11.6.11

É tempo delas

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(Via Nuno Leal no Facebook)
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E que não se diga que é por ter subido a pulso

E que não se diga que é por ter subido a pulso.
... que ele faz declarações como esta:

«A cereja faz bem a tudo, até para os calos!»


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Memória em agenda

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Colóquio - «Usos da Memória e Práticas do Património»
16 a 17 de Junho de 2011


FCSH/UNL Av. de Berna, 26 Edifício I&D, Piso 4, Sala Multiusos 2

«De que falamos quando falamos de memória – social, colectiva, histórica? Referimo-nos aos seus formatos materiais ou evanescentes, à sua remissão para o passado, aos seus reflexos no presente? Porque se erguem lugares de memória ao mesmo tempo que desaparecem os meios de memória? Quando adquiriu tal centralidade nas Ciências Sociais? Estudamos cada vez mais a memória porque as sociedades se ressentem duma ausência de esperança? Que relação estabelece o presentismo, como denegação do devir, com os usos da memória? A evolução do termo, a sua polissemia e as modalidades de abordagem que mesclam disciplinas diversas, conduzem um conjunto de investigadores – antropólogos, sociólogos, historiadores, folcloristas, museólogos - a analisar neste colóquio um conjunto de temáticas. Alguns dos temas perpassaram os debates no âmbito do Seminário de Estudos Aprofundado sobre Usos da Memória, que reúne mensalmente doutorandos, pós-doutores e investigadores seniores. Os usos – e abusos - políticos da memória, da amnésia e da hipermnésia, com remissão para o lugar dos consensos e das memórias contra-hegemónicas; as modalidades do festival, da parada, da patrimonialização, do comemoracionismo, e da «reconstituição»; as propostas da UNESCO em torno da memória material e imaterial, e o papel dos museus; o lugar da educação – e dos educadores – na sua transmissão, sob o peso duma hegemonia; as memórias familiares, tecidas entre ritos e continuidades; as memórias do trabalho, entre o saber-fazer que alimenta a auto-estima e as relações que longamente assentaram no local de trabalho, num tempo de precariedade crescente; a fixidez e a mobilidade, associadas à memória das populações que migram, entre dois mundos; as modalidades de registo e os problemas teórico-metodológicos emergentes das pesquisas em torno da memória – eis alguns dos temas em discussão.»

(Horário e Programa detalhado)
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Ordem de emigrar


Esta crónica de José Medeiros Ferreira, publicada no Correio da Manhã, já tem uma semana, mas merece ser recordada.

Se a alta taxa de desemprego no nosso país já há algum tempo que força muitos dos que pertencem à tal geração melhor preparada de sempre a procurarem outras paragens, mais ou menos longínquas, o «Memorando de Entendimento», agora em vigor, só virá reforçar essa tendência.

Matéria para dolorosa reflexão, sem qualquer espécie de dúvida.

«É uma velha lei das zonas monetárias que obriga o factor humano a seguir a moeda onde ela se encontra. Em claro, abre-se um novo ciclo de emigração para os portugueses.

Assim, no ponto que versa o ‘Mercado do Trabalho e Educação’, as medidas tendem a "facilitar a transição dos trabalhadores em todas as profissões, empresas e factores", fragilizando deliberadamente o vínculo dos contratos de trabalho, reduzindo os períodos do subsídio de desemprego, e as indemnizações de despedimento.(...) O caminho possível será pois a mobilidade para o mercado comunitário sob a figura da livre circulação de trabalhadores, ou para destinos extracomunitários sob o nome mais conhecido de emigração. (…)

Os países receptores querem receber recursos humanos formados nos países de origem à custa dos orçamentos dos Estados periféricos. Deste modo, o "combate ao défice educativo e ao abandono escolar precoce" fica a cargo da República Portuguesa. (…)

Num país em graves dificuldades de crescimento económico e fraco de investimento, a mobilidade dos recursos humanos, assumida pela ‘troika’ no quadro do endividamento, não se destina tanto ao mercado interno quanto ao externo. É uma ordem para emigrar.»
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10.6.11

Uma bela idade


«Um banquinho, um violão e uma canção. Há exatamente 80 anos nascia em Juazeiro, na Bahia, o homem que iria criar o que o mundo conhece hoje como música brasileira. João Gilberto não só idealizou um novo jeito de cantar e tocar, totalmente integrados, como divulgou amplamente a bossa nova pelo mundo. Adorado no Japão, incensado na Europa e nos Estados Unidos, o cantor virou uma espécie de lenda viva da música brasileira.»

