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4.5.13

Lá chegaremos



Pensionistas vão começar a pagar IMI pelo banco do jardim.

– Mas o IMI não é um imposto municipal sobre imóveis?
– É sim, respondeu o ministro das Finanças, ora experimente lá mexer o banco.

É Imprensa Falsa, claro – por enquanto.
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Pode um homem sozinho dar cabo de um país?


@Hugo Pinto

Com este título, Miguel Sousa Tavares publica hoje no Expresso (sem link), uma violentíssima crónica de que divulgo excertos. Já esta manhã falei do tema, mas é importante que se repita, cem vezes se necessário for, que estamos nas mãos de um louco, acolitado por dois incompetentes. 

«Pode, se o deixarem à solta: é o que Vítor Gaspar está há quase dois anos a tentar fazer a Portugal. Ele dará cabo do país e não deixará pedra sobre pedra se não for urgentemente dispensado e mandado regressar à nave dos loucos de onde se evadiu. (...)

Gaspar não sabe sair do desastre em que nos meteu e, como um timoneiro de uma nave em rota de perdição, ele já não vê nem passageiros nem carga, ou empregos e vidas a salvar: prefere que o navio se afunde com todos e ele ao leme. Sem sobreviventes nem testemunhas. (...)

Sim, incompetência: porque o mais extraordinário de tudo é pensar que Vítor Gaspar impôs ao país uma política de austeridade suicida que o conduziu a uma das maiores recessões da sua história e sem fim à vista e, em troca, não conseguiu as duas [coisas] que ele e os demais profetas da sua laia de fanáticos juravam ir alcançar sobre as ruínas do país: nem fez a reforma do estado nem controlou o crescimento da dívida pública – pelo contrário, perdeu-lhe o controlo. (...)

É assim que Vítor Gaspar governa o país, perante a aquiescência do primeiro-ministro e a cumplicidade do Presidente da república. Eles sustentam que tudo fará sentido e valerá a pena no dia em que Portugal regressar aos mercados. Não é um sonho, é um delírio: quanto mais o PIB cai mais sobe a dívida pública, calculada em percentagem do PIB. (...)

Mesmo com um Governo italiano arrastando ainda e uma vez mais o fantoche de Berlusconi, mesmo com uma França chefiada pelo triste Hollande ou uma Espanha chefiada pelo incapaz Rajoy, mesmo com a Grécia de Samaras, a Europa do sul está finalmente a mover-se, por instinto de sobrevivência. Sem perder tempo, Lette foi direito à origem do mal: a Berlim e a Bruxelas. Ele não fará abalar Angela Merkel nas suas convicções e interesses próprios e não conseguirá também fazer com que Durão Barroso deixe de oscilar conforme o vento, até ficar tonto. Mas, se conseguir unir o sul e juntar-lhe outros povos acorrentados pelos credores e condenados à miséria, enquanto o norte prospera sobre a ruína alheia, de duas uma: ou a Europa se reconstrói como uma livre associação de Estados livres ou implode às mãos da Alemanha. Qualquer das soluções é melhor do que esta morte lenta a que nos condenaram. (...)

É claro que nada disto dá que pensar a Vítor Gaspar, que vem de outro planeta e para lá caminha, nem a Passos Coelho, que estremece de horror só de pensar que alguém possa desafiar a autoridade da sua padroeira alemã. Nisso também tivemos azar: calhou-nos o pior país para viver esta crise. Mas este Governo vai rebentar, tem de rebentar. Porque a resposta à pergunta feita acima é não. Não, um homem sozinho não pode dar cabo de um país com quase nove séculos de história.» 
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Sempre oportuna


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Com a louca troika que nos governa



Começo a crer que muito mais difícil do que negociarmos, rasgarmos, ou sei lá o que mais pudéssemos fazer ao memorando assinado com a troika de Selassie, será sobrevivermos à outra troika, a caseira, que decidiu acabar connosco.

Cavaco Silva, Passos Coelho e Vítor Gaspar são três loucos, incompetentes, alucinados e irresponsáveis, que descolaram da realidade ou que dela fogem como o diabo da cruz. Só isso pode explicar a corrida acelerada para o abismo em que nos arrastam, sem que vislumbremos como deles nos poderemos livrar tão cedo, manietados que estamos por poderes externos, mecanismos internos e pelo nosso atávico e paralisante fatalismo e mansidão colectivos, que só pontualmente são quebrados em momentos históricos especiais e relativamente fugazes.

Hoje, as praias estarão cheias, amanhã também, e continuará a indignação de sofá. Depois? A ver vamos, isto não há-de ser tão mau assim, deus é grande, não é? 
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3.5.13

O cúmulo do masoquismo



... numa noite de sexta-feira: ouvir Pedro Passos Coelho e António José Seguro, em menos de duas horas. 
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Euros novinhos em folha?



