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7.4.12

Há viajar e «reviajar»



Abril é o mês habitual para marcar a primeira viagem do ano. Em 2012 adiantei-me e sofro as consequências: estou cá… Resta-me «reviajar», o que faço frequentemente.

Há três anos estava muito longe e bem melhor do que estou hoje: nesse extraordinário Sudeste asiático, num dos meus países preferidos – o Vietname –, mais concretamente em Hanói.

É uma cidade bastante desorganizada, um tanto suja, mas com belas avenidas e agradáveis pegadas arquitectónicas deixadas pelos franceses, templos, pagodes, dezoito lagos e zonas verdes. Tudo gira em torno da memória de Ho Chi Minh, desde muitas fotografias ao enorme mausoléu com o propriamente dito em carne e osso, em múmia impressionantemente perfeita, rodeada de segurança e veneração (nem fotos, nem shorts, nem rir ou falar alto, nem mãos nas algibeiras…) e à sua casa mantida inalterada.


Mas quem chega desprevenidamente a Hanói leva algum tempo a refazer-se das primeiras impressões causadas pelo trânsito! Seis milhões de habitantes e três milhões de motorizadas que serpenteiam entre carros e peões em todas as direcções, permitidas ou não, sempre a apitar. Com um ou múltiplos ocupantes – pai, mãe, bebé e gaiola com canário – ou mesmo porcos… Claro que há outras cidades em que já estive com trânsito caótico, como por exemplo Calcutá, mas o ritmo é outro. Como em Hanói, e também em Ho Chi Minh (antiga Saigão), nunca vi.



Pronto: durante meia hora, já me esqueci de Passos Coelho, de Relvas e do nosso regresso ou não aos mercados em Setembro de 2013. Onde estarei eu nessa data? O mais longe possível seria na Nova Zelândia… Porque não, talvez, quem sabe?!
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Contra o encerramento da Maternidade Alfredo da Costa



Uma Petição 

Para:Exmº Sr. Presidente da Assembleia da República, Exmº Sr Primeiro-Ministro, Exmº Sr Presidente da Assembleia Municipal de Lisboa 

Os abaixo assinados discordam em absoluto com o tão publicitado "provável encerramento" desta unidade hospitalar especializada em obstetrícia, ginecologia, pediatria e senologia. 
Como utente da Mac nestas 3 valências, posso testemunhar o atendimento altamente qualificado e sobretudo personalizado que nos dedicam todos os técnicos: médicos, enfermeiras, fisioterapeutas, psicólogos, técnicos de serviço social, administrativos e pessoal auxiliar. 
É, para mim, impensável fechar um hospital com padrões de qualidade internacionalmente reconhecidos nas diversas áreas de actuação e que, num esforço continuado vai renovando o seu espaço, o seu equipamento e as suas técnicas para nos acolher, acarinhar e tratar. 
Entendemos que a Maternidade Alfredo da Costa deve continuar a garantir a saúde global da mulher, a segurança na gravidez e no parto e o competente acolhimento do recém-nascido para a vida. E, continuar a cuidar - talvez na sua vertente menos conhecida- das utentes do foro da senologia e da ginecologia oncológica. 

Ajudem-me a impedir que "estas notícias" se tornem realidade! 

Ler e assinar AQUI


Um evento anunciado no Facebook 

Abraço à Maternidade Alfredo da Costa 

O Governo anunciou o encerramento da Maternidade Alfredo da Costa (MAC). Esta unidade é a maior e a mais especializada do país na prestaçao de cuidados ao nível da da saúde da mulher e da neo-natologia, sendo aqui que se realizam o maior número de partos. 
O seu encerramento ou desmantelamento é um erro, com graves prejuízos para as populações do distrito de Lisboa, tanto no acesso e na qualidade dos serviços do SNS. 
Quem beneficia com esta política é o novo Hospital de Loures, uma PPP ruinosa atribuída ao grupo Espírito Santo. 
Porque não aceitamos a decisão de encerrar ou desmantelar os serviços da Maternidade Alfredo da Costa e defendemos a qualidade do SNS, vamos dar um Abraço à MAC, dia 10 de Abril (terça-feira), às 19h30. 

Organizações e pessoas que convocam o abraço:
UMAR
Médicos Pela Escolha
Ana Pinheiro: Enfermeira MAC
Adriana Lopera: Enfermeira USF do Parque/CS Alvalade
Diana Póvoas: Médica Hospital Curry Cabral
Bruno Maia: Médico Hospital São José

(Daqui)

Já que é dia de…



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Disto ainda não temos – «We are the 1%!»



É preciso conhecer minimamente os belgas para entranhar um certo sentido de humor que os caracteriza. Ontem, uma manifestação «de direita» (que não o era, evidentemente...), promovida pelo «Círculo dos Cidadãos Austeros», percorreu o centro de Bruxelas por «uma Europa ultraliberal, pelo fim do Estado-providência e da assistência social».



