31.3.10
Mais BRIC, menos BRIC
Bem adaptado, o Palácio dos Ventos de Jaipur faria as delícias de um qualquer engenheiro Belmiro. Sempre seria mais bonito do que o Saket Mall, um dos 600 centros comerciais que abriram na Índia, durante os últimos dez anos.
O que é isso para 1.170 milhões de habitantes, mais coisa menos coisa (se não me enganei nos zeros e na terminologia)? Pouco, é verdade. Mas há quem procure defender o pequeno comércio e também demonstrar que o estímulo ao consumo, que as grandes superfícies promovem, é contrário à cultura indiana de «poupe agora para gastar depois».
Nada a fazer, julgo eu. Exportámos missionários e trouxemos pimenta, hoje levamos Prada e importamos software.
Mas a Índia é diferente dos outros BRIC e em especial da China: enquanto esta produz em massa produtos baratos, o que cria muitos empregos, na Índia estamos perante um classe média muito reduzida, proveniente sobretudo de sectores de ponta, como o financeiro e o de produção de software. Acima e abaixo, gente milionária e uma miséria que parece endémica.
Um retrato instantâneo de Delhi: «À noite, brilham mil luzes do luxuoso Saket. Os clientes satisfeitos, com os seus sacos de compras, esperam que o motorista lhes traga o carro. (…) Mesmo ao lado, escondida pelos painéis publicitários, uma série de barracas feitas com restos de chapa: é lá que vivem os operários que trabalham no centro comercial.»
Um pouco mais longe, mas não muito, centenas ou milhares de pessoas dormem dentro de sacos de plástico pretos, iguais aos que compramos para pôr o nosso lixo. Voltarei a vê-los nas ruas de Delhi quando lá chegar, dentro de três semanas. É horrível – garanto a quem nunca assistiu ao espectáculo.
30.3.10
Roma, cidade fechada
A discussão começou ontem nos comentários a um post que eu julgava inócuo e que deram origem a um texto do Miguel Serras Pereira e a um outro do João Tunes. Tomo-os como ponto de partida, concordando com muito do que ambos dizem, mas tentando abordar a questão de um outro ponto de vista e deixando de lado, pelo menos para já, a questão da pedofilia e de tudo o que lhe está ligado.
Será razoável esperar que a igreja católica enquanto instituição venha a prescindir do poder fortemente centralizado que detém, ou a modificar significativamente as suas características, apesar das declarações cíclicas de descentralização e de autonomias que vai fazendo? Terá isso importância, ou não, na sua contribuição para a construção da democracia dos povos?
A minha resposta à primeira pergunta é negativa e recuo algumas décadas para lá chegar. Durante o Concílio Vaticano II que decorreu na primeira parte dos anos 60, mais exactamente de 1962 a 1965, a grande esperança que alimentou o mundo católico foi precisamente que se estivesse a viver o início de uma nova era em que a primazia do «povo de Deus» vencesse a rigidez de uma estrutura hierárquica, rígida e esclerosada, onde tudo chegava do topo à base em perfeita harmonia, por uma correia de transmissão sem falhas nem desobediências. Ou, por outras palavras em que melhor nos entendemos, para a que a igreja se tornasse uma instituição verdadeiramente «democrática».
48
Soube-se ontem que «48» de Susana de Sousa Dias ganhou o Grande Prémio do Festival Cinéma du Réel.
Trata-se de um documentário absolutamente impressionante, que vi no DocLisboa 2009. Apenas fotografias de vítimas da PIDE – as fotografias oficiais tiradas pela dita PIDE - acompanhadas, em off, pelas vozes dos próprios que contam as suas histórias.
Sobriedade e minimalismo de que resulta um verdadeiro murro no estômago para o espectador, por vezes difícil de suportar. E que atinge o clímax nas últimas e longas cenas em que o ecrã está totalmente negro, porque os arquivos da actividade da PIDE em África desapareceram e não há portanto fotografias – apenas as vozes dos ex-presos.
Prémio merecidíssimo pelo contributo que a Susana dá à memória deste país. Com um travo ligeiramente amargo por se verificar, uma vez mais, que os santos desta casa raramente conseguem ser milagreiros.
Trata-se de um documentário absolutamente impressionante, que vi no DocLisboa 2009. Apenas fotografias de vítimas da PIDE – as fotografias oficiais tiradas pela dita PIDE - acompanhadas, em off, pelas vozes dos próprios que contam as suas histórias.
Sobriedade e minimalismo de que resulta um verdadeiro murro no estômago para o espectador, por vezes difícil de suportar. E que atinge o clímax nas últimas e longas cenas em que o ecrã está totalmente negro, porque os arquivos da actividade da PIDE em África desapareceram e não há portanto fotografias – apenas as vozes dos ex-presos.
Prémio merecidíssimo pelo contributo que a Susana dá à memória deste país. Com um travo ligeiramente amargo por se verificar, uma vez mais, que os santos desta casa raramente conseguem ser milagreiros.
Meditação
Se o Largo do Rato ainda tivesse este ambiente bucólico, talvez Sócrates conseguisse um pouco de calma para decidir se apoia ou não Manuel Alegre.
29.3.10
Magister dixit?
Eu gostava que alguém me explicasse o que é que Anselmo Borges escreveu de tão extraordinário, no artigo publicado há dois dias no DN, para que tantas almas - cristãs, agnósticas ou ateias - o citem e louvem com incomensurável veneração. Disse o mínimo e o óbvio que milhares de pessoas repetiram, nos últimos dias e no mundo inteiro.
A diferença reside apenas no facto de ser do conhecimento público que ele é padre, eu sei, e é isso que contesto, porque é o velho argumento de pseudo-autoridade, que vem nestes momentos ao de cima, incrustado que está no mais profundo das nossas entranhas. Pseudo-autoridade já que, segundo julgo saber, ele não exerce qualquer função de chefia que lhe permita, amanhã, entregar um eventual padre pedófilo aos tribunais ou afastá-lo de funções. O cidadão Anselmo Borges - teólogo, filósofo e professor universitário -, limitou-se a escrever, e bem, um artigo de opinião, que não assina como padre. Mas o que passou a ter importância foi o que se sabe acerca do mensageiro e não propriamente a mensagem. Sem que o dito mensageiro tenha qualquer responsabilidade, como é óbvio.
