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28.1.12

Bloqueado(s)

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Indignados, mas…


«É um fenómeno curioso: o país ergue-se indignado, moureja o dia inteiro indignado, come, bebe e diverte-se indignado, mas não passa disto.Falta-lhe o romantismo cívico da agressão. Somos, socialmente, uma colectividade pacífica de revoltados.»

Miguel Torga
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Não a ACTA

@Gui Castro Felga

* Tudo explicado aqui:



* 22 países da União Europeia (Portugal incluído) já aderiram a ACTA.

* Uma petição:
To all Members of the EU Parliament:
As concerned global citizens, we call on you to stand for a free and open Internet and reject the ratification of the Anti-Counterfeiting Trade Agreement (ACTA), which would destroy it. The Internet is a crucial tool for people around the world to exchange ideas and promote democracy. We urge you to show true global leadership and protect our rights.
A assinar aqui:
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Grécia: dias decisivos e no pior sentido


Ontem ainda havia quem não quisesse acreditar que a Grécia estava achegar ao «fim da linha». Mas parece que se confirma que este está pelo menos muito mais próximo.

Serão impostas duas condições para que o Eurogupo dê luz verde ao novo pacote de resgate:

«A primeira é que os rendimentos do estado grego dêem total prioridade ao pagamento futuro do serviço da dívida» e que só o que resta possa «ser usado para financiar os gastos primários». Tem-se a noção do que isto implica? 

«A segunda que o parlamento grego transfira a soberania sobre o orçamento do país» para o nível europeu, onde um comissário nomeado pelo Eurogrupo terá «poderes para vetar decisões e assegurar que é cumprida a prioridade estabelecida na primeira condição».

Para os especialistas, fica a análise detalhada de todas as implicações. Para nós, a indignação e a reacção possíveis. E a resistência também, porque seremos, mais do que provavelmente, os senhores que se seguem e que já se encontram na fila de espera.

Fonte

P.S. - Grécia recusa ceder soberania orçamental
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Portugal visto pelos russos

(Clicar para ver)

Portugal = Benfica? Perfeito...
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27.1.12

Antes que o dia acabe

Pobres e menos bem cheirosos?


Quando estudei na Bélgica, nos idos de há muito tempo, morava num lar universitário feminino que albergava quatro ou cinco dezenas de estudantes: algumas belgas, outras das mais variadas nacionalidades, sobretudo vindas da Europa mais a Norte.

Cada quarto tinha um lavatório, mas os duches estavam todos concentrados numa cave. Não eram muitos para tanta gente, o que estava longe de constituir um problema: se ouvia água a escorrer quando passava a porta, perguntava sistematicamente «quem está aí?», em português bem vernáculo, porque era mais do que provável que se tratasse de alguma das outras duas portuguesas ou três brasileiras que por lá viviam. Todo o resto da turma descia uma vez por semana, se…

Vem isto a propósito da «crise». Se há décadas que muitos portugueses (e outros povos do Sul…) passaram progressivamente do banho ao Domingo e dias de festa para um rápido duche diário, oiço agora que a necessidade de reduzir gastos de água e de gás está a levar famílias a regressarem a velhos hábitos mais «europeus»: duas ou três vezes por semana e viva o velho…

Além de pobres, mal cheirosos? Não vem no memorando, nem a troika nem Vítor Gaspar tiveram ainda coragem para impor, mas parece que estamos a caminho.

Para já, é certamente mais uma hipótese de poupança que a família Cavaco Silva não menosprezará.
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A «apara-relvas»


Segundo Bruno Nogueira. Já ganhei o dia.
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Holocausto


O campo de concentração de Auschwitz foi libertado há 67 anos.

