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11.5.13

De facto...


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Momento cruel numa tarde de Sábado



Não é só na cantiga que o povo mais ordena, mesmo quando ela é gritada em tempos de raiva e de resistência. No sistema em que vivemos (e, por enquanto, não parece vir outro a caminho), ordena também quando vota, mal ou bem, e resta-lhe assumir a responsabilidade do que faz.

Pensei nisto ao ler hoje dois parágrafos no Jornal de Negócios:
«Em democracia o povo não tem desculpa. O governo é determinado pela vontade popular. Quem escolhe mal tem de assumir as suas responsabilidades e aguentar até à próxima oportunidade. E isto vale tanto para o poder executivo, quanto para as autarquias ou a Presidência da República. A maioria que votou Cavaco não pode agora queixar-se de que ele é tendencioso e até perverso. Sempre o foi. Esse ao menos nunca enganou ninguém.
Existe assim uma espécie de infantilismo popular que leva as pessoas a sistematicamente elegerem aqueles de que logo a seguir se queixam. Fazem a asneira e depois põem-se a chorar. Falta maturidade democrática, ponderação, convicções. O povo não é ludibriado por ninguém a não ser por si próprio, escolhendo de forma irrefletida, ao sabor do momento.»
E se a legitimidade democrática não se torna indiscutível só por ter sido atribuída em eleições, é também verdade que o voto funciona como veto para que a dita legitimidade não seja atribuída a outrem sem intervenções especiais. Podemos e talvez devamos pedi-las e uma delas concretiza-se no velho grito: «eleições já».

Mas não tenhamos grandes ilusões porque já se sabe que ninguém muda de povo. E mudar o povo é uma tarefa muito mais complicada do que fazer exame do 4º ano. 
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A ouvir, da primeira à última palavra


Jorge Reis Novais, constitucionalista, ex-assessor para assuntos constitucionais de Mário Soares e de Jorge Sampaio.



Resta-nos, portanto e apenas, o santo Tribunal Constitucional.

Entre outros, Jorge Miranda também afirmou entretanto que Diminuição retroativa de pensões é inconstitucional.

Sobre o mesmo tempo, ouvir também Manuela Ferreira Leite
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Demissão


Do texto de Sandra Monteiro no número de Maio de Le Monde Diplomatique (edição portuguesa).

«Quando o presidente da República Aníbal Cavaco Silva fala, percebemos que decidiu, pelo menos por agora, sustentar política e institucionalmente o miserável mundo novo que o governo está a criar, mesmo quando isso afronta o consenso social contra as políticas do executivo. Estamos perante uma forma original de governo de iniciativa presidencial, que isola governo e presidente numa resposta a que a maioria da sociedade se opõe.

Quando o ministro das Finanças Vítor Gaspar fala, em particular no conforto dos seus pares europeus, compreendemos que o regime austeritário, isto é, o aprofundamento da captura de rendimentos e poder por mercados que capturaram os Estados, é de facto uma sociopatia, uma forma de destruir os povos e a democracia. Ele precisa de actores como Gaspar, que não se sentem «coisíssima nenhuma» vinculados às regras democráticas e retiram tanto prazer das suas engenharias macabras que são capazes de dizer coisas destas, sem serem demitidos: comparando com outros países sob «ajustamento», «vemos padrões similares, mas como podem imaginar é muito mais bonito quando se olha para o ajustamento de Portugal e é por isso que eu o uso como paradigma» [1]. (...)

E quando fala o primeiro-ministro Pedro Passos Coelho? Mais parece que dispara, com munições cada vez mais mortíferas, sobre alvos enfraquecidos, tudo em nome da protecção, usando instrumentos públicos, dos florescentes meios de negócios e mercados financeiros. Nesta contradição fundamental entre os interesses da maioria da população e os da minoria de privilegiados encerra-se a esperança de intensificar as revoltas colectivas que acabem com o desespero de vidas reduzidas à sobrevivência por uma coligação que já nem mascara o desprezo pelos cidadãos.

