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31.7.10

Transiberiano para todos


Eu espero embarcar num comboio russo bem real, em Moscovo, dentro de duas semanas. Mas não há nada que o Google não proporcione a quem sonha com viagens, tem inveja de quem as faz, mas não se decide a sair do sofá. Vem tudo explicado aqui e o site a explorar é este.

Um pouco confuso à primeira vista, nem todas as opções funcionam, mas já explorei visitas a algumas cidades e diversas etapas do percurso.

Neste vídeo, 38 minutos do Lago Baikal, como o verei da minha janela.


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Não é ficção


Não fui eu que tirei esta fotografia que encontrei hoje por acaso na net, mas podia ter sido. A Oriente, é assim.

Para ser totalmente honesta, o máximo que vi foi sete pessoas em cima de uma motoreta – no Cambodja, depois de um pôr-do-sol em frente do Angkor Wat. Quatro ou cinco? Vulgar de Lineu em qualquer grande cidade do Vietname, do Laos ou do Cambodja. Por vezes, vai também uma gaiola com pássaros ou mesmo uma porta ou o vidro para uma janela. Ou porcos, ou galinhas.

Nas grandes famílias (grandes porque há sempre muitos filhos…), a moto é o sinal exterior de riqueza mais generalizado.
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Sarkozy xenófobo – agora sem disfarce

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Ontem, em Grenoble:



«A nacionalidade francesa merece-se e é preciso mostrar-se digno dela. Quando alguém dispara sobre um agente da autoridade perde a dignidade de ser francês. Desejo também que a aquisição da nacionalidade francesa por um menor delinquente no momento em que atinge a maioridade deixe de ser automática.»

A ler:
* Sarkozy, ce fils d’immigré qui n’aime pas les étrangers
* Sarkozy dégaine les clichés et cible les immigrés
* Vives réactions après les propos de Nicolas Sarkozy sur la sécurité

Atenção: Paris é mesmo aqui à esquina, apenas a 2.000 kms da Amadora.
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30.7.10

A origem do mundo




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Antes mouro que bimbo


Os 47,48% de eleitores do Porto, que votaram em Rui Rio para presidente da Câmara, têm a tacanhez e a saloiice que merecem. Não os outros que devem corar de vergonha.

Claro que isto vem, ainda, a propósito da recusa em dar o nome de José Saramago a uma rua do Porto. Que Rui Rio não o faça por motivos ideológicos, apenas o coloca ao nível de intolerância de uma Coreia do Norte – há vírus que atravessam continentes.

Mas há mais: baseada numa decisão da Comissão de Toponímia (que, antes dos seus mandatos, era constituída por vereadores e, por proposta do presidente, tem actualmente apenas «personalidades de relevo na vida da cidade»), a maioria PSD/CDS rejeitou a proposta da CDU, por Saramago não ter «ligação ao Porto». A dita Comissão terá decidido, em 2002, «apenas aceitar propor nomes de cidadãos com ligação directa ao Porto para ruas da cidade». Lê-se e pasma-se. Quem discrimina o quê? Depois queixem-se!

Entre vários exemplos, justifica-se assim que o nome de Amália Rodrigues não figure em nenhuma placa portuense. Recorde-se: em Junho deste ano, foi inaugurado, em Paris, um pequeno jardim com o seu nome. «Cela fait toute la différence.»

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29.7.10

Ontem


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Manuel Alegre e o «direito» à resistência


O jornal «i» publicou ontem mais um texto sobre o passado militar de Manuel Alegre. Não me interessa a «acusação», mil vezes repetida, comentada e desmentida, quanto a uma hipotética condição de desertor que não foi (e se tivesse sido?!...), mas sim afirmações absolutamente extraordinárias, que ainda não vi comentadas, de um almirante, de seu nome Vieira Matias, que foi chefe do Estado-Maior da Armada, de 1997 a 2002.

Vieira Matias diz saber que Manuel Alegre não foi desertor, por ter sido mobilizado para Angola e ali ter permanecido até passar à disponibilidade (em Dezembro de 1963, com ordem de regresso, depois de preso pela PIDE e com residência fixa em Coimbra), mas que «isso é o que menos importa». Porque grave foi a sua acção na Rádio Voz da Liberdade, em Argel, que «criava danos psicológicos nas nossas tropas e incentivava o inimigo a combater mais violentamente». A guerra colonial era injusta para Manuel Alegre? «Poderia ser a opinião dele, mas não lhe dava o direito de criar condições para causar mais baixas nos seus compatriotas.»

Ou seja: em 2010, alguém, que exerceu um cargo da maior responsabilidade nas Forças Armadas, diz impunemente alarvidades destas e ninguém reage. Trinta e seis anos depois do 25 de Abril, põe-se em causa um candidato à presidência da República porque ele foi um resistente activo, não só mas também contra a guerra colonial, num exílio em Argel (que, garanto-vos eu, esteve longe de ser de luxo quando não foi mesmo de perigo), naquele que foi um instrumento da oposição portuguesa, absolutamente único: a Rádio Voz da Liberdade. Quantas notícias sobre o que se passava nas várias frentes de guerra não nos chegavam apenas através desse som que tentávamos, tantas vezes em vão, captar pela calada da noite, em rádios sempre mais ou menos roufenhos? Vem agora pôr-se em causa o «direito» à denúncia do que se passava em África? O «direito» à luta contra a ditadura?

O currículo do Vieira Matias não diz «onde é que ele estava no 25 de Abril». Não sei quem o nomeou para chefe do Estado-Maior da Armada. Mas, entre 1997 e 2002, o presidente desta República era Jorge Sampaio e o primeiro-ministro chamava-se António Guterres. A brandura dos nossos costumes e as cedências nalgumas nomeações têm um sabor amargo, mesmo alguns anos mais tarde. E, por vezes, pagam-se caras.

P.S. 1 – Dizem-me entretanto que Vieira Matias pertence actualmente ao Conselho das Antigas Ordens Militares, «nomeado por alvará do Presidente da República».

P.S. 2 - Justiça seja feita: acabo de saber que Vieira Matias «foi corrido» por Jorge Sampaio. (30/7, 10:52)

Olé!?


Há dois dias que ando a dizer que sou solicitada para tantas «Causas» humanas que ninguém me apanha a empenhar-me nas que tratam de bichos.

