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31.5.11

A nódoa



É este o título de um violentíssimo artigo de opinião que José Vítor Malheiros escreve hoje, no Público (sem link), contra Sócrates. Este merece-o – é tudo quanto se me oferece dizer.

«Espero que Mário Soares tenha oportunidade de participar noutra campanha eleitoral, noutro ciclo de vida do seu partido. Isto porque deixar como testamento político um apelo ao voto em José Sócrates seria um final particularmente triste para um homem com a sua carreira e com a sua visão política. (…)

Só depois de Sócrates cair aparecerão os seus oposicionistas. Aparecerão em bando, quando tiverem a certeza de que já não respira. As razões do apoio dos socialistas do PS a Sócrates são, assim, as piores possíveis: ou o medo ou o sectarismo partidário. E a razão invocada no apelo ao voto é a única possível: o PSD é ainda pior do que nós.

Não percebo o que pode levar um dirigente socialista a defender o seu apoio a José Sócrates com base no argumento de que ele “é o líder do meu partido”. Não perceberão estas pessoas, de quem se esperaria alguma cultura política, que esse argumento, que os estalinistas utilizaram de forma extensiva durante décadas, se encontra na raiz dos maiores crimes políticos jamais perpetrados? (…)

Não sei se o PS percebe a nódoa que o consulado socratista constitui para si, a desvergonha que representa e que transformou em bandeira, o descrédito que trouxe para a política e aos políticos, o autêntico escarro que significa na cara do eleitorado em geral e dos socialistas em particular. Parece que não.»

Na íntegra:

Se a inveja gritasse


… ouvir-se-ia o meu brado por não ter sido eu a escrever este texto do Luís Januário!

A Natureza do Mal e a farsa eleitoral: elogio e louvor da esquerda.

No domingo, a direita e o Partido Socialista preparam-se para escrever mais um capítulo do fim da história: a entrega do país à voracidade dos mercados e à irracionalidade da política económica da actual fase do capitalismo. Fim da história, fim da resistência dos explorados, fim da insubmissão dos trabalhadores. Fim do mundo como o conhecemos, também. Um mundo sem árvores e onde os assassinos dos que defendem o ambiente são aplaudidos por um parlamento que os protege legislativamente (Brasília). Um mundo com fanáticos religiosos de um lado e fanáticos da religião do mercado do outro. Segunda feira, as forças da ordem, nas Portas del Sol como no Rossio , hão-de pôr as pedras a brilhar para sossego de Madame Mubarak e da historiadora. Nesse dia, a direita portuguesa, com ou sem os entreguistas do PS, continuará a cumprir o programa económico dos investidores , sem constragimentos. Por um momento brilharão os novos heróis colaboracionistas e haverá um minuto de glória para os Viegas e Nobres, uma cadeira no 2º balcão, antes de serem arrastados por outra gente menor e com menos escrúpulos.
Mas esta campanha tem tido uma coisa boa, que nem o fogo de artifício, os comentadores e as sondagens têm conseguido obscurecer. A esquerda tem tido um comportamento digno, tem-se esforçado com os meios limitados que tem, ao seu dispor, por mostrar aos eleitores o que está em curso: o equivalente de aquilo a que, num dia de lucidez, Soares chamou um grande embuste. A esquerda leu o acordo da troika e exigiu a auditoria pública das dívidas ( e disse Não pagamos a dívida dos bancos!) . A esquerda exigiu a identificação dos credores- porque o maior dos crimes foi a culpabilização da gente comum pelos propagandistas dos verdadeiros culpados. A esquerda recusou como solução a redução dos níveis de protecção social, educação, investigação, saúde, reconversão ecológica como remédio para a crise. Disse que a renegociação da dívida e das taxas de juro deveria ser feita agora, enquanto há força…
Tenho orgulho dessa esquerda. Agradeço aos que lutam todos os dias. Aos que mantêm levantado o farrapo vermelho. E mesmo que no domingo estivesse sozinho face à urna, haveria de lhe entregar o meu papel. E dizer aos que mandam e aos colaboracionistas: não nos entregaremos nunca.
(O realce é meu.)
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Voto útil? Um perigo...


Começou a semana de todas as declarações de voto e elas andam por aí, para todos os gostos e os mais variados paladares. Quem passa habitualmente por este blogue sabe que a minha é simples: voto Bloco de Esquerda, sem qualquer hesitação, e nem sei se voltarei a explicar aqui porquê.

Mais importante me parece desmascarar o mito do «voto útil», algo que sempre abominei e que nestas eleições me parece particularmente enganador no que à esquerda diz respeito. Estou a pensar, obviamente, no apelo ao voto no PS porque é preciso fugir do papão da direita, porque Passos Coelho pode vir a revelar-se ainda pior do que Sócrates, porque é mais tosco e desbocado, ou porque os socialistas sempre prezam mais a caridadezinha do que os terríveis liberais.

De voto útil em voto útil chegámos onde estamos hoje e, para usar uma expressão da qual o camarada Jerónimo não desdenharia, bem podemos limpar as mãos à parede…

Nem tencionava escrever hoje sobre este tema, e é bem provável que o retome mais tarde, mas o Pedro Viana deu-me o mote e aqui fica o que publicou no «Vias de Facto»: Um voto no PS não é útil, mas sim perigoso. Diz, de uma forma directa, parte do que eu própria penso.

«Nesta altura, praticamente todas as sondagens sugerem que o PSD será o partido que angariará mais votos nas eleições legislativas de 5 de Junho. Mas também indicam que existe uma probabilidade elevada dos deputados que serão eleitos pelo PSD, em conjunto com os eleitos pelo CDS, não constituírem uma maioria (absoluta) na Assembleia da República, ou então que tal maioria assentará numa pequena diferença para o conjunto dos deputados de PS, BE e CDU. Em qualquer destes cenários, haverá uma enorme pressão por parte dos meios financeiros e de maior poder sócio-económico em apoio da inclusão do PS, já livre de Sócrates, no próximo governo. Ainda para mais, só o PS poderá permitir ao PSD modificar a Constituição Portuguesa de modo a conseguir atingir alguns dos seus objectivos, como a possibilidade de despedimento sem justa causa, o fim da gratuidade do sistema nacional de saúde, ou o desmantelamento do sistema público de educação. Sim, porque parece que toda a gente se esqueceu que a nova Assembleia da República mantém a capacidade da anterior para mudar a Constituição por maioria de 2/3 dos deputados, dado que nenhuma revisão foi publicada na última legislatura. A isto junta-se a vontade do aparelho do PS, e de todos os interesses que em volta dele têm gravitado, em não perder o acesso às benesses de que tem desfrutado durante a maior parte dos últimos 16 anos. Em resumo, um voto no PS é um voto que será usado para vender os últimos elementos de protecção social que constam da Constituição Portuguesa em troca da manutenção dos tachos que o PS tem distribuído pelos seus fiéis. Só o reforço do BE e CDU, em detrimento do PS, poderá levar a que este tenha um resultado eleitoral suficientemente mau para levar os seus dirigentes a pensar duas vezes antes de venderem os seus préstimos ao PSD.»
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30.5.11

Os pássaros proibidos

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O voto em branco é um voto de protesto, o voto em branco é (apenas) um voto de protesto


São numerosas e longas as discussões sobre a opção de votar em branco, talvez mais que nunca nestes dias em que muitos não se revêem em nenhuma das candidaturas às eleições do próximo Domingo, sem no entanto pretenderem juntar-se ao batalhão dos abstencionistas.

