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5.1.13

BANIFestam-nos



A ler na íntegra: A trágica semelhança, no site da IAC.

«Começámos o ano com a notícia de que boa parte dos cortes e impostos da sobre-austeridade de 2013 – 1.100 milhões de Euros – vai ser canalizada para salvar mais um banco. Desta vez o BANIF, um banco pequeno pelos habituais critérios de medição, pouco maior que o BPN no ano em que foi nacionalizado. (...) 
A troika reservou 12.000 milhões de Euros para operações como esta. Hoje estão gastos 5.600 milhões (com o BPI, o BCP e agora o BANIF). O direito de conhecer a verdadeira dimensão dos problemas bancários é flagrante. O dever de a desvendar é inevitável.» 

P.S. - A ler também: O banqueiro bolchevista, por Viriato Soromenho-Marques.
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Mais vale rir



O ministro das Finanças revelou hoje não compreender todo este movimento contra as smartshops: «Gostava também de lembrar que as drogas legais, nomeadamente os cogumelos mágicos, as trufas psicoactivas e as sementes de LSA, entre outras, elaboraram sozinhas metade do Orçamento de Estado para 2013.»

É Imprensa Falsa, mas podia não ser.
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Quando ela era bem francesa e não pensava em elefantes



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Os 40 anos do «Expresso» e o ornitorrinco de Nuno Brederode Santos


O Expresso faz hoje 40 anos, o que me parece quase uma impossibilidade (não nasceu ontem?...), como talvez a muitos dos que o leram desde o primeiro número. Com uma adenda pessoal: porque lá estiveram desde a primeira hora vários amigos, e porque eu trabalhava então a quatro ou cinco prédios de distância da sede do jornal, vivi um pouco da sua pré-história, a excitação das vésperas, o impacto das primeiras reacções, espantei-me com os primeiros cortes da censura.

O número de hoje tem manancial inesgotável e pouco mais fiz do que folheá-lo. Mas a prioridade das prioridades vai para a crónica do meu queridíssimo amigo Nuno Brederode Santos, que me faz retomar uma velha tradição deste blogue (publicá-lo sempre ao fim-de-semana), apenas interrompida porque uma mais do que legítima preguiça o levou a parar a colaboração semanal no DN.

Hoje, NBS recorda os seus tempos de cronista do Expresso e a sua crónica preferida: : «Balada do Ornitorrinco». Quem é o ornitorrinco? Cavaco Silva, claro, e ele explica porquê. Hilariante!

ONTEM

Se vamos celebrar os quarenta anos de vida do Expresso, cumpre então recordar todos os contributos, por mais pequenos que eles tenham sido. No meu caso, e além de pequenas colaborações em 1974, foram sobretudo dezassete anos de crónicas, primeiro semanais e mais tarde quinzenais, em alternância com o António Pinto Leite.

Dezassete anos dão para falar de tudo, mas reconheço que o tema mais recorrente foi o PSD. Muito particularmente o PSD de Cavaco Silva, já que este tomou a seu cargo dez anos e deu ao partido uma nova natureza.

Deixando de lado o autoritarismo, que é molho para qualquer salada, os governos de Cavaco tiveram por timbre o populismo e a tecnocracia, uma alquimia delicada e incongruente. Porque, em estado puro, são formas divergentes de negação da democracia representativa. O chefe providencial que cavalga uma multidão de descamisados propõe-se salvar a pátria por mera ação do seu carisma. Diferentes são os regimes ‘iluminados’, cujo mito motor é o progresso e cuja credibilidade assenta, mais do que na relação pessoal com o chefe, na crença de ser ele o epicentro da aristocracia conhecedora da ‘ciência e técnica’ da governação.

Assim, o populismo ataca os políticos, acusando-os ora de corrupção ora de inutilidade; a tecnocracia acusa-os de incompetência. Cavaco tinha o instinto tribal do populismo e a experiência vivida da tecnocracia.