(Ler o resto.)



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Ai Camões...

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Vem de longe, o 10 de Junho


Assinala-se hoje o dia em que Camões foi transladado para o Mosteiro dos Jerónimos, em 1880. Feriado nacional desde os anos vinte do século passado, a data ganhou um novo significado em 1944, quando Salazar a rebaptizou como «Festa de Camões e da Raça».

Fê-lo por ocasião da inauguração do Estádio Nacional, que ocorreu com grande pompa, em cerimónias a que terão assistido mais de 60.000 pessoas e que foram filmadas por António Lopes Ribeiro (vídeos aqui e aqui).

A linguagem é inequívoca: «Às cinco horas, chegou o chefe: Salazar. Salazar, campeão da pátria, era o atleta número um, naquela festa de campeões!». E ouvem-se comentários como este: «Já não vivemos, graças a Deus, naquela época em que parecia mal às mulheres portuguesas cuidarem da higiene e da saúde do corpo, não se preparando convenientemente para a sua altíssima função.»

Mais graves, e bem mais trágicos, passaram a ser os 10 de Junho a partir de 1963. Transformados em homenagem às Forças Armadas envolvidas na guerra colonial, eram a data escolhida para distribuição de condecorações, muitas vezes na pessoa de familiares de soldados mortos em combate (fotos reais no topo deste post).

Desde 1978, que não é Dia da Raça (excepto para alguns, excepto para alguns …). Além de Portugal e de Camões, passou a festejar-se também as Comunidades Portuguesas, mas ainda são atribuídas condecorações – outras, evidentemente, por motivos totalmente diferentes. Mas talvez fosse no entanto possível ter escolhido outra data para esta cerimónia e seus salamaleques. Foi a irmã de alguém que morreu na Guiné que me chamou a atenção para o facto: é inevitável associar qualquer distribuição de medalhas, neste dia, às trágicas imagens do Terreiro do Paço em tempo de guerra – pelo menos para quem já era vivo e ainda tenha memória.



(Republicação modificada)
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A manhã desejada

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(Via António Loja Neves no Facebook)
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9.6.11

Assassino económico me confesso

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(Contributo de Jorge Pires da Conceição)
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Não havia outra saída? Tentaram?


Portugal continua todos os dias presente em tudo o que é imprensa estrangeira e sem que tal aconteça, obviamente, pelas melhores razões. Este texto não é longo e fica aqui na íntegra.

«Parece que los portugueses, como otros europeos antes, prefieren el original a la copia: puesto que la salida a la crisis está irremediablemente al fondo a la derecha, nadie mejor que la derecha auténtica para conducir por ese camino.

En Portugal la salida está a la derecha, pero no sólo porque así lo imponga el rescate europeo: sobre todo porque el Partido Socialista no presentó alternativa, no propuso otra salida; y porque antes de llegar al rescate tampoco probó otros caminos, sino que aplicó la misma política que ahora continuará la derecha patanegra: recortes, reformas, sometimiento al poder financiero.

En Portugal, como en el resto de países que también viraron a la derecha, se culpa a la crisis. Pero no es cierto. La culpa es de esos partidos que se dicen de izquierda pero que, a la hora de buscar salida, sólo han llamado a una puerta: la de la derecha, y ni siquiera han mirado si había más puertas.

Si en momentos de crisis total, cuando además el capitalismo flaquea y queda probado que lleva la crisis en sus genes, la socialdemocracia no tiene nada mejor que ofrecer, entonces apaga y vámonos, que pase la derecha. Partidos que, como el PSOE, no sólo renuncian a intentar otra política económica (digo yo que entre la “monserga marxista” y el actual sometimiento a los mercados habrá algo entre medias, ¿no?), sino que además malvende todo aquello que en términos sociales aún podía diferenciarle de la derecha.

