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24.11.12

O 25 de Novembro é amanhã, mas já começaram os «festejos»



Hoje, no Porto, Pires Veloso foi homenageado em reconhecimento do papel que desempenhou no 25 de Novembro de 1975.

O general decidiu comparar a data com a da Batalha de Aljubarrota. É lá com ele, as comparações tontas ficam com quem as faz e até houve sempre iberistas que lamentaram o sucesso da nossa padeira... (Disse também que a actual situação do país se assemelha à «anarquia» do PREC, mas adiante.)

Indo ao que interessa. Paulo Morais, antigo vice-presidente da Câmara do Porto (sim, o mesmo do badaladíssimo vídeo que percorre o Facebook e muitos blogues – não este), porta-voz do grupo organizador do almoço, fez questão de sublinhar que o objectivo da iniciativa foi lembrar «essa data histórica que tem passado despercebida injustamente», «repor a sua real dimensão no âmbito da verdade histórica», porque «se é verdade que o 25 de Abril de 1974 libertou o país de uma ditadura que o oprimia há quase cinco décadas, o 25 de Novembro libertou-o de outra, de sinal contrário e mais sanguinária». (O realce é meu.)

À medida que os anos vão passando, cresce a tentativa de apagar Abril e de o substituir por Novembro. E não é certamente por acaso que esta homenagem aconteceu agora e não há cinco, nem há dez anos. Não me canso por isso de divulgar esta intervenção de Fernando Rosas na Assembleia da República. Foi feita em 2009, mas é mais actual do que nunca.



(Fonte da notícia)

Cada vez mais de tudo


@Paulete Matos

«Há cada vez mais velhos abandonados nos hospitais. Há cada vez mais crianças abandonadas nos hospitais. Há cada vez mais animais abandonados. Há cada vez mais meninos que vão para a escola sem terem tomado o pequeno-almoço. Há cada vez mais pessoas a ter de entregar a casa ao banco por não conseguirem pagar a prestação. Há cada vez mais gente desempregada. Há cada vez mais gente a alimentar-se de papas. Há cada vez mais gente a levar um tupperware com comida para o emprego. Há cada vez mais restaurantes a fechar as portas. Há cada vez mais pessoas a fumar tabaco de enrolar. Há cada vez mais pessoas a pedir esmola nas ruas. Há cada vez mais pessoas a recorrer às Misericórdias e ao Banco Alimentar contra a Fome. Há cada vez mais pessoas a não tratar dos dentes. Há cada vez mais pessoas a não ir ao médico. Há cada vez mais casos de tuberculose. Há cada vez mais casos de tosse convulsa. Há cada vez mais casos de dengue na Madeira. Há cada vez mais pessoas a deixar de comprar jornais e revistas. Há cada vez mais pessoas a andar de transportes públicos. Há cada vez mais pessoas a emigrar.» 

Nicolau Santos, Expresso, «Economia» (sem link)
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Countdown


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Já nem ele confia nos bancos

23.11.12

Esses milionários que nos querem



Segundo uma notícia ontem publicada na revista Visão, e entretanto transcrita numa página do ministério dos Negócios Estrangeiros, 20 milionários não europeus já estão em fase de negociações com o governo para tirarem partido da Lei n. 29/2012 (publicada em Agosto) que lhes dá direito a um visto de residência em Portugal se por cá investirem um milhão de euros, se criarem pelo menos 30 postos de trabalho, ou se comprarem um imóvel por mais de 500.000 euros. Mais algumas dezenas estarão dispostos a seguir-lhes o exemplo.

Segundo a mesma notícia, a explicação para tanto interesse («perfilhada», aparentemente, pelo ministério de Paulo Portas) estaria na obtenção de «um visto especial de residência num país do espaço Schengen».

E é aqui que deixo de entender. Se os ditos milionários investissem neste canto da Europa porque nem dariam pela falta de mais milhão, menos milhão, tudo bem. Se comprassem um palácio no Algarve para gozarem do clima, ainda melhor. Mas para terem um visto de residência no espaço Schengen? Com que fim? Para poderem depois emigrar para o resto da Europa? Para nela poderem circular livremente? Mas quem são os ricos que estão hoje impedidos de o fazer? De que nacionalidades mais ou menos proscritas podemos estar a falar? 

Fico com curiosidade de saber quem são esses primeiros 20 «conquistadores». Há algo que me escapa, Ou que me cheira a esturro. 
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Previsões certeiras



Ontem, numa das entradas de Bruxelas. 
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E pronto: mais uma arguida



Soube-se hoje publicamente que, no passado dia 8 de Novembro, Mariana Avelãs foi constituída arguida, com Termo de Identidade e Residência, «pelo "crime" de organização de manifestação não comunicada».

Segundo comunicado dos organizadores do 15 de Setembro (que abaixo transcrevo), «a suposta manifestação terá, segundo a denúncia policial, ocorrido no dia 12 de Setembro, e mais não foi do que a conferência de imprensa de divulgação da manifestação de 15 de Setembro - em que 15 pessoas seguraram uma faixa em frente da Assembleia da República enquanto falavam com os jornalistas, sem qualquer incidente ou impacto na ordem pública».