Vale a pena ver a longa lista de reivindicações descritas no blogue («Non au congé parental, sauf pour ceux qui adoptent un suédois», «Non à la liberté d’expression, sauf sur les panneaux de publicite», etc., etc. ) e reparar em alguns slogans: «We are the 1%», «Plus de répression, moins de prévention», «Nucléaire, oui merci», «Moins de fonctionnaires, plus de milliardaires», «Le chômage, c'est du gaspillage».

Dress code a condizer, evidentemnte: «Tenue correcte et austère exigée : vêtements de riches, tailleurs, talons…») 

Sugestão para uma próxima passeata pelo Chiado? Com pedido expresso a Miguel Macedo para a polícia envergar aquela farda especial para dias solenes e só bater em jornalistas devidamente identificados. 
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6.4.12

Páscoa? Um pouco confuso…



Quem nunca teve dúvidas destas, que atire a primeira pedra. 

- Pai, o que é a Páscoa? 
- Ora, Páscoa é …uma festa religiosa! 

- Igual ao Natal? 
- É parecido. Só que no Natal comemora-se o nascimento de Jesus e na Páscoa a sua ressurreição. 

- Ressurreição? 
- Ressurreição é tornar a viver após ter morrido. Foi o que aconteceu com Jesus, três dias depois de ter sido crucificado. Ele ressuscitou e subiu aos céus. Entendido? 

- Mais ou menos... Mãe, Jesus era um coelho? 
- Que parvoíce é essa? Estás-te a passar! Coelho? Jesus Cristo é o Pai do Céu! 

- Mãe, mas o Pai do Céu não é Deus? 
- É filho! Jesus e Deus são a mesma coisa. Vais estudar isso na catequese. É a Trindade. Deus é Pai, Filho e Espírito Santo. 

- O Espírito Santo também é Deus? 
- É sim. 

- É por isso que na Trindade fica o Espírito Santo? 
- Não é o Banco Espírito Santo que fica na Trindade, meu filho. É o Espírito Santo de Deus. É uma coisa muito complicada, nem a mãe entende muito bem, para falar a verdade nem ninguém. 

- Bom, se Jesus não é um coelho, quem é o coelho da Páscoa? 
- Eu sei lá! É uma tradição. É igual ao Pai Natal, só que em vez de presentes, ele traz ovinhos. 

- O coelho põe ovos? Não era melhor que fosse galinha da Páscoa? 
- Era, era melhor, ou então peru. 

- Jesus nasceu no dia 25 de Dezembro, não é? Em que dia é que ele morreu? 
- Isso eu sei: na Sexta-feira santa. Morreu na Sexta-feira santa e ressuscitou três dias depois, no Sábado de aleluia. 

- Um dia depois portanto! 
- Não, filho - três dias! 

- Então morreu na quarta-feira. 
- Não! Morreu na sexta-feira santa... ou terá sido na quarta-feira de cinzas? Ouve, já me baralhaste todo! Morreu na sexta-feira e ressuscitou no sábado, três dias depois! 

- Como !?!? Como !?!? 

- Pai, qual era o sobrenome de Jesus? 
- Cristo. Jesus Cristo. 

- Só? 
- Que eu saiba sim, porquê? 

- Não sei não, mas tenho um palpite que o nome dele tinha no apelido Coelho. Só assim esta coisa do coelho da Páscoa faz sentido, não achas? 

(Resumo de um texto recebido por mail.)
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Uma multidão em Toulouse



Apesar da chuva, muitos milhares de pessoas (70.000, segundo os organizadores) assistiram ontem ao segundo grande comício de Jean-Luc Mélenchon: depois da Bastilha, em Paris, a Praça do Capitólio, em Toulouse. 

Goste-se ou não, concorde-se em parte ou discorde-se de quase tudo, está-se em presença de um fenómeno único e certamente inesperado nesta campanha para as presidenciais francesas.

A frase da tarde: «Dès lors qu’il n’y a plus de liberté et de souveraineté, l’insurrection citoyenne est un devoir sacré de la République.»  («Já que deixou de haver liberdade e soberania, a insurreição cidadã é um dever sagrado da República.») 



A ler:
 - Toulouse : Jean-Luc Mélenchon poursuit sa marche sur le Capitole
 - Mélenchon: «L'insurrection est un devoir sacré de la République»

Não deixa de ser curioso

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(Via Daniel Ribeiro no Facebook)
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Delírios (com raiva) sobre o fecho de uma Maternidade



No início do Século XXII, talvez algum estudante angolano, goês, ou mesmo malaio, interessado em compreender as raízes dos seus colonizadores e respectivos problemas de natalidade, tente identificar a razão de ser da altíssima percentagem de lisboetas que, durante décadas, nasceu numa estranha freguesia do centro de Lisboa. E quererá também perceber por que misteriosa razão esse fenómeno parou repentinamente. 

