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30.9.11

Alternância


É mais ou menos isto, certo?
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Sugestão para o fim de tarde

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… de hoje, num cinema perto de si, de preferência à hora em que Vítor Gaspar vai falar ao país.


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Perfilados de medo


Nem mais: «O único argumento que os chanceleres europeus e os nossos governantes têm, para impor uma política que vai destruir a economia de todos para dar mais riqueza a muito poucos, é o medo.» Só isso explica o aparente fatalismo e a insuportável passividade que paralisa as grandes maiorias.

A crónica de Nuno Ramos de Almeida, publicado no «i» de hoje.

«É sabido, Portugal é um país de bons poetas e maus ministros. Pior do que os habituais estadistas, apenas os poetas quando se tornam políticos. No século XIX, resolvia-se a coisa dando aos bardos do regime a pasta do Mar. A Cavaco Silva a poesia é coisa que não lhe assiste, como se diz agora, mesmo tirando algumas tiradas dignas de um surrealismo tardio sobre o “sorriso das vacas”. Em entrevista à TVI, o Presidente-economista deu como adquirido que Portugal necessita fazer esta política de cortes cegos e que está condenado a perder a sua soberania económica. Alexandre O’Neill era poeta e as sua palavras fizeram a autópsia de um país de governantes medíocres e pessoas cujo silêncio cobarde sustentava qualquer ditadura. “Ah o medo vai ter tudo. Tudo (penso que o medo vai ter tudo e tenho medo que é justamente o que o medo quer). O medo vai ter tudo, que se tudo e cada um por seu caminho havemos todos de chegar quase todos a ratos. Sim, a ratos”, escreveu.

O único argumento que os chanceleres europeus e os nossos governantes têm, para impor uma política que vai destruir a economia de todos para dar mais riqueza a muito poucos, é o medo. Depois do estado de choque, da negação, virá a raiva. E algumas pessoas terão a coragem de dizer que preferem ser livres a ser submissas, mesmo que isso seja um caminho mais difícil. A caminhada começa amanhã com as manifestações de 1 de Outubro. Nem toda a gente acha normal ser governada pela Alemanha devido a dívidas que não contraiu e a lucros especulativos que não teve.»
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Amanhã

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29.9.11

Tu não podes comprar o vento

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(Via Nuno Ramos de Almeida no Facebook)
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Morto mas não infectado


A propósito da recente execução de Troy Davis, na Georgia, Rui Tavares referiu no Público de ontem que o braço do condenado é desinfectado antes de receber a injecção letal para evitar o risco de poder vir a ser contaminado.

Achei a ideia tão rocambolesca que fui averiguar e encontrei muitos documentos, com detalhes absolutamente macabros a respeito de tudo o que precede e rodeia a «cerimónia», mas que dizem todos mais ou menos o mesmo sobre o tema em questão: «Em 36 estados, os carrascos mantêm o ritual em que se começa por esfregar o braço do condenado com álcool, uma precaução mórbida contra uma possível infecção provocada pela agulha que, daí a um momento, provocará a morte.»

Mas será que ninguém parou para pensar no absurdo e na irracionalidade de um regulamento como este? Morto mas desinfectado? Matamos mas não contagiamos?

«Só na América!», dirão alguns. Só num mundo totalmente ensandecido, digo eu.
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Tea Party, Merkel-Sarkozy & outros


«É importante que os cidadãos saibam que as propostas económicas e fiscais que o binómio Merkel-Sarkozy e uma grande parte da equipa dirigente da União Europeia, da Eurozona e do Banco Central Europeu estão a apresentar são semelhantes às do Tea Party nos EUA. Na realidade, algumas delas são mesmo mais radicais.»

Daqui.
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Um país ocupado


Este texto de José Vítor Malheiros foi publicado anteontem no Público, mas transcrevo-o para quem não tenha tido a oportunidade de o ler.