O estado da nossa democracia «melhora» de dia para dia. Como o estado do país, aliás.

Organizadora da Manifestação de 15 de Setembro Constituída Arguida

No dia 14 de novembro, na sequência de uma manifestação amplamente participada, convocada pela CGTP, e à qual aderiram os mais diversos setores e movimentos, o país assistiu, em direto, a dois incidentes distintos: um grupo de pessoas a arremessar pedras e outros objetos ao corpo de intervenção da polícia, que não reagiu; e uma carga policial violentíssima, que, longe de travar quaisquer atos de violência, antes os distribuiu, de forma gratuita, sobre todos os manifestantes. Isto apesar de ser claro, para quem lá estava e/ou viu as imagens televisivas, que o arremesso de objetos por um reduzido grupo de pessoas foi tolerado pelas forças policiais. Seguiram-se horas de terror nas imediações da Assembleia da República, que culminaram na detenção de dezenas de pessoas, incluindo um menor, no Cais Sodré — pessoas sem qualquer relação com os incidentes ocorridos durante a tarde. Os detidos, alguns feridos a quem foi negada assistência médica, ficaram incontactáveis durante horas, privados do direito legal de comunicar com a família e advogados, e foram coagidos a assinar autos com espaços em branco, para poderem sair em liberdade - nunca foram, portanto, sequer acusados de nada.

O direito à manifestação vem consagrado na Constituição (e não depende, ao contrário do que muita vez se diz, de qualquer «autorização» — o que o Decreto-Lei nº406/74 estipula é a entrega de um aviso por escrito ao presidente da câmara municipal, com a antecedência mínima de dois dias úteis), e nenhuma democracia é digna desse nome se não o respeita. Mais ainda quando tenta condicioná-lo, fazendo uso de mecanismos repressivos, sem respeito pelas normas que caracterizam um estado de direito. No último ano, temos assistido a casos repetidos de notificação e subsequente instauração de processos a pessoas, pelo simples facto de estarem nas ruas a exercer o direito constitucional de expressar a sua opinião e fazer trabalho de mobilização.

Foi precisamente o que aconteceu a uma das subscritoras da manifestação de 15 de setembro, que foi constituída arguida no dia 8 de novembro, pelo «crime» de organização de manifestação não comunicada, e se encontra, neste momento, com Termo de Identidade e Residência. A suposta «manifestação» terá, segundo a denúncia policial, ocorrido no dia 12 de setembro, e mais não foi do que a conferência de imprensa de divulgação da manifestação de 15 de setembro - em que 15 pessoas seguraram uma faixa em frente da Assembleia da República enquanto falavam com os jornalistas, sem qualquer incidente ou impacto na ordem pública. Aliás, fazemos notar que os agentes da PSP que se deslocaram ao local traziam consigo um mandado de notificação já preenchido, ao qual faltavam apenas os dados da pessoa a notificar.

Porque sabemos que não há democracia com repressão e atropelos ao que fundamenta um estado de direito, denunciamos a estratégia, clara e previsível, de coação por parte das forças policiais. Se contestar pacificamente a austeridade fosse crime, todos seríamos criminosos pelo simples facto de dizer que não concordamos com ela. Porque nos recusamos a cair na armadilha de quem quer tornar as nossas ideias reféns de pedras e bastões, continuaremos a sair à rua, como sempre fizemos: a dar a cara por aquilo que acreditamos, e pacificamente. Temos muito mais do que pedras como argumento, e é por isso que não nos calam, nem com bastões nem com processos por crimes que não cometemos.

(Daqui)

P.S. – Entretanto, a Mariana Avelãs escreveu isto no Facebook, por volta das 17:00: «Bem, antes de mais, obrigada a todos pelas mensagens de apoio. queria só dizer que soube, entretanto, por jornalistas, que o processo foi arquivado. não, ninguém do magistério público me informou, não tive mais visitas simpáticas de alguém a dizer que vem da polícia, esta informação não é sequer oficial. mas são boas notícias. Porém, não apagam o que é importante, que não é eu já poder passear à minha vontade, mas o facto de nos estarem a coagir sem quaisquer escrúpulos. Há muito mais gente acusada em situações semelhantes, com processos ainda em curso, e precisam tanto da nossa/ vossa solidariedade como eu. Mais não seja para ficarem a saber pela comunicação social que os respectivos processos foram arquivados (ou não). Obrigada. e até já, que isto ainda vai no adro.»

Cogumelos?



Fiquei rigorosamente de boca aberta quando ontem ouvi, já tarde, a repetição desta pérola. E ríamos nós de Américo Tomaz!!!

 



 Uma sessão em que os artistas convidados fossem Aníbal e Cardona? Isso é que era!
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22.11.12

Aqui jaz o algarismo 7



Ricardo Araújo Pereira, hoje sobre Finanças (e chimpanzés – diz ele).

