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31.3.11

Que maravilha!

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(Via Helena Velho no Facebook)
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«Entrecheiram-se, hostis, os mil narizes que há neste país»


Em dias como o de hoje, é sempre a Alexandre O’Neill que regresso…


O PAÍS RELATIVO

País por conhecer, por escrever, por ler...

País purista a prosear bonito,
a versejar tão chique e tão pudico,
enquanto a língua portuguesa se vai rindo,
galhofeira, comigo.

País que me pede livros andejantes
com o dedo, hirto, a correr as estantes.

País engravatado todo o ano
e a assoar-se na gravata por engano.

País onde qualquer palerma diz,
a afastar do busílis o nariz:
- Não, não é para mim este país!
mas quem é que bàquestica sem lavar
o sovaco que lhe dá o ar?

Entrecheiram-se, hostis, os mil narizes
que há neste país.

País do cibinho mastigado
devagarinho.

País amador do rapapé,
do meter butes e do parlapié,
que se espaneja, cobertas as miúdas,
e as desleixa quando já ventrudas.

O incrível país da minha tia,
trémulo de bondade e de aletria.

Moroso país da surda cólera,
de repente que se quer feliz.

O 12 de Março continua


Como é sabido, foram entregues ao presidente da Assembleia da República as folhas com reivindicações e protestos, recolhidas durante as manifestações de Lisboa, Porto, Coimbra e Faro.

Neste momento, estão online as do Porto, que podem ser visualizadas aqui.
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A fotografia improvável


A propósito da visita de Jimmy Carter a Cuba, que ontem terminou e durante a qual se reuniu com um grupo de bloggers críticos do regime castrista, leia-se este delicioso texto de Yoani Sánchez.

«Fue el primer presidente norteamericano contra el que grité una consigna. Ya no recuerdo con precisión las palabras de aquel insulto, pues han pasado casi treinta años. Sin embargo, guardo la sensación de mis puños crispados, de mi uniforme rojo y blanco sacudido con cada alarido que le lanzaba a Jimmy Carter, quien –según mi maestra de preescolar– iba a destruirnos la isla, las palmas, los pupitres del aula, la alegría.

Y tres décadas después estoy aquí, en La Habana, conversando con él y junto a otros rostros conocidos de nuestra incipiente sociedad civil. En poco me parezco ahora a aquella pionerita hundida en la histeria de los slogans políticos y este hombre con el que hablo no me encaja en el papel del gobernante que fue blanco de mis insultos. Ahora es un mediador, un hombre que no parece interesado en borrar a Cuba del mapa, como una vez me aseguraron en la escuela primaria. Así que la niña que debió ser el “hombre nuevo” y el ex comandante de las fuerzas armadas de Estados Unidos se han encontrado en un momento de sus vidas en que ninguno de los dos tiene la misma posición de antaño; en que el camino de ambos ha tomado la dirección del diálogo, aunque un día hubiéramos podido matarnos, enfrentados en algún campo de batalla.

Lo veo hablar y me pregunto si él sabrá que a mí me formaron para odiarlo ¿Estará al tanto de que fue el malo de mis cuentos infantiles, el rostro de las grotescas caricaturas de los periódicos oficiales, el hombre al que la propaganda gubernamental culpaba de todos nuestros males? Claro que lo sabe y aún así me extiende su mano, me dirige la palabra, me lanza una pregunta. Aún así, el que fue “el enemigo” me regala sus frases amables.

Fuera del hotel Santa Isabel donde nos hemos reunido, en algún colegio de la zona, otra niña repite sus consignas, aprieta las manos, vocifera, centra su mente en el rostro de un hombre al que dice aborrecer. Afortunadamente, ella también olvidará los vocablos que grita en este minuto, borrará de su mente los lemas cargados de resentimiento que hoy le hacen corear.»

30.3.11

3 D

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E não se fala mais disso


Ia escrever um post que começava com «Passos afirma…». O meu corrector não deixou e corrigiu logo para «Passos afirmam…».

OK, desisto do post: coliguem-se à vontade!
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Para a agenda

(Para ler, clicar na imagem e depois aumentar)
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A farsa trágica


Baptista Bastos, hoje, no DN.

«As peripécias da revolução portuguesa sempre tiveram características incomuns. A via original para o socialismo foi um estribilho mais do que um conceito. Até hoje ninguém conseguiu descobrir qual a natureza dessa originalidade. Era uma época em que se bebia em excesso e quase tudo era permitido ou aceito com benigna complacência. Zeca Afonso comentava, irónico, que o álcool era, afinal, a via original para o nosso socialismo. O PREC constituiu mais do que um acrónimo: foi um modo de se tentar ludibriar a História e uma maneira, um pouco louca, um pouco ingénua de se viver a vida. Até então, as coisas eram direitinhas, brunidas, organizadas em esquadrias. Falava-se baixinho, escrevia-se baixinho, amava-se baixinho.

Julgávamos ter estilhaçado o que fora medonha punição, e que éramos os donos do nosso destino. Foi quando uma marcha de José Mário Branco nos reenviou para a realidade: "Qual é a tua, ó meu / andares a dizer quem manda aqui sou eu?!" Todas as festas acabam em melancolia. A nossa fechou em carácter fúnebre. E nunca parou de assim ser, com breves intervalos cómicos. Abstenho-me de os mencionar, por evidentes. Os protagonistas foram promovidos.