Sobre o primeiro escrevi em 1988 a minha crónica preferida: a “Balada do Ornitorrinco”. Tão preferida que logo mandei vir de Londres um bibelot, um ornitorrinco de bico dourado e em louça chinesa, que ciosamente guardo no meu quarto. O texto é uma romagem à Criação e recorda que o ornitorrinco é anfíbio, tem um bico de pato achatado e uma cloaca. Tem a morfologia de um texugo ainda mais acachapado e o corpo coberto de pelos. A estrutura óssea tem elementos próprios dos répteis que nele se encaixam num sistema de mamífero. Mamífero que nele se revela também porque as fêmeas amamentam as crias.

“A longa querela dos zoólogos para o classificarem não terá contribuído também para lhe insuflar o pundonor. Afinal, decidiram que ele era um mamífero, mas sob um rótulo que não é propriamente uma comenda: ‘monotrémato’. E o nome que reservaram para a espécie evoca-lhe a ave que ele talvez tenha querido ser mas não foi: ‘ornitorrinco’. Discutem se a espécie está extinta ou em vias de extinção. Procuram-no em cada moita ribeirinha dessa Austrália dos paradoxos naturais. Ele espreita as expedições científicas e oculta-se, resvalando no lodo até à água. Não quer ser visto nem estudado, nem compreendido. (...) Sabe que ao falhar a ave, o réptil e quase o mamífero, se tornou, de um bicho, numa questão filosófica. E ele não é filósofo”. Teve, contudo, o seu breve momento de glória. Ansiosa por autonomia, a Natureza pediu um chefe ao Criador e este fez avançar o ornitorrinco. Receberam-no com um triunfo irrepetível. “Só teve de dizer cem vezes: ‘Eu compreendo os bichos da terra, do mar e do ar. A Natureza não pode parar’ — e, no seu êxtase unânime e feérico os animais inventaram o carisma, milénios antes de Max Weber o teorizar.

Foi escolhido por uma mágica maioria. Mas não reinou muito o ornitorrinco. Começaram a corroer-lhe o poder o ceticismo, depois o espanto, enfim a indignação. Falava pouco e rouco, quando dele se esperava a melodia de um chilreio ou a eloquência de um rugido. Não tinha a macrovisão do alto voo, antes se arrastava como se algemado por varizes. Não se reconheceram os peixes do grande oceano em quem não ia além de lentas gincanas de poça de água. Os mamíferos nunca lhe perdoaram o primeiro ovo. (...) Tratou a glória por tu. Triunfou mais do que Pompeu. Interpôs-se entre Deus e a Natureza. Hoje é o último. Resiste ao tempo. E está uma ruína, um destroço, um cavaco”. Sobre a tecnocracia — ainda hoje os governos do PSD refletem essa herança — Cavaco Silva acreditava numa ‘ciência’ da governação e numa casta de iniciados capazes de governar no “interesse geral”.
Não há aqui drama de maior. Grandes espíritos estiveram zangados com a democracia. Platão, por exemplo, teorizou o governo dos sábios na Cidade. Tão lisonjeiro surpreenderia o então primeiro-ministro, “mas não é caso para arraial: fazendo a devida justiça aos dois, nem Platão previu Cavaco, nem Cavaco leu Platão” (1988).

Falo, portanto, não de negações do sistema democrático, mas de desvios à lógica do regime. O que Cavaco pretendia era naturalmente ‘caçar’ votos, e não acabar com eles.

Passado algum tempo sobre Cavaco em São Bento, encontrei uma página do Expresso com a minha fotografia. Emoldurei-a e pendurei-a na parede da sala. Não por narcisismo, mas porque fica bem visível a legenda: “Cavaco faz-me falta”. 
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4.1.13

Injustiças


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Capitalistas de todo o mundo, uni-vos?



«Ils sont fous, ces gaulois!». Depois de Gérard Depardieu ter obtido um passaporte russo para escapar aos elevados impostos em França, chegou agora a vez de Brigitte Bardot ameaçar seguir-lhe as pisadas, não por dinheiro mas como forma de protesto contra «a decisão de um tribunal de Lyon, que decretou o abate de dois elefantes diagnosticados com tuberculose».

