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2.4.11

Ainda a propósito da visita de Carter a Cuba


«El expresidente estadounidense James Carter acaba de reunirse durante tres jornadas con diferentes actores políticos y sociales de la Isla. En sus manifestaciones públicas, quiso atender los problemas de las partes en conflicto, aunque el resultado, francamente, ha sido irregular.

¿Qué beneficios podría tener para los cubanos el viaje de Carter a La Habana?
A corto y mediano plazo, muy escasos, debido a que el régimen no adelanta signos de reformismo democrático, ni está interesado en una solución del conflicto Cuba-Estados Unidos que pase por una apertura en la Isla.

Raúl Castro sólo quiere "hablar" —lo reiteró al despedir al visitante—, como si el diálogo constituyese un resultado en sí mismo. El régimen sigue apostando por recomponer las relaciones con Washington, sin antes normalizarlas con todos los cubanos. Y, dado que el país no sufre actualmente una grave crisis de gobernabilidad que obligue a las autoridades a pactar, ¿qué oportunidades habría para un mediador?

La visita del expresidente deja algunas luces y muchas sombras. No es fácilmente digerible que quien gobernó durante cuatro años Estados Unidos califique de "patriotas" a los cinco espías cubanos, condenados por violar las leyes federales norteamericanas. Tampoco que admita públicamente que un dictador como Fidel Castro es su "viejo amigo". Pues no todo vale en el curso de una mediación.

Los encuentros de Carter con disidentes y blogueros fueron indiscutiblemente positivos en lo que respecta a visibilidad y reconocimiento internacional de la oposición. Por esta vez sus "viejos amigos" del régimen no condenaron la reunión del ex jefe del "Imperio" con la sociedad civil de la Isla, como acostumbran a hacer con cualquiera que se acerca a los demócratas cubanos.»

Na íntegra, aqui.
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O caos angolano

Luanda, a cidade mais cara do mundo, num país que cresce 17% por ano e que tem uma das taxas de mortalidade infantil mais altas do planeta. O vídeo é longo, mas merece ser visto.



(Via João Soares no Facebook)
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Num aniversário importante

«No 35º aniversário da Constituição, especialistas de várias áreas discutem o texto constitucional n´ “A Constituição Revista”- o primeiro ebook da Fundação [Francisco Manuel dos Santos].

As eleições antecipadas de 2011 serão uma oportunidade para os partidos informarem os eleitores das suas intenções, caso a Assembleia resultante volte a assumir as competências de revisão. Assim, a FFMS publica este e-book no início da campanha eleitoral.»

Aqui, em formato PDF.

(Via Pordata no Facdebook)
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1.4.11

A estratégia da aranha

@Gui Castro Felga

No incontornável «A Areia dos Dias», um texto importante de Manuel Brandão Alves: A estratégia da aranha, os mercados financeiros, as agências de rating e o mais que se verá.

«Já viram o que é que faz a aranha quando as moscas andam por perto e se deixam apanhar pela teia? Salta-lhes em cima e suga-as até que reste, apenas, o revestimento exterior. Mesmo que não gostemos das moscas, este espectáculo é, mesmo assim, cruel. No entanto, vale a pena observar este comportamento da natureza, porque observá-la nos permite aprender muito sobre os comportamentos humanos e suas instituições.

O que faz a aranha? Começa por construir a teia e depois de ela estar terminada, recolhe-se a um esconderijo e aí espera que as moscas distraídas aterrem na teia, onde permanecerão presas sem qualquer possibilidade de se libertarem, pois quanto mais se mexem, mas presas ficam. É nesse momento que a aranha sai, a grande velocidade, do esconderijo, se precipita com o seu aguilhão sobre a mosca e lhe suga tudo o que possa existir dentro da sua carapaça.

Há, contudo, uma situação em que a mosca consegue evitar a prisão da teia. Consiste, apenas, em não se deixar prender por ela e isso é possível. Nas madrugadas húmidas, os nós da teia ganham gotículas que, com os raios de sol, ao nascer da aurora, tornam a teia mais visível e, por isso, menos capaz de captar moscas.