«É espantoso como, no espaço de poucos meses tanta coisa mudou. Não só nas nossas expectativas mas principalmente nas nossas atitudes. Apesar de algum debate nos media, de algumas declarações politicas mais fogosas, de alguma indignação mais localizada, de alguns dirigentes sindicais mais aguerridos, aceitamos como inevitável esta crise e parecemos resignados a sofrê-la. Na esperança ténue, de que um dia passe. Enchemos bem o peito de ar, fechamos a boca com força e aceitamos que, durante os próximos anos, nos devemos resumir a tentar manter o nariz de fora de água, apenas o nariz, sem fazer ondas, sem fazer barulho, sem gritar, sem protestar, sem dar nas vistas, sem viver, ondulando ligeiramente os braços para nos mantermos à tona, sem olhar para o que está à nossa volta. A palavra de ordem é apenas respirar. Respirar e esperar. Até que passe. Ou até que nos habituemos. Respirar assim só é difícil nos primeiros tempos. Depois habituamo-nos. É uma questão de ritmo.

Não é que não queiramos, não é que não gostemos, mas sabemos que fomos vencidos. Não sabemos quando, nem como, nem por quem, mas sabemos que fomos vencidos. É verdade que sonhámos que não íamos ser vencidos mas hoje é evidente que esse sonho não fazia sentido. A derrota era inevitável. Toda a gente diz.

Mas isto não é uma crise. Nem é uma simples derrota. Nem sequer é uma guerra. Isto é uma ocupação. Isto é uma ocupação.

Portugal é um país ocupado e não é o único. A presença do ocupante sente-se em cada rua, em cada esquina, em cada casa, em cada olhar. Os cartazes da propaganda do ocupante estão por todo o lado. O ocupante diz nos que estávamos enganados e que temos de pensar de uma outra forma. Que agimos mal e que temos de pensar de uma outra forma. Que estávamos enganados em pensar que tínhamos direitos e temos de abdicar deles porque esses direitos destroem a economia. Que estávamos enganados em pensar que os nossos filhos podiam viver numa sociedade de bem-estar e que temos de os desenganar. Que estávamos enganados em pensar que as desigualdades se iriam reduzindo e que a justiça social era o mais belo dos objectivos. Que estávamos enganados em pensar que a solidariedade era fonte de progresso, quando só a competição entre as pessoas garante o progresso. Que estávamos enganados em defender soluções colectivas, quando a vitória é sempre individual. Quando acreditámos que a saúde podia ser para todos. Quando pensámos que a democracia se exprime pelo voto e no espaço público quando na realidade o poder está no euro , no dólar e nas bolsas. Quando pensámos que as pessoas são mais importantes que o dinheiro. Quando pensámos que havia sempre alternativas.

Isto não é uma crise porque não estamos a corrigir nada do que nos trouxe até aqui. Isto não é uma crise porque não estamos a fazer um sacrifício em nome do futuro. Isto é algo que estamos a ser obrigados a reviver em nome do passado. Isto é apenas o regresso do passado, a vitória que julgávamos ter vencido mas que regressou da tumba. Esta é uma vingança do passado, por nos termos preocupado tanto com o presente que nos esquecemos do futuro. Isto é uma ocupação. Uma ocupação com mais colaboracionistas que resistentes, como todas as ocupações. Colaboracionistas maravilhados com a pujança do ocupante, com a sua filosofia hegemonista, com a sua musculada e sadia visão do mundo, com um mundo de eficiência e sem parasitas. Sem sindicatos e sem esquerdistas. Sem solidariedade e com total obediência aos chefes e ao serviço dos mais ricos.

Só que não é possível viver assim. E apesar de tudo há alternativas. A alternativa é procurar sempre e incansavelmente a alternativa, sem sacrificar nada do que nos é caro.»
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28.9.11

Atenas, onde se ri de desespero


«Ela ri-se. Ainda se encontram pessoas que riem nos cafés. Muitos cafés estão cheios. Ir ao café é um acto de rebelião, contra estes dias que nos enlouquecem, contra estas manhãs em que sabemos, mal abrimos os olhos, que estamos um pouco mais enterrados no buraco em que sentimos aumentar o pânico. Estão sentados à frente de uma chávena de café ou de um copo de água, muitas vezes durante horas, o olhar preso a esta cidade que lhes é cada vez mais estranha e a este país que lhes escapa. “Vocês, os alemães, vão apanhar cogumelos para a floresta”, diz Ersi Georgiadou, “Nós vamos ao café. É a única coisa que nos resta”.»