A França vai perdendo alguns dos seus ícones e a Rússia talvez comece a sonhar com uma espécie de nova URSS, mas, desta vez, só para ricos. Também temos por cá alguns que ameaçaram emigrar por causa do peso dos impostos (alô, Nogueira Leite..): avancem já que, embora mais pigmeus que gigantes, serão certamente recebidos de braços abertos.

Um pouco mais a sério: a carta que Depardieu enviou a um canal de televisão russo, na qual justifica a sua decisão de aceitar a proposta de Putin, é absolutamente patética e está a provocar ondas de choques nos opositores ao governo russo. Um deles, Eduard Limonov, lançou-lhe um repto:

«Gérard, vem ter connosco no dia 31 de janeiro à praça Triumfalnia (em Moscovo), com o teu passaporte russo no bolso. Todos os dias 31, às 18:00, nesta praça, os cidadãos russos reivindicam o respeito pelo artigo 31 da Constituição russa, que garante o direito a concentrações pacíficas.
Esperamos por ti, Gérard! Se a memória não nos falha, interpretaste, num dos teus filmes, o papel do grande revolucionário francês Danton. Ora bem, caro amigo francês, eis uma bela ocasião para representares um papel histórico real de defensor da liberdade russa.».

O Gérard não irá e a oposição continuará a lutar contra um regime mais do que musculado e tenebroso. A Rússia, e o que ela pode representar a curto e a médio prazo, mete medo e não me parece que se esteja suficientemente consciente da prepotência que de lá pode vir e das respectivas consequências a nível mundial. 
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Com palavras vazias



Um grande texto de Viriato Soromenho-Marques, no DN (os realces são meus):

Os nomes e as coisas

Estamos tão entusiasmados em debater o significado da fiscalização sucessiva do Orçamento do Estado 2013, pedida pelo Presidente da República ao Tribunal Constitucional, que nos esquecemos de como este é um tempo em que os nomes tendem a ficar deslocados das coisas que deveriam representar. Esquecemo-nos que, com a nossa soberania colocada entre parêntesis, o próprio Tribunal Constitucional desempenha a sua função aplicando uma espécie de taxa de desconto à Lei Fundamental, à conta da "emergência nacional", como já se viu no anterior acórdão dedicado ao Orçamento do Estado 2012. Chamamos "memorando de entendimento" a um ultimato travestido de programa de governo que nos foi imposto pelos credores internacionais (representados pela troika). Trata-se de um ultimato que introduz mudanças radicais no nosso modelo de sociedade, que nunca foram discutidas em eleições nem debatidas seriamente no Parlamento. Chamamos "ajuda internacional" a um empréstimo de 78 mil milhões de euros, provenientes de uma União a que pertencemos, ao lado de países amigos e aliados, mas que pratica uma taxa de juro muito superior e condições muito mais duras do que, por exemplo, as que os EUA aplicaram aos inimigos vencidos na II Guerra Mundial.

Chamamos Governo a um grupo de pessoas eleitas por se terem destacado na luta contra as medidas de austeridade do anterior Governo, mas que agora atuam como delegados do poder efetivo dos credores externos. Um Governo que prefere enfrentar os parceiros sociais e os cidadãos comuns a dialogar prudencialmente com a troika. Este é um tempo em que as coisas mudam rapidamente de forma e lugar. Às vezes ficamos sozinhos. Com palavras vazias.
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A democracia como estorvo



«Bem pode o porta-voz do PS louvar a mensagem de ano novo do Presidente por ter deixado Passos Coelho politicamente isolado. Bem podem os opinadores encartados do costume encontrar na dita sinais de descolagem de Belém relativamente a São Bento. Um e outros querem que esqueçamos o essencial: Cavaco Silva é figura de referência das direitas tecnocráticas e dos economistas do deslaçamento social para quem a democracia é um estorvo.»

José Manuel Pureza

Já há almoços grátis?



Fizeram sucesso no Facebook este hipotético anúncio de um jornal e uma também hipotética resposta, cuja origem desconheço. E provocaram uma catadupa de comentários e alguma polémica.

