda, ao mercado polaco, onde aparentemente o negro ainda não vende. (Não branqueram a mão direita, talvez – quem sabe – porque uma mão preta pode sempre dar jeito.)
Seguiram-se protestos e pedidos de desculpa, no Twitter falou-se de erro:
«Marketing site photo mistake - sincere apologies - we're in the process of taking down the image.»
Já está a imagem «universal» no site polaco.
Marketing a quanto obrigas. No mundo do espectáculo, the show must go on.
(Fonte)
26.8.09
Cogitações (8)
«A realidade alimenta-se da perpétua vontade afirmada pelos defensores da regra do jogo liberal e capitalista de diluir o conflito, de o aniquilar logo à partida, ou mesmo de o tornar impensável evitando-o em toda a medida do possível. A negação da luta, de classes ou generalizada, é sempre o credo reivindicado por aqueles que a tornam possível e que a alimentam. Mascarada, sufocada, escondida, dissimulada, negada, transforma-se em avenida para a circulação dos interesses daqueles que lutam contra a luta.»Michael Onfray, Politique du rebelle, pp. 271-272.
Um país, três sistemas

«Mao Tse-tung tried to stamp the custom out as a relic of feudalism, but the return of capitalism to China has also meant a major comeback for the concubine.»
The Independent
25.8.09
Pouca alpista para tantas gaiolas

Em Cuba, rumores prevêem o fim do racionamento no início de 2010. Desaparecerá então um dos ícones da ilha: as longas fila de espera à porta dos seus famosos armazéns, das lojas sem montras onde os turistas não entram.
Excelente notícia para quem nasceu e sempre viveu com um sistema de senhas e uma contabilidade doméstica complicada? Não é assim tão simples: é evidente que se os salários continuarem adaptados ao preço dos bens agora racionados (e subvencionados), serão claramente insuficientes se os mesmos forem lançados sem mais no mercado.
«De ahí que la noticia que en realidad esperamos no es la del fin del racionamiento, sino la del cese de la minusvalía económica que nos obliga a él, de la expiración de una relación paternalista que nos mantiene como pichones dependientes y… hambrientos.»
24.8.09
Cogitações (7)
«Recordo (…) uma interessante distinção assinalada por A.J.Saraiva, há muitos anos, num artigo de jornal sobre a tradução portuguesa do francês “engagement”. Propunha ele uma dupla tradução, correspondente ao duplo sentido da palavra original: por um lado, alistamento, por outro, empenhamento. Alistamento corresponderia ao “engagement” numa tropa, numa organização, num partido. Pressupõe uma adesão a regras pré-estabelecidas, uma atitude dominantemente passiva, “irresponsável". Ao contrário, o empenhamento é uma automobilização de natureza emotivo-intelectual, uma atitude activa em que assumimos perante nós e perante os outros uma total responsabilidade, o risco de não termos quem nos “cubra” em juízos, afirmações, decisões, actos em que nos jogamos por inteiro.»João Martins Pereira, No Reino dos Falsos Avestruzes, p.105-106
Cavaco a esvaziar o jeep

