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2.3.13

A rua num dia assim



A prosa fica para depois, para já alguns cartazes. (Havia tantos!...)




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Quem lá esteve não esquecerá


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Já chegou


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Mais um argumento



... para não se ficar hoje em casa.


«Em comparação com Janeiro de 2012, mês em que a taxa se encontrava nos 14,7%, o desemprego aumentou 2,9 pontos percentuais.
Portugal mantém-se assim com a terceira maior taxa de desemprego dentro da zona euro, atrás apenas da Grécia e Espanha.»
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Também


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1.3.13

Cantigas de véspera





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Lá chegarão



... mais tarde ou mais cedo, em Pyongyang. 
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Sérgio Godinho: Maré alta



Do texto de apoio à manifestação de amanhã.

«Em 1971, para encerrar o meu primeiro disco, Os Sobreviventes, escrevi uma canção com uma das letras mais curtas:
"Aprende a nadar, companheiro, que a maré se vai levantar, que a liberdade está a passar por aqui. Maré alta maré alta maré alta". Às vezes o menos é mais.

Estávamos então em pleno marcelismo, e digo-o com letra pequena porque era uma versão já semi-inerte do fascismo. E no entanto, havia ainda uma polícia política, agora com três letrinhas apenas, DGS, que se dedicava às mesmas nobres actividades da PIDE sua mãe. Vigiar, prender, torturar, nada de novo. Havia uma guerra colonial que se arrastava pelos campos minados de África, campos imensos sem fim à vista nem esperança de solução. E muitos mortos e feridos e enlouquecidos. Havia censura de peneira fina, e havia a emigração dos pobres, uma peneira de furos largos a deixar fugir o melhor de nós. (...)

Passados todos estes anos, sabemos como o país está em maré intencionalmente esvaziada e sangrada, e assim estará nos tempos mais próximos, aconteça o que acontecer. Mas não interiorizemos o medo escuro nem o conformismo pardo. O presente tem «o acesso bloqueado»? Cabe a nós encontrarmos novas chaves, novos atalhos, novas formas activas de o usufruir. Queremos as nossas vidas, sim, por difícil que seja habitá-las neste presente sombrio. O solo que pisamos é livre, e desde há muito terreno libertado. Defendamo-lo. A liberdade está a passar por aqui.» 

Na íntegra aqui.



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Também lá estará


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Os «ataques à democracia» no país do respeitinho



Texto de André Freire no Público de ontem (sem link), que subscrevo (quase...) na totalidade.

Os episódios ocorridos com o ministro Miguel Relvas (MR), numa conferência do ISCTE (19/2), quando foi interrompido por ativistas/ estudantes ligados ao movimento “Que se Lixe a Troika" exigindo a sua demissão, tendo depois MR saído da conferência acossado pelos ativistas, geraram assinalável controvérsia. Nomeadamente, dividiram internamente a esquerda e a direita. Vale a pena, seja pela sua importância intrínseca, seja pelo padrão da controvérsia, revisitar a questão.

No Parlamento (AR), houve uma quase perfeita divisão entre a esquerda e a direita na avaliação dos acontecimentos. O líder parlamentar do PSD falou de “ataque à democracia” e pediu apoio de todas as bancadas contra tal ataque. O CDS dramatizou menos, falando antes na relatividade dos direitos (de protesto vs. de falar) e declarando apoiar as críticas (à ação dos ativistas) de ilustres socialistas. O líder parlamentar do PS declarou-se defensor da democracia e da liberdade, mas afirmou também que “o descontentamento geral criado no país pela falta de credibilidade deste Governo não é saudável e não é bom para a democracia”. Do lado da esquerda radical (BE e PCP), a relativização dos incidentes foi ainda mais assertiva. Fora da AR, pelo contrário, a avaliação dos eventos dividiu internamente a esquerda e a direita. À direita, quer Lobo Xavier (CDS), quer Pacheco Pereira (PSD) desvalorizaram o incidente, declarando altamente provável a sua ocorrência numa qualquer democracia consolidada, tendo em conta a falta de credibilidade do ministro e chegando ao ponto de acusar MR de cobardia por não ter tentado continuar o discurso, pedindo aos organizadores para restabelecerem a ordem na sala. Pelo contrário, o challenger falhado à liderança do PS, António Costa, indignouse com o protesto dos estudantes e com o enxovalho do ministro. Outros ilustres socialistas (Vital Moreira, Augusto Santos Silva, Francisco Assis, outros) alinharam pela mesma bitola: seria preciso “impor limites” às vaias para garantir o direito à palavra e o respeito devido a um ministro.