Se amanhã o padre Anselmo Borges vier dizer que, enquanto tal, se recusa a participar em cerimónias durante a visita de Bento16 a Portugal, ou pedir a resignação do papa e explicar porquê, aí, sim, citá-lo-ei com a maior das admirações.
P.S. - O Miguel Serras Pereira adaptou o texto dos dois comentários que aqui deixou e transformou-o em post publicado agora no Vias de Facto. A discussão passa para um outro patamar.
Um país, muitos sistemas
Olhamos para a China de fora, elogiamos ou condenamos os seus efeitos na inevitável globalização, protestamos contra a repressão dos que pretendem exprimir-se livremente, comentamos as manobras, louváveis ou nem por isso, do tipo de permanência do Google no país - sempre com as imagens da Praça Tiananmen em pano de fundo e com a herança de Mao na memória e nas prateleiras.
Pouco sabemos, no entanto, da movimentação interna de centenas de milhões de pessoas, do seu significado e das consequências ainda certamente imprevisíveis que ela terá, a médio prazo, não só naquele país mas no mundo em geral.
Estima-se em pelo menos 200 milhões o número de camponeses migrantes para os arredores das grandes cidades, onde vivem em péssimas condições depois de, na melhor das hipóteses, terem conseguido uma autorização de residência temporária que pode caducar em qualquer momento pelos mais variados motivos, sendo os seus portadores recambiados para o local de origem. Mas, num país onde não há «liberdade de habitação», muitos vivem ilegais ou mesmo na clandestinidade.
28.3.10
Basta!
Gillermo Fariñas, em greve de fome há mais de um mês, piorou e tem um septicemia generalizada
«É indispensável encontrá-los dominá-los concenvê-los
antes que seja tarde
e a memória da infância nos jardins escondidos
acorde a tolerância no coração das pessoas» (Daniel Filipe)
........
«Para as bandas da Playboy»
O Central Nacional de Cultura tem vindo a divulgar, no seu blogue, algumas das crónicas que João Bénard da Costa publicou no Público. Lembro-me muito bem desta,de Janeiro de 2004.
1 - Uns artiguitos, por aqui e por acolá, informaram-me que a "Playboy" fez 50 anos. Primeiro pensei: "Meu Deus, como o tempo passa!" Depois, melancólico, realizei que as mais tenrinhas das "bunnies" de há 50 anos têm hoje a minha idade. Marilyn - na celebérrima foto nua do número 1 - era bastante mais velha. O que vale (vale a quem?) é que o tempo não corre à mesma velocidade para os homens e para as mulheres. Marilyn morreu, ainda quase todas vocês nem nascidas eram. As coelhinhas desmamadas de 1953 têm agora idades assustadoras. Mas aquele que, ainda hoje, continua a ser tratado por Hef (Hugh Hefner, o patrão), nascido no mesmo ano de Marilyn (1926) continua, aos 77 anos, mais Viagra menos Viagra, a "dating" três coelhinhas em simultâneo e a ter um harém permanente de vinte e tal. A acreditar em Pedro Rolo Duarte, Sting, que entre parêntesis já vai nos cinquenta e picos, compara-o "a uns daqueles imperadores romanos decadentes, cercados pelos bárbaros da Internet, que estão a acabar com o seu império". Mas as fotos da festa das bodas de ouro, que se podem ver na "Playboy" de Fevereiro de 2004, já à venda por aí, mostram-no em bastante boa forma e excepcionalmente num impecável "tuxedo". Duvido que os bárbaros, quando lá chegarem e se lá chegarem, consigam o mesmo estardalhaço.»
Continua aqui.
A tradição onde menos se espera
Na foto, Obama mostra um emaranhado de correcções a um texto de um dos muitos discursos que fez para defender a reforma da saúde – escritas à mão, quem sabe se com caneta de tinta permanente.
Longa vida para o papel.
27.3.10
Mais vale rir
Vivi décadas num mar de siglas, quando as americanices ainda não eram moda cá pelo burgo, e levei tempo a refazer-me do espanto de ter um chefe que assinava RPG e que punha em todos os recados FYI ou ASAP. Mas garanto que nunca, mas nunca mesmo, ouvi uma maravilha parecida com esta:
A PT está portanto bem entregue. E o little boy, que entretanto a deixou, rezava assim.
Negócios brimaneses
Rue89 publica hoje uma longa reportagem, em cinco capítulos, especialmente importante para quem como eu esteve na Birmânia há poucos meses, mas que interessará certamente a todos os (francófonos…) que pretendam penetrar um pouco nos terríveis meandros de uma ditadura de ferro, corrupta, que não prescinde da tecnologia (com a ajuda ocidental, evidentemente) mas que persegue quem a utiliza, nomeadamente filtrando correio electrónico e impedindo a actividade de bloggers.
Disse-o então mas repito: algumas plataformas de correio são mesmo proibidas e, no caso do gmail, acede-se por um url especial que encaminha todos os mails para servidores onde são filtrados, aleatoriamente ou por palavras-chave. E nunca consegui acesso ao Blogger.
Transcrevo o último parágrafo do estudo publicado em Rue89:
«Peu après cette conversation, les autorités birmanes ont identifié une nouvelle blogueuse. Elle a été jugée très vite et condamnée à treize années de prison. Fin février, le pouvoir a transféré l'activité internet du Myanmar dans la cyberville militaire de Yadanabon. Tous les jours, j'échange quelques mots anodins par messagerie électronique avec Myo. Juste pour voir s'il est libre. Jusqu'à maintenant, tout va bien.»
No fim do primeiro texto, há encadeamento para a continuação.
(Na foto, Patrick, nome ocidentalizado do guia que me acompanhou em Novembro, e que não é, mas podia ser, o Myo que possibilitou a Paul Moreira esta sua aventura jornalística clandestina.)