Não é Coimbra mas sim a novíssima nota de 5 euros que tem mais encanto na hora da (possível) despedida. Foi a primeira coisa em que pensei quando vi aquele senhor que manda no Banco de Portugal exibi-la, feliz e contente (porquê?). Notas de euros dão arrepios a qualquer português, ou por sentirem a sua falta ou por não saberem por quanto tempo as usarão, para o bem ou para o mal.
Hoje, encontrei no Jornal de Negócios um texto com alguma graça, de João Quadros, a glosar – e gozar – o tema (*).

«Digam, olá, à menina nota. Digo menina, porque a marca de água, e o holograma, desta nova nota de cinco euros, incluem um retrato da figura mitológica grega, Europa. Que bonito. Que pena a maioria dos gregos só usar moedas; eles iam gostar de ver isto. (...)

"Toque humano" tinha a nossa antiga nota de vinte escudos, com o Santo António. Era uma nota a que se podia rezar em caso de desespero. Era dinheiro a que se podia fazer promessas para arranjar casamento. Acho muito estranho este conceito de escolher figuras mitológicas gregas para dar um toque humano. Que tal pôr um Minotauro nas notas de vinte para assustar as velhinhas que vão receber a pensão. (...)

Segundo o BdP, as restantes notas desta nova série vão ser lançadas anualmente por ordem crescente de valor. Fazendo as contas, a nota de quinhentos euros vai entrar em circulação em 2019…Noto aqui algum optimismo. Se, depois de tudo o que o que nos espera, em 2019 ainda houver um lançamento de uma nova nota de quinhentos euros, essa nota, em vez de um retrato de uma figura mitológica, devia ter um smile.»

Sorria, sim, porque talvez esteja a ser filmado.

(*) O link pode só funcionar mais tarde. 
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Já atentos e conformados



(Via Henricartoon no Facebook)
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APRe! E regressaram as grandoladas



Foi hoje discutida, em Plenário da Assembleia da República, uma Petição em Defesa dos Direitos dos Aposentados, Pensionistas e Reformados, entregue no passado mês de Novembro – há quese seis meses, portanto.

Em comunicado ontem emitido, a APRe! esclareceu o seguinte:« É conhecido que o conteúdo concreto da petição deixou de ser oportuno atendendo a que o Tribunal Constitucional já se pronunciou sobre as matérias em causa. Contudo, continua a ser cada vez mais oportuna a discussão política sobre todas as medidas do Governo que cumulativamente têm vindo a penalizar os cidadãos na situação de reformados (designação genérica que adoptamos doravante). Consideramos, assim, que é particularmente oportuno que os digníssimos deputados da Nação, que também representam politicamente os eleitores reformados, tenham a oportunidade de apreciar e discutir publicamente a justeza das referidas medidas.»

Depois de Assunção Esteves dar por terminada a discussão da Petição, várias dezenas de pensionistas e reformados, presentes nas galerias, deram início a mais uma «Grandolada». A presidente da AR não gostou e disse que o que estava a acontecer «não ajudava à democracia» – opinião e problema dela... Não foi a primeira vez e não terá certamente sido a última que a ouvirá.


Juntamente com a petição, foi discutido ainda um Projecto de Resolução do Bloco de Esquerda que visava o aumento no valor de 15 euros de todas as pensões mínimas. Esta proposta, sujeita a votação, foi rejeitada pelo PSD, CDS-PP e PS. (*) Também pelo PS, insisto – para que não haja dúvidas.

(*) À hora a que escrevo, apenas sei que uma deputada do PS – Isabel Moreira - votou a favor do Projecto do Bloco e que Basílio Horta se absteve. 
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Sorbonne, 3 de Maio



Se 2 de Maio marca o início do mítico movimento francês de 1968, com a chegada ao Quartier Latin da crise estudantil que tivera a sua origem mais próxima na ocupação da Universidade de Nanterre, em 22 de Março, foi no dia seguinte, 3 de Maio, que tudo tomou maiores proporções. O desenrolar dos acontecimentos foi absolutamente alucinante, começando por uma reunião de solidariedade com Nanterre, passando por ameaças de confrontos entre grupos rivais de estudantes e culminando, ao princípio da tarde, com um pedido do reitor à polícia para que evacuasse a Sorbone. Seguiram-se cinco horas de verdadeira batalha campal, com barricadas, cocktails Molotov, pedradas, matracas e gases lacrimogéneos, que se saldaram por dezenas de feridos e mais de 500 prisões. Os distúrbios continuaram nos dias que se seguiram.

