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31.12.10

Oxalás


A todos os que por aqui passam, regularmente ou não, agradeço a companhia e desejo um excelente 2011 - «la historia continúa, más allá de nosotros, y cuando ella dice adiós, está diciendo: hasta luego».

Ojalases, del Río de la Plata con amor y con esperanza

Ojalá seamos dignos de la desesperada esperanza.

Ojalá podamos tener el coraje de estar solos y la valentía de arriesgarnos a estar juntos, porque de nada sirve un diente fuera de la boca, ni un dedo fuera de la mano.

Ojalá podamos ser desobedientes, cada vez que recibimos órdenes que humillan nuestra conciencia o violan nuestro sentido común.

Ojalá podamos merecer que nos llamen locos, como han sido llamadas locas las Madres de Plaza de Mayo, por cometer la locura de negarnos a olvidar en los tiempos de la amnesia obligatoria.

Ojalá podamos ser tan porfiados para seguir creyendo, contra toda evidencia, que la condición humana vale la pena, porque hemos sido mal hechos, pero no estamos terminados.

Ojalá podamos ser capaces de seguir caminando los caminos del viento, a pesar de las caídas y las traiciones y las derrotas, porque la historia continúa, más allá de nosotros, y cuando ella dice adiós, está diciendo: hasta luego.

Ojalá podamos mantener viva la certeza de que es posible ser compatriota y contemporáneo de todo aquel que viva animado por la voluntad de justicia y la voluntad de belleza, nazca donde nazca y viva cuando viva, porque no tienen fronteras los mapas del alma ni del tiempo.


(Via Joana Manuel no Facebook)
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As Boas Festas de Mr. Sarkozy

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O Pratido Comunista Francês lançou estas falsas BF de Sarkozy, que estão a dar que falar: pede desculpa aos ciganos, promete reforma aos 60 anos, etc., etc. O vídeo ainda está no Youtube, mas já terá sido retirado do Dailymotion.

Maiis eficaz do que 100 críticas ajuizadas, na minha modesta opinião.


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O melhor de 2010

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Três viagens, seis países. E muitos projectos para 2011.
Cultivo de chá, Himalaias Orientais (Índia)

Ninho do Tigre, Paro (Butão)

Dubrovnik (Croácia)

Liubliana (Eslovénia)

Bariloche (Argentina)

Deserto de Atacama (Chile)
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30.12.10

E por vezes


E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos. E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos.

David Mourão-Ferreira, 1973

Dito pelo próprio aqui.
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Ter um PR católico dá nisto


«Há 2010 anos, na manhã de Páscoa, espantadas por verem o túmulo vazio, as mulheres piedosas foram informadas por um anjo da ressurreição de Cristo. Mais de 20 séculos volvidos, fez-se mais alguma luz sobre este episódio bíblico num fórum tão improvável como o debate televisivo entre Cavaco Silva e Defensor Moura.

"Para serem mais honestos do que eu, têm de nascer duas vezes", declarou o algarvio, esperando pôr termo, com esta frase definitiva, ao massacre a que estava a ser submetido pelo adversário minhoto, a propósito do seu envolvimento e ligações a escândalos à fraude BPN, que nos vai custar pelo menos o equivalente ao TGV Lisboa-Porto-Vigo, que tanta falta nos faz.

Através desta epifania, ficamos a saber que a honestidade de Cristo e a Cavaco estão niveladas, apesar do filho de Deus nunca ter sentido a necessidade de apregoar aos quatro ventos as suas boas acções, ao invés de Aníbal, que no debate com o camarada Chico Lopes (o que ia descalço para escola) se deixou levar pela gabarolice de recitar uma lista de benfeitorias cuja autoria reivindicou, da qual constam a compra da Autoeuropa para Palmela e a atribuição do 14.º mês ao pensionistas (ambas as proezas cometidas com o nosso dinheiro).»

Jorge Fiel, no DN.
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Blogues d’Ouro


Agradeço muito sinceramente à Ana Paula Fitas que incluiu o «Brumas» na lista de blogues que «valeu mesmo a pena ler», em 2010.

Não sei se a ideia era que isto funcionasse como as queridas cadeias blogosféricas, o que me levaria a eleger aqui a minha lista, mas peço escusas: com o que para aí vai em termos de «lutas» entre blogues, já basta assim...
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Esquerda ou direita?


Ora cá está uma descoberta que poderá fazer poupar horas, dias, séculos de discussões! «Eu sou mais de esquerda do que tu?». Isso é que era bom! Mede-se a espessura da amígdala e do cingulado anterior e acaba a conversa. Quem é de direita tem a amígdala cerebelosa mais pronunciada enquanto, à esquerda, se mostra um cérebro mais proeminente na zona do cingulado anterior.

Resta saber se «há algo na nossa atitude política que se codifica na estrutura cerebral, através da nossa experiência», ou se «há algo nesta estrutura que determina ou resulta na atitude política que preferimos».

Nem dá para imaginar o leque de aplicações de uma tal descoberta, desde utilização pela ERC para garantir pluralismos a uma análise urgente do caso Fernando Nobre. E qual seria a amplitude do espectro a obter se o PS impusesse um rastreio geral aos seus militantes?

Fiquei sem perceber se é possível a coexistência de uma amígdala pronunciada com um cingulado proeminente. Espero que sim porque daria jeito para explicar um sem número de casos que por aí circulam…

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29.12.10

Para que a memória perdure


Foi aqui muito perto, paredes meias com o Alentejo e o Algarve, que a Andaluzia andou a contar as fossas das vítimas do franquismo e anunciou ontem a localização de 614 (40% das quais desconhecidas até agora), em 359 povoações. Nelas estarão enterradas 47.399 pessoas.

O «Mapa de fosas de las víctimas de la Guerra Civil y la posguerra en Andalucía» resulta do trabalho conjunto de associações memorialistas e de universidades, através do Comissariado para a Memória Histórica da Andaluzia, e nele se detalham, para cada uma das fossas localizadas, o seu contexto histórico, assassinatos, violações, escravatura e muitas outras formas de repressão.

