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14.7.12

Passado - futuro?



Se já medimos o sucesso do país comparando-o com os seus feitos em 1943, às arrecuas como vamos e de poupança em poupança, ainda assistiremos ao regresso destes simpáticos carros de recolha de lixo às ruas de Lisboa. 

 Aqueles monstros barulhentos que por aí andam actualmente, artilhados com complexas tecnicidades, pesam certamente no prato da balança das importações...

 (Imagem daqui)
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O silêncio dos culpados



De um texto de José Medeiros Ferreira, que merece ser lido na íntegra

 «Um ano depois da execução do Memorando de Entendimento, o Estado está mais fraco e a sociedade portuguesa está mais pobre.

Uma sangria em puro desperdício, tanto mais que nenhum indicador estrutural aponta para uma saída segura do círculo vicioso da dependência financeira. Mesmo a variável recente de uma maior taxa de cobertura da balança comercial graças à diminuição das importações em 6,2% – com forte descida da compra de máquinas e aparelhos – resulta frágil e paradoxal, e pode ser lida como mais um sintoma de desindustrialização da economia nacional.

O debate sobre o Estado da Nação ressentiu-se dessa falta de perspectivas para o futuro, e, o que mais é, da óbvia omissão de medidas alternativas para se ultrapassar o modelo opressor e estéril da austeridade. Desse modo o debate na AR nem como divã psicanalítico serviu.»
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Não éramos gregos nem somos espanhóis



Como seria de esperar, os espanhóis não se limitaram a ficar em casa a vociferar contra os ecrãs de televisão, nem a descarregar fel nas redes sociais, quando o governo aprovou as fortes medidas de austeridade a que vão estar sujeitos. 

Ontem, numa «sexta-feira de raiva», saíram de novo à rua desde o fim da tarde e continuaram pela noite dentro, não só em Madrid mas também em outras cidades como Valência, Barcelona e Madrid. Não marcaram manifestações para daqui a um mês, reagiram imediatamente.

A fronteira que nos separa dos nossos vizinhos, não sei se por ser tão antiga historicamente ou por muitos outros motivos, provocou alterações profundas em ADNs que teriam tudo para ser semelhantes. Mas não são.

No nosso serão televisivo de ontem, não faltaram comentadores a referir o perigo de contágio a que estamos agora sujeitos («a Grécia era muito longe...») e a ameaça que uma perturbação no nosso bom comportamento seria para o «sucesso» desta macabra fase da nossa vida colectiva.

Julgo que podem dormir descansados. Os espanhóis «fazem a hora, não esperam acontecer». Nós, infelizmente, é mais isto
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Sempre nesta data



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13.7.12

Cúpulas e mais cúpulas (4)



Mosteiro da Trindade de S. Sérgio, Sergiev Posad (Rússia, 2012)
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Em Espanha como cá

Este país perdeu o tino



«É um anúncio que se paga e não se paga pouco à Imprensa Nacional. Aqui faltou apenas uma linha ao anúncio, que é pago à Imprensa Nacional-Casa da Moeda e que é publicado em Diário da República, a dizer que os requisitos de competência e experiência constam do caderno de encargos.» 

Ou está mesmo tudo grosso? 


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Nunca, mas nunca



... norteie a sua vida «pela simplicidade da procura do conhecimento permanente». Pode dar o resultado que se vê quando o descaramento não tem limites!

 Mas já que a esperança é a última a morrer e, também, porque hoje é sexta-feira 13, pode ser que tenhamos uma surpresa e que o licenciado Relvas ouça os conselhos do senador Bagão Félix que ontem afirmou (insistentemente, com um sorriso e sem pestanejar - digo eu, que o vi e ouvi): «Eu, no lugar do ministro Miguel Relvas, tinha pedido imediatamente a demissão, facilitando a vida ao primeiro-ministro, que bem merece.» 

Acaba por haver sempre alguém que se faz eco do que outros não querem, ou consideram que não podem, dizer ou fazer. Por vezes, resulta.
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12.7.12

Cúpulas e mais cúpulas (3)



Catedral de Santo Isaac, S. Petersburgo (Rússia, 2012)
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Um país que resiste a tudo isto é grande!

Fascinante!




... esta colecção de casaquinhos. 