* Um excelente site a visitar:

* Mensagem do Secretário-geral da ONU para o dia de hoje, este ano dedicado às crianças:




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Solidariedades


Luís Sepúlveda, esta noite, no Facebook:

«Un abrazo solidario a mis amigos y compañeros periodistas de RTP. El gobierno portugués atenta contra la dignidad de los trabajadores de RTP, contra la libertad de prensa, contra el derecho de los ciudadanos a estar informados. Con la infame política de recortes, con el pretexto de "recuperar la confianza de los mercados", miserable eufemismo para despedir a todos los periodistas críticos de Portugal. Y que elocuente es que hayan empezado con los periodistas de cultura.
Toda mi solidaridad con los compañeros y compañeras de RTP.»
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26.1.12

Proibicionismos galopantes


Mais um estudo, mais especialistas que «defendem que o Estado deve proibir que se fume dentro dos carros», para diminuir riscos de acidentes (porque fumar distrairia tanto como falar ao telemóvel...) e proteger as crianças do fumo passivo.

Quanto ao primeiro objectivo, tenho as maiores dúvidas: a carência de nicotina pode tornar-se muito obsessiva e desviar a atenção de todos os obstáculos.

Quanto à protecção do fumo passivo, já são muitos os que abrem a janela quando acendem o cigarro, escolhendo entre a constipação da criancinha de 5 anos e o remorso de contribuir para um eventual cancro aos 70.

Mas aquilo que não sei, e gostava mesmo de saber, é se aqueles que defendem este proibicionismo à outrance são, ou não, os «liberais» que consideram que os pais têm o direito de tudo decidir (até a escola privada que querem para os filhos e que o governo deveria pagar) e que repudiam a intervenção do Estado em (quase) todas as áreas da sociedade.


P.S. – Claro que a imagem é uma provocação: cartazes antigos de propaganda a cigarros…
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Da magistratura de influência à magistratura de indecência


Eu bem queria arrumar a questão das desgraças de Cavaco, mas não consigo. Li a alguns amigos pequenos excertos da crónica de Ricardo Araújo Pereira, na Visão de hoje, e, a pedido de várias famílias, deixo um parágrafo para abrir o apetite e o texto na íntegra AQUI.

«Muita sorte temos nós. Este tipo de idoso costuma passar das queixas sobre a reforma para outro género de lamúrias. O admirável esforço de contenção de Cavaco, que limitou os lamentos à pensão, e não os estendeu às varizes e ao colestrol, não foi valorizado.»
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Da série: grandes títulos

Comunicado da Comissão de Trabalhadores da RTP sobre o caso «Este Tempo»


"NÃO BASTA SÊ-LO, É PRECISO PARECÊ-LO

A decisão de acabar com o programa da Antena 1 "Este Tempo" suscitou generalizadas acusações de censura contra a RTP. O director geral da RTP rebateu estas acusações, alegando que o fim do programa já estava previsto e não constitui, portanto, uma retaliação contra as críticas que aí emitiu o colunista Pedro Rosa Mendes (PRM) sobre o programa "Reencontro" de Fátima Campos Ferreira. PRM retorquiu que nas últimas semanas estava em discussão a alteração do formato jurídico do seu contrato, mas nunca se anunciara a intenção de acabar com o programa. E afirma que a decisão de acabar com o mesmo lhe foi comunicada como reação à sua crónica sobre "Reencontro".

No meio desta polémica, um primeiro ponto pode estabelecer-se como coisa certa: a RTP fez uma triste figura e alimentou, no mínimo, uma suspeição de censura que mesmo o desmentido do director geral não consegue dissipar inteiramente. Supondo que fosse falso tudo o que diz PRM sobre os preparativos para uma renovação dos contratos de "Este Tempo", e que o fim do programa estivesse efectivamente previsto, pergunta-se: e ao dar a machadada final no programa não se percebeu como essa decisão, neste momento e neste contexto, só podia ser vista como censória? E não se percebeu como a acusação de censura lesava a imagem da rádio pública? E não se percebeu como esses estragos na imagem da RDP se tornavam duplamente graves na sequência dos estragos que o programa "Reencontro" tinha deixado no prestígio da televisão pública?

