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20.2.10

No Twitter, directamente do espaço




Um astronauta japonês publica directamente no Twitter fotografias tiradas a partir da Estação Espacial Internacional. A notícia parece-nos hoje quase banal mas está longe de o ser: tivessem-nos dito há dez anos que isto aconteceria e nem perceberíamos exactamente do que poderia tratar-se.

Primeiro mostrou Port-au-Prince, mas podemos ver agora muito mais, desde a Cidade Proibida em Pequim, às cataratas de Niagara, Bruxelas ou a Patagónia. E também o Monte Fuji, no Japão, que eu consegui apenas vislumbrar, embora estivesse bem perto e em terra firme, porque é raro que algumas nuvens não o escondam quase totalmente.

(Fonte)

Nós como cão


video

Na rua e escondido.

Mon AMI




«Sebastião Salgado, o grande fotógrafo brasileiro, escolheu contar-nos o mundo atormentado. (…) "Isto está mesmo mal: Sebastião Salgado desembarcou ontem!" Foi no que pensei quando soube que Fernando Nobre, o presidente da Assistência Médica Internacional (AMI), se candidatou a presidente de Portugal: "Meu Deus, isto já só vai lá com assistência humanitária?!" O País ficou em transe. Antigamente, havia o terramoto e aparecia Fernando Nobre, agora é Fernando Nobre que causa o terramoto. Sopram-me que é Mário Soares que está por trás da candidatura. Eu já desconfiava. Soares sempre disse: "Mon AMI..." Só que pensávamos que era Miterrã e é Nóbrê. Nos adversários, um é Alegre mas tem cara de empertigado e o outro é Cavaco mas é de poucas falas. Fernando é Nobre e é monárquico. Termos um nome no boletim de voto que não mente já é positivo.»
Ferreira Fernandes, no DN.

Que isto está mau já todos sabíamos, como ia ser o discurso de Fernando Nobre ainda estávamos para saber.

Agora que já percebi que o seu espaço político não se define nem à esquerda, nem à direita, nem ao centro, estou mais sossegada porque, afinal, não existem neste momento dois candidatos de esquerda e porque Cavaco talvez tenha tido uma pequena insónia ao compreender que não está sozinho de um dos lados da barricada (onde quer que ele, Cavaco, se posicione…)

Aqui fica o link para o anúncio da candidatura, para quem quiser ouvir ou voltar a ouvir.

Registei que pertenço a «um povo ímpar que foi dos poucos povos que marcaram indelevelmente a História da humanidade» e gostei especialmente desta passagem: «Convido-vos a olhar para o futuro (…) para vencermos novos Adamastores que nos angustiam e amedrontam e assim transformarmos os actuais Cabos das Tormentas em novos Cabos da Boa-Esperança que iluminarão Portugal.» Medo!

Matusalém (23)




(P.S. - Série de músicas que me marcaram, algures no mundo e na vida, pelos mais variados motivos - quase tão velhas como Matusalém.)

19.2.10

Nobre povo, nação valente




«Porque chegámos nós a esta decadência que se revela nos embaraços financeiros, a ponto de não podermos viver senão pelo empréstimo, matando todas as actividades económicas pelos impostos absorventes destinados simplesmente a pagar os juros crescentes desses empréstimos sucessivos? Porque a geração que nos precedeu fugiu da política; deixou fazer tudo, não quis saber, não quis tomar conta, lançou-se numa apatia e passividade vergonhosa, de que hoje somos vítimas. Uns fugiram da política por desalento, outros tiveram medo de entrar nesse conflito de paixões pessoais a que então se dava o nome de política. É fácil encontrarmos na linguagem dos mais elevados espíritos da era moderna portuguesa esse grito deplorável, que alguns novos ainda repetem por um certo automatismo de imitação, Por exemplo, Herculano lamenta que a política tivesse inutilizado os talentos do seu tempo; Garrett, sentindo-se esterilizado, diz que já pode ser político; e Castilho repete a frase, que a política tinha desalgado tudo nesta terra. É preciso acabar com este lamentável preconceito, que tem como consequência inevitável a impunidade discricionária dos governos; é preciso que exista uma opinião formada acerca da marcha dos negócios públicos, acerca das aspirações de uma sociedade, para que aqueles que exercem o poder sejam os órgãos que põem em exercício essa força, se fortaleçam quando seguem essa corrente, ou sejam envolvidos nela quando lhe vão de encontro. Fugir da política é abandonar o futuro da sociedade em que se vive, é sacrificar à inércia de hoje, o bem-estar de amanhã.»