Mas a proibição de touradas na Catalunha fez-me regressar ao Butão. Sendo o budismo religião de estado, é por lá proibido matar todas as espécies de animais, o que não impede que se coma regularmente carne e peixe - alegadamente porque a altitude o exige, sob pena de envelhecimento precoce… Quem mata então os ditos animais? Os vizinhos indianos de Bengala: sendo hindus, podem fazê-lo sem qualquer tipo de problema.

Também os catalães continuarão a assistir, bem perto, às suas «corridas» porque, ao Sul da França, que as cultiva desde meados do século XIX, não chegou ainda a proibição. Quando a União Europeia as impedir nos 27, os chineses importá-las-ão para Pequim ou para Xangai – estarão apenas uns quarteirões mais longe.

Quero com isto dizer que adoro touradas? Não: só assisti a uma, a pedido de uma amiga americana de passagem por Lisboa. Mas detesto «humanismo» por decreto proibitivo. Como para o fumo.

E «Tourada» será, sempre e também, esta canção de Ary dos Santos, que, ao vencer o Festival da Canção em 1973, foi uma grande farpa espetada no velho regime:



P.S. - Veja-se aqui quem votou a favor e contra, na Catalunha, e muitas coisas ficam explicadas: o separatismo é quem mais ordena, por aquelas bandas, o resto é mais ou menos uma certa dose de hipocrisia.
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28.7.10

Discutimos, sim (2)


Um post que publiquei ontem, sem nenhuma reflexão prévia profunda, bateu asas, foi ter a alguns blogues e esteve sobretudo na origem de uma longa discussão no Facebook, no meu mural e não só.

De tudo o que foi dito, destaco apenas um tema, sem prejuízo de vir a focar mais tarde um outro.

Tudo começou com este parágrafo do primeiro comentário: «O texto (sem cortes) reflecte uma época, uma ideologia, uma política QUE FORAM VIVIDAS por este país, quer se queira quer não! Desvirtuar o texto seria desvirtuar a história, ainda que possa ser curiosa a sua leitura aos olhos de hoje.»

Ora, ao manipular o discurso de Salazar, eu não o apaguei nem sequer pretendi «desvirtuá-lo»: mostrei-o para evidenciar que a realidade mudou.

Mas, daqui, passou-se inevitavelmente para a discussão sobre a legitimidade de mudança de nomes, veio a eterna questão «Ponte Salazar ou Ponte 25 de Abril» e alguém afirmou que «quando há uma revolução, uma das primeiras coisas a fazer é a destruição dos ícones - umas vezes para o bem, outras nem por isso…». Não o diria talvez com tanta veemência mas, globalmente, concordo e recordo: a Espanha, porque não teve uma revolução, mas sim uma complexa e, para meu gosto, muito estranha «transição», anda ainda às voltas para fazer desaparecer alguns imponentes símbolos do franquismo.

Talvez seja mais evidente se se olhar de fora. É absolutamente natural que o nome de Pinheiro Chagas não diga grande coisa aos Moçambicanos e que a sua Avenida, no Maputo, se chame agora Eduardo Chivambo Mondlane. E por mais que se estranhe, acaba por se entranhar que o Massano de Amorim seja hoje a Av. Mao Tse Tung. E alguém esperaria que existisse ainda o Liceu Salazar???

Nada a ver com a alteração de nomes, em Portugal, por causa do 25 de Abril? Tudo a ver: foi a data da nossa «independência» em relação à ditadura e de símbolos vive também o homem. Mudaram-se alguns nomes, muito poucos, tal como depois do 5 de Outubro de 1910: alguém reclama hoje que a actual Av. da República de Lisboa volte a chamar-se Ressano Garcia?

Será uma questão de sensibilidade, distorcida para alguns, mas eu não gostaria de continuar a atravessar a «Ponte Salazar». E, já agora, nem de ser mais papista do que o próprio papa. Antes da inauguração da ponte, em 1966, quando Salazar viu o seu nome num dos pilares, perguntou: «As letras estão fundidas no bronze ou simplesmente aparafusadas? É que, se estão fundidas no bloco de bronze, vão dar muito trabalho a arrancar.»
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Morreremos cheios de saúde


Se ainda fosse vivo, Vinicius de Morais dificilmente viria agora a Portugal em voo da TAP, porque nem lhe seria permitido trazer uma garrafa de Johnnie Walker na bagagem de mão por razões de segurança, nem lhe dariam a bordo uma daquelas míticas miniaturas que enchiam tabuleiros depois das refeições.

Acabo de ler no ma-shamba que, desde há três meses, a TAP deixou de servir a bordo (mesmo pagando-se alguns euros) «bebidas destiladas». Ou alguém descobriu que um dos terroristas que deitou abaixo as torres gémeas tinha emborcado três garrafinhas de Famous Grouse ou, depois dos cigarros, vem aí uma proibição generalizada do álcool, sem se passar sequer pela fase das etiquetas: «Beber mata». Claro que mata (e também engorda…), mas proibir não resolve e cada um vai morrendo como pode, com eutanásia ou sem ela.

Tenho amigos, com tanto pavor de voar, que só conseguem (ou conseguiam…) fazê-lo um pouco «tocados». Resta-lhes agora xanaxes - que também vão matando, mas muito mais civilizadamente.
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Alguém disse que não há racismo em Portugal?


No Algarve, comunicado de um grupo anónimo de agricultores, a propósito de alegado roubo frequente de alfarroba:

«Tolerância zero para quem der trabalho ou permitir acampamento a ciganos. Tolerância zero aos compradores que negoceiam com ciganos e produto roubado.» «Se necessário for daremos fogo às viaturas e armazéns dos infractores.»

Na longa notícia do Expresso, um dirigente da associação dos produtores de alfarroba demarca-se mas compreende, a GNR assobia para o lado: «Não temos conhecimento de quaisquer milícias, mas teremos que ver os dados para verificar se têm existido queixas-crime quanto a furtos de alfarrobas».

Mas NINGUÉM se declara interessado em identificar os autores do comunicado. Assim vamos.
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27.7.10

No pasa nada


A notícia importante sobre as comemorações do 57º aniversário do Assalto à Moncada, ontem, em Santa Clara, foi que não aconteceu rigorosamente nada.

