28.2.10
«Nuestros hermanos» nunca brincaram em serviço

José Maria Aznar deixou a presidência do governo espanhol há seis anos e «reformou-se da política» aos 51. Ou talvez não.
Já conseguiu entretanto atingir dois objectivos que tinha definido: manter-se jovem e falar inglês. O primeiro revela-se num físico apurado, com uns quilos a menos e abdominais mais firmes, o segundo num sotaque razoável e numa fluência normal. Tudo bem por aí, portanto.
Tudo igualmente bem quanto à vida numa bela casa nova em Marbella, onde flutua, vá lá saber-se porquê, uma enorme bandeira espanhola.
Tudo ainda melhor para a sua conta bancária, já que cobra cerca de 27.000 por cada uma das muitas conferências que faz e dá aulas em Georgetownn, entre muitas outras tarefas – 224 dias fora de Espanha, em 2009, o equivalente a nove voltas ao mundo.
Através de tudo isto, consolida as suas posições neocon, alinhadas com os seus pares americanos e já bem «à frente» dos conservadores europeus.
Há quem ainda se interrogue sobre fronteiras entre uma actividade política privada e simples tráfico de influências privado? Who cares!
Novidade? Nenhuma mas, desta vez, passa-se mesmo aqui ao lado. Por isso, quando leio tudo isto e muito mais, no El País de hoje, fico a pensar que os nossos ex-, PR’s ou PM’s, são verdadeiros meninos de coro! Um vive a esfalfar-se bem ou mal em Bruxelas, outros dois andam pelo mundo a tratarem de tuberculosos ou de refugiados (meu deus…), há quem se tenha retirado para Chelas e quem não descanse enquanto não se vinga de um milhão de votos que lhe roubaram. E chego mesmo a ter simpatia pelo que continua a defender túneis e congressos.
Pode ser que isto acabe com a próxima leva de ex-, que se aproxima talvez mais depressa do que previsto. Aprendam, se faz favor, olhem para nuestros hetmanos e elevem um pouco o nível da nossa presença no mundo!
27.2.10
Do Funchal a Santiago

No Sábado passado foi a Madeira, hoje está a ser o Chile – a brutalidade da natureza, a crueza das imagens e, no segundo caso, ainda uma grande incerteza quanto à dimensão do que está em causa, com mais de cinquenta países em alerta mais ou menos grave de um quase garantido tsunami.
Uma tarde passada com a CNN em pano de fundo, a tentar perceber algumas explicações sobre um fortíssimo terramoto sobre o qual, à hora em que escrevo, ainda não se sabe se provocará menos vítimas do que um outro que afectou o mesmo país, em 1960, e que é considerado o maior de que há memória.
Não sei se chocarei alguns, mas estou a viver com muito mais intensidade o dia de hoje do que o drama que afectou a Madeira. Sobretudo porque a dimensão da tragédia é muito maior, certamente, mas também porque me sinto bem mais perto dos chilenos, da sua terra e da sua história, do que dos habitantes de uma ilha que Gonçalves Zarco e mais alguns descobriram, ou redescobriram, de propósito ou mais ou menos por acaso, há cerca de seis séculos.
Uma tarde passada com a CNN em pano de fundo, a tentar perceber algumas explicações sobre um fortíssimo terramoto sobre o qual, à hora em que escrevo, ainda não se sabe se provocará menos vítimas do que um outro que afectou o mesmo país, em 1960, e que é considerado o maior de que há memória.
Não sei se chocarei alguns, mas estou a viver com muito mais intensidade o dia de hoje do que o drama que afectou a Madeira. Sobretudo porque a dimensão da tragédia é muito maior, certamente, mas também porque me sinto bem mais perto dos chilenos, da sua terra e da sua história, do que dos habitantes de uma ilha que Gonçalves Zarco e mais alguns descobriram, ou redescobriram, de propósito ou mais ou menos por acaso, há cerca de seis séculos.
Entretanto, em Cuba

Quatro presos políticos, todos membros do Grupo do 75, detidos na Primavera Negra de 2003 e identificados pela Amnistia Internacional como «presos de consciência», iniciaram uma greve de fome como forma de solidariedade com Orlando Zapata. A eles se juntou, na sua própria casa, um jornalista.
O porta-voz da Comisión Cubana de Derechos Humanos y Reconciliación Nacional pede-lhes que desistam porque está provado que regimes como os de Raúl Castro não respondem humanamente a este tipo de iniciativas.
Entretanto também, e lamentavelmente, Lula da Silva, que se encontrava em Havana quando morreu Orlano Zapata, considerou, já de passagem por El Salvador, «que no se puede juzgar el gobierno de un país por la actitud de un ciudadano que se declara en huelga de hambre» e recusou-se a dar opiniões sobre as atitudes de outros governos, a «meter a colher onde não é chamado».

Chamados somos todos, e Lula também, enquanto homens como nós forem condenados, e morrerem, pela simples razão de lutarem pela liberdade. E enquanto ditaduras como a de Cuba não desaparecerem do mapa, em pleno século XXI, é o próprio progresso da humanidade que está em causa.
P.S. - A ler: La muerte valiente de Zapata
O porta-voz da Comisión Cubana de Derechos Humanos y Reconciliación Nacional pede-lhes que desistam porque está provado que regimes como os de Raúl Castro não respondem humanamente a este tipo de iniciativas.
Entretanto também, e lamentavelmente, Lula da Silva, que se encontrava em Havana quando morreu Orlano Zapata, considerou, já de passagem por El Salvador, «que no se puede juzgar el gobierno de un país por la actitud de un ciudadano que se declara en huelga de hambre» e recusou-se a dar opiniões sobre as atitudes de outros governos, a «meter a colher onde não é chamado».

Chamados somos todos, e Lula também, enquanto homens como nós forem condenados, e morrerem, pela simples razão de lutarem pela liberdade. E enquanto ditaduras como a de Cuba não desaparecerem do mapa, em pleno século XXI, é o próprio progresso da humanidade que está em causa.
P.S. - A ler: La muerte valiente de Zapata
26.2.10
Nobre? Olivença será nossa!

Três vozes:
1-Nuno Rogeiro, revista Sábado, 25/2, p.59 (sem link)
«Manuel Alegre não deveria, quanto a mim, preocupar-se. No fundo, Nobre nunca se posicionou na área do PS, que é berço do poeta. Parecendo mais Eanes do que Soares, e mais um mestre-escola da epopeia portuguesa do que Camões e, mais Sancho Pança que Ulisses, e mais um Almeida Santos jovem do que um Torga. Nobre não pode, não quer e não sabe jogar no tabuleiro de Alegre.»
2- Ferreira Fernandes, no DN de hoje:
«A candidatura de Fernando Nobre à Presidência da República (sim, é a isso que ele se candidata) é capaz de vir a trazer para o público a discussão do regime. Ontem, à Sábado, Nobre disse: "Pertenci uns anos à causa real. Sou simpatizante." Então, está bem. Deve ser mais uma táctica dos monárquicos para resolver o problema. Com o risco de vir a ser criticado pelos seus como o maior dos "monárquicos republicanos", Nobre, se for eleito, pode ser o mais útil da causa: basta-lhe ser um péssimo Presidente para demonstrar a necessidade do Rei. Na Sábado, disse também que quer Olivença de volta. Vai, pois, opor-se ao Rei de Espanha. Não há dúvida, Fernando Nobre é mesmo monárquico: a prova é que, ainda antes de ser eleito, já se dá como prioridade atirar-se a outro monárquico.»
3- O propriamente dito, com imagem e som, aqui, num vídeo com um excerto da entrevista publicada na Sábado, 25/2, pp. 70-72.
Na versão em papel:
Sobre esquerdas e direitas: «As pessoas ainda não perceberam que o paradigma actual da sociedade esgotou esses conceitos.»
Sobre o casamento de homossexuais, fica por interrogações: «Estava no programa do Governo, este tinha toda a legitimidade. Se a palavra casamento está certa? Teria sido bom ouviria o País?»
Olivença: «Numa conversa com o Rei de Espanha, que terei enquanto Presidente, com certeza que lhe hei-de falar de Olivença, como dois seres humanos.»
É caso para dizer que só nos saem duques!
1-Nuno Rogeiro, revista Sábado, 25/2, p.59 (sem link)
«Manuel Alegre não deveria, quanto a mim, preocupar-se. No fundo, Nobre nunca se posicionou na área do PS, que é berço do poeta. Parecendo mais Eanes do que Soares, e mais um mestre-escola da epopeia portuguesa do que Camões e, mais Sancho Pança que Ulisses, e mais um Almeida Santos jovem do que um Torga. Nobre não pode, não quer e não sabe jogar no tabuleiro de Alegre.»
2- Ferreira Fernandes, no DN de hoje:
«A candidatura de Fernando Nobre à Presidência da República (sim, é a isso que ele se candidata) é capaz de vir a trazer para o público a discussão do regime. Ontem, à Sábado, Nobre disse: "Pertenci uns anos à causa real. Sou simpatizante." Então, está bem. Deve ser mais uma táctica dos monárquicos para resolver o problema. Com o risco de vir a ser criticado pelos seus como o maior dos "monárquicos republicanos", Nobre, se for eleito, pode ser o mais útil da causa: basta-lhe ser um péssimo Presidente para demonstrar a necessidade do Rei. Na Sábado, disse também que quer Olivença de volta. Vai, pois, opor-se ao Rei de Espanha. Não há dúvida, Fernando Nobre é mesmo monárquico: a prova é que, ainda antes de ser eleito, já se dá como prioridade atirar-se a outro monárquico.»
3- O propriamente dito, com imagem e som, aqui, num vídeo com um excerto da entrevista publicada na Sábado, 25/2, pp. 70-72.
Na versão em papel:
Sobre esquerdas e direitas: «As pessoas ainda não perceberam que o paradigma actual da sociedade esgotou esses conceitos.»
Sobre o casamento de homossexuais, fica por interrogações: «Estava no programa do Governo, este tinha toda a legitimidade. Se a palavra casamento está certa? Teria sido bom ouviria o País?»
Olivença: «Numa conversa com o Rei de Espanha, que terei enquanto Presidente, com certeza que lhe hei-de falar de Olivença, como dois seres humanos.»
É caso para dizer que só nos saem duques!
E para continuara a falar de presos políticos