De tropeção em tropeção, chegámos a isto. (…)

Tanto o PS quanto o PSD ou a tal coligação, antevista mas já vista, têm liquidado a nossa força e tripudiado sobre a nossa soberania. Não estão interessados nessas minudências. E nós vamo-los aceitando, com a benevolência indolente, que parece ser a marca de um mau fado e de uma inevitabilidade.»
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29.3.11

Síndrome do lacaio


A síndrome do lacaio é uma doença do século XXI, que explica o embrutecimento das multidões, a inércia face ao aumento das injustiças e a generalização do egoísmo social.

O lacaio tem um comportamento patológico que o faz defender sempre as classes mais favorecidas, com prejuízo daquela a que pertence. Não tem consciência política e age sempre a favor dos que o exploram, na esperança de atrair benevolência.

O lacaio não escolhe gostar dos ricos (gosta deles precisamente porque é lacaio) e considera que o dinheiro que lhe faz falta é muito mais útil nos cofres de quem os tem já cheios.

O lacaio ou herda a sua condição (depois de tantos séculos de escravatura e de feudalismo, pode ser que exista já uma transmissão genética...) ou sofre de uma patologia que se desenvolve desde a infância mas se agrava quando o sujeito toma consciência da mediocridade da sua condição.

O lacaio desenvolve estratégias inconscientes para estabelecer um equilíbrio cognitivo que ajude a justificar a aceitação da subordinação e a sublimar a desilusão.

O lacaio tem um vago sentimento de injustiça, mas convence-se que está do lado correcto da barricada e encaixa maravilhosamente medidas de austeridade ou restrições de liberdades. É a favor da existência de câmaras de vigilância, mesmo que estas não o protejam do que quer que seja.

O lacaio sente-se perfeitamente seguro pela pertença a uma classe social a que é perfeitamente estranho e considera-se integrado no conjunto de 1% dos cidadãos privilegiados do seu país – tal como 20% dos seus compatriotas, lacaios como ele.

(A partir daqui)

Explicação completa – e magnífica:


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A não perder


A antestreia do documentário «48» de Susana de Sousa Dias tem lugar hoje, na Cinemateca, às 21h30, e chegará às salas de cinema do próximo dia 21 de Abril - finalmente, depois de ter sido exibido do DocLisboa 2009 (foi quando o vi e me refiz, com dificuldade, de um grande murro no estômago...), percorrido vários festivais em mais de 20 países e recebido muitos prémios!



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Escrito na pedra


Os conselheiros de Estado só vão a Belém depois de amanhã, mas já nos dizem que «querem governo maioritário». Muito bem: tanto trabalho e tanta despesa para que tudo acabe por se reduzir a uma redistribuição do número de cadeiras em S. Bento, com um enorme centro tripartido, que irá até à ponta direita do hemiciclo.

O resto será um sem número de arranjos de bastidores, se possível com pouco alarido para não assustar os mercados. Nada a temer: já todos prometeram ao dr. Cavaco que serão bem comportados e ele já nos informou por fontes enviesadas.


A este respeito, leia-se Pedro Tadeu, hoje no DN: A coligação que vai voltar a governar o País.

«Os problemas dos portugueses vão resolver-se nas próximas eleições? Não. Tudo está a ser construído para que o poder político venha a cair nas mãos de uma coligação de interesses: os dos que defendem o mesmo statu quo que levou o País, desde há 25 anos, a abdicar da sua autonomia económica. (…)

Acusar apenas o PS e José Sócrates - por muito que ele mereça todas as críticas - da situação em que estamos é hipocrisia. A coligação de interesses que ao longo dos anos, apesar de todos os avisos, caminhou sem vacilar para este abismo, incluiu PS, PSD, CDS, os empresários mais destacados, os banqueiros mais relevantes. São estas mesmas pessoas que estão por detrás das alternativas políticas que querem ter, a curto prazo, no novo Governo de Portugal.

Essa coligação de interesses acredita que para resolver o problema basta sacar aos cidadãos, durante meia dúzia de anos, o dinheiro para pagar a falência da sua própria insanidade. Só discute a forma de o fazer, mais ou menos suave, mais ou menos humana...

Esta coligação de interesses não discute que, para além disso e mais do que isso, é preciso repensar a forma como o País vive, trabalha e negoceia, pois o actual modus é trágica e comprovadamente insustentável. Mas como isso é por em causa a sobrevivência da própria coligação de interesses, ela, que se prepara mais uma vez para mudar a cara do poder para assim se perpetuar no poder, não o fará.»
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28.3.11

À esquerda, volver?

@Gui Castro Felga

Portugal vai no décimo século das suas histórias, já por cá andavam bem antes muitas gentes, e nada leva a crer que venha a ter um fim este ano, antes dos festejos do Santo António em Lisboa e de São João no Porto. Reina por aí um estado de alma generalizado de catastrofismo, que em nada ajuda a tirar partido da situação calamitosa (é verdade…), a que aparentemente chegámos.

Por muitos cenários, arranjos ou combinações que os protagonistas imaginem, e que o dr. Marcelo maquiavelicamente desmultiplique, uma coisa parece certa e Monsieur de La Palice não me contradiria: depois das próximas eleições, o PS ou ficará no governo ou na oposição.