Concentremo-nos no “ataque à democracia”: as outras alegações são um sucedâneo envergonhado. De facto, a democracia portuguesa tem estado sob um severo ataque por três ordens de fatores; mas nenhum deles está relacionado com a ação dos ativistas referidos. Primeiro, há um descrédito da classe política pela falta de exemplo. O paradigma é a forma facilitista como MR obteve a sua licenciatura. Como exigir aos cidadãos esforço e trabalho árduo se os ministros dão estes exemplos? Segundo, temos a deslegitimação pelos resultados macroeconómicos e sociais da governação. Por último, temos a deslegitimação pelos procedimentos. Por um lado, por causa dos variadíssimos compromissos eleitorais assumidos pelos vencedores em 2011 e grosseiramente violados desde então, ferindo de morte o contrato básico entre eleitores e eleitos numa democracia representativa. Alguns poderão pensar que tudo isto decorre do acordo com a troika mas não é verdade: o “estado de exceção” que temos vivido atinge sobretudo os assalariados ( os servidores públicos e os pensionistas), mas isenta quase por completo o setor financeiro e as rendas dos grandes interesses económicos monopolistas (nas PPP, na energia, nas telecomunicações). A somar a tudo isto temos a violência das medidas, muito para além da atirando milhares para o desemprego na Saúde e na Educação. Aqui estão os mais profundos ataques à democracia. Mas não se pense que eles são da exclusiva responsabilidade da maioria. São também responsabilidade do PS: por algum legado da governação anterior e pela tibieza da oposição que tem feito ao Governo em funções, nomeadamente por ser incapaz de gerar uma alternativa, seja em termos de alianças, seja em termos de políticas, que vá além de um bloco central alargado (PSPSD-CDS) e das mesmas políticas, mas com “rosto humano”. Mas é também de uma esquerda radical (mais o PCP do que o BE) incapaz de fazer significativas cedências para possibilitar a construção de uma alternativa governamental de esquerdas. E são os jornalistas mainstream que dia a dia pressionam o PS para aceitar todas as imposições da troika e da maioria de direita, mesmo quando elas põem em causa princípios basilares da democracia.

Claro que os ativistas que se manifestaram no ISCTE contra MR poderão ter pisado os limites da legalidade democrática. Porém, como dizia o blogger do Gato Maltês: “Que me lembre, (…), nunca grandes ações de massas que fizeram avançar o mundo e progredir a sociedade foram levadas a cabo sem um certo grau de desobediência civil, de algum afrontamento da chamada ‘ordem estabelecida’, fosse ela de natureza política, social, moral ou de costumes. Assim aconteceu no Maio 68, com o movimento hippie com a luta pelos direitos cívicos (e a França, o Reino Unido e os EUA até eram e são democracias) e assim se implantou a nova cultura juvenil nos anos do pós-guerra. Indo um pouco mais longe, assim se conquistou o direito ao sufrágio universal. (...).” Que a direita queira esquecer isto, ainda se compreende: esteve amiúde do lado errado da História… Já esta falta de memória à esquerda é dificilmente explicável a não ser por um espírito (autoritário) de respeitinho (salazarento) instalado até ao tutano… e/ou pelo desejo ardente de ir para a cama com a direita no próximo Governo… 
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28.2.13

Verão, 2012



Leitura obrigatória, a deste pequeno grande romance de Paulo Varela Gomes, recentemente editado pela Tinta da China.

«Durante o Verão de 2012, um psiquiatra e o seu paciente conversam e trocam correspondência acerca do confronto entre a vida e a morte. (...) À medida que o Verão se desvanece no Outono e se aproxima o fatídico dia 21 de Dezembro de 2012, em que o mundo podia ter acabado, o paciente toma uma decisão cujos efeitos estão à altura da catástrofe que pressente avolumar-se em si e à sua volta»

E mais não digo e, sobretudo, não desvendo o desfecho nas páginas finais, que me provocou uma enorme gargalhada (ou seria um esgar?...) quando o li na última madrugada.