Teófilo Braga, História das Ideias Republicanas em Portugal (1880)

Para mais tarde recordar




«Mas, cinco anos depois, Mário Soares mostra que não esqueceu. E não perdoou. Mas mostra mais do que isso. Mostra que entre o paroquialismo político e a unidade da esquerda com reais possibilidades de derrotar Cavaco, Mário Soares e a sua "entourage" escolheram o primeiro. De acordo com as notícias que têm vindo a público, Soares terá sondado sete (!) nomes para poder atirar contra Alegre.

Fernando Nobre foi quem aceitou. Para isso terá contribuído o espírito de missão e a admirável militância de Fernando Nobre. Mas, aparentemente, contribuiu também a sua inexperiência política. Todos os outros nomes que Soares sondou perceberam imediatamente que não eram os interesses da esquerda que motivavam a candidatura. E por isso recusaram. Nobre não teve a mesma clarividência e por isso acaba instrumento de um desígnio que não é o seu.»


P: S. – Eu reconheço que estou a embirrar um pouco com a candidatura do homem, talvez antes de tempo. Mas a ideia de escolher o Padrão dos Descobrimentos para o anúncio oficial põe-me com pele de galinha. E não é só por estarem previstos apenas 6 º para esta noite em Lisboa.

18.2.10

Candidatos a PR 2011




... em breve, num país bem perto de si.

Direi o que penso sobre este assunto - e as interrogações que ele me suscita -, quando a poeira pousar um pouco. Entretanto, aconselho a leitura não só deste post do Miguel Serras Pereira, como da conversa que ainda continua na Caixa de Comentários.

Um pouco de humor que os dias andam pesados




Num país em que um terço da população é fumador - a Turquia -, a ERC lá do sítio condenou uma estação de televisão a uma multa de cerca de 24.000 euros por esta exibir imagens do capitão Haddock a fumar cachimbo.

Ainda não li em nenhuma estatística que o ridículo seja causa frequente de morte mas tenho pena.

(Já agora: será que Fernando Nobre é fumador?)

(Fonte)

P.S. - Comentário de um leitor: «Fernando Nobre declarou-se na quarta feira de cinzas. Se ao menos fosse na véspera...!»

17.2.10

Sobre uma Candidatura Anunciada


Um texto de Miguel Serras Pereira

Como é óbvio, ao escrever o post que a Joana aqui publicou esta manhã, não previa a candidatura concreta de Fernando Nobre, nem esperava que aparecesse tão rapidamente qualquer coisa do mesmo teor. No entanto, a candidatura agora anunciada confirma, talvez melhor do que qualquer outra peripécia, a análise que fiz.
Sugeri assim que o artigo de Mário Soares, ontem no Diário de Notícias, tinha por objectivo, menos apoiar Sócrates e o seu governo do que travar o passo à candidatura de Alegre. Do mesmo modo, sugeri que a Petição - aparentemente sem destinatário, como assinalou a Joana - que sucedeu à ideia de manifestação na Fonte Luminosa falava sobretudo para dentro do PS, de modo a tirar a legitimidade a qualquer discordância e a calar Alegre. Seja como for, eis algumas considerações que o novo facto parece justificar.