Na Birmânia, o Tribunal Supremo reconfirmou a prisão domiciliária de Aung San Suu Kyi, quando tinha sido largamente divulgada a possibilidade de ver reduzida a duração da sua pena, a tempo de poder agir, em liberdade, durante a campanha para as eleições que terão lugar em breve - as primeiras desde há vinte anos.
Nem as fortes pressões internacionais conseguiram o objectivo pretendido: apesar de não poder candidatar-se, seria muito importante para o povo birmanês que «a senhora», detida durante catorze anos nas duas últimas décadas, lhe pudesse dar alguma voz durante o período eleitoral. Pode parecer pouco, mas é uma fortuna para quem vê toda a espécie de liberdades a um nível próximo do zero – isso mesmo me foi dito quando passei alguns dias na Birmânia, há cerca de quatro meses.
Incansável e indomável, a sua libertação representaria uma ténue esperança numa tentativa de reconciliação nacional, para um povo muito pobre e vítima de uma feroz e generalizada corrupção. Tem-se agora a certeza de que se assistirá a mais um simulacro de democracia, a um novo episódio de uma enorme e dolorosa farsa.
(Fonte)
P.S. – Há neste blogue alguns textos com mais informação sobre a líder da oposição birmanesa, por exemplo este.
Nem as fortes pressões internacionais conseguiram o objectivo pretendido: apesar de não poder candidatar-se, seria muito importante para o povo birmanês que «a senhora», detida durante catorze anos nas duas últimas décadas, lhe pudesse dar alguma voz durante o período eleitoral. Pode parecer pouco, mas é uma fortuna para quem vê toda a espécie de liberdades a um nível próximo do zero – isso mesmo me foi dito quando passei alguns dias na Birmânia, há cerca de quatro meses.
Incansável e indomável, a sua libertação representaria uma ténue esperança numa tentativa de reconciliação nacional, para um povo muito pobre e vítima de uma feroz e generalizada corrupção. Tem-se agora a certeza de que se assistirá a mais um simulacro de democracia, a um novo episódio de uma enorme e dolorosa farsa.
(Fonte)
P.S. – Há neste blogue alguns textos com mais informação sobre a líder da oposição birmanesa, por exemplo este.
25.2.10
Petição: Presos políticos em Cuba
Para: Embaixada de Cuba em Portugal
Nós, cidadãos de um país que conquistou a sua liberdade há 36 anos, solidários com a resistência a todas as formas de imperialismo, críticos do bloqueio injusto e injustificável a Cuba por parte dos Estados Unidos da América, vimos através deste abaixo-assinado protestar contra morte do activista Orlando Zapata Tamayo depois de uma pena de prisão absurda e de uma greve de fome pelos seus direitos civis. E, através deste protesto, manifestar a nossa solidariedade empenhada para com todos os presos políticos cubanos e para com todos aqueles que em Cuba lutam por valores que, para quem, como os portugueses, viveu meio século de ditadura, são bens preciosos: a democracia, a liberdade e o direito a autodeterminação dos povos e dos indivíduos. Não há verdadeira independência de um povo sem democracia. Não há revolução que valha a pena sem liberdade.
Petição e Assinaturas aqui.
(Via Arrastão)
Madeira - «Eu tive um sonho»

Circula na net o texto de um artigo assinado por Cecílio Gomes da Silva, que terá sido publicado em Janeiro de 1985, no Diário de Notícias do Funchal.
Começa assim:
«Traumatizado pelo estado de desertificação das serras do interior da Ilha da Madeira, muito especialmente da região a Norte do Funchal e que constitui as bacias hidrográficas das três ribeiras que confluem para o Funchal, dando-lhe aquela fisiografia de perfeito anfiteatro, aliado a recordações da infância passada junto à margem de uma das mais torrenciais dessas ribeiras – a de Santa Luzia – o mundo dos meus sonhos é frequentemente tomado por pesadelos sempre ligados às enxurradas invernais e infernais dessa ribeira. Tive um sonho.»
O resto é profecia e pode ler lido aqui.
P.S. - Não tinha posto este vídeo por estar já largamente difundido, mas aqui fica:
Começa assim:
«Traumatizado pelo estado de desertificação das serras do interior da Ilha da Madeira, muito especialmente da região a Norte do Funchal e que constitui as bacias hidrográficas das três ribeiras que confluem para o Funchal, dando-lhe aquela fisiografia de perfeito anfiteatro, aliado a recordações da infância passada junto à margem de uma das mais torrenciais dessas ribeiras – a de Santa Luzia – o mundo dos meus sonhos é frequentemente tomado por pesadelos sempre ligados às enxurradas invernais e infernais dessa ribeira. Tive um sonho.»
O resto é profecia e pode ler lido aqui.
P.S. - Não tinha posto este vídeo por estar já largamente difundido, mas aqui fica:
A morte dos sonhos

Pela leitura de um texto de Manuel António Pina, no JN de hoje (*), regresso a Cuba e ao que tem sido escrito – ou não – depois da morte de Orlando Zapata Tamayo.
Eu que resisti ao fascínio da Praça Vermelha e da Cidade Proibida, fui apanhada em cheio pela esperança dos amanhãs que cantariam a partir de latinos como nós, que tentavam concretizar um impossível sonho em território americano. Sou, sem dúvida, da geração do tal «cubanismo de uma zona da esquerda ocidental», extraordinariamente bem retratada em Fantasia Vermelha, de Iván de la Nuez.
Não sei se todos os sonhos são feitos de chumbo, mas a vida vai-se encarregando de nos fazer sentir na pele, desde a infância, que há uns tantos que pesam muito. É mesmo a compreensão desta realidade que nos torna saudavelmente adultos, se soubermos fazer o luto do que acabou para não voltar: uma pessoa, um amor, uma religião, uma ideologia.
O luto pelo fim do sonho cubano doeu-me, mas terminou há muito tempo. Volto a ele como à recordação de uma pessoa próxima que morreu: sempre sem indiferença, mas já não sentindo realmente a necessidade da sua existência, nem a incapacidade de identificar defeitos – de consequências terríveis e dramáticas, no caso vertente.
Quero acreditar que é a falta desse luto que fez com que tantos, a nível individual, se tenham calado, ou falado ligeira e envergonhadamente, nos dois últimos dias. Cuba continua a ser um tema incómodo, ainda há uma T-shirt de Che escondida por baixo de muitas novas camisolas: resume-se um take da Lusa, põe-se um videozito com as palavras da mãe de Zapata - e passa-se para outra.
A nível colectivo, mais concretamente partidário (porque a tal mítica sociedade civil, essa, está preocupada com o Everton…), a questão é ou parece ser outra: por crença ou por tacticismo, o silêncio da chamada esquerda foi mais pesado do que sonhos de chumbo. Se nada há a esperar do PCP por razões óbvias e se, no Largo do Rato, devem andar todos à procura de gravadores de escutas sem tempo para outras tarefas, já destes senhores, a quem dei o meu voto, espero mais do que notícias dos acontecimentos, mesmo que detalhadas: há uma embaixada de Cuba em Lisboa, que espera por uma manifestação, há uma AR onde pode ser apresentado um voto de protesto, há a Amnistia Internacional que deve ser apoiada na exigência de que sejam libertos todos os outros presos políticos cubanos. Há mil outras possibilidades, como houve para Aminatu Haidar.
Ou ficamos à espera que morra o próximo?
(*) «Nos anos 60, quando o pesadelo soviético era mais que evidente, a Revolução Cubana iluminou de súbito o nosso sonho de uma sociedade livre e igualitária, e tanto desejámos esse sonho que aceitámos qualquer desculpa para as suas traições. Acordámos dele a custo para descobrir, como Sam Spade em "O falcão de Malta", de Dashiell Hammett, que é chumbo a matéria de que são feitos os sonhos.»
Eu que resisti ao fascínio da Praça Vermelha e da Cidade Proibida, fui apanhada em cheio pela esperança dos amanhãs que cantariam a partir de latinos como nós, que tentavam concretizar um impossível sonho em território americano. Sou, sem dúvida, da geração do tal «cubanismo de uma zona da esquerda ocidental», extraordinariamente bem retratada em Fantasia Vermelha, de Iván de la Nuez.
Não sei se todos os sonhos são feitos de chumbo, mas a vida vai-se encarregando de nos fazer sentir na pele, desde a infância, que há uns tantos que pesam muito. É mesmo a compreensão desta realidade que nos torna saudavelmente adultos, se soubermos fazer o luto do que acabou para não voltar: uma pessoa, um amor, uma religião, uma ideologia.
O luto pelo fim do sonho cubano doeu-me, mas terminou há muito tempo. Volto a ele como à recordação de uma pessoa próxima que morreu: sempre sem indiferença, mas já não sentindo realmente a necessidade da sua existência, nem a incapacidade de identificar defeitos – de consequências terríveis e dramáticas, no caso vertente.
Quero acreditar que é a falta desse luto que fez com que tantos, a nível individual, se tenham calado, ou falado ligeira e envergonhadamente, nos dois últimos dias. Cuba continua a ser um tema incómodo, ainda há uma T-shirt de Che escondida por baixo de muitas novas camisolas: resume-se um take da Lusa, põe-se um videozito com as palavras da mãe de Zapata - e passa-se para outra.
A nível colectivo, mais concretamente partidário (porque a tal mítica sociedade civil, essa, está preocupada com o Everton…), a questão é ou parece ser outra: por crença ou por tacticismo, o silêncio da chamada esquerda foi mais pesado do que sonhos de chumbo. Se nada há a esperar do PCP por razões óbvias e se, no Largo do Rato, devem andar todos à procura de gravadores de escutas sem tempo para outras tarefas, já destes senhores, a quem dei o meu voto, espero mais do que notícias dos acontecimentos, mesmo que detalhadas: há uma embaixada de Cuba em Lisboa, que espera por uma manifestação, há uma AR onde pode ser apresentado um voto de protesto, há a Amnistia Internacional que deve ser apoiada na exigência de que sejam libertos todos os outros presos políticos cubanos. Há mil outras possibilidades, como houve para Aminatu Haidar.
Ou ficamos à espera que morra o próximo?
(*) «Nos anos 60, quando o pesadelo soviético era mais que evidente, a Revolução Cubana iluminou de súbito o nosso sonho de uma sociedade livre e igualitária, e tanto desejámos esse sonho que aceitámos qualquer desculpa para as suas traições. Acordámos dele a custo para descobrir, como Sam Spade em "O falcão de Malta", de Dashiell Hammett, que é chumbo a matéria de que são feitos os sonhos.»
Cartas de uma deputada

Ontem, no Facebook, pedi encarecidamente que alguém me desmentisse ser esta a posição do PS relativamente aos fins-de-semana em família de Inês de Medeiros. Andam por lá muitas pessoas aficionadas ao dito partido, mas ninguém se acusou.
Hoje, Ferreira Fernandes escreve uma bela crónica sobre o assunto.
O que me vale é que, daqui a dois meses, estarei em Darjeeling!
Hoje, Ferreira Fernandes escreve uma bela crónica sobre o assunto.
O que me vale é que, daqui a dois meses, estarei em Darjeeling!
24.2.10
Ainda a propósito da morte de Orlando Zapata Tamayo

