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21.8.10

Violinos da Esperança


A história é conhecida, mas El País retoma-a hoje.

Muitos músicos que chegaram a Israel depois de 1945 levavam consigo violinos alemães que, por terem a marca dessa nacionalidade, eram naturalmente odiados e foram rapidamente queimados ou vendidos.

No primeiro vídeo, Amnon Weinstein explica que tem conseguido recuperar uns tantos, pertença de vítimas ou sobreviventes do holocausto. As peripécias por que passaram estes instrumentos estão a ser filmadas, numa série em que Shlomo Mintz toca em Auschwitz, junto do barracão em que esteve internada até morrer Alma Rosé, sobrinha de Gustavo Mahler e directora da orquestra de mulheres daquele campo da morte.

No segundo vídeo, um concerto em Jerusalém, com a participação de Shlomo Mintz, e em que a maior parte dos violinos foi recuperada por Amnon Weinstein.




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Viver em Praga, depois de 68


Em mais um aniversário da invasão de Praga, retomo um texto que foi escrito para este blogue há pouco mais de dois anos. A sua autora é Rosa Ventura, filha de Cândida Ventura e de Américo de Sousa, dirigentes históricos do PCP.

Cheguei a Praga com 17 anos, em Julho de 1969, naturalmente entusiasmada e feliz com a ideia de ir viver com a minha mãe, finalmente ao fim de tantos anos, e num país socialista.

Levaram-me para um hotel luxuoso situado no centro da cidade. Nunca vira nada de semelhante e, perante o meu espanto, explicaram-me que era assim que recebiam as entidades políticas estrangeiras importantes e as suas famílias.

Desconhecia, por completo, o que se tinha passado em 1968 e ninguém me falou então do assunto. Integrada num grupo de estudantes de várias nacionalidades, fui para uma espécie de palácio, em regime de internato, para participar num curso intensivo de checo. Só podíamos sair uma vez por semana, mas foi durante essas saídas que conheci jovens checos.

Foi também então que começaram as surpresas. Eu que, em Portugal, tinha participado em manifestações contra a guerra do Vietname e contra os Estados Unidos, fui encontrar ali, num país dito socialista, pessoas da minha idade que só pensavam em fugir para qualquer parte e que adoravam os americanos. Contaram-me então o que se passara um ano antes. Havia uma tristeza e uma revolta enormes em relação à invasão russa cujas marcas nas fachadas da Praça Venceslau eram bem visíveis – e sê-lo-iam por muito tempo. Eu tentava falar-lhes da nossa ditadura, da falta de liberdade, das prisões, mas explicavam-me que lá era igual.

Para mim, tudo isto foi muito dramático, mas quando tentei discutir o assunto com quem de direito, foi-me dito que não podia ter opinião nem meter-me “onde não era chamada”.

Durante cinco anos, vivi na cidade mais linda da Europa com um povo fantástico, uma cultura geral impressionante, aprendi a gostar de música clássica, de teatro, de museus, de história e, sobretudo, a NÃO querer aquele socialismo para Portugal.

Tudo isto é muito pessoal, muito emocional e pouco político, mas foi a experiência do fim da minha adolescência, toda ela feita de descoberta de contradições – e de muitas mentiras.
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Numa madrugada de 21 de Agosto


...há 42 anos, terminou a Primavera de Praga.

A NÃO PERDER: este belíssimo vídeo com fotografias de Joseph Koudelka.
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20.8.10

Boticas


Não sei se há alguma relação directa entre a falta de dinheiro dos portugueses para comprarem medicamentos e a transformação das nossas farmácias em drogarias de luxo, perfumarias, secções dietéticas de supermercados, lojas de brinquedos ou antecâmaras de SPA’s. O que sei é que tudo aquilo se vende e nem sequer é suportado pelo SNS!

Julgo que há certamente muita gente a cuidar das diabetes com ginseng, do reumatismo com marapuama ou a ingerir suplementos alimentares em vez de batatas cozidas.