1 - O pré-candidato é incómodo para o BE (pesca no seu eleitorado), quase tanto como para Alegre: muitas sensibilidades político-ideológicas que Alegre poderia atrair ficarão desconcertadas, sendo para mais de prever que Nobre faça também, e de certo modo mais autorizadamente do que Alegre, invocando o seu apartidarismo, o discurso da independência relativamente aos partidos e do espírito cívico.

2 - O PCP, que a candidatura de Alegre incomodava já visivelmente, terá agora de se resignar, depois do alívio que será poder apresentar sem demasiados problemas um candidato próprio na primeira volta, a apoiar na segunda volta ou Alegre, ou Nobre, contra Cavaco ou outro candidato que una os eleitorados PSD e CDS.

3 - A candidatura de Nobre é incómoda também para os alegristas e outros sectores críticos do PS e da sua área. Torna-lhes praticamente impossível impor Alegre como candidato unânime ou quase-unânime do partido e arredores- a menos que consigam, por exemplo, convocar a muito curto prazo um congresso extraordinário para destituir Sócrates e votar o apoio oficial do partido a Alegre, ainda que fazendo ao mesmo tempo recuar internamente os “alegristas” mais incondicionais.

4 - É duvidoso que a actual direcção do PS possa fazer de Nobre o candidato oficial do partido. Mas é natural que nos próximos tempos surjam as vozes que já se opunham ao apoio a Alegre a recomendar a nova alternativa – vozes que serão agora mais audíveis e numerosas. É manifesto que estas movimentações – acompanhadas pelo apelo a cerrar fileiras em torno de Sócrates – terão por resultado reforçar a lógica e a dinâmica do efeito cumulativo da Petição-sem/com-destinatário e da tomada de posição de Soares, que desde já, como aqui escrevi esta manhã, "beneficia e dá voz aos que no PS tentavam fazer gorar-se a candidatura de Alegre, considerando que o seu sucesso, ainda que relativo, comprometeria mais o seu controle sobre o partido do que uma vitória de Cavaco".

5 - Assim, a menos que a “oposição democrática” e “ social-democrata contra a Terceira Via”, mas não “soarista”, do PS logre impor uma mudança de direcção ao partido e o apoio à candidatura de Alegre em termos que a não façam perder os apoios extra-partidários já logrados ou prováveis, a candidatura de Nobre só será cómoda – como expediente táctico – para quem no PS prefere Cavaco a Alegre, e, sobretudo, para o próprio Cavaco e a sua área, apostados em recentrar o regime de modo a reforçar os seus traços oligárquicos e dirigistas. Para o que parecem contar com apoios decisivos – activos e por omissão – da actual direcção do PS, cujos grandes passos em frente na “musculação” da “autoridade do Estado” e do reforço das prerrogativas das “competências” e da “objectividade económica” se mostram ansiosos por continuar.

Ressalva: Ocorre-me agora outra hipótese ainda, improvável, mas interessante e que gostaria de ver discutida por gente que no Bloco, em torno de Alegre e noutros lugares menos em foco me é próxima. Aí vai:
Suponhamos que os apoiantes da primeira hora de Alegre, o BE, vários democratas independentes, incluindo alguns até ao momento críticos da atitude de Alegre, e o próprio Alegre, anunciavam que retiravam a sua candidatura em benefício da de Fernando Nobre, mediante a aprovação de uma carta de princípios suficientemente anti-messiânica e “participativa” (ou seja, em termos esquemáticos: desvalorizando q.b., sem vocábulos bombásticos, razoavelmente e solicitando a capacidade de juízo das pessoas comuns, a “chefia do Estado” e valorizando inequivocamente a “democracia dos próprios cidadadãos”).
Seria ou não uma maneira de tirar o tapete à Terceira Via, ao pior do “soarismo”, à reciclagem autoritária do regime visada pela direita?
Seria ou não credibilizar os movimentos pela cidadania activa que tanta falta nos fazem?
Seria ou não afirmar a necessidade de outra maneira de fazer política, começando a praticá-la, onde menos seria de esperar – isto é, no quadro de umas presidenciais?