Claro que a existência de presos políticos em Cuba já se tornou trivial.
Claro que já ninguém acredita na Primavera Raulista.
Claro que Orlando Zapata Tamayo era menos conhecido do que Aminatu Haidar, que Havana é mais longe do que Lanzarote e dá menos votos.
Claro que, para a esquerda, Cuba continua a ser um assunto bem mais incómodo do que o Sahara Ocidental – sou a primeira a sofrer com essa crua evidência e a penitenciar-me por só esta noite ter chamado a atenção para um caso, depois de consumado, que seguia há dias na imprensa e na blogosfera da resistência cubana.
Claro que se Orlando Zapata Tamayo tivesse sido um blogger iraniano ou chinês, sujeito à censura, já teria há muito tempo quinhentos posts em vinte e cinco blogues.
Esta é a (triste) realidade.
P.S. – Só faltava mais isto: «El general Raúl Castro "lamentó" la muerte del preso político Orlando Zapata Tamayo, tras 86 días de huelga de hambre, y aseguró que este hecho es el resultado de la relación con Estados Unidos.»
Claro que já ninguém acredita na Primavera Raulista.
Claro que Orlando Zapata Tamayo era menos conhecido do que Aminatu Haidar, que Havana é mais longe do que Lanzarote e dá menos votos.
Claro que, para a esquerda, Cuba continua a ser um assunto bem mais incómodo do que o Sahara Ocidental – sou a primeira a sofrer com essa crua evidência e a penitenciar-me por só esta noite ter chamado a atenção para um caso, depois de consumado, que seguia há dias na imprensa e na blogosfera da resistência cubana.
Claro que se Orlando Zapata Tamayo tivesse sido um blogger iraniano ou chinês, sujeito à censura, já teria há muito tempo quinhentos posts em vinte e cinco blogues.
Esta é a (triste) realidade.
P.S. – Só faltava mais isto: «El general Raúl Castro "lamentó" la muerte del preso político Orlando Zapata Tamayo, tras 86 días de huelga de hambre, y aseguró que este hecho es el resultado de la relación con Estados Unidos.»
Morte de um resistente cubano

A notícia era esperada já há alguns dias: Orlando Zapata Tamayo não resistiu à greve de fome que iniciara no passado dia 3 de Dezembro e morreu ontem à tarde em Havana.
Tinha 42 anos e foi um dos 75 dissidentes presos em 2003, na «Primavera Negra», enquanto membro do «Movimiento Alternativo Republicano y Consejo Nacional de Resistencia Cívica».
A sua mãe (na foto), uma das Damas de Branco cubanas, não cala a revolta:
(Fonte)
P.S. – A propósito de Cuba, um importante artigo: 2009: El año en que se desvaneció el raulismo
Tinha 42 anos e foi um dos 75 dissidentes presos em 2003, na «Primavera Negra», enquanto membro do «Movimiento Alternativo Republicano y Consejo Nacional de Resistencia Cívica».
A sua mãe (na foto), uma das Damas de Branco cubanas, não cala a revolta:
(Fonte)
P.S. – A propósito de Cuba, um importante artigo: 2009: El año en que se desvaneció el raulismo
23.2.10
Rastos das guerras

Vale a pena ler o artigo «Os bastardos da guerra descobrem as suas raízes», no Público de ontem, sobre as vidas e as humilhações sofridas pelos filhos de soldados alemães, que nasceram durante os quatro anos da ocupação nazi na Europa.
Regressei imediatamente às minhas vivências estudantis na Bélgica durante os anos 60. Num início de ano lectivo, acabara de chegar à residência universitária uma caloira e uma das responsáveis da dita residência pô-la num quarto ao lado do meu e pediu-me que lhe desse apoio porque era um «caso complicado». Explicou-me mais tarde que ela não sabia que o pai era um guarda prisional alemão que tinha violado a mãe antes de esta escapar, por pouco, ao envio para uma espécie de campo de concentração. Nunca esqueci esta história – pura ficção de terror para os meus verdíssimos anos, saídos há pouco da pacatez cinzenta em que Salazar nos tinha preservado.
Mas só ontem me apercebi da dimensão do drama: estima-se em 800.000 o número destas pessoas, muitas delas ainda vivas, que só conseguiram começar a falar depois da morte das mães e que tentam agora identificar irmãos dos outros lados das fronteiras.
Quantos iraquianos não irão procurar pais americanos ou ingleses na segunda metade do século XXI?
Regressei imediatamente às minhas vivências estudantis na Bélgica durante os anos 60. Num início de ano lectivo, acabara de chegar à residência universitária uma caloira e uma das responsáveis da dita residência pô-la num quarto ao lado do meu e pediu-me que lhe desse apoio porque era um «caso complicado». Explicou-me mais tarde que ela não sabia que o pai era um guarda prisional alemão que tinha violado a mãe antes de esta escapar, por pouco, ao envio para uma espécie de campo de concentração. Nunca esqueci esta história – pura ficção de terror para os meus verdíssimos anos, saídos há pouco da pacatez cinzenta em que Salazar nos tinha preservado.
Mas só ontem me apercebi da dimensão do drama: estima-se em 800.000 o número destas pessoas, muitas delas ainda vivas, que só conseguiram começar a falar depois da morte das mães e que tentam agora identificar irmãos dos outros lados das fronteiras.
Quantos iraquianos não irão procurar pais americanos ou ingleses na segunda metade do século XXI?
O futuro da Europa? Mas qual Europa?
Diz Mário Soares, no DN:
«Num contexto tão complexo, a União Europeia criou um grupo de reflexão sobre o futuro da Europa, presidido por Felipe González, cujo primeiro projecto, ainda incompleto, penso, tive o privilégio de poder ler e sobre ele reflectir. Parte esse texto do princípio de que a União está obrigada, em curto prazo, a fazer uma escolha decisiva: ou é capaz de responder positivamente aos desafios globais a que está, por força das circunstâncias, submetida, tornando-se um actor mundial reconhecido e competitivo; ou entrará em inevitável marginalização e declínio. Tornar-se-á "uma pequena península insignificante e pobre do grande continente asiático"…»
E eu acrescento: criar um grupo de reflexão foi sempre a receita milagrosa quando não se sabe de todo o que fazer. Tarefa agora facilitada porque, tirando uma reunião ou outra para a fotografia, tudo se pode fazer por mails e pdf’s. O mundo mexe-se a uma velocidade estonteante, os líderes europeus põem em Bruxelas colegas medíocres que não façam nem ondas nem sombras e nomeiam uns senhores para desenharem o «futuro da Europa» nos seus gabinetes e em breves passagens pelas salas de VIP’s de aeroportos.
Faço uma sugestão: constituam-se em grupo viajante em Classe Económica, incógnito, sempre com muito tempo livre para o mundo real – reúnam-se só à tarde. Comecem por exemplo em Bangkok, passeiem pelas ruas e comam gafanhotos fritos. Dêem um passeio de tuc-tuc em Hanoi. Regateiem preços e comprem relógios a dez dólares em Pequim. Vejam os indianos em Varanase, nas margens do Ganges. Passem depois por África, podem escolher o país. Numa qualquer terreola do centro dos estados Unidos, perguntem a um transeunte o que é a Europa. Pensem em Bruxelas vagueando pelas ruas de Buenos Aires. E façam um meeting final no morro do Cap Horn porque o vento agreste varre poeiras. Entretanto, vão pensando no tal futuro da Europa.
E eu acrescento: criar um grupo de reflexão foi sempre a receita milagrosa quando não se sabe de todo o que fazer. Tarefa agora facilitada porque, tirando uma reunião ou outra para a fotografia, tudo se pode fazer por mails e pdf’s. O mundo mexe-se a uma velocidade estonteante, os líderes europeus põem em Bruxelas colegas medíocres que não façam nem ondas nem sombras e nomeiam uns senhores para desenharem o «futuro da Europa» nos seus gabinetes e em breves passagens pelas salas de VIP’s de aeroportos.
Faço uma sugestão: constituam-se em grupo viajante em Classe Económica, incógnito, sempre com muito tempo livre para o mundo real – reúnam-se só à tarde. Comecem por exemplo em Bangkok, passeiem pelas ruas e comam gafanhotos fritos. Dêem um passeio de tuc-tuc em Hanoi. Regateiem preços e comprem relógios a dez dólares em Pequim. Vejam os indianos em Varanase, nas margens do Ganges. Passem depois por África, podem escolher o país. Numa qualquer terreola do centro dos estados Unidos, perguntem a um transeunte o que é a Europa. Pensem em Bruxelas vagueando pelas ruas de Buenos Aires. E façam um meeting final no morro do Cap Horn porque o vento agreste varre poeiras. Entretanto, vão pensando no tal futuro da Europa.
22.2.10
De invocação em invocação, chegar-se-á aos Pastorinhos, depois à Padeira de Aljubarrota, mais tarde a Egas Moniz

Todos terão tido excelentes razões para reivindicar uma opinião sobre o assunto. Como ELE:
«Os verdadeiros democratas sabem responder: os capitães de Abril acabam de escrever uma carta aberta contra o casamento homossexual.»
«Os verdadeiros democratas sabem responder: os capitães de Abril acabam de escrever uma carta aberta contra o casamento homossexual.»
Não é nobreza, é nobritude

