O problema não é novo: as abelhas são mesmo indispensáveis. Há literatura e até blogues sobre o tema e, sobretudo, um filme Le silence des abeilles, de Doug Shultz (2007), exibido em 2008 pelo canal «National Géographic».
O excerto que o vídeo mostra é impressionante. Numa região da China onde a utilização intensiva de pesticidas resultou no desaparecimento das abelhas, centenas de trabalhadores (podiam ser milhões…) fecundam manualmente as flores das pereiras.
«Só na China!», é a primeira reacção – para já, enquanto a mão-de-obra é barata, apesar de não poder competir com a das abelhas que trabalham em regime de voluntariado.
Além disso, talvez seja bom realizarmos que não seriam só as pêras a desaparecerem das nossas mesas, mas toda a fruta, o mel (obviamente…) e também o café e até o chocolate. Restaria o chá, para felicidade dos britânicos e dos agricultores de Darjeeling, mas é um pouco restritivo para os nossos hábitos.
E convém não esquecer que Einstein terá dito que «se as abelhas desaparecessem da face da terra, a espécie humana teria somente mais quatro anos de vida». Também é verdade que não contava com a ajuda dos chineses…
(A partir de um post de Virgílio Vargas, no Facebook)
«En Portugal, desde niños nos enseñan los hechos heroicos y la astucia que permitieran que no nos convirtiéramos en españoles, como si eso de ser españoles fuera una enfermedad muy mala. Los gallegos, los vascos y los catalanes no lo pudieron evitar, los pobres, pero nosotros hemos resistido a todas las investidas del gran y poderoso vecino, al menos hasta que llegó Zara para conquistarnos con sus dulzuras mercantiles. (…)
¿Y Ronaldo? ¡De Ronaldo nada! Ha sido como si Portugal jugara con nueve. Ronaldo hizo un pase de tacón, apuntó una falta y se ha extinguido como una estrella fugaz sin haber cumplido la promesa de explotar en el Mundial.
Pero si ustedes en Madrid están dispuestos a continuar a pagándole…»
Ser branco - louro ou moreno - pode ser uma boa oportunidade para ganhar algum ou mesmo muito dinheiro em terras de Hu Jintao. Há empresas chinesas que alugam estrangeiros como falsos empregados, consultores ou parceiros de negócio – por um dia, por uma semana ou por alguns meses. Porquê? Porque, alegadamente, os países ocidentais ainda pensam que instituições que contratam pessoas no exterior devem ser ricas e poderosas e ter ligações internacionais importantes.
O que é fundamental? Não falar chinês e parecer que se desembarcou na véspera de um avião vindo um qualquer país mais a Oeste.
Dois relatos, neste vídeo da CNN.
Um mundo de fantasia muito elaborado, onde tudo se compra, nada se perde e tudo se vai transformando.
(Chegará o dia em que começaremos a alugar chineses?)
Nem sei exactamente o que penso deste vídeo, porque não sacralizo hinos. Mas não estariam a cair por aí raios e coriscos se a música do anúncio fosse a de «A Portuguesa» ou a do «Avé de Fátima»? É que não dou mais importância à pátria ou à fé de alguns do que a sonhos de outros e não gostaria de ouvir a «Grândola, Vila Morena» a fazer propaganda de sabonetes. Serei a única? Fica a pergunta.
Escrita em Atenas, a crónica de Rui Tavares, no Público de ontem, caracteriza especialmente bem o conceito e o sentimento «da crise» e é leitura mais do que aconselhável, se não mesmo obrigatória.
«A palavra é grega; a sensação também. Para os gregos antigos, crise era um termo médico. Significado: crise era o momento na evolução de uma doença em que o doente poderia ficar muito pior, ou muito melhor.
Para os médicos modernos da crise, que são os tecnocratas em Bruxelas, os governos de Sócrates a Papandreou, e os comentadores um pouco por todo o lado, a palavra crise perdeu metade do seu sentido. Agora quer apenas dizer o momento em que as coisas estão mal e vão ficar consistentemente pior. Crise deixou de ser um momento; passou a ser um estado.
Visto de Portugal e da minha geração, crise passou a ser o nome da normalidade. (…)
É até um pouco perturbador; não consigo lembrar-me de quando foi que nos convencemos de que o máximo a que podemos ambicionar é que as coisas sejam um bocadinho menos más. Desistimos de tentar fazê-las muito melhores. Estamos a falhar.(…)
Entretanto, Durão Barroso decidiu fazer comentários sobre os riscos futuros da democracia grega. Esses comentários caíram aqui muito mal e, francamente, a dois passos da Ágora não parecem menos do que ridículos. Se Barroso quer reflectir na democracia em risco, poderia começar para a instituição que dirige. Ainda não me parece que os membros da Comissão possam dar lições de democracia a atenienses.»
Em El País de ontem, um longo e detalhado artigo sobre a «Vaticália» (Vaticano + Itália) - um complicado imbróglio de influências e acusações de corrupção, pela conjugação de acções com muitos protagonistas e uma intrincada rede de interesses laicos e religiosos.
Nem tento resumir o texto, mas tudo parece girar em torno de um grupo de 147 poderosos notáveis – os «Gentil-homens de Sua Santidade» – que, «com competência e autoridade», «ajudam a engordar as arcas do estado pontifício, o paraíso fiscal mais rico, melhor decorado e mais visitado do mundo». Dos 147, 114 são italianos, sete americanos, cinco espanhóis e cinco austríacos.
Vieram agora para a boca de cena por causa de um deles, Angelo Balducci, (que, entretanto já fora demitido por Bento XVI por envolvimento em escândalos sexuais com seminaristas e com «sem papeis»). A história é longa mas transcrevo três elucidativos parágrafos:
«Balducci es un ingeniero que durante 25 años se encargó de ejecutar las obras públicas en la región del Lazio, donde se hallan Roma y el Vaticano. De ahí pasó al Gobierno central como responsable del Consejo Superior de Obras Públicas. Tras una vida dedicada a mejorar las infraestructuras italianas y vaticanas, Balducci, de 62 años, vive ahora en la cárcel romana de Regina Coeli.