A estratégia da aranha só é aqui invocada para que compreendamos, melhor, a estratégia dos designados “mercados” financeiros, face à mosca que somos nós, Portugal. A postura dos mercados financeiros, hoje, perante Portugal é muito semelhante à da aranha: estão dispostos a sugar-nos até ao tutano e, como nos já deixamos enredar pela sua teia é, agora, difícil dela nos libertarmos. (…)

Temos ouvido falar muito da Standard & Poors, da Fitch e da Moody’s. De onde vêm tais instituições? Foram criadas para prestar serviços de análise e aconselhamento sobre a sustentabilidade dos projectos em que os investidores poderão vir a realizar aplicações financeiras. A Standard & Poors, por ex., surgiu em meados do Séc. XIX, para ajuizar da razoabilidade de aplicações financeiras na construção de caminhos-de-ferro nos EUA. Não são, por isso, nos mercados, organizações independentes.

Foi assim no passado e é sensivelmente a mesma coisa hoje, com um pormenor que importa referir: baixou a rentabilidade dos investimentos na economia real (fim de ciclo do fluxo de inovações) e os “mercados” passaram a privilegiar as aplicações financeiras. Como há muito maior desigualdade entre quem precisa de financiamento e quem o oferece, a aranha faz o que tem de fazer: suga a mosca. (…)

Não é fácil sairmos da teia em que nos deixamos cair. Na situação a que chegamos, não restam muitas alternativas: ou se recorre aos Fundos, ou se faz a reestruturação e o resgate da dívida, ou se sai do Euro. Imediatamente, qualquer das opções será muito dolorosa, mas nem todas têm as mesmas virtualidades futuras.

Porventura, o único caminho viável será o de, como a mosca, apenas voar quando surgir a “nova aurora”. Aranha também pouco faria sem a teia!

E o que mais se verá? Provavelmente que a aranha vai ver se apanha outro na teia, talvez a Espanha.

Atenção que nada disto é mentira!»

Na íntegra aqui.
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Portugal: Não cortar?

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Nasceu há alguns dias, está activíssimo no Facebook e no Twitter, tem um Website em construção e define-se assim:

Acerca do movimento Portugal Uncut

Portugal Uncut é um movimento recém-criado, inspirado no seu homónimo britânico, UK Uncut, o movimento anti-austeridade que surgiu no Reino Unido a 27 de Outubro de 2010, apenas uma semana depois de George Osborne (actual chanceler britânico do tesouro) ter anunciado os cortes mais profundos nos serviços públicos desde 1920. Nesse dia, cerca de 70 pessoas percorreram a Oxford Street, entraram numa das principais lojas da Vodafone e sentaram-se. Estava fechada a loja líder da Vodafone, empresa conhecida pelas suas práticas de evasão fiscal. Até então o movimento UK Uncut apenas existia como #ukuncut, uma hashtag do Twitter que alguém tinha imaginado na noite anterior ao protesto. Enquanto os manifestantes estavam sentados à porta a entoar palavras de ordem e a entregar panfletos aos transeuntes, a hashtag espalhou-se pelo Reino Unido, e as pessoas começaram a pensar repetir a acção. A ideia tornou-se viral. A fúria fervilhante contra os cortes transbordava. Apenas três dias depois, cerca de trinta lojas da Vodafone em todo o país tinham sido encerradas [1].

Hoje, o movimento Uncut vai-se alastrando rapidamente a todo o planeta. Já existe em vários dos Estados Unidos da América, na Irlanda, no Canadá, na Holanda, na Austrália e em França.

O Portugal Uncut pretende desenvolver acções contra os cortes brutais, desnecessários e cegos nos serviços públicos e transferências sociais em todo o país. O corte nos benefícios fiscais, nas prestações sociais, no investimento público e nos salários vai atingir todos os aspectos da nossa vida: desde os cuidados médicos à educação, passando pela habitação, pela protecção ambiental e pelos incentivos ao desporto e às artes.

Quem continua imune aos cortes? Os lucros das maiores empresas, dos contribuintes privados das classes mais altas e a banca. Este modelo está errado. Não funciona e é injusto. A realidade e múltiplos estudos económicos demonstram-no. Apesar disso, é-nos imposto como inevitável. Os cortes em salários que já são demasiado baixos, o corte em benefícios fiscais que resgatam muitas famílias e indivíduos de situações catastróficas, e um complexo sistema mundial — que permite que “criativos de planos fiscais internacionais” canalizem os rendimentos para paraísos fiscais — garantem que somos nós a financiar a economia da crise, enquanto outros lucram com ela e se recusam a contribuir com o mínimo que lhes é exigido: pagando impostos.