Numa entrevista dada ao canal Q, PVG fala desta sua obra e também do texto que escreveu para apoiar a manifestação de 2 de Março, que foi republicado neste blogue.


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No 60º aniversário do resgate alemão (27/2/1953)



«A bancarrota dos estados é vista, há muito tempo, como um problema longínquo, próprio do chamado Terceiro Mundo (o Sul Global). Hoje não está de modo algum distante, mas precisamente à nossa porta. Uma emergência económica, decorrente do excesso de endividamento, ameaça a própria existência da união monetária europeia. A devastação social e política dos países atingidos pela crise ameaça o tecido social desses países. No entanto, a Alemanha parece manter-se à parte, com uma economia relativamente bem sucedida e florescente. Mas não foi sempre assim.

Poucas pessoas sabem que a Alemanha beneficiou de um generoso perdão parcial de dívida no início do seu «milagre económico». De entre as reestruturações de dívida soberana modernas, o «Acordo de Dívida de Londres» para a Alemanha, cujo 60º aniversário assinalamos a 27 de Fevereiro, é um exemplo precoce e pouco conhecido. Isto é tanto mais surpreendente quanto se trata de um caso de sucesso na restauração da sustentabilidade da dívida da Alemanha Ocidental. No fim das negociações, metade de todas as dívidas (no valor de 30 milhões de marcos alemães) tinha sido cancelada e o restante fora reescalonado de forma tão inteligente, que a Alemanha nunca mais enfrentou um problema de dívida. (...)

Poucas reestruturações de dívidas soberanas marcaram tão claramente a transição de uma condição de endividamento crítico para uma situação em que a dívida deixa de constituir um obstáculo ao desenvolvimento económico e social como a de 1953. O acordo encontrado é ainda hoje um dos melhores exemplos históricos de quão razoável e sustentável uma renegociação de dívida pode ser, se houver vontade política.»

(Na íntegra aqui.)
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«Da», «De»?


Ricardo Araújo Pereira, na Visão de hoje, a propósito das candidaturas às próximas eleições autárquicas, explica como o «de» permitirá que um autarca se mantenha no poder 3.696 anos seguidos e recorda: 

«Que Cavaco era um leitor atento e exigente já nós sabíamos desde que, para espanto da academia em geral e da academia sueca em particular, criticou os livros de Saramago por terem demasiadas vírgulas. (...) 
Há 23 letras no alfabeto, mas Cavaco indicou a única que podia beneficiar os dinossáurios autárquicos.» 

Na íntegra AQUI.
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Antes que nos linche


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O meu amigo matou-se



Texto de Isabel do Carmo para apoio à manifestação de 2 de Março, publicada no blogue e na página do evento.

É um dos motivos porque vou à manifestação do dia 2 de Março.
Vou também em nome do meu amigo. No dia 18 de Fevereiro o meu amigo J. C. deu um tiro na cabeça. Já não vai a esta manifestação.
Era um indigente ou um faminto? Não. Era um exemplo da chamada classe média. Gostava da vida. De comer, de dançar, de ir à praia. Ele e a mulher comportavam-se como dois namorados, depois de todos estes anos. Gostava dos filhos, a quem era muito chegado, gostava da neta. Gostava do trabalho. Mas, a situação a que nos levaram criou um labirinto sem saída. De facto, sem saída para uma grande parte da população. Deixemo-nos de flores, de «há soluções para tudo», de «é preciso ter esperança» ou de «há-de correr bem».
Há certas situações que não têm solução à vista. Tinha os pais em casa com oitenta e tal anos e tinham chegado ao ponto de não conseguirem tratar de si próprios. Solução? Um «lar» custa 1300 euros para cada um. Uma empregada permanente anda por aí.
Tinha empregados a quem tinha que pagar salários todos os meses. Tinha empréstimos ao banco, crédito a cumprir, letras. Tinha clientes que não pagavam, porque por sua vez não lhes pagavam a eles.
Os filhos trabalhavam, mas havia um apoio indispensável, por causa da precariedade e por causa de situações de doença.
O senhorio acabava de, em concordância com a nova lei das rendas, passar-lhe a renda para o dobro.
Tinha solução para esta espiral que todos os dias se agravava? Não tinha.
Declarava insolvência, renunciava a todos os pequenos bens, ia para a rua, abandonava pais e filhos ao destino? Claro, tudo é possível.
Mas a dignidade tem um preço.
Os amigos podiam ajudar? Muito pouco.