Desde febrero, Balducci es el principal imputado en el escándalo de corrupción de la todopoderosa Protección Civil italiana, que de momento tiene a más de 50 personas imputadas o bajo investigación. Desde 2001 hasta ahora, el superministerio que depende de la Presidencia del Gobierno ha gastado fondos públicos por valor de 13.000 millones de euros, según el último informe de la Autoridad para la Vigilancia de los Contratos Públicos.
El dinero era gestionado por el jefe de la Protección Civil, el secretario de Estado Guido Bertolaso, también acusado de corrupción, y por el ejecutor de las obras, Balducci, gracias a una argucia autorizada por el primer ministro, Silvio Berlusconi, para superar la maldita burocracia y afrontar las emergencias con más rapidez: la licitación de contratas públicas se hacía sin concurso, a dedo, derogando los procedimientos ordinarios.»
Quando a notícia caiu ontem à noite, o serão animou-se no Facebook. Já muitos nomes tinham sido dados a este desgraçado país, mas «hérnia estrangulada»???
Habituados a advogados, a economistas e a poetas, a alertas para perigos de corrupção, de bancarrota ou de iliteracias, estamos todos e vamos vivendo. Mas estrangulamentos e risco de peritonite? Isso acorda a hipocondria adormecida no coração de cada lusitano e pode acabar em coisa má. (E se aparece um candidato cangalheiro, pergunta alguém e com razão, no Facebook?)
Mais vale que Fernando Nobre se deixe de comparações tão complicadas e atente em realidades mais comezinhas (*):
(*) Recomendação musical de Virgílio Vargas para o tema «Hérnias Estranguladas».
As recentes picardias entre Cavaco e Sócrates começam a ser insuportáveis e não auguram nada de previsivelmente bom para a tal cooperação estratégica, ainda cinicamente apregoada pelo primeiro, nem para a gestão da crise sem fim à vista.
Nem é concebível que o presidente ande por aí a apregoar, por montes e vales, que o país está numa situação insustentável que ele tão bem ajudou a criar, nem tem graça a alusão de Sócrates à falta de cultura de Cavaco (olha quem fala…), dizendo e repetindo que aprecia presidentes que gostem de Camões, numa subliminar alusão aos «onze» cantos dos Lusíadas, uma vez referidos pelo inquilino de Belém.
Num braço de ferro entre optimismos e pessimismos, valha-nos o humor de Manuel António Pina e de Woody Wallen:
«Talvez um pessimista como Cavaco seja um optimista bem informado, sobretudo se sabe do que fala pois, não tão "há bastante tempo" como isso, contribuiu activamente para a "situação insustentável". E um optimista como Sócrates? Será só um pessimista mal informado? Ou alguém como aquele personagem de Woody Allen que, mesmo quando tudo se desmorona à sua volta, e até os Giants perderam o "Super Bowl", ainda encontra por que alegrar-se: "Ao menos não tem chovido..."?»
Mas optimista afinal continua. Porque mesmo que se aceite o princípio de que o federalismo poderia ser a grande solução para os males europeus, não se vislumbra que ele esteja no horizonte em tempo próximo - e portanto útil.
Bem a propósito, leia-se o comentário de Teresa de Sousa no Público de hoje, Desordem transatlântica, sobre o comportamento da Europa na reunião do G20.
Num artigo intitulado El oportunismo de la Iglesia, Bertrand de la Grange comenta a aproximação recente entre as autoridades governamentais e eclesiásticas, em Cuba, de um ponto de vista muito crítico.
No momento em que a economia cubana está à beira do colapso, apesar de todas as ajudas de Hugo Chávez, sem que as medidas aplicadas para o aumento da produção agrícola pareçam ter resultado, com a maioria dos alimentos importados e os baús do estado vazios, Raúl Castro estaria a ganhar tempo, sem grandes danos – antes pelo contrário –, ao procurar uma ajuda para resolver o problema dos presos políticos. O Vaticano espera colher alguns benefícios para a igreja cubana.
Não é fácil criticar acções que levem à libertação de presos e, no entanto, há quem o faça, sobretudo por toda esta actividade se fazer em conluio com a igreja e à margem dos dissidentes. Uma das suas vozes mais respeitadas, Oewaldo Payá, militante católico fundador do «Movimiento Cristiano Liberación», prémio Sakharov pela defesa dos direitos humanos atribuído pelo Parlamento Europeu, lamenta que alguns padres «aceitem o papel de interlocutores únicos do Governo», sobrando para os cubanos apenas o de espectadores e não o de protagonistas da sua própria libertação, como deviam sê-lo. Oewaldo Payá lembra que a igreja deveria ser a «facilitadora» do diálogo entre todas as partes interessadas e não o agente apenas de uma. O futuro próximo mostrará se vai alterar o seu comportamento daqui em diante ou se se manterá na posição que teve até ao momento.
Nos últimos tempos, tem aumentado a actividade dos comentadores deste blogue. Sobretudo, têm existido discussões longas que não eram habituais. Chamo a atenção para dois casos recentes, ainda não encerrados, pelo eventual interesse que possam ter para quem não os tenha seguido:
Num desses posts, alguém me dá os parabéns (ou agradece, já nem sei bem) pela discussão, o que me sugere as seguintes reflexões:
Muitas vezes, intervenho pouco e deixo a conversa aos comentadores. O meu valor acrescentado é, assim, relativamente modesto.
Tenho a «sorte» de não atrair muitos maluquinhos que deambulam aí pela blogosfera. E, quando aparecem por aqui, não os «alimento»: deixo-os a falar sozinhos.