 (Via Porfírio Silva no Facebook) 
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Os «meus» Rolling Stones



O meu vício das viagens vem de muito longe e quando, no Verão de 1970, soube que dentro de pouco tempo iria ganhar mais uns cobres a trabalhar com computadores do que o miserável salário que me era pago como docente universitária, pedi dinheiro emprestado a um colega abonado, fui à TAP no Marquês de Pombal e comprei um bilhete de ida e volta para Estocolmo.

Julgo que Ingmar Bergman terá sido o responsável pelo fascínio que a Suécia exercia há muito sobre mim (onde é que isso já vai, mas continuo a adorar Estocolmo...), mas é por causa dos Rolling Stones que regresso a essa minha primeira incursão tão a Norte.

Hoje recorda-se, em todo o mundo, que começaram a carreira exactamente há 50 anos e a Wikipedia ajuda-me a situar que os vi e ouvi no dia 4 de Setembro de 1970, no estádio Råsunda, num espectáculo agitado, que chegou a ser interrompido pela polícia por receio de uma invasão do palco pelos espectadores, mas que continuou, logo a seguir a uma intervenção de Mick Jagger, com «Love in Vain».

Ida do Portugal salazarista, sozinha naquela bancada de onde só avistava um mar imenso de cabeças loiras, foi como se tivesse aterrado em Marte. Acreditem... 


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Mudança de ramo



«Os principais dirigentes políticos da Zona Euro parecem ter mudado de ramo. Desistiram da procura do melhor futuro possível para as comunidades que representam e perante as quais são responsáveis. (...) Tornaram-se uma espécie de vulcanologistas sociais e económicos, que se limitam a aguardar a grande erupção europeia. Os sensores dão sinal de que o impacto será gigantesco, mas os políticos abdicaram do seu dever de liderar, com lucidez e coragem.»  

Viriato Soromenho-Marques

Comentários para quê


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11.7.12

Espanha em estado de austeritarismo



Abre-se El País online, lê-se a lista das medidas que o governo espanhol já anunciou e tem-se imediatamente uma sensação não de déjà vu mas sim de déjà vécu

*** Subida del tipo reducido del IVA del 8% al 10%
*** Subida del tipo general del IVA del 18% al 21%
*** Subida de los impuestos especiales-medioambientales
*** Supresión de la deducción por vivienda
*** Supresión paga extra a funcionarios y menos días libres
*** Reducción prestación de desempleo desde el séptimo mes
*** Reforma de las pensiones
*** Se reduce un 30% el número de concejales
*** Recorte de 600 millones en el gasto de los ministerios
*** Recorte del 20% en subvenciones a partidos y sindicatos

Por uma vez, levamos avanço – um triste avanço. Já sofremos no bolso e na pele muito do que os espanhóis vão agora experimentar, por mais que pensem e que continuem a afirmar que a sua situação é diferente. Sê-lo-á, nuns casos para algum bem (não têm formalmente uma troika e o que isso significa), noutros não necessariamente (partem com um nível de desemprego aterrador, que só poderá crescer a partir de agora).

Curioso será observar a resistência e os tipos de protesto com que reagirão ao austeritarismo que vai bater-lhes à porta com estrondo. Para já, pelas notícias que chegam, parecem ainda um pouco atordoados. Mas dentro em breve: terão «virtudes» comportamentais semelhantes às nossas, tão louvadas aquém e além-fronteiras? Permito-me duvidar, para não dizer que estou certa de que serão bem diferentes… 
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Pela sua saúde



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El pozo Maria Luisa



A Diana Andringa «mandou-me» pôr aqui este canto anarquista dos mineiros das Astúrias, durante a Guerra Civil de Espanha (também conhecido como «Santa Bárbara Bendita»), e eu obedeço, evidenteente…

 

 Larará
nel pozu Maria Luisa
larará
murieron cuatro mineros
mirai, mirai Maruxina, mirai
mirai como vengo yo
larará
traigo la camisa roxa
larará
de sangre d´ un compañeru
mirai, mirai Maruxina, mirai
mirai como vengo yo
larará
traigo la cabeza rota
larará
que me la rompió un barrenu
mirai, mirai Maruxina, mirai
mirai como vengo yo
larará
Santa Barbara bendita
larará
patrona de los mineros
mirai, mirai Maruxina, mirai
mirai como vengo yo
patrona de los mineros
mirai, mirai Maruxina, mirai
mirai como vengo yo

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A conquista do Sol pelos verdadeiros campeões



«Estes são os nossos verdadeiros campeões» foi um dos slogans mais gritados pela multidão madrilena que recebeu e apoiou os mineiros que, às primeiras horas da madrugada de hoje, chegaram à Puerta del Sol, em Madrid. Uma forma de reagir à relativa pouca importância atribuída ao acontecimento pelas televisões: «5 horas de TV al desfile de la Selección por ganar la Euro y ni 5 minutos a los Mineros en defensa de sus derechos», como escreveu alguém no Twitter.

