18.6.10

Nem só de calendários vive o homem


A possível diminuição do número de feriados em Portugal, e a sua eventual colagem a fins-de-semana, quase rivalizam com o Mundial em número de notícias e comentários. Mais um.

Poderia ir pela via das laicidades, mas não me apetece e parece-me totalmente salomónica a opinião (ou decisão, não entendi bem) de cortar um número igual de feriados laicos e religiosos. Tal como considero demagógica a afirmação do chefe da UGT que declara ser absurdo aumentar o tempo de trabalho quando aumenta o desemprego. E lamentável a ignorância de excelsos deputados e bloggers de esquerda, pura e dura, que gritam aos quatro ventos que seria inimaginável que Portugal fosse o único país no mundo a não celebrar o Dia do Trabalhador no 1º de Maio: pelo menos em Inglaterra, nem sei desde quando mas há muitos anos, é na primeira 2ª feira de Maio que ele é comemorado.

Qualquer que seja a redução e os critérios quanto a mobilidade, mudar o Natal é mexer a tal ponto nos usos e costumes que parece absurdo, 1 de Janeiro é dia de ressaca mundial e o resto é fantasia. Sobre feriados religiosos, «passo»: entenda-se quem de direito para manter quais e quando.

Sobre os outros, avanço um critério, tão discutível como todos, certamente mais absurdo do que muitos, mas que é o meu: considero inadmissível que sejam «transladados» aqueles que assinalem acontecimentos de que haja ainda protagonistas vivos. Explico melhor: enquanto existir algum sobrevivente do 5 de Outubro (deve havê-los, pelo prolongamento da esperança de vida…) e enquanto todos os que vivemos o 25 de Abril não morrermos, essa datas são tão «sagradas», para quem as viveu, como a do nascimento de um filho. É-me perfeitamente indiferente recordar dois ou três dias mais tarde a morte de Camões ou a Restauração de 1640, mas nunca o será confundir a última semana do marcelismo, ou a ansiedade pela libertação dos presos em Caxias a 26, com as horas passadas nas ruas no dia 25. Pieguice, sentimentalismo bacoco? Quero lá saber! São também os afectos que é necessário preservar, a vida não é um compêndio actualizado da velha História do pai Mattoso.
...

5 comments:

Helena disse...

Na Alemanha há apenas um feriado nacional não religioso: 3 de Outubro (dia da assinatura do tratado da reunificação) - que substitui, na Alemanha Ocidental, o 17 de Junho (por causa da sublevação na Alemanha Oriental, em 1953, que foi reprimida com toda a violência).
Curiosamente, também se chamava "dia da unidade alemã" - de modo que o ano de 1990 teve dois feriados, a 17 de Junho e a 3 de Outubro, por conta dessa unidade.
Depois há o 1º de Janeiro e o 1º de Maio, e uns quantos católicos e/ou protestantes.

Às vezes pergunto-me se um país precisa mesmo de festejar com feriados vários momentos importantes da sua história. O 1º de Dezembro, então, parece-me ridículo.

Compreendo bem o argumento "enquanto estiverem vivos". Mas numa perspectiva de futuro, não teria problemas em meter tudo no mesmo saco, e chamar-lhe "dia de Portugal". Somos nós: com independência e república, revolução e comunidades no estrangeiro.

(Mas claro que agora me podem perguntar porque é que não se mete Natal e Páscoa no mesmo dia, que afinal de contas milagres é com religião...)

Joana Lopes disse...

Obrigada pelo comentário, Helena.
Eu nem quis discutir tanto se há feriados a mais ou não (julgo que sim), mas esta preocupação de os «arrumar».

Quanto à sua proposta de juntar todos os não religiosos (se bem a entendi)num Dia de Portugal, não gosto mesmo nada: transforma-se-ia facilmente no tal Dia da Raça. E então, indo por aí aí, suprimam-se todos os feriados religiosos e crie-se um Dia dos Crentes... (que, já agora. incluiria os membros das outras religiões).

Helena disse...

:-)
Eu sabia que me arriscava a uma contra-proposta como esta...
No que diz respeito aos feriados motivados por acontecimentos históricos (independência, república, 25 de Abril, 10 de Junho): se fosse só um, teria mesmo de se transformar no dia da raça? São dias da raça o 14 de Julho em França, o 4 de Julho nos EUA e o 3 de Outubro na Alemanha?

Quanto ao "dia dos crentes" (hehehe, foi merecida!) estaria capaz de dizer mesmo mais: transformar o feriado em tolerância de ponto apenas para quem apresentar papel carimbado pela comunidade religiosa, provando que a falta ao trabalho se justificou para comparecer no local de culto.
E esta, hein?
(e logo aqui vejo uma dificuldade: na entrevista para o emprego, a perguntinha sobre a confissão religiosa)

Outra questão para discutir é se os feriados - religiosos ou históricos - fazem parte dos ritmos sociais e devem ser preservados como uma dimensão importante da sociedade. Para além do trabalho e do lazer, a dimensão comunitária da comemoração.

Joana Lopes disse...

Helena,
Gosto muito do seu último parágrafo: é / seria mesmo uma questão interessante a discutir.Mas passar um feriado para uma 2ªf talvez não impeça que sirva para esse fim.

Dou de barato que tem razão quanto ao argumento sobre o «meu» Dia da Raça. O perigo só existiria se concentrassem todos os feriados no 10 de Junho ou mesmo no 1 de Dezembro...

(Aproveitando: passo todos os dias pelo seu belo blogue. embora seja pouco dada a deixar rasto. Um abraço.)

Helena disse...

Joana,
só agora vi o seu último comentário, pelo que não vou ser muito convincente se disser que todos os dias passo pelo seu blogue. ;-)
E contudo... si muove, pois. Eu é que me esqueço das conversas que deixei a meio nas caixas de comentários!

Obrigada por visitar o meu blogue. É-me uma honra e uma responsabilidade. Já o disse na semana passada a outra pessoa (outra que me deu a surpresa de me visitar com frequência): andava eu toda descansada, a pensar que aquele blogue era o meu prazer solitário...

;-)