Depois de ter sido anunciada a participação de Hugo Chávez como convidado de honra, de se ter posto a hipótese da presença do próprio Fidel, reaparecido várias vezes nos últimos dias, e de serem criadas as maiores expectativas quanto ao conteúdo do discurso de Raúl Castro, num momento tão crucial da vida do país em que era esperado o anúncio de uma série de reformas socioeconómicas desesperadamente necessárias, o presidente venezuelano cancelou a viagem, Fidel ficou em Havana a conversar com cantores e outros artistas e Raúl não discursou.

Foi a primeira vez, desde 1959, que os cubanos não ouviram, nesta data, ou Fidel ou Raúl. Este deu apertos de mão mas fez-se substituir, no discurso oficial, pelo vice-presidente José Ramón Machado Ventura, de 79 anos, considerado por muitos como o símbolo da ortodoxia e do imobilismo do regime. E que disse ele? Em resumo: «Actuaremos sin soluciones populistas, demagógicas o engañosas. No nos conduciremos por campañas de la prensa extranjera», «Progresaremos con sentido de la responsabilidad, paso a paso, al ritmo que determinemos nosotros, sin improvisaciones ni precipitaciones, para no errar.» De concreto, zero.

Yoani Sánchez exprimiu no seu blogue o que vários outros também sublinharam com outras palavras: «El general no habló porque no tenía nada que decir, no lanzó un paquete de reformas pues sabe que con ellas se juega el poder, el control que su familia ha ejercido durante cinco décadas. (…) Pero, más que discreción política, lo de hoy es puro secretismo de estado. No hacer compromisos públicos con los cambios, no implicarse visiblemente en una secuencia de transformaciones puede ser la manera de advertirnos de que éstas no obedecen a su voluntad política, sino a un desespero momentáneo que – piensa él - terminará por pasar. Al no pronunciarse, nos ha enviado su mensaje más completo: “no les debo explicaciones, ni promesas, ni resultados”.»

Mais conspirativos, outros analistas avançam que Fidel não gosta que determinadas reformas apareçam como um preço a pagar à Igreja, a Espanha e à União Europeia e terá por isso impedido Raúl de as anunciar em Santa Clara, o que seria visto como uma cedência ao «inimigo capitalista» e um golpe na «soberania nacional».

A História aguarda pelos próximos capítulos.

Fonte, entre outras
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Discutimos, sim


«Não discutimos Deus e a virtude; não discutimos a Pátria e a sua História; não discutimos a autoridade e o seu prestígio; não discutimos a família e a sua moral; o discutimos a glória do trabalho e o seu dever.»

R.I.P., há 40 anos.

P.S. – Como vem sendo habitual, é no Facebook que se passa o debate e não no blogue. Neste caso, já vai longo e está aqui.

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Do calor para o calor?


Esta imagem de Moscovo tem algo a ver com o Estádio da Luz hoje de manhã. Deve cheirar a queimado, tal como aqui, e pairar no ar uma neblina de fumo.

Registou-se ontem a temperatura mais elevada desde 1920 (37,2º…) e mais de 1500 pessoas terão morrido afogadas em tanques e lagos, nos últimos dois meses, pela simples razão de quererem refrescar-se. Pelo que leio, muitas com um copito a mais de vodka…

Who cares? Eu que devo lá chegar daqui a uns quinze dias e que, talvez ao contrário de muitos, não gostaria de derreter gloriosamente a olhar para o Kremlin. Refresquem isso, пожалуйста
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Enfeitemos então as russas


Já não querem sapatos? Vendemos bugigangas. Nem Lenine nem Michael Porter devem ter previsto, mas não resta pedra sobre pedra e faz-se o que se pode.

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26.7.10

A condenação de Douch


Foi conhecida hoje a sentença do julgamento de Kaing Guek Eav, mais conhecido por «Douch», director de um dos principais killing fields dos Khmers Vermelhos no Cambodja - Tuol Sleng, nos arredores de Phnom Pehn. Numa antiga escola transformada em prisão e nos terrenos que a rodeiam, terão sido torturadas e assassinadas mais de 10.000 pessoas – homens, mulheres e muitas crianças. Hoje essa antiga prisão é um Museu do Genocídio, onde estive há pouco mais de um ano - muito simples, impressionantemente pobre, mas terrível. Um murro no estômago.

Foram necessários doze anos de negociações e de procedimentos judiciários, desde a morte de Pol Pot, em 1988, para se chegar ao fim do primeiro julgamento (outros se seguirão) de um dos principais responsáveis pelo genocídio que tirou do mapa um quarto da população do país – cerca de dois milhões de pessoas – em apenas quatro anos, de 1975 a 1979. O Cambodja é hoje um país quase sem velhos, já que a grande maioria dos que teriam actualmente cerca de 60 anos, ou mais, desapareceu, pura e simplesmente. Douch foi condenado a 35 anos de prisão mas, porque já passou onze legalmente preso e mais alguns que o tribunal considerou que terão sido cumpridos indevidamente, restam-lhe 19 para cumprir – pelos 86, poderá voltar a gozar em liberdade os que lhe sobrarem. Pouco provável num país em que a esperança de vida ronda os 60 anos, mas nunca se sabe: pode ser que o remorso seja bom agente de longevidade.

Desde esta manhã que não me sai da cabeça uma fantasia perfeitamente irrealizável: os 19 anos de pena que Douch tem a cumprir deviam ser passados em Tuol Sleng, numa das celas como a que se vê na foto. Com todas as condições de dignidade e, obviamente, sem exposição ao público. Mas os filhos, os netos e os irmãos das suas vítimas deveriam ter o «direito» de saber que era ali que ele estava e que acabaria, muito provavelmente, os últimos anos da sua vida. Porque é também com símbolos que se faz a história e se vinga a memória.




Fonte, entre outras
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Irão, esse exemplo de democracia


Manouchechr Mottaki, chefe da diplomacia iraniana, em entrevista ao «i» depois da sua recente estadia em Lisboa.

Talvez tivesse valido a pena recordar a este senhor que elevada participação em eleições não é, necessariamente, sintoma de democracia. Bem pelo contrário: na Coreia do Norte, 99,98% da população foi às urnas nas eleições parlamentares de 2009 e, em Cuba, os actos eleitorais para deputados contaram sempre, desde 1976, com mais de 96% de presenças.