E este é o segundo ponto que pode considerar-se estabelecido para além de qualquer dúvida razoável: ao escamotear a realidade angolana, o programa "Reencontro" deu, afinal, execução e cumprimento às recomendações de um relatório que a abominação pública parecia ter relegado, merecidamente, para o caixote do lixo da História - o relatório Duque. Nesse documento expendia-se a ideia peregrina de que a RTP devia tornar-se uma agência de comunicação do MNE. O programa "Reencontro" veio mostrar que o defunto relatório continua, por trás dos bastidores, bem mais vivo, perigoso e nefasto do que o clamor de repúdio da opinião pública parecia permitir.

Admitindo que sejam certas as explicações dadas pelo director geral da RTP, fica ainda uma outra questão por esclarecer: em que concepção de futuro para a rádio e a televisão públicas se inscreve a decisão de acabar com o programa "Este Tempo"? Damos por suposto que não se tomam nesta casa decisões avulsas e que cada passo pontual corresponde a uma estratégia de maior fôlego - ou seria adiado até existir essa estratégia, com a vantagem adicional de ser dado em momento mais oportuno e sem o estigma desta aparência atentatória da liberdade de expressão. Ora, se existe uma estratégia já delineada, então está-se a proceder a uma reestruturação clandestina, evitando chamá-la pelo seu nome e evitando pôr as cartas na mesa. Talvez por isso, esta CT continua sem ser ouvida sobre o dito processo de reestruturação, como a lei determina.

Lisboa, 25 de Janeiro 2012
Comissão de Trabalhadores da RTP

(Via Joaquim Paulo Nogueira no Facebook)
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25.1.12

Aceitar / Não aceitar


«Creio que, desde muito pequeno, a minha infelicidade e, ao mesmo tempo, a minha felicidade, foi não aceitar as coisas com facilidade. Não me bastava que explicassem ou afirmassem algo. Para mim, ao contrário, em cada palavra ou objecto começava um itinerário misterioso que às vezes me esclarecia e às vezes chegava a estilhaçar-me.

Em suma, desde pequeno, a minha relação com as palavras, com a escrita, não se diferencia de minha relação com o mundo no geral. Eu pareço ter nascido para não aceitar as coisas tal como me são dadas.»

Julio Cortázar
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Uma bela sugestão

Sempre é mais divertido do que assinar Petições! Um grupo de internautas belgas pôs o governo à venda na Ebay – «para sucata / não funciona».

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Coragem


«"Corajosos" são hoje os que, humilhados e ofendidos, sobrevivem sem ceder à tentação da servidão; os que não traem por um prato de lentilhas ou uma assessoria; e todos aqueles (jornalistas, magistrados, funcionários, cidadãos em geral) que, em tempos de debandada moral, teimam, apesar de tudo, em manter-se inteiros.»

A última crónica de Pedro Rosa Mendes na Antena 1, hoje, foi também sobre coragem. A propósito do genocídio no Cambodja e da democracia em Portugal. Muito mal vai um país que (já) cala esta voz.



«Tenho para mim que as escolhas limite se fazem todos os dias, no nosso quotidiano, e duvido muito que quem vive de espinha dobrada em tempo de paz, em tempo feliz como é – já nos esquecemos – o tempo democrático, seja capaz de endireitar a espinha em tempos difíceis.»
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Desobediência civil

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«A desobediência é um acto tão difícil de realizar que a História pôs sempre em evidência os indivíduos, célebres ou desconhecidos, que ousaram assumi-la. Os que souberam erguer-se contra os regimes totalitários e os políticos segregacionistas. São todos heróis do mundo moderno.

A desobediência é um acto individual que tira a sua força da capacidade dos homens têm de trabalhar em comum. A desobediência abre a via para a resistência colectiva e, neste sentido, ela é um perigo para todo o poder que abusa da sua autoridade.».
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24.1.12

Monstros sagrados


Por causa de uma entrevista feita a François Truffaut em 1962, encontrada mais ou menos por acaso, «regressou» um  filme que nunca esqueci – Jules et Jim. E uma canção  extraordinária!




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Está confirmado: na RDP não se brinca às democracias

(Clicar para ler)

Ontem era um boato que corria insistentemente, agora é notícia: «RDP acaba com espaço de opinião que serviu de palco a críticas duras a Angola». «Foi-me dito que a próxima seria a última porque a administração da casa não tinha gostado da última crónica sobre a RTP e Angola», diz Pedro Rosa Mendes.