O presidente da República não promulgou a alteração à lei das uniões de facto, aprovada pelo Parlamento com os votos contra do PSD e do CDS.
Vale a pena ler a Mensagem que Cavaco dirigiu ao presidente da Assembleia da República. Para além do anúncio da não promulgação, o texto é bem revelador de uma visão da vida e das relações em sociedade, que corresponde a «uma opção de fundo», como se explica - em nome da «liberdade», pois evidentemente.
«Simplesmente, a definição global do regime jurídico das uniões de facto impõe, por parte do legislador, uma opção entre dois modelos claramente diferenciados: um, assenta numa tendencial aproximação do regime das uniões de facto ao regime jurídico do casamento; outro, distingue de forma nítida, seja quanto aos pressupostos, seja quanto ao respectivo conteúdo, o regime do casamento do regime da união de facto, configurando a união de facto como uma opção de liberdade a que correspondem efeitos jurídicos menos densos e mais flexíveis do que os do casamento, sem prejuízo da extensão pontual de direitos e deveres imposta pelo princípio constitucional da igualdade.»
Seria de esperar outra coisa? Claro que não.
23.8.09
Razões de uma escolha (2)
Estive fora uns dias e, até hoje, só tinha visto um vídeo sobre Carolina Patrocínio, resultante de montagens. Tinham-me dito que as mesmas eram forçadas e recorriam a frases tiradas do contexto. Por uma pesquisa no Google, um post do SIMplex levou-me a este outro vídeo - relativamente longo e muito recente.
Não me interessa se ela está feliz com a barriga que tem ou se não gosta dos pés que Deus lhe deu (será talvez por isso que prefere falar com o seu «anjinho da guarda»), mas isto é mau demais!
Como muito bem pergunta Sofia Loureiro dos Santos:
«Será que o PS pensa que os jovens se revêem na Carolina Patrocínio? Que a têm como referência de vida? Quais são as ideias políticas de Carolina Patrocínio? Que tem ela a dizer aos jovens sobre as escolhas que estão em jogo nas eleições legislativas? Quais os pensamentos de Carolina Patrocínio sobre o acto eleitoral, sobre a educação, sobre os media? Que tem Carolina Patrocínio a partilhar, em termos políticos, com os jovens deste país?»
Já agora: irão ser usadas em outdoors as fotos que se vêem espalhadas pelas paredes do quarto?
Não me interessa se ela está feliz com a barriga que tem ou se não gosta dos pés que Deus lhe deu (será talvez por isso que prefere falar com o seu «anjinho da guarda»), mas isto é mau demais!
Como muito bem pergunta Sofia Loureiro dos Santos:
«Será que o PS pensa que os jovens se revêem na Carolina Patrocínio? Que a têm como referência de vida? Quais são as ideias políticas de Carolina Patrocínio? Que tem ela a dizer aos jovens sobre as escolhas que estão em jogo nas eleições legislativas? Quais os pensamentos de Carolina Patrocínio sobre o acto eleitoral, sobre a educação, sobre os media? Que tem Carolina Patrocínio a partilhar, em termos políticos, com os jovens deste país?»
Já agora: irão ser usadas em outdoors as fotos que se vêem espalhadas pelas paredes do quarto?
22.8.09
Arquivo Mário Pinto de Andrade

Agora disponível no site da Fundação Mário Soares.
O acervo histórico de M.P.A. foi entregue em Luanda, na passada 6ªf, por ocasião seu 80º aniversário.
A polémica sobre o último Avante! - talvez ainda vá no adro

O artigo do Avante! desta semana, a que já me referi anteriormente, é notícia de primeira página do «Expresso» de hoje e passa assim para um novo patamar, não só em termos de notoriedade mas também na medida em que o jornal identifica expressamente a posição do PCP com a do seu chefe de redacção.
Como diz Paulo Pedroso no seu blogue, e eu assino por baixo, «…o PCP pode, querendo, esclarecer se a baixeza do seu funcionário corresponde à posição do partido ou não».
Aguardemos.
(A ler, na íntegra, o post de Paulo Pedroso.)
21.8.09
Trapos?

Meninas bonitas como mandatárias para a juventude, ou mesmo nas listas ou nas intrigas em torno das mesmas, talvez por aquilo a que Vasco Barreto chama «a sublimação republicana da libido» (também podiam ser meninos que, para o caso, iria dar ao mesmo). Palcos, luzes, discursos que exaltam o beautiful people naquilo a que dantes se chamava «a força da vida», entre os 40 e os 50 e muito poucos anos – a geração que, naturalmente e com toda a legitimidade, está no poder, domina jornais, televisões, blogues e redes sociais. Que, segura da sua experiência acumulada, olha um pouco de esguelha e já com uma certa insegurança para quem tem menos dez ou quinze anos, mas sente ainda longe o risco de engrossar o número de sexagenários atropelados na Avenida da Liberdade (é sabido que isso nunca acontece a quinquagenários…)
É certo que as campanhas eleitorais nos bombardearão de novo com as imagens do dr. Paulo Portas em visitas a asilos e com as dos velhos que jogam às cartas na Parada de Campo de Ourique a quem será prometido mais uns tantos euros nas reformas. Até já saiu um jornal de campanha que, paternalistamente, se diz «para o avô e a criança». Além de que será impossível evitar a imagem de uma candidata de peso, que é velha e que é feia. Mas as atenções estarão viradas para as Jotas e para as Patrocínios que trarão votos juntamente com as cerejas.
Será no entanto um erro não se prestar um pouco mais de atenção aos milhares e milhares de velhos que ainda não têm Alzheimer nem precisam de mais 100 euros na reforma. Porque eles irão votar (ou não) silenciosamente, talvez muito mais «contra» uma infinidade de coisas do que a favor da gritaria que lhes entra pela casa dentro.
With a little help from my friends
Última pergunta de Judite de Sousa a Manuela Ferreira Leite, ontem na Grande Entrevista da RTP:
«Já lhe sugeriram mudanças de imagem?»
Segue-se uma longa resposta. Genérico em rodapé e Judite de Sousa comenta, convencida de que está em off:
«Foi gira esta última pergunta, não foi?»
20.8.09
Bem me parecia