Se o PSD for o partido mais votado e, por uma qualquer razão, precisar de albergar Sócrates e as suas tropas, estamos conversados. Adiante. Apenas me interessa acautelar a hipótese de se repetir o cenário de 2009, ou seja, de o PS ganhar mas sem maioria absoluta. Pouco provável? Não sei, mas certamente possível.

Nesse caso, será de excluir, julgo, fazer rewind e recomeçar, como nada se tivesse passado, ou seja, ter o PS de novo a governar sozinho, em minoria. Nem o próprio Sócrates é suficientemente louco para uma aventura dessas, o dr. Cavaco nunca o permitiria e até a senhora Merkel desembarcaria na Portela para o impedir. Mistura com a direita? É o mais provável, com a habitual vitimização de todos os Franciscos Assis e Silvas Pereira do nosso universo, que continuarão a gritar que a culpa é da esquerda que nem é o lobo mau, mas sim o péssimo, e que o virtuoso capuchinho vermelho nada pôde fazer.

Por todas as razões e por mais esta, antes disso e desde já, a esquerda da esquerda – PCP e Bloco - tem obrigação de encostar à parede, honestamente, com toda a frontalidade e uma vez por todas, o Partido Socialista, mostrando-se disposta a com ele governar este país. Não faltam propostas, pedidos lancinantes e petições, para que Jerónimo de Sousa, Louçã e as suas tropas entrem no Rato, de braço dado, para uma (inimaginável) reunião de trabalho. Parece-me impossível, pelo menos em tempo útil, e nem sequer necessário, porque podem fazer as suas propostas separadamente. Se o PS quisesse (se quiser…) aceitar esta viragem, levar o futuro a sério e perder sobranceria, então talvez o país continuasse a votar à esquerda sem ser governado à direita, com esta fatalidade absurda que nos persegue desde há muito.

Mesmo que não queira, os dois partidos que «não são do arco da governação» devem passar por esta prova de fogo, e de vida, e sairão do doloroso período que se avizinha de cabeça levantada e com um novo ânimo. Os seus militantes e os seus eleitores merecem-no – e têm mesmo o direito de o exigir.

P.S. - Por tudo o que escrevi, assino por baixo o último parágrafo da crónica de Daniel Oliveira no Expresso do último Sábado (p. 43 do Caderno Principal, O teatro ou a vida), que ainda não está disponível online.
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Cuts are not the cure

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Será???

27.3.11

Poema Pouco Original do Medo


O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis

Vai ter olhos onde ninguém o veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no teto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos
O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
óptimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projectos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com a certeza a deles

Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados

Ah o medo vai ter tudo
tudo

(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)

O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos

Sim
a ratos

Alexandre O’Neill, in Abandono Vigiado, 1960
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Vítimas de Kadhafi ou dos «bons» interventores

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Uncut – Londres 26 de Março


Houve duas manifestações, ontem em Londres, uma com 500.000 pessoas (ou 400 ou 300 mil, tanto faz para o caso), outra com umas (poucas) centenas que provocaram desacatos.

Os telejornais portugueses, que eu vi, quase só mostraram relatos e imagens da segunda. Algum espanto?



«There were two demonstrations in London yesterday. The first, and most enduringly important, was that by half a million people against the cuts that are falling disproportionately on vital public services and those who provide them.

The other one was a demonstration of just how easy it is for a few hundred people to steal the occasion with sporadic acts of violence. Last night, it the latter one which was taking the headlines as police and protesters clashed in Trafalgar Square.

Earlier half a million people descended on central London for the biggest protest the nation has seen since demonstrations against the Iraq war eight years ago. They streamed into the capital from across the country to vent their anger at government cuts, their only weapons peaceful chanting and waving placards. There were 500,000 people and, with their disperate causes, represented 500,000 different reasons to take a stand.»

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26.3.11

Da indignação à acção


Depois do pequeno livro de Stéphane Hessel Indignez-vous!, já traduzido em português, chegou a vez de ser anunciada, em Espanha, uma obra colectiva – Reacciona – que chegará às livrarias dentro de poucas semanas (com prefácio de Hessel).

Reunindo um leque de autores de diversas gerações e actividades profissionais, entre os quais Baltasar Garzón, Ignacio Escolar e José Luis Sampedro, o livro pretende «dirigir-se à sociedade em geral, e aos jovens em particular, tentando consciencializar e provocar uma reacção face às medidas neoliberais impostas como única saída possível para a crise».

«É uma falácia falar unicamente de crise financeira. A crise é política. É a crise do sistema de vida ocidental», «gravemente enfermo» e com resultados demolidores.

Não é verdade que a actual crise fosse imprevisível, muitos economistas alnunciaram a sua chegada, mas as autoridades «cruzaram os braços» e «procuraram servir, não os interesses públicos, mas sim os das grandes empresas».