Em resumo, «El objetivo del trabajo es claro, evitar que el miedo, la represión o la autocensura dejen ocultos episodios clave para conocer un conflicto que, según el estudio que acompaña el mapa, "se convirtió en un deliberado y metódico exterminio del enemigo político (...) que se sirvió de la guerra como contexto y pretexto (...) y dejó un legado de miles de víctimas". En Andalucía, los represaliados por el franquismo suman 130.199.»

De uma Guerra que acabou há 71 anos.

(Fonte)
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Fixemos o nome e a cara


Xi Jinping, mais do que garantido presidente e secretário-geral do partido Comunista da China a partir de 2012, é tido como «extraordinariamente ambicioso», «autêntico elitista», pragmático e sem «motivações ideológicas», não corrupto, conhecedor do Ocidente e praticante de artes marciais budistas.

Síntese complicada neste homem de 57 anos, filho da primeira geração de revolucionários e, por esse motivo, um dos «príncipes do regime» que merecem governar a China.

Os pais foram presos como contrarevolucionários na era de Mao, e só reabilitados por Deng Xiaoping em 1978, mas o jovem Xi Jinping, «mais vermelho do que os vermelhos», aderiu ao PC chinês em 1974.

Destinado a tornar-se em breve o homem mais poderoso do seu país e do mundo, veremos em que estado os encontrará daqui a um ano. A China terá crescido 10%, é mais do que provável que Liu Xiaobo continue preso e cada chinês poderá ter milhões de amigos no Facebook se Mark Zuckerberg e os dirigentes de Pequim se entenderem quanto aos mínimos de censura que estão dispostos a admitir. Quanto estado do mundo, esse é mais dificilmente previsível.

Esperemos que o presidente Mao, no seu imponente e feiíssimo mausoléu da Praça Tiananmen, não dê uma volta para lhe recordar que «o poder político nasce do cano da espingarda».

(Fonte)
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Quando a China desceu ao inferno


Mais um excelente texto de Francisca Gorjão Henriques, no P2 do Público de ontem.

«O regime chinês chama-lhe ainda um desastre natural. O historiador britânico Frank Dikottër assegura que foi um dos maiores assassínios em massa da história da humanidade. O Grande Salto em Frente fez em quatro anos pelo menos 45 milhões de mortos, diz. E só teve um protagonista: Mao Tsetung.

É preciso ir buscar os episódios mais negros da história do século XX para haver possíveis comparações com o que aconteceu na China entre 1958 e 1962: o gulag de Estaline, o holocausto de Hitler, o genocídio de Pol Pot.

O balanço das vítimas de toda a Segunda Guerra Mundial é de 60 milhões. O regime de Mao Tsetung foi rápido e em menos tempo matou à fome, por tortura ou homicídio, 45 milhões; foi como o genocídio do Khmer Vermelho multiplicado por 20, defende Dikottër.

Mas ao contrário dos outros episódios, as verdadeiras dimensões do Grande Salto em Frente continuam a ser muito pouco conhecidas, escreve o historiador. O livro Mao"s Great Famine - The history of China"s most devastating catastrophe 1958-1962 (A Grande Fome de Mao - história da catástrofe mais devastadora da China), publicado em Setembro pela Walker & Company, é ilucidativo. Durante aqueles anos, "a China desceu ao inferno".

A abrir, a frase do "Grande Timoneiro": "A revolução não é um jantar de convívio."«

Na íntegra aqui.

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O drama de um homem bom


Deus parece ter abandonado a Bélgica, onde não está a ficar pedra sobre pedra. Sem conseguir formar governo há mais de seis meses, não sabendo sequer se sobreviverá muito tempo como país, é também um dos cantos da Europa com mais casos de pedofilia dentro da Igreja. Desta vez com estrondo: um dos seus mais prestigiados membros, o cónego François Houtard, confirmou ter abusado de um menor, há 40 anos, depois de uma prima o ter agora denunciado.

Se o nome dirá pouco à maioria dos portugueses, o mesmo não acontecerá para quem se movimente hoje em meios alteromundialistas, se recorde ainda do seu activíssimo papel durante o Concílio Vaticano II e como fundador da revista Concilium (que acompanhei desde o primeiro minuto) ou, como eu, o tenha conhecido como professor na Universidade onde ambos estudámos: Lovaina, na Bélgica.

Estava em curso neste momento uma campanha no sentido de o seu nome ser proposto como candidato a Prémio Nobel da Paz 2011, mas Houtard já pediu que a mesma cessasse imediatamente. Membro importante do Fórum Social Mundial, sempre atento à problemática da globalização, Houtard recebeu, em 2009, um prémio da UNESCO pela Promoção da Tolerância e da Não-Violência.

Devia eu proclamar escândalo e condenação por ser conhecido mais um horrendo criminoso? Talvez, mas não consigo. Hoje, não me sai da cabeça o drama que este homem bom, de 85 anos, estará certamente a viver. Vítima, antes de mais, de uma absurda lei de celibato, que o obrigou a viver como anjo que não era e o empurrou para algo que certamente não queria.
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28.12.10

Um desenho, dois caminhos


Pode-se olhar para um cartoon, sorrir e passar à frente. Ou não. Este, do Público de hoje, levou-me muito longe porque temo que, mesmo que o Estado organizasse e subsidiasse uma revolta, os portugueses ficassem em casa à espera de dias melhores ou à procura de consensos, sem serem capazes de se revoltar. Mas admito que estou num dia especialmente pessimista…
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Preocupações de candidatos presidenciais


Esclarecer se era de facto indispensável construir uma tenda, alegadamente gigante, para as comemorações do Dia de Portugal, em Viana do Castelo, e quem pagou as cantigas de Kátia Guerreiro.

Leia os detalhes desta transcendente guerra presidencial. E tenha paciência: é o que se pode arranjar!...
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200 países, 200 anos

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Comer e calar


Durão Barroso manda calar os políticos europeus sobre a dívida soberana, diz que «é, realmente, um problema ouvir tantas opiniões durante a crise» e considera, portanto, que o facto de um ministro eslovaco afirmar que Portugal e a Grécia devem sair do euro é um perigo porque «os mercados financeiros estão a ouvir».