Os bancos, através de condições legais vantajosas, conseguem pagar cada vez menos impostos enquanto os seus lucros crescem exponencialmente.

Chegou a hora de lhes mostrar isto: a água que sustenta o barco também o pode derrubar. Junta-te ao Portugal Uncut e vamos obrigar as empresas que fogem aos impostos a pagar.

Portugal Uncut é um movimento horizontal. Tal como nos restantes Uncut, queremos chegar a todos os grupos etários e de todas as origens sociais. Trata-se de um movimento independente e apartidário com o objectivo de desmantelar um sistema que favorece as finanças e não a comunidade. Não temos um modelo de protesto fixo, um discurso formatado, não saímos à rua a horas certas e não precisamos de sair todos ao mesmo tempo. Somos um movimento pacífico, as nossas armas são a imaginação, a informação e o poder que temos quando nos juntamos — na rua, nas redes sociais, por aí.

Explora o nosso site, “gosta” da nossa página no Facebook, segue-nos no Twitter e lembra-te de visitar os grupos Uncut que se formaram e ainda virão a formar-se um pouco por todo o mundo. Procura a tua inspiração nos milhares de pessoas que já se juntaram mundo fora e nas dezenas de protestos que já se fizeram.

Se quiseres organizar um protesto na tua cidade, fá-lo! Lá nos encontraremos!

Redigido democraticamente pelos fundadores que o quiserem assumir...
(Adaptado a partir do texto de Anne Marshall no Canada Uncut. 25 Fev. 2011)

[1] Anonymous. About UK Uncut. UK Uncut. Internet. 24 Fev. 2011.
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Estás perdoado, Vasco Santana!

E eu que gosto tanto de orquídeas…


… e que vi recentemente muitas, belíssimas, no Sri Lanka, até tenho de concordar com André Macedo quando hoje, no DN, as compara a Cavaco.

«As orquídeas são flores incríveis. Têm milhares de formas, de cores e tamanhos, mas não é apenas isso que as torna extraordinárias. Elas duram um tempo infindável, passam de geração para geração, até sobreviveram aos dinossauros. Para se multiplicar, adoptam múltiplas estratégias. Umas cheiram bem, outras cheiram mal, outras têm as cores apreciadas pelos insectos que as vão polinizar, e por aí em diante. É a esta capacidade de adaptação que lhes permite resistir ao passar do tempo. Cavaco é assim, é uma orquídea política: adapta-se, logo sobrevive. Nenhum vendaval parece afectá-lo. Compare-se o discurso de ontem com o da tomada de posse. Sim, são momentos diferentes. Sim, Cavaco também falou dos números negros que este Governo se encarregou de pintar nos últimos dias, meses e anos. No entanto, o tom pacificador do Cavaco de ontem foi bem diferente do tom cáustico do discurso anterior e, mais importante, foi medido até à última sílaba, cerebral, frio, institucional e defensivo na justa medida.»

Mas as orquídeas também murcham…

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31.3.11

Que maravilha!

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(Via Helena Velho no Facebook)
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«Entrecheiram-se, hostis, os mil narizes que há neste país»


Em dias como o de hoje, é sempre a Alexandre O’Neill que regresso…


O PAÍS RELATIVO

País por conhecer, por escrever, por ler...

País purista a prosear bonito,
a versejar tão chique e tão pudico,
enquanto a língua portuguesa se vai rindo,
galhofeira, comigo.

País que me pede livros andejantes
com o dedo, hirto, a correr as estantes.

País engravatado todo o ano
e a assoar-se na gravata por engano.

País onde qualquer palerma diz,
a afastar do busílis o nariz:
- Não, não é para mim este país!
mas quem é que bàquestica sem lavar
o sovaco que lhe dá o ar?

Entrecheiram-se, hostis, os mil narizes
que há neste país.

País do cibinho mastigado
devagarinho.

País amador do rapapé,
do meter butes e do parlapié,
que se espaneja, cobertas as miúdas,
e as desleixa quando já ventrudas.

O incrível país da minha tia,
trémulo de bondade e de aletria.

Moroso país da surda cólera,
de repente que se quer feliz.

O 12 de Março continua


Como é sabido, foram entregues ao presidente da Assembleia da República as folhas com reivindicações e protestos, recolhidas durante as manifestações de Lisboa, Porto, Coimbra e Faro.