O resultado é que duplicou o tempo de espera para comprar uma simples caixa de aspirinas, porque a farmacêutica, directora técnica encartada, passa vinte minutos a aconselhar um creme esfoliante da marca x ou um conjunto de produtos com um preço «muito jeitoso» e que «até dá um brinde».
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165 dissidentes cubanos escrevem Carta Aberta ao papa


«Algunos de los católicos que firmamos esta carta y otros que quizás incorporen sus firmas, no estamos de acuerdo con la postura que ha tenido la jerarquía eclesiástica cubana en suintervención por los presos políticos, es lamentable y de hecho bochornosa.(…)

Una correcta mediación sobre el tema, hubiera implicado oír los reclamos de ambas partes y conciliarlos. Sin embargo, la solución del destierro, aceptada por los que han estado siete años injustamente presos ‐ solamente por sus ideas ‐ solo beneficia a la dictadura; prácticamente, con la salida de un número considerable de familiares se convertirá en un pequeño éxodo. (…)

La situación de represión, hostigamiento y detenciones arbitrarias se ha recrudecido en los últimos días, después de las amenazas del presidente Raúl Castro, del 1ro. de agosto. Y cabría preguntarse: ¿Se están vaciando las prisiones para volverlas a llenar? (…)

Podríamos hacer de esta epístola una larga lista de demandas, pero sólo una es la más importante, que cese el apoyo político de los que representan a DIOS ante los católicos cubanos, a los que se han comportado durante medio siglo como comisionados de Satanás en la tierra.»

Na íntegra, aqui.
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O «Avante!» e as lapidações no Irão


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Diferenças:
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19.8.10

Lorca & Cohen

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Federico García Lorca, «Pequeño Vals Vienés»

En Viena hay diez muchachas, ¡Ay, ay, ay, ay!
un hombro donde solloza la muerte Toma este vals que se muere en mis brazos.
y un bosque de palomas disecadas.
Hay un fragmento de la mañana Porque te quiero, te quiero, amor mío,
en el museo de la escarcha. en el desván donde juegan los niños,
Hay un salón con mil ventanas. soñando viejas luces de Hungría

por los rumores de la tarde tibia,
¡Ay, ay, ay, ay! viendo ovejas y lirios de nieve
Toma este vals con la boca cerrada. por el silencio oscuro de tu frente.


Este vals, este vals, este vals, este vals, ¡Ay, ay, ay, ay!
de sí, de muerte y de coñac Toma este vals, este vals del "Te quiero siempre".
que moja su cola en el mar.

En Viena bailaré contigo
Te quiero, te quiero, te quiero, con un disfraz que tenga
con la butaca y el libro muerto, cabeza de río.
por el melancólico pasillo, ¡Mira qué orillas tengo de jacintos!
en el oscuro desván del lirio, Dejaré mi boca entre tus piernas,
en nuestra cama de la luna mi alma en fotografías y azucenas,
y en la danza que sueña la tortuga. y en las ondas oscuras de tu andar

quiero, amor mío, amor mío, dejar,
¡Ay, ay, ay, ay! violín y sepulcro, las cintas del vals.
Toma este vals de quebrada cintura.


En Viena hay cuatro espejos
donde juegan tu boca y los ecos.
Hay una muerte para piano
que pinta de azul a los muchachos.
Hay mendigos por los tejados,
hay frescas guirnaldas de llanto.
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E por falar em ciganos – no aniversário da morte de García Lorca


Frederico García Lorca morreu em 19 de Agosto de 1936.

Como todos os anos nesta data, em Viznar, perto de Granada, ciganos cantam, dançam e dizem poesia em honra de Lorca e de cerca de 3.000 fuzilados pelos franquistas, cujas ossadas se encontram por perto.