Anúncio:
«Somos um restaurante pequeno e causal no centro da cidade e estamos à procura de músicos para tocarem de graça no nosso restaurante, podendo assim promover a sua música e vender os seus CDs. Este não é um emprego diário, e sim para eventos especiais que eventualmente se tornarão eventos diários uma vez que a ...resposta do público seja positiva. Preferimos que toquem Jazz, Rock, e outros ritmos mais leves, de todo o mundo e de várias culturas. Estás interessado em promover o teu trabalho? Então comunique-se connosco o mais rápido possível.»

Resposta de um músico:
«Feliz Ano Novo! Eu sou um músico, com uma casa grande, à procura de um dono de restaurante que venha a minha casa promover o seu restaurante ao fazer comida de graça para mim e meus amigos. Isto não aconteceria diariamente, mas a princípio em eventos especiais, os quais poderão eventualmente crescer e se tornar algo grande e diário, se a resposta for positiva. Preferimos carne de primeira e refeições exóticas e culturais. Você está interessado em promover o seu restaurante? Então comunique-se connosco urgentemente!»


E um dos meus comentários: «É verdade que vivemos num país em que as duas primeiras figuras do Estado (PR e presidente da AR) trabalham de borla quando podiam estar em casa a gozar as reformas. E se eles nos dão música!» 
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3.1.13

De burlão em burlão



A época natalícia na crónica de Ricardo Araújo Pereira, hoje publicada na Visão.

«O leitor acompanhou a história daquele burlão que apareceu na comunicação social a dar falsas esperanças aos portugueses? Foi de facto incrível, a mensagem de Natal de Pedro Passos Coelho.»

«Seria tão estimulante para o povo português que os desabafos de Passos Coelho sobre o Natal fossem substituídos por desabafos do Natal sobre Passos Coelho. (...) "Peço apenas que procurem a força para, quando olharem os vossos filhos e netos, o façam não com vergonha por terem votado neste homem, mas com a esperança de quem sabe que a legislatura só dura até 2015 – ou mais cedo, se Paulo Portas entender que isso é benéfico para o CDS-PP. A Páscoa e eu desejamos a todos umas Festas Felizes. Um abraço. Natal."»

Texto na íntegra AQUI.
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Peniche, 3/1/1960 – a fuga



Álvaro Cunhal, Carlos Costa, Francisco Martins Rodrigues, Francisco Miguel, Guilherme da Costa Carvalho, Jaime Serra, Joaquim Gomes, José Carlos, Pedro Soares e Rogério de Carvalho fugiram da Fortaleza de Peniche, em 3 de Janeiro de 1960, numa iniciativa absolutamente espectacular.

«Mesmo que, por qualquer motivo, a fuga tivesse sido abortada na sua segunda fase – o trajecto para os esconderijos na zona de Lisboa -, nem por isso deixaria de poder ser considerada um enorme sucesso político para o PCP e um momento alto contra o regime de Salazar. Poucas fugas de carácter político se lhe podem comparar, mesmo incluindo as mais célebres fugas ocorridas durante a II Guerra Mundial. Na história do movimento comunista, é um acontecimento ímpar.»
José Pacheco Pereira, Álvaro Cunhal. Uma Biografia Política. O Prisioneiro (1949-1960), volume 3, p.724.

(Desenho de Margarida Tengarrinha, onde pode ser visto o percurso da fuga.)



Entretanto: se alguém julga que o plano de instalar uma Pousada na Fortaleza está abandonado, desengane-se já que, de vez em quando, o Grupo Pestana fá-lo renascer das cinzas. Não fosse «a crise» e talvez já víssemos concretizado um projecto semelhante ao do Paço do Duque, hoje existente na antiga sede da PIDE em Lisboa. Oxalá não (re)acordemos demasiado tarde.
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Contra a destruição da infraestrutura Científica de Comunicações e Computação



 A notícia veio na edição em papel do Público de ontem, mas só está disponível online para assinantes. Via Diana Andringa, tive acesso a esta mensagem de Luís Magalhães, ex-presidente da FCT e da UMIC.