26.3.10
Num agradável «countdown» (1)
Portanto, de hoje a um mês, deverei ter chegado a Darjeeling, no estado indiano de Bengala Ocidental - em plenos Himalaias, a cerca de 2.130 metros de altitude.
Para trás, terão ficado muitas horas de voo, a Portela e sobretudo o incontornável aeroporto de Frankfurt - todas as escalas somadas, já lá passei certamente alguns longos dias da minha vida. Também Delhi, que conheço e não me diz muito, o memorial de Gandhi e o resto, o impressionante espectáculo das muitas e muitas pessoas deitadas pelas ruas.
Mas Darjeeling, sim, é uma das maiores expectativas de todo o programa. Para além de mosteiros tibetanos (mais viagem, menos viagem, ainda acabo budista…), as célebres plantações de chá e, pelo que leio, a variedade racial das gentes vindas dos mais variados locais dos Himalaias. E também, obviamente, uma pequena viagem num dos ícones da região: o «Darjeeling Toy Train», classificado pela UNESCO como Património da Humanidade.Literatura sobre tudo isto não me falta, o tempo é que não tem sido muito. Talvez amanhã…
Soma mas segue?
O New York Times parece estar a apostar no papel de uma espécie de arauto para um eventual impeachment de Bento16. Depois deste artigo de ontem, pelo menos mais dois, hoje: Memo to Pope Described Transfer of Pedophile Priest e Pope May Be at Crossroads on Abuse, forced to Reconcile Policy and Words.
E começa-se a ler, um pouco por todo o lado: «Le pape doit démissionner s'il a couvert des prêtres pédophiles».
Entretanto, em Inglaterra, que Bento16 visitará no fim deste ano, não se brinca em serviço.
Nós por cá? Todos bem.
Num país sem maravilhas
No Sábado passado, o Expresso noticiou que «Manuel Maria Carrilho pode deixar o lugar que ocupa há apenas um ano em Paris. O pretexto remonta a Setembro, quando o embaixador na UNESCO se recusou a cumprir uma orientação do MNE numa votação.»
Recorde-se que o que estava em causa era a ordem recebida do Ministério dos Negócios Estrangeiros (negócio oblige…) para que votasse num egípcio, publicamente conhecido pelas suas posições anti-semitas, para director-geral da UNESCO. Carrilho recusou-se, foi substituído na votação (que o egípcio felizmente até nem ganhou). Tudo bem? Nem por isso: aparentemente, o governo quer agora mudar de representante junto da instituição e não faltam por aí vozes a dar-lhe razão, como a do sempre correcta e politicamente alinhado Eduardo Pitta: que, depois da ausência, só restava a Carrilho pedir a demissão – obviamente...
Note-se que ele nem votou «contra» a vontade do governo: limitou-se a exercer o direito, na minha opinião absolutamente indiscutível, de não se violentar. Num país normal, isso teria sido bem interpretado e seriam muitos os comentários contrários à notícia da sua substituição. Há alguns, apesar de tudo, como este da Ana Cristina Leonardo (a quem roubo, em parte, o título deste post):
«A reacção à notícia do eventual afastamento de Carrilho parece-me tão-só mais um exemplo do formalismo estéril que vem dominando a política cá do burgo, a transbordar de parvenus da democracia apetrechados de uma lógica sofística, maquiavélicos de pacotilha civilizados na forma, gente que faz da política uma dança de salão.»
«A reacção à notícia do eventual afastamento de Carrilho parece-me tão-só mais um exemplo do formalismo estéril que vem dominando a política cá do burgo, a transbordar de parvenus da democracia apetrechados de uma lógica sofística, maquiavélicos de pacotilha civilizados na forma, gente que faz da política uma dança de salão.»
Quem se mete com o PS leva! Lembram-se?
P.S. - E, por falar em Manuel Maria Carrilho, leia-se um excelente artigo que publicou ontem no DN: Uma avalanche e três utopias
25.3.10
Um muro mais forte que o de Berlim?
De Cuba nada de novo, mas Obama fez ontem uma declaração. Aqui na íntegra:
President Obama's statement on Cuban human rights
Recent events in Cuba, including the tragic death of Orlando Zapata Tamayo, the repression visited upon Las Damas de Blanco, and the intensified harassment of those who dare to give voice to the desires of their fellow Cubans, are deeply disturbing.
These events underscore that instead of embracing an opportunity to enter a new era, Cuban authorities continue to respond to the aspirations of the Cuban people with a clenched fist.
Today, I join my voice with brave individuals across Cuba and a growing chorus around the world in calling for an end to the repression, for the immediate, unconditional release of all political prisoners in Cuba and for respect for the basic rights of the Cuban people.
During the course of the past year, I have taken steps to reach out to the Cuban people and to signal my desire to seek a new era in relations between the governments of the United States and Cuba. I remain committed to supporting the simple desire of the Cuban people to freely determine their future and to enjoy the rights and freedoms that define the Americas, and that should be universal to all human beings.
Entretanto, Gullermo Fariñas continua em greve de fome, iniciada há um mês.
De quando as histórias da Casa Pia começam a parecer quase inócuas
Apesar de avisado por vários bispos americanos que, inclusive, sublinharam as eventuais consequências negativas para o Vaticano, um padre americano foi mantido em funções apesar de ter abusado sexualmente de mais de 200 crianças surdas.
Se este caso é anterior à presidência, pelo actual papa, da Congregação que se ocupa destas questões, sabe-se agora que se contam por milhares aqueles de que teve conhecimento durante o seu «reinado» que durou 24 anos (de 1981 a 2005) - incluindo este.
Há poucos dias, falei de encobrimento por parte das autoridades da igreja, sem ainda ter consciência da sua extensão. Este artigo do New York Times explica, detalhadamente, o carácter excepcional deste caso que chegou aos tribunais. Os outros estão ainda nos cofres do Vaticano.
