27.2.10

El Condor Pasa - Matusalém (27)






Simon & Garfunkel, 1970

Do Funchal a Santiago




No Sábado passado foi a Madeira, hoje está a ser o Chile – a brutalidade da natureza, a crueza das imagens e, no segundo caso, ainda uma grande incerteza quanto à dimensão do que está em causa, com mais de cinquenta países em alerta mais ou menos grave de um quase garantido tsunami.

Uma tarde passada com a CNN em pano de fundo, a tentar perceber algumas explicações sobre um fortíssimo terramoto sobre o qual, à hora em que escrevo, ainda não se sabe se provocará menos vítimas do que um outro que afectou o mesmo país, em 1960, e que é considerado o maior de que há memória.

Não sei se chocarei alguns, mas estou a viver com muito mais intensidade o dia de hoje do que o drama que afectou a Madeira. Sobretudo porque a dimensão da tragédia é muito maior, certamente, mas também porque me sinto bem mais perto dos chilenos, da sua terra e da sua história, do que dos habitantes de uma ilha que Gonçalves Zarco e mais alguns descobriram, ou redescobriram, de propósito ou mais ou menos por acaso, há cerca de seis séculos.

Chile


Entretanto, em Cuba




Quatro presos políticos, todos membros do Grupo do 75, detidos na Primavera Negra de 2003 e identificados pela Amnistia Internacional como «presos de consciência», iniciaram uma greve de fome como forma de solidariedade com Orlando Zapata. A eles se juntou, na sua própria casa, um jornalista.

O porta-voz da Comisión Cubana de Derechos Humanos y Reconciliación Nacional pede-lhes que desistam porque está provado que regimes como os de Raúl Castro não respondem humanamente a este tipo de iniciativas.

Entretanto também, e lamentavelmente, Lula da Silva, que se encontrava em Havana quando morreu Orlano Zapata, considerou, já de passagem por El Salvador, «que no se puede juzgar el gobierno de un país por la actitud de un ciudadano que se declara en huelga de hambre» e recusou-se a dar opiniões sobre as atitudes de outros governos, a «meter a colher onde não é chamado».

Chamados somos todos, e Lula também, enquanto homens como nós forem condenados, e morrerem, pela simples razão de lutarem pela liberdade. E enquanto ditaduras como a de Cuba não desaparecerem do mapa, em pleno século XXI, é o próprio progresso da humanidade que está em causa.

P.S. - A ler: La muerte valiente de Zapata

26.2.10

Isto não é ficção


Nobre? Olivença será nossa!




Três vozes:

1-Nuno Rogeiro, revista Sábado, 25/2, p.59 (sem link)
«Manuel Alegre não deveria, quanto a mim, preocupar-se. No fundo, Nobre nunca se posicionou na área do PS, que é berço do poeta. Parecendo mais Eanes do que Soares, e mais um mestre-escola da epopeia portuguesa do que Camões e, mais Sancho Pança que Ulisses, e mais um Almeida Santos jovem do que um Torga. Nobre não pode, não quer e não sabe jogar no tabuleiro de Alegre.»

2- Ferreira Fernandes, no DN de hoje:
«A candidatura de Fernando Nobre à Presidência da República (sim, é a isso que ele se candidata) é capaz de vir a trazer para o público a discussão do regime. Ontem, à Sábado, Nobre disse: "Pertenci uns anos à causa real. Sou simpatizante." Então, está bem. Deve ser mais uma táctica dos monárquicos para resolver o problema. Com o risco de vir a ser criticado pelos seus como o maior dos "monárquicos republicanos", Nobre, se for eleito, pode ser o mais útil da causa: basta-lhe ser um péssimo Presidente para demonstrar a necessidade do Rei. Na Sábado, disse também que quer Olivença de volta. Vai, pois, opor-se ao Rei de Espanha. Não há dúvida, Fernando Nobre é mesmo monárquico: a prova é que, ainda antes de ser eleito, já se dá como prioridade atirar-se a outro monárquico.»

3- O propriamente dito, com imagem e som, aqui, num vídeo com um excerto da entrevista publicada na Sábado, 25/2, pp. 70-72.

Na versão em papel:

Sobre esquerdas e direitas: «As pessoas ainda não perceberam que o paradigma actual da sociedade esgotou esses conceitos.»

Sobre o casamento de homossexuais, fica por interrogações: «Estava no programa do Governo, este tinha toda a legitimidade. Se a palavra casamento está certa? Teria sido bom ouviria o País?»

Olivença: «Numa conversa com o Rei de Espanha, que terei enquanto Presidente, com certeza que lhe hei-de falar de Olivença, como dois seres humanos.»