Recuperar essa esperança implica demitir o governo – usando instrumentos institucionais, greves, acções de rua ou desobediência civil – e impor uma solução alternativa que substitua a austeridade por emprego e desenvolvimento sustentáveis.» 

Ler na íntegra aqui.
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10.5.13

E se falamos de retroactividade...



«Telefonaram-me uns amigos marroquinos, dando conta de um movimento local que, sabendo da aplicação geral do princípio da retoactividade no rectângulo, vão pedir a devolução de Lisboa e dos arredores. Até porque D. Afonso Henriques usou cruzados de fora da zona, para os expulsar.»

José Adelino Maltez no Facebook
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Grandes árvores (6)



Esta árvore encontra-se na Tailândia, no Wat Mahathat de Ayutthaya, antiga capital do reino de Sião, situada a cerca de 80 quilómetros a Norte de Bangkok.
Os portugueses foram, provavelmente, os primeiros europeus a visitar Ayutthaya, em 1511.

No recinto vêem-se muitas estátuas mutiladas mas esta cabeça, envolvida por raízes de uma árvore gigante, é absolutamente única!


(Ayutthaya, 2012)

(Para ver a série, clicar na Label: ÁRVORES)
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Reformados, esses potenciais terroristas



Em mail agora enviado aos sócios da APRe!, a sua presidente, Rosário Gama, descreveu o que se passou no passado dia 3, quando um grupo de reformados assistiu à discussão da Petição que tinham entregado em Novembro de 2012 à AR, com cerca de 13.500 assinaturas. É bom que estes factos sejam divulgados:

«A entrada na Assembleia da República foi uma verdadeira odisseia, com uma fila de associados da APRe! na rua, ao sol, à espera que nos deixassem entrar, competindo com filas de alunos que também iam assistir ao Plenário. Para estes, a entrada foi rápida, para a APRe! houve um tratamento humilhante, fazendo cada associado mostrar a roupa que trazia por debaixo da camisa ou camisola a fim de verificarem a existência de uma perigosa arma de propaganda: a t-shirt da APRe! a dizer que não somos descartáveis. Aos homens, a verificação era feita no corredor, as senhoras eram encaminhadas para um gabinete onde uma zelosa segurança mandava levantar as peças de roupa para ver o que havia escondido. Apesar disso, ainda conseguimos introduzir uma t-shirt na sala, juntamente com a “raiva” que já todos levávamos: aos alunos não foram tiradas as mochilas, a nós foram retiradas todas as carteiras e sacos…»

Como é sabido, no fim do debate sobre a Petição, houve uma «grandolada» nas galerias, que a presidente da AR comentou dizendo que o acto «não ajudava a democracia». Esta reacção esteve na origem de uma troca de cartas entre Rosário Gama e Assunção Esteves, tendo a primeira recordado à segunda que «cantar “Grandola, Vila Morena” na Sala das Sessões é tão respeitoso para a Democracia como a cantar na escadaria da Assembleia, facto que, em boa hora, V. Ex permitiu que acontecesse no passado 25 de Abril». Recebeu como resposta que «interromper o processo de votação do Parlamento não está bem. É essa a diferença entre cantar a Grândola que nos libertou nas escadas ou nas galerias. Nas escadas é uma celebração, mas nas galerias pode ser uma alienação.»

Alienação???


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Conversas sem família



Luís Reis Torgal escreveu, no Público de ontem, um excelente texto (sem link), com este título. Ainda pensei divulgar apenas uns excertos, mas aconselho a leitura na íntegra. Ficam aqui o primeiro e os dois últimos parágrafos e o texto completo. 