Há quem julgue que censuro muitos comentários. Falso, é raríssimo fazê-lo: nas últimas semanas, apenas um, de um Anónimo que me chamava «besta» sem explicar porquê e eu sou demasiado racional para discutir a esse nível.
De um modo geral, tenho também a tal sorte de não haver por cá insultos pessoais, nem agressões para além da que é salutar em debate de ideias. Mas, aí, julgo ter algum mérito: penso e digo há muito tempo que essa agressividade é, até certo ponto, da responsabilidade do blogger. Ou seja, que existe se for ele a atirar a primeira pedra ou se responder com a segunda. E isso nem faço nem «deixo» que seja feito, para além de limites que me pareçam razoáveis. Por várias razões, mas, talvez e sobretudo, porque isso não me dá qualquer espécie de prazer.
P.S. – Ponho no Facebbok uma parte dos posts aqui publicados. Muitas vezes, as discussões são por lá muitíssimo mais animadas e personalizadas, porque é comum estabelecerem-se entre quem se conhecem bem. Um mundo muito diferente mas que funciona, cada vez mais, como complemento e caixa de ressonância da blogosfera.
Um sítio a visitar, com muito para ler, para ver, para aprender,
Buala.org é o sítio da associação cultural Buala.
Trata-se do primeiro portal multidisciplinar de reflexão, crítica e documentação das culturas africanas contemporâneas em língua portuguesa, com produção de textos e traduções em francês e inglês.
Buala significa casa, aldeia, a comunidade onde se dá o encontro. A geografia do projecto responde ao desenho da proveniência das contribuições, certamente mais nómada que estanque. A língua portuguesa, celebrada na diversidade de Portugal, Brasil e Áfricas, dialoga com o mundo.
Buala.org pretende inscrever a complexidade do vasto campo cultural africano em acelerada mutação económica, política, social e cultural. Entendemos a cultura enquanto sistemas, comunidades, acontecimento, sensibilidades e fricções. Políticas e práticas culturais, e o que fica entre ambas. Problematizar questões ideológicas e históricas, entrelaçando tempos e legados. No fundo desejamos criar novos olhares, despretensiosos e descolonizados, a partir de vários pontos de enunciação da África contemporânea.
Buala.org concentra e disponibiliza materiais, imagens, projectos, intenções, afectos e memórias. É uma plataforma construída para as pessoas. Uma rede de trabalho para profissionais da cultura e do pensamento. Artistas, agentes culturais, investigadores, jornalistas, curiosos, viajantes e autores, todos se podem encontrar e habitar este Buala.
Nos últimos dias, muito se tem falado da Coreia do Norte e do seu regime político, geralmente em termos mais ou menos jocosos. Não vou por aí. Através de um comentário deixado no Vias de Facto, cheguei a este texto que tinha lido em tempos mas que já esquecera. Tem menos de dois anos (1/12/2008) e faz parte da Resolução Política do XVIII Congresso do PCP.
«Importante realidade do quadro internacional, nomeadamente pelo seu papel de resistência à «nova ordem» imperialista, são os países que definem como orientação e objectivo a construção duma sociedade socialista - Cuba, China, Vietname, Laos e R.D.P. da Coreia. Com percursos diversos, experiências históricas próprias, evoluções distintas, problemas e contradições inerentes ao processo de transformação social num quadro de relações capitalistas dominantes, estes países estão sujeitos pelo imperialismo a uma intensa campanha de pressões económicas, ameaças militares e operações de desestabilização e intoxicação mediática que encerram graves perigos para a segurança internacional e que, a vingarem, significariam um grave retrocesso na luta libertadora. Independentemente das avaliações diferenciadas em relação ao caminho e às características destes processos - a exigir uma permanente e cuidada observação e análise - e das inquietações e discordâncias, por vezes de princípio, que suscitam à luz das concepções programáticas próprias do Partido, o PCP considera que não há vias únicas de transformação social e reafirma o inalienável direito destes países e dos seus povos, como de todos os povos do mundo, a decidir livremente sobre o seu próprio caminho. É esse o interesse da causa do progresso social e da paz em todo o mundo.» (O realce é meu)
Ou seja: há cerca de um ano e meio, em assembleia magna de Congresso, o PCP não só elogiou alguns paísesporque considera que «definem como orientação e objectivo a construção duma sociedade socialista», esquecendo que, neles, direitos humanos básicos são sistematicamente desrespeitados (factos repetidamente denunciados, por exemplo, pela Amnistia Internacional), como se limitou a referir em relação aos mesmos «avaliações diferenciadas» e «inquietações e discordâncias, por vezes de princípio», sem qualquer tipo de explicação, quando, no mínimo, seria de esperar que as explicitasse. Condenação? Nenhuma. Silêncios? Ensurdecedores.
É bom que se tenha esta realidade bem presente quando se pretende reduzir a simpatia do PCP pela Coreia do Norte a uma infeliz gafe, já antiga, do deputado Bernardino Soares.
Em visita aos Estados Unidos, Dimitri Medvédev discutiu assuntos importantes com Obama, foi a Silicon Valley, onde viu iPads, iPods e mais uns tantos gadgets, e abriu uma conta no Twitter (@KremlinRussia, para quem estiver interessado em ser seu seguidor).
«Também uso o Twitter, podemos finalmente deitar fora os nossos telefones vermelhos», terá comentado Obama, numa alusão ao objecto que ficará como um dos símbolos dos tempos de guerra fria: uma linha de comunicação directa entre a Casa Branca e o Kremlin, criada em 1963 e que foi utilizada pela primeira vez em 1967, durante A Guerra dos Seis Dias.
O almoço é que talvez pudesse ter sido um pouco menos típico, não? Hamburgers?
Em entrevista a Mário Crespo, ontem na SIC N, Fernando Nobre disse que não tem sentido perguntarem-lhe se é de esquerda ou de direita, porque ele também não faz essa pergunta aos seus doentes.