«O ser humano comparece com pouca frequência nas folhas de Excel, ao contrário do algarismo. E o algarismo não passa fome, ao contrário do ser humano. É raro encontrarmos uma lápide, no cemitério, com a inscrição: "Aqui jaz o algarismo 7. Faleceu na sequência de um engano numa multiplicação. Paz à sua alma."» 

Na íntegra AQUI.
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Já todos atirámos uma pedra



... diz o Zé Neves, na sua crónica quinzenal no «i» eu assino. 

«Uma parte dos comentadores declarou que a violência seria sempre reprovável. Não vejo como possamos aceitar esta tese. Em política podemos escolher entre tipos de violência, não podemos escolher entre violência e não-violência. A esmagadora maioria dos comentadores que criticam os lançadores de pedras condenam a violência em si mesma, mas não recusa a existência de forças policiais, isto é, o monopólio estatal da violência. (...)

Outra parte dos comentadores que condenaram quem atirou pedras à polícia declarou que a violência não leva a nada. Este argumento pragmatista é igualmente inválido. A violência ergueu e derrubou regimes, proibiu e permitiu greves, levantou e eliminou barreiras de todo o tipo, do Muro de Berlim às cercas dos latifúndios alentejanos. É verdade – e é importante recordá-lo sempre – que a violência por si só nada resolve, mas é discutível que por si só alguma coisa resolva o que quer que seja. (...)

Recusemos a exigência pacifista segundo a qual quem luta por um mundo sem guerra tem de agir de forma absolutamente pacífica. E recusemos a afirmação militarista segundo a qual a guerra possa simplesmente ser um meio para a paz. Fazemos política obedecendo a certos fins, que são determinados pelas nossas convicções morais, e recorrendo a certos meios, que são definidos pelas nossas decisões táctico-estratégicas. Os fins e os meios não têm de coincidir em absoluto, como exigem os pacifistas, nem podem ser simplesmente opostos, como admitem os militaristas. Devem antes exercer uma vigilância recíproca.»

Na íntegra AQUI.
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RTP – Comunicado da Comissão de Trabalhadores



COMUNICADO Nº. 49/12

A RTP NÃO É FIGURANTE NAS ENCENAÇÕES DO GOVERNO

Toda a gente sabe que, no dia 14 de Novembro, a polícia foi apedrejada durante hora e meia sem reagir. Toda a gente sabe que, depois disso, a carga policial cilindrou po r igual manifestantes violentos e manifestantes pacíficos, passantes acidentais em S. Bento e alguns no Cais Sodré. Toda a gente sabe que as dezenas de pessoas detidas foram depois privadas de contacto com os seus advogados e submetidas a vexames em Monsanto. Toda a gente sabe que o ministro Miguel Macedo negou com solenidade a mesma existência de infiltrados que a PSP veio depois confirmar.

A actividade dos infiltrados e a passividade da polícia, durante uma hora e meia, só podem ter servido para justificar aos olhos da opinião pública as violências e arbitrariedades policiais. Em última análise o plano só pode ter consistido em intimidar as centenas de milhares de pessoas que nos últimos meses têm participado em protestos contra o Governo e em dissuadi-las de voltarem à rua. Tudo teve os contornos de uma grande operação de guerra psicológica.

Para continuar, nos dias e meses seguintes, a fazer render essa operação de guerra psicológica, o Governo quis lançar mão de todos os recursos. Entre eles, quis contar com imagens gravadas pela RTP. Aqui enganou-se. A cada passo que dava dentro da RTP, o pedido governamental tropeçava na resistência dos trabalhadores.

A Comissão de Trabalhadores tomou desde o primeiro instante o seu lugar – e só o seu, sem ocupar o de mais ninguém – nessa espontânea resistência dos trabalhadores. Do primeiro ao último instante, insistiu para que fosse esclarecida toda esta história nebulosa.

Uma parte das responsabilidades foi assumida pelo Diretor de Informação e pelo Conselho de Administração. Nada foi dito pela Direção Geral de Conteúdos. Um inquérito interno irá correr para apurar outras responsabilidades: o ministro Miguel Macedo deverá saber que nem nós somos figurantes da sua encenação, nem a RTP é uma manifestação onde possa colocar impunemente os seus peões infiltrados.

E são estas as responsabilidades políticas que deverão ser apuradas por quem de direito. Não pode tolerar-se que Miguel Macedo, para efeitos da propaganda do Governo, induza ao crime – seja com as pedradas dos seus infiltrados, seja com pedidos de imagens que pressupõem uma violação da legalidade pela RTP. Não pode tolerar-se que homens de mão do ministro entrem na televisão pública como numa quinta sua, sem mandado judicial, para visionar e requerer cópias de imagens destinadas exclusivamente ao trabalho jornalístico. E não pode tolerar-se um Ministério da tutela que tolera toda esta intromissão e dela se faz cúmplice, por acção ou omissão.

