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29.1.11

Berlim 1989, Mediterrâneo 2011?


Numa tentativa legítima de enquadrar para melhor compreender o que se passa agora no Mediterrâneo, recorre-se naturalmente a comparações com factos do passado histórico recente, nomeadamente à eventual semelhança com a queda do muro de Berlim e consequente fim do bloco comunista.

A fuga de Ben Ali terá sido a abertura da Bornholmer Strasse, primeiro para os tunisinos, logo a seguir para os muito milhões que, em territórios mais ou menos vizinhos, a festejaram e passaram a lutar por uma vitória, agora aparentemente possível, contra a opressão dos seus ditadores. O medo passou a estafeta à luta pela liberdade.

Mas - há sempre um mas – importa sublinhar que são grandes as diferenças entre o Leste europeu 1989 e o Norte africano 2011.

Para começar, os países comunistas formavam um «bloco» que se esboroou quando o controle centralizado em Moscovo cedeu, na pessoa de Mikhaïl Gorbatchev. Nada de semelhante se passa agora na faixa mediterrânica.

Depois, em 1989, a Europa e os Estados Unidos aplaudiram a implosão do império do seu grande inimigo e concorrente do século XX. Neste momento hesitam muito, talvez mais do que desejável, entre o regozijo pela explosão de liberdade a que assistem e o receio de extremismos religiosos que transformariam estes países, até agora dominados por ditadores aliados, quando não «amigos», em potenciais futuros opositores. Mas não escaparão, terão de tomar partido. Além disso, é bom não esquecer que um outro player, ausente no fim da década de 80, entra agora em jogo: hoje, a palavra «Egipto» passou a ser censurada em Pequim…

Uma coisa parece certa: as imagens que nos entram pela casa dentro mostram que nada ficará como antes, mesmo se os próximos tempos são absolutamente imprevisíveis. Neste ponto, o acordo parece universal.

(A partir daqui)
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O meu andar está à venda!

Fecharam-lhe as janelas


Foi a primeira notícia que li esta manhã: a da morte do Zé Pedro Barreto.

Li-o durante muito tempo no WAT sem saber o seu verdadeiro nome e só hoje vi a cara. Mas habituei-me a admirar a sua escrita incomparável e a parar nas suas magníficas fotografias.

Trocámos muitas mensagens desde que passou a colaborar nos «Caminhos da Memória», onde entrou com a sua inesquecível Rapsódia em Blue. Sempre com uma simplicidade e um sentido de humor desconcertantes.

Mais tarde começou um blogue – Janelas – que esteve desde a primeira hora na lista dos meus preferidos e aí ficará para sempre. Este foi o último parágrafo que lá escreveu:

«Mas os tempos vão estranhos, gente. Li agora que o Japão vai enviar tropas para ajudar a matar milhares de galináceos no sul do país, a fim de evitar a alastramento da gripe aviária. Quando um país nobre e milenar usa as suas forças militares para matar frangos e galinhas, eu acho que precisamos meditar profundamente no mundo que estamos a construir. É o que eu vou fazer. Até logo.»
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Para além das imagens


«Quem disse há poucos anos que "o mundo está perigoso" pecou por apressadinho. Hoje, sim, o mundo está perigoso. Como se mede o perigo tipo agora-é-que-é? É quando vemos ditaduras corruptas a estremecer com multidões na rua e nós a hesitar: vamos lá ver o que vem a seguir... Ontem, estaríamos eufóricos com jasmins nos canos das espingardas, em Tunes, ou com aquele carro policial a meter o seu jacto de água entre as pernas porque um só jovem em larga avenida cairota o defrontou... Agora, fazemos contas. E elas são contas de três complicadas: há os bons, os maus e os péssimos. E estes, não tendo ainda entrado em cena (aparentemente), bem podem ser os vencedores finais. Vejam a muito poderosa Hillary Clinton enredada também ela em contagens múltiplas. Mediu os mesmos manifestantes, com iguais razões de protesto, tunisinos e egípcios, por bitolas diferentes. Aos primeiros, aplaudiu-lhes a coragem, aos segundos, negou-lhes homenagem. Leia-se na diferença só isto: o perigo dos péssimos na Tunísia é menos provável do que no Egipto. Olhem, outra característica do mundo quando fica mesmo, mesmo perigoso: além do preto e branco acrescenta-nos muitos cinzentos. Mas, claro, nem todos vêem isso. Só os que têm um mapa-múndi lá em casa e percebem que o mar Mediterrâneo se chama assim porque não é um grande oceano.»