Libertária-Cosmopolita
Partido mais próximo – BE
Partido mais afastado – PNR
Bússola Eleitoral. Muito oportuna nos tempos que vão correndo - veja também onde se situa…
Nojo, náusea, indignação, vergonha - o que quiserem

...perante os termos com que o Avante! de hoje se refere a Paulo Pedroso, em artigo assinado por Leandro Martins:
«Já nem falamos do antigo arguido no processo da Casa Pia, Paulo Pedroso que, recebido na Assembleia com palmas dos seus correligionários, após ter ganho a sorte grande no segundo recurso para a Relação, vem agora, qual galinho da Índia, dar conselhos ao seu partido.»
Mesmo quando se julga que todos os limites foram já ultrapassados, ei-los que chegam, os golpes baixos da baixíssina política, em todo o seu esplendor!
P.S. - Um comentário deixado por um Anónimo sugere-me a seguinte precisão: Leandro Martins é chefe de redacção do Avante!
(Desenho de Pedro Vieira)
Checoslováquia, 20/21 de Agosto de 1968
A ver, também, este vídeo de Josef Koudelka, o autor das fotografias do extraordinário livro «Invasion Prague 68», publicado por ocasião do 40º aniversário da invasão.
19.8.09
Prémio Comprometidos y Más 2009
Aí estão de novo as cadeias blogosféricas… Esta vem da América Latina e visa, aparentemente, premiar blogues «comprometidos com a democracia e defensores da sustentabilidade ecológica». (A ecologia faz-me corar um pouco, mas adiante…)Que eu tenha dado por isso, foi-me atribuído pelo Activismo do Sofá e por O Valor das Ideias. A ambos, muitíssimo obrigada.
Já passei cadeias a tantos blogues (e hoje ainda tenho outra em fila de espera…) que vou ser muito poupada - esta segue apenas para A Poeira dos Dias (há mais vida para além do Facebook!).
O país tem opiniões diferentes – e mais do que uma ou duas

Insista-se mil vezes se necessário for – hoje com Rui Tavares (no Público, sem link), a propósito da hipótese, quase certa, de um governo minoritário:
«O novo presidencialismo seria, no fundo, apenas uma forma de conservadorismo larvar da nossa política. Já repararam como as maiorias absolutas são sempre essenciais, ano após ano, para “fazer as reformas” e “salvar o país da ingovernabilidade”? Pois o novo presidencialismo, dir-nos-ão, será essencial pelas mesmas razões, que não desaparecerão nas eleições seguintes – nem nunca.
A outra hipótese é a de um novo parlamentarismo. E esta, mais do que uma simples previsão, é algo por que valeria a pena lutar – não só à esquerda, mas também ao centro ou à direita, onde se achar que uma democracia deve assentar no parlamento. Um novo parlamentarismo permitiria encarar de uma vez por todas que o país não é ingovernável: o país tem, simplesmente, opiniões diferentes – e mais do que uma ou duas. Não podendo valer todas o mesmo, terão de encontrar maiorias e equilíbrios entre si.
Dir-me-ão que é difícil? Eu direi que é a vida.»
Há quem acredite que vamos ver duas luas no dia 27 de Agosto. Mas julgo que nem Nostradamus previu o que quer que seja para 27 de Setembro – o mundo continuará a rodar, com toda a naturalidade.
Nem o Google Maps me deixa lá entrar…

Chego de Paris e dou com um Watergatezinho, bem à nossa maneira. Tudo muito nervoso, gente que precisava de umas boas férias e já não as terá. Uns falam em vão, outros continuam calados quando deveriam talvez já ter dito «qualquer coisinha»? Ou nem por isso e tudo isto é pouco mais do que mau jornalismo de Verão?
Ferreira Fernandes vai brincando:
«Estará o Palácio de Belém vigiado? Espero que melhor que a varanda do Palácio do Município. Estará Cavaco Silva a ser escutado? Se sim, lá ficam sem argumentos os que defendem o aumento dos poderes presidenciais porque ninguém ouve o Presidente.»
Ficará tudo por aqui ou ainda há espaço no adro para a cauda da procissão?
(Entretanto, o grande divertimento do serão de ontem foi localizar tudo e mais alguma coisa na recente versão do Google Maps – uma parte do pais em 3D, ao nível da rua, com todos os pormenores. Mas, por muito que tenha tentado, nenhuma máquina fotográfica me permitiu que entrasse no Palácio de Belém. Aselhice minha ou Belém defende-se bem das «vistas», mesmo que talvez mal das «escutas»?)
Esqueçam os assessores de Cavaco
Pepa Nzac Gnon Ma (in Hughes de Courson, «Lambarena – Bach to Africa»)
Dança Fang, do Gabão. Canto das mulheres que regressam à família para amamentar os filhos.
18.8.09
Cogitações (6)