A hora é de apurar também as responsabilidades políticas.

O Secretariado da Comissão de Trabalhadores da RTP 
comissao.trabalhadores@rtp.pt

Lisboa, 22 de novembro 2012

(Divulgado no Facebook, esta tarde, por volta das 15:00.)
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A minha resposta à Autoridade Tributária e Aduaneira



(Enviada hoje por mail.)

Ex.mos Senhores,

Em menos de dez dias, recebi duas mensagens, com o mesmo objectivo e de conteúdos muito semelhantes, assinadas por José António de Azevedo Pereira que se diz diretor-geral da Autoridade Tributária e Aduaneira.

Não sei se os vossos serviços estarão a ser vítimas de ataques de hackers informáticos (e, nesse caso, que este mail funcione como um aviso) ou se há algo que me escapa quanto à razão de ser de uma iniciativa de que sou alvo e me considero vítima.

Na minha modesta opinião, quem usa correio electrónico também tem habitualmente acesso a meios de comunicação social tradicionais e estes são os veículos normais para que a informação chegue aos cidadãos. E aquela que está em causa – «os benefícios fiscais que serão proporcionados a quem exige factura» – já foi largamente difundida e comentada. 

Além disso, não me parece que a função uma direcção-geral de impostos seja a mesma que a de uma agência de marketing, com vocação para campanhas publicitárias em massa junto da população portuguesa. Ainda menos se a referida campanha contém, subliminarmente ou não, uma sugestão de policiamento de uma parte dos cidadãos por aqueles que recorrem aos seus serviços.

Assim sendo, agradeço que não me sejam enviadas novas mensagens deste tipo.

Cumprimentos
Maria Joana de Menezes Lopes
NIF: XXXXXXXX
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O Conselho Europeu e o que está em causa



« O debate orçamental em Bruxelas está inquinado pela sua própria engenharia perversa que coloca em rota de colisão os países contribuintes líquidos e os países beneficiários. É uma dicotomia que acentua a crise. Não são só os portugueses que precisariam de um orçamento comunitário maior. Os alemães e os finlandeses também seriam beneficiados, na medida em que esse orçamento poderia suportar políticas contra cíclicas, que atenuariam a recessão em que a Europa vai mergulhar em 2013, prejudicando também as exportações desses países. (...)

Não concordo que seja o egoísmo a caracterizar a estratégia do directório. Infelizmente, a questão não é ética, é, sim, cognitiva. Se fosse um problema de mal moral (egoísmo), não seria grave, pois, como recorda o grande Kant, até os diabos são capazes de compreender o valor da solidariedade quando está em causa salvar a pele. O problema europeu é pior. Somos governados por uma estupidez indomável. Incapaz de aprender com os próprios erros.»

 
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«Uns e outros procuram escamotear a evidência maior dos nossos dias, que é a do fim do ciclo ultraliberal iniciado entre finais dos anos 70 e começos dos anos 80 do século passado, com as respostas que Margaret Thatcher e Ronald Reagan deram às primeiras dificuldades que, com a crise do petróleo e as suas consequências, abalaram o horizonte de crescimento que enquadrava a economia ocidental desde os anos cinquenta.

Com características, variantes e ritmos muito diversos, a solução ultraliberal impôs-se por todo o lado, com o seu cortejo de desregulamentações, privatizações, flexibilizações e... endividamentos. E a Europa, ao contrário das piedosas ilusões tantas vezes proclamadas, deixou-se levar por esta miragem e por muitas das suas ideias, quando não foi ela própria um instrumento activo da sua adopção e da sua generalização. Convém, hoje, ter a lucidez de o reconhecer.

Quatro décadas passadas, a evidência que agora toma uma forma inequívoca é, contudo, a de que não há solução ultraliberal para a crise que enfrentamos, nacional e internacionalmente. Mas outra evidência emerge ao lado desta: a de que, apesar de esgotado, o modelo resiste tal como - na expressão de Pessoa - "um cadáver adiado que procria". O que caracteriza um fim de ciclo é sempre a indecisão, com os seus múltiplos e imprevisíveis efeitos, que bloqueiam tudo o mais. E é nisto que estamos, por todo o lado - daí, o grande impasse, bem como o dominó de pequenos impasses, em que vivemos.»

Manuel Maria Carrilho

21.11.12

O menino que Gaspar não conhece



Nicolau Santos, hoje, no Expresso online.

«Supermercado do centro comercial das Amoreiras, fim da tarde de terça-feira. Uma jovem mãe, acompanhada do filho com seis anos, está a pagar algumas compras que fez: leite, manteiga, fiambre, detergentes e mais alguns produtos.

Quando chega ao fim, a empregada da caixa revela: são 84 euros. A mãe tem um sobressalto, olha para o dinheiro que traz na mão e diz: vou ter de deixar algumas coisas. Só tenho 70 euros.