«Aquí se canta por derecho», disse hoje um jovem, numa tradição que tem já quase quatro décadas e se retoma ano após ano. De madrugada, à luz de velas e das estrelas, sem nada programado. Ninguém a convoca formalmente, não se pretende que seja muito conhecida - uma «noite de magia».

(Vale a pena ler este artigo do Público.es.)

Num dia em que, com uma salutar demagogia, podemos dizer que nos sentimos todos um pouco ciganos, Cante jondo de Romancero gitano.


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Devolvidos


Até ao fim do corrente mês, a França vai enviar 700 ciganos para os seus países de origem, Roménia e Bulgária. Partem hoje para Bucareste os primeiros – na maior das legalidades, diz a França, calando preocupações recentemente expressas pela União Europeia e apesar de a ONU ter falado de «política de humilhação» e de «visão degradante da acção pública».

Convém talvez lembrar que estamos a falar de cidadãos europeus (desde Janeiro de 2007) que beneficiam do direito de livre circulação. Mas, durante sete anos, estão ao abrigo de um «regime transitório» que lhes restringe o acesso ao mercado de trabalho assalariado.

Motivos possíveis para expulsão neste período transitório? Estar-se «não activo», sem provar que se dispõe de recursos suficientes para viver ou (obviamente…) ser considerado «uma ameaça para a ordem pública».

A Europa com os seus muros, físicos ou burocratas, a proteger os jardins dos palácios enquanto é possível. Como se a transumância forçada de umas dezenas dos seus cidadãos resolvesse os verdadeiros problemas e eliminasse crises que teimam em não passar.

«A verdade é que 79% dos franceses apoiam o desmantelamento dos acampamentos. E isso é o que importa a Sarkozy, candidato à reeleição em 2012», diz hoje o DN.

Exacto. Quem vier depois, disto e de muito mais, não se esqueça de ir a Bruxelas apagar as luzes do Berlaymont.

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18.8.10

«Falam como se fossem homens»


Ler na íntegra, para crer, este texto de Domingos (Freitas do) Amaral, no CM. Quando se escreve assim com 42 anos, tendo um «antigamente» tão recente, nem dá para imaginar o que irá por aquela cabeça quando tiver mais 20. Nem como era aos 15, em plena década de 80, poucos anos depois do 25 de Abril.

«Antigamente, a uma rapariga com ares rudes e masculinos, que gostava de andar à pancada ou de jogar futebol, chamava-se "Maria Rapaz". Era um termo carinhoso para caracterizar aquilo que se considerava uma raridade, com ligeiros laivos de excentricidade. Mas, isso era antigamente. Agora, as coisas mudaram. (…). As conversas entre raparigas, pelo que deduzi, eram uma espécie de competição sobre as actividades que elas praticavam com os namorados, sendo que as que mais impressionavam eram as que mais "coisas" tinham feito.

De repente, dei por mim a pensar que, na época em que eu tinha 15 anos, conversas destas só existiam entre os rapazes. (…) É essa a grande transformação dos últimos vinte anos nas relações entre os homens e as mulheres. Agora, as mulheres são todas "Marias Rapazes". Não porque gostem de andar à pancada ou jogar futebol, e muito menos porque tenham ar masculino, mas porque falam como se fossem homens.»

Segundo a Wikipedia, o autor não é um ilustre desconhecido nem um produto das Novas Oportunidades: «Nasceu a 12 de Outubro de 1967, em Lisboa, Portugal. Filho do político de direita Diogo Freitas do Amaral. Depois de se ter formado em Economia, pela Universidade Católica Portuguesa, e de ter feito um mestrado em Relações Internacionais na Universidade de Columbia, em Nova Iorque, Estados Unidos, decidiu seguir uma carreira como jornalista. Trabalhou no extinto jornal O Independente durante onze anos, além de ter colaborado com várias outras publicações, como o Diário de Notícias, Grande Reportagem, City, Invista e Fortuna. Colaborou também com a Rádio Comercial e com a estação televisiva SIC. Actualmente, é o director da revista portuguesa GQ e foi durante sete anos director da Maxmen. Colabora também com o Diário Económico e colaborou igualmente com a revista Grazia.»