Sólo les queda una disculpa: no podían hacer otra cosa, fueron rehenes de la crisis, de los mercados, de una Europa que señala una única puerta posible. Pero para que creamos que no podían, al menos deberían haberlo intentado, incluso a riesgo de fracasar; pero no ha sido así. Y si no lo intentaron por miedo, coacción, incapacidad u otro motivo, deberían habérnoslo explicado, contarnos cuál era la alternativa y cuáles los riesgos. Pienso en todo esto leyendo la última novela de Belén Gopegui, muy útil para reflexionar sobre esa dramática renuncia y sus consecuencias; y para denunciar que no, no lo intentaron.»
(Os realces são meus.)

(Daqui.)
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O Inimigo Público é que sabe


10 de Junho passa a ser o dia de Portugal, de Camões e do FMI

As comemorações do 10 de Junho vão ser marcadas pela nova designação do feriado, que passa a chamar-se dia de Portugal, de Camões e do FMI (ou Dia da Troika, como já começa a ser popularmente conhecido). O plano de festas inclui mais umas dezenas de condecorações, o anúncio da vinda de mais umas dezenas de sul-americanos para os três grandes e o compromisso com mais algumas dezenas de medidas de austeridade, aumento de impostos e candidatos a secretário-geral do PS.

(Via Inimigo Público no Facebook)
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Cesare Battisti: finalmente em liberdade


«Durante sete intermináveis horas os ministros do Supremo Tribunal Federal reuniram-se para discutir o futuro de Cesare Battisti, que já está há mais de 4 anos preso no Brasil. Decidida por 6 votos contra a 3, a libertação de Cesare deve ocorrer imediatamente.

Porém, durante o julgamento, muito pouco se falou de Cesare Battisti. De um lado falou-se de limitação de poderes e de equilíbrios constitucionais, de fiscalização dos atos do Presidente da República e dos riscos de ditadura, de antiterrorismo e de respeito pelos tratados. Falou-se, do outro lado, de soberania e de independência nacional, de direitos humanos. De Direitos Humanos em geral, mas não dos direitos do homem Cesare Battisti. Do seu direito a fazer ouvir uma versão dos fatos que não fosse a difundida e vendida pelo governo italiano.

A intervenção mais longa foi sem dúvida a do ministro Gilmar Mendes, que afirmou: «Eu fico a imaginar o que vai ocorrer. Que cenários nos aguardam nesse contexto». Eis uma tentativa clara de dar argumentos para desligitimar a decisão.

Estamos contentes, sim, e muito, com o fato de Battisti ficar em liberdade. Mas não com uma sessão que não foi um julgamento do caso de Battisti, mas um julgamento de um ato cometido pelo ex-presidente da República. Nesse sentido, concordamos com a frase do ministro Joaquim Barbosa: “Chega! Aqui é o momento de se encerrar essa questão! Há uma pessoa presa há mais de 4 anos em regime fechado.»


Muitas notícias na imprensa, por exemplo em Le Monde, com a reacção de Itália.
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8.6.11

Hello Mrs. Merkel

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Para não dizerem que não falo do Bloco

@Paulete Matos

Não foram poucas as insistências para que opinasse sobre a derrota do passado Domingo, mas o motivo pelo qual não o fiz ainda é tão simples que até dói: só hoje me apeteceu.

Já li dezenas de textos sobre o assunto e percebo perfeitamente que, sobretudo os mais afectados – dirigentes e militantes -, sintam necessidade e urgência de interpretar, de lançar apelos ou, muito simplesmente, de desabafar. Mas assusta-me um pouco o espectáculo, mais ou menos generalizado, de ver enumerar e atribuir até pesos específicos a cada uma das hipotéticas causas do fracasso, como se decisivo fosse, para o futuro que interessa, medir agora se foi mais gravoso apresentar uma moção de censura ou menos castigador ter apoiado Alegre. (Para já não falar de alguns apressadíssimos, e nada inocentes, pedidos de rolamento de cabeças.)