Porque tenho participado em algumas das ditas discussões, e para assentar as minhas próprias ideias, aqui ficam, esquematicamente, alguns apontamentos.

1 – Antes de mais, recorde-se que é a própria Constituição Portuguesa que, no Artº 149, estabelece que é pelo método de Hondt que os votos são convertidos em números de mandatos.

2 – Quem quiser ver, ou rever, o funcionamento do referido método pode recorrer a muita informação disponível na net (Wikipedia incluída), mas no portal da DGAI (Direcção Geral da Administração Interna) encontra-se uma explicação muito resumida e até uns exemplos muito simples que ajudam a compreender.

3 – Para a atribuição de mandatos, não são considerados os votos brancos e nulos, como está claramente explicado num esclarecimento da CNE: eles apenas contribuem para reduzir a abstenção.

4 – Há uma contestação recorrente deste procedimento, concretizada neste momento numa Petição pública, na qual se defende, para o caso das legislativas, a «junção dos votos em branco aos votos que irão ser convertidos em mandatos pelo método de Hondt». Não se faz nenhuma proposta de concretização e eu continuo sem entender o que se pretende na prática.

5 – Circula na net um vídeo, que é enganador porque não se aplica ao caso português, mas que ilustra um outro método, que não o de Hondt, para distribuição de mandatos. A ser utilizado, mostra claramente que os votos em branco favorecem os grandes partidos em detrimento dos mais pequenos. Não sei se é para uma solução deste tipo que os subscritores da Petição implicitamente apontam (sem método de Hondt).

6 – Faz caminho a ideia de defesa de cadeiras vazias na AR, ou seja de mandatos não atribuídos, correspondentes à soma de brancos, nulos e abstenção.

Descendo à terra e falando só de votos brancos. Por mais voltas que dê, não consigo deixar de considerar que eles são uma mais do que legítima forma de protesto e que como tal devem continuar. Quem não se revê em nenhuma das 17 candidaturas apresentadas, e já não vai a tempo de propor uma 18ª, pode manifestá-lo dando-se ao trabalho de sair de casa. E os futuros deputados eleitos devem ter consciência do significado político desse acto. Mas... ponto final, na minha opinião e por vários motivos:

1 - Faz algum sentido querer «distribuir» votos brancos, de uma maneira ou de outra, por deputados em que não se quis votar?

2 – Em alternativa: cadeiras vazias com consequente diminuição do número de deputados (que num limite teórico de boicote nacional poderia significar esvaziamento da AR) e que, praticamente, prejudicaria os partidos mais pequenos?

3 – Quanto menos votos forem contabilizados para a atribuição de mandatos, mais se favorece os grandes partidos em detrimentos dos pequenos. É isso que se pretende?

4 - Last but not the least: até prova em contrário, tudo leva a crer que, neste momento, a direita está mais motivada e que são os eleitores de esquerda os mais desiludidos e, portanto, com maior tendência para votar em branco. Para bom entendedor não basta meia palavra? Creio que sim. Não é mesmo tempo para estados de alma… Que o voto em branco fique guardado para épocas menos turbulentas…

P.S. 1 – A ler: O voto em branco não é como o algodão - engana.

P.S. 2 – O meu último ponto 2. Não está correcto: na hipótese de se decidir considerar o conjunto de votos brancos (e também os nulos e a abstenção) como um «partido» adicional – o das cadeiras vazias… -, daí não resultariam normalmente danos para os partidos mais pequenos.

Para quem se interesse especialmente por estas questões (vai longa a discussão sobre as mesmas, pelo menos no Facebook), aconselho a leitura de A Votação e a Matemática

(Imagem de Kate MacDowel)
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Utopia com pés na terra


Duas semanas depois de 15 de Maio, os «acampados» decidiram permanecer na Puerta del Sol e na Plaza de Catalunya. Não sei se nas 797 localidades espalhadas pelo mundo inteiro, que até hoje se solidarizaram com a iniciativa espanhola, existem mais ou menos discussões acaloradas do que em Portugal sobre aplauso ou condenação das mesmas. Mas, por cá, a ajuizar pelas controvérsias que ontem inundaram alguns blogues, os ânimos estão longe de se acalmar.

Nada tendo a ver com a repulsa de alguns, e não me revendo no «nim» de outros, um texto encontrado hoje no Publico.es15-M: La nueva utopía tiene los pies en el suelo – reflecte o meu posicionamento em relação ao que tenho visto e ao que tenho lido: «Aconteça o que acontecer, o 15-M deixou uma pegada que não poderá ser apagada como se nada se tivesse passado. E marcará todo o conjunto das esquerdas, gostem ou não os seus dirigentes».

O artigo cita um grande número de analistas e merece ser lido na íntegra. Retiro algumas afirmações: «La mayoría de propuestas son muy sensatas y tienen un apoyo abrumador en las encuestas desde hace tiempo», «Cualquier político que aspire a ganar debería escuchar a este movimiento porque sus opiniones han calado muchísimo», «No se diluirá si la plaza se agota. Y como tiene un método organizativo propio y tremendamente eficaz gracias a las redes sociales, en cualquier momento podrá volver a la plaza». E, sobretudo, «en dos semanas han logrado que se vuelva a hablar de política y con una seriedad impresionante».

Claro que o Rossio não é a Puerta del Sol, e não pretendo extrapolar nem tirar conclusões fáceis do que é necessariamente diverso, mas é do mesmo tipo de acontecimento que estamos a falar. E como acabo de ler que está em preparação uma manifestação mundial, anunciada para 15 de Outubro, mais vale retirar as vendas dos olhos e olhar para a realidade que aí vem – inevitávelmente.

Por tudo isto, custa-me muito perceber (ou percebo?...) a recusa apriorística de alguma esquerda em aderir, escutar, participar, TER ESPERANÇA. Em vez de achincalhar, condenar, sublinhar defeitos e perigos ou aconselhar caldos de galinha.
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Auditar?


Nos tempos que vão correndo, é desejável que não sejamos totalmente ignorantes sobre temas que não estão incluídos no nosso leque habitual de conhecimentos.