Mas as imagens aí estão para mostrar a realidade. E para memória futura. É muito grande a força destes homens.


A esta hora, manhã de 4ª feira, uma nova marcha atravessa Madrid, em direcção ao ministério da Indústria. 

10.7.12

Cúpulas e mais cúpulas (2)



Catedral da Natividade, Suzdal (Rússia, 2012)
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Federalismo em marcha forçada


Editorial do último número de Le Monde Diplomatique (edição portuguesa), por Serge Halimi

As grandes catástrofes incitam os crentes mais fervorosos a aumentar de imediato a devoção. É o que acontece com os federalistas europeus; como se recusam a conceber a hipótese de um dia ser possível voltar costas às políticas de integração – monetária, orçamental, comercial – que agravaram a crise económica, desejam, pelo contrário, reforçar a autoridade de quem as pôs em prática. As cimeiras europeias, os pactos de estabilidade e os mecanismos disciplinadores não melhoraram nada? Foi por não terem ido suficientemente longe, respondem sempre os nossos devotos. A seu ver, todos os êxitos se explicam pela Europa, todos os malogros pela falta de Europa (1). Esta fé absoluta e ingénua ajuda-os a dormir como uma pedra e a ter sonhos bonitos.

E também pesadelos, porque os federalistas dão-se bem com as tempestades. Anunciá-las até lhes permite desfazer qualquer resistência ao seu grande desígnio, pretextando a urgência. A meio do vau e sob a metralha, ninguém deve recuar. É preciso atravessar o rio ou afogar-se, acelerar o «sobressalto federal» ou permitir a catástrofe. «Se a actual confederação não evoluir para uma federação política com um poder central», considerou em Novembro passado o antigo ministro dos Negócios Estrangeiros alemão Joschka Fischer, «a zona euro – e a União no seu conjunto – vão desintegrar-se» (2). Em França, as três grandes rádios nacionais e dois dos principais diários pregam todos os dias este refrão.

Ouvindo o que dizem os federalistas, facilmente imaginaríamos que as instâncias europeias têm falta de poder e de recursos e que os Estados dispõem de autoridade e meios ilimitados. Mas o Banco Central Europeu (BCE), que geriu a crise com o êxito de todos conhecido, tendo recentemente dedicado o montante de 1 bilião de euros ao refinanciamento dos bancos, não depende dos governos nem dos eleitores da União. A harmonização das políticas europeias pela bitola da austeridade alemã, longe de se ver constrangida por uma qualquer falha de integração (orçamento comum, ministro único), já deu resultados, visto ter conseguido aprofundar o endividamento dos Estados e aumentar a miséria dos povos…
Ora as Cassandras dos nossos dias são os beatos do passado recente. Instigadores das políticas comunitárias impostas a fórceps desde há trinta anos, festejaram sucessivamente o maior mercado do mundo, a moeda única e a «política de civilização»; ignoraram o veredicto popular mal ele se lhes mostrou contrário; destruíram qualquer projecto de integração que se baseasse na harmonização social por cima, nos serviços públicos, e em barreiras comerciais nas fronteiras da União. Agora, soam as badaladas da meia-noite e o coche transforma-se em abóbora; esquecem-se subitamente da sua antiga alegria e juram que sempre nos avisaram de que aquilo nunca iria funcionar.

Irá a dramatização financeira servir de pretexto para impor um salto federal em frente sem o submeter ao teste do sufrágio universal? Poderá uma Europa que já se encontra em mau estado dar-se mesmo ao luxo dessa nova denegação da democracia?

sexta-feira 6 de Julho de 2012

Notas
(1) Ler Pierre Rimbert, «Le théorème de Guetta», Le Monde diplomatique, Novembro de 2008.
(2) Le Figaro, Paris, 7 de Novembro de 2011. 
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Esclarecimento



A senhora que foi presa em Aveiro por roubar uma lata de atum, no valor de 1,27 euros, nunca foi presidente da assembleia geral da Associação de Folclore da Região de Turismo dos Templários. 