Foi com certeza em nome da dignidade que teve a coragem de acabar com a vida.
Nesse mesmo dia veio ter ao Serviço de Urgência do Hospital de Santa Maria uma senhora que se atirou para debaixo do comboio do Metro. Salvaram-na, mas ficou sem um braço. Dias antes atirara-se a professora e o filho de uma janela em Bragança. Na ponte da Arrábida são frequentes os ajuntamentos porque alguém se atirou.
Estamos a assistir a uma epidemia?
Como os nossos governantes e as estruturas internacionais e o poder financeiro mundial já não distinguem entre o Bem e o Mal, temos nós que desobedecer às leis do Mal, protestar, mas não só. Encontrar o caminho para derrubar este Poder. No dia 2 de Março o meu caminho começará na Maternidade Alfredo da Costa na Maré Branca e continuará com todos os outros, através de Lisboa.

Também em nome do meu amigo que NÃO AGUENTOU.
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27.2.13

No dia em que Stéphane Hessel se calou para sempre



«Desejo a todos, a cada um de vós, que tenham o vosso motivo de indignação. É precioso. Quando algo vos indigna como eu me indignei contra o nazismo, tornamo-nos militantes, fortes e empenhados. Juntamo-nos a esta corrente da História, e a grande corrente da História deve prosseguir graças a cada um de nós. (...)

A todos aqueles e aquelas que irão fazer o século XXI, dizemos com afecto:
"CRIAR É RESISTIR.
RESISTIR É CRIAR."»

Stéphane Hessel, Indignai-vos! 
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Ainda vivemos num Estado de direito?



Segundo o Jornal de Negócios (que cita o Correio da Manhã), o «Governo prepara corte das pensões vitalícias de políticos», para além de prever que também sejam aplicados àquelas que são pagas pelo Banco de Portugal e pela Caixa Geral de Depósitos, aparentemente desde que ultrapassem 5.000 euros/mês e que resultem de carreiras contributivas curtas. (Assumo que seriam cortes definitivos, porque o vi referido num outro local.)
Tratar-se-ia de um Plano B a ser concretizado se o Tribunal Constitucional vier a chumbar algumas medidas incluídas no OE2013, nomeadamente a Contribuição Especial de Solidariedade aplicada aos pensionistas com reformas superiores a 1.350 euros por mês.

A ser verdade este «palpite» do CM, e se viesse a concretizar-se, receberia o aplauso da maioria esmagadora dos portugueses (julgo...). Quantos não bateriam palmas se fossem retirados a Assunção Esteves os mais de 7.000 euros/mês que recebe por ter sido juíza do Tribunal Constitucional durante 10 anos e de onde saiu com 42? Se os antigos deputados ficassem todos sem aquilo que lhes é pago todos os meses por terem estado uma dúzia de anos, ou menos, na AR? Ou mesmo se acabassem com as subvenções vitalícias para os antigos presidentes da República e Mário Soares tivesse de encerrar a sua Fundação, Eanes se inscrevesse como instrutor de tiro aos pratos ou Sampaio abrisse um ATL para dar explicações de inglês?

Eu não aplaudiria, e nunca aplaudirei, qualquer medida unilateral, tomada por um governo, que atinja as remunerações de quem quer que seja com efeitos retroactivos permanentes. Porque, quando e se isso vier a acontecer, os cidadãos terão definitivamente a certeza de que já não vivem num Estado de direito que assume os seus contratos e os seus compromissos. Nesse dia, sim, mais do que nunca, ficará aberta a porta para o triunfo de todos os Beppes Grillo que por aí apareçam – porque valerá tudo.
Dir-se-á que já ninguém acredita que os cortes feitos até ao momento em vencimentos, pensões e subsídios não vieram para ficar, mas a verdade é que, até agora, o governo ainda não teve o descaramento de dizer que são definitivos. Consta que o fará durante a corrente avaliação da troika. A ver vamos, mas será mesmo muito grave se tal acontecer.