É caso para dizer que só nos saem duques!

E para continuara a falar de presos políticos




Na Birmânia, o Tribunal Supremo reconfirmou a prisão domiciliária de Aung San Suu Kyi, quando tinha sido largamente divulgada a possibilidade de ver reduzida a duração da sua pena, a tempo de poder agir, em liberdade, durante a campanha para as eleições que terão lugar em breve - as primeiras desde há vinte anos.

Nem as fortes pressões internacionais conseguiram o objectivo pretendido: apesar de não poder candidatar-se, seria muito importante para o povo birmanês que «a senhora», detida durante catorze anos nas duas últimas décadas, lhe pudesse dar alguma voz durante o período eleitoral. Pode parecer pouco, mas é uma fortuna para quem vê toda a espécie de liberdades a um nível próximo do zero – isso mesmo me foi dito quando passei alguns dias na Birmânia, há cerca de quatro meses.

Incansável e indomável, a sua libertação representaria uma ténue esperança numa tentativa de reconciliação nacional, para um povo muito pobre e vítima de uma feroz e generalizada corrupção. Tem-se agora a certeza de que se assistirá a mais um simulacro de democracia, a um novo episódio de uma enorme e dolorosa farsa.

(Fonte)

P.S. – Há neste blogue alguns textos com mais informação sobre a líder da oposição birmanesa, por exemplo este.

25.2.10

Petição: Presos políticos em Cuba


Para: Embaixada de Cuba em Portugal

Nós, cidadãos de um país que conquistou a sua liberdade há 36 anos, solidários com a resistência a todas as formas de imperialismo, críticos do bloqueio injusto e injustificável a Cuba por parte dos Estados Unidos da América, vimos através deste abaixo-assinado protestar contra morte do activista Orlando Zapata Tamayo depois de uma pena de prisão absurda e de uma greve de fome pelos seus direitos civis. E, através deste protesto, manifestar a nossa solidariedade empenhada para com todos os presos políticos cubanos e para com todos aqueles que em Cuba lutam por valores que, para quem, como os portugueses, viveu meio século de ditadura, são bens preciosos: a democracia, a liberdade e o direito a autodeterminação dos povos e dos indivíduos. Não há verdadeira independência de um povo sem democracia. Não há revolução que valha a pena sem liberdade.

Petição e Assinaturas aqui.

(Via Arrastão)

Madeira - «Eu tive um sonho»




Circula na net o texto de um artigo assinado por Cecílio Gomes da Silva, que terá sido publicado em Janeiro de 1985, no Diário de Notícias do Funchal.

Começa assim:

«Traumatizado pelo estado de desertificação das serras do interior da Ilha da Madeira, muito especialmente da região a Norte do Funchal e que constitui as bacias hidrográficas das três ribeiras que confluem para o Funchal, dando-lhe aquela fisiografia de perfeito anfiteatro, aliado a recordações da infância passada junto à margem de uma das mais torrenciais dessas ribeiras – a de Santa Luzia – o mundo dos meus sonhos é frequentemente tomado por pesadelos sempre ligados às enxurradas invernais e infernais dessa ribeira. Tive um sonho.»

O resto é profecia e pode ler lido aqui.


P.S. - Não tinha posto este vídeo por estar já largamente difundido, mas aqui fica:

A morte dos sonhos




Pela leitura de um texto de Manuel António Pina, no JN de hoje (*), regresso a Cuba e ao que tem sido escrito – ou não – depois da morte de Orlando Zapata Tamayo.

Eu que resisti ao fascínio da Praça Vermelha e da Cidade Proibida, fui apanhada em cheio pela esperança dos amanhãs que cantariam a partir de latinos como nós, que tentavam concretizar um impossível sonho em território americano. Sou, sem dúvida, da geração do tal «cubanismo de uma zona da esquerda ocidental», extraordinariamente bem retratada em Fantasia Vermelha, de Iván de la Nuez.

Não sei se todos os sonhos são feitos de chumbo, mas a vida vai-se encarregando de nos fazer sentir na pele, desde a infância, que há uns tantos que pesam muito. É mesmo a compreensão desta realidade que nos torna saudavelmente adultos, se soubermos fazer o luto do que acabou para não voltar: uma pessoa, um amor, uma religião, uma ideologia.

O luto pelo fim do sonho cubano doeu-me, mas terminou há muito tempo. Volto a ele como à recordação de uma pessoa próxima que morreu: sempre sem indiferença, mas já não sentindo realmente a necessidade da sua existência, nem a incapacidade de identificar defeitos – de consequências terríveis e dramáticas, no caso vertente.