(De uma reportagem publicada em Presseurop)
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Varandas


Já mostrei aqui uma ou outra mas insisto: em Baiku, são todas lindíssimas!




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Dois em um


1. Alguém sabe o que anda a fazer este senhor?

2. Se assim é, pouco há a fazer:


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Maioria Silenciosa


Em 28 de Setembro de 1974, o país estava agitadíssimo. Desde as primeiras horas da manhã, dezenas de grupos de militantes paravam e revistavam carros de quem, hipoteticamente, se dirigia a Lisboa para a chamada Manifestação da Maioria Silenciosa – uma iniciativa de apoio ao general Spínola, convocada dias antes por cartazes que invadiram a cidade.

Os sinais públicos de ruptura crescente entre o presidente da República e o governo de Vasco Gonçalves e o MFA tinham sido mais do que evidentes, dois dias antes, durante uma tourada organizada pela Liga dos Combatentes no Campo Pequeno, na qual Spínola foi aplaudido e Vasco Gonçalves apupado.

A Manifestação do dia 28 não chegou a realizar-se porque o COPCON prendeu na véspera cerca de setenta pessoas suspeitas de estarem ligadas à iniciativa e pelas actividades populares acima referidas. E Spínola acabou por pedir a demissão em 30 de Setembro, tendo sido substituído na presidência da República por Costa Gomes.

Num vídeo da RTP (minutos 33:29 a 45:10, sobretudo a partir de 37:00), percebe-se bem o contexto e vêm-se – ou revêem-se – todos os acontecimentos acima referidos.
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27.9.11

Quem apoia



… o pedido de adesão da Palestina à ONU.

Daqui.
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Livraria Barata: da PIDE até à ASAE


Foi com um sorriso que li a notícia: um tribunal acabou de absolver a Livraria Barata, libertando-a do pagamento de uma coima de 4.000 euros, que lhe tinha sido aplicada depois de uma fiscalização da ASAE, efectuada em 2007. Por que crime? «Os clientes não conseguiam ver os preços dos artigos expostos na montra.»

Longe de mim desrespeitar a Autoridade em questão, considerar que não é importante ver-se à distância os preços do que se pretende eventualmente comprar, ou defender a «criminosa» utilização de colheres de pau ou de velhos galheteiros em tascas e restaurantes…

Mas a Livraria Barata é um ícone e de ícones «é feita a vida da gente». Fundada em 1957, instalada já então na sua actual localização, na Avenida de Roma em Lisboa, mas em pouco mais do que um vão de escada, ela foi um dos alvos permanentes (julgo mesmo que o principal) das brigadas da PIDE na «recolha» sistemática de livros indesejados pelo regime. Nacionais ou estrangeiros, mais de 4.000 títulos desapareceram dos escaparates durante o Estado Novo.

O seu fundador – o  Sr. Barata – era um caso especial na cidade: não se limitava a esperar a chegada dos agentes, escondia os exemplares que podia e vendia-os, tanto quanto me lembro semi-embrulhados, a quem chegava a tempo de ainda os encontrar.

Recordo, como se estivesse a revivê-lo hoje, um episódio absolutamente típico: num fim de tarde de 1972, espalhou-se no Vavá a informação de que Le Portugal baillonné, que Mário Soares acabara de publicar em Paris, tinha chegado à Barata. Porque nos separavam da livraria poucos quarteirões, partimos em debandada e trouxemos todos os exemplares disponíveis. Hoje ressuscitei o meu, de capa amareladíssima – sem preço marcado...

Claro que a «ASAE» dos livros era muito pior há quarenta anos. Mas a burocracia e a caça à multa têm limites e ainda bem que o Sr. Barata já não estava cá para ser julgado por não mostrar bem os livros – ele que sempre se habituou a ter de os esconder o melhor que sabia e podia.
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Branco é, galinha o põe

Dez ideias para a construção de um novo bloco social



(Contributo dos autores sobre as tarefas com que se defronta o Bloco de Esquerda perante a actual situação nacional e europeia. Divulgado no Facebook.)