É preciso «cortar»? Soluções não faltam, não há é coragem. 
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O humor ninguém nos tira!


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Queda de um mito



«Tudo indica que o Grande Manitu das finanças portuguesas não passa de uma fraude. O homem, tido e havido como um génio sem par, não lhe acerta uma. De cada vez que se põe a prever, a projectar números e concepções, sai tudo errado; pior: acontece o contrário, com a consequência nefasta de afectar milhões de nós. Só agora, as indignações e os vitupérios começaram a surgir. E posta em causa a competência de Vítor Gaspar. (...) A experiência ideológica aplicada a Portugal, de que ele é um obediente serventuário, conduz a um esvaziamento do próprio animus colectivo, resultado de um empreendimento de sujeição baseado no medo, na violência e na unilateralidade de pensamento.(...) 

O que este Governo nos tem feito representa a mais grave contraconduta social, política, cultural e humana verificada em Portugal desde o salazarismo. O discurso oposicionista não pode, somente, ser "diverso" e incidir, apenas, na "actualidade" portuguesa. Os sicários deste projecto encontram-se espalhados transversalmente por todos os sectores da actividade europeia, mas não há batalhas inúteis, nem lutas sem sofrimento.»  

Baptista-Bastos

E estes até sabem a letra



Ourense, Espanha, 23/2/2013
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26.2.13

Requiem por Portugal



Está online no Económico, mas quero que este texto de José Reis Santos fique aqui na íntegra.

Quando as 00.20 da madrugada de 25 de Abril de 1974 a Rádio Renascença tocou Grândola Vila Morena, poucos eram os que sabiam que se cantava a última missa de um regime defunto.

Essa foi a madrugada que todo um Povo esperava, o dia inicial inteiro e limpo, onde emergimos da noite e do silêncio, e livres habitamos a substância do tempo, como celebrizou Sophia. A madrugada de todas as esperanças, de todos os sonhos e utopias. A madrugada onde o Povo finalmente voltava a mais ordenar, dentro das suas cidades, reconhecendo em cada esquina um amigo, em cada rosto igualdade. Portugal virou, nessa madrugada, terra da Fraternidade, como o desejava Zeca, terra da Liberdade, como o desejávamos todos.

No espaço de uma geração dotámos o País de um sistema político adequado às exigências formais dos regimes democráticos do século passado. Retirámos um povo da obscuridade forçada do analfabetismo e da rígida estratificação social, construímos as mais qualificadas gerações da nossa História, e incutimos a ideia que consagraríamos uma cultura de mérito adequada às exigências da nossa contemporaneidade. Empoderármos as nossas mulheres e demos os direitos das maiorias às minorias, finalmente adicionando a "Igualdade" à "Liberdade" e à "Fraternidade". Sonhámos com um Portugal arco-íris, politicamente moderno e económico e socialmente progressista, depois de 48 anos medievalistas, pintados a tons de negro e cinza escuro.

Acreditávamos que o futuro nos traria mais igualdade, mais equidade e mais justiça social. Por isso fomos admitindo os erros do presente, a deterioração do sistema político-partidário, a consagração do "amiguismo" e da cunha, o regresso desbocado das elites oligárquicas e egocêntricas. Fomos assim andando, até que nos retiraram o ganha-pão e a dignidade. Até que a esperança se transformou num bilhete de avião ou na crença que sobreviveremos a um coma insalubre induzido por fanáticos de terapias dementes.

Deixámos então de acreditar na capacidade dos nossos titulares institucionais. Mentem, não actuam, não se opõem. Não chega que nos peçam para cegamente confiarmos nas urnas, quando elas regularmente elegem conjuntos de medíocres. "Democracia" não é, nem pode ser, uma desculpa institucional para nos convencer que o valor legitimador do Povo se esgota num papel mágico. A democracia vive-se todos os dias, em cada acto governativo, em cada objecção e contra-proposta da oposição, em cada manifestação e protesto da sociedade civil, organizada ou não. E por ser Grândola a bitola da nossa qualidade cívica, a sua essência, as missas não podem esperar quatro anos para serem cantadas.