Ferreira Fernandes no DN.
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Paris 1900 (4)


Champs de Mars
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28.1.11

A não perder

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Podem não ser capazes de formar governo, e nem sequer saberem se continuarão a ser cidadãos de um único país, mas tiveram uma iniciativa hilariante. Estou a falar dos belgas, evidentemente.

O vídeo tem 10 minutos, mas merece ser visto até ao fim.


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Crises e competitividades


«Pergunto ao empregado o que pensa da crise e ele responde-me que toda a sua confiança está posta em Obama. Quero saber porquê, e a sua resposta é, além de óbvia, desconcertante:
- Porque é negro e os negros sempre viveram em crise.»
(Luis Sepúlveda, Histórias daqui e dali)

Penso que Paul Krugman não teria respondido o mesmo ou seria diferente o artigo que escreveu a propósito do recente discurso de Obama sobre o Estado da União, que o «i» hoje divulga.

Competitividade foi o tema escolhido pelo presidente, mas Krugman avisa:

«Não nos enganemos a nós mesmos: falar de "competitividade" como objectivo é basicamente enganador. Na melhor das hipóteses é um diagnóstico errado dos nossos problemas; na pior, pode dar origem a políticas baseadas na ideia incorrecta de que o que é bom para as empresas é bom para a América. (…)
É verdade que se exportássemos mais e importássemos menos teríamos mais emprego. No entanto, pode dizer--se o mesmo da Europa e do Japão, cujas economias também estão em recessão. E não podemos todos exportar mais e importar menos a não ser que descubramos outro planeta a quem vender.»

(O que parece evidente e já me passou mil vezes pela cabeça…)

A ler na íntegra, um texto que não termina em tom optimista:

«A crise financeira de 2008 foi um momento cheio de ensinamentos, uma lição acerca do que pode correr mal quando confiamos na capacidade dos mercados de se auto-regularem. Também não devemos esquecer que algumas economias altamente reguladas, como a da Alemanha, conseguiram, muito melhor que nós, defender o emprego depois da crise. No entanto, por qualquer razão, este momento pedagógico passou sem que nada tivesse sido aprendido.
Obama, por si mesmo, até pode ter um bom desempenho: a sua taxa de aprovação está a subir, a economia dá sinais de vida e as suas probabilidades de reeleição parecem boas. No entanto a ideologia que produziu o desastre económico de 2008 está outra vez na mó de cima - e parece estar para ficar, até produzir um novo desastre.»
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Revolução por contágio

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Em entrevista à Atena 1, hoje.
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Importa-se de explicar?


Ministro Silva Pereira em entrevista ao DN:

«Manuel Alegre não era a sua escolha mas já disse que não havia alternativa. O que se passa no PS?

Em se tratando da reeleição de um Presidente, é sempre mais difícil encontrar disponibilidade. O PS fez o que devia e fez a melhor opção. A mais importante leitura política do resultado é a de que a eleição presidencial não fomentou um movimento de centro-direita que pudesse propiciar a abertura de um novo ciclo político.» (sublinhado meu)

Ou seja: «Viva a abstenção!»? e / ou «Cavaco é porreiro, pá!» ???
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Paris 1900 (3)


Seine - Sept ponts

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27.1.11

Solidariedade

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Através do João Bernardo, do Passa Palavra, cheguei a esta notícia.

«Um grupo de cantores, entre os muito conhecidos na música portuguesa, juntou-se para interpretar esta canção de apoio à não extradição de Cesare Battisti. Pela Comissão de Apoio a Cesare Battisti (Portugal)

Veja aqui o “video-clip” desta canção - com letra de Manuela de Freitas e José Mário Branco, e música de José Mário Branco - com a qual se pretende chamar a atenção para o caso de Cesare Battisti, preso no Brasil há quase 4 anos e ameaçado pelo Supremo Tribunal Federal de ser entregue ao governo italiano.»