Luís Bernardo, Mariana Avelãs e Nuno Teles publicaram, no Portugal Uncut, um documento de leitura obrigatória: Auditoria Cidadã à Dívida Pública - O Que É?

Aqui em formato pdf, para facilitar eventual impressão.
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Pior que o péssimo?


Manuel António Pina, depois de citar Paul Krugman, a propósito da inveitável renegociação e subsequente reestruturação da dívida:

«Se não forem os países "ajudados" a tomar a iniciativa da renegociação, acabarão por, na iminência da bancarrota, ser os próprios credores a fazê-lo (quando concluírem que sugaram todo o sangue que poderiam sugar e preferindo receber alguma coisa em vez de mais nada).

Neste contexto, ganha contornos inquietantes a resposta e Sócrates a Louçã quando, no debate televisivo entre ambos, foi posto o problema da reestruturação da dívida: "Reestruturar uma dívida significa pagar um preço em miséria, desemprego e falências e, pior que isso, significa pôr em causa o projecto europeu e a moeda única". A minha esperança é que aquele "pior que isso" tenha sido só um nariz de cera retórico.»

JN
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29.5.11

Com um dia de atraso


Há 140 anos, 28 de Maio de 1871 foi o último dia da Semaine Sanglante que pôs fim à Comuna de Paris.




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A grande ajuda?


Manuel Brandão Alves publicou mais um texto muito esclarecedor no blogue «A Areia dos Dias«: A Grande Ajuda, o Grande Empréstimo e os riscos do Abismo.

Como vai sendo recorrente, e ainda bem, é mais uma voz a insistir no facto de os acordos que Portugal estabeleceu com a EU, BCE e FMI não deverem ser apelidados de «ajuda».

Alguns excertos:

«Têm vindo os órgãos de comunicação social, os comentadores de política, e de economia e muitos responsáveis políticos, a designar esta operação como “grande ajuda ao nosso país”. Sem ela, segundo eles, cairíamos, facilmente, no abismo. No entanto, mesmo sem nos socorrermos de qualquer valoração de carácter político, vale a pena interrogarmo-nos sobre se a utilização do substantivo “ajuda” é adequado nas actuais circunstâncias.

Considerando os critérios da OCDE, para classificar os fluxos financeiros que se processam entre países como sendo, ou não, ajuda externa, não se pode concluir que os 78 mil milhões que, por tranches, vão periodicamente chegar a Portugal, possam ser considerados como uma ajuda. Nele não encontramos qualquer componente de “dom” (donativo), para que o possamos classificar como ajuda.

Mesmo assim poderíamos perguntar-nos se não pode ser considerado ajuda o facto de o empréstimo ser concedido a uma taxa de cerca de 5% de juros anuais, quando as colocações de dívida no mercado ameaçavam poder vir a ultrapassar o limiar dos 10%. Para se poder dar uma resposta teremos que nos interrogar sobre a justeza da “norma” (o normativo).

Para quem considerar que o normativo é a taxa de 10% sugerida pelos mercados, o facto de se poder vir a pagar uma taxa de 5% é, claramente, uma ajuda (50% de dom na taxa de juro). Contudo, a evolução dos acontecimentos e a passagem do tempo encarregaram-se de nos demonstrar que a taxa de 10% não é, de facto, uma taxa normal e não pode, por isso, ser tomada como uma taxa de referência.»  
(Ler o que se segue.)

O texto termina com previsões sobre oque nos espera:

«A questão, agora, é a de saber se, com as condições que foram subscritas para obter o empréstimo, não iremos, de novo, cair no risco do abismo (vide as notícias, em crescendo, de empresas com salários em atraso, para já não falar do aumento da taxa de mortalidade das empresas) sendo obrigados a renegociar com os credores as referidas outras alternativas, mas então, em condições que não poderão deixar de ser mais gravosas.

Não há dia que passe em que não haja, cada vez, mais vozes a partilhar a opinião de que tal será inevitável. No entanto, esta não é uma questão, apenas, de opinião subjectiva. Ela pode ser suportada por robustos argumentos de natureza técnica.»
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Agora em português


Quando divulguei este vídeo, com as legendas em inglês, alguém comentou que podiam pelo menos estar em castelhano. Pois bem: ei-las também em português técnico.

Para ver, clicar AQUI e, em Subtitles, escolher PT.
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Tudo muda

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Todo Cambia


Cambia lo superficial
Cambia también lo profundo
Cambia el modo de pensar
Cambia todo en este mundo

Cambia el clima con los años
Cambia el pastor su rebaño
Y así como todo cambia
Que yo cambie no es extraño

Cambia el mas fino brillante
De mano en mano su brillo
Cambia el nido el pajarillo
Cambia el sentir un amante

Cambia el rumbo el caminante
Aúnque esto le cause daño
Y así como todo cambia
Que yo cambie no es extraño

Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia

Cambia el sol en su carrera
Cuando la noche subsiste
Cambia la planta y se viste
De verde en la primavera

Cambia el pelaje la fiera
Cambia el cabello el anciano
Y así como todo cambia
Que yo cambie no es extraño

Pero no cambia mi amor
Por mas lejo que me encuentre
Ni el recuerdo ni el dolor
De mi pueblo y de mi gente

Lo que cambió ayer
Tendrá que cambiar mañana
Así como cambio yo
En esta tierra lejana

Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia

Pero no cambia mi amor...
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28.5.11

Gaivota


Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu,
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.

Que perfeito coração
morreria no meu peito morreria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração.

Alexandre O’Neill

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Como a Grécia, não

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A democracia não nasceu no campo

@Pedro Moura

Um texto que Helena Roseta publicou ontem no Facebook:

De quem é a rua?

Na Praça da Catalunha, em Barcelona, forças policiais agridem cidadãos pacíficos aí concentrados, apenas porque é preciso garantir que a Praça fica livre para… os festejos do futebol. As imagens são chocantes e o abuso do poder indigna-nos tanto como nos tem indignado a reacção dos vários poderes ditatoriais à revolta árabe.
Em Lisboa, centenas de cidadãos, sobretudo jovens mas não só, têm desde há oito dias ocupado pacificamente o Rossio para exigir “democracia verdadeira, já”.

Tenho-os acompanhado quando posso e partilho muitas das inquietações e indignações dos nossos “acampados”. Tudo isto se passa perante o silêncio da generalidade dos media, com excepções como o Jornal de Negócios, que hoje, num editorial inspirado de Pedro Santos Guerreiro, intitulado “Passa por mim no Rossio”, alerta para a necessidade de termos os olhos abertos perante o que se está a passar.

Não sei o que iremos conseguir com estas formas de cidadania que estão a procurar inventar-se um pouco por todo o lado e também aqui, em Lisboa. O que sei é que a rua pode ser, e está a ser, o “espaço público” de que a democracia precisa para viver e crescer. A democracia, é preciso lembrá-lo, não nasceu no campo, nasceu nas praças de Atenas. E todos os grandes momentos de transformação social passaram pela rua.