Cavaco acha que sim, apanha a boleia, e manda calar os políticos portugueses porque conhece «o comportamento que esperamos dos nossos credores» e sabe que dizer mal deles faz subir o desemprego em Portugal.

Tudo isto é normal? Os fantasmagóricos mercados são assim tão sensíveis que se guiam por  meia dúzia de bocas largadas entre uma garfada de roupa-velha e uma dentada numa fatia de bolo-rei (passe a piada…)? Querem fazer de nós mais parvos do que já somos?

A ler: Algorithms Take Control of Wall Street (link deixado na C. de Comentários pelo drmaybe).
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27.12.10

Teria 80


Jean Ferrat morreu há cerca de nove meses e faria hoje 80 anos.

Nesta entrevista, fala com Bernard Pivot sobre a juventude e a família. Aos 11 anos, soube que o pai era judeu - antes deste desaparecer, vítima do nazismo.


Pretexto para recordar Nuit et Brouillard – para sempre associada ao seu nome.



Ils étaient vingt et cent, ils étaient des milliers,
Nus et maigres, tremblants, dans ces wagons plombés,
Qui déchiraient la nuit de leurs ongles battants,
Ils étaient des milliers, ils étaient vingt et cent.
Ils se croyaient des hommes, n'étaient plus que des nombres:
Depuis longtemps leurs dés avaient été jetés.
Dès que la main retombe il ne reste qu'une ombre,
Ils ne devaient jamais plus revoir un été


La fuite monotone et sans hâte du temps,
Survivre encore un jour, une heure, obstinément
Combien de tours de roues, d'arrêts et de départs
Qui n'en finissent pas de distiller l'espoir.
Ils s'appelaient Jean-Pierre, Natacha ou Samuel,
Certains priaient Jésus, Jéhovah ou Vichnou,
D'autres ne priaient pas, mais qu'importe le ciel,
Ils voulaient simplement ne plus vivre à genoux.

Intifada contra o neoliberalismo?


Através da Attack Espanha, cheguei a um importante artigo de Jónatham F. Moriche, significativamente intitulado 2011, ¿una intifada europea contra la dominación neoliberal?

Tentarei resumir, sobretudo através de muitas citações (demasiado longas, eu sei, mas não deu para cortar mais…) Este era o tipo de texto que, desde há algum tempo, eu esperava encontrar.

Depois da crise do mercado hipotecário nos EUA em 2008, e das respectivas consequências que contagiaram o plano económico um pouco por todo o mundo em 2009, chegou finalmente a crise política no ano que agora termina. Mas enquanto até há relativamente pouco tempo apenas foram atingidas minorias pobres e mais ou menos periféricas, as vítimas são agora «los acomodados habitantes del centro, privilegiados beneficiarios del gran pacto social posterior a la II Guerra Mundial, que mediante importantes concesiones de las élites del capital a las fuerzas del trabajo (en materia de libertades civiles, derechos laborales o servicios públicos) consolidó una asentada paz social de treinta años en el corazón del sistema-mundo capitalista.»

Perante esta realidade, Moriche estranha a apatia da população europeia perante a devastação das suas condições de vida e o descrédito das instituições políticas democráticas. E não exclui a esquerda: «La izquierda europea se interroga pasmada ante este mórbido estancamiento de la iniciativa ciudadana ante su propia depauperización económica y sojuzgamiento político.» Esquerda que, em vez de enfrentar esta crise do capitalismo, lhe responde com a sua própria crise «que es no tanto el empuje de sus adversarios como su propia debilidad, fragilidad y dispersión lo que está haciendo posible que de esta crisis esté emergiendo, no una alternativa frente al neoliberalismo, sino una reforzada y endurecida hegemonía neoliberal».

Se a Espanha se destaca na referida apatia, não está sozinha: «La abismal apatía española no sirve, afortunadamente, para retratar al conjunto de la sociedad civil y la clase trabajadora europea, pero tampoco en Grecia, Francia, Italia o el Reino Unido, donde la respuesta en la calle ha alcanzado picos de notable intensidad, la izquierda ha conseguido embridar la deriva de políticas de austeridad y recortes sociales, ni mucho menos imponer un rumbo alternativo hacia un proyecto social y económico propio. ¿Por qué? La mayor parte de las principales organizaciones de la izquierda europea permanecen ancladas en posiciones que, si es que una vez fueron válidas, en tiempos mejores de abundancia material y estabilidad institucional, ya no lo son, y difícilmente volverán a serlo en un futuro cercano».

«El completo fracaso de los líderes del ala más sensata y pactista del neoliberalismo (Barack Obama en EEUU, José Luís Rodríguez Zapatero en España, José Sócrates en Portugal…) pone en evidencia, hasta para sus más sinceros y bienintencionados defensores, la inutilidad de las estrategias de conciliación, y la “traición de la socialdemocracia” ya no es un reproche de la izquierda revolucionaria.»

Os próprios sindicatos, agrupados na sua Confederação Europeia, continuam «sin reconocer esa avanzada agonía democrática, convocando pálidas manifestaciones y disciplinados paros laborales absolutamente inofensivos, para forzar rondas negociadoras absolutamente ineficaces frente a gobiernos que casi nada pueden ya negociar porque casi nada pueden ya decidir».

Assim sendo, «sólo el salto de las grandes mayorías sociales y de sus organizaciones representativas a una dinámica abierta y decididamente insurreccional puede forzar un nuevo reparto de cartas en el titánico conflicto de clases que se pretende encubrir bajo el espeso manto de cifras de esta crisis. (…) La desobediencia y la sedición no son delitos sino obligaciones cívicas ante instituciones y gobiernos que contravienen sus propios principios fundacionales (…). No se trata, pues, de lanzar una insurrección, sino de defenderse con medios proporcionados a una opresión tirânica».

«No será como en la Inglaterra de 1642, ni como en la Francia de 1789, ni como en la Rusia de 1917, porque la Historia nunca se repite de forma idéntica a sí misma por muchas analogías parciales que podamos encontrar entre aquellas y estas circunstancias históricas.»