Mas quando um governo mente e engana, quando a oposição é ineficaz ou indecisa, e quem no sistema pode reagir, não reage, que fazer? Promover a revolta ou a insurreição? Aceitar o coma? Esperar por 2015? Creio que é imperativo ter algumas cautelas, desligarmo-nos do coma induzido e demonstrar, cantando de pulmão cheio ao supremo magistrado da Nação, que o regular funcionamento das instituições está hoje em causa, que o regime se encontra em pré-falência institucional, que ele tem de intervir. Entretanto, a sociedade civil tem de continuar o seu requiem por Portugal, intervir criticamente e obrigar a uma regeneração do sistema político-partidário. Tem de sair à rua no dia 2 de Março, e transformar uma anunciada missa de finados numa ideia de futuro, ao som de Zeca Afonso.
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Itália: será que é desta que a Europa acorda?



Ainda a quente, e mais ou menos em estado de choque pelos resultados das eleições italianas, sem dúvida preocupantes, multiplicam-se as reacções.
Conforme a proveniência, elas acentuam a necessidade de aquele país manter a política de reformas para cumprir o seu «papel central para solucionar com êxito a crise europeia da dívida» (Berlim), lembram aos italianos que «A Itália não é a Grécia!» (também Berlim) ou, pelo contrário, vêem no que se passou a prova de que os europeus não concordam com «a política de cortes unilaterais, [com] o argumento político de que se deve cortar, e assim criar a confiança dos investidores e depois o crescimento económico imediato» (presidente do Parlamento Europeu).

Para além da especificidade do caso italiano, trata-se apenas de mais um país que, nos ú,ltimos anos, veio afirmar inequivocamente, nas urnas, que recusa a austeridade como ela está a ser imposta, sem fim á vista e com sacrifícios sem resultados credíveis. Monti, o senhor tecnocrata perfeito, delfim de Merkel, de Bruxelas e dos mercados foi varrido para um envergonhado quarto lugar e, em princípio, poderá regressar ao encanto e ao recolhimento do puro Excel.

Será que o abanão italiano pode ajudar a que se operem mudanças significativas ou vamos continuar mergulhados nesta crise dramática e autofágica da Europa? Para não alterar o que deve ser alterado, pretende-se mudar de povos? A realidade está a mostrar que se trata de uma tentativa sem grandes possibilidades de sucesso. 
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Também sei porque não fico em casa



Lista de eventos previstos (em actualização)
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Vencedores de um triste campeonato



Em apenas dois anos - 2011 e 2012 -, Portugal foi o país da Europa que mais cortou na despesa social, tendo reduzido o bolo em 3,7 mil milhões de euros, quase o valor pretendido para a redução permanente na despesa pública (4 mil milhões) para 2013 e 2014.

No entanto, apesar de se encontrar abaixo da média europeia no peso da despesa social em função no Produto Interno Bruto (PIB), o agravamento da recessão parece ter "surpreendido" os planos do Governo e da troika para alcançar um Estado mais pequeno.

(Daqui)

Agente da PSP: «Eu até gostava de não ter sido eu a vir aqui»

25.2.13

Countdown


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Escrito na pedra



«O estupor de hoje faz esquecer a surpresa de ontem.»

Ferreira Fernandes

No céu cinzento, sob o astro mudo



São os mordomos do universo todo, senhores à força mandadores sem lei.
Se alguém se engana, com seu ar sisudo, e lhes franqueia as portas à chegada...


«Somos o único país da Europa com uma direita indignada»



De uma entrevista a Boaventura Sousa Santos no Económico de hoje.

Prevê alguma tragédia social, como aconteceu na Grécia, e o extremar da contestação social?
Estive na semana passada na Grécia e não me parece que a tragédia já tenha concluído o seu curso. É uma tragédia em curso, mais profunda que a nossa apenas porque começou um ano antes. Nada está a ser feito em Portugal para que o agravamento que se dá na Grécia não ocorra entre nós. No entanto, a tragédia grega (sem a grandeza das tragédias da antiguidade clássica) tem características políticas distintas da nossa. Por um lado, tem uma extrema-direita politicamente organizada e bem infiltrada nas forças de segurança. Por outro lado, o extremar da contestação social talvez seja mais facilmente enquadrável pelas forças políticas organizadas dada a elevada força eleitoral pelo partido à esquerda do partido socialista, a coligação Syriza. (...)