Quero acreditar que é a falta desse luto que fez com que tantos, a nível individual, se tenham calado, ou falado ligeira e envergonhadamente, nos dois últimos dias. Cuba continua a ser um tema incómodo, ainda há uma T-shirt de Che escondida por baixo de muitas novas camisolas: resume-se um take da Lusa, põe-se um videozito com as palavras da mãe de Zapata - e passa-se para outra.

A nível colectivo, mais concretamente partidário (porque a tal mítica sociedade civil, essa, está preocupada com o Everton…), a questão é ou parece ser outra: por crença ou por tacticismo, o silêncio da chamada esquerda foi mais pesado do que sonhos de chumbo. Se nada há a esperar do PCP por razões óbvias e se, no Largo do Rato, devem andar todos à procura de gravadores de escutas sem tempo para outras tarefas, já destes senhores, a quem dei o meu voto, espero mais do que notícias dos acontecimentos, mesmo que detalhadas: há uma embaixada de Cuba em Lisboa, que espera por uma manifestação, há uma AR onde pode ser apresentado um voto de protesto, há a Amnistia Internacional que deve ser apoiada na exigência de que sejam libertos todos os outros presos políticos cubanos. Há mil outras possibilidades, como houve para Aminatu Haidar.

Ou ficamos à espera que morra o próximo?

(*) «Nos anos 60, quando o pesadelo soviético era mais que evidente, a Revolução Cubana iluminou de súbito o nosso sonho de uma sociedade livre e igualitária, e tanto desejámos esse sonho que aceitámos qualquer desculpa para as suas traições. Acordámos dele a custo para descobrir, como Sam Spade em "O falcão de Malta", de Dashiell Hammett, que é chumbo a matéria de que são feitos os sonhos.»

Cartas de uma deputada




Ontem, no Facebook, pedi encarecidamente que alguém me desmentisse ser esta a posição do PS relativamente aos fins-de-semana em família de Inês de Medeiros. Andam por lá muitas pessoas aficionadas ao dito partido, mas ninguém se acusou.

Hoje, Ferreira Fernandes escreve uma bela crónica sobre o assunto.

O que me vale é que, daqui a dois meses, estarei em Darjeeling!

Matusalém (26)


24.2.10

Isto não é uma montagem




Aproveitando a maré.

A frase do dia




Ainda a propósito da morte de Orlando Zapata Tamayo




Claro que a existência de presos políticos em Cuba já se tornou trivial.
Claro que já ninguém acredita na Primavera Raulista.
Claro que Orlando Zapata Tamayo era menos conhecido do que Aminatu Haidar, que Havana é mais longe do que Lanzarote e dá menos votos.
Claro que, para a esquerda, Cuba continua a ser um assunto bem mais incómodo do que o Sahara Ocidental – sou a primeira a sofrer com essa crua evidência e a penitenciar-me por só esta noite ter chamado a atenção para um caso, depois de consumado, que seguia há dias na imprensa e na blogosfera da resistência cubana.
Claro que se Orlando Zapata Tamayo tivesse sido um blogger iraniano ou chinês, sujeito à censura, já teria há muito tempo quinhentos posts em vinte e cinco blogues.

Esta é a (triste) realidade.

P.S. – Só faltava mais isto: «El general Raúl Castro "lamentó" la muerte del preso político Orlando Zapata Tamayo, tras 86 días de huelga de hambre, y aseguró que este hecho es el resultado de la relación con Estados Unidos.»

Morte de um resistente cubano




A notícia era esperada já há alguns dias: Orlando Zapata Tamayo não resistiu à greve de fome que iniciara no passado dia 3 de Dezembro e morreu ontem à tarde em Havana.

Tinha 42 anos e foi um dos 75 dissidentes presos em 2003, na «Primavera Negra», enquanto membro do «Movimiento Alternativo Republicano y Consejo Nacional de Resistencia Cívica».

A sua mãe (na foto), uma das Damas de Branco cubanas, não cala a revolta:



(Fonte)

P.S. – A propósito de Cuba, um importante artigo: 2009: El año en que se desvaneció el raulismo

23.2.10

Matusalém (25)




(Via Rui Bebiano no Facebook)

Rastos das guerras




Vale a pena ler o artigo «Os bastardos da guerra descobrem as suas raízes», no Público de ontem, sobre as vidas e as humilhações sofridas pelos filhos de soldados alemães, que nasceram durante os quatro anos da ocupação nazi na Europa.