Não valerá a pena, julgo eu, entrarmos nas habituais querelas, para já dispensáveis porque provisoriamente inúteis, de saber se a rebelião e a revolta levarão a algo que deva mais tarde ser apelidado de «revolução» (assumindo-se que todas as revoluções começam com revoltas sem que estas desemboquem necessariamente naquelas), mas o que parece urgente é não aplaudirmos, mesmo que secretamente, a reprovável brandura dos nossos ordeiros costumes, que nos mantém confortavelmente fora da rua. E, sobretudo, tomarmos desde já partido, como muito bem lembrou o Zé Neves, numas Boas Festas que poderão ter passado despercebidas, entre o brilho das luzes natalícias e as compras do Black Friday no Corte Inglés: «E que conversa é a nossa que quando vemos confrontos políticos nas ruas de Atenas ou de Londres ou de Roma ou de Maputo nos limitamos a falar do desespero de quem se revolta e só depois tomamos (quando tomamos) partido?» Nem mais.

P.S. - Sobre Portugal, ler: "Explosão" social poderá suceder à estupefacção, por Boaventura Sousa Santos e António Barreto.
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Comunismo / Capitalismo


  • 1949 – A maioria dos intelectuais acreditava que o comunismo salvaria a China.
  • 1969 – Os mesmos intelectuais acreditavam que a China (com a sua Revolução Cultural) salvaria o comunismo.
  • 1979 – Deng Xiao Ping percebeu que só ao capitalismo salvaria a China.
  • 2010 – O mundo inteiro acredita que só a China pode salvar o capitalismo.
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Talvez com magia


«Tudo indica, a crer na Oposição, que os "animadores sinais de recuperação económica" que o primeiro-ministro garantiu, na sua mensagem de Natal, existirem no país sejam como as armas de destruição maciça que havia no Iraque (e de que o actual presidente da Comissão Europeia, à altura recepcionista nos Açores, assegurou ter visto provas), e que iremos passar os próximos anos inutilmente à sua procura.»

Manuel António Pina, no JN.
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26.12.10

Sem búzios nem cartomantes

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No chamado coração da Europa

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Um bom resumo da história da Bélgica, que ajuda a compreender a situação a que se chegou. Sem que seja possível entrever o que o futuro reserva.


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O preço dos nossos «gadgets»»

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Foxconn, uma fábrica da China de onde sai um grande número de iPhones, foi notícia há alguns meses pelas piores razões: o número de operários que se suicidaram num curto espaço de tempo. Vale a pena ver este vídeo e ler o artigo que se segue (transcrito na íntegra por ser de acesso restrito).


A ler:

Foxconn, l’envers du High-tech

Jordan Pouille - publié le 23/12/2010

Les portables fabriqués par Foxconn seront nombreux au pied du sapin. Mais la notice restera muette sur les conditions de travail…

La journée commence toujours très tôt à Longhua, cette ville à une demi-heure de Shenzhen, une métropole industrielle du sud de la Chine. D’un pas alerte, des dizaines de milliers d’ouvriers quittent leurs dortoirs, simultanément. Il n’est pas 7 heures. Ils affluent en silence, un bol de nouilles au bœuf à la main, vers la porte nord de l’usine, ce gigantesque bunker gris de 3 km 2 tapissé de filets antisuicides, censés dissuader les travailleurs de se défenestrer. Mais, rien n’y fait. Le 4 novembre, un autre ouvrier s’est jeté du haut de son dortoir.

En 2010, 14 ouvriers travaillant chez ce géant chinois de l’électronique se sont suicidés. À tel point qu’un rapport de 83 pages, réalisé par des chercheursde 20 universités de Chine, de Taïwan et de Hongkong, a dénoncé les conditions de travail « inhumaines » de ses 920 000 employés, dont 300 000 à Longhua. Le rapport, faisant état d’insultes et de coups des contremaîtres, d’horaires démentiels (jusqu’à 80 et 100 heures par semaine !) et de dortoirs entassés, osait même une comparaison « avec les camps de concentration ». Mise sous le feu des projecteurs, la direction de l’usine a annoncé toute une série de mesures (fin des brimades, ouverture de centre de consultation, paiement des heures supplémentaires), dont une hausse des salaires de 67 % à partir du 1er octobre. L’occasion de voir si ces promesses ont été tenues sur le terrain. Sur le chemin de ce plus grand atelier du monde, nous faisons la connaissance de Ting Liao. Elle a 17 ans, vit dans une chambre de dix lits, au 12e étage du dortoir A8 et travaille dans l’atelier N2. Elle porte la veste Foxconn rose et gris, les couleursde la ligne d’assemblage d’Apple, où on l’a affectée il y a deux ans. Tout en marchant, la jeune fille nous confirme que sa paie a été fortement aug¬mentée début novembre, confor¬mément aux promesses estivales de Terry Gou, le PDG milliardaire : « En comptant les heures supplémentaires, je gagne 3 200 yuans (352 €), contre 1 400 yuans (154 €) en juin.»


25.12.10

Natal cancelado

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Natal num país digitalizado?


É um ritual que cumpro desde há alguns anos: Alfa Lisboa – Porto, 24 de Dezembro, 14:00. Sempre na mesma carruagem, iria até jurar que, muitas vezes, no lugar 55 ou 56. Lotação sempre esgotada, no dia do ano em que muitas famílias, habitualmente distribuídas pelo Sul e pelo Norte deste minúsculo pais, tentam reunir-se a tempo do peru ou do bacalhau com batatas e pencas.

Mas nem tudo se tem mantido ao longo do tempo. A pouco e pouco, os meus companheiros acidentais de viagem começaram a substituir o Público, a Bola ou os velhos livros em papel, por um ou outro PC. Até que, este ano, não havia uma única pessoa à minha volta que não estivesse mais ou menos digitalizada - com portáteis de todos os tamanhos e feitios (até um ThinkPad, já não da IBM mas da chinesa Lenovo, evidentemente…), iPod’s, iPhone’s e seus clones ou novíssimos iPad’s. Online ou não, porque o wi-fi só virá, quem sabe, com o sebastiânico TGV… Impressionante!