Começa a pôr de lado vários produtos e vai perguntando à empregada da caixa se já chega. Não, ainda não. Ainda falta. Mais uma coisa. Outra. Ainda é preciso mais? É. Então este pacote de bolachas também fica. Aí o menino agarra na manga do casaco da mãe e fala: Mamã, as bolachas não, as bolachas não. São as que eu levo para a escola. A mãe, meio envergonhada até porque a fila por trás dela começava a engrossar, responde: tem de ser, meu filho. E o menino de lágrima no canto do olho a insistir: mamã, as bolachas não. As bolachas não.»

Continuar a ler AQUI.
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E já lá vão 37 anos



Em 21 de Novembro de 1975, com o governo de Pinheiro Azevedo auto-suspenso e grande efervescência nos meios civis e militares, 170 recrutas do Ralis, de punho fechado, prestaram um juramento que viria a ficar célebre.

Muitos dos que com ele vibraram, hoje politicamente muito correctos, encolherão os ombros ou dirão que é mais que tempo de enterrar os vestígios do PREC. Muitos outros, sobretudo mais novos, verão estas imagens com alguma estranheza, porventura com uma ponta de inveja de tempos que não viveram. Para mim são uma relíquia – de «um sonho lindo que acabou».

 
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O Gaspar é que deve sair do presépio...



Papa reafirma virgindade de Maria e diz que o burro e a vaca não estavam no presépio. 

(Questões transcendentes para a humanidade, sem dúvida!)
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A Grécia ou o suplício de Tântalo



Mais uma reunião de 11 ou 12 horas do Eurogrupo, mais um adiamento para libertar, ou não, os 31,2 mil milhões de euros que o governo grego espera desde Junho passado. Tal como Tântalo, Antonis Samaras viu, uma vez mais, a água que se escoou sem a poder beber e o vento afastar os frutos das árvores sem conseguir alcançá-los. É resistente.

Embora reconhecendo-se que a Grécia «se portou bem», porque adoptou as medidas impostas pela troika, e com divisões mais ou menos cosméticas entre o FMI e a União Europeia, invocou-se o pretexto da necessidade de mais estudos técnicos para esconder a realidade, pura e crua, que todos conhecem: a Grécia, exaurida e arrasada por mais de cinco anos de recessão, afundar-se-á com ou sem os 31,2 mil milhões de euros.

E nós também, infelizmente, se não aproveitarmos o pouco tempo que ainda nos resta para mudarmos de rota. 
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20.11.12

Caminhar sobre o mar?



Impressionada com as notícias sobre israelitas e palestinianos, é bem possível que a drª Celeste Cardona ande a sonhar com a Galileia e com um Cristo a marchar novamente sobre as águas. Mas Lisboa não é Cafarnaum e só algo de muito delirante pode explicar esta sua tirada, digna de antologia, que o Diário de Notícias hoje divulga.



Em verdade, em verdade vos digo: um país que sobrevive a ministros, administradores da CGD, consultores da EDP (ou algo de parecido) e membros do Conselho Nacional de um dos partidos que o governa, como esta senhora, só pode ser muito forte! Não sei se caminhará sobre o mar, mas é certamente capaz de grande resistência à idiotice. O que já meio caminho andado para acabar com ela. 
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«Violenta é a austeridade» - Comunicado



Divulgo este texto, emitido esta tarde, que subscrevi. 

O dia 14 de Novembro foi um dia histórico. Por toda a união europeia e em vários países do mundo realizaram-se greves gerais e protestos nunca antes vistos. Em Portugal, milhares de trabalhadores e trabalhadoras fizeram uma greve geral contra as políticas deste governo e da troika, numa das maiores paralisações registadas. Nesse dia decorreram também várias manifestações com elevada participação.

Repudiamos a carga policial injustificável e indiscriminada que ocorreu nesse dia, sob ordens do Governo. Soubemos de resto que comerciantes da zona tinham sido ainda antes da manifestação avisados pelas autoridades para fechar os seus estabelecimentos, o que nos leva a concluir que independentemente dos acontecimentos, estava prevista uma carga policial.

As forças de segurança feriram mais de 100 pessoas, o pânico que se seguiu podia ter redundado numa tragédia. A própria Amnistia Internacional Portugal já condenou publicamente o uso excessivo de força policial. Na hora que se seguiu, as forças de segurança procederam à detenção de várias dezenas de pessoas, em zonas tão distantes como o Cais do Sodré; algumas nem tinham estado em frente à Assembleia da República. Durante muitas horas, a polícia não revelou a familiares e advogados/as o local em que se encontravam as dezenas de pessoas detidas, nem as deixou falar com elas. Muitas das 21 pessoas que foram levadas para o tribunal criminal de Monsanto foram forçadas, sob ameaça, a assinar formulários que se encontravam em branco. Todos os testemunhos que nos chegam comprovam, tal como a ordem de advogados já salientou, a existência de inúmeras ilegalidades nos processos de detenção.