Etc, etc, etc.: mais informações aqui.
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... demandez l'impossible

«Austeridade? Impressão sua»


Miguel Portas divulgou este texto ontem, no Facebook. Merece ser lido porque ajuda a perceber, uma vez mais, como funciona a defesa de interesses próprios dos que representam os europeus no seu Parlamento. Assim, não vamos lá . só vão eles…

Quinta-feira, 24, a comissão de orçamentos do Parlamento Europeu aprovou a proposta de Orçamento que a Mesa desta instituição lhe apresentou (para 2012). Ela prevê um aumento de 2,3 por cento na despesa, em linha com a inflação prevista. Eu propus, perdendo, que o valor fixado fosse "significativamente inferior à taxa de inflação prevista para 2012" . Era possível desde que "as poupanças contemplassem as rubricas orçamentais relativas aos deputados". Fui classificado, com justiça de "o mau da fita" pelo presidente da comissão e a maioria PPE/PSE rejeitou as emendas que apresentei. Mas desta não estive só... sete eurodeputados em 30 votaram contra o relatório de José Manuel Fernandes (PSD).

As minhas propostas foram mais do que moderadas. No passado, tinha sido contra os aumentos para a contratação de assistentes (1500 euros em 2010 e outros tantos em 2011) e essa factura estava agora fora de discussão porque ninguém se lembrou de pedir mais ainda. Fora também contra as viagens em business e prossegui essa batalha, agora de forma refinada, retirando argumentos a quem invocava a idade e a saúde para viajar com maior conforto. Em troca, introduzi um novo capítulo - o "congelamento" de salários e mordomias. Quis ver até onde podia ir o cinismo entre quem não hesita em aplicar reduções no seu país, mas nem congelamentos aceita para si. Desta vez, tive o cuidado de avisar, antes do voto, todos os meus colegas sobre o significado de decidirem em interesse próprio. Não fosse terem-se esquecido... (ver vídeo).


25.3.11

Despertar Portugal?


Andamos nós preocupados com problemas comezinhos como a queda do governo, a perspectiva de eleições e os bombardeamentos na Líbia e há entre nós quem se apresente como «um movimento invisível que permeia as estruturas e a sociedade portuguesa com um vento de mudança» e queira «oferecer à sociedade civil uma proposta integral, coerente e completamente nova em relação aos movimentos do passado. Uma proposta de vida alternativa. Para Portugal e para todo o Planeta».

Está tudo num mail, recebido hoje à tarde, e vale a pena visitar o site do dito Movimento. E eu que falhei isto: MULHERES DA TERRA, MULHERES NA TERRA... Um Encontro Feminino banhado pela Lua cheia!

Subject: Vamos celebrar!

Querido/a Amigo/a

se estás a receber este e-mail é porque, de alguma forma, estás já desperto/a para celebrar a Nova Terra e desempenhar a parte que te cabe no Todo.

independentemente de acções e intenções que cada um de nós já manifesta e leva a cabo na sua vida de todos os dias, hoje venho fazer-te um convite para estares presente no próximo dia 27 de Março, Domingo, pelas 15h00, numa celebração onde te será dado a conhecer o Movimento Despertar Portugal.

http://movimentodespertarportugal.blogspot.com/

como diz João Teixeira da Motta, criador do Movimento e seu porta-voz neste momento ‘o que propomos é que o nosso movimento, que é pelo espírito e pela revolução da consciência, faça um esforço de unificação. Para que possamos oferecer à sociedade civil uma proposta integral, coerente e completamente nova em relação aos movimentos do passado. Uma proposta de vida alternativa. Para Portugal e para todo o Planeta.’

a intenção vai para além da troca de teorias avulso e pretende-se que nasça daqui a organização de uma celebração de maiores dimensões, entre outras ideias concretas que possam surgir em cada um.

sendo já este, tenho a certeza, o teu movimento, o convite é para que venhas celebrá-lo, então, em conjunto. o encontro terá lugar em minha casa, na Cruz-Quebrada, na Rua Sacadura Cabral, 44 – 2º esq.

uma vez que será no jardim, ao ar livre, sugiro que tragas uma cadeira portátil, um banco ou uma almofada, em prol de maior conforto, ou então nada: que há relva que chegue para se instalarem todos.

o João Teixeira da Motta estará obviamente presente e a ele caberá a apresentação – em termos mais formais – do Movimento.

sugiro também que tragas qualquer coisa que possamos depois partilhar, à laia de lanche. e que venhas vestido/a de branco, porque no branco podemos desenhar tudo de novo. e, claro, podes trazer quem quiseres.

abraços
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A Demissão - desta vez ainda não foi assim (mas quase...)

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Ainda sobre austeritarismo


Mais um texto, neste caso de Paul Krugman e publicado ontem em The New York Times - The Austerity Delusion -, que põe o dedo nas feridas provocadas pelo austeritarismo reinante. É pouca toda a insistência que possa ser feita sobre este tema…

«Portugal’s government has just fallen in a dispute over austerity proposals. Irish bond yields have topped 10 percent for the first time. And the British government has just marked its economic forecast down and its deficit forecast up.

What do these events have in common? They’re all evidence that slashing spending in the face of high unemployment is a mistake. Austerity advocates predicted that spending cuts would bring quick dividends in the form of rising confidence, and that there would be few, if any, adverse effects on growth and jobs; but they were wrong.(…)

It was not always thus. Two years ago, faced with soaring unemployment and large budget deficits — both the consequences of a severe financial crisis — most advanced-country leaders seemingly understood that the problems had to be tackled in sequence, with an immediate focus on creating jobs combined with a long-run strategy of deficit reduction. (…)

So jobs now, deficits later was and is the right strategy. Unfortunately, it’s a strategy that has been abandoned in the face of phantom risks and delusional hopes. (…)

In short, we have a political climate in which self-styled deficit hawks want to punish the unemployed even as they oppose any action that would address our long-run budget problems. And here’s what we know from experience abroad: The confidence fairy won’t save us from the consequences of our folly.»