1. A esquerda nunca desiste
À esquerda e à direita, multiplica-se uma chantagem com intensos efeitos desmobilizadores: sair do euro é o desastre; o euro é o nosso destino. De forma voluntária ou involuntária, é todo um programa de submissão que se desenha perante o agudizar da crise. Num contexto em que a austeridade patrocinada pelas instituições europeias e pelo FMI intensifica a crise, com a cumplicidade de governos subalternos, a esquerda tem de ter alternativas realistas globais e assumir todas as consequências das suas propostas corajosas para superar a economia da dívida e da inserção dependente, como é o caso da auditoria democrática e da reestruturação da dívida pública por iniciativa das periferias. Uma proposta que envolve necessariamente a perspectiva de incumprimento por parte do Estado Português e cujas implicações a esquerda tem de ter coragem para enfrentar. Só as alternativas globais dão hoje esperança. E só a esperança pode mobilizar uma ampla aliança social e política capaz de construir outro país e outra Europa depois da ruína neoliberal.

2. A derrota da esquerda é o outro nome deste euro
As políticas neoliberais estão inscritas na arquitectura deste euro, nisto todos concordamos. Mas poucos conseguem identificar a responsabilidade central desta arquitectura nos desequilíbrios estruturais que estão na raiz dos ataques especulativos de que somos vítimas, focando-se antes no conjuntural aumento de dívida pública. As políticas neoliberais da troika atacam o salário directo e indirecto, o Estado social, mudam estruturalmente as relações entre as forças sociais, enfraquecem o que faz a força do trabalho organizado – o direito do trabalho, a negociação colectiva, o subsídio de desemprego – e asseguram a captura privada de recursos públicos. Nas periferias, estas políticas e a manutenção de um euro concebido para servir os interesses das economias do centro garantem anos sem fim de desenvolvimento do subdesenvolvimento, de empobrecimento, de atrofiamento das energias vitais das classes populares e de desmobilização, assegurando a derrota permanente de uma esquerda sem alternativas estruturais, sem um projecto hegemónico consistente para a sociedade, agarrada à defesa de serviços públicos sem futuro numa economia cada vez mais medíocre.

3. Sair do euro tem de estar em cima da mesa
A esquerda que propõe a reestruturação da dívida como arma das periferias tem de estar preparada para o cenário de saída do euro num contexto novo, marcado por uma intensa agudização das fracturas entre centro e periferia, acentuado pela acção inconsciente das forças da especulação financeira. A esquerda tem a obrigação ético-política de preparar desde já o país para esse cenário, estruturando propostas robustas que minimizem os seus custos e potenciem os seus benefícios. À esquerda não basta fazer análise. À esquerda mobilizam-se todas as alavancas e trabalham-se politicamente todas as perspectivas, porque a esquerda deve pretender construir um projecto socialista hegemónico para Portugal. Porque a esquerda quer governar.
Recusar, por princípio, um dos mais prováveis cenários que se desenham no horizonte – a saída do euro – é desistir do combate por uma outra economia, por uma outra trajectória para o país. Uma trajectória definida pela criatividade e energia de um amplo bloco social transformador. Os seus adversários são claros: o capital financeiro, os grandes grupos rentistas que com ele estão imbricados e os seus ideólogos, ou seja, os que vivem da expropriação financeira e da pilhagem de bens comuns e os que as legitimam à sombra do liberalismo. Só uma política de alianças que possa vir a incorporar fracções subalternas de grupos sociais por mobilizar, que vão para lá das classes trabalhadoras e que incluem sectores do capital produtivo igualmente afectados pela austeridade recessiva, pode recuperar as capacidades económicas do país e avançar com uma política de re-industrialização, que é parte de um processo mais amplo de modernização económica, ao pressupor uma estreita imbricação com a manutenção e o aprofundamento do Estado social.


26.9.11

As cidades e as Praças (37)


Praça da Cidade Velha, Baku (2011)

(Para ver toda a série «As Cidades e as Praças», clicar na etiqueta «PRAÇAS».)
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Também tivemos a nossa «Primavera»…


Quem já era minimamente «crescido» em 1968 não esquecerá o mês de Setembro em que uma cadeira pôs fim a décadas de salazarismo e um discurso de Américo Tomás deu início ao marcelismo.