Exigimos por isso a instauração de um inquérito à actuação das forças de segurança bem como aos termos em que foram efectuadas as detenções e demonstramos a nossa total solidariedade com todas as pessoas detidas e vítimas da repressão na noite de 14 de Novembro.

Estamos perante uma operação política e policial que, a pretexto de incidentes tolerados durante mais de uma hora e transmitidos em directo pelas televisões, pretende pôr em causa o direito de manifestação, criminalizar a contestação social, e fazer esquecer as medidas de austeridade impostas, de extrema violência e que levam à revolta e ao desespero das pessoas. Temos plena consciência que o governo pretende impor a sua política e a da troika, de qualquer forma, inclusive pela repressão política e a liquidação de grande parte das liberdades democráticas. A liberdade está a passar por este combate e, por muito grande que seja a repressão, não vamos assistir em silêncio a um retrocesso histórico de perdas de direitos duramente conquistados.

Recusamos que um dia nacional, europeu e internacional de mobilização histórica contra as políticas de austeridade seja desvalorizado ou esquecido, quer pela comunicação social, quer pelo governo. Somos cada vez mais a contestar este regime de austeridade e não nos calaremos, por isso apelamos à mobilização no dia 27 de Novembro, dia de aprovação do Orçamento do Estado.

Subscritores Colectivos:

ACED, Associação de Combate à Precariedade – Precários Inflexíveis, Attac Portugal, CADPP, Clube Safo, CMA-J Colectivo Mumia Abu-Jamal, Colectivo Revista Rubra, Indignados Lisboa, Marcha Mundial das Mulheres – Portugal, MAS – Movimento de Alternativa Socialista, Movimento Sem Emprego, Panteras Rosas, PCTP/MRPP. Plataforma 15O, RDA69 – Recreativa dos Anjos, Socialismo Revolucionário, SOS Racismo.


Subscritores Individuais:

Adriana Reyes, Alcides Santos, Alex Matos Gomes, Alexandre De Sousa Carvalho, Alexandre Lopes de Castro, Alice da Silveira e Castro, Alípio de Freitas, Ana Benavente, Ana Catarina Pinto, Ana Rajado, Andre Carmo, Ângela Teixeira, Antonio Barata, António Dores, António Mariano, António Serzedelo, Bernardino Aranda, Bruno Goncalves, Carlos Guedes, Carolina Ferreira, Catarina Fernandes, Catarina Frade Moreira, Clara Cuéllar, Cláudia Figueiredo, Daniel Maciel, David Santos, Eduardo Milheiro, Eurico Figueiredo, Fabian Figueiredo, Fernando André Rosa, Francisco d’Oliveira Raposo, Francisco da Silva, Francisco Furtado, Francisco Manuel Miguel Colaço, Gonçalo Romeiro, Guadalupe M. Portelinha, Gui Castro Felga, Helena Romão, Isabel Justino, Joana Albuquerque, Joana Lopes, Joana Ramiro, Joana Saraiva, João A. Grazina, João Baia, João Labrincha, João Pascoal, João Valente Aguiar, João Vasconcelos Costa, Jorge d’Almada, Jorge Fontes, José Luiz Fernandes, José Soeiro, Judite Fernandes, Lidia Fernandes, Lúcilia José Justino, Luís Barata, Luís Júdice, Luis Miranda, Luna Carvalho, Magda Alves, Mamadou Ba, Manuel Monteiro, Manuela Gois, Margarida Duque Vieira, Maria Conceição Peralta, Maria Paula Montez, Mariana Pinho, Marta Teixeira, Martins Coelho, Nuno Bio, Nuno Dias, Nuno Ramos de Almeida, Olimpia Pinto, Paula Gil, Paulo Coimbra, Paulo Jacinto, Pedro Jerónimo, Pedro Páscoa, Pedro Rocha, Raquel Varela, Renato Guedes, Ricardo Castelo Branco, Rita Cruz Neves, Rita Veloso, Rodrigo Rivera, Rui Dinis, Rui Faustino, Sandra Vinagre, Sérgio Vitorino, Sofia Gomes, Sofia Rajado, Sónia Sousa Pereira, Teresa Ferraz, Tiago Castelhano, Tiago Mendes, Tiago Mota Saraiva, Tiago Santos, Tiago Silva.  

(Daqui)

A paz social da Suécia e a miséria da vida da Grécia?



Revejo-me em cada linha do texto que Nuno Ramos de Almeida escreve hoje no «i»: O caminho das pedras.

Para além do relato dos factos, reter:

«Por detrás desta aparente incompetência em sanar rapidamente incidentes existe uma estratégia: o executivo de Passos Coelho já percebeu que só consegue impor o programa selvagem de austeridade da troika cortando liberdades. Fala-se na limitação do direito à greve a propósito da paralisação dos estivadores, é muito provável que o governo pretenda criminalizar o direito à manifestação. (...)