24.3.10
1962 - O testemunho de José Medeiros Ferreira
Medeiros Ferreira referiu, no seu blogue, este meu post sobre o Dia do Estudante em 1962. Aqui fica mais um testemunho - o dele -, em jeito de homenagem a mais um dos grandes protagonistas dos acontecimentos (*).
Secretário Geral da RIA
(Reunião Inter-Associações) 62/63
(*) A Crise Académica de 62, Fundação Mário Soares, 2007 (dvd)
Insistindo

O Dia do Estudante ainda existe e continua a ser celebrado a 24 de Março. Mixed feelings quanto ao que leio na imprensa e o que vou recebendo por mail.
Sentimentos negativos quando leio isto, sabendo o estado em que estão as universidades e a indiferença, pelo menos aparente, dos responsáveis das organizações estudantis:
Positivíssimos relativamente ao texto da carta que transcrevo no fim deste post, que convoca para uma manifestação organizada pela Delegação Nacional de Associações de Estudantes do Ensino Secundário e Básico. Não só, nem talvez principalmente, pela manifestação em si, mas pela correcção certeira dos objectivos e pela maturidade que revela. Fico optimista quanto ao que aí vem.
Um parêntesis. A carta vem assinada por Pedro Feijó, aluno do 12º ano do Liceu Camões, um caso muito especial de liderança. Na sessão solene presidida por Cavaco Silva, que marcou as festividades do centenário da escola, foi ele que falou em nome dos alunos.«Dirigiu-se ao palanque que a presença de Cavaco Silva impunha, e começou por se dizer portador de uma escola de sonho. Falou de improviso. Comentou as medidas que, na sua análise, puseram em causa a escola democrática. Deu casos, explicou os efeitos das medidas ministeriais. Mas demarcou-se dos sindicatos, porque trouxe às centenas de camonianos, pessoas de muitas diferentes idades, uma proposta de comunhão, inspirada na cultura da sua escola (…), com a necessidade de criar projectos para dar vida a um espaço que o merece.» (Intervenção, na íntegra, aqui)
Por aqui, recorda-se
Há 48 anos, viveu-se em Portugal a proibição do Dia do Estudante, que esteve na origem da Crise Académica de 1962.
Neste pequeno vídeo, Isabel do Carmo explica a importância dos acontecimentos, nomeadamente para a emancipação das estudantes que neles tiveram uma participação muito activa (*).
Neste pequeno vídeo, Isabel do Carmo explica a importância dos acontecimentos, nomeadamente para a emancipação das estudantes que neles tiveram uma participação muito activa (*).
(*) A Crise Académica de 62, Fundação Mário Soares, 2007 (dvd)
23.3.10
Menina e moça?
O jornal «i» começa a exceder-se a si próprio no relevo e no modo como trata algumas questões. Hoje, lê-se que As cidades são pouco femininas, fica a saber-se que, em Seul, há lugares reservados para mulheres em parques de estacionamento, devidamente assinalados a cor-de-rosa, e passeios especiais para se andar de saltos altos, assinala-se que a dita capital da Coreia do Sul recebeu um qualquer louvor no Fórum Urbano Mundial, durante a First Gender Equality Action Assembly, e que vai colaborar com a ONU para promover cidades «women-friendly». Adiante já que até a expressão me arrepia, mas o problema deve ser meu e do meu feminismo confessadamente deficiente.
Discute-se depois se há cidades mais masculinas ou mais femininas do que outras e diz-se ser praticamente consensual que Lisboa é fêmea - «os edifícios são redondos, a arquitectura é dócil, a luz é quente, os monumentos são brancos» -, mas com tendências contrárias desde o 25 de Abril, dado o caos urbanístico recente, que é «muito masculino». Já tinha visto atribuir muitas culpas ao fim da ditadura, mas ainda não esta de causa possível da transexualidade da cidade onde vivo!
Além disso, «Lisboa terá ganho fama de mulher por ser cosmopolita» (acusação velada de prostituição?) e o Porto «reputação de homem por ser fechado e orgulhoso». A minha alma está parva.
Além disso, «Lisboa terá ganho fama de mulher por ser cosmopolita» (acusação velada de prostituição?) e o Porto «reputação de homem por ser fechado e orgulhoso». A minha alma está parva.
Claro que já assisti a discussões sem saída para perceber por que razão dizemos que vamos ao Porto e não à Lisboa, à Guarda mas não ao Faro. E experimentem, ali para os lados do Oeste, informar que vão às Caldas da Rainha e alguém dirá imediatamente que se vai a Caldas e não às Caldas… Mas, primária e terra-a-terra, eu julgava até hoje que Porto era masculino por acabar em «o» e Lisboa feminina por terminar em «a». Está-se sempre a aprender.
Palmas para o Google?
A notícia é conhecida e amplamente divulgada: depois de muitas ameaças e de alguns pré-anúncios, o Google recusou submeter-se à censura imposta pelas autoridades de Pequim, tendo estado, na origem próxima desta decisão, ataques de hackers a alguns dos seus servidores. Pelo meio, alguns protestos e tentativas de conciliação, como uma carta de internautas dirigida ao governo chinês e à direcção do Google.
A partir de agora, ou se utiliza o motor de busca em inglês, ou se é dirigido automaticamente para servidores localizados em Hong Kong, com acesso a conteúdos não censurados.
Aplausos? Sim, e obviamente, porque está em causa o permanente ataque à liberdade de expressão por parte das autoridades chinesas, nunca suficientemente denunciado. Nem por isso, já que me parece haver aqui, talvez acima de qualquer outro objectivo, uma muito bem orquestrada campanha de marketing do Google.
Antes de mais, porque é óbvio que poderão ser utilizados firewalls – e sê-lo-ão - para bloquear o acesso a tudo o que até aqui foi considerável indesejável, esteja a informação em Hong Kong ou em Freixo de Espada à Cinta. Parece-me estarmos portanto perante um wishful thinking, de inocência pouco provável, quando o Google afirma esperar que o governo chinês respeite esta sua operação e não filtre a informação.