Perdidas as esperanças de recuperação do Presidente do Conselho, o da República anunciou ao país que a chefia do governo seria confiada a um outro (embora «mantendo todas as honras» do cargo para o primeiro que, como é sabido, nem sequer foi informado da substituição e se considerou, ou fingiu considerar-se, até ao fim, com as rédeas da Nação).

Américo Tomás falou às 20:00 do dia 26 de Setembro, num discurso absolutamente soturno, como era próprio do seu feitio e adequado às circunstâncias. Extraordinário, no conteúdo e na forma, a 43 anos de distância. A ouvir AQUI.

No dia seguinte, às 17:00, tomou posse o novo governo e começou a chamada «Primavera Marcelista». Do discurso de Caetano, o país reteve uma frase e uma palavra para muitos até então desconhecida: «Não me falta ânimo para enfrentar os ciclópicos trabalhos que antevejo.»

Ciclópicos seriam, de facto, os cinco anos e meio que se seguiram – sobretudo para nós.

(Imagem: Fundação Mário Soares)
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«O medo foi o mestre que mais me fez desaprender»

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Um notável discurso de Mia Couto, a que só agora cheguei.



«E há quem tenha medo de que o medo acabe.»
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Regresso ao futuro


Em Nova Iorque, «acampados» iniciaram concentrações há mais de uma semana (contra o sistema financeiro, a corrupção e a «avareza» das grandes companhias), os membros do movimento «Occupy Wall Street» emitem comunicados, a polícia age com maior ou menor violência, prende dezenas de pessoas – business as usual, portanto.

Mas foi este vídeo (a que cheguei via Helena Romão no Facebook) que me prendeu a atenção:



Num cenário impossível de regresso ao futuro, como gostaria de saber onde e como estará, daqui a uns curtos dez anos, cada uma das pessoas que agora bebe arrogantemente champanhe nas varandas! Talvez acampados, quem sabe…
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25.9.11

No tempo que passa

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Uma pergunta para José Policarpo


Em entrevista ao Jornal de Notícias (que não li na íntegra), o cardeal de Lisboa repete afirmações já proferidas anteriormente, em que não se distancia minimamente do posicionamento do actual governo, dando qualquer tipo de «espaço» para quem se lhe opõe («Se colaborarmos todos, o governo, este ou outro, encontrará soluções mais adaptadas», «temos de aceitar as condições de quem nos empresta», «o protocolo é para ser cumprido», etc. etc.). Mas adiante…

O vídeo disponibilizado na página online daquele órgão de comunicação social (que pode ser visto e ouvido aqui) traz, no entanto, uma novidade: para José Policarpo ninguém sai da política directa «com as mãos limpas».

Reproduzo a afirmação no contexto: «O nosso ministério é de uma natureza, de uma ordem que pode ficar prejudicada se nós nos metermos na política directa como ela é feita hoje. Ninguém sai de lá com as mãos limpas.»

É bem provável que os políticos católicos oiçam (mais) isto com um encolher de ombros… Mas como reagiria o patriarcado se alguém com responsabilidades na sociedade civil dissesse algo como «o nosso ministério é de uma natureza, de uma ordem que pode ficar prejudicada se nós nos metermos na acção directa da Igreja, como ela é feita hoje. Ninguém sai de lá com as mãos limpas»?

É bom ter tento na língua, sobretudo quando existem telhados de vidro.
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Keep calm and carry on?


Julgo que Ana Sá Lopes tem parcialmente razão, na crónica que ontem publicou no jornal «i», quando conclui que os portugueses voltariam a escolher hoje o PSD (colocando-o mesmo no limiar da maioria absoluta) «porque não vêem nenhuma alternativa ao buraco negro» em que se encontram – quase «em guerra», numa «espécie de ocupação e em combate (às vezes passivo) numa guerra da moeda em que podemos acabar todos economicamente mortos». E fazem-no apesar de só considerarem o actual governo «bom» ou «muito bom» numa percentagem relativamente baixa (32%).

Tal como a autora do texto, também não penso que se pronunciem movidos propriamente por masoquismo, mas não excluo, muito pelo contrário, que seja o sentimento de «fatalidade», que sempre nos marcou ao longo da nossa história, um dos principais motores do que está em causa.