Um antigo embaixador da China em França fala sobre o declínio da Europa e afirma que só nos interessamos por lazer, ecologia e futebol? Não hesita em dizer que vivemos acima das nossas possibilidades, que empurramos as empresas para a deslocalização e pomos os contribuintes a pagar a factura? Prevê um futuro negro?
Vale a pena ver o vídeo:
Trata-se de uma brincadeira. Um francês (liberal, não um perigoso esquerdista) inventou legendas para uma entrevista cujo tema, na realidade, era a exposição de Xangai e as suas excelsas qualidades. Mas passou algum tempo até que a versão verdadeira fosse revelada, mais de 700.00 pessoas viram o vídeo na internet e, nos dois continentes, multiplicaram-se as reacções de indignação.
«Um optimista é alguém que pensa que o futuro é incerto. É uma definição irónica ou simplesmente pessimista? Na realidade, a fronteira entre o optimismo e o pessimismo é muito ténue, como o demonstra essa grande verdade que diz que as famílias optimistas são parecidas, enquanto as pessimistas o são à sua maneira. Tolstoi falava de famílias felizes em vez de optimistas, mas para o caso vem a ser o mesmo. Porque uma família feliz, precisamente porque o é, acaba por pensar que o futuro é incerto. As famílias pessimistas, por seu lado, não têm sequer tempo para pensar nisso, atarefadas como andam com as desgraças que são tão atraentes para os romancistas.»
Ter a Biblioteca Nacional de um país encerrada dez meses parece ser algo um pouco surrealista. Há quem tenha querido suspender a democracia durante seis meses, oficialmente decide-se agora suspender grande parte da investigação possível.
Diz quem sabe - na Petição que abaixo se transcreve - que existem alternativas para minimizar os prejuízos.
Se concordar, assine aqui a Petição. E pode também ajudar a divulgá-la.
Petição Contra o Encerramento da BNP
No passado dia 8 de Junho de 2010 a direcção da Biblioteca Nacional de Portugal [BNP] anunciou que os serviços de Leitura Geral da Biblioteca encerrarão durante dez meses (de 15-11-2010 a 01-09-2011) e os Reservados durante cinco meses (01-04-2011 a 01-09-2011). Como cidadãos e utilizadores da BNP, embora conscientes das inequívocas vantagens inerentes à ampliação do edifício de depósitos da biblioteca, consideramos o planeamento dos trabalhos estipulado inaceitável e solicitamos que seja repensado.
O encerramento durante quase um ano de uma instituição que detém colecções sem alternativas (Secção de Reservados, espólios do Arquivo de Cultura Portuguesa Contemporânea, Secção de Periódicos por exemplo) é incompatível com o prosseguimento da actividade científica de largas dezenas de estudantes e investigadores que necessitam desse material.
A indisponibilização dos acervos da BNP comprometerá a viabilização de projectos em curso, muitos deles com financiamento do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior ou de outras instituições, e porá em causa o cumprimento de calendários e compromissos académicos estabelecidos. O encerramento de uma instituição como a Biblioteca Nacional teria, no mínimo, que ser publicamente comunicado com um ano de antecedência para que as várias partes envolvidas (universidades, instituições de financiamento, estudantes, investigadores) pudessem planear o seu trabalho em função desses dados. É inadmissível que uma determinação deste género seja comunicada apenas com cinco meses de antecedência.
Por outro lado, acreditamos que seja possível levar a cabo os trabalhos de transferência dos fundos de forma faseada, de modo a evitar um encerramento integral tão longo. Independentemente de existirem outras bibliotecas com Depósito Legal, é do conhecimento geral que para uma parte substancial do acervo bibliográfico e documental da BNP não existem alternativas nem em Lisboa nem em nenhuma outra biblioteca ou arquivo do país. Pelo que é absolutamente incompreensível que se proponha que este acervo único permaneça inacessível durante 10 meses.
Solicitamos pois que se proceda a uma reconsideração do plano de transferência, no sentido de:
1) se atrasar o encerramento da BNP para depois de Junho de 2011, para dar um mínimo de um ano de antecedência ao anúncio
2) fasear os trabalhos de modo a reduzir o tempo de encerramento integral dos referidos núcleos da BNP.
Acaba de ser proibida a exibição do vídeo que divulguei há alguns dias e que reproduzo no fim deste post. Devia ocorrer amanhã, numa sala do Congresso em Espanha, e concretizava uma iniciativa da «Plataforma contra a Impunidade» que integra actores, músicos, escritores e vítimas da Guerra Civil e da ditadura.
Foi invocado o precedente de duas recusas em situações similares, mas Emilio Silva, presidente da Associação para a Recuperação da Memória Histórica, afirma que se trata de uma decisão puramente política (no contexto da polémica envolvendo o juiz Garzón, subentenda-se), já que, em 2009, foi exibido no mesmo local um documentário equivalente de quarenta minutos: «Imagens contra o Esquecimento» -
A projecção foi transferida para a Puerta del Sol, em Madrid, onde serão também colocadas milhares de velas.
A laicidade do Estado não é uma frase para enfeitar Constituições e ser depois cavalgada por liberdades poéticas de uma Ministra que, recorde-se, representava oficialmente o governo português no discurso que fez na Câmara Municipal de Lisboa.
«E encontro as palavras da ministra da cultura portuguesa Gabriela Canavilhas: “[Saramago] Não tinha fé em Deus, mas se Ele existe certamente Deus teve fé nele.” Atento no último tempo verbal que tende a apagar (nunca involuntariamente pois são as palavras da ministra da cultura, linguisticamente competentes) o hipotético “se” que o antecede. (…)
O que a ministra da cultura ali fez, em pleno funeral e contando com o beneplácito dos condolidos presentes, foi matizar o ateísmo do falecido. Deixá-lo entender como (reduzi-lo a) idiossincrasia do vulto literário, uma excentricidade de génio. E fê-lo através de uma formulação típica de um qualquer cura face ao descrente da aldeia, salvaguardando a fé da comunidade apesar da excepção em causa.