Depressa saberá que, naquele mega hotel de luxo que tem à sua frente (ou sede de um gigantesco banco chinês?), funcionou a maior maternidade do país durante oitenta anos e que alguém a mandou encerrar pouco depois de ter sido objecto de investimentos «com renovação total dos serviços de neonatologia, serviço de urgência, ginecologia, blocos operatórios e laboratório entre outros, para competir em qualidade com os melhores centros internacionais»

Centrar-se-á então no estudo aprofundado do início da segunda década do (seu) século passado. E concluirá que este país esteve a ser governado por loucos varridos, deixados à solta, e que aquele belíssimo edifício da Rua Viriato devia ter sido aproveitado para os internar com coletes de força. 
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5.4.12

Espera-se que Vítor Gaspar não leia esta notícia



Parece a brincar mas não é: A Ryanair está a incentivar as hospedeiras a perderem peso para a companhia poupar em combustível, já que um avião mais leve gasta menos. As que aderirem figurarão num «belo» calendário da companhia! (Assume-se que os homens podem continuar gordos...)

Mas há mais, muitas mais medidas de poupança, umas já concretizadas, outras em plano: menos gelo nas bebidas, carrinhos e bancos mais leves, voos só com um piloto dispensando o co-piloto (esta não terá sido aprovada), transporte das bagagens até ao avião pelos passageiros, hipótese de cobrança por cada ida à casa de banho, etc., etc.

De um outro projecto, já tinha eu ouvido falar: lugares de pé nos aviões, com os passageiros agarrados a varões como nos autocarros, o que criaria mais 50 lugares por aeronave. Julgo que (ainda) não foi concretizado...



Em contrapartida, um responsável da companhia terá afirmado que tudo deveria ser de borla para os passageiros da 1ª classe, «até o sexo oral».

Comentários para quê.
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Tiananmen 1976



Por razões que não vêm agora ao caso, andei ontem a mexer em envelopes com apontamentos de viagens e verifiquei que, exactamente há oito anos, passeava pela China (mais precisamente que, em 5 de Abril de 2004, estava em Pequim) e que já em tempos tinha escrito neste blogue algo relacionado com a data de hoje. 

Antes de partir, tinha relido, nessa espantosa obra de Jung Chang Cisnes Selvagens, uma curta descrição de uma forte repressão policial – bem antes daquela que nunca esqueceremos, em 1989 – para impedir comemorações em honra de Zhou Enlai que morrera poucos meses antes. 

«A 8 de Janeiro de 1976, faleceu o primeiro-ministro Zhou Enlai. Para mim e para muitos outros chineses, Zhou representara um governo relativamente liberal e são de espírito que se esforçava por fazer o país funcionar. Nos anos negros da revolução Cultural, Zhou tinha sido a nossa única e débil esperança. (…) 
[Na Primavera] Em Beijing, centenas de milhares de cidadãos reuniram-se na Praça de Tiananmen durante dias seguidos, para honrar Zhou com coroas de flores especialmente preparadas, leitura de versos apaixonados e discursos. Através de simbolismos e numa linguagem que, apesar de codificada, toda a gente compreendia, deram largas ao seu ódio contra o Bando dos Quatro, e até contra Mao. Os protestos foram esmagados na noite de 5 de Abril, quando a polícia atacou a multidão, prendendo centenas de pessoas. Mao e o Bando dos quatro chamaram a este movimento “um levantamento contra-revolucionário do tipo húngaro”». 

13 anos mais tarde, foi o que se sabe, 28 anos depois, divagava eu por aquela enorme e desconfortável praça, tentando, em vão, «revivê-la» como ela foi em 1976 e em 1989. Viajar também é isto. 
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Morte em Atenas



Quanto a esta notícia sobre o suicídio de um grego de 77 anos, em Atenas, na Praça Sintagma, o Luís Menezes Leitão já disse tudo o que eu gostaria de ter escrito, a começar pelo título: «O simbolismo de uma tragédia»

«Sou reformado. Não posso viver nestas condições. Recuso-me a procurar comida no lixo, por isso decidi pôr fim à vida.» 
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Com dedicatória ao ministro Miguel Macedo



… pela sua vergonhosa intervenção, ontem, na AR.

Não vos posso prometer que não vos batam, 
Não vos posso prometer que não vos assaltem a casa, 
Não vos posso prometer que não vos magoem um pouco. 
 Apesar disso, temos que continuar a lutar pelo que é justo. 

Martin Luther King

Uma noite, uma vida – por José Tengarrinha


Depois do texto de Helena Pato, aqui publicado, agora este, do próprio JT, com base em apontamentos escritos na prisão de Caxias, entre a noite do 25 de Abril e a libertação (*). 