O facto é visível em muitos inquéritos de rua sobre os novos «sacrifícios» impostos todos os dias («tem de ser, não é?») e, recuando um pouco, no modo como que foi e é aceite a solução encontrada na presença salvífica de FMI/BCE – vista, e votada, como inevitável.

Nem a corrida para o abismo da Europa em geral, e da Grécia em particular, parece abalar o nosso «fado» e a maioria dos portugueses parece continuar a pretender caminhar num túnel sem qualquer sombra de luz e a votar em quem nele nos manterá.

Até quando?
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Os votos da direita piedosa


... nos EUA, claro.

(Salmo 109:8 - «Sejam poucos os seus dias e outro tome o seu ofício.»)
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24.9.11

Viver na «dividocracia»


É explicado como se fôssemos a tal criança de 4 anos, mas não se perde nada com isso.



Daqui
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Paradoxos


(Via Helena Romão no Facebook)
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23.9.11

As Cidades e as Praças (36)


Praça Registan, Samarcanda (2011)

(Para ver toda a série «As Cidades e as Praças», clicar na etiqueta «PRAÇAS».)
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Do mau exemplo


Talvez por estar fora de Portugal, escapou-me o motivo da visita de Cavaco aos Açores. Como me escapa também a justificação para o que leio hoje no Público (sem link): acompanham-no Maria Cavaco Silva e mais de 30 pessoas, entre as quais não só «quatro assessores, dois consultores, um para os assuntos políticos e outro para a comunicação social, e cerca de uma dúzia de elementos do corpo de segurança, entre eles dois sargentos, um tenente-coronel, um subintendente e cinco agentes principais», mas também «dois fotógrafos oficiais, um médico pessoal, uma enfermeira, dois bagageiros e até um mordomo».

30 pessoas? Bagageiros? Mordomo???

Ainda: Nunes Liberato, também levou a mulher. E a minha alma pergunta, a quem souber responder-me, se a esposa do chefe da casa civil do PR tem lugar previsto no protocolo de Estado.

Prevejo o argumento: todos os predecessores de Cavaco fizeram o mesmo, quem não se lembra das comitivas de Soares e de Sampaio? Mas isso era no tempo em que a pátria era formosa e bela, quando o FMI era receita para argentinos e outros sul-americanos e as vacas talvez não sorrissem a olhar para os prados, mas ainda não tinham emagrecido. Agora, em Setembro de 2011, é incompreensível e inaceitável. Ponto.
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Clara como água e certeira


… a crónica de Nuno Ramos de Almeida, no «i» de ontem:

Doces mentiras

Pedro Passos Coelho disse numa entrevista à RTP que Portugal poderia precisar de um segundo pacote de "ajuda" da troika se a Grécia entrasse em incumprimento. Aníbal Cavaco Silva apressou-se a desmentir o primeiro-ministro, garantindo que, caso Portugal cumprisse o Memorando da troika, acontecesse o que acontecesse à Grécia, o país não precisaria de mais empréstimos da troika. A situação é curiosa. Como se contava numa velha anedota sobre dois dignitários do antigo regime, ambos têm razão apenas quando dizem que o outro não tem razão. Vamos por partes: Passos Coelho mentiu porque independentemente do que acontecer à Grécia Portugal vai sempre precisar de novos empréstimos. Se nos cobram juros de 6% e nos obrigam a uma política de austeridade que provoca uma recessão de 2%, o país vai chegar ao fim do período do empréstimo a dever mais do que na altura em que recebeu os 80 mil milhões de euros da troika. Para isso não acontecer precisávamos de crescer a uma taxa de mais de 5% ao ano. Nessa altura, das duas uma: ou nos emprestam mais dinheiro para pagar os juros e encargos do empréstimo anterior ou entramos em incumprimento. Já Cavaco mentiu quando garantiu que se cumprirmos as condições da troika não precisamos de novo empréstimo. É exactamente porque as estamos a cumprir que vamos entrar numa recessão profunda. E é exactamente por as cumprimos que precisaremos de novos empréstimos e a médio prazo entraremos em incumprimento. O nosso problema, e o europeu, é sobretudo de desenvolvimento. Infelizmente isso só se resolve como uma política diferente na Europa.
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Hoje, 23


Este ano, até o Verão nos foi cortado pelas troikas. Bem-vindo Outono, não nos limitaremos a ramasser les feuilles mortes.
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22.9.11

Com dedicatória, evidentemente

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Jamais sur terre il n'y eut d'amoureux
Plus aveugle que moi dans tous les âges
Mais faut dire que je m'était creuvé les yeux
En regardant de trop près son corsage.