«Talvez certas contradições entre a democracia e a existência na vida do espírito sejam de ordem intrínseca. A democracia, que se compromete com uma exigência maioritária, aclama o homem comum. Cujo Deus é, em boa parte do planeta, o futebol. O credo das Luzes, o «melhorismo» do século XIX, que via no ensino de massa a via segura do progresso cultural, revelaram-se em boa parte ilusórios. A promoção da justiça social recuou. (...) Hoje, nas democracias de consumo e de comunicação de massa do Ocidente e do mundo em vias de desenvolvimento, deixou de ser possível separar o liberalismo político e o governo representativo do capitalismo. Houve esforços ardentes na busca de uma «terceira via». Um capitalismo humanizado e socializado obteve triunfos esporádicos em certas regiões bucólicas como a Escandinávia e a Suíça. Mas nas democracias pluralistas maduras é o dinheiro que impera. No sentido neutro e próprio do termo, as relações de poder são as de uma plutocracia mais ou menos dissimulada. O dinheiro exulta na sua omnipotência grosseira. Introduz-se em todas as frestas da existência pública e privada.»
George Steiner, Os livros que não escrevi, pp.282-283.
George Steiner, Os livros que não escrevi, pp.282-283.
Se a drª Manuela já não está com gripe…

… bem podia ir até Porto Santo dar umas aulas na universidade do Verão do seu amigo Alberto João.
Aí, mostraria, in loco e perante o país, que pactua, de facto, com esta realidade: «O ditador tem direito a retrato na parede e a grandes ovações de braço estendido quando alguém resolve perguntar: "Quem manda, quem manda?" Resposta colectiva, incluindo de Jardim: "Salazar, Salazar, Salazar."»
Também abraçaria a bandeira do Che e entoaria «Comandante» - seria o belo espectáculo que ainda falta a este so silly mês de Agosto.
(Fonte)
Imagem de marca

Haverá alguém que resista a levar de Gilbert Jeune uns tantos cadernos «réglure seyès»?
Já quase não se escreve à mão, muito menos em cadernos. Mas estes são insubstituíveis, lindíssimos e aquela espécie de quadriculado passou (aparentemente, continua a passar) pela mão de gerações e gerações de franceses. Muitas das grandes obras da literatura e da filosofia desta terra começaram em «seyès» - por mais incrível que já possa parecer a muitos, não nasceram directamente em Word.
E o cheiro dos cadernos – tal como o dos livros – não se parece absolutamente com nada.
17.8.09
Cada um terá a gripe que merece

Os telejornais franceses não contabilizam os doentes nem explicam como se deve lavar as mãos, mas revelam algumas realidades mais importantes. A poucas semanas da reabertura das aulas, mostram o estado avançado da preparação do ensino a distância, dado praticamente como inevitável, já que está decidido que uma escola será encerrada se registar, numa classe, três casos de gripe em menos de uma semana.
Através da internet e de duas cadeias de televisão, serão dadas aulas e, neste momento, estão já estabelecidos horários de transmissão por faixa etária, decididos os conteúdos e as actividades culturais complementares.
E em Portugal?...
16.8.09
Talvez o impossível

Que um Domingo de Agosto, certamente muito quente, não deixe na sombra o texto que Rui Bebiano publicou hoje em A Terceira Noite. De rebeldia se fala - em tempos de apelos sistemáticos a «realismo» e tácticas de efeito imediato, de cenários de terror perante catástrofes iminentes se a sensatez não imperar, de ataques caricaturais, mais ou menos mesquinhos, a tudo e todos que não afinem pelo mesmo diapasão.
Quando parece mais do que certo que nem o mundo nem Portugal vão acabar nos próximos dois meses, talvez valha a pena tentar entender os que têm essa evidência sempre presente na linha do horizonte.
«Ou se gere o mundo apenas à vista, mergulhado na banalidade e, mais cedo ou mais tarde, no desespero, ou se projecta o salto em frente, superando, por vezes na dimensão de um pathos incidental, a enganadora sombra. (…)
Sempre a recusa de uma gestão do presente “tal qual ele é” e a defesa da possibilidade do impossível.»
15.8.09
Isso por aí anda confuso, não?