(Junho de 2010)


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Stress é mais uma viagem do papa


Vai a Espanha em Novembro. (Ou à Galiza e à Catalunha, se se preferir.)
36 horas para as quais está prevista «uma despesa pública milionária» - quatro milhões de euros para a passagem por Santiago de Compostela, quantia certamente maior e ainda não revelada por umas horas em Barcelona.

«Bem-aventurados os pobres (mesmo que "em espírito"), porque é deles o reino dos céus.»
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Com stress ou sem ele



Ajudado ou não pelos negócios «lá fora», não era mau que os efeitos se fizessem sentir «cá dentro».
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25.7.10

De volta à África


No «Passa Palavra», Manolo e João Bernardo publicam hoje o último de cinco capítulos de um longo estudo sobre África. A não perder. Para abrir o apetite:

«Nesta série, tentaremos traçar em linhas gerais as idas e vindas do retorno à África. Via de regra, estes que retornaram transformaram-se num grupo separado dos africanos “nativos”, quando não numa verdadeira classe dominante. Trata-se de tendência antiga, com raízes nas lutas antiescravistas iniciadas com a própria escravização.»

«Muitos dentre os libertos “retornados” envolveram-se com o tráfico negreiro como forma de sobrevivência e sua estadia forçada nas Américas impôs-lhes o aprendizado de outros ofícios com os quais se sobrepuseram às populações africanas. Graças aos libertos retornados, formava-se na costa ocidental da África uma elite profissional e política.»

«Quando um dos mais importantes políticos negros dos Estados Unidos afirmou ter inspirado Mussolini, não foi apenas jactância de uma inegável megalomania, mas algo muito mais sério.»

«É sob a dupla influência da religiosidade popular e dos escritos e do mito em torno de Marcus Garvey que se forma o movimento rastafari, responsável pela última onda do retorno à África e pela “canonização” do imperador etíope Haile Selassie.»

«O pan-africanismo, expressão ideológica do difícil processo de integração da África ao capitalismo internacional (privado ou de Estado), funda nações onde so há Estados e legitima o estabelecimento de novas relações de dominação.»

«Não cremos que no desenvolvimento do capitalismo uma região possa considerar-se mais avançada do que outra apenas porque tem um PIB per capita superior ou porque aí ocorrem num dado momento as mais recentes formas de industrialização. Esses são resultados de sistemas sociais já existentes de há mais ou menos tempo. Por isso, numa perspectiva dinâmica do desenvolvimento do modo de produção é para as transformações sofridas desde já pelas relações sociais que devemos estar atentos, e serão essas que produzirão no futuro resultados econômicos materiais contabilizáveis em termos de progresso estatístico. A fase mais avançada é aquela cujas formas de organização social incluem as restantes e vão além delas. É essa que serve de paradigma à evolução do sistema; e é o que vem se desenrolando na África há mais de meio século. Se pretendemos entender os rumos do capitalismo mundial, não é somente para os países ditos “desenvolvidos” que devemos atentar; é também, e fundamentalmente, para a África que devemos nos voltar.»
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Impróprio para cardíacos


Existe e é um dos aeroportos mais perigosos do mundo: Courchevel, em França.


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Fidel, de novo fardado - Prova de vida?


Fidel Castro fez ontem mais uma aparição em público, num acto comemorativo do 57º aniversário do assalto ao quartel de Moncada, que marcou o início da revolução cubana, em 26 de Julho de 1953. Facto que não passou despercebido: pela primeira vez, desde há quatro anos, tirou do armário a sua velha camisa verde.

Entretanto, especula-se sobre a hipótese de Fidel se deslocar amanhã a Santiago de Cuba, quando os cubanos esperam com grande expectativa, nesta fase conturbada da vida do país, o discurso do seu irmão Raúl. Quem não faltará garantidamente, como orador de honra, será… Hugo Chávez.

El País de hoje publica um polémico artigo de Mario Vargas Llosa sobre a «libertação» dos presos cubanos e o papel que Espanha tem representado:

«Es ingenuo pensar que la excarcelación de unas decenas de presos políticos constituye una reforma sustantiva de la política del régimen contra la oposición. Uno de los rasgos más repugnantes de la dictadura caribeña ha sido su vieja costumbre de regalar presos a los políticos occidentales que iban a hacer el besamanos al dictador, para que ganaran bonos en sus países como salvadores y dieran testimonio de lo flexible que podía ser el régimen cuando era tratado con comprensión. Este innoble tráfico de carne humana en las relaciones públicas puede permitírselo sin riesgo alguno una satrapía cuya reserva de prisioneros políticos es un barril sin fondo, y reemplaza a discreción los presos que ofrece a sus huéspedes importantes. (…)
Me pregunto si la incomprensible e inmoral política del Gobierno socialista español de colaboración con el castrismo no es una manera para sus dirigentes de demostrarse a sí mismos que no es verdad que hayan dejado de ser socialistas, que ahí está la prueba, lo que hacen para salvarle la vida a la acorralada revolución cubana, que, aunque haya cometido muchos errores, es todavía el emblema de aquel socialismo que fue el suyo, cuando eran jóvenes y utópicos y creían que la peor de las lacras de la humanidad fue la aparición del capitalismo egoísta y vil.»
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24.7.10

Enquanto a Europa conta cisnes


Um relatório da OCDE, publicado há poucos dias, revela que a actual crise económica provocou uma diminuição de 6% no fluxo de imigrantes em 2008 (não é o caso para Portugal, onde os números são equivalentes aos de 2007), mas sublinha a necessidade de evitar que esta tendência, que se manterá no curto prazo, faça esquecer que esses imigrantes são indispensáveis para o crescimento e a prosperidade futuros. Daí ser necessário, por exemplo, que não haja descriminação no tratamento de desempregados comparativamente com os nativos e que não se poupem esforços para a integração de todos, nomeadamente ao nível do ensino da língua local. (Isto pensando apenas no interesse dos países que recebem...)



Apesar da diminuição da imigração em termos gerais, registe-se que não é o caso para todas as proveniências. Em 2008, a China contribuiu com 10% de todos os novos imigrados em países da OCDE – mais de 100.000 só em países europeus (número com tendência para crescer).