É sem dúvida fundamental que tenham lugar muitas discussões internas, mas, no meu modestíssimo entendimento de eleitora de bancada, seria desejável que acontecessem sem pressa nem tentação de encontrar soluções milagrosas, «chave-na-mão», pura e simplesmente porque elas não existem.

No Domingo á tarde, enquanto esperava pelo início da maratona eleitoral, li um texto que Boaventura Sousa Santos publicou, no último número da Visão (*), e tive-o sempre presente à medida que os resultados iam caindo e se verificava a débacle quantitativa do Bloco e a não reeleição de alguns dos seus melhores deputados.

Espero sinceramente que o partido em que voto há muito tempo saiba gerir esta sua crise, mas estou convencida de que terá tanto mais sucesso quanto melhor conseguir vê-la com um olhar «limpo» e a partir de fora. O país em que nasceu, há doze anos, já não é o mesmo, os europeus estão a deixar de ser os cidadãos bem-comportados que se espera que sejam, os partidos e os seus representantes nos Parlamentos continuam fundamentais e indispensáveis, mas têm de interiorizar que «o papel das instituições é regular as expectativas dos cidadãos de modo a evitar que o abismo entre esse desejo [de uma sociedade democrática] e a sua realização não seja tão grande que a frustração atinja níveis perturbadores. E devem também interiorizar que, cada vez mais, «é legítimo e democrático actuar à margem delas, pacificamente, nas ruas e nas praças», porque «estamos a entrar num período pós-institucional».

No nosso actual espectro partidário, acredito profundamente que é o Bloco que tem, no seu ADN, mais características que lhe permitirão não ficar à margem desta nova e difícil realidade e que este é o momento para uma viragem decisiva neste sentido. Se a fizer, está salvo – o resto virá por acréscimo e será talvez mais fácil do que agora possa parecer.

Não é suficiente estar no Facebook e ter apoiado a Manifestação do 12 de Março, é necessário mergulhar mais no cerne do que está em causa, o que pode parecer simples mas está longe de o ser. E, no entanto, talvez seja esta a hora para recordar que «os momentos mais criativos da democracia raramente ocorreram nas salas dos parlamentos. Ocorreram nas ruas, onde os cidadãos revoltados forçaram as mudanças de regime ou a ampliação das agendas políticas».

(*) A pensar nas eleições. (As citações que faço são deste texto.)
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Nazis e Khmers Vermelhos

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Para que a memória não se apague, é importante o testemunho dos sobreviventes. Desde ontem, um destes dois calou-se.



Jorge Semprún e Vann Nath.
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Alípio, «homem de grande firmeza»


Alípio de Freitas esteve ontem no programa «Bairro Alto», na RTP. Vale a pena ver e ouvir o testemunho deste grande homem - a vida, em Portugal e no Brasil, a visão sobre Cuba, Che Guevara e Fidel, a participação na luta armada contra a ditadura brasileira, a tortura na prisão.

«Imprescindíveis são aqueles que lutam todos dias», diz ele para terminar os 42 minutos da conversa.

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7.6.11

Jorge Semprún


Escritor e lutador antifranquista, sobrevivente do campo de concentração de Buchenwald, ministro da Cultura num governo de Felipe González, morreu hoje, com 87 anos.

Está a ser publicada muita informação sobre a sua vida e a sua obra, sobretudo na imprensa espanhola (El País e Público.es).

Em 2010, deu uma longa e muito importante entrevista sobre «Memória da Europa».



Parte (2), (3), (4) e (5).
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MoU: bem-me-quer, mal-me-quer…

O Jornal de Negócios divulgou hoje um texto de Eduardo Paz Ferreira, ao qual cheguei através de Jorge Pires da Conceição: Nem ideias boas, nem ideias originais.

Deixemos aos tablóides as intrigas sobre as negociações palacianas para a constituição do novo governo (assunto que, ó felicidade minha…, me deixa relativamente indiferente) e regressemos ao que interessa.