Caro colega,

Possivelmente sabe que no Conselho de Ministros de 11 de Dezembro foi aprovada uma alteração à Lei Orgânica do Ministério da Educação e Ciência que, entre outras coisas, prevê a extinção da FCCN e a inserção das suas atribuições na FCT. Esta decisão foi tomada sem consulta ou aviso prévios de universidades, politécnicos e comunidade científica, e dando conhecimento à FCT pouco antes da reunião do Conselho de Ministros e já sem haver oportunidade da FCT poder influenciar a decisão.

Este é um grave erro que a consumar-se certamente levará à falência do serviço de acesso à Internet como o conhecemos no sistema científico e do ensino superior e dos serviços fornecidos a este sistema pela Rede Nacional de Investigação e Educação (como b-on, RCAAP, e-U Campus Virtual (Eduroam), computação Grid, rede VoIP do sistema científico e do ensino superior público, segurança informática, etc.). Também resultaria a prazo, sem sombra de dúvidas, num acréscimo elevado de custos para instituições científicas, universidades e politécnicos, além da inevitável degradação de serviços, dado que as operadoras não têm ofertas comerciais ao nível dos serviços disponibilizados pela FCCN e os mais próximos que fornecem são a custos muito mais elevados. Resultarão obviamente graves consequências para o trabalho diário de investigação e ensino universitário e politécnico no nosso país e para a inovação permanente dos serviços baseados em redes de comunicação electrónica que a FCCN conseguiu garantir durante mais de um quarto de século de existência, e geralmente muito antes de serviços semelhantes aparecerem no mercado.

É uma possibilidade de tal gravidade que o Carlos Salema (como 1º Presidente da FCCN e anterior Presidente da JNICT), o João Sentieiro e eu (como os anteriores presidentes da FCT, e eu ainda como Presidente da UMIC que tinha a cargo a orientação e o acompanhamento da FCCN) sentimo-nos na obrigação de expressar de forma clara o que pensamos sobre esta injustificável ideia e aconselhar a que não seja consumada. Por isso, escrevemos a carta anexa ao Ministro da Educação e Ciência fundamentando extensivamente a nossa convicção e vimos partilhar consigo a preocupação com a possibilidade de destruição desta infraestrutura científica, risco que a nosso ver requerer uma atenção alargada da comunidade científica e do ensino superior.

Tanto quanto sabemos, a ideia de extinguir a FCCN deve-se simplesmente à pressão política sentida pelo Governo para extinguir fundações depois da avaliação que realizou a todas as fundações. Esta avaliação acabou por resultar em poucas extinções possivelmente porque as fundações mais problemáticas para o erário público, em particular quando ligadas a autarquias ou governos regionais, têm apoios políticos fortes que resistiram com eficácia à respectiva extinção, o que tornou conveniente encontrar outras fundações para extinguir.

Na verdade a FCCN tinha recebido em 20 de Setembro de 2012 uma comunicação em carta muito sucinta assinada pelo Secretário de Estado da Administração Pública com os resultados da avaliação realizada informando, com citação da legislação pertinente, que o Governo tinha decidido “não reduzir ou cessar os apoios financeiros públicos e/ou não cancelar o estatuto de utilidade pública à V.ª Fundação”.

Assim, tudo indica que dada a pressão política para extinção de fundações, renovada com as reacções aos aumentos de impostos previstos na Lei do Orçamento de 2013, e a incapacidade, também política, de extinguir as que trazem problemas ao erário público, sejam vítimas outras fundações, inclusivamente avaliadas positivamente e desempenhando papel relevante e até de grande eficiência técnica e económica como é o caso da FCCN, se não dispuserem de apoios políticos significativos.

Esperemos que a decisão errada de inserir a FCCN num Instituto Público como a FCT, efectivamente matando-a, seja corrigida!

Com os meus cumprimentos e votos de um Bom 2013,

Luis Magalhães

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A carta enviada ao ministro da Educação e Ciência por Carlos Salema (1º presidente da FCCN e ex- Presidente da JNICT), Luís Magalhães (ex-presidente da FCT e da UMIC) e João Sentieiro (e-presidente da FCT) pode ser lida AQUI
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«Temos de rever a Constituição para não ser um entrave à governação»



Eduardo Catroga dixit.