O Estado é laico e não é função das suas figuras opinar sobre religião. Muito menos relativizar, post-mortem, as concepções do mundo dos seus cidadãos. O que se assistiu, mesmo que numa encenação de homenagem, foi a uma explícita censura às ideias do autor. (…)
As gentes da aldeia, ali congregadas e apenas preocupadas com quem esteve ou não esteve presente, aplaudem. Nem surdos nem cegos. Apenas medíocres. Nem deus, se ele existe, terá fé neles.»
Quase peço desculpa por dizer, uma vez mais, que não consigo tentar posicionar a Europa e os seus estados de alma, o Ocidente em geral e as suas crises, os PECs e contra-PECs, a não ser vistos de fora, de preferência a partir de onde se encontra agora o centro de tudo o que de verdadeiramente importante está a acontecer: a Ásia e, mais concretamente, a China e sua vizinhança.
Neste contexto, um texto que Le Monde publicou ontem sobre o Vietname, se nada traz de verdadeiramente novo, realça factos importantes e põe o dedo em várias feridas.
O povo vietnamita não esquece que a vizinho chinês o dominou durante dez séculos, mas copiou-lhe o modelo económico, com maior sucesso do que qualquer outro país do sudoeste asiático (5,3% de crescimento em 2009, em tempo de crise mundial, não é nada mau, mesmo se se regista uma certa inveja em relação 8,7% do mestre…) e sabe que a China é «o grande irmão, o único inimigo político e o principal parceiro económico». Isto apesar de tentar diversificar, olhando para Singapura e para a Rússia como aliados que quer ter em conta.
Os seus 86 milhões de habitantes correspondem à população de uma província da China e o seu PIB é 1/40º do chinês. A balança comercial é desequilibrada, a favor da potência mais forte, claro, que exporta maquinaria, computadores e automóveis e importa matérias-primas (petróleo, carvão e borracha).
Mas - e aqui há um facto importante a registar – o aumento de salários na China está a provocar deslocalizações de empresas para o Vietname, onde a mão-de-obra é mais barata. E o que faz Hanói? Aproveita e, simultaneamente, deslocaliza já para o Laos e para o Cambodja (isso não vem no artigo de Le Monde, mas sei-o eu) e começa a olhar para África – no fim da linha, sempre, e sabe-se lá até quando…
Continua portanto esta transumância da produção de bens e de serviços, também de pessoas, num ciclo talvez inevitável mas infernal, que nós, europeus e americanos, iniciámos – é bom não esquecer. Como acabará tudo isto? Sem nenhum risco de um efeito boomerang?
Foto: ruas de Hanói, onde estive há um ano.
Na página que se segue: alguns artesãos – com os dias contados.
Belleville é um bairro no Nordeste de Paris, onde, como em muitos outros, se misturam vários povos e diferentes culturas.
Nas últimas décadas, aumentou a presença de asiáticos e, se se manteve a coabitação com outras comunidades, nomeadamente magrebinas, turcas e africanas, a verdade é que o comércio mais importante passou para as mãos dos chineses, o que faz com que a sua força se venha a sentir e a impor cada vez mais.
É sabido que se trata de uma comunidade de imigrados que não se envolve normalmente em incidentes e dela disse SarKozy, há apenas quarto meses, que era «o modelo de uma integração com sucesso».
Precisamente por essa razão, os acontecimentos registados há poucos dias, em Belleville, revestem-se de uma especial importância. Durante uma manifestação organizada por um conjunto de associações contra a insegurança da comunidade chinesa, nomeadamente de pequenos comerciantes que são vítimas de assaltos frequentes, um pequeno incidente funcionou como um rastilho : depois de um roubo de um saco a uma cidadã chinesa, os compatriotas conseguiram agarrar o ladrão, entregaram-no à polícia francesa, esta nada fez e deixou-o partir em liberdade.
Foi o suficiente para se seguir o que nos habituámos a ver com outros protagonistas: carros virados, cadeiras e mesas pelo ar, garrafas contra a polícia, gás lacrimogéneo desta contra os manifestantes, etc., etc.
Nada de especialmente original, portanto? Nem tanto assim, já que a entrada em cena de uma comunidade normalmente avessa a este tipo de reacções pode significar o início de uma nova vaga de problemas, qualitativa e quantitativamente preocupante.
«O totalitarismo, porém, ao invés de uma era de fé, promete uma era de esquizofrenia. Uma sociedade torna-se totalitária quando a respectiva estrutura se torna manifestamente artificial, isto é, quando a respectiva classe dirigente perdeu a sua função mas consegue manter-se agarrada ao poder pela força ou pelo embuste. Uma sociedade assim, por muito tempo que persista, nunca pode dar-se ao luxo de se tornar tolerante ou intelectualmente estável. (…) Porém, para sermos corrompidos pelo totalitarismo, não é obrigatório que vivamos num país totalitário.»
Ao contrário de muito que tenho lido acerca do artigo sobre José Saramago, que Claudio Toscani publicou ontem no órgão oficial do Vaticano, considero-o perfeitamente normal. Diria mais: legítimo.
Se é discutível a pressa com que o mesmo apareceu, vinte e quatro horas (ou nem tanto) depois da morte do escritor, não diria o mesmo quanto ao seu conteúdo. Não sei se os termos «populista» e «extremista» são os mais correctos para qualificar Saramago, mas parte do seu discurso foi certamente anti-religioso e é verdade, sim, que tornou «banal o sagrado», o que, na minha opinião, foi um dos seus maiores méritos e um dos seus impactos mais úteis e inegavelmente eficazes. O que para o autor do texto do Osservatore Romano é uma terrível acusação – ter culpado «um Deus no qual nunca acreditou» - foi, no meu entender, uma consequência coerente e corajosa do que Saramago sempre defendeu. E, repito o que disse anteriormente, não sou especialmente fã de Saramago - nem como escritor, nem como pessoa.