Une jolie fleur dans une peau de vache
Une jolie vache déguisée en fleur
Qui fait la belle et qui vous attache
Puis, qui vous mène par le bout du coeur.


Le ciel l'avait pourvue des mille appas
Qui vous font prendre feu dès qu'on y touche
L'en avait tant que je ne savais pas
Ne savais plus où donner de la bouche.

Une jolie fleur dans une peau de vache
Une jolie vache déguisée en fleur
Qui fait la belle et qui vous attache
Puis, qui vous mène par le bout du coeur.

Elle n'avait pas de tête, elle n'avait pas
L'esprit beaucoup plus grand qu'un dé à coudre
Mais pour l'amour on ne demande pas
Aux fille d'avoir inventé la poudre.

Une jolie fleur dans une peau de vache
Une jolie vache déguisée en fleur
Qui fait la belle et qui vous attache
Puis, qui vous mène par le bout du coeur.

Puis un jour elle a pris la clef des champs
En me laissant à l'âme un mal funeste
Et toutes les herbes de la Saint-Jean
N'ont pas pu me guérir de cette peste.

Je lui en ai bien voulu mais à présent
J'ai plus de rancune et mon coeur lui pardonne
D'avoir mis mon coeur à feu et à sang
Pour qu'il ne puisse plus servir à personne.

Une jolie fleur dans une peau de vache
Une jolie vache déguisée en fleur
Qui fait la belle et qui vous attache
Puis, qui vous mène par le bout du coeur.
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Ceci n’est pas un pays


Depois de ler, ainda no Azerbaijão, as hilariantes reflexões de Cavaco sobre vacas sorridentes e prados verdejantes, é Manuel António Pina que me ajuda, já em Lisboa, a interpretar a mensagem:

«O país ficou a saber o que o PR pensa não só sobre a Madeira mas também sobre os demais problemas que afligem os portugueses e mantêm o país em estado de alerta laranja: "Ontem eu reparava no sorriso das vacas, estavam satisfeitíssimas olhando para o pasto que começava a ficar verdejante".

Trata-se de uma tomada de posição enigmática mas que, devidamente decifrada, decerto tranquilizará os portugueses: quem sabe se "vacas" não será uma metáfora de "mercados" e se o "pasto que começava a ficar verdejante" não significará a diminuição do défice ou que o ministro Álvaro irá finalmente aparecer numa manhã de nevoeiro?

Ganha assim sentido o misterioso conceito de "magistratura activa" que Cavaco não se cansou de prometer aos portugueses durante a sua campanha eleitoral.»


Mas não fica tudo esclarecido: resta explicar esta fixação de Cavaco Silva nas simpáticas bovinas. Algum psicólogo de serviço?

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É que realmente!
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21.9.11

Ide e lede

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Este belo texto do Luís Januário, no «i» de hoje:

A rentrée no tempo dos cartuchos
Os rapazes às vezes esquecem-se das meninas em troca de um jogo ou de uma briga. Era assim no tempo dos cartuchos, dos vinis, das K7, dos CD. É assim no tempo dos iPods.

Na íntegra, aqui.
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Em jeito de balanço


Já na ponta final da viagem, quase a deixar o Azerbaijão, todo o meu espanto vai para o culto da personalidade de Heydər Əlirza oğlu Əliyev, pai do actual presidente e quem primeiro tomou as rédeas do país depois da independência, em 1991 - omnipresente em estátuas, nomes de teatros, títulos de jornais, iniciativas socioculturais, etc., etc., etc. «Nós chamamos-lhe avô», diz-me uma das poucas empregadas do hotel que fala inglês.