«O inimigo» - segredava-me uma voz interior. Mas, mesmo com esforço, não vejo o inimigo naquele homem que pretende mostrar-se seguro e dominador, mas que é vulgar, pegajoso, mole, quase grotesco. Até a fria lâmina do olhar de um ou outro agente obriga apenas, não á defesa, mas a um esforço para saber o que está para além desse olhar. Faço-o, como sempre, apenas por curiosidade. E, tal como das vezes anteriores, logo percebo que muitos dos que se apresentam seguros e dominadores oscilam quando se vêem observados no fundo.
À medida que as horas correm, vou sentindo modificar-se a atitude dele. Endurecendo sempre. A última coisa que disse, num grito, já a noite avançava pela madrugada, foi uma ameaça de morte.
Havia muito de absurdo em tudo aquilo, com uma mistura de farsa e tensão intolerável.
Lá fora, na noite, o forte era uma massa sem contornos. Mas não dava a impressão de estar adormecido.
Depois de sair da carrinha, no pátio interior, ao subir as escadas, ao atravessar os corredores silenciosos, sentia-se, quase se poderia apalpar a tensa expectativa. Redobrados cuidados, maior vigilância no sector da incomunicabilidade para onde me levaram. Isolamento. Cela 51. 

Está na minha frente, imóvel e duro, alto, louro de barba e cabelo, pés afastados, no meio da cela. Uma G3 pendente da mão. Dois outros, atrás, um de cada lado, também armados.
Tudo fora precedido do estrondo da porta do fim do corredor, aberta com violência, do pisar cadenciado das botas até à frente da minha cela, do rangido agudo da fechadura. Avançara na minha direcção e assim ficara, especado. 

Talvez nunca pensasse que fosse desta maneira. Não, nunca pensara. Sempre pensei que fosse uma coisa suja, revolta, misturada de angústias e de medos, de estrangulamentos no estômago, de voz apertada na garganta, de vertigens que nos secam a boca e nos fazem perder a noção do tempo que fica como um novelo confuso e denso. Pensei que nos arrastassem para o pátio, brutalmente, entre gemidos, gritos e choros. Pensei que fosse apenas um momento, terrível mas breve: que nos olhássemos ainda uns aos outros, admirando a coragem de alguns, vendo o medo dos outros; que fizesse apelo a todas as energias, mas que seria muito difícil. Vacilava. Seria com certeza uma coisa rápida, fulgurante. Colocar-nos-iam lado a lado. Talvez no momento decisivo conseguisse levantar a cabeça, talvez dobrasse as pernas apenas depois dos tiros partirem. Estava a ver-me, num esforço de antecipação, para me preparar quanto possível. O isolamento da cela pesava cada vez mais. 

4.4.12

Paraíso fiscal


 

No Paraíso Fiscal / o silêncio é d’ouro / As mobílias são de prata / E os jardins de couro 
Anjos, deuses, capitais / Filhos de alguém especial / Somar zeros à direita / Não faz mal 
No Paraíso Fiscal / A justiça é cega / As fronteiras apagadas / E o tempo escorrega 
Sabe bem pagar tão pouco / O segredo é total / Tens na ilha uma morada / Virtual 
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Aquém e além da troika



Manuel António Pina, hoje, no JN.

«No obscuro jogo em que tornou a aplicação do memorando com a "troika", o Governo tem frequentemente anunciado, com indisfarçável orgulho, que foi "além da troika". Esconde é que, ao mesmo tempo, tem ficado "aquém da troika". E só se surpreende que o Governo vá entusiasticamente "além da troika" sempre que se trata de penalizar os pobres e as classes médias e fique "aquém da troika" quando toca a grandes grupos económicos ou à banca (que não são coisa substancialmente diferentes) quem não conhece as inclinações ideológicas de PSD e CDS e a rede de interesses que se move à sua volta e com a qual se confundem. (…) 

O desemprego já vai, segundo o Eurostat, em 15%, muito "além da troika"...» 
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Sonhar é fácil

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Luther King também morreu num 4 de Abril



Martin Luther King foi assassinado em Memphis, em 4 de Abril de 1968. Neste vídeo, o célebre discurso I have a dream, que proferiu em Washington, em 28 de Agosto de 1963, o qual, inexplicavelmente, deixou de estar disponível, na íntegra, no Youtube (ou, pelo menos, não o encontro). Mas tinha-o descarregado em tempos e aqui fica.


E, em jeito de ritual, recordo todos os anos o que se passou em Lisboa – uns meses antes de Salazar cair de uma cadeira. 