Se O Evangelho segundo Jesus Cristo não foi uma das suas principais obras literárias, teve certamente um impacto único e marcou uma época. Esperava-se que o Vaticano batesse agora palmas depois de o ter condenado quando foi publicado? E que elogiasse Caim e as declarações públicas que então foram proferidas e que, não por acaso, escolhi ontem para «homenagear» o autor? Todas as distâncias mantidas, se tivesse morrido hoje o último dos algozes do Holocausto, não nos precipitaríamos a recordar os seus crimes?
Para o Vaticano, Saramago foi «um inimigo». Talvez Claudio Toscano se mantivesse calado se tivesse morrido um escritor mediano de um país secundário como é Portugal. Não se tratasse de um prémio Nobel e o relevo não teria sido certamente o mesmo, como não teria Portugal exultado orgulhosamente pelo seu herói, em horas e horas de transmissões televisivas e centenas de depoimentos chorosos ou exultantes. Para já não falar do patético folhetim do destino a dar a todas ou a uma parte das suas cinzas... Alguém se lembra de algo parecido quando morreu José Cardoso Pires?
Vários pesos e várias medidas, nos dois pratos de uma mesma balança – neste caso, o da vida e o da morte.
Aung San Suu Kyi faz hoje 65 anos. Continua com residência fixa na sua casa de Rangun, que nem de longe pode ser vista porque a rua que lhe dá acesso está barrada ao trânsito – testemunhei-o quando lá estive, há menos de um ano.
Apesar de todos os apelos, incluindo um de Obama feito ontem, a Junta Militar que governa o país não a liberta. Simbólica e silenciosamente, os seus seguidores plantarão hoje 20.000 árvores espalhadas por todo o país, com a convicção de que a mensagem política da sua líder crescerá como as plantas.
Dezenas de milhares de exilados brimaneses espalhados pelo mundo celebram hoje o 65º aniversário de Aung - a «senhora», como carinhosamente lhe chamam – com festejos e muitos protestos. No Facebook, várias Causas e páginas se associam, com um sem número de mensagens. É o mínimo – e infelizmente o máximo – que pode ser feito.
Entretanto, haverá eleições em Outubro - «nem livres, nem limpas, nem democráticas» -,mas o partido liderado por Aung, desde 1988, não concorrerá (dissolveu-se, mesmo), já que, ao contrário de muitas expectativas, a extensão da pena de residência fixa a que ela está condenada não foi reduzida a tempo de poder participar na campanha eleitoral.
Estive nesse terrível país, que terá ficado gravado na memória de muitos pela colorida revolta dos monges em 2007, e onde há mais de 2.000 presos políticos, em Novembro de 2009. Retomo algumas passagens do que então escrevi:
A possível diminuição do número de feriados em Portugal, e a sua eventual colagem a fins-de-semana, quase rivalizam com o Mundial em número de notícias e comentários. Mais um.
Poderia ir pela via das laicidades, mas não me apetece e parece-me totalmente salomónica a opinião (ou decisão, não entendi bem) de cortar um número igual de feriados laicos e religiosos. Tal como considero demagógica a afirmação do chefe da UGT que declara ser absurdo aumentar o tempo de trabalho quando aumenta o desemprego. E lamentável a ignorância de excelsos deputados e bloggers de esquerda, pura e dura, que gritam aos quatro ventos que seria inimaginável que Portugal fosse o único país no mundo a não celebrar o Dia do Trabalhador no 1º de Maio: pelo menos em Inglaterra, nem sei desde quando mas há muitos anos, é na primeira 2ª feira de Maio que ele é comemorado.
Qualquer que seja a redução e os critérios quanto a mobilidade, mudar o Natal é mexer a tal ponto nos usos e costumes que parece absurdo, 1 de Janeiro é dia de ressaca mundial e o resto é fantasia. Sobre feriados religiosos, «passo»: entenda-se quem de direito para manter quais e quando.
Sobre os outros, avanço um critério, tão discutível como todos, certamente mais absurdo do que muitos, mas que é o meu: considero inadmissível que sejam «transladados» aqueles que assinalem acontecimentos de que haja ainda protagonistas vivos. Explico melhor: enquanto existir algum sobrevivente do 5 de Outubro (deve havê-los, pelo prolongamento da esperança de vida…) e enquanto todos os que vivemos o 25 de Abril não morrermos, essa datas são tão «sagradas», para quem as viveu, como a do nascimento de um filho. É-me perfeitamente indiferente recordar dois ou três dias mais tarde a morte de Camões ou a Restauração de 1640, mas nunca o será confundir a última semana do marcelismo, ou a ansiedade pela libertação dos presos em Caxias a 26, com as horas passadas nas ruas no dia 25. Pieguice, sentimentalismo bacoco? Quero lá saber! São também os afectos que é necessário preservar, a vida não é um compêndio actualizado da velha História do pai Mattoso.
A última polémica, a propósito de Caim.
Gostei muito de alguns dos seus livros e, como (quase?) toda a gente, deixei outros a meio. Nunca tive uma especial simpatia pela pessoa.
Esta tarde, senti muito a falta de José Cardoso Pires.
Não há dia em que não se leia uma ou outra notícia sobre pressões para que Bagão Félix concorra às presidenciais. Hoje fala-se de 100 mulheres católicas que «ficaram sem candidato» desde que Cavaco Silva promulgou a lei que permite o casamento entre pessoas do mesmo sexo. (Por que razão a identidade de género é para aqui chamada é para mim um mistério, mas adiante porque, em iniciativas que incluam a drª Isilda Pegado, há sempre algo que me transcende.)