«O discurso proferido em 3 de Maio (dois dias depois do “Dia do Trabalhador”) pelo primeiro-ministro (ia a dizer “primeiro ministro da troika") lembrou-me as Conversas em Família de Marcello Caetano, da minha mocidade. Não é que Passos Coelho tenha a estatura cultural do sucessor de Salazar. Logicamente que lhe fica muito atrás. Por isso Marcello tentava – e fazia-o com mestria – encantar o povo com um raciocínio claro e uma forma coloquial, próprio de um excelente professor. Se me recordou as Conversas em Família (“Conversas sem Família”, como lhe chamo) é porque tentou, com o que chamamos uma “retórica de poder”, convencer os portugueses, a qualquer preço, de que não havia outra maneira de salvar Portugal do que o uso da sua receita, em prejuízo sobretudo dos funcionários públicos e pensionistas, e também de toda a economia e da generalidade da sociedade. E a maioria dos funcionários públicos e pensionistas lutaram mais pelo país, com o seu trabalho e a sua dedicação, do que o ministro durante a curta vida de gestor e a sua longa militância política na JSD e no PSD e, agora, no Governo. (...)

Que democracia é esta? É óbvio: estamos numa democracia política capitalista e neoliberal, autoritária, e de dependência. Cavaco Silva, Passos Coelho e seus amigos são bem o seu símbolo. Por isso, se há que construir outra democracia, há que lutar contra esta. Aqui e em todos os países da Europa, numa lógica de solidariedade, afinal própria daquela Europa que defendemos, a “Europa dos Cidadãos”.

Caso contrário, ainda nos cai em cima não “outro 25 de Abril” (como por aí dizem), mas “outro fascismo”, com outra forma. A “política” (como arte e não como cidadania) sempre soube usar o disfarce. E não nos esqueçamos que se está a celebrar, neste ano, meio século de O Príncipe de Maquiavel.» 

9.5.13

Já não há mesmo respeito



... quando se publica uma fotografia destas.
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Há o Governo das sextas-feiras e há o Governo dos domingos



«O Governo, como Fernando Pessoa, é histero-neurasténico. O resultado é a heteronímia política a que assistimos esta semana. Há o Governo das sextas-feiras, que é comportado e temente à troika e que se propõe aprofundar a austeridade; e há o Governo dos domingos, que é insurrecto, despreza a troika e traça limites que a austeridade não pode ultrapassar. Havia saldos nas urnas, nas eleições de 2011, e eu não percebi. Vote num e leve dois. Dois governos pelo preço de um.»

Ler na íntegra AQUI.
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Jornal Sénior



Chegou hoje às bancas, é quinzenário («por enquanto»), tem como director Mário Zambujal do alto dos seus 77 anos, e tem como alvo principal, mas não exclusivo, os maiores de 60 anos.

48 páginas por 95 cêntimos, com um grafismo que não sendo espampanante tem um cariz relativamente popular, poderá certamente chegar a muitos que já, ou ainda, não alinham em jornais digitais e já desistiram dos outros.

Destina-se fundamentalmente, como Mário Zambujal diz nas primeiras linhas do editorial, «a pessoas que levam já décadas a ouvir os parabéns a você», mas também aos seus filhos e netos.

Conteúdo mais do que generalista, com muitas informações úteis, entrevistas, reportagens e notícias onde nem o futebol falta, desde a actualidade até memórias do passado, com largo relevo dado à primeira transmissão de um desafio em directo para a Eurovisão (expressamente autorizada por Salazar...) de um célebre Benfica-Feyenoord exactamente há 50 anos, em 8 de Maio de 1963.

Dimensão de público alvo não lhe falta, um director com grande popularidade também não. Esperemos que tenha longa vida. 
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Um Popeye sem forças



A imagem parece-me excelente: se, pelo menos, a Europa comesse alguns espinafres... 

«Bruxelas continua a organizar conferências com distinção aristocrática mas há muito que deixou de fazer política séria. A Europa, terra de filósofos, deixou de pensar. Segue guiões como o da austeridade, aplica paliativos às economias doentes sem tentar curá-las, faz da culpa e da sua expiação a ideologia do novo mapa que está a ser desenhado.