Como vem sendo habitual, recomendo a leitura do artigo na íntegra, mas destaco:

«Naturalmente que a desistência da democracia encontra um respaldo particularmente significativo na premissa falsa de que o Memorando de Entendimento celebrado entre o Governo (apoiado pelo PSD e CDS-PP) a Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional era inevitável. O Memorando está, no entanto, assinado e com ele teremos que viver. Porém, não podemos nem devemos aceitar passivamente a ideia de que o conteúdo daquele documento é um programa económico e financeiro excelente, capaz de fazer pelo progresso do nosso País aquilo que os políticos portugueses não foram capazes de fazer. (…)

A intervenção externa representa o nosso fracasso, mas representa, também, o fracasso da União Europeia. (…)

Temos que viver com a ajuda externa, mas importa que saibamos aquilo que fazemos e porque o fazemos e, para isso, há que acabar com uma discussão anémica em torno do Memorando e questionar a ideia de que ele corresponda a um programa com elevado potencial de redenção para o País.

Infelizmente assim não acontece. Alguém disse uma vez, apreciando um texto escrito por outra pessoa, que neste se encontravam ideias boas e originais, mas que as boas não eram originais e as originais não eram boas. Neste caso será ainda pior. Não só algumas ideias boas não são originais e algumas originais não são boas, como algumas ideias não são nem boas nem originais. (…)

Há, finalmente, a questão das condições em que a ajuda é prestada. Mas sobre essa matéria seria difícil encontrar comentário melhor do que o produzido, há alguns meses, com fina ironia, pelo "The Independent", sob a forma de uma carta da República da Irlanda para Portugal, em que aquela alertava: "reparo agora que estás sob pressão para aceitar um resgate... Primeiro, deixa-me que te dê um conselho sobre as nuances da língua inglesa.

Tendo em conta que o inglês é a tua segunda língua podes pensar que as palavras "bailout" e "aid" implicam que vocês receberão ajuda dos nossos irmãos europeus para vos retirar das vossas actuais dificuldades.

O inglês é a nossa língua-mãe e foi o que nós pensávamos que significava. Permite-me que te avise que, quando o inevitável resgate chegar, ele não vos ajudará a sair dos vossos actuais problemas, mas sim ajudarão a prolongá-los por várias gerações ainda por vir. E por tal, esperar-se-á que fiques grato. Caso queiras descobrir as palavras apropriadas, em Português, para resgate, sugiro que arranjes um dicionário Inglês-Português e procures palavras como as seguintes: "moneylending", "usury", "subprime", "mortgage", "rip-off". Estas palavras dar-te-ão uma tradução mais apropriada do que está prestes a acontecer"».
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Saem esqueletos dos armários


Ana Gomes vem hoje dizer que Paulo Portas não tem condições para fazer parte do próximo governo. É de ouvir, nem comento:


6.6.11

Outros vencedores

Do lado perdedor: o tempo virado do avesso


De tudo o que li, até agora, sobre a derrota da esquerda nas eleições de ontem, gostaria de ter escrito a crónica do Rui Tavares, no Público de hoje (sem link).

(Clicar na imagem para ler.)
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Rossio, 4 de Junho, ainda: um testemunho diferente


Conheço a Maria Vitória Pato há muitos anos, vimos ambas da safra dos chamados «católicos progressistas», colaborámos em tarefas clandestinas e semi-clandestinas desde os anos 60. Ontem à noite, enviou-me este texto porque pretende que aquilo que viveu no Rossio seja conhecido. Não tem rastas nem é mal cheirosa e tem quase 80 anos (Na foto, a falar com um polícia.)