«Maria José Nogueira Pinto ainda não o disse mas presume-se que nas legislativas de 27 de Setembro irá votar no PSD, em Lisboa: ela própria faz parte da lista, onde ocupa o quarto lugar. Mas já disse que, dias depois, nas autárquicas de 11 de Outubro, irá votar no candidato do PS. Já Moita Flores, presidente da Câmara de Santarém (eleito pelo PSD), disse que talvez vote no PS nas legislativas. Para, 15 dias depois, votar na lista do PSD que volta a recandidatá-lo para a Câmara de Santarém... (…) Há um momento em que qualquer dos dois vota de forma previsível. Uma, em Setembro, o outro, em Outubro, Maria José e Moita Flores votarão neles próprios. No dia em que um político até nisso variar, começarei a preocupar-me.»
14.8.09
Paris, 14/8 (3)

Raramente venho a Paris sem voltar ao Museu d’Orsay. É sobretudo o espaço da antiga Gare d’Orsay, magnificamente recuperado, que me fascina.
Pode-se ver neste momento, entre outras, uma extraordinária exposição de Max Ernst - «Une semaine de bonté» -, de que já tinha ouvido falar mas estava longe de esperar ver. (Até 13 de Setembro, para quem por aqui passar.) Paris, 14/8 (2)

«On trouve tout à la Samaritaine»?
Já não. Este slogan, que marcou uma célebre campanha publcitária que ficou na memória colectiva dos parisienses, já não se aplica. O grande armazém, fundado em 1869, está fechado já há alguns anos – oficialmente para obras, provavelmente para ser convertido em hotel.
13.8.09
Um outro Paris

La Défense: gosta-se ou detesta-se. Sempre gostei: durante alguns anos, fui lá, por motivos profissionais, mais ou menos uma vez por semana - quando o comboio Bruxelas-Paris e o RER não tinham segredos para mim -, e habituei-me à sua funcionalidade, à calma, a um certo tipo de harmonia.
Todas aquelas torres de escritórios, que hoje parecem quase banais, estavam longe de o ser quando se iniciou a construção, no início dos anos 70. O trânsito é subterrâneo em relação ao nível das ditas torres que ladeiam uma placa para peões, de trinta e um hectares, com estátuas, lagos e jardins – um carrossel até, que ainda hoje revi. Única no seu género, é ela que dá um certo ar artificial ao conjunto de que muitos não gostam. A parte habitacional, «enterrada» em relação à placa é, segundo me diziam, extremamente operacional e uma quase aldeia à noite e durante os fins-de-semana.
A polémica aumentou com a construção do Arco de La Défense no eixo histórico de Paris, que começa no Museu do Louvre e passa pelo Obelisco da Concórdia e pelo Arco do Triunfo. Para mim, ele é simplesmente magnífico.
Aparentemente, a construção continua, com crise ou sem ela. E o movimento também – agora mais colorido porque a globalização levou até lá africanos, asiáticos e muitos mais magrebinos.
Todas aquelas torres de escritórios, que hoje parecem quase banais, estavam longe de o ser quando se iniciou a construção, no início dos anos 70. O trânsito é subterrâneo em relação ao nível das ditas torres que ladeiam uma placa para peões, de trinta e um hectares, com estátuas, lagos e jardins – um carrossel até, que ainda hoje revi. Única no seu género, é ela que dá um certo ar artificial ao conjunto de que muitos não gostam. A parte habitacional, «enterrada» em relação à placa é, segundo me diziam, extremamente operacional e uma quase aldeia à noite e durante os fins-de-semana.
A polémica aumentou com a construção do Arco de La Défense no eixo histórico de Paris, que começa no Museu do Louvre e passa pelo Obelisco da Concórdia e pelo Arco do Triunfo. Para mim, ele é simplesmente magnífico.
Aparentemente, a construção continua, com crise ou sem ela. E o movimento também – agora mais colorido porque a globalização levou até lá africanos, asiáticos e muitos mais magrebinos.
Burqini?

Nova polémica porque uma francesa, recentemente convertida ao Islão, foi impedida de nadar numa piscina pública em burqini (tal como a foto acima mostra). O director recorre aos regulamentos nacionais que regem o acesso a este tipo de recintos e que proíbem, por razões de higiene, que se nade vestido.
Tudo tem limites, não? Além de que não considero que o uso de uma piscina esteja entre os direitos fundamentais e mais inalienáveis de um ser humano…
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