Algumas horas mais tarde, perto da árvore de Natal, tudo volta à mais normal das tradições. Ou não: as crianças já não se escondem na chaminé para verem chegar o Pai Natal, preferem esperar por ele ao teclado de um computador.
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Dia de era bom


DIA DE NATAL

Hoje é o dia de era bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.

É dia de pensar nos outros- coitadinhos- nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.

Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
Entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.

De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)

Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.

Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.

Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.

A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra- louvado seja o Senhor!- o que nunca tinha pensado comprado.

Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.

Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.
De manhãzinha,
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.

Ah!!!!!!!!!!

Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.

Jesus
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.

Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
Tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.

Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.

Dia de Confraternização Universal,
Dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.

António Gedeão
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24.12.10

O cartão de Boas Festas deste ano, sem qualquer espécie de dúvida

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Para recordar de hoje a um ano


«Sócrates e Cavaco desejaram-se Boas Frestas. Frestas, fendas, fissuras, rachas... Sócrates falou um minuto, Cavaco falou dois minutos (ele agora vale sempre por dois, candidato e Presidente). (…)

Cavaco desejou aos ministros "um ano tão próspero quanto possível, tão feliz quanto possível"... Mais agoirento era impossível. No fim, Sócrates convidou Cavaco a fazer a fotografia no meio do Governo, e todos sorriram. Só faltou o ministro das Finanças e faltar as finanças foi a única coisa sincera no meio de tudo isto.»

Ferreira Fernandes, no DN.
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23.12.10

Ladainha dos póstumos Natais


Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito

David Mourão-Ferreira, in Cancioneiro de Natal.

DITO PELO PRÓPRIO AQUI.
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Carta aberta a Obama


Dos Repórteres Sem Fronteiras.

Open letter to President Obama and General Attorney Holder regarding possible criminal prosecution against Julian Assange

Published on 17 December 2010

President Barack H. Obama
The White House
1600 Pennsylvania Avenue, NW
Washington, DC 20500

Attorney General Eric Holder
U.S. Department of Justice
950 Pennsylvania Avenue, NW
Washington, DC 20530

Paris, December 17, 2010

Dear President Obama and Attorney General Holder,

Reporters Without Borders, an international press freedom organization, would like to share with you its concern about reports that the Department of Justice is preparing a possible criminal prosecution against Julian Assange and other people who work at WikiLeaks.

We regard the publication of classified information by WikiLeaks and five associated newspapers as a journalistic activity protected by the First Amendment. Prosecuting WikiLeaks’ founders and other people linked to the website would seriously damage media freedom in the United States and impede the work of journalists who cover sensitive subjects.

It would also weaken the US and the international community efforts at protecting human rights, providing governments with poor press freedom records a ready-made excuse to justify censorship and retributive judicial campaigns against civil society and the media.

We believe the United States credibility as a leading proponent of freedom of expression is at stake, and that any arbitrary prosecution of WikiLeaks for receiving and publishing sensitive documents would inevitably create a dangerous precedent.

Members of the faculty at the Columbia University Graduate School of Journalism wrote to you recently warning that “government overreaction to publication of leaked material in the press has always been more damaging to American democracy than the leaks themselves.” We fully agree with this analysis.

The ability to publish confidential documents is a necessary safeguard against government over-classification. We urge you to use this debate to review the government’s policy of classifying documents in order to increase transparency in accordance with the promises made by the administration when it first assumed office.

We thank you both in advance for the attention you give to our observations.
Sincerely,

Jean-François Julliard Secretary-General
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É o que se pode arranjar...

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Globalização, esse bode expiatório


Tornou-se um lugar-comum considerar como provada a incompatibilidade entre globalização (inevitável), por um lado, e salvaguarda de sistemas de protecção social e equilíbrio na distribuição das riquezas, por outro, anunciando-se portanto a derrota fatal destes últimos. Não é assim, como bem se explica neste texto:

Os excertos que retiro não dispensam a leitura na íntegra.

«Por un lado, esa afirmación implica dar como inmutable el actual orden de cosas, suponer que el modo en que actualmente se regulan y gobiernan los fenómenos sociales no tiene alternativa ni puede funcionar de otro modo. Es decir, plantear los problemas sociales como si estos se presentaran siempre dentro de unos mismos valores de un constante eje de coordenadas. (…)

La realidad, por tanto, es que el tipo de organización socioeconómica de nuestro tiempo, el tipo específico de globalización dominante basada en la desigualdad, en el privilegio de las relaciones de mercado y en la plena libertad de movimientos del capital, es lo que hace inviable la extensión de los sistemas de bienestar social porque estos lógicamente requieren recursos que implicarían una merma sustancial del excedente que ahora se apropian en mucha mayor medida que en otras épocas los propietarios de capital. (…)

Un argumento incorrecto porque lo que, por el contrario, habría que plantear en primer lugar serían las exigencias de bienestar que habría que garantizar en todo el mundo para que la población pudiera satisfacer sus necesidades y a partir de ahí determinar los procesos que podrían garantizarla. (…)

La competitividad que se ha generalizado en los últimos decenios a través de los salarios bajos, de la precariedad en el trabajo y la inseguridad generalizada responde a una lógica que concentra mucho la renta y la riqueza en cada vez grupos más pequeños de la población pero a la larga generalizadamente empobrecedora. (…)

En definitiva, la incompatibilidad no se produce entre el Estado de Bienestar y la globalización, sino entre la globalización bajo las políticas neoliberales y el bienestar humano. Y la elección no puede ser la que predomina, sacrificar el bienestar para salvar el beneficio de unos pocos, sino limitar el beneficio para garantizar el bienestar de todos.