Tem cinco livros publicados (até li um deles…) e, last but not the least, a cereja em cima do bolo, que talvez explique tudo: «É apoiante confesso de Salazar, do Fascismo e do Benfica.»

N.B. – O Benfica não tem culpa.
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Lisboa, uma das 100 cidades contra as execuções no Irão


Acaba de ser lançada no Facebook uma iniciativa a cuja organização pertenço e para a qual peço toda a divulgação possível:

No dia 28 de Agosto, às 18:00, no Largo de Camões, os membros deste grupo vão pôr Lisboa no mapa mundial da luta pelos Direitos Humanos, protestando contra as sentenças de condenação à morte aplicadas a vários cidadãos iranianos – desde opositores políticos do regime de Teerão até acusados por sodomia e adultério – por um sistema de justiça que não respeita os mais elementares direitos de defesa das suas vítimas.

Nesse dia, Lisboa unir-se-á a uma enorme cadeia de cidades de todo o mundo cujos cidadãos também corresponderam ao apelo do International Commitee Against Execution. O nome da iniciativa, “100 cities against stoning”, pretende chamar a atenção da opinião pública mundial para o facto de na República Islâmica do Irão a execução da pena de morte ser muitas vezes efectuada pelo bárbaro método do apedrejamento em público.»

Endereço do Grupo no Facebook.
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Blogues + Facebook


Devia existir um sistema de vasos comunicantes entre o Facebook e as Caixas de Comentários dos blogues. No meu caso, a tendência vai no sentido de haver discussões muito mais frequentes e animadas nos posts daqui que ponho por lá (ou duplicação de intervenções das mesmas pessoas ou de leitores diferentes, com o mesmo conteúdo, nas duas plataformas).
É o que está a acontecer neste caso. Quem tiver acesso, pode seguir a discussão aqui.

«É a vida!», como diriam alguns. Ou, muito provavelmente, uma «mudança de paradigma» - o que soa muito melhor…

P.S. – Sem ofensa: os que se recusam a ter conta no Facebook fazem-me sempre lembrar os resistentes a aparelhos de TV em casa, ou mesmo os que ainda hoje lamentam a invenção da máquina a vapor… É lá que nascem actualmente algumas iniciativas cívicas importantes, como uma que anunciarei neste blogue, provavelmente ainda hoje.
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Finalmente, uma manhã de Agosto com excelentes notícias!


Uniões de facto põem Cavaco na mira dos sectores católicos

«Equiparam o casamento a todas as outras coisas e assim tiram-lhe a especificidade», diz ela…

«A união em torno do Presidente deve ser posta à prova nos próximos meses e com o aproximar da campanha. BE e PS preparam-se para apresentar um diploma que facilita a mudança de sexo no registo civil. Se for aprovado, Cavaco ver-se-á arrastado para um debate em tempo de pré-campanha. Se não vetar esse diploma, dará muito espaço para um rival à sua direita.»

Vamos a isso, com banda sonora:


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O que Mr. Clooney ainda não consegue arranjar

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Uma Nespresso para viagem, pequena e muito leve.A falta que faz...


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17.8.10

China, a grande esperança para o capitalismo?


O crescimento da economia chinesa está sempre na ordem do dia, mas mais agora que o seu PIB ultrapassou o do Japão e só tem no horizonte alcançar o dos Estados Unidos.

Curiosamente, parece esperar-se que a China seja uma das bóias de salvação para a actual crise mundial do capitalismo – se não a única, pelo menos a principal -, na exacta medida em que se transforme numa grande potência consumidora, não só do que produz mas também do que vier a importar.