No Sábado 4 de Junho, pelas 15h, cheguei acompanhada de uma amiga ao Rossio, ao grupo da Acampada. Mal cheguei, vi polícias. Eram da Polícia Municipal a chegarem e a derrubarem tudo e arrancando fotografias expostas sobre fios. Puxavam pelos fios e arrancavam. Empurravam as pessoas que estavam sossegadas. Tudo sem sentido. Empurravam as e os jovens e eu só vi eles quererem explicar e perguntar o que se passava para aquela violência. Não vi ninguém dos jovens bater em polícias. O que vi depois foi um jovem ser arrastado de forma bruta, era um jovem de t-shirt amarela. Os polícias arrastavam-no violentamente pelo chão até o meterem num carro. Acontece que os jovens tinham material de som e fugiam a guardar o material. Ouvi dizer que foram três os arrastados e presos, mas só vi a violência ser feita a um.

Eu, como tenho 79 anos, achei que devia falar com os polícias para ver se ao menos a uma velha eles eram capazes de ouvir e dialogar, se havia vestígios de respeito e dignidade. Mas, sobretudo aos mais velhos, só queriam empurrar e eram incapazes de ouvir o que quer que fosse, era só empurrar. «Estão a meter-se em trabalhos e vocês são novos e há fotógrafos aqui de todo o mundo», disse eu a um dos mais novos que, em fila de defesa em frente a nós, sempre me ouvia. «Não empurrem!» Mas eles empurravam. Então uma rapariga do grupo dos Acampados começou a dizer: «Eis o que fazemos» e atirou pétalas de flores. Eu apanhei as pétalas das flores e colocava-as em cima de um jovem polícia , um com ar terrível como se estivesse a receber flechas (aparece no Público online). Eu só queria ver se eles, que eram jovens, acordavam da emboscada em que os chefes os meteram e recusavam trabalho tão absurdo. Mas o polícia ficava irritado por eu lhe atirar também as pétalas de flores…Devem ser treinados para a violência e não para o apaziguamento, não sabem lidar com calma nenhuma. Houve um que me empurrou de tal maneira com um cassetete que me magoou, mas não foi nada de grave - só um empurrão bruto. Então eu quis falar com os mais velhos dos polícias que tinham ar de chefiar, mas esses empurravam ainda mais e não queriam ouvir nada, mesmo nada, chegar junto deles era só receber empurrão.

A um polícia novo, perguntei: «Qual a razão por que vieram aqui empurrar e magoar os jovens?» . A resposta foi: «São ordens.» Eu disse-lhe que já conhecia essa frase de a ter ouvido já lá vão sessenta anos. Disse-lhe ainda: «Pensem que os polícias de baixo é que "se lixam".» Ele tentou explicar-me «que sendo o Rossio a praça nobre da cidade e a estátua o ícone dela, tinha de ser preservada de papeis e pessoas à volta». E em resposta ao perigoso que era serem acusados de brutalidades, respondeu-me: «Eu por mim já estou por tudo.»

Depois daquela confusão, todos os polícias se foram embora. Eram 16h30, mais ou menos, enfiaram-se na carrinha que estava mal estacionada (não havia por ali nenhuma Emel para a multar e bloquear…) e isto sobre a bela praça do Rossio e junto ao seu ícone o Rei D Pedro IV.

Maria Vitória Vaz Pato
BI 1651480
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5.6.11

Página virada

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Maratonas em noites de eleições

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Enquanto esperamos por mais uma noite eleitoral, retomo o conteúdo de um texto que já publiquei em tempos, porque nem a panóplia tecnológica com que tudo hoje acontece consegue fazer-me esquecer os bastidores das primeiras eleições em democracia, na década de 70. Por motivos profissionais, estive envolvida no apuramento e na divulgação dos resultados das votações e é certamente difícil para as novas gerações imaginarem a dificuldade, o pioneirismo e o stress com que tudo se passava.

Depois da contagem dos votos, os resultados eram introduzidos manualmente duas vezes: primeiro, descentralizadamente (julgo que nas capitais de distrito), em aparelhos de telex, que os faziam chegar a Lisboa. Eram depois reintroduzidos numas outras máquinas que os transmitiam para o computador central do Ministério da Justiça. Tudo isto demorava horas, como é óbvio! 