Una elección que, en todo caso, no pueden resolver los economistas sino que tiene que imponer la ciudadanía.»
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Não é Jingle Bells (3)

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22.12.10

Vertiginoso

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(Via Virgílio Vargas no Facebook)
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Dois sistemas ou nem por isso


No dia em que se confirma que a China está disposta a abrir os cordões à bolsa para comprar uma parte da dívida portuguesa, vale a pena dar uma vista de olhos a dois excelentes dossiers publicados em Business Insider:

A China tem mostrado ao mundo o mais espectacular crescimento económico da história. Tirou milhões de pessoas da pobreza num curto período de tempo e continua a ser um dos países com maior património cultural.

Mas o governo distorceu o sistema económico nas últimas décadas, o que provocou catorze excessos perigosos que se alimentam uns aos outros.


O país expande-se loucamente e, embora isso possa parecer excelente a curto prazo, há muitos sinais que indicam que o rumo que está a ser seguido no plano económico é insustentável.

O próprio governo tem consciência do problema, mas tem de manter o equilíbrio entre essa preocupação e as expectativas da população e, sobretudo, ter em conta a necessidade de criar massivamente postos de trabalho.

Se a China cair do céu, a América não ficará imune…
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É o que está a dar


«Ainda há dias o jovem "boy" encarregado, na Secretaria de Estado da Segurança Social, das exéquias do falecido "Estado Social" se gabava de ter conseguido, em poucos meses, tirar o Subsídio Social de Desemprego a 10 291 desempregados e o Rendimento Social de Inserção a mais 8 321.

E ontem o Ministério das Finanças anunciava festivamente, conta o DN, "uma luz ao fundo do túnel", com "os cortes nos apoios sociais aos desempregados e crianças (...) a ser decisivos para a contenção nos gastos e, logo, para o alívio no défice".

Anda o Governo a fazer pobres para Cavaco vir aproveitar-se desse esforço!»

Manuel António Pina. Na íntegra, aqui.
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21.12.10

Revolução tecnológica?


Jorge Nascimento Rodrigues, que leio há muitos anos no Expresso e «encontro» agora diariamente no Facebook, acaba de publicar uma interessante entrevista a Peter Cohan.

Bem em voga na década de 90, Cohan publicou, em 1997, uma obra que JNR refere e que eu então li, e utilizei, por razões profissionais: The Technology Leaders: How America's Most Profitable High Tech Companies Innovate Their Way to Success.

Razão mais do que suficiente para o meu interesse em tentar interpretar o relativo pessimismo de Cohan que não vê emergir a inovação tecnológica indispensável para que a economia saia do actual marasmo - nada que se compare ao que se passou «nos anos 1960 com os computadores de grande porte, depois nos anos 1970 com os minicomputadores, nos anos 1980 com os computadores pessoais e nos anos 1990 com a Internet».

Tendências promissoras? Certamente: serviços e aparelhos ligados à utilização das redes sociais na Internet, computação em nuvem (cloud computing), cruzamento das tecnologias de informação com a medicina e utilização de tecnologias «limpas». Mas não se sente ainda uma verdadeira «onda».

Nestes tempos de crise, para Cohan, «a tendência mais forte na obtenção de capital é recorrer aos chamados investidores «anjos», a que alguns chamam de business angels. Trata-se de gente muito rica - que, por vezes, inclusive se junta em grupo - que quer investir em pequenos e novos negócios, sem toda essa intrusão dos homens do capital de risco». Business angels…

Próximos capítulos a serem seguidos com atenção.
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Batalha naval à vista


Na íntegra, o texto apresentado ontem por Ana Gomes:
Submarinos e contrapartidas - queixa à CE
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Não é Jingle Bells (2)

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20.12.10

Cavaco, personagem de «Conta-me como foi»?


Só hoje vi o «Formulário Pessoal Personalizado» que Cavaco Silva preencheu, em impresso fornecido pela PIDE, em Dezembro de 1967.

Muito se tem escrito sobre o assunto, por exemplo que todos os candidatos a funcionários públicos eram obrigados a fazê-lo. FALSO: eis a minha «Declaração de Compromisso», assinada em 1965, quando entrei como docente para a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Não fui à António Maria Cardoso, tudo se passou na Reitoria – o processo era este e apenas este. (Previamente, a polícia fazia o seu trabalho de casa e autorizava, ou não, a Universidade a contratar, como tive ocasião de verificar, muitos anos mais tarde, nos meus processos que estão na Torre do Tombo.)


Portanto, não vale a pena dizer, como vi escrito por aí, que daquele inevitável acto dependiam as sopas do jovem que já tinha então subido a pulso alguns degraus da sua difícil escada, até porque o mesmo já era, à época, assistente universitário em Económicas.

Adiante, portanto. Terá precisado de consultar documentos secretos da NATO e foi-lhe pedido que preenchesse o tal Formulário? Mais do que provável. Mas não se lembra? Alguém se esquece de uma coisa destas? Mais do que improvável.

O documento pode ser lido aqui com nitidez. E é mesmo no fim que se encontra a tal «Observação», obviamente facultativa, que revela e retrata o carácter de quem diz de si próprio, na terceira pessoa:
«O sogro casou em segundas núpcias com Maria Mendes Vieira com quem reside e com quem o declarante não priva.»

Ninguém é obrigado a ter um passado antifascista para ser digno de respeito. Mas perde o direito a sê-lo quando é capaz de uma sabujice destas e deixa de ser suficientemente «decente» para presidir aos destinos de um país. Ainda por cima, coloca-se no plano de um moralismo barato e bacoco que, ao contrário do que muitos pensam, não era lei geral no fim da década de 60, no meio universitário de Lisboa.

Fica-lhe colado à pele um retrato digno dos mais retrógrados personagens de «Conta-me como foi».

P.S. - A ler: A pulsão da vidinha, por Miguel Cardina.
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A grande nobreza de ir e ficar contente


A fotografia fala por si. Comentários para quê...


«Sorte??? Deseja-se sorte à Comunidade Vida e Paz?...