No jornal «i» de hoje, uma longa entrevista ao candidato anunciado.
Dois excertos que só vêm confirmar as minhas inquietações:
«Chegou o momento de a sociedade civil se exprimir.» «Chegou a hora de os cidadãos dizerem que querem ser escutados e eu quero ser o porta-voz desses que não tiveram voz durante décadas.»
Isto é grave porque podia ter sido dito no dia 24 de Abril de 1974. Há décadas não tínhamos «voz», mas hoje todos a temos. E se é verdade que uns a têm mais do que outros, não se trata de invocar a sociedade civil (mas o que é isso?...), mas sim de governar bem para diminuir diferenças sociais e económicas. E, que eu saiba, isso não é propriamente a função de um PR.
«Não estou aqui para dividir entre esquerda, centro e direita. Isso não me interessa. Eu vou por valores. Há muita gente que ainda não entendeu que já ninguém acredita nessas coisas da direita e da esquerda: acreditam em valores, em pessoas com carácter e com coluna vertebral.»
Precisamente por se acreditar em valores é que fez, faz e continuará a fazer sentido, usar termos como «esquerdas», «direitas», e outros afins, para tentar compreender a realidade política. Porque é de política que se trata e não de carácter, coluna vertebral ou de ter medo de crocodilos e não de mosquitos.
O dr. Fernando Nobre começa a dizer ao que vem e transpira virtude. Não basta.
Dois excertos que só vêm confirmar as minhas inquietações:
«Chegou o momento de a sociedade civil se exprimir.» «Chegou a hora de os cidadãos dizerem que querem ser escutados e eu quero ser o porta-voz desses que não tiveram voz durante décadas.»
Isto é grave porque podia ter sido dito no dia 24 de Abril de 1974. Há décadas não tínhamos «voz», mas hoje todos a temos. E se é verdade que uns a têm mais do que outros, não se trata de invocar a sociedade civil (mas o que é isso?...), mas sim de governar bem para diminuir diferenças sociais e económicas. E, que eu saiba, isso não é propriamente a função de um PR.
«Não estou aqui para dividir entre esquerda, centro e direita. Isso não me interessa. Eu vou por valores. Há muita gente que ainda não entendeu que já ninguém acredita nessas coisas da direita e da esquerda: acreditam em valores, em pessoas com carácter e com coluna vertebral.»
Precisamente por se acreditar em valores é que fez, faz e continuará a fazer sentido, usar termos como «esquerdas», «direitas», e outros afins, para tentar compreender a realidade política. Porque é de política que se trata e não de carácter, coluna vertebral ou de ter medo de crocodilos e não de mosquitos.
O dr. Fernando Nobre começa a dizer ao que vem e transpira virtude. Não basta.
21.2.10
Alegre & Nobre

A quem se interesse pelo que pode ou não vir a acontecer em dias que aí vêm, aconselho a leitura dos comentários a este post, em que meia dúzia de pessoas, sem certezas, se interrogam e têm vindo a dizer o que pensam sobre o assunto.
20.2.10
No Twitter, directamente do espaço

Um astronauta japonês publica directamente no Twitter fotografias tiradas a partir da Estação Espacial Internacional. A notícia parece-nos hoje quase banal mas está longe de o ser: tivessem-nos dito há dez anos que isto aconteceria e nem perceberíamos exactamente do que poderia tratar-se.
Primeiro mostrou Port-au-Prince, mas podemos ver agora muito mais, desde a Cidade Proibida em Pequim, às cataratas de Niagara, Bruxelas ou a Patagónia. E também o Monte Fuji, no Japão, que eu consegui apenas vislumbrar, embora estivesse bem perto e em terra firme, porque é raro que algumas nuvens não o escondam quase totalmente.
(Fonte)
Primeiro mostrou Port-au-Prince, mas podemos ver agora muito mais, desde a Cidade Proibida em Pequim, às cataratas de Niagara, Bruxelas ou a Patagónia. E também o Monte Fuji, no Japão, que eu consegui apenas vislumbrar, embora estivesse bem perto e em terra firme, porque é raro que algumas nuvens não o escondam quase totalmente.
(Fonte)
Mon AMI

«Sebastião Salgado, o grande fotógrafo brasileiro, escolheu contar-nos o mundo atormentado. (…) "Isto está mesmo mal: Sebastião Salgado desembarcou ontem!" Foi no que pensei quando soube que Fernando Nobre, o presidente da Assistência Médica Internacional (AMI), se candidatou a presidente de Portugal: "Meu Deus, isto já só vai lá com assistência humanitária?!" O País ficou em transe. Antigamente, havia o terramoto e aparecia Fernando Nobre, agora é Fernando Nobre que causa o terramoto. Sopram-me que é Mário Soares que está por trás da candidatura. Eu já desconfiava. Soares sempre disse: "Mon AMI..." Só que pensávamos que era Miterrã e é Nóbrê. Nos adversários, um é Alegre mas tem cara de empertigado e o outro é Cavaco mas é de poucas falas. Fernando é Nobre e é monárquico. Termos um nome no boletim de voto que não mente já é positivo.»
Ferreira Fernandes, no DN.
Que isto está mau já todos sabíamos, como ia ser o discurso de Fernando Nobre ainda estávamos para saber.
Agora que já percebi que o seu espaço político não se define nem à esquerda, nem à direita, nem ao centro, estou mais sossegada porque, afinal, não existem neste momento dois candidatos de esquerda e porque Cavaco talvez tenha tido uma pequena insónia ao compreender que não está sozinho de um dos lados da barricada (onde quer que ele, Cavaco, se posicione…)
Aqui fica o link para o anúncio da candidatura, para quem quiser ouvir ou voltar a ouvir.
Registei que pertenço a «um povo ímpar que foi dos poucos povos que marcaram indelevelmente a História da humanidade» e gostei especialmente desta passagem: «Convido-vos a olhar para o futuro (…) para vencermos novos Adamastores que nos angustiam e amedrontam e assim transformarmos os actuais Cabos das Tormentas em novos Cabos da Boa-Esperança que iluminarão Portugal.» Medo!
Ferreira Fernandes, no DN.
Que isto está mau já todos sabíamos, como ia ser o discurso de Fernando Nobre ainda estávamos para saber.
Agora que já percebi que o seu espaço político não se define nem à esquerda, nem à direita, nem ao centro, estou mais sossegada porque, afinal, não existem neste momento dois candidatos de esquerda e porque Cavaco talvez tenha tido uma pequena insónia ao compreender que não está sozinho de um dos lados da barricada (onde quer que ele, Cavaco, se posicione…)
Aqui fica o link para o anúncio da candidatura, para quem quiser ouvir ou voltar a ouvir.
Registei que pertenço a «um povo ímpar que foi dos poucos povos que marcaram indelevelmente a História da humanidade» e gostei especialmente desta passagem: «Convido-vos a olhar para o futuro (…) para vencermos novos Adamastores que nos angustiam e amedrontam e assim transformarmos os actuais Cabos das Tormentas em novos Cabos da Boa-Esperança que iluminarão Portugal.» Medo!
Matusalém (23)
(P.S. - Série de músicas que me marcaram, algures no mundo e na vida, pelos mais variados motivos - quase tão velhas como Matusalém.)
19.2.10
Nobre povo, nação valente

«Porque chegámos nós a esta decadência que se revela nos embaraços financeiros, a ponto de não podermos viver senão pelo empréstimo, matando todas as actividades económicas pelos impostos absorventes destinados simplesmente a pagar os juros crescentes desses empréstimos sucessivos? Porque a geração que nos precedeu fugiu da política; deixou fazer tudo, não quis saber, não quis tomar conta, lançou-se numa apatia e passividade vergonhosa, de que hoje somos vítimas. Uns fugiram da política por desalento, outros tiveram medo de entrar nesse conflito de paixões pessoais a que então se dava o nome de política. É fácil encontrarmos na linguagem dos mais elevados espíritos da era moderna portuguesa esse grito deplorável, que alguns novos ainda repetem por um certo automatismo de imitação, Por exemplo, Herculano lamenta que a política tivesse inutilizado os talentos do seu tempo; Garrett, sentindo-se esterilizado, diz que já pode ser político; e Castilho repete a frase, que a política tinha desalgado tudo nesta terra. É preciso acabar com este lamentável preconceito, que tem como consequência inevitável a impunidade discricionária dos governos; é preciso que exista uma opinião formada acerca da marcha dos negócios públicos, acerca das aspirações de uma sociedade, para que aqueles que exercem o poder sejam os órgãos que põem em exercício essa força, se fortaleçam quando seguem essa corrente, ou sejam envolvidos nela quando lhe vão de encontro. Fugir da política é abandonar o futuro da sociedade em que se vive, é sacrificar à inércia de hoje, o bem-estar de amanhã.»
Teófilo Braga, História das Ideias Republicanas em Portugal (1880)
Para mais tarde recordar

«Mas, cinco anos depois, Mário Soares mostra que não esqueceu. E não perdoou. Mas mostra mais do que isso. Mostra que entre o paroquialismo político e a unidade da esquerda com reais possibilidades de derrotar Cavaco, Mário Soares e a sua "entourage" escolheram o primeiro. De acordo com as notícias que têm vindo a público, Soares terá sondado sete (!) nomes para poder atirar contra Alegre.
Fernando Nobre foi quem aceitou. Para isso terá contribuído o espírito de missão e a admirável militância de Fernando Nobre. Mas, aparentemente, contribuiu também a sua inexperiência política. Todos os outros nomes que Soares sondou perceberam imediatamente que não eram os interesses da esquerda que motivavam a candidatura. E por isso recusaram. Nobre não teve a mesma clarividência e por isso acaba instrumento de um desígnio que não é o seu.»
P: S. – Eu reconheço que estou a embirrar um pouco com a candidatura do homem, talvez antes de tempo. Mas a ideia de escolher o Padrão dos Descobrimentos para o anúncio oficial põe-me com pele de galinha. E não é só por estarem previstos apenas 6 º para esta noite em Lisboa.
Fernando Nobre foi quem aceitou. Para isso terá contribuído o espírito de missão e a admirável militância de Fernando Nobre. Mas, aparentemente, contribuiu também a sua inexperiência política. Todos os outros nomes que Soares sondou perceberam imediatamente que não eram os interesses da esquerda que motivavam a candidatura. E por isso recusaram. Nobre não teve a mesma clarividência e por isso acaba instrumento de um desígnio que não é o seu.»
P: S. – Eu reconheço que estou a embirrar um pouco com a candidatura do homem, talvez antes de tempo. Mas a ideia de escolher o Padrão dos Descobrimentos para o anúncio oficial põe-me com pele de galinha. E não é só por estarem previstos apenas 6 º para esta noite em Lisboa.
18.2.10
Candidatos a PR 2011

... em breve, num país bem perto de si.
Direi o que penso sobre este assunto - e as interrogações que ele me suscita -, quando a poeira pousar um pouco. Entretanto, aconselho a leitura não só deste post do Miguel Serras Pereira, como da conversa que ainda continua na Caixa de Comentários.
Direi o que penso sobre este assunto - e as interrogações que ele me suscita -, quando a poeira pousar um pouco. Entretanto, aconselho a leitura não só deste post do Miguel Serras Pereira, como da conversa que ainda continua na Caixa de Comentários.
Um pouco de humor que os dias andam pesados