“Hoje Battisti, amanhã tu”



A rua árabe e o amigo americano


Se os Estados Unidos encorajaram a revolta tunisina bem cedo, mesmo antes da fuga de Ben Ali, antecipando-se à França e à União Europeia, estão agora muito mais cautelosos em relação ao Egipto.

Hillary Clinton diz ao governo egípcio que acredita na sua capacidade de concretizar as reformas necessárias e apela para que não impeça manifestações nem bloqueie as comunicações. São conselhos a Moubarak para que este conserve o poder, sem quaisquer encorajamentos aos que se manifestam nas ruas. É bom não esquecer que a Tunísia é um pequeno país com pouco peso, enquanto o Egipto tem gás e petróleo e uma posição geográfica de grande importância estratégica...

Entretanto, Moubarak não está disposto a fugir como Ben Ali e parece mais inclinado a seguir o modelo de Tiananmen do que os conselhos de Clinton. Este vídeo fala por si e traz-nos terríveis recordações.


(Vídeo via Rui Bebiano no Facebook)

(Fonte)
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Mais um aniversário


Libertação de Auschwitz, 27 de Janeiro de 1945

No Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, um excelente dossier: Viaje al Holocausto
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Eu bem queria deixar de pensar no dr. Cavaco…


… mas o Manuel António Pina não me deixa:

O mistério dos juros

É sabido que Cavaco Silva nunca se engana e raramente tem dúvidas. Por isso não se enganou decerto quando anunciou aos portugueses (e também decerto sem ter qualquer dúvida sobre isso) que, se houvesse segunda volta nas eleições presidenciais, uma apocalíptica "subida das taxas de juros" iria desabar sobre "empresas e famílias".

É certo que Cavaco não disse preto no branco que, não havendo segunda volta, os juros desceriam ou se manteriam. Mas deu-o a entender (preto no branco), e como qualquer pessoa tem que nascer duas vezes para ser tão sério quanto Cavaco, Cavaco não o daria a entender se não fosse verdade. Por isso, e para lhe agradecerem o aviso, é que "empresas e famílias" o elegeram no domingo uma absolutíssima maioria de 23% do total de eleitores.

Daí que agora não compreendam como é que, três dias depois de, como Cavaco pediu, o terem eleito à primeira volta, os juros da dívida pública continuam a ir olimpicamente por aí acima, "citius, altius, fortius", tendo ontem chegado no mercado secundário à bonita taxa de 7,119%.

Talvez Cavaco se tenha esquecido de dizer aos mercados que podem regressar aos quartéis porque não haverá segunda volta. Ou talvez ande ocupado a tentar saber os "nomes daqueles que estão por detrás" da "campanha de calúnias, mentiras e insinuações" contra si e ainda não tenha tido tempo de telefonar aos mercados.

Mas que urge que Cavaco faça alguma coisa, urge.

P.S. - Já agora, ler: Un economista arrogante que abraza el neoliberalismo
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Paris 1900 (2)


Avenue Nicolas II
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26.1.11

Mãos e mais mãos

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(Via Virgílio Vargas no Facebook)
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Que Cavaco agradeça a vitória ao Largo do Rato


Entre culpas e desculpas pelos resultados de Domingo passado, ainda não vi ninguém dizer o que para mim é uma evidência: o maior responsável pelo prolongamento da estadia do dr. Cavaco em Belém é o Partido Socialista. E não porque se atrasou no apoio a Alegre, ou por não se ter empenhado suficientemente durante a campanha eleitoral, ainda menos por ter apoiado a mesma pessoa que o Bloco já tinha escolhido. O PS só se pode queixar de si próprio por ter desprezado a questão presidencial nos últimos dez anos: nos primeiros cinco por não ter pensado na substituição de Sampaio durante o seu último mandato, nos segundos por não se preocupar com o que viria a ser esta mais do que facilitada vitória de Cavaco.

Em 2006, inventou uma solução coxa e requentada com Soares – e foi o que se viu… -, este ano acabou por apoiar alguém que manifestamente não queria e está agora a tentar colar os cacos de uma rotunda derrota. É sabido que estratégias a longo prazo não fazem parte da religião praticada no Largo do Rato, mas não parece desculpável que um partido com o peso do PS cometa duas vezes o mesmo erro.