Com fim à vista o papel exclusivo de fábrica de objectos baratos, consumidos internamente e exportados para o mundo inteiro? Parece que sim: «Depois de décadas de expansão acima da média, mas pouca contribuição para o crescimento mundial, a China parece agora estar pronta a mudar de rumo. Foi a crise mundial que acordou o gigante adormecido». Por outras palavras: a recessão de outros como o Japão não serve os interesses chineses, muito pelo contrário, e o país julga ter «capacidade não só para alavancar o seu próprio crescimento, como para ajudar as outras economias».

As recentes greves, sobretudo em empresas multinacionais, de que resultaram aumentos salariais significativos, são certamente ainda uma gota de água, mas mostram que se avança numa direcção aparentemente sem retorno e que «a competitividade chinesa já não assenta só na mão-de-obra barata, mas também nos avanços tecnológicos».

Tudo pelo melhor num diferente e inesperado mundo novo? Longe de ser óbvio, porque se vê mal como o poder político vai gerir toda esta mudança. A China ainda continuará «comunista», que mais não seja aos seus próprios olhos? Vai manter a mão de ferro e a limitação de direitos, no tal país que se pretende com dois sistemas e em que se percebe cada vez menos o que um deles possa querer dizer? Com o mundo inteiro a assistir, cada vez mais dependente e até mais «servil»?

Não vale a pena a dizer que o erro está em tentarmos interpretar uma realidade diferente com os nossos olhos ocidentais, porque tudo hoje se tornou muito mais próximo, e consequentemente parecido. O capitalismo «budista» chinês tem certamente muito mais afinidades com Wall Street do que com o «Gross National Happiness» do vizinho Butão.

Estou enganada ou há aqui muita matéria para reflexão?

Partindo daqui.
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Em defesa do avião


Na continuação da ponta do véu que ontem levantei sobre Michel Onfray e a sua Teoria da viagem. Poética da geografia, mais uns fragmentos que me limitei a «colar», como se de um retrato se tratasse, do que tantas vezes senti e muito gostaria de algum dia ser capaz de assim exprimir.

«Os defensores de formas antigas e ultrapassadas de viajar apelam à lentidão e amaldiçoam a velocidade, causa de todos os males. Celebram a passada do burro, o barco de roda, travessia dos oceanos em cruzeiros, descida de rios em canoa, roulottes com cavalos, estadias longas em albergues, em quintas, imobilizações voluntárias e involuntárias, um tipo de sedentarismo reinstalado em casa de outrem. Imaginam que, assim, com tempo, apreendem melhor, experimentam uma empatia mais autêntica, realizam melhores encontros. É evidente que os defensores desta hipótese parmenidiana detestam aviões, símbolos do que de pior possa haver.

Adoro aviões. (…) A sua velocidade modifica a apreensão do espaço e contribui para a sua redução (…). Nos ecrãs, sucedem-se mapas que reduzem o espaço real a um desenho em que o verde das terras e o azul dos mares são atravessados pelo traço vermelho do nosso percurso (…), tudo o que parece grande e importante no solo torna-se pequeno, irrisório e insignificante no ar (…), sentimo-nos fragmento de um grande todo, pedaço irrelevante de um mecanismo importante que nos contém e nos ultrapassa(…), cada ponto do globo fica imediatamente acessível e torna a vontade capaz de vencer resistências (…). Sentir-se homem na carlinga deste instrumento transformado em energia e em velocidade metamorfoseia mais a alma do que a leitura dos Evangelhos (…).

A história desaparece, demasiado preocupada de peripécias locais, em prol da geografia, habituada a durações indefinidas e a lentidões magníficas».

Exactissimamente…
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Português como nós


Não sei se já tentaram dizer a um inglês que o presidente da República português mora, por opção própria, num prédio normal, com vizinhos desconhecidos e um polícia à porta como única segurança. Eu já, tive de repetir várias vezes e explicar, detalhadamente, que Mário Soares não tinha querido sair do seu quarteirão de sempre, em rua com nome do pai, colégio próprio à esquina e uma bela vista para um grande jardim público. E que os portugueses até acharam normal a opção.