Neste momento, estão online as do Porto, que podem ser visualizadas aqui.
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A fotografia improvável


A propósito da visita de Jimmy Carter a Cuba, que ontem terminou e durante a qual se reuniu com um grupo de bloggers críticos do regime castrista, leia-se este delicioso texto de Yoani Sánchez.

«Fue el primer presidente norteamericano contra el que grité una consigna. Ya no recuerdo con precisión las palabras de aquel insulto, pues han pasado casi treinta años. Sin embargo, guardo la sensación de mis puños crispados, de mi uniforme rojo y blanco sacudido con cada alarido que le lanzaba a Jimmy Carter, quien –según mi maestra de preescolar– iba a destruirnos la isla, las palmas, los pupitres del aula, la alegría.

Y tres décadas después estoy aquí, en La Habana, conversando con él y junto a otros rostros conocidos de nuestra incipiente sociedad civil. En poco me parezco ahora a aquella pionerita hundida en la histeria de los slogans políticos y este hombre con el que hablo no me encaja en el papel del gobernante que fue blanco de mis insultos. Ahora es un mediador, un hombre que no parece interesado en borrar a Cuba del mapa, como una vez me aseguraron en la escuela primaria. Así que la niña que debió ser el “hombre nuevo” y el ex comandante de las fuerzas armadas de Estados Unidos se han encontrado en un momento de sus vidas en que ninguno de los dos tiene la misma posición de antaño; en que el camino de ambos ha tomado la dirección del diálogo, aunque un día hubiéramos podido matarnos, enfrentados en algún campo de batalla.

Lo veo hablar y me pregunto si él sabrá que a mí me formaron para odiarlo ¿Estará al tanto de que fue el malo de mis cuentos infantiles, el rostro de las grotescas caricaturas de los periódicos oficiales, el hombre al que la propaganda gubernamental culpaba de todos nuestros males? Claro que lo sabe y aún así me extiende su mano, me dirige la palabra, me lanza una pregunta. Aún así, el que fue “el enemigo” me regala sus frases amables.

Fuera del hotel Santa Isabel donde nos hemos reunido, en algún colegio de la zona, otra niña repite sus consignas, aprieta las manos, vocifera, centra su mente en el rostro de un hombre al que dice aborrecer. Afortunadamente, ella también olvidará los vocablos que grita en este minuto, borrará de su mente los lemas cargados de resentimiento que hoy le hacen corear.»

30.3.11

3 D

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E não se fala mais disso


Ia escrever um post que começava com «Passos afirma…». O meu corrector não deixou e corrigiu logo para «Passos afirmam…».

OK, desisto do post: coliguem-se à vontade!
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Para a agenda

(Para ler, clicar na imagem e depois aumentar)
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A farsa trágica


Baptista Bastos, hoje, no DN.

«As peripécias da revolução portuguesa sempre tiveram características incomuns. A via original para o socialismo foi um estribilho mais do que um conceito. Até hoje ninguém conseguiu descobrir qual a natureza dessa originalidade. Era uma época em que se bebia em excesso e quase tudo era permitido ou aceito com benigna complacência. Zeca Afonso comentava, irónico, que o álcool era, afinal, a via original para o nosso socialismo. O PREC constituiu mais do que um acrónimo: foi um modo de se tentar ludibriar a História e uma maneira, um pouco louca, um pouco ingénua de se viver a vida. Até então, as coisas eram direitinhas, brunidas, organizadas em esquadrias. Falava-se baixinho, escrevia-se baixinho, amava-se baixinho.

Julgávamos ter estilhaçado o que fora medonha punição, e que éramos os donos do nosso destino. Foi quando uma marcha de José Mário Branco nos reenviou para a realidade: "Qual é a tua, ó meu / andares a dizer quem manda aqui sou eu?!" Todas as festas acabam em melancolia. A nossa fechou em carácter fúnebre. E nunca parou de assim ser, com breves intervalos cómicos. Abstenho-me de os mencionar, por evidentes. Os protagonistas foram promovidos.

De tropeção em tropeção, chegámos a isto. (…)

Tanto o PS quanto o PSD ou a tal coligação, antevista mas já vista, têm liquidado a nossa força e tripudiado sobre a nossa soberania. Não estão interessados nessas minudências. E nós vamo-los aceitando, com a benevolência indolente, que parece ser a marca de um mau fado e de uma inevitabilidade.»
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29.3.11

Síndrome do lacaio


A síndrome do lacaio é uma doença do século XXI, que explica o embrutecimento das multidões, a inércia face ao aumento das injustiças e a generalização do egoísmo social.