Em segundo lugar, porque se a presença do Google no mercado chinês dos motores de busca não é de desprezar (cerca de 30% segundo algumas fontes, muito menos segundo outras), a de Baidu.com é pelo menos o dobro (ocupando mesmo já o terceiro lugar a nível mundial – Wikipedia dixit). O impacto desta retirada é assim grave mas não dramático.
Finalmente, porque não há almoços grátis e esta tomada de posição traz dividendos. Na China, sem dúvida, mas também nos Estados Unidos (onde os aplausos já se fazem sentir e esta atitude pioneira impõe protagonismo junto da Microsoft e de outros) e no resto do mundo - sensível e virtuoso como sempre.
P.S. - O esquerda.net noticia detalhadamente o acontecimento. Mas tem alguma opinião sobre o assunto?
22.3.10
A grande frustração
Há quem não resista às griffes da Av. da Liberdade, às novidades de El Corte Inglés ou às pechinchas do H & M, a vinhos de altíssima qualidade ou a restaurantes requintadíssimos – posso gostar, mas são dependências que me passam totalmente ao lado. Se me reconheço mais adita quando se começa a falar em FNAC’s, a minha atracção absolutamente irresistível vai para as montras das agências de viagens: vejo tudo, leio o mais pequeno pormenor, comparo itinerários, imagino cheiros e temperaturas, recordo o que já conheço, decido não adiar dez ou quinze destinos.
Hoje, tive de entrar numa por causa da minha próxima viagem ao nordeste da Índia e ao Butão (só falta um mês, ainda falta um mês!...) e vim carregada de prospectos.
Nunca fui a Malaca nem a Kuala Lumpur, nem sequer a Istambul, de Bangkok só conheço o aeroporto (e de que maneira…), de África pouco vi e bem queria fazer uma longa estadia na América Latina, andar pela Bolívia, voltar à Patagónia, viver pelo menos um mês em Buenos Aires.
Eu, que nem gosto muito de cruzeiros, tenho à minha frente um catálogo cheio de ofertas e com aqueles fascinantes planos detalhados de cada piso dos navios, com camarotes, piscinas, mesas, cadeiras e salva-vidas. Propõem-me vários tipos de voltas ao mundo, em cerca de quatro meses cada uma. Muito curtas: li em tempos a descrição de uma viagem, absolutamente fabulosa, num barco saído de um universo de ficção, que durava quase três anos. Isso é que era!
Mudam-se os tempos, o resto nem tanto assim
«Trocadas as descomposturas preliminares, sobre a questão da fazenda, decide-se que é indispensável, ainda mais uma vez, recorrer ao crédito, e faz-se novo empréstimo.
No dia seguinte averigua-se, por cálculos cheios de engenho aritmético que para pagar os encargos do empréstimo do ano anterior não há outro remédio senão recorrer ainda mais uma vez ao país e cria-se um novo imposto.
Fazem-se empréstimos para suprir o imposto, criam-se impostos para pagar os empréstimos, tornam-se a fazer empréstimos para atalhar os desvios do imposto para o pagamento dos juros, e neste interessante círculo vicioso, mas ingénuo, o deficit-por uma estranha birra, admissível num ser teimoso, mas inexplicável num mero saldo negativo, em uma não-existência- aumenta sempre através das contribuições intermitentes com que se destinam a extingui-lo, já o empréstimo contraído, já o imposto cobrado.
Pela parte que lhe respeita, o país espera.
O quê?
O momento em que pela boa razão de não haver mais coisa que se colecte, porque está colectado tudo, deixe de haver quem empreste, por não haver mais quem pague...»
Ramalho Ortigão, Farpas (1882)
(Sugerido por mail. Obrigada, Eduardo.)
Pedofilia e água benta - Adenda
Ontem, quando falei de encobrimento de abusos sexuais por parte da ICAR, não media a extensão do mesmo.
Entretanto, via Diário Ateísta, cheguei a uma carta, não de tempos pré-históricos mas de 2001, em que o cardeal Ratzinger, enquanto perfeito da Congregação para a Doutrina da Fé, define que «ofensas» estão reservadas ao Tribunal Apostólico da Congregação a que então presidia, especificando que «casos deste tipo estão sujeitos a segredo pontifício». Entre eles, «o delito cometido por um sacerdote contra o Sexto Mandamento do Decálogo com um menor de 18 anos».
Comentários, para quê.
(A carta de Ratzinger pode ser lida aqui na íntegra, em inglês.)
P.S. Cartoon publicado no Libération, envaido pelo Jorge Conceição
21.3.10
Pedofilia e água benta
Já muito foi escrito sobre a carta que o papa dirigiu anteontem aos católicos da Irlanda (na íntegra, em espanhol, aqui), a propósito de pedofilia. Que ele se diga consternado e exprima remorsos e arrependimentos colectivos por tudo o que agora vem à luz do dia, não só na Irlanda mas um pouco por todo o mundo, talvez seja importante mas diz-me muito pouco. E é certamente música para violinos de orquestras celestiais que, numa secção intitulada «Medidas concretas para abordar a situação», a primeira seja que «a Quaresma deste ano se considere um tempo de oração» (…), com um convite para que seja «oferecida para esse fim, durante um ano, desde agora até à Páscoa de 2011, a penitência das sextas-feiras».
Mas dou importância, sim, e estou 200% de acordo, com alguns porta-vozes das reacções das vítimas, que se indignam por Bento16 não ter reconhecido o papel da igreja no encobrimento de tudo isto, durante décadas ou mesmo séculos. Também quando dizem ser absolutamente inaceitável que o cardeal Brady, principal responsável da igreja irlandesa, não assuma a sua parte de responsabilidade e não resigne, e que bispos e padres implicados no escândalo continuem a exercer as suas funções.
Mais ainda, e como muito bem pergunta o incansável Hans Kung: não seria este o momento adequado para o próprio Bento16 se reconhecer como co-responsável directo, ele que foi arcebispo de Munique entre 1977 e 1982, local e época onde, sabe-se agora, houve centenas de casos de abusos?