A Europa é um Popeye sem forças. Porque não come espinafres nem se esforça por os produzir. A irrelevância política, económica e militar da Europa está agora a transportar-se para o campo das ideias. A Europa deixou de ser um modelo, olhado com inveja pelos outros. (...)

A menoridade intelectual da Europa que alimentou a periferia de sonhos para agora a prender em termos financeiros revela-se no circular discurso de Durão Barroso (...). A centralização do poder na Europa parece ser a única estratégia do núcleo duro europeu. E o euro é a sua canga. A pergunta continua a ser uma: como vai Portugal, a crescer por absurdo 1%, pagar 5,6% de juros?»

Fernando Sobral

(O link pode só funcionar mais tarde.)

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«Hoje é o Dia da Europa. Todavia, o ambiente que encontro em Lisboa, depois de dez dias em contacto com a vitalidade do Brasil, no plano universitário como em tantos outros, evoca-me sobretudo uma ideia de Milan Kundera, que definiu o europeu como aquele que tem nostalgia da Europa.

Este sentimento, que não é novo, tem-se intensificado nos últimos três anos. E ele agora cruza-se com um outro, que os acontecimentos têm vindo a impor cada vez mais na experiência quotidiana dos europeus: o do medo, um medo da Europa.»

Manuel Maria Carrilho
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Há tanto tempo que ando nesta!


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8.5.13

Lisboa festejou assim



... em 8 de Maio de 1945, o fim da Segunda Guerra Mundial.

Nas ruas, viam-se muitas bandeiras de Inglaterra, dos Estados Unidos e... do Benfica (em substituição de outras, proibidíssimas, da União Soviética).

Em Almada, depois dos patrões ingleses de algumas fábricas de Cacilhas darem 1/2 dia feriado, também houve desfile com as bandeiras dos vencedores e um pau sem nada. Gritava-se vivas aos países vencedores e quando chegava o momento da indizível URSS gritava-se «Viva a outra!» (Paula Godinho no Facebook)

Foto roubada no Aventar
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Cuidado com os «grisalhos»!



O Pedro Magalhães elaborou um interessante gráfico sobre o peso dos pensionistas nos eleitorados dos partidos com representação parlamentar, nas quatro últimas Eleições Legislativas.

Saltam à vista – e ele sublinha – dois factos: 
  • É «natural que o peso dos pensionistas venha aumentando no eleitorado de todos os partidos, seja por razões demográficas seja por diminuição da participação dos mais jovens»;
  • O Bloco não é mesmo o partido dos pensionistas, bem ao contrário do que se passa com o seu parceiro na esquerda da esquerda, a CDU.


Sabendo-se, como PM explicita num outro post, que «os 3 milhões de pensionistas correspondem a cerca de um terço da totalidade do eleitorado», com tendência óbvia para crescer, e que «a percentagem de abstenção entre os pensionistas é sempre inferior à média», é bom que os partidos se cuidem e tratem bem os tais «grisalhos» de que toda a gente agora fala, ou terão cada vez maiores surpresas...

E por falar em grisalhos, chega amanhã às banca o primeiro número de um novo quinzenário – Jornal Sénior – não só mas especialmente orientado para os maiores de 60 e dirigido por Mário Zambujal que explicou hoje a iniciativa na TSF.

É caso para se dizer que não há fome que não dê fartura!

P.S: - Ler também, de Pedro Magalhães: O partido dos pensionistas, sobre o comportamento do eleitorado do CDS e a estranheza dos seus resultados em 2011. 
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O «sucesso» de ontem nos mercados


«Sem o guarda chuva do BCE, o governo português, antes do resgate, colocava divida a cerca de 6%, com um crescimento nominal de 2,2%. Agora, com as garantias do BCE, coloca-se a 5,6%, com crescimento negativo de -2,3%. Pelo meio arrasou-se o país. É o que se chama recuar para antes da casa partida, deixando o dinheiro todo na caixa da comunidade, sem esquecer de arrasar casas e hotéis. É o monopólio do Gaspar.»

Sérgio Sousa Pinto no Facebook.