Não é fácil perceber como vai evoluir tudo isto, em conjunto com taxas altíssimas de desemprego e cortes drásticos de despesas para minorar deficits. Depois das flores de plástico, luzes apagadas e salões alugados em ministérios franceses, a ordem de poupança chegou agora à majestosa corte britânica. Isabel II já terá vendido uma pequena casa de campo por 1,2 milhões de euros, mas, enfim: entre os 1.400 empregados da casa real, talvez se arranje um posto de trabalho para um chinês como «contador oficial de cisnes». Mais difícil (ou talvez não…) será pô-lo a tocar gaita-de-foles, todas as manhãs, debaixo da janela da rainha.

Estranho mundo, este, que fomos «civilizando» para chegarmos ao ponto em que estamos. Nem um polvo teria sabido prever isto há dez anos, nenhum adivinhará como será daqui a vinte. Uma coisa parece certa: nada será como dantes.
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Qual 24 de Julho?


Morei durante toda a minha infância na Av. 24 de Julho – na antiga Lourenço Marques, entenda-se.

O nome da rua deveria celebrar o dia em que Patrice Mac-Mahon presidente da França, declarou, em 1875, que a Ilha da Inhaca (e a dos Elefantes) era território moçambicano e, portanto, português, numa acção de arbitragem entre o governo britânico e o de Lisboa. Mas suspeito que vivi nove anos a comemorar a entrega de Lisboa ao Duque da Terceira, em 24 de Julho de 1833,  pelo Duque de Cadaval, antigo primeiro-ministro do rei D. Miguel.

Enquanto aprendia todos as estações e apeadeiros da Linha do Norte na «Metrópole», ouvia falar do frio no Natal e fazia redacções sobre as latadas no Douro.

(Foto: Inhaca, 2002: os melhores caranguejos do mundo)
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Num outro formato


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23.7.10

Um triste encerramento


O Sindicato dos Jornalistas publicou há dois dias uma exposição sobre o processo de despedimento colectivo de que são alvo 36 trabalhadores do Rádio Clube Português, enviada pelos visados aos diferentes grupos parlamentares.

Deixando de lado as questões de índole laboral, importa sublinhar que se calou uma insituição que, para além de toda a sua história (que começou nos anos 30 do século XX), iniciou um projecto de grande qualidade em Janeiro de 2007, sob a direcção de Luís Osório. Pretendeu-se então fazer uma «rádio de palavra», com forte conteúdo informativo, ao arrepio de todas as tendências de populismo e de facilidade. A subsituação do director, em Julho de 2009, foi um primeiro alerta, o anúncio do encerramento, um ano mais tarde, a má notícia que já se esperava.

Como muito bem sublinha Daniel Sampaio, em texto publicado na revista Pública e que reproduzo do fim deste post, «O RCP morreu às mãos da estratégia economicista, que esmaga tudo o que não é depressa rentável, ou que destrói o que não dá lucro fácil e, sem esforço, se pode substituir por algo descartável: resta saber se deste modo se vai corrompendo o que deveria ficar para o futuro, porque é de memórias tranquilas e pensadas que garantimos a nossa sobrevivência.»

Este facto não me toca apenas como cidadã e como ouvinte. Conheci um pouco a casa por dentro, a simpatia e o profissionalismo de quem mantinha a «chama viva», porque fui várias vezes convidada para emissões do RCP - em três delas para falar de blogues e nunca esquecerei a primeira, em Março de 2008, quando a Shyznogud e eu fomos entrevistadas por Ana Sousa Dias. Havia muita qualidade por aqueles estúdios, que a pouco e pouco foi minguando até se calar. Será a vida. Mas não devia ser.

O choro dos políticos

«Já político que pode dizer, como Lula fez na entrevista, que os empresários brasileiros "nunca tiveram a quantidade de obra que têm agora" pode chorar. Que pode dizer que herdou expectativas que diziam que "a sua roça não vai dar nada, não vai plantar", e acaba no sucesso, internacionalmente reconhecido, em que "a planta brota, cresce, e eu tou colhendo", pode chorar. O Brasil, eterno país do futuro, eram décadas de promessas não cumpridas, em que, na melhor das hipóteses, o balanço era cínico: "Roubo mas faço" (foi anúncio de um governador paulista, década de 1950). Lula pode dizer melhor: "Choro mas fiz." Na entrevista, disse também: "Eu vou entregar um outro país." E vai mesmo.»
Ferreira Fernandes, hoje no DN.


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A Igreja e a crise – «parolas»…


Há sugestões de todos os tipos para minorar os males: uns, mais cruéis, sugerem 20% de redução nos salários dos funcionários públicos. Outros, mais piedosos, sugerem que os mesmos 20% saiam dos bolsos dos políticos católicos.

Nada contra se o apelo do bispo Carlos Azevedo for acolhido por aquelas senhoras que são deputadas independentes pelo PS, pelo dr. Cavaco Silva ou mesmo por José Manuel Pureza – é lá com eles. Mas que tal uma decisão, bem mais rápida e eficaz, no sentido de iniciar o desejado Fundo Social com 20% do rendimento anual do Santuário de Fátima? Não disponho de números, mas estou certa de que seriam arrecadados muitos, muitos euros, bem mais do que o somatório de todos os sacrifícios dos crentes de boa vontade. E os peregrinos que oferecem anéis ou compram velas estariam certamente dispostos a compreender o «desvio de fundos».

P.S. - Vai longa a discussão no Facebook, ilustrada sonoramente pela Shyz:


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22.7.10

Eu e a festa da Atalaia


Só me dão razões para nunca ter sido deste partido:

Bem experimentei, estive lá há dois anos, não tenciono voltar e não reconheci nada do que acima é descrito. Problema meu, obviamente.
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Daqui a um Mês (4) – Ulan Ude


23/8 - Última paragem antes de entrar na Mongólia: Ulan Ude, capital da República da Buriácia, fundada pelos cossacos em 1666. No limite entre o Ocidente e o Oriente, transformou-se rapidamente em importante centro comercial, dada a situação privilegiada entre a Rússia, a Mongólia e a China. Nela se encontra (ainda, ao que parece) uma estátua com a maior cabeça de Lenine jamais construída…
Para quem sabe «tanto» como eu sobre a dita República da Buriácia:


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Alucinações turísticas


Tresli hoje uma frase - «Ernesto Farías: Três anos no Cruzeiro» -, trocando o «no» por «num» e precipitei-me em busca da descrição da aventura (sim, já li o anúncio de um cruzeiro que dura três anos).