Regressei imediatamente às minhas vivências estudantis na Bélgica durante os anos 60. Num início de ano lectivo, acabara de chegar à residência universitária uma caloira e uma das responsáveis da dita residência pô-la num quarto ao lado do meu e pediu-me que lhe desse apoio porque era um «caso complicado». Explicou-me mais tarde que ela não sabia que o pai era um guarda prisional alemão que tinha violado a mãe antes de esta escapar, por pouco, ao envio para uma espécie de campo de concentração. Nunca esqueci esta história – pura ficção de terror para os meus verdíssimos anos, saídos há pouco da pacatez cinzenta em que Salazar nos tinha preservado.

Mas só ontem me apercebi da dimensão do drama: estima-se em 800.000 o número destas pessoas, muitas delas ainda vivas, que só conseguiram começar a falar depois da morte das mães e que tentam agora identificar irmãos dos outros lados das fronteiras.

Quantos iraquianos não irão procurar pais americanos ou ingleses na segunda metade do século XXI?

O futuro da Europa? Mas qual Europa?




Diz Mário Soares, no DN:

«Num contexto tão complexo, a União Europeia criou um grupo de reflexão sobre o futuro da Europa, presidido por Felipe González, cujo primeiro projecto, ainda incompleto, penso, tive o privilégio de poder ler e sobre ele reflectir. Parte esse texto do princípio de que a União está obrigada, em curto prazo, a fazer uma escolha decisiva: ou é capaz de responder positivamente aos desafios globais a que está, por força das circunstâncias, submetida, tornando-se um actor mundial reconhecido e competitivo; ou entrará em inevitável marginalização e declínio. Tornar-se-á "uma pequena península insignificante e pobre do grande continente asiático"…»

E eu acrescento: criar um grupo de reflexão foi sempre a receita milagrosa quando não se sabe de todo o que fazer. Tarefa agora facilitada porque, tirando uma reunião ou outra para a fotografia, tudo se pode fazer por mails e pdf’s. O mundo mexe-se a uma velocidade estonteante, os líderes europeus põem em Bruxelas colegas medíocres que não façam nem ondas nem sombras e nomeiam uns senhores para desenharem o «futuro da Europa» nos seus gabinetes e em breves passagens pelas salas de VIP’s de aeroportos.

Faço uma sugestão: constituam-se em grupo viajante em Classe Económica, incógnito, sempre com muito tempo livre para o mundo real – reúnam-se só à tarde. Comecem por exemplo em Bangkok, passeiem pelas ruas e comam gafanhotos fritos. Dêem um passeio de tuc-tuc em Hanoi. Regateiem preços e comprem relógios a dez dólares em Pequim. Vejam os indianos em Varanase, nas margens do Ganges. Passem depois por África, podem escolher o país. Numa qualquer terreola do centro dos estados Unidos, perguntem a um transeunte o que é a Europa. Pensem em Bruxelas vagueando pelas ruas de Buenos Aires. E façam um meeting final no morro do Cap Horn porque o vento agreste varre poeiras. Entretanto, vão pensando no tal futuro da Europa.

Matusalém (24)







Jean Ferrat, Que serais-je sans toi?

22.2.10

De invocação em invocação, chegar-se-á aos Pastorinhos, depois à Padeira de Aljubarrota, mais tarde a Egas Moniz




Todos terão tido excelentes razões para reivindicar uma opinião sobre o assunto. Como ELE:
«Os verdadeiros democratas sabem responder: os capitães de Abril acabam de escrever uma carta aberta contra o casamento homossexual.»

Não é nobreza, é nobritude




No jornal «i» de hoje, uma longa entrevista ao candidato anunciado.

Dois excertos que só vêm confirmar as minhas inquietações:

«Chegou o momento de a sociedade civil se exprimir.» «Chegou a hora de os cidadãos dizerem que querem ser escutados e eu quero ser o porta-voz desses que não tiveram voz durante décadas.»
Isto é grave porque podia ter sido dito no dia 24 de Abril de 1974. Há décadas não tínhamos «voz», mas hoje todos a temos. E se é verdade que uns a têm mais do que outros, não se trata de invocar a sociedade civil (mas o que é isso?...), mas sim de governar bem para diminuir diferenças sociais e económicas. E, que eu saiba, isso não é propriamente a função de um PR.

«Não estou aqui para dividir entre esquerda, centro e direita. Isso não me interessa. Eu vou por valores. Há muita gente que ainda não entendeu que já ninguém acredita nessas coisas da direita e da esquerda: acreditam em valores, em pessoas com carácter e com coluna vertebral.»
Precisamente por se acreditar em valores é que fez, faz e continuará a fazer sentido, usar termos como «esquerdas», «direitas», e outros afins, para tentar compreender a realidade política. Porque é de política que se trata e não de carácter, coluna vertebral ou de ter medo de crocodilos e não de mosquitos.

O dr. Fernando Nobre começa a dizer ao que vem e transpira virtude. Não basta.