Não podemos deixar que este “espaço público” nos seja roubado. Saberemos defendê-lo com convicção e civismo. Na rua e nas redes sociais, saberemos demonstrar o que queremos e o que não queremos. Fá-lo-emos também nas urnas. Chegará o dia em que os poderes instituídos, políticos, económicos ou mediáticos, terão se ser capazes de ouvir o clamor da rua – pela liberdade, pela democracia, pelo direito ao sonho e ao futuro.
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Vídeo desactualizado

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… porque os putos é que deviam ter o portátil e o telemóvel, enquanto os pais viam futebol ou um filme no Fox.


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27.5.11

No pasarán!

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Empréstimo não é «ajuda» (2)

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«Neste sentido, torna-se manifestamente inaceitável que a generalidade dos órgãos de comunicação social continue a reproduzir, displicentemente, a ideia de que o empréstimo da "troika" FMI-BCE-UE constitui uma "ajuda externa", optando assim, implicitamente, pela aceitação acrítica desta noção.»



Recordo que pode ler e assinar a Petição Pelo rigor na cobertura mediática do acordo com a "troika".
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Para as agendas

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Colóquio Internacional: ESTADO, PROTESTO POPULAR E MOVIMENTOS SOCIAIS NO PORTUGAL CONTEMPORÂNEO

Lisboa, 1 e 2 de Junho de 2011
FCSH-UNL | Edifício ID | Sala Multiusos 2, Piso 4
Avenida de Berna n.º 26

Organização
Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa

Reunindo um conjunto de investigadores que se têm debruçado sobre a História do Portugal Contemporâneo, este colóquio pretende pensar a relação entre Estado, Protesto Popular e Movimentos Sociais. A esta pretensão está subjacente a ideia de que o poder das instituições que compõem o Estado determina a evolução das estruturas sociais a um nível profundo e duradouro mas que esse poder não existe sem os processos que lhe dão corpo. Assim, trata-se de reabrir o passado das instituições estatais às tensões sociais e políticas que se encontram a montante e a jusante das próprias instituições, pressupondo que a espessura histórica do Estado não depende tanto da sua perenidade ou familiaridade como de uma relação de permanente transformação entre instituições e sociedade. Para este efeito, durante dois dias serão discutidos os Movimentos Sociais, o Protesto Popular e o Estado no Portugal Contemporâneo. Os investigadores reúnem-se em torno de quatro mesas, definidas por critérios de periodização, sendo que, a abrir e a fechar o colóquio, decorrerão igualmente duas mesas destinadas à elaboração de mapas para futuros estudos em torno dos Movimentos Sociais e do Protesto Popular.


PROGRAMA

1 DE JUNHO – QUARTA-FEIRA

15h | Sessão de Abertura
- Abertura dos trabalhos, pela direcção do Instituto de História Contemporânea.
- Apresentação do projecto “Processos de Institucionalização do Poder de Estado em Portugal 1890-1986”, por José Neves (IHC-UNL)

15h30 | IMPÉRIO COLONIAL – Mapa para Futuras Pesquisas
- Comunicação de Miguel Bandeira Jerónimo (ICS-UL)
- Comentário de Diogo Ramada Curto (CESNOVA)
- Moderação de Pedro Aires de Oliveira (IHC-UNL)

16h30 | ESTUDOS SOBRE O SÉCULO XIX
- Fátima Sá (CEHCP-ISCTE): O advento da política moderna em Portugal: uma politização pelo conflito – 1826-1846.
- Luís Espinha da Silveira (IHC-UNL): O recrutamento militar em Portugal no Século XIX.
- Diego Palacios Cerezales (Universidad Complutense de Madrid e IHC-UNL): ‘Abaixo assinados’, petición y conflicto en el Portugal liberal (1820-1914).
- Comentário de Fernando Catroga (FLUC)
- Moderação de Paulo Jorge Fernandes (IHC-UNL)

19h | Lançamento do livro “PORTUGAL À CORONHADA – PROTESTO POPULAR E ORDEM PÚBLICA NO PORTUGAL CONTEMPORÂNEO”
Lançamento do livro de Diego Palacios Cerezales, editado pela Tinta-da-China. O livro será apresentado por Manuel Villaverde Cabral. A sessão de lançamento decorrerá na Livraria Pó dos Livros (Av.Marquês de Tomar, 89), próxima à FCSH-UNL.

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2 DE JUNHO – QUINTA-FEIRA

10h | O PERÍODO DO ESTADO NOVO
- Paula Godinho (IELT-UNL): Agitação e resistência nos campos de Portugal (1926-1974) – alguns apontamentos.
- João Madeira (IHC-UNL): O Estado Novo e as greves operárias – prevenir e punir
- Guya Accornero (CIES-ISCTE): Revolucionários antes da revolução – o movimento estudantil português nos anos do marcelismo.
- Comentário de Fernando Rosas (IHC-UNL)
- Moderação de Elisa Silva (IHC-UNL)

12h | DO FINAL DO SÉCULO XIX À QUEDA DA REPÚBLICA
- Joana Dias Pereira (IHC-UNL): A classe operária em formação e o Estado liberal
- Maria Alice Samara (IHC-UNL): O republicanismo além dos "doutores do partido": carbonários, revolucionários e "formigas".
- Diogo Duarte (IHC-UNL): Protesto e acção popular em torno da “questão religiosa” na I República
- Comentário de Manuel Villaverde Cabral (ICS-UL)
- Moderação de Frederico Ágoas (CESNOVA)

15h30 | OS ANOS DO PROCESSO REVOLUCIONÁRIO EM CURSO
- Constantino Piçarra (IHC-UNL): A política agrária do Estado e as movimentações sociais nos campos do Sul, do 25 de Abril de 1974 ao 11 de Março de 1975.
- Miguel Ángel Pérez (IHC-UNL): Movimentos sociais e crise do estado: o caso do movimento operário (1974-75)
- Ricardo Noronha (IHC-UNL): Governar a economia: lutas sociais e nacionalizações no processo revolucionário português
- Comentário de Filipe Carreira da Silva (ICS-UL)
- Moderação de Bruno Peixe Dias (CFUL)

17h30 | MOVIMENTOS SOCIAIS NO PORTUGAL CONTEMPORÂNEO – Mapa para Futuras Pesquisas
Resumo dos debates por Diego Palacios Cerezales e José Neves, seguido de discussão geral.
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Recordar Srebrenica


… e as suas vítimas, quando foi preso Ratko Mladic, responsável pelo maior massacre vivido, na Europa, desde a Segunda Guerra Mundial.

O facto é largamente noticiado hoje, mas talvez valha a pena recordar, resumidamente, o que se passou bem perto de nós, há menos de duas décadas. E ver algumas imagens.