Um mês depois da morte de MLK, em 4 de Maio de 1968, devia ter tido lugar, no salão de uma igreja de Lisboa, uma sessão em sua homenagem. Estava planeada a projecção do filme «Marcha em Washington», com o discurso que o vídeo mostra, seguida de um debate orientado, entre outros, por Luís Lindley Cintra e José Carlos Megre. 

Na véspera, a PIDE proibiu a sessão, mas, à hora marcada, concentraram-se centenas de pessoas em frente da igreja de portas fechadas. Como em muitas outras ocasiões, tudo acabou com dispersão, à força, desta vez por agentes da polícia à paisana. 

Foi depois elaborado, e amplamente distribuído, um folheto intitulado «Porquê?» com um breve relato dos acontecimentos. Terminava com uma citação do próprio Luther King: 

Não vos posso prometer que não vos batam, 
Não vos posso prometer que não vos assaltem a casa, 
Não vos posso prometer que não vos magoem um pouco. 
Apesar disso, temos que continuar a lutar pelo que é justo.

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Morreu há 20 anos



Salgueiro Maia 


E foi assim:


25 de Abril. Pelas 16:30, Salgueiro Maia entra no Quartel do Carmo para falar com Marcello Caetano.

3.4.12

Maré-baixa


Neste Comentário no Público de hoje (sem link, mas que pode ser lido clicando aqui), São José Almeida explicita exactamente o que pensei ao ver as reacções acaloradíssimas da direcção do PS, e de muitos dos seus mais altos responsáveis, o verdadeiro alarido expresso mesmo em comunicado do partido, às afirmações de Marcelo Rebelo de Sousa sobre António José Seguro, feitas no passado Domingo, em contraponto à serenidade, pelo menos oficial, com que foi recebida a acusação de «falta de lealdade institucional» com que o presidente da República brindou Sócrates – por escrito, num volume de discursos, que, de certo modo, ficará para a História. 

Bem mais grave esta segunda situação, sobretudo por vir de quem vem. Cavaco não é um opinion maker nem agiu como tal, mas sim como presidente, e fez uma acusação grave sobre actos de um primeiro-ministro em exercício das suas funções. Marcelo, com maior ou menor infelicidade (não é isso que está aqui em causa), está na TVI como comentador (vir falar da sua função de conselheiro de Estado não colhe…) e o mínimo que se pode exigir é que seja livre de exprimir o que pensa, mal ou bem. E como bem sublinha São José Almeida, ao reagir como reagiu, a direcção do PS «mostra uma preocupante incapacidade de lidar com a liberdade de opinião», «demonstra um pendor intolerante, autoritário até perante o diferente». 

Os dirigentes socialistas exibiram uma incoerência comportamental flagrante perante duas situações separadas por poucas semanas, que apenas é explicável, tanto quanto posso entender, por duas razões: primeiro, Sócrates está longe e já não é o chefe das tropas; segundo, pode-se criticar o que um presidente diz, ma non troppo: há que manter brandura e respeitinho. São opções, mas que têm como resultado uma imagem de desnorte e de perda de razão e de autoridade moral. 
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Ainda sobre a esquerda nas presidenciais francesas

Seminário Pensamento Crítico Contemporâneo


A Unipop e a Associação de Estudantes do ISCTE-IUL organizam um seminário que pretende promover o debate sobre um conjunto de propostas teóricas que, posicionando-se criticamente face ao estado do mundo, têm procurado pensar as circunstâncias presentes e as alternativas que têm sido desenvolvidas no quadro da actual crise económica, mas também do ciclo de revoltas que, do Cairo a Wall Street, passando por Madrid, têm vindo a marcar o ritmo dos tempos que correm.

Ao longo de cinco sessões, o seminário colocará em confronto sensibilidades teórica e politicamente diversas que, organizando-se em torno de autores ou correntes, têm contribuído para a renovação do pensamento contemporâneo a nível da acção dos movimentos sociais, da pesquisa e investigação científicas ou ainda das práticas artísticas e culturais. Cada sessão contará com duas comunicações a cargo de investigadores que, da antropologia à filosofia, passando pela sociologia ou pela economia, entre outras áreas do saber, apresentarão os principais elementos de reflexão dos autores e correntes em questão, seguindo-se um breve comentário a cargo de um terceiro convidado que dará início a um período de debate entre todos os participantes no seminário.

O seminário destina-se a todas as pessoas interessadas em participar, independentemente da sua especialização profissional ou da sua situação académica.

Organização: UNIPOP (http://unipop.webnode.pt) e Associação de Estudantes do ISCTE-IUL (http://www.aeiscte.pt)

Local: ISCTE-IUL (Av. das Forças Armadas, Lisboa; Metro: Entrecampos / Cidade Universitária)

Datas: Dias 26 de Abril, 3, 10, 17 e 18 de Maio, das 18h às 20h30

Inscrições: 15 euros (inclui o acesso a todas as sessões e a todo o material em discussão no seminário).
A inscrição em sessão avulsa está limitada à disponibilidade de lugares, não sendo susceptível de reserva prévia. Nesse caso, o valor da inscrição é de 5 euros.
A inscrição deve ser feita por transferência bancária, através do NIB 0035 0127 00055573730 49, seguida de e-mail com o comprovativo para cursopcc@gmail.com.