O que eu não daria (4) - para não ouvir evocar o 25 de Abril em vão




… e para estar em Angkor, onde não me chegaria a voz do general Garcia Leandro em declarações à TSF, a propósito da aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo:

«- Quando diz que os militares têm uma especial autoridade moral porque foram (…) decisivos na devolução da liberdade ao país, entende que esta é uma matéria semelhante ou equiparável (…)?
- Claro que é porque estão a tirar a liberdade (…) de opinião à população do país.»


Mais informações aqui.

(Obrigada pela informação, José Barroso Dias)

E agora?


Petições? Esta assinei





Para: Assembleia da República

CLASSIFICAR O POSTO DE COMANDO DO M.F.A. COMO MONUMENTO NACIONAL

O Núcleo Museológico do Posto de Comando do MFA tem um problema grave desde que foi criado, em 2001: a falta de garantia da sua preservação enquanto espaço de memória do 25 de Abril de 1974. Na verdade, não se trata verdadeiramente de um museu, integrado na rede nacional (nem local) e, em consequência, está dependente do quartel onde está instalado, o Regimento de Engenharia Nº 1 - Pontinha. Se o quartel for desactivado, o NMPC corre sério risco de desaparecer.

É imperioso, portanto, que se faça alguma coisa antes que esse cenário possa ser uma realidade. E mesmo que não se perfile no horizonte – como já se perfilou seriamente –, há que dignificar aquele espaço como merece. A melhor forma de afastar definitivamente esse perigo e de o dignificar é classificar o Posto de Comando como imóvel de interesse nacional ou de interesse público. Nenhuma autoridade pública manifestou a intenção de o fazer: quer os poderes locais, quer os poderes centrais, sempre se mantiveram à margem do problema. Resta o poder dos cidadãos. Só um significativo movimento cívico poderá forçar quem de direito a cuidar deste património tão simbólico para a conquista da democracia e da liberdade proporcionadas pelo MFA.

É essa a finalidade desta petição a apresentar à Assembleia da República, com o objectivo de os deputados tomarem todas as providências necessárias à preservação e dignificação do edifício onde se instalaram os militares que comandaram as operações do 25 de Abril, garantindo a classificação do Posto de Comando do MFA como "Monumento Nacional" ou "Tesouro Nacional", de acordo com a Lei do Património (Lei nº 107/2001 de 8 de Setembro).

Assine a Petição AQUI.

Divulgue-a.

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A recordar:

Das Petições a Manuel Alegre - Um texto de Miguel Serras Pereira


Post sob a foram de carta.

Camarada Joana,
aqui vai um pequeno e apressado contibuto para a reflexão que o teu post impõe acerca da Petição que por aí começou a circular, pura inversão simétrica, e em mais inábil ainda, da Petição/Manifestação da Liberdade, cujo sentido político aberrante foste a primeira voz a denunciar.

1. O objectivo da Petição é apelar ao cerrar fileiras em torno de Sócrates e/ou do seu governo, identificando-os sem resto com o PS. O caminho está aberto para a denúncia da traição ou do divisionismo daqueles que, no PS, perante esta ofensiva, comparada ao "gonçalvismo" de 1975, ousarem atacar o chefe, criticar a actual linha do partido, propor alternativas. O que é curioso é que Mário Soares, no artigo do DN que ontem aqui citaste, faz exactamente a mesma coisa, avalizando o actual governo em termos como nunca o fizera até agora.