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Um empréstimo não é uma «ajuda» - Petição importante

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Pelo rigor na cobertura mediática do acordo com a "troika": um empréstimo não é uma ajuda

Para:Comunicação social, Entidade Reguladora da Comunicação Social:

Uma comunicação social livre, exigente, isenta e plural é uma condição fundamental da democracia. À relevância do papel social de produção e difusão de notícias deve corresponder a mesma dose de responsabilidade e exigência no tratamento noticioso da realidade que é, necessariamente, construída pela própria notícia. Especialmente num período em que nos aproximamos de eleições, a responsabilidade sobre os temas tratados não deve existir apenas no plano da justa distribuição de tempo pelas várias ideias e opções políticas que se apresentam perante o sufrágio dos cidadãos: a semântica reveste-se igualmente de uma importância crucial no tratamento noticioso.

Neste sentido, torna-se manifestamente inaceitável que a generalidade dos órgãos de comunicação social continue a reproduzir, displicentemente, a ideia de que o empréstimo da "troika" FMI-BCE-UE constitui uma "ajuda externa", optando assim, implicitamente, pela aceitação acrítica desta noção.

Ora, em primeiro lugar, um empréstimo com uma taxa de juro tão elevada dificilmente pode ser considerado uma ajuda. E, em segundo lugar, este empréstimo, encontra-se associado a um acordo, que obriga o Estado Português a cumprir - a troco do empréstimo - um conjunto de contrapartidas que se materializam em medidas de austeridade fiscais, sociais e económicas. Por último, assumir acriticamente que se trata de uma ajuda significa ignorar a profunda controvérsia, contestação e discussão quanto à pertinência e adequação destas medidas, cujos impactos sociais e económicos nefastos são amplamente reconhecidos.

Ao atribuir-se ao memorando da "troika" o epíteto de "ajuda externa" está-se portanto a construir, ou a veicular com manifesta parcialidade, uma narrativa política que favorece quem se comprometeu com este acordo, em detrimento de outras narrativas, igualmente existentes, nomeadamente da parte de quem o contesta. Quando a ideologia se infiltra desta forma inaceitável, numa sociedade plural, no tratamento noticioso, é não só o jornalismo que sai diminuído, mas também a própria democracia.

Sabemos, pelos programas dos partidos que concorrem a eleições, que existem diferentes abordagens, interpretações e propostas de solução no que concerne ao problema da dívida da República Portuguesa. São estas perspectivas que estarão sob escrutínio dos eleitores no dia 5 de Junho. Ao assumir acriticamente a ideia de "ajuda externa", a comunicação social interfere no processo plural de debate de ideias, contribuindo para que a ideologia se sobreponha à democracia. É por isso inaceitável que o acordo da "troika" receba o rótulo de "ajuda", tornando-se por isso urgente que os diferentes órgãos de comunicação social se lhe refiram em termos mais rigorosos, isentos e correctos de um ponto de vista da linguagem económica, recorrendo por exemplo às expressões de "crédito", "empréstimo" ou "intervenção externa".

Primeiros signatários:

- Jorge Bateira - Economista
- José Castro Caldas - Investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra
- Miguel Cardina - Investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra
- Ricardo Sequeiros Coelho - Investigador Júnior no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra; Estudante do Doutoramento em Economia da Faculdade de Economia da Universidade do Porto
- Ana Costa, Investigadora do DINÂMIA- Centro de Estudos sobre a Mudança Socioeconómica do ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa
- Pedro Costa - Professor do Departamento de Economia Política do ISCTE; Investigador do DINÂMIA - Centro de Estudos sobre a Mudança Socioeconómica do ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa e do CIRIUS - Centro de Investigações Regionais e Urbanas do ISEG-Universidade Técnica de Lisboa
- Luís Francisco Carvalho, Professor do ISEG - Instituto Universitário de Lisboa
- João Carlos Graça, Professor do Instituto Superior de Economia e Gestão, Universidade Técnica de Lisboa; Investigador do SOCIUS - Centro de Investigação em Sociologia Económica e das Organizações
- Ricardo Paes Mamede - Professor do Departamento de Economia do ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa; Investigador do DINÂMIA - Centro de Estudos sobre a Mudança Socioeconómica do ISCTE-UTL
- Nuno Ornelas Martins - Professor da Faculdade de Economia e Gestão da Universidade Católica Portuguesa
- António de Jesus Fernandes de Matos - Professor do Departamento de Gestão e Economia da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade da Beira Interior
- José Miranda - Estudante de Sociologia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto
- Vítor Neves - Professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra
- José Francisco Gandra Portela - Professor do Departamento de Economia, Sociologia e Gestão da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro; Investigador do Centro de Estudos Transdisciplinares para o Desenvolvimento
- José António Cadima Ribeiro - Professor do Departamento de Economia da Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho
- João Rodrigues - Investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra
- João Seixas - Investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa
- Nuno Serra - Geógrafo, estudante de doutoramento da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra

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26.5.11

Ainda em Maio

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Te busca madre mientras su cuerpo es mecido
por el mar en el que se sumerge dormido.
Sueña tu abrazo, busca recuerdos,
a los que aferrarse para no conciliar el sueño.

El mar se inquieta, es tempestad, lamento.
¿Quién pudo lanzar mil ángeles desde el cielo?
Y oye tus gritos, blancos pañuelos,
cubren sus aguas, los trajo el viento.
Manda una ola para que se lleve
a los traidores que sembraron tanta muerte.

Barcos y naúfragos oyen sus voces.
Les dicen "Nunca, nunca, olviden nuestros nombres".
Díle a las madres que en algún lado,
donde hace falta, seguimos luchando.

Madre, tu hijo no ha desaparecido.
Madre, que yo lo encontré andando contigo.
Lo veo en tus ojos, lo oígo en tu boca,
y en cada gesto tuyo me nombra.
Lo veo en mis luchas y me acompaña
entre las llamas de cada nueva batalla.

Guían mis manos sus manos fuertes,
hacia el futuro, hasta la victoria siempre.
Guían mis manos sus manos fuertes,
hacia el futuro, hasta la victoria siempre.

(Recomendado por Helena Romão)
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Na sequência e como consequência


… de um post que escrevi ontem, regresso ao tema dos jovens.

Mais do que o conteúdo de um artigo hoje publicado em El País - Portugal pierde a una generación -, foi o próprio título que me levou para um outro excelente texto, publicado no mesmo jornal já há alguns meses, mas que só ontem li: Las ilusiones perdidas.

Se este último fala especificamente de Espanha, é a mesma realidade que está em causa, cá como lá: o mais que batido e debatido problema de muitos jovens que se consideram sem perspectivas em tempo útil e que vêem como única porta de saída na vida o aeroporto, alguma Europa ou o resto do mundo.