Na íntegra aqui.
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Uma vergonha para a pátria

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Este é o videoclip oficial que será difundido, internacionalmente, durante o festival da Eurovisão, que terá lugar no reino da senhora Merkel. E, horror dos horrores, com as imagens da manifestação da Geração à Rasca, do passado dia 12 de Março!
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24.3.11

Ide e lede


Menos de 24h depois do tsunami que arrasou S. Bento, são já muitos os textos publicados na blogosfera, com excelente matéria para reflexão a vários níveis.

Destaque para um post de José M. Castro Caldas: A “esquerda” que se sujeita e a direita que mente.

«Parece-me que ganhamos alguma coisa se olharmos para a nossa crise política como resultado e início de uma nova fase, directamente política, da (Des)união Europeia em construção. (…)

O austeritarismo é na realidade todo um programa de destruição dos serviços públicos, dos direitos laborais, do Estado Social e a crise a oportunidade para o executar. É um programa incompatível com os valores mais básicos da esquerda, de que nenhuma força política de esquerda, ou vagamente de esquerda, pode ser executante sem que com isso se suicide. É também um programa que violenta algumas das aspirações mais sentidas da maioria dos europeus que nenhuma força política de direita pode assumir sem que com isso perca a menor das hipóteses de vir a governar em democracia.

Em resumo, o austeritarismo – o programa político que “os mercados globais” determinam – condena à morte qualquer “esquerda” que a ele se queira submeter e obriga a direita a ocultar as suas intenções sob uma retórica justicialista ou nacionalista. Forçados a “escolher” entre uma “esquerda” que se sujeita “aos mercados” (e não os sujeita) e uma direita hipócrita, só podemos desesperar da política. A “esquerda” que se sujeita afunda-se para ser substituída pela direita que mente enquanto a mentira não se torna patente para voltar a “esquerda” que se sujeita com promessas que não pode, ou nem mesmo quer, cumprir. O tempo político comprime-se. Os ciclos políticos tornam-se cada vez mais curtos. Isto é aquilo a que deveremos talvez chamar ingovernabilidade.

Os chamados países periféricos da zona euro (e com eles toda a União Europeia) estão a ser empurrados para um trilema: ou se deixam transformar em protectorados com “governos” de turno efémeros, de direita ou de “esquerda”, a executar o programa austeritário até que a recessão, a divergência e a bancarrota os separe do continente; ou partem eles próprios à aventura; ou não se sujeitam e, coordenadamente entre eles e com outras esquerdas europeias que não se sujeitam, conseguem inflectir o rumo suicidário que foi imposto à Europa.

Por mim prefiro a reconstrução europeia e uma esquerda que não se sujeite em Portugal e que dê prioridade à construção de uma esquerda europeia que não se sujeita, representando-a em Portugal. Uma esquerda que tenha a sabedoria necessária para evitar as recriminações contra os que têm tido a coragem e a energia de dar o melhor de si e seja capaz de nos oferecer um lugar político abrangente e suficientemente poderoso para além da “esquerda” que se sujeita e da direita que mente.»
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Hoje

… como em 24 de Março de 1962.

E o habitual jantar, na Cantina da Cidade Universitária de Lisboa.

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Próximo governo: mais do mesmo?


Nada improvável. O PS, com Sócrates, pode vir a ganhar as próximas eleições, com a mesmíssima maioria relativa que hoje detém, pelas razões que Ana Sá Lopes explica hoje em O animal não moribundo.

Boas esperanças? Claro que não. São necessárias melhores alternativas: a procissão ainda nem saiu do adro!

Alguns excertos do texto de ASL:

«Se a ordem natural das coisas será o PSD ganhar as eleições, subestimar a anormal força anímica de Sócrates será um erro político.

Esta crise política iniciou-se no dia 27 de Setembro de 2009, quando o PS não conseguiu a maioria absoluta. O resultado eleitoral, muito razoável para o PS depois de quatro anos difíceis para o primeiro-ministro, nunca serviu o "verdadeiro" Sócrates - a negociação contínua que uma maioria parlamentar relativa exige não é a sua praia. Ele não foi feito para isto. (…)

A somar ao impulso de Sócrates para a abertura de uma crise política na primeira melhor oportunidade, a reeleição de Cavaco Silva e os desejos de uma parte substancial do PSD de se apresentar a votos antes que seja tarde, completam o ramalhete. Restam o PCP e o Bloco de Esquerda, e para estes qualquer solução, incluindo eleições, será sempre melhor que ficar associados ao apoio a um governo que cumpre as ordens do directório Merkel/Sarkozy, dois expoentes da direita europeia. Não havia mesmo nada a fazer. (…)

A narrativa eleitoral que ontem o secretário-geral do PS desencadeou pode vir a ter um sucesso inesperado: o homem que defendeu Portugal até ao limite da intervenção do FMI, cuja intervenção na Grécia e na Irlanda é de provocar o terror generalizado e que ao passar por Portugal em 1983-85 foi de muito má memória. (…)