Vale a pena ouvir a crónica em questão e também a última que Raquel Freire fez hoje no mesmo espaço: «Good Night and Good Luck»

E apertemos os cintos porque a procissão ainda vai no adro e este governo não é manso.

P.S. - A ler, no Abrupto, vários posts de José Pacheco Pereira a propósito deste assunto.
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Quando a necessidade aguça o engenho


O Jornal de Negócios anunciou ontem que, num só ano, desapareceram do IRS 111 mil crianças dependentes para efeitos fiscais, o que leva a crer que um elevadíssimo número de famílias incluía filhos inexistentes nas declarações (o que é agora dificultado por ser exigido o número de contribuinte).

Ferreira Fernandes avança hoje uma interpretação mais antropofágica: «uma criança saudável na idade de um ano é um alimento delicioso, nutritivo e são».

Por outro lado, soube-se há algum tempo que os gregos não davam baixa dos seus mortos para continuarem a receber as respectivas pensões de reforma, o que cá não é fácil porque a cadeia de informações está bem oleada.

Mas há uma alternativa possível, a concretizar numa espécie de declaração anti-eutanásica. Como é sabido, muitos avós têm pensões boas ou razoáveis, muito acima das que os filhos algumas vez terão e que os netos nem vão saber que existiram. Que dêem o seu acordo para que os descendentes os congelem quando o fim parecer iminente – «vivos» continuarão e a contribuírem para o bem-estar dos seus. Na maior das legalidades.

Macabro? Olhem que não... A realidade não ultrapassa já o que alguma vez pensámos ficcionar?
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23.1.12

Rapidamente e em força


… outra vez, 50 anos depois?



Mas, também agora, isto parece não estar a correr muito bem: "Portugal está a exportar o seu desemprego para Angola".
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À dra. Cristas, cristãmente


A crónica de Clara Ferreira Alves, publicada na Revista do Expresso do último Sábado, é uma delícia e não pode andar por aí perdida.

Fica o primeiro parágrafo, apenas como isco para a leitura na íntegra, que pode ser feita AQUI.

«À atenção benemérita da dra. Cristas
Noutras circunstâncias jamais me dirigiria a Vexa, que na sua tenra idade, e para as gerações do meu tempo, seria o que consideraríamos, com alguma soberba própria dos grandes gerontes, uma estagiária nas primícias. Sendo Vexa um membro de pleno direito e potestade deste Governo de ilustres, apesar da tenra idade, a Vexa me dirijo com alguma humildade e pondo-me ao dispor.»
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É bom irmos festejando


… o ano do Dragão (de água), que hoje começa. Em 2012, ainda houve feriado de 1 de Janeiro, em 2013 não sabemos.
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Infância roubada


Quando se abre um jornal logo pela manhã, e se lê uma notícia como esta, é impossível não ficar com o resto do dia completamente estragado.

Estima-se que 215 milhões de crianças trabalhem no mundo (61% na Ásia) e, dada a actual crise mundial, o objectivo de as retirar de empregos perigosos, até 2016, é agora uma quimera.

«“Además, la población considera el trabajo infantil como algo normal”, explica Rose Anne Papavero, responsable del programa de protección a la infancia de Unicef en Bangladesh. “Esta razón también hace que los niños que trabajan sean invisibles de cara a la sociedad. Nadie habla de ellos, y mucho menos se plantea si el trabajo que desempeñan los condena a un futuro de pobreza. No abogamos por la erradicación del trabajo infantil, pero sí creemos que se debe garantizar la escolarización de los niños como apuesta por el futuro. Y es que ni siquiera se debate sobre si sus condiciones laborales son dignas. Avanzar en estas condiciones es casi imposible”.