Se, até há poucos anos, viajar era um privilégio que «lhes permitia gozar uma liberdade sem limites, um mundo sem fronteiras, uma capacidade quase infinita de aprendizagem», hoje «a mala parece diferente, a fila de espera para o embarque é embaraçosa, a despedida é mais triste e paira no ar o fantasma da ausência definitiva».

Por mais que se considere que tudo isto é mais ou menos normal, que o universo não acaba em Barajas ou na Portela de Sacavém, e que somos cidadãos de um mesmo mundo que a todos pertence, a verdade é que não é pelos melhores motivos que assistimos a este êxodo involuntário, por motivos económicos, diferentes dos que existiram há cinquenta anos porque agora atingem também, e talvez sobretudo, muitos dos mais qualificados.

«Vão-se, pouco a pouco, sem nenhum alvoroço. Um gota a gota de seiva nova que sai do país, desmentindo a velha quimera segundo a qual a história é um caudal contínuo de melhorias.»

Quando se sabe que, por exemplo em Espanha, não se espera recuperar as taxas de emprego anteriores à crise senão dentro de quinze anos, as esperanças recuam…

E, no entanto, nada disto estava escrito na pedra, nada era inevitável. E é isso que é revoltante.
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A «indignação» de que se fala, vista por Eduardo Galeano


… e também a Utopia e as eleições em Espanha. E até o Barça…

São 42 minutos, mas vale a pena ouvir.


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Eu nunca teria estômago


… para continuar num partido do qual pensasse isto, mas continuo a admirar a frontalidade de Ana Gomes.

É a vida! Será?

Face as sucessivas derrotas socialistas na Europa, o Vital [Moreira] parece resignado: "os socialistas são as principais vítimas políticas das situações de crise prolongada".
Vitimas ou algozes, pergunto eu, por terem mandado o socialismo às malvas, complacentes/corrompidos pela financeirização da economia e da política (importa reflectir para sairmos da crise e o Vital pode ajudar a reflectir).
E por também por, numa mesma deriva perversa, mandarem a mais elementar ética democrática às malvas, descendo a "outsourcings" marqueteiros aviltantes, lá porque outros também os praticam...
Não, não pode ser a vida, Vital.
Se fosse, já estávamos todos mortos.
E não estamos.
Estamos numa campanha eleitoral em que para os verdadeiros socialistas não vale tudo, não pode valer tudo.
Como vamos constatar no próximo dia 5. Vencedores ou derrotados, ver-se-á que estamos vivos.
E que não é nada da vida, Vital.
É por ser preciso fazermos por ela.

(Daqui.)
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25.5.11

Os jovens, esses preguiçosos…


O jornal Libération publicou ontem este mapa do desemprego dos jovens europeus (*).

Sem surpresa, verifica-se que os valores mais elevados se encontram em Espanha (taxa superior a 40%, mais precisamente 44,6%) e que, dos 19 países referenciados, apenas 5 apresentam uma percentagem inferior a 20.

Trata-se de um dos vários espelhos graves da crise, por mais teorias que possam ser desenvolvidas – e são-no – sobre as «maldades» e vícios das novas gerações, os quais contribuiriam, pelo menos em grande parte, para esta realidade.

A questão é recorrente, veio em força quando apareceu o fenómeno «Geração à Rasca» e regressou agora a propósito dos acampamentos em Espanha e sua difusão por centenas de cidades.

Sinteticamente - e não estou a falar de discussões hipotéticas, mas sim de longas e recentes trocas de opiniões -, há quem acuse a grande maioria dos jovens em questão de reclamar emprego mas não gostar de trabalhar, de ser demasiado exigente quanto a tipo de ocupação e regalias, de querer manter o nível de consumismo a que os pais a habituaram. São muitas vezes esses mesmos pais (que se gabam de ter começado a trabalhar bem cedo, antes de acabarem cursos superiores ou mesmo sem os ter frequentado) que «acusam» as suas próprias gerações dos maus hábitos criados nos que agora ocupam praças em Madrid ou em Lisboa e se revoltam também em Atenas.

Algum fundamento no que acima resumi? Claro que sim, mas discordo da mensagem de fundo que acaba por ser veiculada: estes jovens são «piores» do que nós éramos e os culpados somos nós que os educámos assim.

Pessoalmente, estou à vontade: com 15 / 16 anos, tinha onze alunos a quem dava explicações e era com o dinheiro recebido que pagava a mensalidade do colégio que frequentava, porque os meus pais não podiam fazê-lo, e não consegui comprar carro antes dos 30. O meu filho só trabalhou depois de acabar o curso e tinha um automóvel à porta quando fez 18. Ainda bem.

Num mundo ideal, devíamos ter educado os nossos filhos fazendo-os herdar um casaco já coçado do pai, convenientemente virado do avesso por um alfaiate, habituando-os a só telefonar de cabines públicas e não de telemóveis, a não terem um PC em casa, a passarem as férias na apanha nem sei de quê e não num inter-rail, a passajarem os buracos das peúgas e a porem meias solas nos sapatos? Se sim, seriam agora diferentes? Muito provavelmente. Melhores? Claro que não.

O mundo evoluiu muito, o normal seria que os nossos filhos vivessem melhor do que nós, como nós vivemos melhor do que os nossos pais. Que trabalhassem em condições dignas e que tivessem direito à cultura e ao lazer. O progresso tecnológico deu passos gigantescos nas últimas décadas, é irreversível e merece ser gozado por todos. Mesmo em países paupérrimos por onde tenho passado, pode-se comer apenas uma tigela de arroz mas não se prescinde da motoreta ou mesmo do telemóvel.

E não foi esse progresso que provocou o desemprego nem a malfadada «crise» que atravessamos. Saibamos geri-la, sem catastrofismos estéreis e, sobretudo, sem acusações ou culpabilidades inadequadas.

Ou regressamos ao ideal de sociedade anterior à invenção da máquina a vapor, origem de todos os males?

(*) As percentagens referem-se a desempregados com menos de 25 anos (dados de Março de 2011) e as mãos vermelhas assinalam países onde há mobilização contra a austeridade.

(A foto é de Pedro Moura)
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O próximo dólar

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(Via João Freitas no Facebook)
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Atenas e os novos Sísifos


Vale a pena ler o que se vai escrevendo sobre a situação grega – et pour cause…É o caso deste texto que Jorge Nascimento Rodrigues publicou esta manhã no Expresso online - Crise grega: 1 cenário optimista e 4 de risco.

«A situação grega está ao rubro» e «A pressão europeia para que haja um consenso político alargado em relação ao 5º programa de austeridade em discussão em Atenas não está a conseguir ser concretizada. Antonis Samaras, o líder da Nova Democracia, partido de direita na oposição, pretende medidas mais radicais que as propostas pelo governo de Georges Papandreou. O partido de governo, PASOK, dispõe de maioria no Parlamento para fazer passar o 5º programa de austeridade, mas as pressões internacionais vão no sentido de um apoio alargado.»