Lugares limitados.

No final do curso será emitido um certificado de frequência.


Programa:

26 de Abril
Auditório B103
Gayatri Spivak: a subalternidade sexuada, por Adriana Bebiano
Lila Abu-Lughod e o movimento feminista, por Shahd Wadi
Comentário de Manuela Ribeiro Sanches

3 de Maio
Auditório B103
Daniel Bensaid, cientificidade e contratempo no marxismo, por Carlos Carujo
Possibilidades: anarquismo e antropologia em David Graeber, por Diogo Duarte
Comentário de Miguel Serras Pereira

10 de Maio
Auditório B103
Keynes e keynesianismos, por João Rodrigues
Negri e Hardt: Império, multidão e comum, por José Neves
Comentário de Ricardo Noronha

17 de Maio
Auditório B103
Jacques Rancière e a política da emancipação, por Manuel Deniz Silva
Axel Honneth e Jürgen Habermas: uso público da razão, luta pelo reconhecimento e crítica do capitalismo, por Gonçalo Marcelo
Comentário de João Pedro Cachopo

18 de Maio
Auditório B104
Alain Badiou e a hipótese comunista, por Bruno Peixe Dias
Giorgio Agamben ou a desactivação, por André Dias
Comentário de Miguel Cardoso
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Flying trains



Todos gozam Passos Coelho por ter inventado uma linha de bitola europeia na península ibérica, mas são injustos. Tenho para mim que ele se lembrou de Jules Verne ou que viu este vídeo e que sonha com comboios que, um pouco antes de Badajoz, subam às nuvens e aterrem em Barcelona, onde já existe a tal bitola europeia. 


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2.4.12

França: o voto útil torna-se inútil?


Para quem, como eu, se sente tentada a trepar por paredes sempre que são chamados à liça argumentos a favor de votar «utilmente» (sempre na tentativa, normalmente frustrada, de evitar males maiores…), é um prazer ler argumentos como os de Le Yéti, num blogue de Rue 89, a propósito das sondagens mais recentes para as eleições presidenciais em França. 

Mélenchon, candidato do Front de Gauche, ocupa agora o terceiro lugar nas previsões. Ou seja, no pódio, neste momento, encontram-se três candidatos, dois de esquerda – François Hollande e Jean-Luc Mélenchon – e um de direita, Nicolas Sarkozy. 

Com dois candidatos neste trio, a esquerda estará obrigatoriamente presente na segunda volta (se as previsões actuais se confirmarem, evidentemente). 

Na hipótese, (ainda?) pouco provável, de ser Mélenchon a passar à segunda volta, isso assustaria o eleitorado do centro e faria aumentar a abstenção ou mesmo o número de votos em Sarkozy? Talvez, mas o efeito nos eleitores do Front de Gauche será semelhante se for Hollande a defrontar Sarkozy, defende Le Yéti. 

 «A via está portanto aberta para que, à esquerda, cada um vote no candidato da sua escolha e não, estupidamente, para criar obstáculos ao campo inimigo.» 

A ver. Até ao dia 22 de Abril, correrá ainda muita água debaixo de muitas pontes. Mas… 
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Os chineses vestem Prada



A crise está deste lado do mundo. 
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Conspiração?



Manuel António Pina escreve hoje uma crónica deliciosa sobre um «ataque» de que eu também fui vítima: a mudança do corrector ortográfico do Word para a versão respeitadora do Novo Acordo, pelo simples efeito de actualizações do Windows, aparentemente sem apelo nem agravo. («Corrector» julgava eu, mas vejo agora que a ortografia da palavra passou / passará / talvez passe para o domínio da Bolsa e coisas assim.) 

O «biltre» não chegou a sublinhar-me «há-de» a vermelho, como a MAP, porque lancei um SOS no Facebook (se outra razão não houvesse, ficaria eternamente grata a Mark Zuckerberg por esta) e recebi a cábula que me permitiu regressar ao passado. Está à disposição de quem a quiser – é só pedir que eu explico como se faz – e, pelo sim e pelo não, vou perguntar a MAP se já alguém lhe resolveu o problema. 

«Já pensei voltar a escrever à mão, mas temo que até esferográficas e lápis tenham já sido programados pelo dr. Casteleiro para não me deixarem escrever consoantes mudas.», diz MAP. 