Afinal, trata-se apenas de não sem quem do FCP que vai jogar futebol para não sei onde no Brasil…
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Amnistia Internacional, CPLP, Guiné Equatorial e Luís Amado


«A Amnistia Internacional Portugal está a promover uma concentração para exigir respeito pelos Direitos Humanos por parte da Guiné Equatorial e pela Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Junte-se a nós!
Dia: Quinta-feira, 22 de Julho
Horas: pelas 17h00
Local: frente à sede da CPLP, Rua de S. Caetano à Lapa, n.º 32, Lisboa

Na VIII Conferência de Chefes de Estado e de Governo da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) que vai decorrer no dia 23 de Julho de 2010, em Luanda, Angola, será apreciada a candidatura da Guiné Equatorial a membro de pleno direito desta Organização.

Tendo em conta que todos os Estados-Membros da CPLP estão, por força dos respectivos Estatutos [Artigo 5.º n.º 1 e)], vinculados aos princípios que a rege (“Primado da Paz, da Democracia, do Estado de Direito, dos Direitos Humanos e da Justiça Social”) terão que garantir que os candidatos a membros de pleno direito os cumpram.

A Amnistia Internacional – Portugal, insta todos os Estados-Membros da CPLP a apenas aceitarem a integração da Guiné Equatorial como membro de pleno direito perante o compromisso cumulativo e expresso por parte da Guiné Equatorial de:

1) Suprimir a pena de morte, com moratória imediata;
2) Cessar a tortura e as detenções extrajudiciais levadas a cabo pelos órgãos do Estado;
3) Proceder à libertação imediata e incondicional dos Prisioneiros de Consciência: Gerardo Angüe Mangue, Cruz Obiang Ebele, Emiliano Esono Micha, Gumersindo Ramírez Faustino, Juan Ecomo Ndong, Marcelino Nguema e Santiago Asumu e daqueles que estão nas mesmas condições.»

Os Direitos Humanos em causa num país afectam todos os outros! Junte-se a nós por um mundo mais justo!

Entretanto, tudo parece ir no sentido de Portugal votar favoravelmente, amanhã, o pedido de adesão plena da Guiné Equatorial à CPLP. Em Luanda, Luís Amado disse ontem à Lusa que «não é difícil perceber as razões pelas quais um país com as especificidades históricas e geopolíticas da Guiné Equatorial procura aproximar-se de uma organização como a CPLP», que o assunto «vai ser tratado com naturalidade e bom senso» e «sem dramatização».

P.S. - A ler: Rui Tavares, A petrofonia
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21.7.10

Le 21 Juillet


Porque depois de Portugal, de Moçambique e da língua portuguesa (sem a Guiné Equatorial), a Bélgica é também um pouco a minha pátria, assinalo a seu «10 de Junho», não vá dar-se o caso de ser um dos últimos…

Não terá faltado pompa e circunstância, ontem à noite, numa festa em que bailaram 15.000 pessoas, nem o discurso do rei (a alegria em pessoa, como se sabe…), nem a família real em peso, na tribuna de honra, durante desfiles civis e militares.

Logo pela manhã, os reis e comitiva assistiram ao tradicional Te-Deum na catedral de Saint-Michel et Gudule, em Bruxelas (apesar de falhadas tentativas laicizantes), estiveram presentes os representantes do governo federal demissionário, o pré-formador daquele que se seguirá, aquele senhor que preside ao Conselho Europeu (pronto, hoje faço copy/paste: Herman Van Rompuy) e, claro, «notre Barrosô». O hino europeu foi cantado antes da Brabançonne e as festas continuarão pela noite fora. Tudo como deve ser, portanto.

A Bélgica preside à União Europeia durante este semestre, parece feliz embora vá ter de novo eleições (está mais do que habituada…) e, mesmo sabendo que a sua dívida pública é superior a 100% do PIB, a crise parece adiada. Flamengos e valões sabem que nunca se entenderão apesar de terem em comum o lema «A união faz a força», o Verão tem estado muito quente, a Grand Place deve continuar lindíssima, jamais desaparecerá o cheiro paradisíaco das boulangeries / patisseries e haverá sempre moules aux frites «Chez Léon».(Ou seja: estou cheia de vontade de ir a Bruxelas.)

E claro que nunca, mas nunca, haverá um 21 de Julho sem que se pense em Jacques Brel.


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Daqui a um mês (3) – Lago Baikal


Dizem-me que 21 de Agosto corresponderá a um dos mais pontos altos da viagem, com a chegada a Listvyanka (foto), nas margens do Lago Baikal, o mais antigo (25 milhões de anos), o mais profundo (1.680 metros) e com maior volume de água doce no mundo (20% da totalidade).

Escondido atrás de montanhas, só foi descoberto com a construção do Transiberiano, em 1902, gela durante cinco meses por ano e chamam-lhe as Galápagos da Rússia pelo número de espécies animais e vegetais que por lá existem.



Atravessá-lo-ei de barco até Port Baikal, onde subirei de novo para o comboio – rumo à Mongólia.

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Em verdade vos digo (3)


«El olvido, como el perdón o la memoria, corresponde al patrimonio de cada uno. Pero los olvidos oficiales son malos consejeros y a lo largo de la historia se ha comprobado. Las heridas, para que sanen, y antes de ser suturadas, tienen que ser limpiadas.»

Baltasar Garzón, El País, 21/7/2010
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O PSD e a PIDE



Há apenas cinco anos (2005), a VII Revisão Constitucional manteve a lei. Alguma razão para ser agora eliminada? Ainda não ouvi quem quer que seja perguntar, mas eu gostava de saber a resposta.
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20.7.10

Daqui a um mês (2)


Não tenho feito o trabalho de casa e sou obrigada a saltar alguns dias para «apanhar» o percurso previsto. De hoje a um mês estarei já na Sibéria oriental, mais concretamente em Irkutsk.

Leio que tem lindíssimas casas de madeira, como parece ser de facto o caso.

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Ainda sobre o livro de Mário Brochado Coelho e a Cooperativa Confronto


Como tinha anunciado, a sessão de lançamento teve lugar ontem, no Porto.
Apenas um apontamento. Absolutamente notável o número de pessoas que estiveram presentes, em sessão nocturna de tempo de férias: bem mais de 100, não muito menos do que 150, pelas minhas contas. O grande peso na audiência era de protagonistas da vida da Cooperativa, descrita e exaustivamente documentada no livro: uma espécie de nova reunião de sócios quarenta anos mais tarde, a que só faltaram os agentes da PIDE (sempre disfarçadamente presentes no passado, como é sabido…).