Se a ordem natural das coisas é o PSD ganhar as próximas eleições, subestimar a anormal força anímica de Sócrates será sempre um erro político.»
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23.3.11

Boys à rasca


Não é que tenha muita graça, mas varreu hoje a net e vem mais do que a propósito...
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AR, Primavera 2011

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Cfr. José Milhazes no Facebook:

«Caros, estou a assistir ao debate no nosso Parlamento. Veio-me à memória uma obra de Alexandre Pushkin, poeta russo: "Banquete em tempo de peste". Faz-me lembrar uma anedota da era soviética, quando o partido comunista apelou a dar um passo em frente quando o país se encontrava no limiar do abismo!»
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Primeiras impressões


Três horas de escala em Madrid deram para ler El País e o Público.es, de ponta a ponta, com detalhes sobre «El riesgo de crisis política [que] amenaza con llevar a Portugal al rescate».

Quanto à Líbia, as notícias não são más: são péssimas.

Vinte e cinco horas depois de ter saído do hotel em Colombo, aterrei na Portela. Havia vento em Lisboa, mas não lhe perguntei notícias do meu país: é sabido que o vento cala a desgraça…

Fazer rewind e regressar a Ceilão?
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22.3.11

A que horas?


Em estágio de espera para regressar a Portugal, dou com este título:


Passos Coelho promete «uma coligação alargada» (não percebo exactamente com quem), o CDS diz que não quer entrar na «contradição ruidosa» entre PS e PSD, Sócrates reafirma «ou eu ou o FMI», Jerónimo de Sousa diz que chumbo do PEC não implica a demissão do governo e Louçã defende que há caminho para «uma esquerda alternativa».

Ou seja???
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21.3.11

Colombo, Líbia, etc. e tal


De novo em Colombo, e já em estágio para o regresso que começa amanhã e durará quase vinte e quatro horas, continuo a ver nomes portugueses por tudo quanto é sítio, o que até é intrigante porque não há vestígios equivalentes dos holandeses que nos substituíram na nobre missão de colonizadores por estas trapobanas.

Trata-se de uma capital com um milhão e meio de habitantes, um pouco confusa mas quase «suíça», se comparada com cidades indianas como Bombaim ou Calcutá, ou mesmo com outras de menor dimensão. Templos budistas um tanto compósitos, com estátuas, salas de estar e elefantes vivos que coexistem numa (tórrida) harmonia, tuc tucs e outros que tais que cruzam riscos contínuos duplos com uma calma olímpica e eficaz.

Enfim, em breve mergulharei de novo em PECs e re-PECs e, também, num mundo de certezas sem dúvidas, que, por aí, parece ter tomado conta da blogosfera e do Facebook. Estou a pensar concretamente na Líbia e na intervenção em curso, sobre a qual não consigo deixar de ter dúvidas e um mar de hesitações que parecem não inquietar os meus compatriotas, freneticamente por ou contra, num mundo nitidamente pintado a preto e branco. O problema é certamente meu, mas, com tudo o que tenho visto e ouvido nas televisões, vejo sobretudo vários tons de cinzento. Deve ser deste clima – ou da distância.

P.S. – Não posso estar mis de acordo com o que Ricardo Noronha escreveu no Vias de Facto:
«Não tenho ainda muito claras as ideias acerca do que se está a passar na Líbia, mas assim de repente já tenho uma opinião formada sobre o que se está a passar numa série de blogs em Portugal. (…) Nenhuma vida se perde ou se ganha devido ao que nós aqui escrevemos. Sei que custa a aceitar este facto, mas talvez seja útil relembrá-lo, uma vez que, nos últimos dias, quase se poderia julgar que a linha da frente do conflito na Líbia passou pelo meio dos nossos teclados. Para o bem e para o mal, não é esse o caso.»
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20.3.11

Um dia, isto acabará


O Sri Lanka é um país maioritariamente budista e o islamismo é seguido apenas por 8% da população, embora se sinta bem a sua presença nalgumas pequenas localidades por onde passei. Mas vêem-se muitos turistas estrangeiros, sobretudo nas praias, imediatamente identificáveis pelo dress code feminino.

E em verdade vos digo: por mais tolerante que se procure ser, é mesmo revoltante ver o marido em tronco nu, como qualquer banhista normal, divertido e refrescado, a brincar com os filhos pequenos no magnífico Índico, e a mulher vestida dos pés à cabeça, isolada a distância, à torreira de um Sol que nem vale classificar como abrasador porque nem há palavras para imaginar como é insuportável!

Não vi uma nem duas, mas várias. Convictas? Resignadas? Não sei. Impenetráveis e com o ar mais triste deste mundo.
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19.3.11

A seguir nos próximos capítulos


Quando se está vários dias sem seguir os episódios de uma telenovela, leva-se algum tempo a retomar o fio à meada. É o que está a acontecer-me para conseguir digerir estas afirmações de António Costa:


Mesmo sabendo que houve umas trapalhadas com um PEC x, y ou z, os discursos mudaram tanto em dez dias que tudo leva a crer que, tal como acontece com muitas telenovelas, o guião inicial esteja a ser alterado e que se chegue a um desfecho diferente do inicialmente previsto.
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18.3.11

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Beruwela, Sri Lanka
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Assim como se o dr. Cavaco fosse casar uma filha a Maputo


Descendentes de ex-colonos ingleses, hoje, em Beruwela.
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17.3.11

Paradise


Em Beruwela, algures na costa ocidental do Sri Lanka, numa praia com trovoadas à noite e muto Sol durante o dia, coqueiros, pouca gente e água do mar com uma temperatura inimaginável!