Para além de todo o resto, presidência hereditária, portanto (mas onde é que já vimos este filme?...) Este país ainda não aprendeu o que devia nem se libertou da história recente, entrou (e de que maneira…) no consumismo e não fez desaparecer o resto. De certo modo, parece estar a querer guardar o pior de dois mundos!

No fim de mais uma das minhas jornadas, e deixando Istambul entre parêntesis porque é um caso especial, o meu conselho a potenciais viajantes é que incluam o Uzbequistão nas agendas (e rapidamente, antes que grandes invasões turísticas encham o Registan de Samarcanda como a Praça de S.Marcos em Veneza), mas que se sintam dispensados de vir a Baku, a não ser que fique mesmo em caminho ou que negoceiem em petróleo. A cidade é agradável, mas não mais do que isso, e ne vaut pas le détour, como rezam os velhinhos Guias Michelin.

Amanhã… será o inevitável regresso.
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Agenda (2)

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20.9.11

Em terra azeri


O que há de mais agradável em Baku são os prédios, tanto na zona comercial recente, cheia de parques e com belíssimas zonas reservadas a peões, como dentro das muralhas da velha fortaleza. Nada convencionais, de arquitectura variada mas leve, com grandes varandas, de ferro ou de madeira. Uma excelente surpresa, confesso.

Quanto ao resto, repito que se «respira» dinheiro, do petróleo e não só, e nada se perdia se não houvesse tantos polícias por metro quadrado, nem tantas fotografias do presidente (por todo o lado, até nos hotéis), reeleito em 2008 com percentagem de votos absolutamente coreana (e que, ainda por cima, faz lembrar Berlusconi…). Pelo menos à primeira vista, as pessoas estão longe de ter a amabilidade dos uzebeques e encontrar alguém que fale inglês é quase o mesmo que descobrir agulha em palheiro.

Em termos de direitos humanos, estamos conversados: o Azerbaijão foi declarado um Not Free Country no plano político e no de liberdades civis.

Quando e como evoluirá tudo isto? Nem sonho.
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Agenda

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19.9.11

Parece que foi ontem

De mar a mar


De Istambul a Baku, do Bósforo ao Cáspio.

Voltarei um dia à Turquia, com muito mais tempo, desta vez a visita foi apenas um «desvio» no caminho da Rota da Seda. Como um outro desvio, o último, é esta paragem na capital do Azerbaijão.

Cheguei portanto a um dos reinos do petróleo (no início do século XX, este país produzia metade do que o mundo consumia…), mais recentemente também do gás natural, em pleno boom, visível assim que se sai do aeroporto: por todo o lado, constrói-se e recupera-se, diga-se de passagem, com bom gosto e aparente qualidade em termos arquitectónicos. Uma bela marginal junto ao Cáspio, jardins, um gigantesco centro comercial, lojas de tudo quanto é griffe, mulheres de mini (micro) saias e altamente «produzidas». Dinheiro não faltará e, por exemplo no ano de 2006, o PIB cresceu… 36%.

Ainda pouco vi mas as primeiras impressões são positivas, esquecendo o trânsito que é fabulosamente caótico e impróprio para cardíacos. Para quem conheça, uma excelente síntese de Nápoles e Calcutá.

Oficialmente, estou na Europa. Não parece.
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18.9.11

Pardon my French


(Gui Castro Felga no Facebook)
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Por aqui, a Oriente


Algumas horas no Palácio de Topkapi, que foi residência oficial dos Sultões Otomanos durante 400 anos e que é hoje um fabuloso museu, deram para ver uma nem sei que pequeníssima percentagem dos tesouros que guarda. Não apenas porque são muitos, num belíssimo espaço que é património da UNESCO, como também porque as filas para entrar em qualquer sala eram longuíssimas! Nada de espantar, embora um pouco assustador, quando se sabe que o museu é visitado por mais de um milhão de pessoas por ano e que a época alta de turismo ainda não acabou.

As ruas de Istambul são hoje, Domingo, um festival de multidões, com os bazares fechados, mas comércio de todo o género em tudo o que é esquina – em pleno império da contrafacção, by the way

Nenhumas saudades da pátria, mas um pouco «abafada» por dez dias rodeada de Islão por toos os lados. Mas isso fica para utras conversas.
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