O lacaio tem um comportamento patológico que o faz defender sempre as classes mais favorecidas, com prejuízo daquela a que pertence. Não tem consciência política e age sempre a favor dos que o exploram, na esperança de atrair benevolência.

O lacaio não escolhe gostar dos ricos (gosta deles precisamente porque é lacaio) e considera que o dinheiro que lhe faz falta é muito mais útil nos cofres de quem os tem já cheios.

O lacaio ou herda a sua condição (depois de tantos séculos de escravatura e de feudalismo, pode ser que exista já uma transmissão genética...) ou sofre de uma patologia que se desenvolve desde a infância mas se agrava quando o sujeito toma consciência da mediocridade da sua condição.

O lacaio desenvolve estratégias inconscientes para estabelecer um equilíbrio cognitivo que ajude a justificar a aceitação da subordinação e a sublimar a desilusão.

O lacaio tem um vago sentimento de injustiça, mas convence-se que está do lado correcto da barricada e encaixa maravilhosamente medidas de austeridade ou restrições de liberdades. É a favor da existência de câmaras de vigilância, mesmo que estas não o protejam do que quer que seja.

O lacaio sente-se perfeitamente seguro pela pertença a uma classe social a que é perfeitamente estranho e considera-se integrado no conjunto de 1% dos cidadãos privilegiados do seu país – tal como 20% dos seus compatriotas, lacaios como ele.

(A partir daqui)

Explicação completa – e magnífica:


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A não perder


A antestreia do documentário «48» de Susana de Sousa Dias tem lugar hoje, na Cinemateca, às 21h30, e chegará às salas de cinema do próximo dia 21 de Abril - finalmente, depois de ter sido exibido do DocLisboa 2009 (foi quando o vi e me refiz, com dificuldade, de um grande murro no estômago...), percorrido vários festivais em mais de 20 países e recebido muitos prémios!



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Escrito na pedra


Os conselheiros de Estado só vão a Belém depois de amanhã, mas já nos dizem que «querem governo maioritário». Muito bem: tanto trabalho e tanta despesa para que tudo acabe por se reduzir a uma redistribuição do número de cadeiras em S. Bento, com um enorme centro tripartido, que irá até à ponta direita do hemiciclo.

O resto será um sem número de arranjos de bastidores, se possível com pouco alarido para não assustar os mercados. Nada a temer: já todos prometeram ao dr. Cavaco que serão bem comportados e ele já nos informou por fontes enviesadas.


A este respeito, leia-se Pedro Tadeu, hoje no DN: A coligação que vai voltar a governar o País.

«Os problemas dos portugueses vão resolver-se nas próximas eleições? Não. Tudo está a ser construído para que o poder político venha a cair nas mãos de uma coligação de interesses: os dos que defendem o mesmo statu quo que levou o País, desde há 25 anos, a abdicar da sua autonomia económica. (…)

Acusar apenas o PS e José Sócrates - por muito que ele mereça todas as críticas - da situação em que estamos é hipocrisia. A coligação de interesses que ao longo dos anos, apesar de todos os avisos, caminhou sem vacilar para este abismo, incluiu PS, PSD, CDS, os empresários mais destacados, os banqueiros mais relevantes. São estas mesmas pessoas que estão por detrás das alternativas políticas que querem ter, a curto prazo, no novo Governo de Portugal.

Essa coligação de interesses acredita que para resolver o problema basta sacar aos cidadãos, durante meia dúzia de anos, o dinheiro para pagar a falência da sua própria insanidade. Só discute a forma de o fazer, mais ou menos suave, mais ou menos humana...

Esta coligação de interesses não discute que, para além disso e mais do que isso, é preciso repensar a forma como o País vive, trabalha e negoceia, pois o actual modus é trágica e comprovadamente insustentável. Mas como isso é por em causa a sobrevivência da própria coligação de interesses, ela, que se prepara mais uma vez para mudar a cara do poder para assim se perpetuar no poder, não o fará.»
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28.3.11

À esquerda, volver?