Jorge Sampaio manteve a tradição e vive num andar com vista para coisíssima nenhuma e Cavaco tem as tais marquises de alumínio.

Eis senão quando, passou agora a ser notícia que o putativo ex-futuro primeiro-ministro habita, imagine-se, em Massamá! Ainda não na Cova da Moura nem na Filomena, mas «já» em Massamá! A silly season, de facto.



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16.8.10

… é preciso


Já que não estou, como devia, numa viagem longa e cuidadosamente desejada, consolo-me com a releitura de uma pequena obra-prima de Michel Onfray, Théorie du voyage, Poétique de la géographie (*).

Quem se reconhece como viajante compulsivo (mas viajante que parte mesmo, não de sofá…), mergulha neste curto ensaio e lê-o de um trago, ele próprio com a estrutura de uma viagem, do desejo e da preparação à hora da partida, da estadia ao regresso e à memória decantada daquilo que fica.

«Cada um descobre-se nómada ou sedentário, amante de fluxo, de transportes, de deslocações, ou apaixonado pelo estatismo, pela imobilidade e pelas raízes». Ligado à estrada ou ao solo. Rio ou árvore. Pastor ou camponês (Abel ou Caim).

No primeiro caso, o que conta é «o gosto pelo movimento, a paixão pela mudança, o desejo furioso de mobilidade, a incapacidade visceral de comunhão gregária, a raiva pela independência, o culto da liberdade e a paixão pela improvisação dos mais pequenos factos e gestos». O viajante «ama o seu capricho mais do que a sociedade em que evolui como um estrangeiro, adora a autonomia posta bem acima da salvação da cidade».

E parte-se. Quando? No «movimento da chave na fechadura da porta de casa, quando a deixamos para trás (…), é nesse instante preciso que começa a viagem». Vamos então «verificar a existência real e factual do lugar desejado, entrevisto em ícones, imagens e palavras», guias, livros e mapas, devorados na sacrossanta fase de preparação.

Passo a estadia propriamente dita (seria um longo, muito longo percurso...), salto para o regresso. «Só deveriam ficar três ou quatro sinais, cinco ou seis no máximo», «instantes congelados sob a forma de reactivações imediatas», que não justificam a viagem «mas a tornam parcialmente imortal ». Apenas isso importa porque cada um «só se põe a caminho pelo desejo de partir ao encontro de si próprio no desígnio, muito hipotético, de se reencontrar ou, mesmo e tão somente, de se encontrar».

E, por isso mesmo, «saber-se nómada uma vez é o suficiente para se ter a certeza que se partirá de novo, que a última viagem não será a derradeira. A não ser que a morte aproveite um qualquer trajecto para nos apanhar…». O que seria o mais belo de todos os fins.

(*) Existe uma edição em português, publicada pela Quetzal, mas não a tenho, pelo que as traduções que faço são da minha responsabilidade.
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Talvez...


A justiça do Irão terá adiado, até ao próximo Sábado, dia 21, a decisão sobre a pena a aplicar a Sakineh Mohammadi Ashtiani, condenada a apedrejamento, inicialmente por adultério e agora por acusação de envolvimento na morte do marido. Teoricamente, a única diferença é que, dentro de cinco dais, se saberá se Sakineh será enforcada ou apedrejada. Mas este primeiro recuo quanto à data e ao método escolhido, visto como resultado da pressão da opinião pública mundial e da onda crescente de protestos, faz manter ainda a esperança, ainda que ténue, de uma possível libertação.

Assine-se a Petição que a Amnistia Internacional lançou, difunda-se indignação e notícias.

Que a revolta contra este caso sirva também para recordar que não se trata de uma excepção: ontem mesmo, militantes talibãs mataram à pedrada um casal acusado de adultério, no Norte do Afeganistão – ela tinha 20 anos, era solteira e noiva de outro homem; ele, casado, deixou a mulher para fugir com ela.

Assim se mata e assim se morre, em pleno século XXI.