(Foto: capa de Correio da Manhã)

P.S. – Se tem conta no Facebook, e não quer continuar a ver estas caras durante os próximos cinco anos, junte-se aos seus e esteja presente no «dia em que não vou votar no cavaco silva» - 23/1/2011.
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Isto anda tudo ligado


César das Neves, Deus e as dívidas à banca, num Conto de Natal que se faz favor…

«Tudo o que tu tens, do teu cérebro à tua mulher, passando pelo sistema solar e o teu emprego, não é, nem nunca foi, teu. É do seu verdadeiro dono e foi-te confiado durante um bocadinho de tempo. Mais: como sabes bem, não se trata de um único empréstimo feito ao nascer que se paga na morte, porque estás permanentemente a receber novos benefícios. Mesmo que vás pagando os juros pontualmente, a tua dívida vital aumenta todos os dias exponencialmente. (…)

Por isso, a questão central da vida não é cumprir regras, ser bonzinho, preocupar-se com os outros. É ser realista e compreender que devemos tudo. Tudo o que somos e temos, devemo-lo a Outrem. A única forma verdadeira de viver é numa total e profunda dependência deste Deus que nos dá tudo. (…)

O problema central da vida é a dívida absoluta, esmagadora, totalitária que temos perante o banco divino. Que, felizmente, nos ama mais a nós que nós próprios.»

Tal como os outros bancos?

Na íntegra.
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Não é Jingle Bells (1)

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19.12.10

Viagens impossíveis


Os viciados em nomadismo aéreo descobrem novos aeroportos, assistem à transformação dos antigos (quem viu o de Barajas e quem o vê!!!...), deixam de andar apenas em intermináveis passadeiras rolantes e passam a recorrer também a comboios ou a autocarros para uma simples mudança de terminal, habituam-se a ficar longas horas em terra por causa de cinzas ou de greves, ocupam o tempo a ler, a tentar usar wi-fi ou a preencher livros de Sudoku. Conhecem as lojas e os cantos à casa, sobretudo em Madrid e em Frankfurt, paragens quase sempre obrigatórias para quem vive num país europeu excêntrico e com uma oferta «patrícia» reduzida.

Mas, se os aeroportos crescem, há grandes companhias aéreas que, pura e simplesmente, desaparecem. Que a Varig, tão lendária pela excelência do seu serviço, já não atravesse todos os dias o Atlântico, que não se voe para Bruxelas na Sabena nem na TWA para Nova Iorque, que a Swissair se tenha desgovernado, são realidades que eram quase inimagináveis há vinte anos ou muito menos ainda. E se a Pan Am «ressuscitou», e vai agora na sua terceira encarnação, nunca mais será possível ir de Vancouver a Sydney na Canadian Pacific, nem sobrevoar as revoltas nas ruas de Atenas a bordo de um avião da Olympic Airlines.
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Instruções para subir uma escada


Um conto de Julio Cortázar.

«Nadie habrá dejado de observar que con frecuencia el suelo se pliega de manera tal que una parte sube en ángulo recto con el plano del suelo, y luego la parte siguiente se coloca paralela a este plano, para dar paso a una nueva perpendicular, conducta que se repite en espiral o en línea quebrada hasta alturas sumamente variables. Agachándose y poniendo la mano izquierda en una de las partes verticales, y la derecha en la horizontal correspondiente, se está en posesión momentánea de un peldaño o escalón. Cada uno de estos peldaños, formados como se ve por dos elementos, se sitúa un tanto más arriba y adelante que el anterior, principio que da sentido a la escalera, ya que cualquiera otra combinación producirá formas quizá más bellas o pintorescas, pero incapaces de trasladar de una planta baja a un primer piso.

Las escaleras se suben de frente, pues hacia atrás o de costado resultan particularmente incómodas. La actitud natural consiste en mantenerse de pie, los brazos colgando sin esfuerzo, la cabeza erguida aunque no tanto que los ojos dejen de ver los peldaños inmediatamente superiores al que se pisa, y respirando lenta y regularmente. Para subir una escalera se comienza por levantar esa parte del cuerpo situada a la derecha abajo, envuelta casi siempre en cuero o gamuza, y que salvo excepciones cabe exactamente en el escalón. Puesta en el primer peldaño dicha parte, que para abreviar llamaremos pie, se recoge la parte equivalente de la izquierda (también llamada pie, pero que no ha de confundirse con el pie antes citado), y llevándola a la altura del pie, se le hace seguir hasta colocarla en el segundo peldaño, con lo cual en éste descansará el pie, y en el primero descansará el pie. (Los primeros peldaños son siempre los más difíciles, hasta adquirir la coordinación necesaria. La coincidencia de nombre entre el pie y el pie hace difícil la explicación. Cuídese especialmente de no levantar al mismo tiempo el pie y el pie).

Llegado en esta forma al segundo peldaño, basta repetir alternadamente los movimientos hasta encontrarse con el final de la escalera. Se sale de ella fácilmente, con un ligero golpe de talón que la fija en su sitio, del que no se moverá hasta el momento del descenso.»
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Na hora de dizer «Basta!»


Que seja dito mil vezes, se necessário for.

«Ni en la peor de nuestras pesadillas pudimos muchos soñar lo que nos está ocurriendo. (…) Ningún autor de ciencia ficción del pasado previó tanto. (…)

El histórico ex presidente socialista portugués, Mario Soares, lanza un grito, llamando a los dirigentes de su país y de España a plantar cara a la UE. Una Europa que ha traicionado el espíritu que la constituyó y hasta ahora la caracterizó, que pierde poder en hemorragia imparable, según sus propios eximios dirigentes reconocen, y que ni bailando en la cuerda con un pie, “tranquilizan” a sus amos los mercados. (…)

España y Portugal se cuentan entre las víctimas de esta estrategia obsoleta delineada por la señora Merkel y por el BCE, con el concurso de la Comisión Europea. Han sido ellos quienes nos han impuesto medidas durísimas para nuestros respectivos pueblos. No hemos podido evitarlas, de momento, para no vernos asfixiados financieramente.

Pero no debemos ni podemos quedarnos callados. Es hora de que suene nuestra voz, de decir basta y de exigir un debate europeo serio y transparente, para que el pueblo europeo comprenda hacia dónde lo están llevando los actuales líderes europeos.»