Num país em que um terço da população é fumador - a Turquia -, a ERC lá do sítio condenou uma estação de televisão a uma multa de cerca de 24.000 euros por esta exibir imagens do capitão Haddock a fumar cachimbo.
Ainda não li em nenhuma estatística que o ridículo seja causa frequente de morte mas tenho pena.
(Já agora: será que Fernando Nobre é fumador?)
(Fonte)
P.S. - Comentário de um leitor: «Fernando Nobre declarou-se na quarta feira de cinzas. Se ao menos fosse na véspera...!»
Ainda não li em nenhuma estatística que o ridículo seja causa frequente de morte mas tenho pena.
(Já agora: será que Fernando Nobre é fumador?)
(Fonte)
P.S. - Comentário de um leitor: «Fernando Nobre declarou-se na quarta feira de cinzas. Se ao menos fosse na véspera...!»
17.2.10
Sobre uma Candidatura Anunciada
Um texto de Miguel Serras Pereira
Como é óbvio, ao escrever o post que a Joana aqui publicou esta manhã, não previa a candidatura concreta de Fernando Nobre, nem esperava que aparecesse tão rapidamente qualquer coisa do mesmo teor. No entanto, a candidatura agora anunciada confirma, talvez melhor do que qualquer outra peripécia, a análise que fiz.
Sugeri assim que o artigo de Mário Soares, ontem no Diário de Notícias, tinha por objectivo, menos apoiar Sócrates e o seu governo do que travar o passo à candidatura de Alegre. Do mesmo modo, sugeri que a Petição - aparentemente sem destinatário, como assinalou a Joana - que sucedeu à ideia de manifestação na Fonte Luminosa falava sobretudo para dentro do PS, de modo a tirar a legitimidade a qualquer discordância e a calar Alegre. Seja como for, eis algumas considerações que o novo facto parece justificar.
1 - O pré-candidato é incómodo para o BE (pesca no seu eleitorado), quase tanto como para Alegre: muitas sensibilidades político-ideológicas que Alegre poderia atrair ficarão desconcertadas, sendo para mais de prever que Nobre faça também, e de certo modo mais autorizadamente do que Alegre, invocando o seu apartidarismo, o discurso da independência relativamente aos partidos e do espírito cívico.
2 - O PCP, que a candidatura de Alegre incomodava já visivelmente, terá agora de se resignar, depois do alívio que será poder apresentar sem demasiados problemas um candidato próprio na primeira volta, a apoiar na segunda volta ou Alegre, ou Nobre, contra Cavaco ou outro candidato que una os eleitorados PSD e CDS.
3 - A candidatura de Nobre é incómoda também para os alegristas e outros sectores críticos do PS e da sua área. Torna-lhes praticamente impossível impor Alegre como candidato unânime ou quase-unânime do partido e arredores- a menos que consigam, por exemplo, convocar a muito curto prazo um congresso extraordinário para destituir Sócrates e votar o apoio oficial do partido a Alegre, ainda que fazendo ao mesmo tempo recuar internamente os “alegristas” mais incondicionais.
4 - É duvidoso que a actual direcção do PS possa fazer de Nobre o candidato oficial do partido. Mas é natural que nos próximos tempos surjam as vozes que já se opunham ao apoio a Alegre a recomendar a nova alternativa – vozes que serão agora mais audíveis e numerosas. É manifesto que estas movimentações – acompanhadas pelo apelo a cerrar fileiras em torno de Sócrates – terão por resultado reforçar a lógica e a dinâmica do efeito cumulativo da Petição-sem/com-destinatário e da tomada de posição de Soares, que desde já, como aqui escrevi esta manhã, "beneficia e dá voz aos que no PS tentavam fazer gorar-se a candidatura de Alegre, considerando que o seu sucesso, ainda que relativo, comprometeria mais o seu controle sobre o partido do que uma vitória de Cavaco".
5 - Assim, a menos que a “oposição democrática” e “ social-democrata contra a Terceira Via”, mas não “soarista”, do PS logre impor uma mudança de direcção ao partido e o apoio à candidatura de Alegre em termos que a não façam perder os apoios extra-partidários já logrados ou prováveis, a candidatura de Nobre só será cómoda – como expediente táctico – para quem no PS prefere Cavaco a Alegre, e, sobretudo, para o próprio Cavaco e a sua área, apostados em recentrar o regime de modo a reforçar os seus traços oligárquicos e dirigistas. Para o que parecem contar com apoios decisivos – activos e por omissão – da actual direcção do PS, cujos grandes passos em frente na “musculação” da “autoridade do Estado” e do reforço das prerrogativas das “competências” e da “objectividade económica” se mostram ansiosos por continuar.
2 - O PCP, que a candidatura de Alegre incomodava já visivelmente, terá agora de se resignar, depois do alívio que será poder apresentar sem demasiados problemas um candidato próprio na primeira volta, a apoiar na segunda volta ou Alegre, ou Nobre, contra Cavaco ou outro candidato que una os eleitorados PSD e CDS.
3 - A candidatura de Nobre é incómoda também para os alegristas e outros sectores críticos do PS e da sua área. Torna-lhes praticamente impossível impor Alegre como candidato unânime ou quase-unânime do partido e arredores- a menos que consigam, por exemplo, convocar a muito curto prazo um congresso extraordinário para destituir Sócrates e votar o apoio oficial do partido a Alegre, ainda que fazendo ao mesmo tempo recuar internamente os “alegristas” mais incondicionais.
4 - É duvidoso que a actual direcção do PS possa fazer de Nobre o candidato oficial do partido. Mas é natural que nos próximos tempos surjam as vozes que já se opunham ao apoio a Alegre a recomendar a nova alternativa – vozes que serão agora mais audíveis e numerosas. É manifesto que estas movimentações – acompanhadas pelo apelo a cerrar fileiras em torno de Sócrates – terão por resultado reforçar a lógica e a dinâmica do efeito cumulativo da Petição-sem/com-destinatário e da tomada de posição de Soares, que desde já, como aqui escrevi esta manhã, "beneficia e dá voz aos que no PS tentavam fazer gorar-se a candidatura de Alegre, considerando que o seu sucesso, ainda que relativo, comprometeria mais o seu controle sobre o partido do que uma vitória de Cavaco".
5 - Assim, a menos que a “oposição democrática” e “ social-democrata contra a Terceira Via”, mas não “soarista”, do PS logre impor uma mudança de direcção ao partido e o apoio à candidatura de Alegre em termos que a não façam perder os apoios extra-partidários já logrados ou prováveis, a candidatura de Nobre só será cómoda – como expediente táctico – para quem no PS prefere Cavaco a Alegre, e, sobretudo, para o próprio Cavaco e a sua área, apostados em recentrar o regime de modo a reforçar os seus traços oligárquicos e dirigistas. Para o que parecem contar com apoios decisivos – activos e por omissão – da actual direcção do PS, cujos grandes passos em frente na “musculação” da “autoridade do Estado” e do reforço das prerrogativas das “competências” e da “objectividade económica” se mostram ansiosos por continuar.
Ressalva: Ocorre-me agora outra hipótese ainda, improvável, mas interessante e que gostaria de ver discutida por gente que no Bloco, em torno de Alegre e noutros lugares menos em foco me é próxima. Aí vai:
Suponhamos que os apoiantes da primeira hora de Alegre, o BE, vários democratas independentes, incluindo alguns até ao momento críticos da atitude de Alegre, e o próprio Alegre, anunciavam que retiravam a sua candidatura em benefício da de Fernando Nobre, mediante a aprovação de uma carta de princípios suficientemente anti-messiânica e “participativa” (ou seja, em termos esquemáticos: desvalorizando q.b., sem vocábulos bombásticos, razoavelmente e solicitando a capacidade de juízo das pessoas comuns, a “chefia do Estado” e valorizando inequivocamente a “democracia dos próprios cidadadãos”).
Seria ou não uma maneira de tirar o tapete à Terceira Via, ao pior do “soarismo”, à reciclagem autoritária do regime visada pela direita?
Seria ou não credibilizar os movimentos pela cidadania activa que tanta falta nos fazem?
Seria ou não afirmar a necessidade de outra maneira de fazer política, começando a praticá-la, onde menos seria de esperar – isto é, no quadro de umas presidenciais?
Seria ou não uma maneira de tirar o tapete à Terceira Via, ao pior do “soarismo”, à reciclagem autoritária do regime visada pela direita?
Seria ou não credibilizar os movimentos pela cidadania activa que tanta falta nos fazem?
Seria ou não afirmar a necessidade de outra maneira de fazer política, começando a praticá-la, onde menos seria de esperar – isto é, no quadro de umas presidenciais?
O que eu não daria (4) - para não ouvir evocar o 25 de Abril em vão

… e para estar em Angkor, onde não me chegaria a voz do general Garcia Leandro em declarações à TSF, a propósito da aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo:
«- Quando diz que os militares têm uma especial autoridade moral porque foram (…) decisivos na devolução da liberdade ao país, entende que esta é uma matéria semelhante ou equiparável (…)?
- Claro que é porque estão a tirar a liberdade (…) de opinião à população do país.»
«- Quando diz que os militares têm uma especial autoridade moral porque foram (…) decisivos na devolução da liberdade ao país, entende que esta é uma matéria semelhante ou equiparável (…)?
- Claro que é porque estão a tirar a liberdade (…) de opinião à população do país.»
Mais informações aqui.
(Obrigada pela informação, José Barroso Dias)
Petições? Esta assinei