Nada disso aconteceu ou vai acontecer. Dentro de dois meses, o papa já terá vindo a Portugal, numa vista não só religiosa mas também de Estado, que deveria, mas não vai ser, um pouco chamuscada por tudo isto.
De novo nas origens
Tudo começou com uma troca de comentários no mashamba, seguiu-se um texto que escrevi sobre O meu padrinho mulato - Karel Pott, advogado em Lourenço Marques -, um mail de um sobrinho recebido poucas horas depois, um neto que me apareceu no Facebook.
Pelo meio, uma conversa telefónica com alguém que não só conheceu Karel Pott como o meu próprio pai, mails trocados com bloggers do mashamba, referências ao meu texto noutros blogues moçambicanos, uma fotografia antiga do tal prédio Pott, hoje em ruínas, uma entrevista a José Craveirina («o Dr. Karel Pott, que foi uma referência muito forte na minha vida»).
Hoje, é sobretudo para essa magnífica cidade do Maputo, onde nasci, que vai este post com mais alguns dados que me foram enviados pelo sobrinho, Hendrik Pott: «Consegui retirar toda esta informação da nossa árvore da família e coloquei a sua foto para que o resto da família possa vê-la quando bebé com o nosso tio. Coloquei o seu endereço e vai receber mais informações sobre ele.» Assim o espero.
Se ainda me lembrava perfeitamente de que KP fazia anos a 20 de Agosto (estranhíssimo, mas é verdade...), recordaram-me agora que nasceu em 1904 e fiquei a saber que morreu em 1953 – com 49 anos apenas, portanto.
Teve seis filhos e, tal como diz um deles, Karel Albert (um dos dois com quem cresci durante os primeiros anos da minha vida), bem podiam, em conjunto, «escrever um livro fantástico sobre este pai, homem, advogado e atleta, que fez história em Moçambique».
O carteiro pode deixar de tocar duas vezes
Sobre a «desejada» privatização dos CTT, a não perder: Cá como lá (João Rodrigues) e A linha (Miguel Cardina).
20.3.10
Poder de encaixe, masoquismo ou nem por isso
...é o que se perceberá quando Sócrates declarar (ou não?) que o candidato do PS é Manuel Alegre, depois do que este disse em Bragança.
E o ridículo não mata
Não que seja novidade já que, em 2007, em Zaventem, onde se situa o aeroporto internacional de Bruxelas, foi aprovado que só se vendam terrenos para construção a quem saiba falar neerlandês - «para garantir o carácter flamengo do município e para favorecer a coabitação entre os habitantes do bairro».
Mas, pelos vistos, o fenómeno teve sucesso e expandiu-se: agora é em Dilbeek, nos arredores de Bruxelas, que só se podem instalar francófonos puros no caso de serem estrangeiros. Mais: os funcionários precisam de autorização do chefe para responderem ao telefone em francês, como se pode ouvir neste vídeo em que um humorista belga se fez passar por cônsul da Costa do Marfim.
A Europa? Unidíssima, claro.
19.3.10
Desaparecidos sem combate
Ontem mesmo, pensei algo de semelhante ao que Manuel António Pina escreve hoje no JN: já ninguém reage a mais uma notícia que anuncie estranhos desaparecimentos de documentos. Nem décadas de computadores e scanners ao preço de uma camisola relativamente barata, e aplicações informáticas que nos custam, a nós contribuintes, os olhos da cara parecem ser suficientes para registar e guardar o que não deve ser perdido. Ou antes pelo contrário?
«Nos últimos tempos, que me lembre, desapareceram sete (!) queixas apresentadas em vão à Escola pelo professor que se atirou da Ponte 25 de Abril por não poder suportar os maus tratos de que era sistematicamente e impunemente vítima, como desapareceu a carta da família pedindo à Direcção que reflectisse sobre as agressões de alunos que terão conduzido o docente, de 51 anos, ao suicídio; também da acta da última reunião em que o professor participou desapareceram as suas queixas sobre novas agressões. Uns dias depois, o "Público" noticiava que da Câmara de Lisboa desapareceu o processo (envolvendo demolições, reconstruções e isenções de IVA) do prédio em que Sócrates comprara um andar. O próprio vendedor... desapareceu. Toda a gente sabe que o país está cheio de buracos, e não só nas contas públicas. Mas, pelos vistos, há por aí um arquivo-morto que, se um dia ressuscita, revelará mais sobre o que somos do que toda a papelada da Torre do Tombo junta.»
Entretanto, em Havana
Não vale a pena virem dizer que a CNN está ao serviço do grande imperialismo americano. Nem mesmo que as Damas de Blanco, que se manifestam pela libertação dos marido e dos filhos, são tele-organizadas a partir de Miami. Porque não me parece que estas imagens sejam forjadas.
18.3.10
E assim se foi fazendo a nossa história
A notícia já tem alguns dias e o conteúdo parece não ser novidade, mas só hoje conheci ambos. Um jornalista alemão, Guenter Wallraff, declara que se fez passar por traficante de armas e se encontrou com Spínola que pretendia retomar o poder pela força, eliminando fisicamente os seus adversários políticos em Portugal.
A reunião terá acontecido em Março de 1976, na Alemanha, e Spínola terá dito que a sua organização já tinha pontos de apoio no Alentejo e estava prestes a tomar o poder. Wallraff entregou provas da conversa em questão às autoridades suíças, facto que, segundo a notícia, terá estado na origem da detenção e extradição de Spínola para o Brasil.
O tempo vai amalgamando as memórias e está hoje generalizada a ideia de que tudo ficou bem e calmo com o 25 de Novembro de 1975. Bem pelo contrário, no início de 76, eram praticamente diárias as manifestações e contra-manifestações, com destaque para um número elevadíssimo de ataques violentos da direita contra sedes e centros de trabalho dos partidos de esquerda. Por exemplo, foi em plena pré-campanha eleitoral para as primeiras eleições legislativas, que tiveram lugar em 25 de Abril desse ano, que foi assassinado o padre Max (3 de Abril).