Sin embargo, un plan piloto de la propia Unicef ha demostrado que erradicar la miseria no sólo es posible, sino que resultaría relativamente barato.»
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22.1.12

Elegia 1938

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(Via Helena Romão no Facebook)
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Cavaco é mesquinho, ponto


Posso ter acordado hoje com pouco sentido de humor, mas a verdade é que não consigo rir com a Petição online, dirigida «aos cidadãos portugueses», em que os signatários (1.568 no momento em que escrevo) «pedem a sua imediata demissão [de Cavaco Silva] do cargo de Presidente da República Portuguesa». E digo que não consigo rir porque só entendo a iniciativa como mais uma brincadeira, a juntar a caricaturas, montagens fotográficas, etc., etc., que, nos últimos dias, inundaram a net.

Mas parece-me que há quem a leve a sério e talvez valha a pena fazer alguns comentários:

1- Nem «os cidadãos portugueses», nem quaisquer outros, podem demitir o presidente da República: só o próprio pode renunciar ao mandato (Artº 131 da Constituição) ou ser destituído do cargo por crimes exercidos no cumprimento da sua função, após condenação pelo Supremo Tribunal de Justiça (Artº 132).

2- As Petições são bons instrumentos de protesto e de expressão cidadã e julgo que é pena usá-las mal.

3- Não sei se não está subentendida a convicção de que Cavaco Silva está diminuído mentalmente – hipótese que corre nas redes sociais e que me parece totalmente descabida –, mas, se assim é, dirija-se um apelo à Ordem dos Médicos ou a um grupo de psiquiatras e neurologistas para que se pronuncie, com os dados histriónicos disponíveis…

Finalmente: se os portugueses conhecem Cavaco no poder há décadas, se o tiveram como PR durante os cinco anos de um primeiro mandato, e o elegeram para um segundo à primeira volta, sem perceberem que a sua principal característica é a mesquinhez, seguida pela mesquinhez e a terminar na mesquinhez, agora, em princípio, vão ter de o aguentar mais uns anos, a não ser que contratem uns jagunços que se infiltrem em Belém para o liquidarem. Aprendam! E recebam-no com muitas vaias, como em Guimarães, o que é muito mais interessante do que assinar uma petição!

Mesquinhez, sim. Para mim, o «retrato» está feito desde há muito. Recorde-se, a título de exemplo, aquilo que, há pouco mais de um ano, fez correr tanta tinta: em 1967, ao ter de preencher, na PIDE, uma ficha que lhe daria acesso a determinados documentos reservados que pretendia consultar, Cavaco acrescentou, por sua exclusiva iniciativa e sem que ninguém lhe perguntasse, que «O sogro casou em segundas núpcias com Maria Mendes Vieira com quem reside e com quem o declarante não priva.»

Aos 28 anos, era já este Cavaco, moralista e mesquinho. Esperava-se que fosse exactamente o quê, com 72?
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São demasiado pobres os nossos «ricos»


«Rico é quem gera dinheiro, dá emprego. Endinheirado é quem simplesmente tem dinheiro. Ou que pensa que tem. Porque, na realidade, o dinheiro é que o tem a ele. A verdade é esta: são demasiado pobres os nossos "ricos". Aquilo que têm, não detêm. Pior, aquilo que exibem como seu é propriedade de outros. É produto de roubo e de negociatas. Não podem, porém, estes nossos endinheirados usufruir em tranquilidade de tudo quanto roubaram. Vivem na obsessão de poderem ser roubados.

Necessitariam de forças policiais à altura. Mas forças policiais à altura acabariam por os lançar a eles próprios na cadeia. Necessitariam de uma ordem social em que houvesse poucas razões para a criminalidade. Mas se eles enriqueceram foi graças a essa mesma desordem.

O maior sonho dos nossos novos-ricos é, afinal, muito pequenito: um carro de luxo, umas efémeras cintilâncias.

Mas a luxuosa viatura não pode sonhar muito, sacudida pelos buracos das avenidas. O Mercedes e o BMW não podem fazer inteiro uso dos seus brilhos, ocupados que estão em se esquivar entre chapas muito convexos e estradas muito côncavas. A existência de estradas boas dependeria de outro tipo de riqueza Uma riqueza que servisse a cidade. E a riqueza dos nossos novos-ricos nasceu de um movimento contrário: do empobrecimento da cidade e da sociedade.

