30.4.11

A «herança dramática» de João Paulo II


Regresso ao tema da beatificação de João Paulo II, que terá lugar amanhã em Roma, por duas razões: por um lado porque, agora que terminou o espectáculo Kate / Williams, e enquanto esperamos pelos veredictos finais da Troika, vamos ser bombardeados por relatos directos e indirectos (capitaneados, no nosso serviço público de televisão, pela inefável Fátima Campos Ferreira, evidentemente…) e, por outro, porque, se não faltam na imprensa referências à perplexidade provocada por esta decisão do Vaticano, me parece relevante citar uma crónica do padre Anselmo Borges, publicada hoje, no DN.

Se o autor não esconde a admiração pelo papa em questão, resume bem, em dois parágrafos, o contributo negativo deste para o estado actual das hostes católicas:

«Mas João Paulo II era apenas um homem, um homem do seu tempo, que vinha do leste e tinha uma certa visão da Igreja. Daí que não faltem vozes críticas quanto à sua actuação e, consequentemente, quanto à sua beatificação precipitada. Ele viveu grandes contradições, como, por exemplo, pediu perdão pelas culpas da Igreja ao longo da História ao mesmo tempo que continuou a condenar um grande número de teólogos, defendeu os Direitos Humanos para o mundo ao mesmo tempo que reprimiu quem dissentia das suas concepções doutrinais e teológicas. Pôs travão a horizontes abertos pelo Concílio Vaticano II, foi incapaz de rever algumas normas de ética sexual, opôs-se tenazmente a uma reflexão sobre a obrigatoriedade do celibato eclesiástico, recusou debater de modo sério o lugar da mulher na Igreja, pôs termo à teologia da libertação.

O facto é que a Igreja está numa crise profunda e muitos fiéis estão a abandoná-la ou encontram-se em autogestão da fé. Sobretudo, João Paulo II deixou uma herança dramática por causa do modo como terá lidado com os abusos de menores por parte do clero e com a figura perversa do fundador dos Legionários de Cristo, Marcial Maciel. »

Em rodapé, registe-se que, afinal, o reino dos céus tem interpretações muito estranhamente permissivas para ao Vaticano, que mantém relações diplomáticas com quem não é admitido em solo europeu por violação dos direitos humanos, mas será um dos chefes de Estado presentes, amanhã, na basílica de S. Pedro: Robert Mugabe, ao vivo e a cores…
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