«Temos de rever a Constituição o Governo para não ser um entrave à governação Constituição.» - rapidamente e em força.
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2.1.13

Isto vem de muito longe



«A emigração é decerto um mal.

Porque aqueles que se oferecem mostram ser, por essa resolução, os mais enérgicos e os mais rijamente decididos; e num país de fracos e de indolentes, é um prejuízo perder as raras vontades firmes e os poucos braços viris.

Porque a emigração entre nós, não é como em toda a parte a transbordação de uma população que sobra, é a fuga de uma população que sofre.

Porque não é o espírito de indústria, de actividade, de expansão, de criação, que leva os nossos colonos, - como leva os ingleses à Austrália e à Índia - é a miséria de um país esterilizado que expulsa, sacode e que instiga a emigrar, a procurar longe o pão

Eça de Queiroz, As Farpas, 8 de Dezembro de 1871
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O smog de Atenas



A notícia já tem algumas semanas: na Grécia, sobretudo em Atenas, o ar tornou-se irrespirável e cheira a queimado um pouco por toda a parte, porque os gregos queimam madeira para se aquecerem (tudo o que conseguem, desde árvores a móveis velhos), em vez de continuarem a recorrer aos meios tradicionais.

Várias instituições, de ministérios a associações de médicos, lançam apelos para que deixem de o fazer e alertam para os perigos de doenças respiratórias e cardíacas, ou mesmo cancerígenas, bem como para efeitos nocivos para os sistemas neurológicos e reprodutivos.

«Mas não nos dão conselhos», comenta-se hoje num site grego, «para encontrarmos dinheiro para pagarmos as facturas de aquecimento, que subiram em 50% quando comparadas com as do ano passado».

«Por isso, sentamos-nos em frente da lareira ou do fogão e tossimos. Tossimos sem sabermos se a causa da nossa tosse é uma virose de inverno, uma simples constipação ou partículas letais invisíveis. Os nosso pulmões produzem sons, mas não como os de um gato feliz. Chiam por causa do tempo, dos vírus ou da poluição do ar.

Mas quem se importa? Pelo menos vamos morrer ... aquecidos. Porque existe a terrível possibilidade de, no próximo ano, não termos nem uma casa, nem um sítio para fazer fogo.»

Europa, 2 de Janeiro de 2013 
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1.º Encontro Nacional da IAC (Iniciativa por Uma Auditoria Cidadã à Dívida Pública)



No dia 20 de Outubro, a Comissão de Auditoria decidiu realizar um Encontro Nacional do nosso movimento. Após um ano de trabalho, queremos apresentar contas do trabalho feito e submeter à discussão do movimento as orientações e projetos para o trabalho futuro.

Para isso, apelamos à participação no Encontro Nacional de apoiantes da Iniciativa para a Auditoria Cidadã à Dívida Pública que se realizará no dia 19 de Janeiro de 2013, das 10 às 18 horas, no Instituto Franco Português em Lisboa (Rua Luís Bívar nº 91). A participação é livre, sujeita apenas a inscrição prévia no site.

O Encontro debaterá o trabalho efetuado e em curso e tomará decisões relativamente à atividade e à reorganização dos órgãos de coordenação do movimento.

Apesar das dificuldades e obstáculos do percurso, continuamos motivados e acreditamos na importância deste movimento cívico de afirmação cidadã e de intervenção na vida nacional.

A grave situação do país não dispensa o nosso trabalho, antes o torna mais premente e exigente. O sufoco da generalidade dos cidadãos, provocado pela política de austeridade aumenta a nossa obrigação de contribuir para a identificação das causas e das responsabilidades políticas do endividamento, assim como dos caminhos que nos podem libertar da armadilha da dívida.