Para: Assembleia da República
CLASSIFICAR O POSTO DE COMANDO DO M.F.A. COMO MONUMENTO NACIONAL
O Núcleo Museológico do Posto de Comando do MFA tem um problema grave desde que foi criado, em 2001: a falta de garantia da sua preservação enquanto espaço de memória do 25 de Abril de 1974. Na verdade, não se trata verdadeiramente de um museu, integrado na rede nacional (nem local) e, em consequência, está dependente do quartel onde está instalado, o Regimento de Engenharia Nº 1 - Pontinha. Se o quartel for desactivado, o NMPC corre sério risco de desaparecer.
É imperioso, portanto, que se faça alguma coisa antes que esse cenário possa ser uma realidade. E mesmo que não se perfile no horizonte – como já se perfilou seriamente –, há que dignificar aquele espaço como merece. A melhor forma de afastar definitivamente esse perigo e de o dignificar é classificar o Posto de Comando como imóvel de interesse nacional ou de interesse público. Nenhuma autoridade pública manifestou a intenção de o fazer: quer os poderes locais, quer os poderes centrais, sempre se mantiveram à margem do problema. Resta o poder dos cidadãos. Só um significativo movimento cívico poderá forçar quem de direito a cuidar deste património tão simbólico para a conquista da democracia e da liberdade proporcionadas pelo MFA.
É essa a finalidade desta petição a apresentar à Assembleia da República, com o objectivo de os deputados tomarem todas as providências necessárias à preservação e dignificação do edifício onde se instalaram os militares que comandaram as operações do 25 de Abril, garantindo a classificação do Posto de Comando do MFA como "Monumento Nacional" ou "Tesouro Nacional", de acordo com a Lei do Património (Lei nº 107/2001 de 8 de Setembro).
Assine a Petição AQUI.
Divulgue-a.
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A recordar:
CLASSIFICAR O POSTO DE COMANDO DO M.F.A. COMO MONUMENTO NACIONAL
O Núcleo Museológico do Posto de Comando do MFA tem um problema grave desde que foi criado, em 2001: a falta de garantia da sua preservação enquanto espaço de memória do 25 de Abril de 1974. Na verdade, não se trata verdadeiramente de um museu, integrado na rede nacional (nem local) e, em consequência, está dependente do quartel onde está instalado, o Regimento de Engenharia Nº 1 - Pontinha. Se o quartel for desactivado, o NMPC corre sério risco de desaparecer.
É imperioso, portanto, que se faça alguma coisa antes que esse cenário possa ser uma realidade. E mesmo que não se perfile no horizonte – como já se perfilou seriamente –, há que dignificar aquele espaço como merece. A melhor forma de afastar definitivamente esse perigo e de o dignificar é classificar o Posto de Comando como imóvel de interesse nacional ou de interesse público. Nenhuma autoridade pública manifestou a intenção de o fazer: quer os poderes locais, quer os poderes centrais, sempre se mantiveram à margem do problema. Resta o poder dos cidadãos. Só um significativo movimento cívico poderá forçar quem de direito a cuidar deste património tão simbólico para a conquista da democracia e da liberdade proporcionadas pelo MFA.
É essa a finalidade desta petição a apresentar à Assembleia da República, com o objectivo de os deputados tomarem todas as providências necessárias à preservação e dignificação do edifício onde se instalaram os militares que comandaram as operações do 25 de Abril, garantindo a classificação do Posto de Comando do MFA como "Monumento Nacional" ou "Tesouro Nacional", de acordo com a Lei do Património (Lei nº 107/2001 de 8 de Setembro).
Assine a Petição AQUI.
Divulgue-a.
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A recordar:
Das Petições a Manuel Alegre - Um texto de Miguel Serras Pereira
Post sob a foram de carta.
Camarada Joana,
aqui vai um pequeno e apressado contibuto para a reflexão que o teu post impõe acerca da Petição que por aí começou a circular, pura inversão simétrica, e em mais inábil ainda, da Petição/Manifestação da Liberdade, cujo sentido político aberrante foste a primeira voz a denunciar.
1. O objectivo da Petição é apelar ao cerrar fileiras em torno de Sócrates e/ou do seu governo, identificando-os sem resto com o PS. O caminho está aberto para a denúncia da traição ou do divisionismo daqueles que, no PS, perante esta ofensiva, comparada ao "gonçalvismo" de 1975, ousarem atacar o chefe, criticar a actual linha do partido, propor alternativas. O que é curioso é que Mário Soares, no artigo do DN que ontem aqui citaste, faz exactamente a mesma coisa, avalizando o actual governo em termos como nunca o fizera até agora.
2. Apesar da inépcia da Petição, esta, na esteira "Manifestação da Liberdade", que já tivera o mesmo efeito, está a contribuir para o silêncio da candidatura de Manuel Alegre. O movimento de antecipação que parecia consolidar e tornar quase inexpugnável a "candidatura de unidade" de Manuel Alegre tende agora a virar-se contra ele. A cada instante que passa sem que fale, perde terreno; se falar, juntando a sua voz, ainda que com cambiantes, à de Mário Soares, perde terreno; se, pelo contrário, optar por falar como tu e outros dos apoiantes da sua candidatura, apelando ao mesmo tempo à mudança de rumo do PS, será denunciado pelo aparelho do partido e os seus homens de mão como agente dessa extrema-esquerda que quer, como diz Soares, devorar o PS às talhadas.
Em suma, toda a manobra cujo sintoma mais espectacular é a Petição a que o teu post se refere beneficia e dá voz aos que no PS tentavam fazer gorar-se a candidatura de Alegre, considerando que o seu sucesso, ainda que relativo, comprometeria mais o seu controle sobre o partido do que uma vitória de Cavaco.
3. Em meu entender, no que talvez discordes de mim, a candidatura de Alegre confronta-se agora com a perspectiva de sucumbir ao teor equívoco das tomadas de posição políticas do próprio Manuel Alegre. Restar-lhe-ia ousar falar na praça pública, mas ao mesmo tempo para dentro do PS, assumindo uma exigência de transformação interna como a que hoje, no Público, é formulada por Ana Benavente, no seu artigo "Cinco teses para o futuro do PS e do país". Mas teria de fazê-lo em termos que continuassem aceitáveis para os que já manifestaram o seu apoio a uma candidatura que, embora capaz de atrair os votos dos eleitores do PS, se apresentou como exterior a ele. Tudo isto exigiria uma redefinição e um reposicionamento políticos incompatíveis com o que têm sido até agora a lógica e o modo de agir políticos de Manuel Alegre - apesar do que são as concepções explícitas de alguns dos melhores dos seus "companheiros de jornada" (tal como aparecem, por vezes, nas páginas da "Opinião Socialista").
4. Ainda que Manuel Alegre - a sua candidatura - tivesse a coragem e a lucidez de formular uma plataforma "nem sem o eleitorado do PS nem com Sócrates", subsistiriam os problemas de fundo que tentei expor há tempos num post, publicado no "5dias", sob o título "Pontos Prévios sobre as Presidenciais".
Aí escrevi e mantenho agora: "Evidentemente, não vejo objecção de princípio a uma intervenção no cenário eleitoral, a título de combate secundário ou de “aproveitamento” que permita chamar a atenção para as questões de fundo e funcione de modo a contestar, no seu próprio campo, os princípios hierárquicos que prevalecem na cena política dominante e lhe são consubstanciais".
Como ressalva, acrescento, no entanto, que, na minha perspectiva, os riscos de uma berlusconização do regime, a favor da "oportunidade" que a crise representa para as oligarquias económico-políticas dominantes, poderão justificar uma participação defensiva nas presidenciais.
Resta, no entanto, que, para ser eficaz, essa participação em defesa das liberdades deveria ter em conta - e creio ser o momento de insistir nesse ponto - um outro aspecto que formulei, no post já citado: aí respondia a alguém, cujo nome me escapa, mas "que insistia na eventual necessidade de uma organização hierárquica e com liderança clara para conquistar e impor o poder revolucionário, fazendo-lhe notar que […] permanecia prisioneiro da problemática e do problema do bom governante ou, no sentido platónico, do político como pastor, quando a emancipação democrática não pode deixar de, desde o primeiro momento, tentar romper com a problemática do rebanho e as condições do arrebanhamento. […] não me tenho cansado de insistir numa concepção activa da cidadania, pelo que entendo o auto-governo dos cidadãos organizados, e na denúncia do carácter classista e anti-democrático da limitação da actividade política regular a “políticos profissionais” e “especializados”. Assim, à partida, os apelos de Manuel Alegre aos “movimentos de cidadãos”, mulheres e homens comuns que assumissem plenamente a acção política como seu direito e responsabilidade, dever-me-ia merecer aplauso e solidariedade.
Há, no entanto, o facto de Manuel Alegre ser um “político profissional” por excelência, o que o tornaria pouco indicado para encabeçar um movimento semelhante de contestação das formas que organizam a cena política dominante. No mínimo, seria necessário um gesto de ruptura com o papel até agora desempenhado, e não, como aconteceu das últimas presidenciais para cá, a sua atitude de ex-dirigente partidário e de “dirigente partidário em potência”. Até mais ver, não deixou a sua atitude de cabecilha de uma oposição frouxa à direcção actual do PS, e tudo leva a crer que uma eventual sua ruptura com o PS não o levaria a romper com a lógica do bom pastor que acima evoquei. Compete-lhe a ele provar que é capaz do contrário. E oxalá fosse capaz de tal coisa – digo-o sem grandes esperanças, mas também sem ironia".
5. De momento, acho que podemos ficar por aqui, ou fazer do fundo destes problemas um ponto de partida para um debate que, sem esquecer a árvore, não perca de vista a floresta. Estarei muito enganado?
Miguel Serras Pereira
Pare, escute e peticione

Eu sei que o direito de petição vem de longe, que os ingleses o exercem há séculos e que o artigo 52º da nossa Constituição o consagra. Já o exerci, mas, ao fazê-lo, sempre julguei, na minha santa ingenuidade, que estava a pedir alguma coisa a alguém. Há uns dias comecei a duvidar das minhas certezas, hoje decidi consultar alguns dicionários e qual não foi o meu espanto ao verificar que afinal me dão razão: em resumo, uma petição pode ser oral mas é geralmente escrita, por uma ou mais pessoas que se dirigem a uma autoridade para exprimir uma queixa ou, mais frequentemente, para formular um pedido.
Ora este texto que nasceu Manifesto e se tornou Petição, com 1.827 assinaturas no momento em que escrevo, não tem destinatário (se repararem bem no cabeçalho, nada se segue ao «Para:»), também não exprime propriamente pedidos - é só «queixinhas».
Ficamos a saber que todas aquelas pessoas se consideram em «tempos que impõem uma tomada de posição». Mas que posição apresentam, para além de uma fotocópia sem rasuras do que diz o Governo, o PS e o primeiro-ministro? Qual é o valor acrescentado? «Tomam partido», sim, pelo partido a que pertencem e têm todo o direito de o fazer, sem dúvida. No entanto, é bom não esquecer que há mais quem defenda, mas não assim, «o interesse público e o sistema democrático».
Por fim: este texto deve ser lido apenas como «um grito de alma»? Se não é o caso, que objectivo concreto tem em vista? É um Plebiscito?
Só mais umas perguntas. Vão fazer exactamente o quê com as assinaturas? Serão entregues a quem, quando e onde? E estão a «peticionar», a pedir… mais precisamente…???
Ora este texto que nasceu Manifesto e se tornou Petição, com 1.827 assinaturas no momento em que escrevo, não tem destinatário (se repararem bem no cabeçalho, nada se segue ao «Para:»), também não exprime propriamente pedidos - é só «queixinhas».
Ficamos a saber que todas aquelas pessoas se consideram em «tempos que impõem uma tomada de posição». Mas que posição apresentam, para além de uma fotocópia sem rasuras do que diz o Governo, o PS e o primeiro-ministro? Qual é o valor acrescentado? «Tomam partido», sim, pelo partido a que pertencem e têm todo o direito de o fazer, sem dúvida. No entanto, é bom não esquecer que há mais quem defenda, mas não assim, «o interesse público e o sistema democrático».
Por fim: este texto deve ser lido apenas como «um grito de alma»? Se não é o caso, que objectivo concreto tem em vista? É um Plebiscito?
Só mais umas perguntas. Vão fazer exactamente o quê com as assinaturas? Serão entregues a quem, quando e onde? E estão a «peticionar», a pedir… mais precisamente…???
16.2.10
«Desde a Rampa ao Palmar»