Como é sabido, o movimento não se manteve fechado no mundo dos estudantes: extravasou para o do trabalho, a nível de operários, de camponeses e do sector terciário, reuniu-se numa gigantesca manifestação em 13 de Maio e esteve na origem de uma longa greve geral incontrolada.

O que houve de absolutamente específico, e de certo modo inesperado, foi que não estiveram em questão apenas motivações sociais ou laborais, mas também exigências de alterações profundas a nível do relacionamento humano e dos costumes. Recorde-se que uma das causas para a ocupação de Nanterre foi a revindicação de os rapazes passassem a ter acesso às residências universitárias femininas...

Recordaremos sempre a apologia da subversão e da transgressão, «é proibido proibir», «a imaginação ao poder» – a grande utopia.

Foram-se acalmando as hostes, foi dissolvida a Assembleia Nacional em 30 de Maio e realizaram-se eleições legislativas (que os gaulistas ganharam por larga maioria) no mês de Junho. Mas nada ficaria na mesma.

A recordar:

A célebre intervenção de Daniel Cohn-Bendit no pátio da Sorbonne e a evacuação pela polícia:




Algumas canções da época, pela emblemática Dominique Grange:

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2.5.13

Dans le port d' Amsterdam




... y aura des lampions qui chantent.


Da minha janela, foi assim:

video
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A Lisboa de García Márquez



No Notícias Magazine de 28/4/2013, Ricardo J. Rodrigues publica uma belíssima crónica sobre a estadia de Gabriel García Márquez em Lisboa, em Junho de 1975, o que pensou, por onde andou, com quem esteve. O texto está online, mas, não vá o diabo do desaparecimento dos links tecê-las, copiei-o para aqui, onde pode ser lido na íntegra. Vale mesmo a pena fazê-lo!

Para abrir o apetite, alguns excertos do que Gabo então escreveu, citados por R. J. Rodrigues:

«Lisboa é a maior aldeia do mundo. Quando chegar, conto-te desta revolução.»

«Tive a sensação de estar a viver de novo a experiência juvenil de uma primeira chegada. Não só pelo verão prematuro em Portugal e pelo odor a marisco, mas também pelos ventos e pelos ares de uma liberdade nova que se respiravam por toda a parte.»

«Lisboa é uma das mais belas cidades do mundo e, até há um ano, era também uma das mais tristes, por obra de uma rara ditadura medieval que durou quase meio século e cuja força se fundava numa polícia política inclemente. É um país de pobres que enfrenta obstáculos terríveis e uma pressão tremenda. Por causa da sua posição geográfica, está obrigado a sentar-se de sapatos rotos e casaco remendado na mesa dos mais ricos e sofisticados do mundo.»

«Toda a gente fala e ninguém dorme, às quatro da manhã de uma quinta-feira qualquer não havia um único táxi desocupado. A maioria das pessoas trabalha sem horários e sem pausas, apesar de os portugueses terem os salários mais baixos da Europa. Marcam-se reuniões para altas horas da noite, os escritórios ficam de luzes acesas até de madrugada. Se alguma coisa vai dar cabo desta revolução é a conta da luz.» 
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O DEO, essa espada de Dâmocles


Mesmo antes de serem conhecidas as medidas que o DEO não concretiza, e cuja revelação nos está prometida para amanhã às 20:00, sabemos já o suficiente para sentirmos sobre as nossas cabeças uma espada de Dâmocles a que não escaparemos. No momento que passa, Fernando Sobral é um dos colunistas cuja leitura não dispenso. Publica hoje, no Jornal de Negócios, mais uma bela crónica: Nem DEO, nem Dá (*)

«O Documento de Estratégia Orçamental (DEO) é um equívoco no nome: nem Deu, nem Dá. É um enunciar de cortes sobre cortes, porque já é impossível aumentar os impostos. Vítor Gaspar rapa o pouco que restava no fundo do tacho, até não haver mais nada para retirar. (...)
Gaspar não dá, nem deu: tira. Tira dinheiro, direitos e futuro. Porque para ele não existe vida real para lá dos gráficos. (...)

Gaspar é o grande exterminador de milhões de sonhos, que acabaram em Portugal, destruídos por uma austeridade que aniquilou empresas sem fim e empregos aos milhares. Não está só. Se Sócrates destilou "swaps", Passos e Gaspar conviveram com eles, acrescentando-lhes dor. Estão bem uns para os outros. (...)

A vida de muitas pessoas está a ser destruída silenciosamente e instituiu-se o medo do futuro. Gaspar e Passos estão no glaciar de onde se olha sem emoção para tudo isso. O DEO risca uma década nacional do mapa. E apaga milhões de portugueses da existência. É a este "ao DEOs dará" que chegámos 13 anos depois da criação do euro.»