É indispensável juntar novas forças, energias e capacidades, recolher mais dados e informações e passar a outro nível de execução do trabalho. Para isso servirá o Encontro Nacional.
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A «esperança» de Cavaco



À medida que Cavaco Silva avançava no seu discurso de ontem à noite, estive sempre à espera que o terminasse com uma frase deste género: «Portanto, como tudo o que disse não vai levar a nada, porque o "círculo" (sic) vicioso continuará na mesma, rezo por vós e por mim para que Deus nos proteja e à Padroeira para que tome conta do seu padroado.»

Leio agora que não fui a única: Viriato Soromenho-Marques também sublinha que o presidente «recomendou, no meio da tormenta nacional e europeia, a Nação inteira à graça de uma intervenção providencial»

Com efeito, Cavaco Silva já percebeu, como nós, que o governo não muda uma vírgula ao que decide pelos discursos que ele faz, que responde às recusas do TC vingando-se com a definição de novas medidas também discriminatórias e ainda mais gravosas, que afasta tudo e todos do seu caminho – ele incluído. 

E como quer evitar uma «grave crise política», diz aos 90% de deputados (que se entendem tão bem como gatos num saco) que «tem esperança» que resolvam a quadratura do tal «círculo». E, sobretudo, «tem esperança» em nós, portugueses – lisonjeados ficamos e eternamente agradecidos...

Soframos e oremos, pois. Ou não.
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Balanço de um discurso



O homem talvez ainda não se engane, mas pelo menos já tem dúvidas! 
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31.12.12

Agora é que é


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We will




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Cavaco: sugestões para o discurso de amanhã



Nada mais recomendável do que inspirar-se num bom antecessor. 

«Decorreu célere, como os que o precederam, o ano que acabou de sumir-se na voragem do tempo. Outro o substituiu, para uma vida igualmente efémera. Nesta mutação constante, afigura-se haver agora um fenómeno de visível incongruência, pois, quando tudo se processa a ritmo que se acelera constantemente, pareceria lógico que de tal circunstância resultasse um aparente alongamento no tempo e não precisamente o inverso. Se sempre o presente, mal o é, se torna logo em passado, nunca, como nos nossos dias, tão evidente verdade pareceu mais evidente.»
Américo Tomás, 1/1/1966 

«Eis-nos chegados ao primeiro dia da oitava década do século XX, pelo que precisamente de hoje a trinta anos surgirá, para os que então viverem, o primeiro dia do século XXI. (...) Mensagem em que lhes comunico o meu pensamento e a minha simpatia que naturalmente reflecte as tristezas do ano que passou e procura animar-se com as esperanças que o futuro tem sempre e felizmente o condão de criar mesmo nos espíritos mais desalentados pelas desgraças, pelas injustiças e pelas desilusões.»
Américo Tomás, 1/1/1971

«A minha boa vontade não tem felizmente limites. Só uma coisa não poderei fazer: o impossível. E tenho verdadeiramente pena de ele não estar ao meu alcance.»
Américo Tomás, Junho de 1964

Quando nos ríamos com estas pérolas, não esperávamos vir a «chorar» com outras.
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Claro!


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Se é para escolher factos de 2012, aqui vão os meus dois



Farta, fartíssima dos mil balanços domésticos de 2012, dei por mim a identificar os meus ícones do ano. Dois locais onde já estive e que representam para mim, à sua maneira, o melhor e o pior dos últimos 366 dias: Rangum e Oslo.

Em Rangum, renasceu a esperança, num dos países mais fechados (e mais belos) do mundo, e as multidões exultaram de felicidade com a eleição de Aung San Suu Kyi para o Pyithu Hluttaw, a câmara baixa do parlamento. Foi pouco, foi quase simbólico, foi táctico? Pouco interessa: um passo de gigante, e de certo modo surpreendente, num país «parado e sem esperança», como o descrevi quando lá estive há cerca de três anos.

Sim, gostava de voltar a Myanmar, para rever Bagan do alto de um balão, para passar uns dias no Lago Inle e, sobretudo, para passar pela rua que dá acesso à casa de Aung sem esbarar na proibiçã0 policial.