Nas últimas manifestações há cada vez mais gente desesperada, um sem-número de pessoas que não aguentam a situação em que sucessivos governos deixaram Portugal. Nos bairros dos subúrbios os filhos nunca tiveram emprego e os pais já não têm. Temos uma falsa democracia, em que os manifestantes são espancados mas os antigos responsáveis do BPN, banco em que desapareceram para os bolsos de alguns milhares de milhões de euros, nunca foram presos e tornam-se conselheiros do primeiro-ministro. Portugal é um país com milhão e meio de desempregados. As estatísticas falam de um número recorde de pessoas na pobreza, de gente expulsa das suas casas e sem dinheiro para comer. A violência é filha de um país sem saída. Como querem ter a paz social da Suécia com a miséria da vida na Grécia? Desenganem-se, a guerra está no início e a violência vai encher as ruínas das nossas cidades desertificadas por uma política que serve apenas os poderosos.» 
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Douce France...



... ou o Sol, quando nasce, acaba por ser para todos. Ou, se se preferir: «Quando aconteceu com a Grécia, calei-me porque, afinal, não era grego. Quando chegou à Irlanda, calei-me porque não era irlandês. Quando foi a vez de Portugal e da Espanha, calei-me, porque, afinal, também não era nem português nem espanhol. E agora? À espera da Alemanha...»

A Moddy's tira a classificação de AAA à França, depois de a Standard and Poor’s o ter feito há dez meses.

A França indigna-se e, surpresa das surpresas, o ministro das Finanças já veio dizer que a culpa é da situação deixada pelos seus predecessores: perda de competitividade, fraco crescimento, deficit crescente. «É um castigo para a gestão passada.»

Originalidade = zero. A Europa não aprende e recusa perceber que ou acorda ou cai como um baralho de cartas.


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E ainda há quem se espanta se vir um porco a andar de bicicleta!

19.11.12

Entretanto, na Amadora

Continentes à venda



Leio no Público espanhol que «as grandes potências e os países emergentes superpovoados estão a comprar grandes superfícies de terras cultiváveis nos países em desenvolvimento, para garantir o futuro alimentar à custa das populações que passam fome». Não é novidade, mas a extensão do fenómeno merece atenção.

Arabia Saudita, Emiratos Árabes Unidos, Coreia do Sul, Japão, China e India adquirem ou controlam extensões significativas, em África e na América Latina, naquilo que é identificado como «conflito geopolítico» do ano, que se transformará em tema decisivo nas relações internacionais do século XXI. Estamos perante uma área correspondente à de toda a Europa Ocidental e o director da FAO fala de «neocolonialismo», já que estão em causa «Estados pobres que produzem alimentos para os países ricos à custa da sua própria população faminta».

É o próprio Banco Mundial que reconhece que este fenómeno implica frequentemente deslocalização de populações e abandono das suas culturas tradicionais, assistindo-se à exportação de «milhares de toneladas de alimentos de países que, paradoxalmente, vivem da assistência humanitária internacional para combater a fome e a desnutrição».

Tudo isto ligado a gigantesca especulação financeira que transforma o mercado de alimentos num verdadeiro casino (surprise: com implicação da Goldman Sachs neste domínio, desde 1991).

Vale a pena ler todos os detalhes no artigo do Público.es.

Os colonizadores mudaram mas, para muitos, a colonização continua. Diferente, certamente, mas não menos cruel nem menos injusta. 
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+351



(Clicar para ler melhor)
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E quando isto acontece...



... pelos motivos indicados, num blogue que aprecio desde que existe embora discordando de muito o que lá se escreve, começa-se melhor a semana. 
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A martirização policial



Já é mais do que tempo de deixar de falar da passada quarta-feira, e de partir para outra, mas o tempo ajuda a decantar o fio dos acontecimentos. Hoje, alguém escreve finalmente o óbvio sobre a razão de ser, a montante, da violência da polícia no passado dia 14 de Novembro: Ana Sá Lopes no jornal «i».

«A carga da polícia de choque que se seguiu à manifestação do dia da greve geral teve o condão de provocar um estranho unanimismo na opinião pública, partidária, etc. Avaliar a violência da polícia de choque ocupou nesse dia um lugar secundaríssimo.»

Estamos perante um feito inédito «de elogio unânime dos partidos do governo ao PS – ou de silêncio do quem cala consente do PCP e do Bloco de Esquerda. Como se uma interrogação sobre a proporção da intervenção policial pudesse ser automaticamente confundida com o apoio aos hooligans que atiraram pedras à polícia, o silêncio entupiu muitos daqueles a quem a actuação das forças da ordem (...) perturbou profundamente.

Afinal, como é que a polícia não consegue neutralizar a “meia dúzia de profissionais da desordem” e parte para uma intervenção violenta em larga escala? (...)

A edição do “Correio da Manhã” de ontem dava conta de um mal-estar instalado dentro da polícia pela demora em actuar. À pergunta sobre a demora em actuar ainda não houve uma resposta cabal. Não há uma única razão de segurança aceitável para manter a polícia e o parlamento sujeitos à martirização transmitida em directo. Mas pode haver razões políticas: o argumento da martirização conseguiu transformar uma carga policial num acto aceitável para a maioria dos portugueses; e em imediata sequência transformou as manifs em territórios de risco. Se isto interessa a alguém, não é seguramente ao Menino Jesus.»