Simultaneamente, e com a brandura que sempre nos caracterizou, os antigos governantes foram saindo das prisões – no dia 29 de Janeiro, Kaúlza de Arriaga e Silva Cunha, entre outros.
Entretanto, Spínola passeava pela Europa a tentar comprar armas…
Voando sobre um ninho de cucos
Uma das maravilhas que levaremos deste mundo, quando deixarmos de cá andar, é certamente a capacidade de nos surpreendermos. Quando tudo parece conhecido e mais ou menos previsível, eis que uma notícia nos sobressalta. Foi o que me aconteceu hoje ao ler este estranho título do DN: «Renovadores comunistas seguro de vida da 'lei da rolha'».
Saudoso do PREC, o PPD/PSD esqueceu lutas passadas e futuras e rendeu-se à asa protectora do centralismo democrático, na pessoa de alguns juristas que vieram recordar que, em 2003, o Tribunal Constitucional deu razão ao PCP, contra um recurso interposto por Edgar Correia, Carlos Figueira e Carlos Brito, suspensos ou expulsos pelo Comité Central daquele partido. Pediam estes que o dito centralismo democrático fosse eliminado dos estatutos do PCP, consideraram os juízes que não tinham razão.
Não será por criticar o marxismo-leninismo que algum militante laranja será eliminado das listas de sócios (digo eu, mas já sem certezas definitivas…), mas Santana Lopes and friends poderão continuar a sua cruzada. Good luck, camaradas!
Pessoas, máquinas e vice-versa
A ler: o espantoso «MEO gratias» do JPB.
«O problema, mas o problema mesmo, real e moderno, é esta impessoalidade, esta inutilidade de qualquer ira, que esbarra invariavelmente numa parede kafkiana. A incompetência e a irresponsabilidade escudam-se nesta barreira electrónica. Não têm face. Não podemos dar murros na mesa ou no balcão, porque não há mesas nem balcões. Do outro lado da linha atendem-nos máquinas que parecem pessoas, que nos remetem para pessoas que parecem máquinas – e o resultado é o mesmo. Se mandarmos a criatura para a pata que a pôs, ela responde-nos: “A sua pretensão foi registada. Mais alguma questão que deseje colocar?” Não há condições.»
P.S. - Nem de propósito...
17.3.10
Sem lei da rolha e com muita honestidade
Paulo Pedroso, sobre o PEC:
«De facto, a despesa com os mais pobres vai diminuir em 200 milhões entre 2011 e 2013, dos quais 30 milhões serão no RSI. Os outros 170 milhões porque não se evidencia onde são? Estigma é estigma e quem escolheu este símbolo no PEC fez uma escolha clara sobre como quer tratá-lo.
Que a factura dos pobres seja tão pesada em plena crise económica e em situação de risco de crise social não consigo aceitar, nem por nada. Repare-se que em 2011 o Estado vai buscar mais aos pobres do que ao adiamento das infraestruturas e que vai, afinal e para minha surpresa, buscar a estas prestações mais do que à famosa nova taxa de IRS de 45%. (…)
Hoje sinto-me particularmente feliz por não ter sido candidato a deputado nesta legislatura».
Humanos como nós
Se abrir uma torneira é para nós um gesto elementar e automatizado, há cerca de 900 milhões de humanos – quase 90 «Portugais» - para quem continua a tratar-se de uma simples miragem. Como desconhecido é, para 2.600 milhões, o que significa ter acesso a um mínimo de saneamento básico.
As regiões-vítima são, como se sabe, a África Subsariana e o Sudoeste Asiático - apesar de muitos esforços, os progressos acabam por ser muitas vezes neutralizados pelo elevado crescimento demográfico.
Quando leio notícias deste tipo, «regresso» imediatamente ao Cambodja e a imagens que nunca esquecerei e que descrevi então neste blogue há quase um ano:
«À beira de uma estrada e de um canal, e sobretudo num extensíssimo lago, muitos milhares de pessoas vivem numa situação absolutamente inimaginável. Em barracas sobre estacas ou flutuantes, acumulam-se famílias cheias de filhos e até de animais, sem quaisquer condições de higiene, com esperança de vida abaixo dos 50 anos e onde as crianças que morrem todos os dias são pura e simplesmente atiradas ao lago.
A percepção da pobreza extrema continua em Phnom Penh que viu a sua população aumentar para dois milhões de habitantes desde que duzentas fábricas de têxteis aqui se instalaram, muitas como resultado de deslocalizações dos nossos países. Maná caído do céu, mesmo quando se trabalha 364 dias por ano, com condições e salários que não é difícil imaginar.»
Nós, por cá, todos mais ou menos bem apesar das crises e o resto são lamúrias: hoje, 4ªf, às 3:00 da tarde, fazia-se fila para pagar numa loja do Colombo. E no Domingo passado não se conseguia uma mesa vaga em restaurantes, nada baratos, nas praias da Caparica.
Soa a canto do cisne.
Necrophile is in the air
O país anda preocupadíssimo com assuntos transcendentes e sabe-se agora que alguns pretendem confinar a toponímia ao mundo dos desaparecidos.
Para evitar possíveis abusos, corta-se o mal pela raiz: não haveria mais ruas com o nome de Mário Soares nem de José Saramago (existem às dezenas), as próximas teriam de esperar que a morte se digne levá-los. Jorge Sampaio não seria nome de estádio e pena é que não estejam previstos efeitos retroactivos, a tempo de mandar arrasar umas estátuas de Manuel Alegre.
Tudo isto «inspirado pelos ideais republicanos», como «mais um gesto de homenagem ao Centenário da Implantação da República».
Mas o que é que a República tem a ver com as calças???
P.S.1 - «Uma lei para enterrar os vivos e ressuscitar os mortos é estonteante para qualquer legislador.»
16.3.10
Entre o Tigre e o Eufrates
Hoje somos todos sumérios, com a Mesopotâmia aqui tão perto, Código de Hamurabi à cabeceira e Lei de Talião por divisa. Olho por olho, dente por dente, pensou o nosso Nabucodonosor, e já que me fintaram aí vai.