(*) O link pode só funcionar mais tarde.
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Não desanime!



Já faltou mais. Veja AQUI
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Consensos «tipo Cavaco»?



«A crise tende a multiplicar os impasses, os impasses tendem a aprofundar a crise. Assim se adensa, tanto na vida das pessoas como na das nações, o carrossel de todos os dramas. E o pior que nestas situações pode acontecer é ficar-se preso na teia do que Gregory Batteson designou uma vez como o "double bind".
Trata-se de um dilema que coloca uma pessoa ou uma comunidade perante mensagens ou exigências conflituantes, de tal modo que bloqueia qualquer saída, dando origem a comportamentos paradoxais. (...)

Só faltava mesmo a cereja no bolo: e ela apareceu com a insólita aposta [feita por Cavaco Silva] de fazer o País caminhar para o consenso através da intensificação dos antagonismos e em apelar à convergência político-partidária estimulando a desconfiança na democracia!
Este passo é, todos o reconheceram, dificilmente compatível com as funções de representação nacional, de mediação institucional e de pedagogia política que deveria caracterizar o exercício presidencial. Não admira por isso que, com esta espiral paradoxística de Cavaco Silva, o País dê crescentes sinais de um novo tipo de fadiga, a fadiga presidencial... (...)

Cavaco Silva não só falhou o alvo do seu apelo ao consenso, como perdeu o "momentum" em que o podia fazer com autoridade e eficácia. Resta-lhe agora, aos olhos dos portugueses, vacilar – para usar os termos do filósofo Jean-François Lyotard – entre o litígio e o diferendo: enquanto o primeiro pode ficar pela discordância mais ou menos acentuada, já o segundo conduz ao conflito e à guerra. O tempo o dirá.»

1.5.13

A-SSA-SSI-NOS! A-SSA-SSI-NOS! – 1º de Maio de 1962


Um texto de Helena Pato, incluído no seu livro «Já uma estrela se levanta».

Seguíamos num Volkswagen – eu acompanhava-os, até ver. O Alfredo Noales, com quem já casara, tinha recebido do chefe de redacção do República a incumbência de fazer a reportagem. Para a censura cortar inevitavelmente de alto a baixo, é claro. Ao seu lado, um amigo, um camarada nosso, que estava connosco por ser um dos organizadores. No banco de trás seguia eu, impaciente e receosa.

Nas vésperas tinham sido lançados panfletos por toda a cidade, chamando o povo a comemorar o 1.º de Maio, a manifestar-se. Se a ditadura proibia toda e qualquer manifestação, o «1.º de Maio» era assunto subversivo cuja referência pública, escrita ou em voz alta, só por si, podia valer prisão. Nos últimos meses, reuniões e mais reuniões na nossa casa, em Campo de Ourique – tudo muito discutido, muito preparado à porta fechada, mas nada passara por mim. Apenas sabia que algumas dezenas de brigadas clandestinas, furtivamente e durante noites e noites, iriam cobrir de propaganda a cidade de Lisboa e os arredores. Papéis, aos milhares, por todos os sítios: apelos à manifestação contra o regime e abundante informação acerca das greves que nos últimos meses despontavam, umas a seguir às outras, nas empresas dos arredores de Lisboa.

Chegámos à Praça do Comércio uns dez minutos antes das 6 da tarde. 1º de Maio de 1962. Uma data histórica – que persiste em sobrar-me, em ficar-me para trás, sempre que quero escrever sobre a resistência ou sobre a repressão fascista. Talvez por ter sido a única vez que, em idênticas circunstâncias, passei mesmo ao lado da morte. Depois, foram décadas a gritar: «A-ssa-ssi-nos! A-ssa-ssi-nos!» Não se tratava de um grito demagógico, eles eram realmente assassinos.

O nosso carro ia devagar. As ruas estavam praticamente desertas e, ao olharmos para as lojas e para os cafés, a calma e a óbvia normalidade assustaram-nos. Estaríamos à beira de um fracasso? Seria aquele o resultado de tanto trabalho de organização de tantos meses a fio?
«Tem calma, Lena, ainda não são 6 horas!» Tanta reunião, tanta agitação, e um ambiente que parecia explosivo no crescendo das greves, iria dar assim em nada? Seria que o povo não tinha coragem de assumir nas ruas o descontentamento que vinha manifestando à boca calada e que já revelara de forma tão convicta, tão expressiva, nas eleições do Delgado? Afinal onde estava esse povo? «Tem calma, Lena, ele vai aparecer!» O Povo amedrontara-se? Não se atrevia a enfrentar as forças policiais que os estudantes haviam defrontado por mais do que uma vez durante esse mesmo ano? 1500 jovens presos num só dia, em Março, na Cidade Universitária, e agora ninguém se mexia?
«Esta manifestação é política, amiga, não é associativa… hoje é mais complicado arriscar!», lembrava o camarada ciente de uma experiência de luta que eu admirava.