No mesmo sentido: Quem paga o "sucesso" de Gaspar?

A austeridade e os seus limites



«A austeridade é uma espécie de ponto de concentração de toda a teoria económica do liberalismo, um concentrado de toda a sua insensibilidade social, que começa pela ideia de que o desemprego é voluntário e, mais recentemente, se manifesta numa espécie de fúria contra o estado social.

Em Portugal, a austeridade está a atingir o seu apogeu quando se começam a notar fissuras entre os seus mais estrénuos defensores. Há um momento em que a insensibilidade social tem um limite: quando a sociedade assume colectivamente que não pode pagar mais e que as penalizações a que está a ser sujeita exorbitam o razoável. A partir daí o liberalismo não tem respostas. (...)

E não se pense que é por muito se acreditar, ou por muito se afirmar que não há alternativa, que a austeridade se torna mais aceitável. Alguém tem de pôr fim a este perigoso experimentalismo, que está a pôr irreversivelmente em causa alguns valores democráticos fundamento da organização das nossas sociedades e a reduzir a limites impensáveis os limiares de bem-estar e de qualidade de vida de milhões de europeus durante várias das próximas gerações. (...)

O que está a ser feito no nosso País, os sacrifícios que nos estão a ser impostos não têm justificação nem económica, nem social, nem racional. Estamos no domínio onde se confunde realidade com ficção. (...) Podemos obedecer às imposições dos credores externos sem perder a dignidade nem apresentar o ar obediente de quem cometeu o pecado absoluto. Outros estiveram em situações semelhantes à nossa, alguns dos que agora nos punem, e saíram sem ter de se humilhar. (...)

Tudo isto não passa de cortinas de fundo engendradas entre políticos e os grupos económicos e financeiros que, lá e cá, parasitam o regime democrático até que este se consuma de vez. O problema não são as necessidades inerentes ao ajustamento necessário, como não me canso de escrever; o problema é o défice de verdade.»  

José Maria Brandão de Brito

(O link pode só funcionar mais tarde)
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7.5.13

Povos Unidos



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Luiz Pacheco



Faria hoje 88 anos e, se ainda por aqui andasse, o Luiz Pacheco seria certamente tão irreverente como sempre foi – o que daria muito jeito nos tempos que vão correndo.

Aqui, pode ser encontrada muita informação sobre a sua pessoa e a sua obra. E a leitura de Puta que os pariu! – A biografia de Luiz Pacheco, de João Pedro George, é absolutamente obrigatória.




Texto de uma intervenção pública de Luiz Pacheco:

O QUE É O NEO-ABJECCIONISMO

Chamo-me Luiz José Machado Gomes Guerreiro Pacheco, ou só Luiz Pacheco, se preferem. Tenho trinta e sete anos, casado, lisboeta, português. Estou na cama de uma camarata, a seis paus a dormida. É asseado, mas não recebo visitas. Também não me apetece fazer visitas. A Ninguém. Estou bastante só. Perdi muito. Perdi quase tudo.

Perdi mãe e perdi pai, que estão no cemitério de Bucelas. Perdi três filhos – a Maria Luísa, o João Miguel, o Fernando António –, que estão vivos, mas me desprezam (e eu dou-lhes razão). Perdi amigos. Perdi o Lisboa; a mulher, a Amada, nunca mais a vi. Perdi os meus livros todos! Perdi muito tempo, já. Se querem saber mais, perdi o gosto da virilidade; se querem saber tudo, perdi a honra. Roubei. Sou o que se chama, na mais profunda baixeza da palavra, um desgraçado. Sou, e sei que sou.

Mas, alto lá! sou um tipo livre, intensamente livre, livre até ser libertino (que é uma forma real e corporal de liberdade), livre até à abjecção, que é o resultado de querer ser livre em português.