2. Apesar da inépcia da Petição, esta, na esteira "Manifestação da Liberdade", que já tivera o mesmo efeito, está a contribuir para o silêncio da candidatura de Manuel Alegre. O movimento de antecipação que parecia consolidar e tornar quase inexpugnável a "candidatura de unidade" de Manuel Alegre tende agora a virar-se contra ele. A cada instante que passa sem que fale, perde terreno; se falar, juntando a sua voz, ainda que com cambiantes, à de Mário Soares, perde terreno; se, pelo contrário, optar por falar como tu e outros dos apoiantes da sua candidatura, apelando ao mesmo tempo à mudança de rumo do PS, será denunciado pelo aparelho do partido e os seus homens de mão como agente dessa extrema-esquerda que quer, como diz Soares, devorar o PS às talhadas.
Em suma, toda a manobra cujo sintoma mais espectacular é a Petição a que o teu post se refere beneficia e dá voz aos que no PS tentavam fazer gorar-se a candidatura de Alegre, considerando que o seu sucesso, ainda que relativo, comprometeria mais o seu controle sobre o partido do que uma vitória de Cavaco.

3. Em meu entender, no que talvez discordes de mim, a candidatura de Alegre confronta-se agora com a perspectiva de sucumbir ao teor equívoco das tomadas de posição políticas do próprio Manuel Alegre. Restar-lhe-ia ousar falar na praça pública, mas ao mesmo tempo para dentro do PS, assumindo uma exigência de transformação interna como a que hoje, no Público, é formulada por Ana Benavente, no seu artigo "Cinco teses para o futuro do PS e do país". Mas teria de fazê-lo em termos que continuassem aceitáveis para os que já manifestaram o seu apoio a uma candidatura que, embora capaz de atrair os votos dos eleitores do PS, se apresentou como exterior a ele. Tudo isto exigiria uma redefinição e um reposicionamento políticos incompatíveis com o que têm sido até agora a lógica e o modo de agir políticos de Manuel Alegre - apesar do que são as concepções explícitas de alguns dos melhores dos seus "companheiros de jornada" (tal como aparecem, por vezes, nas páginas da "Opinião Socialista").

4. Ainda que Manuel Alegre - a sua candidatura - tivesse a coragem e a lucidez de formular uma plataforma "nem sem o eleitorado do PS nem com Sócrates", subsistiriam os problemas de fundo que tentei expor há tempos num post, publicado no "5dias", sob o título "Pontos Prévios sobre as Presidenciais".
Aí escrevi e mantenho agora: "Evidentemente, não vejo objecção de princípio a uma intervenção no cenário eleitoral, a título de combate secundário ou de “aproveitamento” que permita chamar a atenção para as questões de fundo e funcione de modo a contestar, no seu próprio campo, os princípios hierárquicos que prevalecem na cena política dominante e lhe são consubstanciais".
Como ressalva, acrescento, no entanto, que, na minha perspectiva, os riscos de uma berlusconização do regime, a favor da "oportunidade" que a crise representa para as oligarquias económico-políticas dominantes, poderão justificar uma participação defensiva nas presidenciais.
Resta, no entanto, que, para ser eficaz, essa participação em defesa das liberdades deveria ter em conta - e creio ser o momento de insistir nesse ponto - um outro aspecto que formulei, no post já citado: aí respondia a alguém, cujo nome me escapa, mas "que insistia na eventual necessidade de uma organização hierárquica e com liderança clara para conquistar e impor o poder revolucionário, fazendo-lhe notar que […] permanecia prisioneiro da problemática e do problema do bom governante ou, no sentido platónico, do político como pastor, quando a emancipação democrática não pode deixar de, desde o primeiro momento, tentar romper com a problemática do rebanho e as condições do arrebanhamento. […] não me tenho cansado de insistir numa concepção activa da cidadania, pelo que entendo o auto-governo dos cidadãos organizados, e na denúncia do carácter classista e anti-democrático da limitação da actividade política regular a “políticos profissionais” e “especializados”. Assim, à partida, os apelos de Manuel Alegre aos “movimentos de cidadãos”, mulheres e homens comuns que assumissem plenamente a acção política como seu direito e responsabilidade, dever-me-ia merecer aplauso e solidariedade.
Há, no entanto, o facto de Manuel Alegre ser um “político profissional” por excelência, o que o tornaria pouco indicado para encabeçar um movimento semelhante de contestação das formas que organizam a cena política dominante. No mínimo, seria necessário um gesto de ruptura com o papel até agora desempenhado, e não, como aconteceu das últimas presidenciais para cá, a sua atitude de ex-dirigente partidário e de “dirigente partidário em potência”. Até mais ver, não deixou a sua atitude de cabecilha de uma oposição frouxa à direcção actual do PS, e tudo leva a crer que uma eventual sua ruptura com o PS não o levaria a romper com a lógica do bom pastor que acima evoquei. Compete-lhe a ele provar que é capaz do contrário. E oxalá fosse capaz de tal coisa – digo-o sem grandes esperanças, mas também sem ironia".