Não será caso para tanto, espero, e nada tenho contra os princípios filosófico-culturais, ou a obediência zelosa mesmo quando ainda não imposta, de uma parte dos meus compatriotas. Mas não entendo por que razão a Microsoft, pela calada de uma actualização do Windows, toma posição num debate que está longe de estar encerrado e «despeja», por defeito e sem pré-aviso, uma nova versão que podia e devia ser, para já, uma segunda escolha. Pelo menos enquanto Angola, Moçambique e outros não aderirem ao AO, certo?

(Usando à tal cábula, com várias etapas, vê-se finalmente que existem três opções disponíveis para  utilização do corrector no Word: pré-Acordo, Acordo, ou ambas.)
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José Tengarrinha – a última prisão



José Tengarrinha faz em breve 80 anos e um grande grupo de amigos e companheiros vai prestar-lhe uma justa homenagem que só peca por tardia. Este blogue associa-se publicando alguns textos, a começar por este, de Helena Pato, que me foi enviado pela autora.


 Uma semana antes do dia da revolução, finalmente, regressámos a casa: tínhamos andado por Londres, fugidos, à espera que a situação dele se definisse. De tempos a tempos era isto. 

Voltámos na convicção de que o perigo de prisão havia passado, mas, mesmo assim, no dia da chegada queimámos tudo quanto era papel que pudesse incriminar-nos. Eram tantos – ou a nossa minúcia tão grande – que a sanita em que decorreu a operação estalou com o calor. Depois, pela noite fora, ainda fizemos inúmeros lançamentos da varanda do nosso quarto para os pátios do casario do Bairro das Colónias: Avantes e Militantes, comunicados à população, jornais e posters da CDE, tudo em rolos atados com cordéis (com uma batata dentro para pesarem mais). Foguetões de imprensa ilegal disparados para o espaço para que alguém a lesse e aproveitasse com aquela operação de limpeza. Os materiais clandestinos eram sagrados: evitávamos desperdiçar os que, pelo seu conteúdo e actualidade, constituíam um meio de informação acerca do que se estava a passar no país e nas colónias. A seguir fomos deitar-nos em paz. Paz, porém, efémera. 

Ao alvorecer, tal como era prática deles, tocaram-nos à porta – e, exactamente à mesma hora, à porta de mais uma dúzia de antifascistas em Lisboa. «Já está, são eles!» - dissemos, saltando da cama. 

Não me lembro de que palavras trocámos durante aqueles escassos minutos, em que uma parte da brigada da pide se posicionava discretamente junto ao prédio da Penha de França e os restantes abutres de Silva Pais subiam no elevador. Encaminhei-me para a sala. «Vai abrir, Lena, vou esconder a agenda!» 

Quando, na entrada, me afastaram do seu caminho, irrompendo à bruta porta adentro – bizarramente vestidos a rigor, de fato e gravata – não tive dúvidas de que estava a entregar o futuro do meu companheiro ao terror da repressão fascista e à coragem e firmeza de carácter do homem que eu tão bem conhecia: José Tengarrinha. 

Em nossa casa, quase em simultâneo, o telefone começou a tocar ininterruptamente: eram jornalistas e familiares de amigos (que também haviam sido presos), querendo avisar-nos da vaga de prisões. A notícia estava a chegar aos jornais. Para nós já era tarde: tínhamos em casa três agentes da PIDE/DGS e o chefe de brigada Tinoco. Este, logo à entrada, informou o Zé de que estava «detido para averiguações» – a fórmula do costume. Aparentemente calmo, José Tengarrinha enfrentava-os sem interpelação, mas eu sabia que, naquela serenidade, havia um cérebro em contínua actividade de premeditações, e isso estava para além do que eles podiam controlar. 

Mandaram-no arranjar-se com brevidade e, enquanto um deles se colou à porta entreaberta da casa de banho, os outros dois passaram a pente fino os quartos, a sala, a cozinha, tudo. Procuravam algo que o incriminasse. Em vão, que a operação de limpeza feita na véspera não deixara rasto das actividades que desenvolvíamos. «Para fazer uma busca a sério aqui nem uma semana», dizia, desalentado, o agente Coelho. 

O telefone não se calava. «Que ninguém responda! Bem sabemos que há muita gente a querer falar consigo», avisou um deles, um tal Bronze, enquanto folheava manuscritos, numa busca minuciosa dos trabalhos do historiador, acompanhada de comentários, entre dentes, com o Tinoco. Não deixavam dúvidas do que, pela cidade, estaria a acontecer. 