Já em tempos publiquei um post sobre estas Marchas Populares. Tenho-as todas, com letra e partituras, e hoje saíram da gaveta para divulgar uma delas, como «bónus» para um excelente texto sobre a Polana publicado ontem por ABM no ma-shamba. Fica para o espólio de antiguidades moçambicanas que por ali estão a ser reunidas.
Está online na íntegra (com a pauta e notas, claro), mas não resisto a pôr também aqui a letra - com toda a ingenuidade dos anos 40 do século XX, lida com os olhos críticos destes nossos anos 10…

P.S. - Eram sete os bairros representados nas Marchas: Alto Maé, Baixa, Carreira do Tiro, Malhangalene, Maxaquene, S. José de Lhanguene e Polana.
E havia, para além destas, «uma marcha sobre um motivo indígena» - em shironga…
Está online na íntegra (com a pauta e notas, claro), mas não resisto a pôr também aqui a letra - com toda a ingenuidade dos anos 40 do século XX, lida com os olhos críticos destes nossos anos 10…

P.S. - Eram sete os bairros representados nas Marchas: Alto Maé, Baixa, Carreira do Tiro, Malhangalene, Maxaquene, S. José de Lhanguene e Polana.
E havia, para além destas, «uma marcha sobre um motivo indígena» - em shironga…
15.2.10
O meu padrinho mulato

Uma troca de comentários a um post no ma-shamba levou-me hoje a recordações absolutamente inesperadas. Nasci e passei a infância em Lourenço Marques e os amigos, inseparáveis e praticamente únicos dos meus pais, eram Karel Pott e a mulher. Fui criada praticamente como irmã dos filhos deles.
De pai holandês e mãe negra, terá sido o primeiro mulato moçambicano a obter um diploma de curso superior. Era advogado, com escritório num belíssimo prédio na Baixa de Maputo - o Prédio Pott -, hoje em ruínas e ocupado por marginais, objecto de justas exigências para que seja recuperado. A tal ponto desfigurado que nem o reconheci quando voltei a Maputo, e o procurei em vão, há cerca de oito anos.
Com orgulho póstumo, descobri hoje que Karel Pott teve um conjunto de interesses e actividades que eu ignorava totalmente, por exemplo que foi um dos fundadores do jornal O Brado Africano e que, como presidente do Grémio Africano, protestou nos anos 30 porque, e passo a citar: «fechavam-se as escolas e dificultava-se o ingresso de alunos negros e mulatos nas existentes, jogando-os, se homens, na marginalidade, e, se mulheres, no "monturo ignóbil da prostituição". Falando com a experiência de quem havia representado – como atleta de corrida – Portugal nas Olimpíadas de Paris, em 1924, lamentava que em Lourenço Marques, "terra mais de pretos portugueses que de brancos portugueses", fechava-se a porta aos primeiros…».
Para a criança de menos de dez anos que era quando sai de Loureço Marques, ele foi apenas o padrinho extremamente carinhoso que vivia numa modesta moradia no Palmar, separada do areal por uma mísera estrada e umas urzes, onde eu passava quase sempre os fins-de-semana. Por vezes vinha visitá-lo a mãe que se recusava a dormir noutro sítio que não fosse uma simples esteira estendida no chão. Recordo-me também de os meus pais me explicarem que eles não iam connosco em férias à África do Sul porque o meu padrinho não seria bem tratado por ser mulato – é a minha primeira recordação de um pré-apartheid, que nunca esqueci porque me causou na altura a maior das perplexidades.
E, com tudo isto, julgo que percebi esta tarde mais claramente porque me irritei tanto com sofridíssimas narrativas que tanto sucesso tiveram recentemente aqui pelo hemisfério Norte. A teclar num computador e sem precisar de um divã.
P.S. -Na foto (tirada «a caminho da Namaacha», como está indicado no verso), sobretudo para leitores de Moçambique: Karel Pott está ao meio comigo ao colo, a outra criança é a filha, Suzy Pott. A mulher, Elvira, está em primeiro plano, à esquerda.
De pai holandês e mãe negra, terá sido o primeiro mulato moçambicano a obter um diploma de curso superior. Era advogado, com escritório num belíssimo prédio na Baixa de Maputo - o Prédio Pott -, hoje em ruínas e ocupado por marginais, objecto de justas exigências para que seja recuperado. A tal ponto desfigurado que nem o reconheci quando voltei a Maputo, e o procurei em vão, há cerca de oito anos.
Com orgulho póstumo, descobri hoje que Karel Pott teve um conjunto de interesses e actividades que eu ignorava totalmente, por exemplo que foi um dos fundadores do jornal O Brado Africano e que, como presidente do Grémio Africano, protestou nos anos 30 porque, e passo a citar: «fechavam-se as escolas e dificultava-se o ingresso de alunos negros e mulatos nas existentes, jogando-os, se homens, na marginalidade, e, se mulheres, no "monturo ignóbil da prostituição". Falando com a experiência de quem havia representado – como atleta de corrida – Portugal nas Olimpíadas de Paris, em 1924, lamentava que em Lourenço Marques, "terra mais de pretos portugueses que de brancos portugueses", fechava-se a porta aos primeiros…».
Para a criança de menos de dez anos que era quando sai de Loureço Marques, ele foi apenas o padrinho extremamente carinhoso que vivia numa modesta moradia no Palmar, separada do areal por uma mísera estrada e umas urzes, onde eu passava quase sempre os fins-de-semana. Por vezes vinha visitá-lo a mãe que se recusava a dormir noutro sítio que não fosse uma simples esteira estendida no chão. Recordo-me também de os meus pais me explicarem que eles não iam connosco em férias à África do Sul porque o meu padrinho não seria bem tratado por ser mulato – é a minha primeira recordação de um pré-apartheid, que nunca esqueci porque me causou na altura a maior das perplexidades.
E, com tudo isto, julgo que percebi esta tarde mais claramente porque me irritei tanto com sofridíssimas narrativas que tanto sucesso tiveram recentemente aqui pelo hemisfério Norte. A teclar num computador e sem precisar de um divã.
P.S. -Na foto (tirada «a caminho da Namaacha», como está indicado no verso), sobretudo para leitores de Moçambique: Karel Pott está ao meio comigo ao colo, a outra criança é a filha, Suzy Pott. A mulher, Elvira, está em primeiro plano, à esquerda.
Entretanto, em Espanha, uma aberração

O juiz Baltasar Garzón ficou mundialmente conhecido desde que, em 1990, ousou pedir a prisão de Augusto Pinochet, mais tarde acusar de genocídio a ditadura argentina, solicitar ao Conselho da Europa autorização para processar Berlusconi, criticar os Estados Unidos por detenções ilegais em Guantanamo.
Em Espanha, para além de muitas outras intervenções, destacou-se pelo envolvimento em processos contra as actividades da ETA e, desde 2008, na luta pela memória das vítimas da Guerra Civil, ao promover a investigação dos crimes do franquismo e ao ordenar a abertura de dezanove fossas espalhadas por toda a Espanha, com cadáveres de republicanos ainda hoje procurados pelas famílias.
A direita nunca lhe perdoou esta última intervenção e, quase dois anos e mil peripécias depois, Lucio Varela, juiz do Tribunal Supremo, considera que há motivos para que seja instaurado um processo a BG por este ter aberto uma causa penal contra o franquismo. O objectivo é conseguir a suspensão das suas funções.
As reacções não se fizeram esperar, entre elas a de um grupo de intelectuais (José Saramago é um deles), que lançou um Manifesto em defesa de BG, agora aberto à subscrição do público em geral. Aqui fica o texto, bem como um veemente apelo para que a ele nos juntemos, conforme expressamente pedido.
Em Espanha, para além de muitas outras intervenções, destacou-se pelo envolvimento em processos contra as actividades da ETA e, desde 2008, na luta pela memória das vítimas da Guerra Civil, ao promover a investigação dos crimes do franquismo e ao ordenar a abertura de dezanove fossas espalhadas por toda a Espanha, com cadáveres de republicanos ainda hoje procurados pelas famílias.
A direita nunca lhe perdoou esta última intervenção e, quase dois anos e mil peripécias depois, Lucio Varela, juiz do Tribunal Supremo, considera que há motivos para que seja instaurado um processo a BG por este ter aberto uma causa penal contra o franquismo. O objectivo é conseguir a suspensão das suas funções.
As reacções não se fizeram esperar, entre elas a de um grupo de intelectuais (José Saramago é um deles), que lançou um Manifesto em defesa de BG, agora aberto à subscrição do público em geral. Aqui fica o texto, bem como um veemente apelo para que a ele nos juntemos, conforme expressamente pedido.
Manifesto: HEMOS CONOCIDO LA NOTICIA
Hemos conocido la noticia de las 114.266 detenciones ilegales de desaparecidos del franquismo, hombres y mujeres marginados durante muchos años del discurso oficial de nuestra democracia, que son rehabilitados ante nosotros gracias a las asociaciones para la Recuperación de la Memoria Histórica, los investigadores y familiares.
Sus vidas conmovedoras y su sacrificio a favor de la libertad y la democracia, junto a las de sus compañeros represaliados, deben ser reconocidos sin distinción por quienes se consideran sensibles y demócratas como parte inolvidable del sacrificio español del siglo XX. Les debemos reconocimiento a su esfuerzo y esperanza por un mundo mejor en los años más terribles de la historia europea.
Por ello, sin entrar en la causa "sub judice" que respetamos, es motivo de celebración el trabajo encomiable del titular del Juzgado de Instrucción número 5 de la Audiencia Nacional Baltasar Garzón de tramitar este sumario de la época franquista tras la aprobación de la Ley de Memoria histórica, por lo que implica de reparación pendiente por nuestra democracia. Por ello lamentamos el desproporcionado ataque a su labor desde ámbitos determinantes que han creado alarma en nuestra sociedad e indefensión en los demandantes.
Quienes dignificaron la democracia con la inmolación de sus vidas forman parte de uno de los capítulos más generosos de la memoria española del siglo XX y por ello no queremos permanecer impasibles ante la evidencia de este crimen contra la humanidad que se perpetró contra ellos en nombre de un Estado golpista, ni ante las maniobras para separar del Juzgado competente este caso.
Si quieres apoyar este manifiesto envía tus datos personales a esta dirección de correo electrónico.
hemosconocidolanoticia@gmail.com
PROMOTORES DEL MANIFIESTO:
• ERNESTO SABATO
• ANTONIO GAMONEDA
• JOSE SARAMAGO
• JUAN GOYTISOLO
• JOSE MANUEL CABALLERO BONALD
• JOSE LUIS SAMPEDRO
• EMILIO LLEDÓ
• PACO IBÁÑEZ
• JOSÉ VIDAL BENEYTO
• IAM GIBSON
• BERNABÉ LÓPEZ GARCÍA
• CRISTINA ALMEIDA
• MANUEL RIVAS
• JORDI DAUDER
• JUAN CARLOS MESTRE
• SUSO DEL TORO
• PILAR DEL RIO
• OLGA LUCAS
• JULIA SANJUÁN
• FANNY RUBIO
• FERNANDO DELGADO
• JOAN OLEZA
• RAMÓN IRIGOYEN
• LIDIA FALCÓN O'NEILL
• JUANA VÁZQUEZ
• MONCHO ALPUENTE
• LUIS PASTOR
• ELISA SERNA
• MIGUEL GARCÍA POSADA
• MARIA BARRANCO
• SANTIAGO DE CÓRDOBA
• MATÍAS ALONSO
• PILAR BARDEM
APOYA IGUALMENTE
Sus vidas conmovedoras y su sacrificio a favor de la libertad y la democracia, junto a las de sus compañeros represaliados, deben ser reconocidos sin distinción por quienes se consideran sensibles y demócratas como parte inolvidable del sacrificio español del siglo XX. Les debemos reconocimiento a su esfuerzo y esperanza por un mundo mejor en los años más terribles de la historia europea.
Por ello, sin entrar en la causa "sub judice" que respetamos, es motivo de celebración el trabajo encomiable del titular del Juzgado de Instrucción número 5 de la Audiencia Nacional Baltasar Garzón de tramitar este sumario de la época franquista tras la aprobación de la Ley de Memoria histórica, por lo que implica de reparación pendiente por nuestra democracia. Por ello lamentamos el desproporcionado ataque a su labor desde ámbitos determinantes que han creado alarma en nuestra sociedad e indefensión en los demandantes.
Quienes dignificaron la democracia con la inmolación de sus vidas forman parte de uno de los capítulos más generosos de la memoria española del siglo XX y por ello no queremos permanecer impasibles ante la evidencia de este crimen contra la humanidad que se perpetró contra ellos en nombre de un Estado golpista, ni ante las maniobras para separar del Juzgado competente este caso.
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Alguns informação recente sobre o assunto:
* Proceso exprés para suspender a Garzón
* La izquierda política y judicial se moviliza para apoyar a Garzón
* Ni leyes ni justicia (José Saramago)
* Justicia abierta al fascismo y cerrada a sus víctimas
14.2.10
E não é que eu estou de acordo com o D.Tarcisio?