O quê? O diploma da AR sobre casamento civil de pessoas do mesmo sexo, enviado por Cavaco ao Tribunal Constitucional, juntamente com um parecer jurídico de Freitas do Amaral.
Sabe-se hoje que esta eminência basculante considera imperativo que se reveja a Constituição se se quiser utilizar a sacrossanta palavra «casamento» já que, tal como está, «o que fica assegurado é a procriação da espécie, situação que não permite acrescentar um regime para além da união heterossexual». Também porque, para além de outras razões, a nossa Constituição «aponta de forma directa para o casamento tradicional nos países nascidos das civilizações mesopotâmicas e europeia, que é o casamento monogâmico e heterossexual».
É o que se chama regressar às origens…
P.S. -Aparentemente, na tal Mesopotâmia, o casamento não era tão monogâmico assim – bigamia à vista.
Yo acuso al Gobierno cubano
Pela leitura de um artigo de El País de hoje, tomei conhecimento de uma nova campanha - «Yo acuso al Gobierno cubano».
Cidadãos anónimos e outros que o não são – como Antonio Muñoz Molina, Mario Vargas Llosa, Yoani Sánchez e Pedro Almodóvar – fazem mais uma tentativa para pressionar Cuba a libertar os presos políticos. Inútil? Talvez, mas eu disse que não ma calaria até que a voz me doesse - ainda não doeu o suficiente.
O documento pode ser assinado aqui e é este o seu texto:
Pela libertação dos presos políticos
Pela libertação imediata e sem condições de todos os presos políticos das prisões cubanas; pelo respeito ao exercício, promoção e defesa dos direitos humanos em qualquer parte do mundo; pelo decoro e o valor de Orlando Zapata Tamayo, injustamente preso e brutalmente torturado nas prisões cubanas, morto após greve de fome por denunciar estes crimes e a falta de liberdade e democracia no seu país; pelo respeito à vida dos que correm o risco de morrer como ele para impedir que o governo de Fidel e Raul Castro continue eliminando fisicamente aos seus opositores pacíficos, levando-os a cumprir condenações injustas de até 28 anos por "delitos" de opinião; pelo respeito à integridade física e moral de cada pessoa, assinamos esta carta, e encorajamos a assiná-la também, a todos os que elegeram defender a sua liberdade e a liberdade dos outros.
Matusalém (35)
Mouloudji, Tout fout le camp
(Esta vai para o Miguel Serras Pereira, ali no outro lado, onde houve esta noite uma conversa francófila.)
15.3.10
Génios e Jotas
(Clicar para ver maior)
P.S. - 1,533 milhões de euros de salários, em 2009?
O último número da Visão inclui um longo dossier - «O corredor do poder» - sobre o percurso do «núcleo duro da JS fracturante», cujos membros terão conquistado cargos e peso político «à sombra do poder e influência de António Costa e da liderança de Sócrates» – uma complexa trama de amizades e cumplicidades (estou a ser meiga na escolha das palavras…), onde nem as famílias terão sido esquecidas.
Não sei, nem francamente me interessa muito saber, que percentagem exacta de verdade há em tudo o que é detalhadamente descrito. Mesmo que não ultrapasse os 50%, trata-se de um peça fundamental para entrever o que é o pano de fundo de muito que vemos agora aparecer à boca de cena. Coloquei-a online aqui para quem não tiver tido a oportunidade de a ler e, também, porque pode ainda vir a ser um elemento útil para várias memórias futuras.
Um dos protagonistas é o já célebre Rui Pedro Soares, de 36 anos, que deixou há pouco a PT onde era administrador executivo desde 2006. Dele disse Sócrates, em entrevista recente, que só subiu naquela empresa por mérito próprio. Depois de ouvir um excerto das declarações que fez à Comissão de Ética da Assembleia da República, sinto-me gozada.
O país segue quando for possível.
O país segue quando for possível.
P.S. - 1,533 milhões de euros de salários, em 2009?
Nem com o efeito Michelle Obama
Vem no DN e é bem visível na fotografia: as barbies negras estão em saldo e custam quase metade das primas esbranquiçadas e sem carapinha. Negócio obriga, a crise chega a todos e a Wal-Mart quer ver-se livre de stocks imprevistos.
Razões para o fenómeno? As meninas brancas preferem ver-se ao espelho? Os pais das meninas afro-americanas têm menos dinheiro para comprar bonecas? Nada disso: apenas um mau departamento de Marketing da Wal-Mart, porque este terrível vídeo que fui desenterrar agora tem mais de um ano.
Serão necessárias mais algumas décadas, sonhos de dez Luther King’s e três ou quatro presidentes negros na Casa Branca. Então, talvez, quem sabe, oxalá…
(Notícia do DN via Vítor trigo)
14.3.10
Em jeito de nostalgia
No fim de um dia em que alguns fomos lendo reacções à morte de Jean-Ferrat, trocámos informações e ligações para vídeos, retenho três apontamentos:
Declarações de Georges Moustaki, 76 anos, um dos poucos sobreviventes da geração de Brel, Brassens e Ferré, sobre Jean Ferrat: «Tínhamos a mesma filosofia, o mesmo olhar», (…) era um homem engagé, mas não gritava ordens, fazia-o com poesia».
Um vídeo de homenagem (France2), com resumo biográfico:
E uma das mais belas canções de amor de sempre:
Aimer à perdre la raison (Aragon)
(Na foto: Ferrat, Brel, Ferré, Brassens e Moustaki)
E de repente, numa tarde de sol
…venceu a cubanização.
Uma ida à praia, umas horas longe de notícias e um enorme esforço para tentar perceber o que era a tal «lei da rolha» que a TSF referia mas já sem explicar.
Ainda não caí em mim mas vou começar a preparar uns posts em defesa de futuros grevistas de fome, encerrados algures numa cave da São Caetano à Lapa.
Perdeu-se o tino – definitivamente.
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