Acha que o objectivo do Governo, do que tem vindo a ser noticiado, é, de facto, reformar o Estado ou cortar quatro mil milhões de euros?
Não se trata de reformar o Estado social e sim de o destruir. A direita radical que está no poder não fez parte dos pactos que construíram o país depois do 25 de Abril e nunca aceitou que a dignidade de viver sem depender da caridade e da filantropia fosse um objectivo para a esmagadora maioria da população. Incapaz de contrariar a vontade dos portugueses por via eleitoral, aproveitou com todo o zelo a oportunidade que a troika lhe deu. Rompeu assim com a parte da direita portuguesa que viu na criação do Estado social a melhor garantia contra a instabilidade crónica da democracia portuguesa e o atraso a que nos condenou Salazar. Esta direita está hoje quase tão indignada quanto os indignados na rua. Somos o único país da Europa com uma direita indignada. (...)

Teme que Portugal se esteja a transformar num país sem perspectivas de futuro para os seus atidos e que esteja a hipotecar o seu futuro?
Se este governo continuar no poder e continuar a revelar a mesma cegueira ideológica, o país estará a destruir em poucos anos o que levou décadas a construir, sobretudo no domínio da formação técnica e do sistema nacional de ciência onde se fizeram progressos notáveis nos últimos vinte anos. Os centros de ciência mais dinâmicos do país, os Laboratórios Associados estão a ser vítimas de uma política de suspeição que desarticula as equipas de investigação e leva para a emigração alguns dos melhores. Um exemplo doloroso. Os dois jovens que acabam de ser galardoados com prestigiado prémio da Fundação Gulbenkian para a internacionalização das ciências sociais realizaram os trabalhos em dois Laboratórios Associados (Centro de Estudos Sociais e Instituto de Ciências Sociais) mas ambos já tiveram de ir para o estrangeiro por falta de perspectiva de trabalho entre nós. 
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24.2.13

Quousque Tandem Abutere Patientia Nostra?



Do texto que Rita Veloso escreveu para o blogue e para a página dos organizadores da manifestação de 2 de Março. Para quem não a conheça, e para que se entenda o que abaixo transcrevo: a Rita é filha de Ângelo Veloso, histórico dirigente do PCP.

«Quando eu era criança, o meu pai vivia num forte que parecia um castelo.
E isso era normal — normal, quer dizer, era extraordinário! Mais ninguém tinha o pai a viver num castelo, rodeado de mar!
Era normal apanhar o comboio ou a camionete, de madrugada, aos fins de semana, para ir ao castelo visitar o meu pai. Ele enchia-me de prendas (que afinal era a minha mãe que levava), fazia-me desenhos, emoldurava os que eu fazia para ele e eu gostava. Era normal falar com ele através de um vidro com uma rede de metal e só raramente conquistar um colo, amansando com os meus lindos olhos de azul inocente o agente que vigiava a entrada do parlatório.
O meu pai era um preso político, o que queria dizer que não tinha sido preso por roubar bancos ou carros. Quando mais tarde prenderam um primo meu não percebi o alvoroço familiar: estar preso era normal. (...)

Queremos fazer a luta com cravos, mas não deixaremos de a fazer se os cravos não forem eficazes. Os nossos pais não tiveram medo e mostraram-nos que vale a pena.»

Na íntegra AQUI. 
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A Península oscila



«O que se canta em Lisboa, como "A Grândola, Vila Morena", ecoa em Madrid com umas notas acima. O estabelecido nas "transições democráticas" há mais de 30 anos começa a dar de si.(...)

O governo apostou tudo na credibilidade externa e menosprezou a importância fundamental da confiança interna. Vive para a avaliação trimestral da troika e pretende ser exemplo não se percebe de quê. Pelo seu excesso de zelo em relação às medidas desta, o governo voltou a atualizar aquela referência de Agostinho da Silva a Lisboa como tendo tido historicamente "o papel de impor o estrangeiro ao resto do País". (...)

Uma crise simultânea em Portugal e em Espanha, mesmo com percurso diferente, pode ser meio caminho andado para o entravamento da União Europeia.»

José Medeiros Ferreira

E a colecção continua