P.S. – Fixem bem porque este senhor pode vir a ser o próximo presidente da República. Não ouvi ontem Marcelo Rebelo de Sousa, mas terá dito mais ou menos isto, sobre o mesmo tema:

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18.11.12

As Cidades e as Praças (46)





Praça do Palácio Real (Luang Prabang, 2009)

(Para ver toda a série «As Cidades e as Praças», clicar na etiqueta «PRAÇAS».)
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Deriva autoritária na Europa



Via ATTAC, cheguei a este texto de Xavier Caño Tamayo, que pode ser lido na íntegra aqui.

«Os fascistas da Aurora Dourada e os grupos ou partidos xenófobos de extrema-direita da Holanda, Bélgica e outros países europeus são certamente detestáveis e dignos de toda a rejeição; há que estar alerta, tomar precauções e tentar isolá-los. O seu crescimento nos últimos anos, alimentado pelos medos que suscita a crise que assola a Europa, é preocupante. Mas não são o maior perigo dos nossos dias. É a própria classe política dirigente europeia, ao serviço descarado do poder financeiro, que caminha para o autoritarismo e se encarrega da democracia. Barroso, Draghi, Van Rompuy, Olli Rehn, Merkel, Rajoy, Monti, Samaras, Passos Coelho e companhia não precisam dos esquadrões fascistas tradicionais. Por agora. Eles desmantelam o sistema democrático sem a ajuda de fascistas by the book, porque prescindem olimpicamente da cidadania, nem lhes ocorre ouvi-la, ignoram-na, violam os seus direitos e reprimem duramente quando se resiste ou se protesta. Além disso, o que é insultuoso é que pretendam ser defensores da democracia quando o que fazem é esvaziá-la de conteúdo. Reduzem-na a um cenário, a uma liturgia, a algo que parece uma farsa. (...)

William Shakespeare escreveu que "a erva cresce à noite e que, quando os ricos saem para passear no dia seguinte, já cresceu entre as lajes do átrio". Para bom entendedor ... Porque o mundo nunca mudou pela generosidade de quem tem o poder, o mundo mudou pelo protesto, pela resistência e pela acção dos governados e explorados: o mundo mudou sempre apesar dos que mandavam e detinham o poder. Porque, em última instância, a democracia verdadeira não é um objetivo, mas um caminho. Por muito que lhes custe.» 
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Na primeira pessoa (2)


Conheço o Sérgio Manso Pinheiro, cujo filho foi detido na passada quarta-feira, e que escreveu este texto no Facebook.

«Parece que é possível em Portugal a polícia deter uma pessoa no Cais do Sodré (a 1,6kms da Assembleia da República), algemá-la, omitir dos familiares o local para a leva durante 3 horas (parece que se chama sequestro), apreender o telemóvel, impedir ao advogado qualquer acesso ou informação, identifica-la (e só, porque quem estava detido sabe que não se atira pedras às pessoas, que não se atira pedras aos polícias) e deixá-la às 23horas em Monsanto (sem permitir qualquer chamada a não ser já fora das instalações)… 

Detida estava também uma pessoa ferida, a quem não foi prestado ou o acesso a qualquer tratamento. O Ministro da tutela já felicitou a conduta.

Missing, com Jack Lemmon, retrata a história do pai Americano que procura sem sucesso o seu filho desaparecido depois do golpe militar no Chile de 1973 que depôs o Presidente Salvador Allende, eleito democraticamente.»


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O Orçamento e as suas cosméticas



É hoje título de primeira página do Diário de Notícias. Mais concretamente, «os valores pagos em dinheiro que excedam os 4,27 passam a pagar IRS e Segurança Social» (5,12, actualmente) e «as gratificações declaradas pagarão sobretaxa».

Quem não conseguir almoçar por 4,27 euros vive claramente acima das suas possibilidades. A partir de agora, que peça um mini-mini-prato e viva o velho! De preferência com ossos que possam ser levados para o jantar do cão.

Quanto às gorjetas, a sobretaxa de 3,5% irá aplicar-se às que são «declaradas» e o exemplo que vi dado foi o dos empregados dos casinos, mas há mais. 

Num casino vivemos nós e não me admiraria se, muito em breve, tivéssemos de pedir factura ao arrumador de carros a quem damos 50 cêntimos e que ficaria sujeito a taxas e sobretaxas. É verdade que a EMEL lhes veio dar cabo da profissão, mas ainda há alguns que se governam bem e podem almoçar por mais de 4,27 euros.

Mais a sério: estas cosméticas ao OE, com que nos brindam todos os dias, nada mudam de significativo e servem para exasperar um pouco mais os ânimos e mesmo para nos sentirmos gozados. 
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