Um jornalista alemão «considerou o primeiro-ministro Papandreou como o novo Sísifo da mitologia grega - de programa de austeridade em programa de austeridade, voltando sempre à estaca zero, com maior fadiga social e maior nervosismo nos mercados financeiros».

São cinco os cenários possíveis descritos, dos quais apenas um, muito pouco provável, é optimista.


A seguir – com a máxima das atenções.
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Noves fora muitas coisas

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Não sei se já o disse aqui, mas considero que «Prova dos 9» é o melhor programa semanal de debate, disponível neste momento. Às 23:00 de 3ªfeira, na TVI 24, Fernando Rosas, José Medeiros Ferreira e Pedro Santana Lopes discutem a actualidade política com Constança Cunha e Sá (apesar de Constança Cunha e Sá…), inteligente e civilizadamente. E com humor, o que também é importante.

Com cenários «futurais» inevitavelmente em cima da mesa, José Medeiros Ferreira descreveu ontem, a páginas tantas, o que eu própria penso e digo há umas semanas, estranhando que ninguém o refira. Aqui fica o registo para possível memória futura. Confrontado com a hipótese de José Sócrates ter de ceder o lugar a outro socialista, JMF afirmou (a partir do minuto 23:22):

«Já tem lá alguém que foi chamado, imperceptivelmente, num pequeno movimento que passou despercebido, para um possível papel desse género, em termos governamentais: (…) Ferro Rodrigues! Mas não se dão conta que a cabeça de lista do PS em Lisboa defende uma coligação, veio da OCDE cheio de papéis e de relatórios, de ideias paradigmáticas sobre o futuro (…), com os paradigmas todos oleados?»

Poderá não acontecer, mas está longe de ser uma hipótese a descartar. Oh se está…
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Com um abraço cristão

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(Via Spectrum)
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24.5.11

Parece impossível

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…mas este senhor faz hoje 70 anos.






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Das cidades e das praças


(Do Passa Palavra)

E, de caminho, leia-se «Me gustas democracia, pero estás como ausente», de Vítor José Malheiros, no Público de hoje, divulgada aqui.
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E porque a imaginação não está no poder

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… mas passa certamente pelo Youtube, aqui fica como adenda ao post anterior:



(Via Carlos Vaz Marques no Facebook)
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E para rematar várias conversas


… leia-se o insuspeito Ferreira Fernandes, hoje, no DN:

«O que o PS fez em Évora, levando imigrantes indocumentados ao seu comício, já não é só aquela mentirinha eleitoral comum a todos os partidos. É uma indecência. Porque o que ali conta não é o truque generalizado, e que já nos engana pouco. O que ali houve foi abusar dos mais desapossados, os que nem têm a prova de que são cidadãos.»
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Espanha - O que a «Democracia Real Ya» NÃO é


Diez mentiras sobre Democracia Real Ya

1. Es falso que sólo traigan protestas y no propuestas. Están en su web, y son más concretas que algunos programas electorales.

2. Es falso que estén contra los políticos. Lo que piden es políticos responsables que no estén en contra de la sociedad y que no utilicen las instituciones de todos para su interés personal.

3. Es falso que rechacen la democracia. Lo que quieren es más democracia, y que la soberanía resida en el pueblo, no en los mercados ni en los banqueros.

4. Es falso que no crean en el voto. Por eso exigen una reforma electoral, para que cualquier voto de cualquier ciudadano valga igual.

5. Es falso que sean unos antisistema. Antisistema es la corrupción, la injusticia o la impunidad. ¿Es acaso esa democracia, que ellos reivindican desde la primera palabra, contraria al sistema actual?

6. Es falso que sean violentos. Apenas ha habido incidentes, a pesar de la muchísima gente que hay.

7. Es falso que sean apolíticos. Es un movimiento apartidista, que no es igual.

8. Es falso que sean sólo jóvenes. Hay muchos jóvenes en esas plazas; jóvenes a los que ya no se podrá descalificar como “ninis” o “conformistas”. Pero también hay ciudadanos de cualquier edad.

9. Es falso que pidan la abstención. Lo que piden es el voto responsable: un atrevimiento “contra la libertad“, según el casposo criterio de la Junta Electoral de Madrid.

10. Y sobre todo es falso que esto se vaya a terminar el domingo, después de votar. Porque la democracia no consiste en votar y callar. Porque el lunes, cuando estas elecciones hayan terminado, el Mayo de 2011 continuará.

(Daqui.)
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23.5.11

Será que 2+2=4?


A notícia anda pelos jornais, até Manuel António Pina referiu hoje os factos na sua crónica, mas nada como ler para crer e ir à fonte, neste caso à página do GAVE (Gabinete de Avaliação Educacional), no sítio do Ministério da Educação. Lá estão os chamados «Testes Intermédios» da disciplina de Ciências Físico-Químicas para o 9º ano.

O caso mais badalado é certamente o deste complexo problema, para o qual, note-se, era permitido utilizar uma calculadora:

«O sistema solar é constituído pelo Sol e pelos corpos celestes que orbitam à sua volta. Actualmente, considera-se que os planetas que fazem parte do sistema solar são Mercúrio, Vénus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Urano e Neptuno. Em 2006, Plutão deixou de ser classificado como um planeta, embora continue a fazer parte do sistema solar.
Actualmente, considera-se que o sistema solar é constituído por quantos planetas?»

Uma coisa é certa: o meu neto, que acabou de fazer seis anos e não é superdotado, responderia a esta pergunta sem contar pelos dedos.

Num outro exemplo, pergunta-se o que acontece a água a 100ºC: condensação, fusão, solidificação ou ebulição. Ou seja: quer-se averiguar se os alunos do 9º ano sabem que a água ferve a 100ºC…

Para além destes dois casos, há outros ridiculamente, ofensivamente, vergonhosamente, elementares.

Eu não sei qual o objectivo destes testes e, ainda muito menos, o que pode ter na cabeça quem os concebeu, reviu e aprovou. Mas sinto-me gozada e nem sou capaz de exprimir a revolta que me causam! Tudo tem limites, não?
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Don't give up

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In this proud land we grew up strong
We were wanted all along
I was taught to fight, taught to win
I never thought I could fail

No fight left or so it seems
I am a man whose dreams have all deserted
Ive changed my face, Ive changed my name
But no one wants you when you lose

Dont give up
cos you have friends
Dont give up
Youre not beaten yet
Dont give up
I know you can make it good

Though I saw it all around
Never thought I could be affected
Thought that wed be the last to go
It is so strange the way things turn

Drove the night toward my home
The place that I was born, on the lakeside
As daylight broke, I saw the earth
The trees had burned down to the ground

Dont give up
You still have us
Dont give up
We dont need much of anything
Dont give up
cause somewhere theres a place
Where we belong

Rest your head
You worry too much
Its going to be alright
When times get rough
You can fall back on us
Dont give up
Please dont give up

got to walk out of here
I cant take anymore
Going to stand on that bridge
Keep my eyes down below
Whatever may come
And whatever may go
That rivers flowing
That rivers flowing

Moved on to another town
Tried hard to settle down
For every job, so many men
So many men no-one needs

Dont give up
cause you have friends
Dont give up
Youre not the only one
Dont give up
No reason to be ashamed
Dont give up
You still have us
Dont give up now
Were proud of who you are
Dont give up
You know its never been easy
Dont give up
cause I believe theres the a place
Theres a place where we belong

(Via Pedro Penilo no Facebook)
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Porque, afinal, parece que o rei vai nu


… mais vale ir aprendendo algumas coisitas sobre «Renegociações, reestruturações e outras confusões».