O cardeal Tarcisio Bertone, Secretário de Estado do Vaticano, «defendeu que a Igreja não pode tornar-se uma democracia, embora diversos movimentos hoje reclamem a sua "democratização", "para se passar de uma Igreja considerada paternalista", "de cima para baixo", a “uma Igreja-comunidade".»
O PREC do dr. Jardim

Quem não sonharia com um «governo histórico» formado por PSD, CDS, BE e PCP e presidido por AJJ (digo eu…), a «solução democrática» resultante de «um esforço interclassista», «compromisso histórico de maioria parlamentar estável»?
Já não somos portanto cubanos – ou «cubanos de todo o mundo, uni-vos!», como preferirem.
Vou passar o resto da manhã deste Domingo de Carnaval a imaginar a distribuição das pastas. Já ganhei o dia.
(Fonte)
Já não somos portanto cubanos – ou «cubanos de todo o mundo, uni-vos!», como preferirem.
Vou passar o resto da manhã deste Domingo de Carnaval a imaginar a distribuição das pastas. Já ganhei o dia.
(Fonte)
13.2.10
Matusalém (20)
(P.S. - Série de músicas que me marcaram, algures no mundo e na vida, pelos mais variados motivos - quase tão velhas como Matusalém.)
Para a Fonte Luminosa e em força?

Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio mas já nem os socialistas parecem acreditar em Heráclito: segundo o Público, está a ser convocada por SMS uma manifestação de apoio a Sócrates para encher «de novo» a Alameda, numa alusão ao Verão de 1975 em que Mário Soares terá conseguido reunir 100.000 pessoas.
No Largo do Rato, tem-se conhecimento da iniciativa sem saber a sua origem, mas talvez não fosse mau que houvesse uma demarcação pública – digo eu que não tenho nada a ver com isso mas que acredito em efeitos boomerang.
No Largo do Rato, tem-se conhecimento da iniciativa sem saber a sua origem, mas talvez não fosse mau que houvesse uma demarcação pública – digo eu que não tenho nada a ver com isso mas que acredito em efeitos boomerang.
P.S. 1 - O Partido Socialista já veio dizer, apenas oficiosamente, julgo, que nada tem a ver com a iniciativa. Resta saber se aderirá, de facto, caso ela venha a concretizar-se - ou seja, se dirigentes seus virão a estar presentes na mesma.
P.S. 2 -14/2, 14:00: acabo de receber o sms em questão, enviado por um membro da Comissão Política do PS.
Não há famílias grátis

O bisavô do Miguel levou-me a esta fotografia da família do meu pai. Ele é uma das criancinhas da primeira fila, os adultos são os meus avós: ele galego, ela prussiana, nascida alemã mas que seria hoje polaca.
Conta a lenda familiar que se conheceram e amaram sem falarem nenhuma língua em comum. Mas se arrancar da Galiza rumo a Lisboa era então prática mais do que corrente, julgo que o mesmo não se pode dizer da vinda de uma jovem de vinte anos da Prússia no fim dos anos 80 (do século XIX, obviamente), em pura viagem de turismo com um grupo de amigos, que se encantou pelo Sol lisboeta e decidiu por cá ficar sozinha.
Aventureira q.b., portanto, a Frau Lopez foi a matriarca incontestada da família (ou não fosse prussiana…) e, até aos 80 e muitos anos, calcorreou as ruas de Lisboa para dar aulas particulares de alemão em casa de meninos da burguesia, desde as filhas do presidente Carmona a João Bénard da Costa.
Sem me dar ao trabalho de grandes análises, sempre achei provável que as minhas raízes, esticadas da Prússia à Galiza com uma passagem pelos Açores para apanharem um avô materno, explicassem talvez muitas coisas… Sem elas, existiria este blogue? Sei lá! Mas talvez não.
Conta a lenda familiar que se conheceram e amaram sem falarem nenhuma língua em comum. Mas se arrancar da Galiza rumo a Lisboa era então prática mais do que corrente, julgo que o mesmo não se pode dizer da vinda de uma jovem de vinte anos da Prússia no fim dos anos 80 (do século XIX, obviamente), em pura viagem de turismo com um grupo de amigos, que se encantou pelo Sol lisboeta e decidiu por cá ficar sozinha.
Aventureira q.b., portanto, a Frau Lopez foi a matriarca incontestada da família (ou não fosse prussiana…) e, até aos 80 e muitos anos, calcorreou as ruas de Lisboa para dar aulas particulares de alemão em casa de meninos da burguesia, desde as filhas do presidente Carmona a João Bénard da Costa.
Sem me dar ao trabalho de grandes análises, sempre achei provável que as minhas raízes, esticadas da Prússia à Galiza com uma passagem pelos Açores para apanharem um avô materno, explicassem talvez muitas coisas… Sem elas, existiria este blogue? Sei lá! Mas talvez não.
12.2.10
Descubra as diferenças

9 de Outubro de 1910
Oh, meu Deus; nestas ocasiões é que eu queria ver por dentro estes homens lívidos e com um sorriso estampado na cara, que sobem as escadas dos ministérios para aderirem à República!
É este e aquele, os que estão ameaçados de perderem os seus lugares, as altas situações, o Poder. Os tipos não importam – o que importa é o fantasma que transparece atrás da figura; o que importa é o monólogo interior, as verdadeiras palavras que não se pronunciam, o debate que não tem fim, o que nestas ocasiões de crise ruge lá dentro sem cessar. Escutá-los a todos! Possuir o dom mágico de ouvir através das paredes e dos corpos!…Toda a noite, toda a noite de Cinco de Outubro, quantos perguntaram, ansiosos: quem vai vencer? Onde é o meu lugar? …Bem me importam a mim as tragédias e as mortes!… Interesses, ambição, medo, tantos fantasmas que nem eu supunha existirem e que levantam a cabeça!…
Não há nada que chegue a estes momentos históricos em que o fundo dos fundos se agita e remexe, para cada um se avaliar e saber o que vale uma alma…
E o desfile segue – o desfile dos tipos que sobem as escadarias dos ministérios, dos que descem as escadarias dos ministérios, uns já com o olhar de donos, mas vacilantes ainda, sem poderem acreditar na realidade, outros com um sorriso estampado que lhes dói. Estamos todos lívidos, por fora e por dentro…
É este e aquele, os que estão ameaçados de perderem os seus lugares, as altas situações, o Poder. Os tipos não importam – o que importa é o fantasma que transparece atrás da figura; o que importa é o monólogo interior, as verdadeiras palavras que não se pronunciam, o debate que não tem fim, o que nestas ocasiões de crise ruge lá dentro sem cessar. Escutá-los a todos! Possuir o dom mágico de ouvir através das paredes e dos corpos!…Toda a noite, toda a noite de Cinco de Outubro, quantos perguntaram, ansiosos: quem vai vencer? Onde é o meu lugar? …Bem me importam a mim as tragédias e as mortes!… Interesses, ambição, medo, tantos fantasmas que nem eu supunha existirem e que levantam a cabeça!…
Não há nada que chegue a estes momentos históricos em que o fundo dos fundos se agita e remexe, para cada um se avaliar e saber o que vale uma alma…
E o desfile segue – o desfile dos tipos que sobem as escadarias dos ministérios, dos que descem as escadarias dos ministérios, uns já com o olhar de donos, mas vacilantes ainda, sem poderem acreditar na realidade, outros com um sorriso estampado que lhes dói. Estamos todos lívidos, por fora e por dentro…
Raul Brandão, Memórias (13º Volume)
(Texto divulgado por M. Manuela Cruzeiro nos Caminhos da Memória.)
Gmail Buzz

Tal como na antiga, «é preciso avisar toda a gente», mais concretamente quem usa o Gmail. É fácil desactivar o tal de Buzz que apareceu há dois dias: há uma opção no fim da página principal do correio.
Nem aprofundei muito o que vem descrito neste texto, mas prefiro prevenir do que trocar os dedos e permitir o que não quero.
Nem aprofundei muito o que vem descrito neste texto, mas prefiro prevenir do que trocar os dedos e permitir o que não quero.
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