5. De momento, acho que podemos ficar por aqui, ou fazer do fundo destes problemas um ponto de partida para um debate que, sem esquecer a árvore, não perca de vista a floresta. Estarei muito enganado?

Miguel Serras Pereira

Pare, escute e peticione




Eu sei que o direito de petição vem de longe, que os ingleses o exercem há séculos e que o artigo 52º da nossa Constituição o consagra. Já o exerci, mas, ao fazê-lo, sempre julguei, na minha santa ingenuidade, que estava a pedir alguma coisa a alguém. Há uns dias comecei a duvidar das minhas certezas, hoje decidi consultar alguns dicionários e qual não foi o meu espanto ao verificar que afinal me dão razão: em resumo, uma petição pode ser oral mas é geralmente escrita, por uma ou mais pessoas que se dirigem a uma autoridade para exprimir uma queixa ou, mais frequentemente, para formular um pedido.

Ora este texto que nasceu Manifesto e se tornou Petição, com 1.827 assinaturas no momento em que escrevo, não tem destinatário (se repararem bem no cabeçalho, nada se segue ao «Para:»), também não exprime propriamente pedidos - é só «queixinhas».

Ficamos a saber que todas aquelas pessoas se consideram em «tempos que impõem uma tomada de posição». Mas que posição apresentam, para além de uma fotocópia sem rasuras do que diz o Governo, o PS e o primeiro-ministro? Qual é o valor acrescentado? «Tomam partido», sim, pelo partido a que pertencem e têm todo o direito de o fazer, sem dúvida. No entanto, é bom não esquecer que há mais quem defenda, mas não assim, «o interesse público e o sistema democrático».

Por fim: este texto deve ser lido apenas como «um grito de alma»? Se não é o caso, que objectivo concreto tem em vista? É um Plebiscito?

Só mais umas perguntas. Vão fazer exactamente o quê com as assinaturas? Serão entregues a quem, quando e onde? E estão a «peticionar», a pedir… mais precisamente…???

A grande ilusão - Matusalém (22)




16.2.10

Não será preciso tanto, dr. Mário Soares!




O Portas acabou em Bruxelas, eu numa Pastelaria




É a vida, Ana Cristina.

«Desde a Rampa ao Palmar»




Já em tempos publiquei um post sobre estas Marchas Populares. Tenho-as todas, com letra e partituras, e hoje saíram da gaveta para divulgar uma delas, como «bónus» para um excelente texto sobre a Polana publicado ontem por ABM no ma-shamba. Fica para o espólio de antiguidades moçambicanas que por ali estão a ser reunidas.

Está online na íntegra (com a pauta e notas, claro), mas não resisto a pôr também aqui a letra - com toda a ingenuidade dos anos 40 do século XX, lida com os olhos críticos destes nossos anos 10…



P.S. - Eram sete os bairros representados nas Marchas: Alto Maé, Baixa, Carreira do Tiro, Malhangalene, Maxaquene, S. José de Lhanguene e Polana.
E havia, para além destas, «uma marcha sobre um motivo indígena» - em shironga…

15.2.10

Eu sei que vou sambar na multidão




(via Um Homem na Cidade no Facebook)

O meu padrinho mulato




Uma troca de comentários a um post no ma-shamba levou-me hoje a recordações absolutamente inesperadas. Nasci e passei a infância em Lourenço Marques e os amigos, inseparáveis e praticamente únicos dos meus pais, eram Karel Pott e a mulher. Fui criada praticamente como irmã dos filhos deles.