De uma coisa eu tinha a certeza: a tarde estava mais quieta do que o habitual à mesma hora. A Baixa parecia adormecida. Dava-me a impressão de que a acção prevista teria sido prematura ou as expectativas demasiado grandes, que o medo trancara os lisboetas em casa e que os empregados e os lojistas – comércio, moda, capelistas, pastelarias, cafés – estariam a abandonar os estabelecimentos, aos poucos, para fugirem da confusão. Mas por onde parariam os bancários, que tinham prometido uma boa adesão? Continuávamos ansiosos, a rodar, rua abaixo, rua acima, repetitivamente, devagarinho, varrendo metodicamente um espaço cruzado por artérias quase vazias.

Emudecêramos. Somente meia dúzia de estudantes nossos conhecidos passou por nós. Que era feito do pessoal da outra banda? Então os operários da Siderurgia? E os da Lisnave? «Espera e verás, camarada… Hão-de vir, virão em peso… Sabemos que vão estar em força.» Qual quê! Algum comércio ia-se fechando ao nosso lado, e eu desanimada. Havia quem, à porta das lojas, se metesse para dentro e quem saísse para os passeios – caminhavam imperturbáveis, eles de chapéu na cabeça, elas de malinha no braço. «São donos das lojas e caixeiros, já se sabia, Lena… Pouco se contava com eles…»

Começámos por ver a guarda nacional republicana a cavalo, em grupos – três agora, quatro depois –, a avançar pela Rua Augusta, vinda do Terreiro do Paço. Postura sobranceira, a exibir a força.

Quando se cruzou connosco, o Alfredo apressou-se a colocar no vidro do automóvel, em posição de boa visibilidade, uma pequena cartolina branca com os dizeres IMPRENSA – JORNAL DIÁRIO, desenhados na véspera, omitindo tratar-se do República para não chamar a atenção. Não queria dar-lhes qualquer pretexto para detenção, pois referir o jornal República era falar de oposição ao regime. (Continuar a ler)

A menina Etelvina não conhecia o Pingo Doce



Numa antiga vila do nosso Oeste, a menina Etelvina atravessava a rua todos os dias para comprar 50 gramas de manteiga amarela e trazia para casa 1/2 quilo de açúcar num cartuxo de papel pardo. Na velha mercearia inscreviam-se as dívidas num caderno de capa preta, para mais tarde serem pagas à semana ou ao mês, e ninguém falava de campanhas de descontos.

Se tivessem dito à menina Etelvina, sempre assim conhecida mesmo quando já bem encarquilhada nos seus 80 e tal anos, que os seus bisnetos se levantariam mais cedo num dia feriado para fazerem uma longa fila à porta da mercearia onde esperavam encher um carrinho de víveres e pagar só metade do preço (não com dinheiro mas com um cartãozinho de plástico), ela ter-se-ia benzido e rezado uma avé-maria. Mas se soubesse depois que, afinal, tinham sido enganados por um boato, que alguém tinha lançado na tasca da esquina, daria uma enormíssima gargalhada. E voltava para casa com 50 gramas de manteiga e 1/2 quilo de açúcar.

Hoje, lembrei-me da menina Etelvina.

(Imagem daqui.)
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Por esse mundo fora



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DEO sem gratias



Se não tiverem mais nada para fazer, dêem-se ao trabalho de ver, na íntegra, o papel que o governo ontem pariu. Mas não vale a pena terem medo, muito medo: as previsões não valem mais do que as de um qualquer zandinga e falharão, para o mal ou para o menos mal, como todas as outras até aqui. 
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No último 1º de Maio em ditadura




(Republicação)

Às 2:50 minutos do 1º de Maio de 1973, as Brigadas Revolucionárias executaram uma das suas acções mais espectaculares, da qual resultou a destruição de dois andares do Ministério das Corporações (actual Ministério do Trabalho e da Segurança Social), na Praça de Londres em Lisboa. 

Explicaram mais tarde em comunicado (que pode ser lido AQUI, na íntegra): «O Ministério das Corporações é, por um lado, o instrumento mais directo dos patrões portugueses e estrangeiros, que através dele fixam as condições de trabalho do proletariado – salários, horários – enfim, exploração e repressão (…); e, por outro, um instrumento de exploração directa dos trabalhadores, através da Previdência (…) que fornece serviços de Saúde e Previdência miseráveis.» 