Finda a busca esmiuçada, começaram a atirar para o chão livros que retiravam das estantes: umas dezenas para apreensão. Ridícula selecção, assente na profunda ignorância daquela gente da PIDE/DGS. Poucos minutos depois, uns atapetavam a sala, outros acumulavam-se em pilhas. Enquanto a devassa decorria, as crianças dormiam. A nossa filha R., ainda bebé, provavelmente sonhava com ursinhos e gaivotas, mas escondia um manancial de informação capaz de lhes alimentar semanas de interrogatórios. Ao toque da campainha da rua, o Zé correra para o carrinho dela e colocara a tal agenda debaixo do colchão. (Na véspera, tínhamos evitado destruí-la por conter um sem número de anotações – importantíssimas, imprescindíveis para a actividade imediata). Embora eu tivesse admitido que eles aí não iriam, nunca fiando, logo que vi oportunidade fui lá buscá-la e passei-a à nossa empregada, que a escondeu junto ao corpo. Pedi-lhe entre dentes e entre portas que fosse comprar comida e a deixasse em casa de uma vizinha. Eles obrigaram-na a mostrar a cesta, estipularam-lhe um tempo para a saída, mas deixaram-na partir. 

2 de Abril de 1976 – Constituição da República Portuguesa



Foi há 36 anos que os deputados da Assembleia Constituinte, eleitos em 25 de Abril de 1975, deram por concluída a elaboração da actual Constituição que entrou em vigor um ano depois. 

Um aniversário a ser assinalado, este ano talvez mais do que nunca. 


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1.4.12

Trabalho infantil – na Europa



É impossível não sentir uma enorme revolta ao ler um texto publicado em Le Monde, a que cheguei na versão divulgada por PressEurope

Em Nápoles, «milhares de crianças deixam a escola para ajudarem os pais a fazerem face às despesas. Fazem pequenos trabalhos não declarados ou são recrutados para os trabalhos sujos da máfia». Na região, entre 2005 e 2009, 45 mil crianças terão abandonado a escola, 38% das quais com menos de 13 anos. 

«Moços de recados em lojas, empregados de café, entregadores de compras, aprendizes de cabeleireiro, ajudantes nas fábricas de curtumes do interior e nas marroquinarias das grandes marcas, “paus para a toda a colher” nos mercados, estão por todo o lado, visíveis, a trabalhar à luz do dia, perante uma indiferença quase geral.» 

Dois casos: 

Gennaro, que acaba de fazer 14 anos, sonhava ser informático, mas trabalha numa mercearia, seis dias por semana: arruma prateleiras, descarrega caixas, faz entregas, por menos de um euro por hora. 

Pasquale, de 11 anos, descarrega caixas num supermercado durante o dia e rouba cobre em lixeiras durante a noite. Se lhe perguntam o que quer fazer quando for grande, «fica mudo e depois choraminga: “vou fazer o que puder”». 

Etc., etc., etc. 

Sei que insisto mas não me canso: Europa, século XXI. Continuamos a indignar-nos (apenas) porque há crianças asiáticas que cosem bolas de futebol e outras histórias semelhantes? 
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Via Crucis



Quem diria que, neste ano da graça de 2012, o Vaticano se bateria, por esse mundo fora, por mais um feriadito religioso, ainda que pontual? Os cubanos poderão este ano percorrer a Via Sacra em dia próprio, certamente uma das suas grandes prioridades neste momento…. (Já os portugueses terão de esperar meses para saberem como lhes resolverá o Vaticano o transcendente dilema de deixarem de ir a cemitérios em Novembro ou a romarias em Agosto.) 

Sinto que algo me escapa mas não vislumbro o que possa ser. Desta questão, aparentemente tão importante para Bento 16, que justificou um pedido específico a Raúl Castro, espera-se o quê, num mundo mais ou menos de pernas para o ar e num país como Cuba? A gratidão por um rebuçado simbólico por parte dos católicos cubanos? Uma conversão em massa, na próxima 6ª-feira, liderada pelos últimos barbudos herdeiros do Che? Seria bonito até porque a conversão da Rússia foi chão que já deu uvas, mas…

Nas bancas




(Clicar para ler) 
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Esperança mas com nuvens…



Há muito que a votação começou em 45 distritos da Birmânia, onde a diferença horária para Portugal é de 5:30, mas os resultados só serão conhecidos dentro de alguns dias.

Estas eleições são vistas como um teste à abertura anunciada pelas autoridades birmanesas, mas, no encerramento da campanha durante este fim-de-semana, Aung San Suu Kyi denunciou interferências e intimidações. Mais: terão sido identificadas irregularidades como, por exemplo, a existência de milhares de nomes de mortos nas listagens de eleitores. Aliás, sabe-se já que os observadores da União Europeia não garantirão que elas terão sido «livres e justas».

Ainda assim, Aung afirmou estar disposta a tolerar o que está acontecer, num esforço de continuar a contribuir para a reconciliação nacional

A sua candidatura nestas eleições é considerada como um primeiro passo para as presidenciais que terão lugar daqui a três anos.

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E eu aproveito para mostrar mais algumas relíquias desse país!