Na íntegra aqui.
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18.12.10

Dos cortes como não solução

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(Via André Freire no Facebook)
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Como é que isto vai acabar?



Que receitas terá a aliança FMI/EU para lidar com situações deste tipo, em democracia? Retira o dinheiro que já lá pôs? Expulsa a Grécia do euro? Da própria EU? Manda lá a senhora Merkel? À espanhola, obriga o governo grego a militarizar todos os grevistas? Envia tropas da NATO? Bombardeia a Acrópole?

Perguntar não ofende.
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Se são dois elefantes a dançar o tango...


Quando Teixeira dos Santos vai à China tentar vender a dívida portuguesa, ou mesmo quando Obama se desloca à Índia, acompanhado por 200 empresários, e assina contratos no valor de 10.000 milhões de dólares, «vemos» a importância crescente que têm, para o Ocidente, estes dois países asiáticos.

Talvez nos escape, no entanto, o profundo significado da aproximação entre eles, concretizada, por exemplo esta semana, na visita do primeiro chinês a Nova Deli, ainda com mais empresários do que Obama (300…) e com valor superior de negócios fechados (16.000 milhões de dólares). Os dois vizinhos, que estão longe de ter cicatrizado muitas feridas passadas e algumas presentes, procuram ultrapassá-las no plano dos negócios e comprometem-se a que os intercâmbios comerciais atinjam 100.000 milhões de dólares em 2015 - número avassalador quando em 2001-2002 não ultrapassaram 3.000 milhões.

Com mais de um terço da população mundial, taxas de crescimento quase inimagináveis e esta força conjunta, não é difícil prever a força real que poderão representar no mundo, muito em breve.

«Uma forte aliança entre a Índia e a China contribuirá para uma paz, uma estabilidade, uma prosperidade e um desenvolvimento duradoiros na Ásia e no mundo», terá dito o primeiro-ministro indiano.

Será?

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17.12.10

Do nosso imaginário


Morreu Blake Edwards, o realizador para sempre ligado à Pantera Cor-de-Rosa, ao inspector Clouseau de Peter Sellers, também a Audrey Hepburn (Breakfast at Tiffany's…) e a Julie Andrews com quem estava casado há mais de 40 anos.

O primeiro:


Da transparência


Don Tapscott, especialista em economia digital, provavelmente e de novo, alguém que pouco diz à maioria dos portugueses, em entrevista publicada em El País:

«Ahora mismo Wikileaks está dando información de países. Lo siguiente son los bancos y las grandes corporaciones. Entonces sí que vamos a hablar, mucho más, de transparencia. Va a cambiar por completo la relación entre las empresas y sus clientes. Van a ser más responsables con la sociedad. Gobiernos y empresas tienen derecho al secreto, por supuesto, no se trata de contar todo pero sí de hacerlo mejor, de ser responsables con la sociedad. Los que ponen en el punto de mira a algunos cables concreto o Assange se confunden. Tiene que servir para reflexionar y que cada institución reflexione sobre su integridad. Como dije, el la luz aclara todo. Habrá regulación ciudadana. La sociedad controlará la calidad de los servicios. Imagina una sociedad formada y con acceso a la información. Eso sí será un mundo mejor.»
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16.12.10

Cada um dança como pode

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WikiLeaks, a árvore e a floresta


Não sei se há um antes e um depois de WikiLeaks, mas estamos certamente perante um fenómeno de uma grande complexidade, com impacto ainda longe de poder ser avaliado. São muitas as facetas de tudo o que está em jogo e é neste momento absolutamente evidente que cada um sublinha mais os aspectos negativos, ou os positivos, segundo a posição do seu periscópio pessoal.

Uma das questões mais frequentemente levantadas é a fiabilidade dos conteúdos que vão sendo divulgados pelos diferentes jornais a que a WikiLeaks fornece documentos. Mais exactamente, a possibilidade de os autores dos mesmos terem inventado o que escreveram, por pura desonestidade ou por um qualquer motivo pessoal escondido, terem aviado uns mails sob o efeito de um copito a mais ao jantar ou – e este é o motivo mais frequentemente referido – fantasiarem por quererem mostrar serviço.

Haverá de tudo, sem qualquer espécie de dúvida. Mas, se for verdade que estão em causa 250.000 documentos que não foram fabricados pelo WikiLeaks, e se admitirmos que os diplomatas autores dos mesmos não são, de um modo geral, elementos de bandos irresponsáveis mais ou menos criminosos (antes pelo contrário…), há que admitir, como hipótese de trabalho, que vêm aí muitos gigabytes de informação consistente e verdadeira.

É sabido que, em todos os arquivos de actividades que impliquem qualquer forma de espionagem ou de bufaria, há quem invente factos para mostrar serviço.

Só para citar um exemplo caseiro, os arquivos da PIDE, da Torre do Tombo, demonstram-no bem. É sempre útil falar de situações concretas e exemplifico com um caso pessoal. Numa das pastas que me diz respeito, figuro na lista das pessoas que organizaram e estiveram presentes na vigília da Capela do Rato, no dia 31 de Dezembro de 1972, a qual deu origem a várias prisões e à criação de um Processo autónomo onde o meu nome também figura. Acontece que não pus lá os pés, nem estava em Portugal nesse dia. Já me vi referida em textos que elencam os participantes e, há dois ou três meses, tive de aturar um historiador zeloso que, durante mais de uma hora, insistiu em me extorquir pormenores que eu saberia certamente, é verdade, se tivesse feito parte da organização do evento, e que seriam preciosos para determinados objectivos que o obcecam. Julgo que desligou o telefone convencido de que eu estava a mentir-lhe e que tinha mesmo participado na vigília do Rato…

E daí? Porque alguns agentes e informadores da PIDE inventavam quando não sabiam ou não viam, desvaloriza-se os arquivos da Torre do Tombo como um todo? Desconfia-se que a maioria dos documentos é falsa ou, pelo contrário, que a falsidade é excepção? Os historiadores desistem de os explorar à primeira incoerência que encontram? Claro que não!

É sempre a mesma história da árvore e da floresta…
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