Facto demasiado grave e espectacular para que a censura o silenciasse, foi noticiado nos meios de comunicação social e objecto de todas as conversas, num dia quem que se preparavam manifestações proibidíssimas e precedidas por largas dezenas de detenções nas semanas precedentes (Leia-se a circular da Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos, de 9/5/1973.) 

Durante a tarde, foram recebidos telefonemas com falsos alertas de bomba em várias grandes empresas de Lisboa. Veio a saber-se depois que se tratara também de uma iniciativa ligada às Brigadas Revolucionárias, cujo objectivo era «libertar» mais cedo os trabalhadores para que pudessem participar na manifestação. 

Ao fim do dia, foi o cenário habitual, mas especialmente repressivo nesse ano, que o Avante! relatará mais tarde: «Em Lisboa, numerosos trabalhadores se concentraram na Baixa a partir das 19:30, sendo brutalmente carregados pela PSP à bastonada, soco, pontapé, do que resultaram dezenas de feridos que tiveram de receber tratamento no hospital, sendo feitas várias prisões.» (O resto pode ser lido AQUI.) 

Um ano mais tarde… foi a maior festa que imaginar se possa! 
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Os mártires de Chicago


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30.4.13

Até quando gasparemos?

Contra a criação de editorias únicas da Rádio e da Televisão públicas


«Isto não diz apenas respeito aos jornalistas da RTP/RDP. A fusão das editorias contribui para a diminuição do pluralismo informativo, a redução do número de jornalistas contribui para a degradação da qualidade informativa. E o jornalismo é indispensável à democracia.» (Diana Andringa) 




COMUNICADO DO SINDICATO DOS JORNALISTAS:

SJ contra editorias únicas da rádio e da televisão públicas

1. Termina na próxima sexta-feira, dia 3 de Maio, o prazo para os jornalistas ao serviço da rádio e da televisão públicas manifestarem a sua oposição às ordens de serviço 25 e 28, do Conselho de Administração da RTP, que alteram seriamente a sua relação de trabalho, são vias directas para o despedimento maciço de jornalistas e põem em causa a diversidade e o pluralismo informativo a que a RTP está obrigada.

2. Com efeito, a criação das chamadas editorias partilhadas, atingindo todas as áreas editoriais vitais de qualquer órgão de informação (Arte e Espectáculos, Desporto, Economia, Internacional, Política e Sociedade), e a ampliação de tarefas dos jornalistas repórteres terá como consequência inevitável a dispensa de significativo número de profissionais, que a empresa pretenderá considerar redundantes e excedentários. Não será aliás por acaso que a RTP está a avaliar os custos com cada programa informativo, incluindo quanto aos jornalistas a ele afectos.

3. Tais intenções devem ser inequivocamente rejeitadas e combatidas pelos jornalistas, não apenas em defesa do seu legítimo direito aos postos de trabalho, mas também em defesa do direito dos cidadãos a uma informação de qualidade, diversificada e pluralista.

4. Na verdade, ao fundir editorias – aliás, praticamente redacções inteiras! –, a RTP pretende transformar os jornalistas em pau para toda a obra, liquidar o Acordo de Empresa e impor aos ouvintes e aos espectadores uma informação uniformizada, tipo pronta a servir, pensada e dirigida para ser executada por unidades editoriais únicas ainda que servidas através de dois órgãos de comunicação social distintos.

5. É manifesto que o pluralismo está ameaçado e que os direitos dos jornalistas estão atingidos, como de resto reconheceu a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) numa recente deliberação, na apreciação de uma participação do Sindicato dos Jornalistas sobre a fusão das editorias de Economia nas publicações da Global Notícias.

6. Por conseguinte, a Direcção do SJ, em reforço de outras medidas já tomadas – como é o caso da queixa apresentada à Autoridade para as Condições de Trabalho – e sem prejuízo de outras em estudo, vai elaborar uma participação à ERC, para que seja impedida a concretização das ordens de serviço em causa.

7. O SJ aproveita para voltar a apelar aos jornalistas, para que resistam a mais esta ofensiva e defendam os seus legítimos direitos, a começar pela defesa dos seus postos de trabalho, e os direitos dos cidadãos a uma informação de qualidade, bem como a autonomia funcional dos serviços públicos de rádio e de televisão.

Lisboa, 29 de Abril de 2013
A Direcção

(Daqui)

O PS no seu labirinto



No Público de hoje, um excelente texto (sem link) de José Vítor Malheiros: «Será que podemos confiar na alternativa do PS?»

Alguns excertos e na íntegra.