(No reino do absurdo, mais vale recorrer ao nonsense.) 
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Vítor Gaspar, bosão de Higgs, etc. – isto anda tudo ligado



Se Vítor Gaspar conseguir o que ontem prometeu em Bruxelas – encontrar «medidas de igual impacto orçamental [ao dos cortes de subsídios, chumbados pelo TC]», procurando «garantir que essas medidas merecem o maior consenso político e social possível em Portugal», e tudo isto depois de «discutir as várias alternativas com os parceiros internacionais – terá garantido um próximo Nobel e um lugar no Panteão Nacional.

Mais: porá na sombra a importância de tudo o que está a ser dito sobre o bosão de Higgs porque convencerá o mundo de que Deus existe (e até é português…), para enorme gáudio da professora da Lusófona Fátima Campos Ferreira – que deve ter saído um pouco desconsolada do «Prós e Contras» de ontem, sem provas palpáveis da tal existência de Deus. 

 (Fonte)

9.7.12

Cúpulas e mais cúpulas (1)



Catedral da Assumpção, Kremlin, Moscovo (Rússia, 2012)

(*) Nova Série. Para começar, algumas cúpulas fotografadas na Rússia. 
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Cadeira inspirada



Eu não sei quem é Paulo Lobo, mas fico cheia de admiração por um designer que conseguiu «inspirar-se na figura de Cavaco». Eu sei que se trata apenas de uma cadeira mas, mesmo assim, têm de ser muito grandes a imaginação, o engenho e a arte!...

Mas num outro comprimento de onda, e parafraseando Helena Romão no Facebook, falar de cadeiras e de chefes de Estado aos portugueses é pô-los de novo a sonhar…
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Empreendorismo é o que é!...


(Clicar na imagem para ler melhor)
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As disparatadas notas do Secundário



Se alguém for capaz de me convencer de que isto é normal, eu agradeço: «as médias totais dos exames finais de Português, e Matemática, do 12º ano, são negativas». Além disso, Biologia e Geologia, Física e Química A e Filosofia também tiveram médias totais negativas. Nas outras disciplinas sujeitas a exame final, e nas quais se verificaram médias positivas, estas oscilaram, na sua maioria, entre os 10 e os 12 valores. 

Até se terão verificado melhorias de décimas ou de centésimas de valor este ano, nalguns casos, mas não é isso que altera a situação. 

Que país é este, em que uma população de muitos milhares de jovens chega ao fim de doze anos de escolaridade e se vê julgado negativamente? Para além de tudo o resto, que significa isto para a autoestima desses jovens e para a motivação que deveriam ter para a nova fase da vida que vão iniciar, seja esta qual for? Isto acontece, com estas proporções, em toda a parte, por exemplo nos países mais «atrasados» da União Europeia (já não estou a exigir muito…)? 

A culpa não pode ser atribuída só a este governo, a Nuno Crato ou ao seu predecessor imediato. Quando é que o descalabro, a este nível, começou? Não sei exactamente mas há cerca de 18 anos não era assim – disso lembro-me bem.  

(Fonte)
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8.7.12

Livros com relva



… e um papagaio de papel?

Bem podia ser um cartaz publicitário de um Universidade perto de si…

(Via Improbable Libraries no Facebook) 
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E se as declarações de inconstitucionalidade se generalizarem?



Enquanto faço horas à espera de aviões que me levarão para Portugal, leio que um tribunal grego declarou inconstitucionais e desajustadas duas leis que impuseram reduções de salários e outras medidas que afectaram o sector público. 

As leis em questões seriam inaceitáveis, também, por terem sido acompanhadas por um endurecimento generalizado das condições de vida dos cidadãos afectados e por não respeitarem a Convenção Europeia dos Direitos Humanos e a legislação internacional em matéria de contratação laboral.  


Estamos aparentemente numa fase em que a Justiça dos países começa a entrar em conflito aberto (no nosso caso, muito suave, pelo menos para já…) com imposições austeritárias vindas do exterior e que os governos aceitam. Os próximos capítulos podem vir a ser interessantes, sobretudo se factos como estes se generalizarem nos países intervencionados. 
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