Gravíssima a promulgação do diploma sem devolução à Assembleia da República e única razão para todo este burburinho? Nada mais em causa para além das presidenciais de 2011? Acredite quem quiser. Aparentemente, está à vista apenas a ponta de um iceberg onde se consolida uma movimentação crescente dos conservadores católicos que estão a organizar-se a diferentes níveis, entre outras razões porque até os partidos da direita são considerados demasiado liberais em matéria de costumes e de família.
«Sabe-se», «diz-se», «dizem-me» que o próprio Policarpo terá feito agora afirmações menos cordatas e um tanto mais hostis do que é habitual, por um lado como resultado de grandes pressões, por outro para travar eventuais posições públicas mais agressivas e menos razoáveis. Com fundamento ou resultado de puras conjecturas, o que parece certo é que o bater de asas das borboletas espanholas está a fazer-se sentir - devagar, devagarinho porque desde lado tudo é mais manso, mas…
...num canal infantil? «Como nós não há igual»? Só espero que o filme não tenha sido subsidiado pela Comissão das Comemorações do Centenário da República: viram o dístico publicitário no aviãozinho?
«A TVI noticiou ontem que o INEM vai acabar com aquilo que o seu presidente classificou de serviço "dispendioso": a ajuda, quer telefónica quer no terreno, a pessoas em tentativa de suicídio (bem como ainda às vítimas de violação e de maus-tratos). As ordens "de cima" são para poupar e o INEM poupará deste modo nos salários de 7 psicólogos, que atendiam, em média, 27 chamadas e saíam 5 vezes por semana para apoiar pessoas em estado de grande depressão e em vias de se suicidarem. Um cínico diria que os critérios de poupança do INEM se justificam inteiramente. Impedir alguém de se matar contribui, de facto, para o agravamento do défice, sendo, por isso, antipatriótico. Implica não só encargos com pessoal e meios como ainda obsta a que a Segurança Social poupe em pensões e subsídios, já que boa parte dos potenciais suicidas, quando não são doentes crónicos ou terminais que oneram o SNS, são provavelmente idosos, desempregados e beneficiários de Rendimento Social de Inserção, isto é, gente "inútil" e, pior, fardos que só atrasam a gloriosa marcha de Portugal em direcção aos 3% de défice em 2013.»
Manuel António Pina, do JN de hoje (o realce é meu).
O blogue do Centro Nacional de Cultura publicou hoje mais uma crónica de João Bénard da Costa. Sobre calendários, férias, o Verão numa das suas grandes paixões: a Arrábida.
Trago-a para aqui não só pelo texto em si, mas porque o mesmo me fez recuar a meses de Agosto únicos, passados com a família Bénard da Costa. Não na Villa Raul, de que o João fala, mas muito perto, já com a novíssima ponte sobre o Tejo e alguns automóveis em segunda mão a facilitarem a viagem, com péssimas estradas, ainda sem electricidade, sem lojas, apenas com os longos dias no Creiro, para onde se ia a pé ou no barco do Salmonete, as intermináveis conversas noite fora à luz da vela, com o mar de Alpertuche de um lado e o Convento incrustado na Serra do outro, a festa pela chegada do primeiro gira-discos a pilhas, vindo da América, os dramas de amores e desamores em plenos anos 60.
A morte nalguns casos, as vidas nos outros, espalharam-nos por aí e já raramente nos encontramos. Mas a Arrábida, essa, ficou para sempre colada à pele.
1 - 1 de Outubro. Para mim, os anos começam sempre a 1 de Outubro. 1 de Janeiro é só o menos estimulante dos dias da quadra do Natal, uma espécie de cinzento P.S. (vale para "post-scriptum") do Dia do Menino Jesus.
Aos mais novos recordo que, nos meus tempos, era a 1 de Outubro que recomeçavam as aulas, após as férias que nos anos sem exame (e dos sete do liceu, quatro eram anos desses) se espraiavam docemente entre 14 de Junho e 30 de Setembro, dia dos anos da minha avó. Para mim, espraiavam-se literalmente entre 1 de Agosto e 28 ou 29 de Setembro. 1 de Agosto era o dia da viagem, entendendo-se por viagem o percurso entre o nº 86 da Avenida António Augusto de Aguiar, em Lisboa, e a Villa Raul na Arrábida. Os quilómetros (46) não encolheram com o tempo, mas sem pontes sobre o Tejo (travessia em "ferry-boat"), camioneta de Cacilhas para Azeitão e mais camioneta de Azeitão para a Arrábida, o percurso era coisa para quatro, cinco horas a que se somavam as horas de espera pelas mencionadas carripanas, exclusivo de João Cândido Bello. Cedo erguer em Lisboa e pôr-do-sol na Arrábida, onde, felizmente, havíamos sido precedidos pelas criadas, que já tinham posto a casa mais ou menos em condições. Tudo era diferente, nos rituais do quotidiano. Não havia luz eléctrica, a água provinha de uma cisterna e era levada em jarros para os quartos e respectivos lavatórios. Não havia telefonias nem telefones, não havia cinemas nem lojas. Havia a praia e os banhos, os passeios na serra. Um silêncio total. Regressar a Lisboa era passar do século XIX ao século XX. A surpresa de carregar num interruptor e fazer-se luz, da água a jorros, do telefone a tocar. À noite, na cama, eu ouvia os silvos dos comboios de Entrecampos e não mais a nortada a fazer ranger as madeiras das portas e dos tectos. Um ano acabara, começava outro, ao reencontrar (ou perder) colegas e professores nos pátios e nas aulas do Liceu Camões. Nunca mais via os primos e as meninas do Verão. Até outro Verão. Mas não o Verão, como eu não o via, com os mesmos olhos. O tempo ainda não passava a correr e um ano na adolescência é maior do que a légua da Póvoa. Nesse tempo, é que a vida eram literalmente dois dias: os dias do Inverno e os dias do Verão. As coisas então mais importantes para mim também se contavam a dois: os dias do campeonato de futebol e os dias sem campeonato, começou a época, acabou a época. Havia, no defeso, alguns sucedâneos (a Volta em Portugal em bicicleta, por exemplo), mas não era nada a mesma coisa. As temporadas dos cinemas: os grandes filmes chegavam em Outubro e desfilavam até Junho-Julho, quando começam as "reprises". No Verão, muitos cinemas fechavam enquanto os anúncios anunciavam: "Temporada de 1949-50". Havia os amores de Verão e os desamores do Inverno, e só mais tarde começou a ser vice-versa. Havia os pecados de Lisboa e os pecados da Mata Coberta. Havia as missas em capelas de casas ou grutas particulares e havia as missas de S. Sebastião da Pedreira ou do Patronato. Havia um eu de Inverno e um eu de Verão. Como é que eu posso dizer que o ano não começa a 1 de Outubro?