Teria sido certamente possível identificar um português com mais de 35 anos (e menos de 70, se possível…), dentro ou fora do partido, que desde há dois ou três anos fosse «aparecendo» como o candidato incontornável. É o que se faz em todo o mundo e, mesmo que não se vendam presidentes como sabonetes, propõem-se e impõem-se. No caso concreto, até podia ser alguém com um posicionamento ideológico semelhante ao de Manuel Alegre (mas sem um passado partidário tão complicado), e nem teria sido extraordinariamente difícil, julgo, chegar a um consenso que fizesse com que Alegre não insistisse uma segunda vez. E certamente que ninguém tinha inventado Fernando Nobre…

Teria esse hipotético candidato vencido Cavaco, apesar do desgaste actual do PS? Nunca se saberá (é o encanto da História Virtual ou a tal hipótese de a minha avó poder ter sido uma trotinete se tivesse tido rodas…), mas a fraquíssima figura que tinha pela frente, a relativa pouca consideração de que esta goza mesmo à direita e os resultados de Domingo passado fazem crer que, pelo menos, passaria certamente à segunda volta onde muito provavelmente venceria.

Last but not the least: no panorama existente, Manuel Alegre fez mal em avançar, o Bloco devia ter ficado na sombra, etc., etc., etc.? Não, de modo algum. «Valeu a pena lutar», como muito bem diz Rui Tavares no Público de hoje. Apesar do PS. Não foi desta, mas um dia a esquerda convergirá e não há nenhuma razão que a impeça de sair vencedora.

P.S. – Só para que não se pense que isto é justificação a posteriori de derrota mal digerida. Escrevi há um ano (29/1/2010): «Como se o PS não fosse o único culpado da situação que criou: desde 2006, teve mais do que tempo para preparar o caminho a um outro candidato, se não queria ver-se «obrigado» a apoiar hoje Manuel Alegre. Talvez não o tenha feito porque, até há meia dúzia de meses, se sentisse confortável com Cavaco. Mas agora que a situação parece ter mudado e que Alegre se adiantou – e bem, do seu ponto de vista – decidam-se: ou partem para uma campanha pela positiva, sem "mas" nem "apesares de", ou fazem uma triste figura, provocam provavelmente uma monumental abstenção e dão talvez uma preciosa ajuda ao que dizem querer evitar: que o doutor Cavaco fique mais cinco anos em Belém.»
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A Via


Vale a pena ler uma longa entrevista que Edgar Morin deu agora a Rue 89 - Edgar Morin, une voie pour éviter le désastre annoncé -, a propósito do lançamento do seu último livro La Voie.

Goste-se ou não do deu pensamento e da sua evolução, trata-se sem dúvida de alguém com uma longa presença e indiscutível influência, em França e não só.

E talvez passem por aqui alguns que o tenham conhecido pessoalmente, durante as suas frequentes visitas, e mesmo estadias mais ou menos longas em Portugal, que começaram bem antes do 25 de Abril. Uma personalidade fascinante, sem qualquer espécie de dúvida.

Acusado de pessimismo pelas críticas a esta sua recente obra, Morin pretende que tenta conjugar optimismo e pessimismo, num «pensamento complexo» que procura «unir noções que se repelem».

Dois excertos:

«Je suis parti de l'idée que tout est à réformer et que toutes les réformes sont solidaires. Je suis obligé de le penser puisqu'une révolution radicale comme celle de l'URSS ou même de Mao, qui ont pensé liquider totalement un système capitaliste et bourgeois, une structure sociale, économique et étatique, n'ont finalement pas réussi à le faire. Ils ont provoqué à long terme la victoire de l'ennemi qu'ils pensaient avoir liquidé : c'est-à-dire un système capitaliste pire que celui de 1917 et le retour de la religion triomphale en Russie et, en Chine, la victoire du capitalisme lié à l'esclavagisme d'Etat. (…)

Mais ce qui n'est pas pessimiste, c'est que je lie l'espérance à la désespérance. Plus les choses s'aggraveront, plus il y aura une prise de conscience. Hölderlin dit : “Là où croît le péril, croît aussi ce qui sauve”, c'est-à-dire qu'il y a des chances que soient provoquées les prises de conscience.