Apedrejamento é isto:


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Nove anos é muito pouco tempo


«A dois quarteirões das Twin Towers, o imã Feisal Abdul Rauf quer construir uma mesquita. Algumas associações de familiares das vítimas do 11 de Setembro protestam. Há dias, Obama disse: "Isto é a América, e o nosso compromisso com a liberdade religiosa deve ser inquebrantável." Para ele, os muçulmanos, tal como as outras religiões, têm direito de construir os seus lugares de culto onde querem, logo que cumpram as leis locais. É o caso: o projecto da mesquita foi aprovado pela Câmara de Nova Iorque. O Presidente americano colocou-se, como devia, no domínio dos princípios - só isso garante a equidade, a igualdade para todos. Já o imã Feisal Rauf devia reger-se por outro valor, o bom senso, tão útil para a convivência entre os cidadãos como a aplicação dos bons princípios. Os atentados do 11 de Setembro foram cometidos em nome do Islão. Evidentemente, só uma minoria os aplaudiu. Mas todos aqueles terroristas eram islâmicos e foi nessa condição que actuaram. Seria sábio da parte do imã pensar que o seu inalienável direito pode ofender o luto dos familiares das vítimas.»

Assinaria por baixo, sem certezas, este texto de Ferreira Fernandes no DN de hoje. A Câmara de NY e Obama fizeram o que «deviam», em nome da liberdade e do politicamente correcto, e é mais que certo que a intenção do imã é precisamente homenagear as vítimas do 9/11 e mostrar que o Islão nada tem a ver com a tragédia. Mas entendo que a maioria dos nova iorquinos esteja contra.: é preciso dar tempo ao tempo e não se faz necessariamente pedagogia ao nível da calçada e, muito menos, aos encontrões na memória recente.
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15.8.10

Un beau soir du mois d'août



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Ainda sobre o dia que passa


Se não sabiam, fiquem a saber:

«Hoje é dia da assunção de Nossa Senhora, rainha de Portugal, coroada por D. João IV por veneração e reconhecimento, e que república alguma conseguirá jamais destronar. Esta é a razão pela qual a dinastia de Bragança abdicou do uso da coroa que é sempre representada ao lado do monarca.»
(realce meu)

A coroa foi dada por D. João IV a Nossa Senhora da Conceição, a imagem mostra Nossa Senhora de Fátima e hoje festeja-se Nossa Senhora da Assunção. Vai tudo dar à mesma, eu sei, mas só  o descobri com quatro ou cinco anos: até lá, julguei que havia várias, com um sentimento difuso de concorrências entre elas e clara preferência por uma, certamente porque a minha mãe se chamava Maria da Conceição...
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Este é que seria o bom debate entre Sócrates e Passos Coelho!

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«Post» demagógico num dia santo de Agosto


1 - O santuário de Fátima gasta cerca de 930 quilos de farinha por ano no fabrico de hóstias. (Para chegar a este número, baseei-me numa notícia do DN e em dados da Wikipedia quanto a dimensão e peso dos dois tipos de hóstias em voga, dando até como imponderável a água que se mistura com a farinha).

2 – É tradição já antiga que, na Peregrinação do Migrante e Refugiado, em 13 de Agosto, os fiéis ofereçam farinha de trigo, precisamente para as hóstias a serem consumidas in loco. Ainda não terão sido pesadas as oferendas deixadas há dois dias, mas, em 2009, totalizaram 6.440 quilos (!!!...).

3 - Assim sendo, e estando o episcopado português tão empenhado em apelos ao combate da pobreza, sugere-se a entrega imediata de cerca de 5.500 quilos de farinha, que vão certamente sobrar e que dão para cozer milhares de pães para muitos pobrezinhos - um acto que se insere na mais perfeita tradição da caridade cristã e que nem os migrantes, nem os refugiados, nem mesmo a senhora de Fátima poderão de algum modo levar a mal.
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