Quinze cineastas, escritores, artistas e músicos deram rostos e vozes a outros tantas pessoas assassinadas durante a Guerra Civil de Espanha, num vídeo impressionante - para vergonha dos juízes que perseguiram Baltasar Garzón, disse Emílio Silva, presidente da Associação para a Memória Histórica.
Há locais a evitar porque não têm saneamento possível e onde o perigo de contágio é uma realidade. Por isso se aconselha a leitura deste texto – dez vezes, se necessário for.
P.S. – Não é por engano que este post tem os comentários fechados.
Pelo andar da carruagem, vamos ver se não serão os chineses a tomar conta dos trinta hectares da zona ribeirinha de Lisboa, que António Costa comprou com tanto prazer.
Para os que por aqui passam e continuam a defender o regime cubano e a negar a falta de liberdades elementares naquele país:
Yoani Sánchez gostaria de poder ir ao Brasil e aí assistir em Jequié, Baía, a um festival de documentários que inclui um filme sobre bloggers cubanos.
Pela sexta vez, está a tentar sair do país, com esperança de não receber a tradicional resposta: «Usted no está autorizado a viajar». Decidiu usar agora todos os trunfos e pediu ajuda a Lula da Silva:
Pode ser que a excelente relação que o presidente brasileiro mantém com a família Castro consiga desta vez um milagre e que Yoani Sánchez possa ir à Baía.
Reagi ontem, a quente, aos resultados das eleições belgas. Hoje, «o terramoto seguido de tsunami», que elas constituíram, é bem conhecido: um partido flamengo de tendências independentista (mas NÃO extremista) foi o mais votado e terão agora lugar negociações mais do que rotineiras para formação de um novo governo, sem que seja possível medir as consequências, a médio prazo, de tudo o que se seguirá. Apenas outra crise entre dezenas de outras? O princípio do fim de mais um país europeu?
A reacção mais generalizada de francófonos e de francófilos (que ainda os há…) é, como sempre, anti-flamenga. Condena-se «os bárbaros» xenófobos, muitas vezes genericamente identificados como colaboradores dos nazis (como se todos os valões tivessem sido bravos resistentes…) que, por uma cruzada fanática, provocam incidentes mesquinhos em nome de uma causa absolutamente disparatada. E ignora-se (ou esquece-se facilmente) a humilhação que foi, durante séculos, a imposição de uma língua e de uma cultura a quem hoje constitui 60% da população de um país.
Se, fora do contexto histórico, é inaceitável e ridículo que hoje só se vendam terrenos perto do aeroporto que serve a capital a quem fale neerlandês, talvez valha a pena olhar para o mapa e ver que Bruxelas está localizada na Flandres e saber-se que, há pouco mais de dois séculos, era quase totalmente «neerlandófona». Só a partir da independência da Bélgica, em 1830, o francês se foi impondo até se tornar língua única, a nível oficial – nos tribunais, na administração pública, no exército, na cultura, nos meios de comunicação social e, mais importante, nas escolas. Bruxelas foi crescendo e o francês foi alargando a sua área de influência, até hoje – como uma «mancha de azeite».
Depois de longo período em que, supostamente, a nível nacional, todos os cidadãos deviam falar as duas línguas, (tentativa que falhou porque os flamengos aprendiam francês mas os valões se recusavam a fazer o inverso), o domínio do francês só foi estancado a partir dos anos 60, com a força imposta pelo progresso económico da Flandres e a correspondente decadência da Valónia. Começaram aí os conflitos – e ao início deles assisti eu, estudante francófona em terra flamenga - e veio a decisão de estabelecer uma fronteira linguística a nível nacional e de decretar o bilinguismo para Bruxelas, decisão essa que foi concretizada em 1963.
Um post é um post e não se quer muito longo, embora muitas coisas tenham ficado por dizer.
Só mais isto: por muito que nos custe, Jacques Brel foi um dos arautos para a humilhação dos flamengos, com a canção Les Flamandes, de 1959, em pleno início de gravíssimos confrontos entre as duas comunidades. Já contei, mas repito: ouvi-a, ao vivo e bem a cores, alguns anos depois de ser lançada, no cineteatro de Lovaina (terra de flamengos…), onde Brel insistiu em cantá-la apesar de todas as ameaças. À saída, esperava-o uma enorme manifestação que acabou com bastonadas da polícia e muitas montras partidas à pedrada.
Muito mais tarde, em 1977, poucos meses antes de morrer, voltou ao tema, agora com uma terrível agressividade, em «Les Falmingants».
Passaram-se, entretanto, algumas décadas. Ontem, pela primeira vez, um partido pró-independência da Flandres (repito: não o extremista) foi o mais votado. Alguma estranheza?
P.S.1 - É verdade que muitas das razões para a vitória nas eleições de ontem se devem ao «egoísmo» dos mais ricos que não querem continuar a suportar as despesas de todos - há várias pequenas Alemanhas por essa Europa fora, como é óbvio. Mas isso seria tema para uma outra conversa.
P.S. 2 - Este post é, em parte, uma espécie de comentário ao que João Tunes publicou aqui e aqui.