Nem entro na descrição da complexidade que era programar antecipadamente, de raiz, sem software «pré-fabricado», todas as validações e cálculos necessários para o apuramento. Na noite das eleições, todos os dados eram processados no centro de informática do Ministério da Justiça, de onde os resultados iam sendo transmitidos, exclusivamente, para a RTP e para a Gulbenkian, onde se concentravam VIP’s e jornalistas. Aí eram visionados em sinistros terminais a verde e verde (ainda nem existiam PC’s…) e depois, pelo menos nos primeiros anos, passava-se de novo ao tratamento manual ou à pura oralidade.

Nem sei quantas directas terei feito nestes três locais, mas era na RTP que se viviam as maiores emoções. Parecerá hoje impossível, mas a emissão da noite eleitoral de 25 de Abril de 1975, coordenada por Carlos Cruz, teve início às 19 horas e terminou… às 24 do dia seguinte – durou trinta horas. Não sei exactamente em que ano, Joaquim Letria dirigiu as operações, a partir do Estúdio 2 no Lumiar. Tinha atrás dele, preso a uma cortina, um gráfico de cartão, onde ia deslocando manualmente um ponteiro, à medida que os resultados «iam caindo». O drama que vivi, durante toda essa noite, foi ser obrigada a passar dezenas de vezes por trás da dita cortina, sem tropeçar num colossal emaranhado de cabos espalhados pelo chão, nem tocar na cortina, o que nem sempre era possível. Quando isso acontecia, o gráfico abanava e… os espectadores viam em casa!

Poderia contar dezenas de histórias, mas resumo só mais uma. Por ocasião de umas eleições autárquicas, talvez as primeiras, no dia seguinte à tarde ainda faltavam os votos de uma freguesia do Norte. Localmente, ninguém conseguia encontrar o presidente da respectiva mesa, mas o inesperado veio a acontecer: ele acabou por chegar, em pessoa, ao Ministério da Justiça em Lisboa. Trazia a urna ainda fechada e tinha deixado à porta… o cavalo!

Factos como este são hoje puramente anedóticos, mas podem ser úteis para nos apercebermos de que o início desta etapa da nossa história democrática ainda está «à vista» e que trinta e sete são, afinal, bem poucos anos…

(Na foto: Carlos Cruz, RTP, 25 de Abril de 1975)
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E se depois dos resultados desta noite

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… acontecer uma coisa deste tipo?


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A year from now?


Acabei de votar. Muitos lugares para estacionar, o que é sinal de… 

Cá fora, mesmo à porta, alguém dedilhava, numa guitarra, «A Pedra Filosofal». Não era velho, nem novo, muito menos ceguinho. Antes de pôr a cruzinha no papel, faça o favor de sonhar.


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Shame on you, Mr. António Costa!


A notícia sobre a intervenção da Polícia Municipal, e a pedido desta também da PSP, foi difundida por todos os meios de comunicação social, fazendo-se eco de um take da Lusa. Todos dizem que a praça se encontrava ocupada há duas semanas, o que é falso porque o «acampamento» já terminara há alguns dias. Para ontem, havia várias reuniões planeadas e uma Assembleia marcada para as 19:00.

Alguém mandou a polícia avançar, sabe-se lá com que lógica, já que esta se limitou a levar cartazes, rasgar um toldo, confiscar material sonoro, distribuir umas bastonadas e prender três participantes durante algumas horas. Não impediu a permanência no local: terminado o seu espectáculo, retirou-se, a Assembleia teve lugar com muitas mais pessoas que, alertadas, convergiram para o Rossio e com a participação dos três detidos entretanto libertados.

Eu tinha apostado que não haveria intervenção policial antes das eleições, mas enganei-me. Os nossos queridos dirigentes são aprendizes quando comparados com os seus equivalentes espanhóis, que têm sabido gerir «com pinças» os «acampamentos»: hoje, na Puerta del Sol, reuniram-se delegações de 53 cidades. Até nisto somos pequenos, muito pequenos – para nossa desgraça.



Recorde-se e repita-se o que diz o nº 1 do Art.º 45º da Constituição da República Portuguesa:
«Os cidadãos têm o direito de se reunir, pacificamente e sem armas, mesmo em lugares abertos ao público, sem necessidade de qualquer autorização.»

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