As casas de luxo dos nossos falsos ricos são menos para serem habitadas do que para serem vistas.

Fizeram-se para os olhos de quem passa. Mas ao exibirem-se, assim, cheias de folhos e chibantices, acabam atraindo alheias cobiças. O fausto das residências chama grades, vedações electrificadas e guardas privados. Mas por mais guardas que tenham à porta, os nossos pobres-ricos não afastam o receio das invejas e dos feitiços que essas invejas convocam.

Coitados dos novos ricos. São como a cerveja tirada à pressão. São feitos num instante mas a maior parte é só espuma.

O que resta de verdadeiro é mais o copo que o conteúdo. Podiam criar gado ou vegetais. Mas não. Em vez disso, os nossos endinheirados feitos sob pressão criam amantes. Mas as amantes (e/ou os amantes) têm um grave inconveniente: necessitam ser sustentados com dispendiosos mimos. O maior inconveniente é ainda a ausência de garantia do produto. A amante de um pode ser, amanhã, amante de outro. O coração do criador de amantes não tem sossego: quem traiu sabe que pode ser traído.

Os nossos endinheirados-às-pressas não se sentem bem na sua própria pele.

Sonham em ser americanos, sul-africanos. Aspiram ser outros, distantes da sua origem, da sua condição. E lá estão eles imitando os outros, assimilando os tiques dos verdadeiros ricos de lugares verdadeiramente ricos. Mas os nossos candidatos a homens de negócios não são capazes de resolver o mais simples dos dilemas: podem comprar aparências, mas não podem comprar o respeito e o afecto dos outros. Esses outros que os vêem passear-se nos mal-explicados luxos. Esses outros que reconhecem neles uma tradução de uma mentira. A nossa elite endinheirada não é uma elite: é uma falsificação, uma imitação apressada.

A luta de libertação nacional guiou-se por um princípio moral: não se pretendia substituir uma elite exploradora por outra, mesmo sendo de uma outra raça. Não se queria uma simples mudança de turno nos opressores.

Estamos hoje no limiar de uma decisão: quem faremos jogar no combate pelo desenvolvimento? Serão estes que nos vão representar nesse relvado chamado "a luta pelo progresso"? Os nossos novos ricos (que nem sabem explicar a proveniência dos seus dinheiros) já se tomam a si mesmos como suplentes, ansiosos pelo seu turno na pilhagem do país.

São nacionais mas só na aparência.

Porque estão prontos a serem moleques de outros, estrangeiros. Desde que lhes agitem com suficientes atractivos irão vendendo o pouco que nos resta. Alguns dos nossos endinheirados não se afastam muito dos miúdos que pedem para guardar carros. Os novos candidatos a poderosos pedem para ficar a guardar o país. A comunidade doadora pode ir às compras ou almoçar à vontade que eles ficam a tomar conta da nação. Os nossos ricos dão uma imagem infantil de quem somos. Parecem crianças que entraram numa loja de rebuçados. Derretem-se perante o fascínio de uns bens de ostentação.

Servem-se do erário público como se fosse a sua panela pessoal.

Envergonha-nos a sua arrogância, a sua falta de cultura, o seu desprezo pelo povo, a sua atitude elitista para com a pobreza. Como eu sonhava que Moçambique tivesse ricos de riqueza verdadeira e de proveniência limpa! Ricos que gostassem do seu povo e defendessem o seu país. Ricos que criassem riqueza. Que criassem emprego e desenvolvessem a economia. Que respeitassem as regras do jogo. Numa palavra, ricos que nos enriquecessem. Os índios norte-americanos que sobreviveram ao massacre da colonização operaram uma espécie de suicídio póstumo: entregaram-se à bebida até dissolverem a dignidade dos seus antepassados. No nosso caso, o dinheiro pode ser essa fatal bebida. Uma parte da nossa elite está pronta para realizar esse suicídio histórico. Que se matem sozinhos. Não nos arrastem a nós e ao país inteiro nesse afundamento.»

Mia Couto

(Recebido por mail)
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Sondagens no berço da nacionalidade

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