«A conversa vai animada, mas transmite a ideia de que os que nela participam nem sempre compreendem o que dizem, umas vezes, porque não sabem, outras vezes, porque não conseguem distinguir entre o conteúdo técnico das propostas e os seus pressupostos políticos, ou ideológicos.

Não se trata de matéria despicienda, porque das várias alternativas resultam consequências diversas e gravosas, sobretudo para os que têm, sempre, beneficiado de rendimentos mais baixos sem poderem participar no banquete do “poder”.

Renegociações e reestruturações, de quê? Claro que, da dívida. Mas importa, apesar de a chamada de atenção já ter sido feita várias vezes, que o que está em causa não é, apenas a dívida pública mas, também, a dívida privada. Se outra razão não existisse há, pelo menos, a da forte interdependência entre uma e outra; tudo o que se fizer numa não deixa de ter consequências sobre a outra e vice-versa. E vale a pena recordar que a dívida privada representa mais de 80% do total da dívida.
Porquê as confusões? Vejamos o que se discute:

- Há quem não queira ouvir falar nem numa, nem noutra;
- Há quem considere que se pode admitir a possibilidade de renegociação, mas de reestruturação, nunca;
- Há quem diga que a reestruturação é inevitável e nem quer ouvir falar de renegociação.

Terá tudo isto algum sentido? O meu ponto de vista é o de que não.»

Ler o resto aqui.
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Da resignação?


Na sua crónica de hoje no DN, Ferreira Fernandes retoma a questão, recentemente tão badalada, de 20 x portugueses x 20 ocuparem lugares na administração de mais de 1.000 empresas. Fica aqui na íntegra, porque é curta, e remeto para o meu comentário final.

Os 20 que nos têm cativos

Sim, também se aprende em eleições. Já a Comissão do Mercado de Valores Mobiliários revelara no relatório anual sobre as sociedades cotadas (mas quem lê relatórios da Bolsa?), mas foi Francisco Louçã que disse em campanha: 20 administradores acumulam lugares nas administrações de mais de mil empresas portuguesas! Os discursos eleitorais sendo como os almoços, nunca grátis, Louçã puxou a coisa para o efeito imediato: um desses administradores omnipresentes ganhava 2,5 milhões de euros por ano. Ora esse é talvez o aspecto menos interessante do facto extraordinário de haver 20 pessoas com presença, cada uma, em 50 conselhos de administração. Aliás, alguns até estão em cargos não remunerados - e isso sublinha todo o sentido daquela bizarria. Os 20 tipos espalhados por mil empresas não estão lá para as gerir, estão lá para influenciar. Noutros negócios - máfia, maçonarias, Opus Dei (ou se quiserem ser românticos, dez estudantes finalistas brilhantes que fazem um pacto secreto para dirigir o País ao fim de uma dúzia de anos...) -, noutros negócios similares há a construção de um polvo, com estatutos mais ou menos secretos e uma vontade de organização. Mas os nossos "20 em mil" não são filhos de um complô - eles existem porque a nossa economia (centralizada e sem rasgo) respira naturalmente esta distribuição de poucos por quase tudo que dê dinheiro a sério. É assim porque é assim. E não vai deixar de ser assim.
(O realce é meu.)

Os factos são conhecidos e não voltaria a eles não fosse o «remate» do texto de FF - perfeito se for declaração de puro cinismo, terrível se tomado à letra. Porque se acreditamos mesmo que isto nunca «deixará de ser assim», que nada mais há a esperar destes europeus esburacados e agoirentos que somos, mais vale levantarmos os euros que ainda temos no banco e zarparmos com a família para um local remoto, se possível em terras férteis e com clima razoável, asilados de preferência junto de uma qualquer tribo de linguajar para nós desconhecido.
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1º Manifesto do Rossio


Os manifestantes, reunidos na Praça do Rossio, conscientes de que esta é uma acção em marcha e de resistência, acordaram declarar o seguinte:

Nós, cidadãos e cidadãs, mulheres e homens, trabalhadores, trabalhadoras, migrantes, estudantes, pessoas desempregadas, reformadas, unidas pela indignação perante a situação política e social sufocante que nos recusamos a aceitar como inevitável, ocupámos as nossas ruas. Juntamo-nos assim àqueles que pelo mundo fora lutam hoje pelos seus direitos frente à opressão constante do sistema económico-financeiro vigente.

De Reiquiavique ao Cairo, de Wisconsin a Madrid, uma onda popular varre o mundo. Sobre ela, o silêncio e a desinformação da comunicação social, que não questiona as injustiças permanentes em todos os países, mas apenas proclama serem inevitáveis a austeridade, o fim dos direitos, o funeral da democracia.

A democracia real não existirá enquanto o mundo for gerido por uma ditadura financeira. O resgate assinado nas nossas costas com o FMI e UE sequestrou a democracia e as nossas vidas. Nos países em que intervém por todo o mundo, o FMI leva a quedas brutais da esperança média de vida. O FMI mata! Só podemos rejeitá-lo. Rejeitamos que nos cortem salários, pensões e apoios, enquanto os culpados desta crise são poupados e recapitalizados. Porque é que temos de escolher viver entre desemprego e precariedade? Porque é que nos querem tirar os serviços públicos, roubando-nos, através de privatizações, aquilo que pagámos a vida toda? Respondemos que não. Defendemos a retirada do plano da troika. A exemplo de outros países pelo mundo fora, como a Islândia, não aceitaremos hipotecar o presente e o futuro por uma dívida que não é nossa.

Recusamos aceitar o roubo de horizontes para o nosso futuro. Pretendemos assumir o controlo das nossas vidas e intervir efectivamente em todos os processos da vida política, social e económica. Estamos a fazê-lo, hoje, nas assembleias populares reunidas. Apelamos a todas as pessoas que se juntem, nas ruas, nas praças, em cada esquina, sob a sombra de cada estátua, para que, unidas e unidos, possamos mudar de vez as regras viciadas deste jogo.

Isto é só o início. As ruas são nossas.

(Daqui)

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