Vous savez, il faut dépasser la dualité optimiste-pessimiste. Je ne sais pas si je suis un “optipessimiste”» ou un “ pessimoptimiste”. Ce sont des catégories dans lesquelles il ne faut pas se laisser enfermer.»

Uma outra entrevista sobre La Voie:


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Desaparecidos


Gervasio Sánchez é um repórter fotográfico espanhol que, desde os anos 80, centra a sua atenção nas vítimas de guerras e ditaduras, que pura e simplesmente desapareceram e continuam a ser procuradas por familiares.

Na sua terrível peregrinação, começou pela América Latina (Guatemala, El Salvador, Peru, Chile, Argentina, Colômbia), mas passou depois para o Iraque, Cambodja, Balcãs e, finalmente, também Espanha.

Do seu trabalho resultou uma monumental colecção de fotografias, acompanhadas de explicações mais sou menos detalhadas, que serão exibidas em exposição a ser inaugurada dentro de dias.

Vale a pena percorrer o magnífico sítio que El País lhe dedica: «Desaparecidos».

Guerras, dictaduras, persecución... y unos familiares que siguen buscando a los suyos, a aquellos que siguen viviendo en la memoria.
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Paris 1900 (1)


Pont de l'Alma
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25.1.11

Censura tunisina


Num artigo publicado em The Atlantic, o responsável pela segurança do Facebook veio agora explicar como os seus técnicos procuraram impedir a censura à internet, exercida pelo governo de Ben Ali. Esta concretizava-se através no roubo de passwords e foi detectada na sequência de queixas de utilizadores cujas páginas desapareciam, pura e simplesmente.

A situação piorou a partir de Dezembro e os responsáveis pela rede social desviaram então todos os dados para um servidor https (encriptado), conseguindo barrar grande parte das tentativas de espionagem, e exerceram um controle mais apertado da identificação dos utilizadores. Mesmo assim, era por vezes impossível aceder ao servidor https, por interferência governamental.

Tudo isso acabou agora, mas o Facebook apressou-se entretanto a esclarecer que a sua acção se desenvolvia num plano técnico, para garantir a segurança, e não na arena política.

Quando estive o ano passado na Birmânia, o meu correio electrónico também passava por um servidor htpps – do governo militar, obviamente.

No século XXI, o lápis azul é outro. Mudam-se os tempos, mas não as vontades, e continuamente vemos novidades, diferentes muitas vezes da esperança...
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De nada serviram avisos prévios


Baptista Bastos, num texto implacável datado de Outubro, a propósito do anúncio da candidatura de Cavaco. (Este voltou agora ao Centro Cultural de Belém, para um discurso bem pior…)

«O dr. Cavaco consumiu vinte minutos, no Centro Cultural de Belém, a esclarecer os portugueses que não havia português como ele. Os portugueses, diminuídos com a presunção e esmagados pela soberba, escutaram a criatura de olhos arregalados. Elogio em boca própria é vitupério, mas o dr. Cavaco ignora essa verdade axiomática, como, aliás, ignora um número quase infindável de coisas. (…)

Como Presidente é um homem indeciso, cheio de fragilidades e de ressentimentos, com a ausência de grandeza exigida pela função. O caso, sinistro, das "escutas a Belém" é um dos episódios mais vis da história da II República. (…) Em qualquer país do mundo, seriamente democrático, o dr. Cavaco teria sido corrido a sete pés. (…)

É este homem de poucas qualidades que, no Centro Cultural de Belém, teve o descoco de se apresentar como símbolo de virtudes e sinónimo de impolutabilidade. É este homem, que as circunstâncias determinadas pelas torções da História alisaram um caminho sem pedras e empurraram para um destino que não merece - é este homem sem jeito de estar com as mãos, de sorriso hediondo e de embaraços múltiplos, que quer, pela segunda vez, ser Presidente da nossa República. Triste República, nas mãos de gente que a não ama, que a não desenvolve, que a não resguarda e a não protege!»

(Via Fernando Couto no Facebook)
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Homenagem

Mais detalhes dentro de alguns dias.
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Refundar o capitalismo?


Estamos a viver as consequências de erros e delitos dos agentes económicos ou estão em jogo características do próprio sistema?