Quatro dias de descanso total, depois de uma semana muito interessante, mas um pouco violenta: 1.600 quilómetros em estradas que são como a que se vê na foto (aqui, um pouco mais abaixo), ou «normais» mas numa espécie de gincana constante, porque só existem duas faixas de rodagem para milhares de automóveis, camiões, tuc tucs, peões, vacas e elefantes. Os cães dormem no asfalto e esperam que os carros os contornem - e estes obedecem.

Desvantagens que são o reverso do bom lado da moeda: o turismo ainda não chegou em força, recente que é o fim das guerras internas e, também, o efeito devastador do tsunami de há quatro anos. Last but not (at all ) the least: tudo é extremamente barato para nós…

Por falar em tsunami, ontem passei por várias povoações com muitas casas ainda em ruínas e vi alguns cemitérios improvisados à beira da estrada. Recorde-se que houve então mais de 40.000 mortos neste país.

Pelo caminho foi dia de muita fauna, por exemplo numa visita a um interessante centro de protecção de tartarugas em Kosgoda. Estas desovam na praia, os ovos são recolhidos e «chocados» debaixo de terra, algumas semanas mais tarde as crias nascem e são guardadas três dias em tanques e depois lançadas ao mar (as da foto, tinham 24 horas de idade…). Em tanques especiais, vivem algumas estropiadas, recolhidas nos destroços do tsunami.

Recta quase final da viagem: depois desta estadia em Beruwela, um dia em Colombo e… o longo, muito longo regresso!...

(P.S. – O dr. Cavaco está melhor?)


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16.3.11

Chorar os mortos se os vivos os não merecerem

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Chego tarde, porque estou longe, mas não quero deixar de registar os elogios de Cavaco à coragem, ao desprendimento e à determinação «com que os jovens de há 50 anos assumiram a sua participação na guerra do Ultramar»».

Não vale a pena disfarçar: Salazar não diria melhor, se fosse vivo em Março de 2011. Milhares de mortos em várias frentes de Guerra Colonial, cinco décadas de História, com uma revolução e quase trinta e sete anos de democracia pelo meio, tê-lo-iam, provavelmente, «transformado» mais do que afectaram o nosso actual presidente da República – traído pelo fundo e pela forma das suas afirmações.

Alguma dúvida? Exagero? Oiça-se este excerto do célebre discurso de Salazar sobre os vivos e os mortos. Não vem a propósito?



«Nós havemos de chorar os mortos se os vivos os não merecerem».
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15.3.11

Ainda no rescaldo do 12 de Março


Eu ainda ando pela Ásia, entre faunas e floras mais ou menos exóticas, mas vou seguindo como posso o que por aí se vai escrevendo e não quero deixar passar, sem o referir, um texto do Rui Tavares, editado no Público de ontem (e agora já no seu blogue), bem como um «complemento», também do Rui, publicado hoje pelo Miguel Serras Pereira no Vias de Facto.

Dois excertos:

«Não tenho ilusões. Numa economia globalizada, assente em coisas como computadores e aviões a jato, o que pode o neomutualismo é sempre de natureza limitada. Mas o objectivo aqui é reinventar o princípio da solidariedade de uma maneira que a política institucionalizada não pode — e que, no caso da União Europeia, manifestamente não quer. Para participar, as pessoas precisam de razões para acreditar. E depois de sábado, vão precisar delas mais do que nunca.»

«Como pode a esquerda reconstituir a base de apoio que estabeleceu na viragem entre o século XIX e o século XX e que ainda é a que lhe vai dando algum gás hoje, em particular nos sindicatos? Mas como pode fazê-lo em condições que são hoje muito diferentes, de precariado, globalização, e redes sociais assentes na internet? Resposta: pode fazê-lo como fez então: dando razões às pessoas para acreditar. Essas razões são, de forma não exaustiva: soluções concretas, laços de solidariedade, vitórias.»
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14.3.11

Por aqui, camisa é camisa e sapato é sapato


As antigas capitais deste país já ficaram para trás, fui entretanto descendo em latitude e subindo em altura. Estou neste momento a cerca de 2.000 metros, num hotel que já foi uma grande fábrica de chá, rodeado por uma paisagem linda de morrer.

Chá foi, aliás, o que mais vi nos últimos dois dias, em socalcos que parecem desenhados a compasso e, por vezes, de acesso quase inimaginável, entre árvores gigantescas de todos os tons de verde do universo.

Se as cidades nada têm de especial em termos urbanísticos, tudo o que as rodeia é magnífico - floresta, flores ou quedas de água.

Pelo caminho, andei também por uma sementeira de especiarias (ou não tivessem sido elas a atraírem tanto os nossos antepassados…), das mais variadas espécies e aplicações, desde condimentos para culinária até unguentos para todas as partes do corpo e do espírito.