De pai holandês e mãe negra, terá sido o primeiro mulato moçambicano a obter um diploma de curso superior. Era advogado, com escritório num belíssimo prédio na Baixa de Maputo - o Prédio Pott -, hoje em ruínas e ocupado por marginais, objecto de justas exigências para que seja recuperado. A tal ponto desfigurado que nem o reconheci quando voltei a Maputo, e o procurei em vão, há cerca de oito anos.

Com orgulho póstumo, descobri hoje que Karel Pott teve um conjunto de interesses e actividades que eu ignorava totalmente, por exemplo que foi um dos fundadores do jornal O Brado Africano e que, como presidente do Grémio Africano, protestou nos anos 30 porque, e passo a citar: «fechavam-se as escolas e dificultava-se o ingresso de alunos negros e mulatos nas existentes, jogando-os, se homens, na marginalidade, e, se mulheres, no "monturo ignóbil da prostituição". Falando com a experiência de quem havia representado – como atleta de corrida – Portugal nas Olimpíadas de Paris, em 1924, lamentava que em Lourenço Marques, "terra mais de pretos portugueses que de brancos portugueses", fechava-se a porta aos primeiros…».

Para a criança de menos de dez anos que era quando sai de Loureço Marques, ele foi apenas o padrinho extremamente carinhoso que vivia numa modesta moradia no Palmar, separada do areal por uma mísera estrada e umas urzes, onde eu passava quase sempre os fins-de-semana. Por vezes vinha visitá-lo a mãe que se recusava a dormir noutro sítio que não fosse uma simples esteira estendida no chão. Recordo-me também de os meus pais me explicarem que eles não iam connosco em férias à África do Sul porque o meu padrinho não seria bem tratado por ser mulato – é a minha primeira recordação de um pré-apartheid, que nunca esqueci porque me causou na altura a maior das perplexidades.

E, com tudo isto, julgo que percebi esta tarde mais claramente porque me irritei tanto com sofridíssimas narrativas que tanto sucesso tiveram recentemente aqui pelo hemisfério Norte. A teclar num computador e sem precisar de um divã.

P.S. -Na foto (tirada «a caminho da Namaacha», como está indicado no verso), sobretudo para leitores de Moçambique: Karel Pott está ao meio comigo ao colo, a outra criança é a filha, Suzy Pott. A mulher, Elvira, está em primeiro plano, à esquerda.

Entretanto, em Espanha, uma aberração




O juiz Baltasar Garzón ficou mundialmente conhecido desde que, em 1990, ousou pedir a prisão de Augusto Pinochet, mais tarde acusar de genocídio a ditadura argentina, solicitar ao Conselho da Europa autorização para processar Berlusconi, criticar os Estados Unidos por detenções ilegais em Guantanamo.

Em Espanha, para além de muitas outras intervenções, destacou-se pelo envolvimento em processos contra as actividades da ETA e, desde 2008, na luta pela memória das vítimas da Guerra Civil, ao promover a investigação dos crimes do franquismo e ao ordenar a abertura de dezanove fossas espalhadas por toda a Espanha, com cadáveres de republicanos ainda hoje procurados pelas famílias.

A direita nunca lhe perdoou esta última intervenção e, quase dois anos e mil peripécias depois, Lucio Varela, juiz do Tribunal Supremo, considera que há motivos para que seja instaurado um processo a BG por este ter aberto uma causa penal contra o franquismo. O objectivo é conseguir a suspensão das suas funções.

As reacções não se fizeram esperar, entre elas a de um grupo de intelectuais (José Saramago é um deles), que lançou um Manifesto em defesa de BG, agora aberto à subscrição do público em geral. Aqui fica o texto, bem como um veemente apelo para que a ele nos juntemos, conforme expressamente pedido.