Junto ao resumo feito pelo autor, que já transcrevi, uma mensagem que Nuno Teotónio Pereira, impossibilitado de estar presente por motivos de saúde, me fez chegar e que ontem li. Também alguns excertos do Prefácio do livro, que me serviram de base à apresentação que fiz do mesmo.

Por ocasião do lançamento do livro sobre a Cooperativa Confronto

Numa altura em que se tornavam cada vez mais nefastos os efeitos da ditadura, que a guerra colonial não cessava de agravar, os portugueses viam-se impedidos de discutir todos os seus problemas, devido a uma implacável censura à imprensa e à vigilância e repressão da polícia política.

Foi neste contexto que surgiu a ideia de ampliar a acção das cooperativas no sentido do debate sobre estas situações.

O Cooperativismo tinha algumas fortes raízes em certos meios, um pouco por todo o país. Basta lembrar a centenária Cooperativa dos Pedreiros Portuenses. Pelo facto de se dedicar apenas a tarefas de carácter económico (ao contrário do que acontecia com todo o tipo de associações), as suas organizações eram dispensadas de verem os respectivos Estatutos e Corpos Sociais aprovados pelo Governo. Foi esta circunstância que possibilitou a promoção de acções e debates, no âmbito do Cooperativismo, desfrutando de uma certa liberdade.

No Porto, a exemplo do que já acontecera em Lisboa com a cooperativa Pragma, foi criada a “Confronto”, animada por uma forte determinação em romper a muralha de silêncio que a ditadura impunha. Foi neste âmbito que tive a oportunidade de participar num debate sobre a gravidade da situação habitacional em que viviam as classes trabalhadoras.

É a história deste movimento que nos conta a presente publicação, para que não fique esquecida nas brumas do passado, pois as suas corajosas acções e iniciativas muito favoreceram a eclosão do 25 de Abril.

Nuno Teotónio Pereira, Lisboa, 19 de Julho de 2010

Havemos de ir longe!...


Leio e duvido:
«Sobre a prova de ontem [12º ano], a SPM [Sociedade Portuguesa de Matemática] recorda que foi feita por alunos que se vão candidatar a cursos superiores de Ciência e Tecnologia e considera não ser aceitável que uma das questões colocadas (item 1 do Grupo I) seja "acessível até a alunos do 2.º ciclo". Neste item perguntava-se aos alunos quantas bolas roxas podiam existir numa caixa, sabendo-se que nesta existem também oito bolas azuis e que, extraindo-se, ao acaso, uma bola da caixa, a probabilidade desta ser azul é igual a 1/2.» (Realce meu.)

Confirmo, pág.5:
1. Uma caixa contém bolas indistinguíveis ao tacto e de duas cores diferentes: azul e roxo.
Sabe-se que:
• o número de bolas azuis é 8
• extraindo-se, ao acaso, uma bola da caixa, a probabilidade de ela ser azul é igual a 1/2
Quantas bolas roxas há na caixa?
(A) 16 (B) 12 (C) 8 (D) 4

Só para o caso se alguém não saber (com pedido de desculpa, claro): a resposta certa é 8!!!!!!

Com dedicatória a gerações e gerações que sofreram por causa do problema das torneiras que enchiam tanques, que o velhinho livro do Palma Fernandes incluía, julgo, no volume destinado ao actual 9º ano.
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Em verdade vos digo (2)


«Não é o tabaco que a gente consome. A gente fuma é a tristeza».

Mia Couto
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19.7.10

Daqui a um mês (1)


Já terei estado em Kazan, capital do Tartaristão, oitava maior cidade russa, onde se encontram o Volga e o Kazanka. Terá sido a primeira paragem do Transiberiano. A ver vamos…


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Em Cuba, nada de novo?


Falo de Cuba quase todos os dias e continuarei a fazê-lo. Interessa-me tudo o que vai acontecendo, ou não, para além do mediatismo da chegada a Madrid dos expatriados, emigrantes à força, desterrados, ou o que se pretenda chamar-lhes, engravatados à pressa, justificadamente aliviados mas também inevitavelmente inquietos.

Porque, em Havana, literalmente com a corda na garganta, «a derrocada económica e social é de uma tal dimensão que resta apenas ao regime a solução de introduzir reformas imediatamente» e a libertação dos presos terá sido «uma jogada política» indispensável «para enfrentar o problema de 1.300.000 trabalhadores (cerca de 30% da população activa) que estão a mais nos seus postos de trabalho». Como? Aparentemente, entre muitas outras medidas, ampliando o trabalho por conta própria e a «cooperativização» de alguns serviços e reduzindo subsídios e custos sociais.

Para que isto, e muito mais, seja possível, é necessária a colaboração do exterior, ou seja que outros, como a União Europeia, acreditem no carácter genuíno da libertação dos presos como início de uma verdadeira democratização do país, o que, pelo menos para já, não é o caso. Apesar dos esforços de intermediação da Espanha para que seja alterada a Posição Comum que, desde 1966, condiciona as relações com Havana, países como a Alemanha, a França, a República Checa e a Suécia mantêm-se renitentes e está longe de estar garantida a unanimidade exigida para a alteração necessária. Esperam para ver a evolução dos acontecimentos e pretendem analisar detalhadamente toda a informação sobre os mesmos.

Entretanto, Fidel reaparece em público, visita aquários e dá uma entrevista mais ou menos fantasmagórica a Cubavisión (vi em directo) sobre os perigos de uma guerra nuclear iminente, causada por um ataque dos Estados Unidos ao Irão…

Fontes (1) e (2)
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Where are you?


What’s happening? (Twitter) ou What’s on your mind? (Facebook) têm os dias contados? Talvez, anuncia-se, porque vem aí Where are you? (Foursquare).

«O futuro da rede, dizem os especialistas, passa pelo móvel e as redes sociais que apostam na geolocalização poderão tornar-se indispensáveis nos próximos tempos.»