Leitura obrigatória deste texto do Público.es: Refundar el capitalismo, aquella broma macabra

Alguns excertos:

« Si (…) nos preguntamos si sería posible refundar el sistema de modo que se evitasen las crisis y se moralizase la economía, nos topamos enseguida con límites infranqueables, porque son los límites del propio sistema. Como saben hasta los niños, la clave del sistema capitalista es el beneficio privado; todo el sistema se asienta en la valorización de los capitales. Cada uno tratará de obtener de la aplicación de su capital el máximo beneficio posible e irá a buscar ese beneficio allá donde se pueda encontrar, con independencia de las consecuencias sociales que de ello deriven. No puede actuar de otra manera, porque compite con los demás capitales que actúan con el mismo criterio, y sus accionistas le reclamarán que los beneficios estén a la altura de los que consiguen los demás. (…)

Hoy el sistema capitalista es el sistema de las finanzas internacionales y sus estructuras lo vertebran. No hay más sistema capitalista que este. (…)

Fueron los grandes capitales financieros internacionales directamente o a través de organismos que representan sus intereses y aplican sus criterios, como el Fondo Monetario Internacional, el Banco Mundial o el Banco Europeo los que recordaron a los gobernantes los límites de su poder.

En el segundo trimestre del año pasado intervinieron en la verbena de los políticos y se acabó la fiesta. Primero habían forzado a los gobiernos a gastar sin tasa nuestro dinero en su beneficio, porque no podíamos permitir la quiebra del sistema financiero a la que ellos nos habían conducido, permitiéndoles a la vez largar todo lo que quisieran sobre lo que harían después. Y luego, cuando se recuperaron los grandes beneficios y el negocio as usual, mandaron callar y ordenaron a los gobiernos que pusieran a la población firmes, le vaciaran sus bolsillos y le ajustaran el cinturón. Siempre, claro está, a través de la voz ventrílocua de los mercados.

Cómo va a quedar esto, lo veremos. Probablemente, con retoques cosméticos o sin ellos, entraremos en una nueva fase, sin nada que se parezca a una refundación del sistema o a una moralización de la economía. El sistema no se puede moralizar ni refundar; o se cambia o se sufre.»
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Ils ont voté

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24.1.11

Fortuna garantida


(Via meio mundo no Facebook)
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Catarses


Não, João Tunes, (aqui e aqui) não esqueço que «nestas eleições, a esquerda perdeu muito e em quase todos os tabuleiros e valências». Só um cego não o veria, embora possa discordar, num ponto ou outro, da análise detalhada que fazes da derrota.

E daí ou, mais exactamente, e a partir daqui?

Eu não falei de «formar partido» ou «frente», pela simples razão que tal ideia nem me passa pela cabeça. Mas, ao contrário do que dizes, e pela minha experiência das últimas semanas, identifico potencialidades de «capitalização» (foi a experiência que usei), com base no que ficou do esforço honesto de muitas pessoas que meteram mãos à obra em tentativas que fracassaram, como tantas coisas em cada um das nossas vidas, sem que por isso nos atiremos necessariamente ao Tejo ou nos fechemos num quarto escuro com as persianas corridas. Também, e talvez sobretudo, pelo choque de realismo que tive em dezenas de conversas com pessoas da idade dos nossos filhos, que se abstiveram, votaram nulo, Nobre, Coelho ou Defensor Moura.

A escolha do dia seguinte – hoje – faz-se, não só mas principalmente, entre o desânimo e o protesto, tão enérgico quanto possível, contra a situação a que chegámos. Chama-lhe voluntarismo, se quiseres, mas eu fico então sem perceber o que é para ti «dar a volta, ir à luta e tem que ser para já». Porque de catarse em catarse, para reflexão, andamos nós há muito tempo. Para chegarmos ao nada inesperado desfecho de 23 de Janeiro de 2011.
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Blogue recente e (por vezes) hilariante

Nasceu há cerca de um mês, chama-se Comentários 51 e apresenta-se bem: «Num mundo onde os comentários às notícias se tornaram muito mais interessantes que as próprias notícias o Comentário 51 não podia deixar de estar presente para lhe divulgar o que se vê comentar por essa rede de jornais a fora.»

