1.10.10

Tempos agitados, estes?


Sem dúvida. E sem grandes esperanças, o que é mais grave.

Num registo completamente diferente, a agitação não era menor há 35 anos - três décadas e meia que me parecem agora pelo menos um século. Mas a distância e a memória do passado ajudam a perceber em grande parte o presente. Pelo menos comigo, e neste preciso momento, é exactamente assim.

Menos de dois meses antes do fim do PREC, no dia 1 de Outubro de 1975:

Chegam (de madrugada) ao comando da 1.ª Região Aérea dois pelotões de pára-quedistas do Depósito Geral de Adidos da Força Aérea (DGAFA), para montar segurança a Monsanto, onde estavam o vice-almirante Pinheiro de Azevedo, major Melo Antunes, Mário Soares, Magalhães Mota e entidades civis e militares que ali pernoitam nos subterrâneos, devido a rumores de golpe de Estado.

Manifestação em Beja de apoio ao Poder Popular e repúdio pelas decisões do «governo burguês», convocada pelo Secretariado das Inter-Comissões de Trabalhadores e Moradores de Beja, apoiada pela FUR, UDP, ORPC (m-l) e Sindicato dos Professores, com a presença de soldados da Base Aérea 11, soldados do Regimento de Artilharia de Beja e dos SUV, num total de 2.500 pessoas.

49 soldados da Base Aérea de Beja, por terem participado na manifestação, são castigados e transferidos da unidade.

Nota de imprensa da UDP intitulado “Esmaguemos a Ofensiva Reaccionária do VI Governo!” a repudiar a ocupação militar das estações de rádio e televisão, o silenciamento da Rádio Renascença, os incidentes repressivos junto a São Bento quando os comandos avançaram com as chaimites contra os manifestantes deficientes e a prometer continuar a lutar «em frente na defesa das conquistas populares».

O MES faz a análise da situação política numa extensa nota intitulada “Contra os Fascistas, os Capitalistas e os Falsos Socialistas, Ofensiva Popular! O Golpe de Direito Não Passará”.

Comício no Campo Pequeno, em Lisboa, para comemorar o 5.º aniversário da fundação da Intersindical Nacional.


A RTP, a Emissora Nacional e o Rádio Clube Português, que estavam ocupadas militarmente desde 29 de Setembro por ordem do Governo, são desocupadas pelas forças militares, excepto a Rádio Renascença, que permanece encerrada. Contudo, durante uns dias ainda, os comunicados dos vários grupos políticos não podiam ser transmitidos pela televisão e estações de radiodifusão sem serem autorizados pelo Ministério da Comunicação Social.

General Costa Gomes fundamenta a ocupação militar da Rádio Renascença, por não existirem garantias de que a emissão voltasse a parâmetros social e politicamente aceitáveis.

Comunicado do primeiro-ministro, vice-almirante Pinheiro de Azevedo, para justificar «a excepção da Rádio Renascença», ainda ocupada por forças militares, devido à linha de conduta «de resultados, ainda que não intencionalmente, contra-revolucionários».

Os trabalhadores da Rádio Renascença, reunidos em plenário, rejeitam a acusação de estarem a servir de capa para movimentações contra-revolucionárias, traçando os objectivos da luta: «reabertura imediata da Rádio Renascença», «reabertura da rede de FM em Monsanto» e «não acatamento de qualquer censura».

Saudação do Comité Central da ORPC (m-l) ao Partido Comunista da China, para assinalar o aniversário da fundação da República Popular.

General Costa Gomes inicia uma visita a Moscovo, a primeira de um chefe de Estado português à União Soviética.

O SÉCULO denuncia e existência dum “plano dos coronéis” que levaria ao afastamento de Otelo Saraiva de Carvalho, colocação nos lugares-chave de homens de confiança do “Grupo dos Nove”, controlo do Serviço Director e Coordenador da Informação (SDCI), resolução dos casos REPÚBLICA e Rádio Renascença, total controlo da situação político-militar, reorganização das Forças Armadas e instalação de um regime «de feição direitista».

Comunicado do Secretariado Nacional do PS, dizendo que «grupos minoritários planearam para esta noite o assalto aos órgãos de informação e o ataque ao almirante Pinheiro de Azevedo», tratando-se «de uma aventura suicida capitaneada por elementos irresponsáveis ou provocadores» que pode «pôr em perigo a Revolução», apelando para «uma resposta pronta e maciça» a «esta provocação da pseudo-esquerda aventureirista e irresponsável».

José Luís Nunes, deputado do PS, declara na Assembleia Constituinte ter «conhecimento de uma notícia de extrema gravidade», segundo a qual havia «um golpe de estado preparado» pelos comunistas e extrema-esquerda para a próxima madrugada.

Álvaro Ribeiro Monteiro, deputado do MDP/CDE, a propósito da intervenção de José Luís Nunes, coloca «sérias reservas» e «sérias dúvidas acerca da veracidade de tudo o que aqui foi dito» de «maneira infame», lançando «o boato, a calúnia e o alarmismo» para criarem um «clima favorável à repressão».

(Fonte)
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