@Gui Castro Felga

Portugal vai no décimo século das suas histórias, já por cá andavam bem antes muitas gentes, e nada leva a crer que venha a ter um fim este ano, antes dos festejos do Santo António em Lisboa e de São João no Porto. Reina por aí um estado de alma generalizado de catastrofismo, que em nada ajuda a tirar partido da situação calamitosa (é verdade…), a que aparentemente chegámos.

Por muitos cenários, arranjos ou combinações que os protagonistas imaginem, e que o dr. Marcelo maquiavelicamente desmultiplique, uma coisa parece certa e Monsieur de La Palice não me contradiria: depois das próximas eleições, o PS ou ficará no governo ou na oposição.

Se o PSD for o partido mais votado e, por uma qualquer razão, precisar de albergar Sócrates e as suas tropas, estamos conversados. Adiante. Apenas me interessa acautelar a hipótese de se repetir o cenário de 2009, ou seja, de o PS ganhar mas sem maioria absoluta. Pouco provável? Não sei, mas certamente possível.

Nesse caso, será de excluir, julgo, fazer rewind e recomeçar, como nada se tivesse passado, ou seja, ter o PS de novo a governar sozinho, em minoria. Nem o próprio Sócrates é suficientemente louco para uma aventura dessas, o dr. Cavaco nunca o permitiria e até a senhora Merkel desembarcaria na Portela para o impedir. Mistura com a direita? É o mais provável, com a habitual vitimização de todos os Franciscos Assis e Silvas Pereira do nosso universo, que continuarão a gritar que a culpa é da esquerda que nem é o lobo mau, mas sim o péssimo, e que o virtuoso capuchinho vermelho nada pôde fazer.

Por todas as razões e por mais esta, antes disso e desde já, a esquerda da esquerda – PCP e Bloco - tem obrigação de encostar à parede, honestamente, com toda a frontalidade e uma vez por todas, o Partido Socialista, mostrando-se disposta a com ele governar este país. Não faltam propostas, pedidos lancinantes e petições, para que Jerónimo de Sousa, Louçã e as suas tropas entrem no Rato, de braço dado, para uma (inimaginável) reunião de trabalho. Parece-me impossível, pelo menos em tempo útil, e nem sequer necessário, porque podem fazer as suas propostas separadamente. Se o PS quisesse (se quiser…) aceitar esta viragem, levar o futuro a sério e perder sobranceria, então talvez o país continuasse a votar à esquerda sem ser governado à direita, com esta fatalidade absurda que nos persegue desde há muito.

Mesmo que não queira, os dois partidos que «não são do arco da governação» devem passar por esta prova de fogo, e de vida, e sairão do doloroso período que se avizinha de cabeça levantada e com um novo ânimo. Os seus militantes e os seus eleitores merecem-no – e têm mesmo o direito de o exigir.

P.S. - Por tudo o que escrevi, assino por baixo o último parágrafo da crónica de Daniel Oliveira no Expresso do último Sábado (p. 43 do Caderno Principal, O teatro ou a vida), que ainda não está disponível online.
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Cuts are not the cure

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Será???

27.3.11

Poema Pouco Original do Medo


O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis

Vai ter olhos onde ninguém o veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no teto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos
O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
óptimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projectos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com a certeza a deles

Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados

Ah o medo vai ter tudo
tudo

(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)

O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos

Sim
a ratos

Alexandre O’Neill, in Abandono Vigiado, 1960
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Vítimas de Kadhafi ou dos «bons» interventores

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Uncut – Londres 26 de Março


Houve duas manifestações, ontem em Londres, uma com 500.000 pessoas (ou 400 ou 300 mil, tanto faz para o caso), outra com umas (poucas) centenas que provocaram desacatos.

Os telejornais portugueses, que eu vi, quase só mostraram relatos e imagens da segunda. Algum espanto?



«There were two demonstrations in London yesterday. The first, and most enduringly important, was that by half a million people against the cuts that are falling disproportionately on vital public services and those who provide them.

The other one was a demonstration of just how easy it is for a few hundred people to steal the occasion with sporadic acts of violence. Last night, it the latter one which was taking the headlines as police and protesters clashed in Trafalgar Square.

Earlier half a million people descended on central London for the biggest protest the nation has seen since demonstrations against the Iraq war eight years ago. They streamed into the capital from across the country to vent their anger at government cuts, their only weapons peaceful chanting and waving placards. There were 500,000 people and, with their disperate causes, represented 500,000 different reasons to take a stand.»

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