E a propósito dos tais antepassados, foi por eles que os habitantes desta ilha ficaram a saber o que era pão e o que era vinho e a influência da língua veio para ficar: ainda hoje, camisa é camisa e sapato é sapato…

Quanto à ditosa pátria, deixei-a há menos de uma semana e sinto que certas realidades estão já a escapar-me. Parece que há mais PECs e que desta vez é que ninguém os quer, devo ter percebido mal uma notícia, lida de raspão, onde se dizia que Sócrates vai baixar o IVA do golfe para 6% e, ao entrar em certos blogues, só me vem à cabeça um velho dichote da minha mãe: «Deu a louca na farinha Amparo!». Mas o mal deve estar em mim, tudo voltará certamente ao sítio quando eu regressar – só daqui a muuuitos dias…


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13.3.11

Depois do 12 de Março


Tinha escrito um pequeno texto sobre o meu quinto dia de viagem pelo Sri Lanka, mas perdeu todo o sentido depois de ler as notícias sobre a manifestação de ontem - num ou outro resumo de jornal, no Facebook e em alguns blogues. Um grande dia para todos os que, como eu, acreditaram que algo de novo estava a acontecer!

Aos que não gostaram da iniciativa e do seu sucesso, e talvez sobretudo aos que assobiaram para o ar ou para o lado, apetece-me dizer, apenas, que se habituem. Porque, para já, retive uma frase do Luís Januário: "Durante algum tempo haverá dois países."

Depois? Depois, logo se verá.
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12.3.11

Civilizámos, nós?


Podia falar da cidadela de Sigiriya, construída no século V, duzentos metros acima do solo e da selva, mas visitei melhor e fiquei mais impressionada com Polonnaruwa, a segunda capital que este país teve e que nasceu do nada nos séculos XI e XII.

Quando os nossos Afonsos e os nossos Sanchos iam apenas começar a espalhar por aí modestíssimos castelos para se defenderem dos mouros, as gentes desta terra concebiam e punham de pé uma grande cidade de 122 hectares, numa região próspera por causa de um complexo sistema de irrigação entretanto criado, com uma série de edifícios, ruas e jardins perfeitamente desenhados, mosteiros, piscinas e anfiteatros – tudo em torno de um Palácio Real (na foto, o que dele resta), com sete andares e 1.000 divisões!!!

Num pequeno museu, simples mas bem organizado, é possível ver hoje maquetas e desenhos que «reconstituem» os edifícios primitivos. Absolutamente impressionante!

Alguns séculos (poucos…) mais tarde, chegaram os europeus para «civilizarem» esta ilha – com os portugueses à cabeça, como é sabido.


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Onde eu estaria, sei eu


... se não estivesse do outro lado do mundo.

Rua, que se faz tarde! Boa manifestação por aí.
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11.3.11

Cuidado com eles


… os crocodilos! Muitos avisos para abrandar a marcha, que já não é rápida, em estradas ladeadas por alguns dos 35.000 lagos artificiais que se espalham por todo o Sri Lanka. Crocodilos ainda não vi, mas não faltam macacos, em amena convivência com cães, vitelos e lindíssimos pássaros.

Quanto ao caminho das pedras, no célebre Triângulo Cultural deste país, ainda hoje começou e logo com uma pequena peripécia em Anuradhapura. Nem sonho quantos graus estariam ao princípio da tarde, mas houve que descalçar os sapatos à entrada de uma longa alameda, que dava acesso a uma stupa monumental, e o calor era tanto que os primeiros cem metros deram para perceber que as pedras do chão estavam a cumprir a função de frigideiras e que a pele dos pés por lá ficaria muito rapidamente. Com respeito pelo budismo ma no troppo, alguém acabou por convencer um polícia (bem calçado, pois com certeza, já que buda deve permitir tudo às autoridades…) que as nossas extremidades não estavam habituadas àquilo e que daríamos nem mais um passo, nem para trás nem para diante, sem sapatos.

Amanhã? Pode ser que em Sigiriya esteja mais fresco…

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10.3.11

Elephant’s day


Neste país totalmente verde, hoje foi dia de viagem por longas e atribuladas estradas, com paragem mais do que obrigatória no Pinnawela Elephant Orphanage. Fundado em 1975, com sete elefantes órfãos, atrai actualmente ao Sri Lanka estudiosos do mundo inteiro, é objecto de inúmeros filmes e livros, cresceu e multiplicou-se.

Os ditos elefantes são agora muitos, de todas as idades e tamanhos, os primeiros sete já são avós, vêm todos refrescar-se ao rio, duas vezes por dia, e os turistas agradecem.

Quanto às estradas, estão longe de ser famosas e têm muito trânsito, um pouco perturbado por umas tantas vacas solitárias e um ou outro macaco tresmalhado que se atravessam. Alguém já viu um porco-espinho levado à trela? Vi eu: não um, mas dois…

O que se vê, durante quilómetros e quilómetros, para além de muitas povoações à beira da estrada (o Sri Lanka tem o dobro da população de Portugal e, mais ou menos, metade da superfície) é uma selva tropical fabulosa e tórrida. Agradece-se o ar condicionado do carro…

Amanhã, começa o circuito por ruínas de cidades antigas e templos budistas. Com várias garrafas de água na bagagem.


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