Quanto a este tipo de modernices, há muito que deixei de dizer «jamés», mas o que leio do Foursquare não me fascina, apesar de declararem que é «viciante». Pelo que entendo, até dá descontos em cafés, prémios de visitantes frequentes em museus, acumulação de crachás em bares, é mesmo possível chegar-se a «dono virtual» do espaço. Importam-se de repetir?

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Confronto – Lançamento


Logo à noite, estarei no Porto, nesta sessão de lançamento. Para além de apresentações muito informais, terá lugar uma discussão que não pode deixar de ser importante para quem se interessa por estas «bizarrias» que são, para tantos, as questões ligadas à memória do fim da ditadura – neste caso a Norte.
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18.7.10

Nova esquerda chinesa?


Confesso que me perdi na tentativa de entender cabalmente um longo texto publicado no «Passa Palavra», mas fica a referência para quem quiser entrar nos meandros das distinções entre as três principais tendências: «marxismo humanista», «neomaoísmo» e «social-democracia». Good luck!
«China: que alternativas? A Nova Esquerda chinesa»
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Burqa? Niqab?


O que me preocupa é que há quase 200 países no mundo, nem sonho quantos ainda se lembrarão de proibir burqas e niqabs e os teclados de uns tantos bloggers da nossa praça nunca mais terão sossego.

Há cerca de um ano, deu-se o mesmo fenómeno, exactamente com os mesmos argumentos (inevitável como o destino…) e pelos mesmos motivos: a questão, agora decidida, estava a ser discutida em França. Falta de assunto? Coisas da silly season, talvez.

P.S. – E para que não venham (pelas alminhas…) perguntar qual a minha posição, remeto para um post de 20/6/2009, que posso resumir nesta opinião que não foi entretanto alterada:
«Mas não deixa por isso de ser verdade que se trata de um fenómeno que, embora marginal, traz consigo a marca de um fundamentalismo do qual as mulheres continuam a ser as principais vítimas e que fazê-las quebrar esse cerco é certamente um dever das sociedades que as acolhem.»
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Impotência da esquerda europeia


Num texto sobre a «crise» (mais um…), publicado em El País de ontem, Sami Naïr põe o dedo numa ferida evidente, de um modo tão simples que pareceria quase inútil citá-lo, mas tão importante e urgente que mais vale correr o risco de pecar por excesso de zelo. «Impotência» parece, de facto, a expressão adequada para o que está em causa.

«Lo más grave es ver cómo se extiende la impotencia de la izquierda europea. Podíamos haber esperado, por ejemplo, una iniciativa común de los sindicatos europeos, una acción coordinada, aunque hubiera sido simbólica, para reafirmar la solidaridad de condición de los asalariados y desempleados ante las duras restricciones que padecen. Pero nada. Podíamos haber esperado que los intelectuales de izquierda se lanzaran a la batalla. Pero nada. Impera el silencio. Es el grado cero de la izquierda política e intelectual europea. (…)

Pero también sabemos que la crisis económica no se resolverá rápidamente, y que nos esperan días difíciles. Ha llegado la hora de que la izquierda europea se recomponga y sobre todo que haga propuestas que no sean solo insustanciales y tímidas adaptaciones a las medidas tomadas por los grandes centros financieros. Propuestas realistas y socialmente progresistas para modernizar las relaciones sociales y convertirse en una alternativa creíble, movilizadora, frente a las derivas de un sistema económico exclusivamente dedicado al culto del beneficio y de la especulación financiera. Si la izquierda europea quiere oponerse de verdad a este sistema globalizado que ha logrado dividir como nunca a los asalariados, debe aprender a trabajar y actuar solidariamente a escala europea.»

(Fonte)
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Em verdade vos digo (1)


«El término “revolucionario” tiene en la Cuba actual un significado bien distinto al que encontraríamos en cualquier diccionario de la lengua española. Para merecer semejante epíteto basta con mostrar más conformismo que sentido crítico, optar por la obediencia en lugar de la rebeldía, apoyar lo viejo antes que lo nuevo.»

Yoani Sánchez, 15/7/2010
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17.7.10

The same old story


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Alarmismo repressivo - A voz certeira da PSP


No seguimento do que aqui referi, e de um debate que entretanto teve lugar, pede-se a atenção para este importante comunicado do Sindicato da PSP. Há que travar a vaga de intimidação reinante neste momento, que, entre outras coisas, fomenta claramente o racismo: para além de declarações como as de António Capucho, registe-se que não me lembro de ver UMA única imagem em telejornais recentes, sobre incidentes em praias ou em comboios, que não seja ilustrada com imagens de negros. Matéria para reflexão...


Comunicado - Incidentes na praia do Tamariz

O Sindicato Nacional dos Oficias de Polícia (SNOP) vem manifestar o seu repúdio pelas declarações do senhor Presidente da Câmara Municipal de Cascais e outros comentadores na sequência dos incidentes na Praia do Tamariz no Estoril no dia 04 de Julho de 2010.

Com efeito, a postura adoptada por diversos intervenientes nesta polémica revelou-se alarmista e pouco rigorosa, demonstrando um total desconhecimento dos factos em si e apelando à concentração de recursos policiais num local que beneficia sistematicamente de reforço da segurança na época balnear. Em concreto, o Sr. Presidente da C.M. de Cascais com as suas declarações ajudou igualmente a aumentar o sentimento de insegurança dos cidadãos, acabando por prejudicar os interesses turísticos no respectivo concelho. Para além disso, foi possível assistir a declarações que mexeram sub-repticiamente em sentimentos de desconfiança e de discriminação para com os portugueses de origem africana, descendentes de segunda e terceira gerações, estigmatizando essas mesmas comunidades, como se se desejasse que as praias do Concelho de Cascais não fossem frequentadas por indivíduos de determinada etnia.

Em toda esta questão passou à margem da opinião pública o facto da segurança das praias e da costa marítima ser da jurisdição da Autoridade Marítima e em concreto da Polícia Marítima (sob tutela do Ministério da Defesa) e não da PSP. Parece-nos estranho que em nenhum momento o senhor Ministro da Administração Interna tenha esclarecido este facto, levando a
que, uma vez mais, a PSP assumisse o ónus de uma situação que em termos objectivos não é da sua responsabilidade. Não obstante, a PSP voltou a assumir as suas competências no quadro de segurança interna contribuindo para a garantia da segurança e ordem pública com profissionalismo e espírito de missão.