«Alguém faz uma ideia, com um mínimo de consistência, do que seria um governo do Partido Socialista? Alguém sabe quais seriam as suas apostas estratégicas, o que faria às actuais medidas de "austeridade", quais seriam as suas medidas para gerir a dívida, como garantiria o financiamento à economia? (...)

É difícil ter alguma ideia do que faria um governo do PS quando este critica a troika mas lhe jura amor eterno, quando se proclama como alternativa ao actual Governo mas reage com coqueteria perante os secretos gestos de sedução do CDS. E é difícil imaginar uma vontade séria de resolver os profundos problemas do país quando vemos um congresso que prefere esconder as divisões reais e fugir ao debate de ideias para não prejudicar a possibilidade de aceder ao poder. (...)

Num momento como o actual, onde os portugueses são ameaçados pela pobreza, onde o futuro de tudo o que construíram está em risco, incluindo a sua família, a independência nacional e a União Europeia, num momento onde até a democracia e a paz se vêem ameaçadas, os portugueses precisam de política a sério e não de marketing, precisam de lideranças capazes de falar verdade e de correr riscos, de propostas políticas claras e não de negociatas clandestinas, de justiça social e não de defesa dos privilégios, de democracia e não de oligarquias, de iniciativa na Europa e não de servilismo. (...)

Seguro espera que os eleitores votem no PS depois de terem experimentado o PSD, como alguém muda de marca de água, por tédio ou por curiosidade, só porque se cansaram da outra. Espera que votem PS quer este faça alianças à direita ou à esquerda, só porque o PS se chama PS, mas esquece-se de que, para um número crescente de cidadãos, a política deixou de ser uma escolha indiferente para ser uma questão de vida ou de morte.»

A ler na íntegra.

O fim de uma terrível guerra


Há 38 anos, em 30 de Abril de 1975, a rendição de Saigão (actual Ho Chi Minh) pôs fim à Guerra do Vietname.

Ocupadíssimos que andávamos por cá com o rescaldo das primeiras eleições livres para a Assembleia Constituinte, que tinham ocorrido cinco dias antes, pouca atenção foi prestada ao fim deste terrível conflito, mesmo por aqueles que tinham andado pelas ruas de Lisboa em pelo menos duas proibidíssimas manifestações, em 1968 e 1970. Quem lá esteve não esqueceu a polícia a pé e a cavalo na Duque de Loulé, onde se situava a Embaixada dos EUA, a dispersar tudo e todos, à bastonada, nem as tradicionais correrias para lhe escapar. Mas se também lá estive, e se desde o início escolhi «o meu campo», confesso que só interiorizei verdadeiramente a dimensão do que foi o conflito em questão quando estive no Vietname, há quatro anos.

Nunca mais esquecerei o War Remnants Museum, um dos mais terríveis que percorri, onde se encontram muitas imagens, instrumentos de tortura e outros pavorosos testemunhos da ferocidade de que o homem foi, é e será capaz.

Devo dizer que me foi muito difícil percorrer este museu, depois de ter visitado Cu Chi, «Terra de ferro, cidadela de bronze», como se autodefine, localidade a 60 quilómetros a Noroeste de Ho Chi Minh, que se orgulha de ter contribuído de um modo muito especial para a vitória da «Guerra anti-Yankees». É em Cu Chi que se encontram 200 quilómetros de túneis que serviram de vias de comunicação, de esconderijo, de hospitais e até de salas de parto para os vietnamitas. Tinha lido varias descrições, mas o que vi toca os limites do inacreditável.

E, para além de tudo o resto, torna-se impossível perceber como é que os americanos alguma vez acreditaram que podiam ganhar aquela guerra, apesar dos dois milhões de mortos que ficaram para trás.

Veja-se ou reveja-se:

Dois vídeos, um sobre o Museu, outro sobre os túneis de Cu Chi:





Um álbum de fotografias.
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29.4.13

Entretanto, no Altis



Sobre o Congresso do PS já tudo foi escrito, mas o melhor que encontrei foi isto. É Imprensa Falsa, mas quase parece não o ser...

»Seguro pediu maioria absoluta e já está no Altis, onde vai aguardar pelos resultados eleitorais

António José Seguro pediu este domingo a maioria absoluta aos portugueses e foi logo a seguir para o hotel Altis, onde vai aguardar pelo resultado das eleições.

Questionado pelos jornalistas, à entrada do hotel, sobre se não seria um bocado cedo, o líder dos socialistas não quis fazer comentários: "Desculpem, mas só falo mais logo, depois de conhecidos os resultados."