Bem pelo contrário, por mais anos que viva, nunca mais porei os pés na sala onde se realiza a entrega do Prémio Nobel da Paz, em Oslo. Guardo o espectáculo a que este ano assistimos com um terrível sabor amargo, uma afronta, por mais desculpas e justificações esfarrapadas que tenham sido dadas por aqueles que estão sempre dispostos a justificar o injustificável e a ver «o lado positivo» mesmo onde ele é totalmente inexistente.

Ver aquela gente incompetente, e que tão mal está a tratar esta pobre Europa, ufana, a receber um troféu que já teve um significado importante ao longo de décadas, provocou em mim uma revolta incontida.

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Pronto. 2012 já está. Que venha 2013 e arregacemos as mangas porque vai ser muito, muito duro. Cá estaremos.
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E esta dívida? Também devemos ser nós a pagar?



Pergunta José Maria Castro Caldas e vale a pena ler. Com uma recomendação: é absolutamente indispensável seguir os links associados a cada aqui e ao acolá. 
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30.12.12

Cúpulas e mais cúpulas (16)



Santuário Nossa Senhora do Carmo, Bogotá (Colômbia, 2012)

(Para ver toda a série, clique na Label: «CÚPULAS».)
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«Verdes Anos» com poema de Pedro Tamen




Era o amor
que chegava e partia:
estarmos os dois
era um calor
que arrefecia
sem antes nem depois…
Era um segredo
sem ninguém para ouvir:
eram enganos
e era um medo,
a morte a rir
nos nossos verdes anos...

Teus olhos não eram paz,
não eram consolação.
O amor que o tempo traz
o tempo o leva na mão.

Foi o tempo que secou
a flor que ainda não era.
Como o Outono chegou
no lugar da Primavera!

No nosso sangue corria
um vento de sermos sós.
Nascia a noite e era dia,
e o dia acabava em nós…

O que em nós mal começava
não teve nome de vida:
era um beijo que se dava
numa boca já perdida.

Pedro Tamen



(O som do vídeo é mau, mas a cena é inesquecível.)
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Calendário


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Idiotia e Felicidade



Este texto de Alexandre O'Neill não foi escrito ontem, mas sim há mais de 30 anos. Assim sendo, qualquer semelhança com a actualidade é mesmo pura coincidência.

«Como pode ser-se idiota e, ao mesmo tempo, feliz, pergunta-me um leitor? Pois explico já. A idiotia e a felicidade são ideias muito vagas, difíceis de cingir em conceitos de circulação universal, digamos. Mas, pensando melhor, acho que certa idiotia é susceptível de conferir ao idiota seu proprietário (ou seu prisioneiro) uma espécie de segurança em si próprio que o levará, em determinados momentos, julgo eu, a uma beatitude muito próxima do que se pode chamar estado de felicidade. Assim sendo, não vejo incompatibilidade entre o ser-se idiota e o ser-se feliz. Bem sei que há várias maneiras de se chegar a idiota. (...)

Ora, um idiota que é infeliz por saber que é idiota já pode estar a caminho de deixar de o ser. É uma possibilidade. É a tal luz no fundo do túnel, como se disse tantas vezes a propósito da situação económica deste idiota de país.

Não se espante, por conseguinte, o leitor de que um qualquer idiota possa, ao mesmo tempo, ser feliz. É, até, assaz corrente. Há idiotas que se consideram inteligentíssimos, o que é uma forma muito comum de idiotia, e extraem dessa certeza alguma felicidade, aquela maneira de felicidade que consiste em uma pessoa se julgar muito superior às que a rodeiam.
O leitor gostaria de ser ministro ou secretário de Estado? Pois fique sabendo que há quem goste, embora - será justo dizê-lo - também há quem o seja a contragosto, por dever partidário ou patriótico.

Os idiotas, de modo geral, não fazem um mal por aí além, mas, se detêm poder e chegam a ser felizes em demasia podem tornar-se perigosos. É que um idiota, ainda por cima feliz, ainda por cima como poder, é, quase sempre, um perigo.
Oremos.
Oremos para que o idiota só muito raramente se sinta feliz. Também, coitado, há-de ter, volta e meia, que sentir-se qualquer coisa.»

Alexandre O'Neill, Uma Coisa em Forma de Assim, 1980 
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