Um exemplo:
Banco de esperma atrasado dois anos
Notícia: Óvulos podem valer 600 euros e esperma é recompensado com 41 euros.
Comentário: "Posso dar todos os dias? É que estou desempregado..."
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Rescaldo


Não vou citar percentagens. Não contabilizarei vencedores ou vencidos porque está quase tudo dito.

Às 20 h de ontem, o meu primeiro sentimento foi uma enorme compaixão por todos nós, o povo deste país, como se uma fatalidade continuasse a perseguir-nos e a castigar-nos por malfeitorias de que não somos responsáveis. Demasiado trágico e também falso: cinco anos não são uma eternidade e fomos nós que decidimos o que se passou.

Confirmados os péssimos resultados de Alegre, um outro sentimento igualmente incorrecto - «fiz o que pude e a mais não sou obrigada» - ou, em bom vernáculo, «que se lixem!».

E, no entanto:

- Se ainda fossem necessárias provas, o desfecho desta campanha veio confirmar o estado calamitoso a que chegámos, bem reflectido na gigantesca abstenção, no número significativo de brancos e de nulos, no peso do voto de protesto (difícil de identificar mas mais do que real) e na escolha de alguém que ficou simbólica e definitivamente retratado em dois vergonhosos «discursos de vitória».

- 23 de Janeiro de 2011 só pode ser um estímulo e uma porta escancarada para uma nova fase de luta, agora mais a sério e com carácter de urgência. É hoje – e não amanhã, muito menos daqui a cinco anos – que o descontentamento e a tristeza estão à espera de ser capitalizados. Para sairmos da crise que atravessamos sem servilismos ou espírito de martírio, para que não sejam permitidos silêncios quando há muitas explicações por dar, para impormos que os inquilinos de Belém e de S. Bento nos respeitem. Pura e simplesmente, porque queremos viver num país decente.

(Publicado também aqui.)
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23.1.11

Uma má estrela domina



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Eleições - «Post» em actualização


O blogue do Parlamento Global está em funcionamento desde as 16h, como já disse estou a participar como convidada juntamente com outros bloggers do «Alegro Pianissimo», e vou actualizar este post com alguns comentários publicados no PG, que me pareçam de interesse. Sem grandes preocupações de edição…


20:17 - João Semedo (deputado do BE):
Ainda os resultados não estão apurados e já aparecem alguns dirigentes da direita a reclamar a factura do apoio que deram a Cavaco: um presidente, uma maioria e um governo.

19:47 - SIC - José Caldas:
Abordado pelos apoiantes, José Manuel Coelho diz que "Cavaco Silva é o candidato da abstenção".

18:53 - Ana Gomes, eurodeputada:
O cartao do cidadão é um grande avanço. Não o culpemos pelos problemas de hoje. Esses resultam da falta de conhecimento pelos cidadaos de que o cartao do cidadao poderia implicar mudanças no seu registo eleitoral, em virtude de mudanças de residencia etc. E claro, a Comissao Nacional de Eleicoes ou o Ministerio da Administracao Interna deveriam ter previsto os problemas e tomado medidas para os evitar.

18:37 - Luis Tito (Manuel Alegre):
Eu só gostava de ter acesso aos comentários que foram feitos há cinco anos. É que, segundo me lembro, já nessa altura era recorrente a argumentação de que nada se tinha elucidado no decurso da campanha. Esta campanha teve muitos momentos em que foram apresentados argumentos. A questão é que as pessoas se recusaram a ouvi-los e a CS só passou o lixo. Quiseram desvalorizar esta eleição. Fizeram tudo para que ela se fizesse sem ser notada e agora vêm os comentadores do regime com a conversa do costume. Só lhes interessou passar a imagem que Cavaco já tinha ganho as eleições à primeira volta. Foi repetido à exaustão, inclusive por jornalistas dito independentes e por políticos que teoricamente estavam em apoio de outras candidaturas.

Última oportunidade


(Gui Castro Felga)
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Aníbal & Maria, em dia de reflexão (3)

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Noite eleitoral

O Alegro Pianissimo foi convidado a participar na emissão especial do Parlamento Global, ligado à SIC Notícias, onde estará presente através de parte dos seus bloggers. Serei um deles.
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Motive-se!

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