Entretanto, atrás de Seguro chegou Carlos Zorrinho, que tinha ido estacionar o carro: "Vamos aguardar pelos resultados, mas acredito que o PS provou ser uma alternativa, com aquele conjunto de propostas concretas que apresentámos aos portugueses e que vão desde coiso até sei lá eu, passando por pois é isso mesmo."

Sobre o facto de talvez ser um bocado cedo, Zorrinho explicou que o PS alugou a sala por tempo indeterminado e que só terão de sair durante algumas horas, num sábado lá para meados de Julho, porque o hotel já estava reservado para um casamento. "Tirando isso, temos o hotel por nossa conta. Agora deixem-me entrar, porque o senhor secretário-geral não gosta de estar sozinho", concluiu.»

P.S. - Na mesma onda, ler: Está apressado o rapaz.
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Os avisos de Cavaco



Cavaco Silva foi ontem ao Algarve abrir um congresso de Cardiologia, falou dos riscos associados a sedentarismo, tabagismo, obesidade, consumo excessivo de álcool, e de mais uns tantos, e aproveitou para nos avisar que, segundo o seu médico, não nos livraremos dele tão cedo porque procura «adoptar um estilo de vida saudável».

Mas, já entre portas, foi mandando outros recados pelos jornalistas. Afirmou e repetiu: «Não me venham dizer depois que eu não avisei em devido tempo que é preciso desde já, no fim de Abril de 2013, ter em consideração os desafios e as exigências que serão colocadas a Portugal depois de terminar o programa de ajustamento».

E terá especificado que é fundamental que todos os agentes políticos portugueses estudem muito cuidadosamente o que é que significa o «pós-troika» para que não sejam exigidos sacrifícios desnecessários aos portugueses.

Terá provavelmente razão porque o «pós-troika» é certamente a última das preocupações dos actuais governantes e dos que esperam vir a sê-lo em breve. Mas para nós, tristes governados, que nem sabemos o que nos vai acontecer esta semana (quanto mais no «pós-troika»!...), a mensagem é muito sibilina e não ajuda a entender os profundíssimos desígnios do presidente. A não ser que isto ande tudo ligado e que, quando Selassie & friends nos abandonarem, corramos o risco de alguém nos obrigar a sermos menos sedentários, a deixarmos mesmo de fumar e de beber umas pinguinhas, como Cavaco lembrou aos cardiologistas...

(Imagem daqui.)


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Se fosse só um camião...



(Jornal de Negócios)
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Monóculo ou funil



«Segundo os chineses, os ingleses gostavam de usar monóculo para só verem o que queriam. Em Portugal a classe política usa um funil no ouvido para só escutar o que deseja. É uma evolução digna de nota, mas é ela que também explica o remoinho que as palavras de Cavaco Silva, que quer tudo menos eleições, causaram no Parlamento. António José Seguro já tem um inimigo para unir o PS.

O PSD e o PP têm um álibi protector para os dislates do Governo e da UE. Enquanto isso o modelo dos cortes sociais e do aumento de impostos continua como obrigação ideológica, mesmo que os feridos vão aumentando. Na Península Ibérica já são mais de sete milhões de desempregados. (...)

As questões mais sérias que neste momento mereciam debate não foram ouvidas neste fogo-de-artifício débil entre facções. Por um lado se Portugal poderá algum dia sair do buraco sem deixar este euro ou sem a Europa mudar de ideologia económica. Por outro, numa reflexão mais profunda, se existe liberdade verdadeira sem segurança, como um dia disse Isaiah Berlin. E é toda esta segurança que tem sido retirada aos portugueses, deixando-os entre a perdição interna e a saída para o estrangeiro em busca da sua Ilha dos Amores.»

Fernando Sobral

(O link pode só funcionar mais tarde.)
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28.4.13

Cúpulas e mais cúpulas (17)



Catedral de Svetitskhoveli, Mtskheta (Geórgia, 2012)

(Para ver toda a série, clique na Label: «CÚPULAS».)
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Regressando a origens



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Maio ao contrário



«Mas o que diriam se os jovens catecúmenos de Paris investissem contra a polícia nos próximos meses, os rapazes de gravata e as raparigas de Marianne, gritando: "Somos nós os cães polícias do capitalismo. Olhem como gostamos do polícia que há dentro de cada um de nós." E com palavras de ordem e grafittis deste tipo: "Sejam realistas, peçam o possível! Deus, tenho a certeza de que és um activista da direita popular. Eu não faço amor. Procrio. É mesmo proibido. Tudo proibido. Metro!boulot!dodo! A arte está viva . No Palácio da Ajuda. Se debaixo do empedrado estiver a praia, privatizemo-la."»

Ide e lede na íntegra.
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Fia-te em eleições e não corras...