Manifesto: HEMOS CONOCIDO LA NOTICIA
Hemos conocido la noticia de las 114.266 detenciones ilegales de desaparecidos del franquismo, hombres y mujeres marginados durante muchos años del discurso oficial de nuestra democracia, que son rehabilitados ante nosotros gracias a las asociaciones para la Recuperación de la Memoria Histórica, los investigadores y familiares.

Sus vidas conmovedoras y su sacrificio a favor de la libertad y la democracia, junto a las de sus compañeros represaliados, deben ser reconocidos sin distinción por quienes se consideran sensibles y demócratas como parte inolvidable del sacrificio español del siglo XX. Les debemos reconocimiento a su esfuerzo y esperanza por un mundo mejor en los años más terribles de la historia europea.

Por ello, sin entrar en la causa "sub judice" que respetamos, es motivo de celebración el trabajo encomiable del titular del Juzgado de Instrucción número 5 de la Audiencia Nacional Baltasar Garzón de tramitar este sumario de la época franquista tras la aprobación de la Ley de Memoria histórica, por lo que implica de reparación pendiente por nuestra democracia. Por ello lamentamos el desproporcionado ataque a su labor desde ámbitos determinantes que han creado alarma en nuestra sociedad e indefensión en los demandantes.

Quienes dignificaron la democracia con la inmolación de sus vidas forman parte de uno de los capítulos más generosos de la memoria española del siglo XX y por ello no queremos permanecer impasibles ante la evidencia de este crimen contra la humanidad que se perpetró contra ellos en nombre de un Estado golpista, ni ante las maniobras para separar del Juzgado competente este caso.

Si quieres apoyar este manifiesto envía tus datos personales a esta dirección de correo electrónico.
hemosconocidolanoticia@gmail.com

PROMOTORES DEL MANIFIESTO:
• ERNESTO SABATO
• ANTONIO GAMONEDA
• JOSE SARAMAGO
• JUAN GOYTISOLO
• JOSE MANUEL CABALLERO BONALD
• JOSE LUIS SAMPEDRO
• EMILIO LLEDÓ
• PACO IBÁÑEZ
• JOSÉ VIDAL BENEYTO
• IAM GIBSON
• BERNABÉ LÓPEZ GARCÍA
• CRISTINA ALMEIDA
• MANUEL RIVAS
• JORDI DAUDER
• JUAN CARLOS MESTRE
• SUSO DEL TORO
• PILAR DEL RIO
• OLGA LUCAS
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• FANNY RUBIO
• FERNANDO DELGADO
• JOAN OLEZA
• RAMÓN IRIGOYEN
• LIDIA FALCÓN O'NEILL
• JUANA VÁZQUEZ
• MONCHO ALPUENTE
• LUIS PASTOR
• ELISA SERNA
• MIGUEL GARCÍA POSADA
• MARIA BARRANCO
• SANTIAGO DE CÓRDOBA
• MATÍAS ALONSO
• PILAR BARDEM
APOYA IGUALMENTE


Alguns informação recente sobre o assunto:
* Proceso exprés para suspender a Garzón
* La izquierda política y judicial se moviliza para apoyar a Garzón
* Ni leyes ni justicia (José Saramago)
* Justicia abierta al fascismo y cerrada a sus víctimas

14.2.10

O hino possível para este país - Matusalém (21)


E não é que eu estou de acordo com o D.Tarcisio?




O PREC do dr. Jardim




Quem não sonharia com um «governo histórico» formado por PSD, CDS, BE e PCP e presidido por AJJ (digo eu…), a «solução democrática» resultante de «um esforço interclassista», «compromisso histórico de maioria parlamentar estável»?

Já não somos portanto cubanos – ou «cubanos de todo o mundo, uni-vos!», como preferirem.

Vou passar o resto da manhã deste Domingo de Carnaval a imaginar a distribuição das pastas. Já ganhei o dia.

(Fonte)