Até aos trinta e sete anos, até há bem pouco tempo ainda, portanto, julguei que podia, era possível, ser livre e salvar-me sozinho, no meio de gente que perdeu a força de ser (livre e sozinha), e já não quer (ou mui pouca quer) salvar-se de maneira nenhuma. Julgava isto, creiam, e joguei-me todo e joguei tudo nisto. Enganava-me. Estou arrependido. Fui duro, fui cruel, fui audaz, fui desumano. Fui pior, porque fui (muitas vezes) injusto e nem sei bem ao certo quando o fui. Fui, o que vulgarmente se chama, um tipo bera, um sacana. Não peço que me perdoem. Não quero que me perdoem nada. Aconteceu assim.

Eu para mim já não quero nada, não desejo nada. Tenho tido quase tudo que tenho querido, lutei por isso (talvez o merecesse). Agora, já não quero nada, nada. Já tudo, tanto me faz; tanto faz.

Agora, oiçam: tenho dois filhos pequenos, o Luis José, que é o meu nome, e a Adelina Maria, que era o nome de minha Mãe. O mais velho tem 4, a pequenita dois, feitos em Fevereiro, a 8. Durmo com uma rapariga de 15 anos, grávida de sete meses, e sei que ela passa fome. É natural que alguns de vocês tenham filhos. Que haja, talvez, talvez por certo, mães e pais nesta sala. Não sei se já ouviram os vossos filhos dizerem, a sério, que estão com fome. É natural que não. Mas eu digo-lhes: é essa uma música horrível, uma música que nos entra pelos ouvidos e me endoidece. Crianças que pedem pão (pão sem literatura, ó senhores!) pão, pãozinho, pão seco ou duro, mas pão, senhores do surrealismo, e do abjeccionismo, e do neo-realismo e mesmo do abstraccionismo! Este mês de Março que vai acabar ou já acabou, pela primeira vez, eu ouvi os meus filhos com fome. E pela primeira vez, não tive que lhes dar. Perdi a cabeça, para lhes dar pão (ainda esta semana). Já não tenho que vender, empenhei dois cobertores, e um nem era meu. Tenho uma máquina de escrever, que é a minha charrua, e não a posso empenhar porque não a paguei; e tenho uma samarra, que no prego não aceitam porque agora vai haver calor e a traça também vai ao prego… Já não tenho mais nada. Tenho pedido trabalho a amigos e a inimigos. Humilhei-me, fiz sorrisos. Senti na face, expelido com boas palavras e sorrisos, o bafo da esperança, da venenosa esperança; promessas; risinhos pelas costas. Pedi trabalho aos meus amigos: Luís Amaro, da Portugália Editora; Rogério Fernandes, de Livros do Brasil; Artur Ramos; Eduardo Salgueiro, da Inquérito; dr. Magalhães, da Ulisseia; e Bruno da Ponte, da Minotauro, aqui presente, decerto. Alguns têm-me ajudado; mas tão devagarinho! tão poucochinho!

Sim, porque eu não faço (já agora, na minha idade!) todos os trabalhos que vocês querem! Só faço, já agora, coisas que sei e gosto: escrever umas larachas; traduzir o melhor que posso; mexer em livros, a vendê-los ou a fazê-los.

Nem quero vê-los a vocês, todos os dias! Ah! Não! Era o que me faltava! Vocês têm uma caras! Meu Deus, que caras que nós temos! Conhecem a minha? Vão vê-la ali ao canto, na folha rasgada do meu passaporte (sim, porque viagens ao estrangeiro (uma…) também já por cá passaram…) Viram? É horrível!… A mim, mete-me medo! Mas é uma cara de gente. E isso não é fácil.

Dizia eu: eu quero trabalhar na minha máquina, sozinho, ou rodeado da minha Tribo: os miúdos, uma mulher-criança, grávida. E, às tardes, ir passear pela Avenida Luísa Todi ou na ribeira do Sado. Acho que nem era pedir muito. E para mim, é tudo.

Já pedi trabalho a tanta gente, que já não me custa (envergonha) pedir esmola. Confesso-lhes: até já o fiz, estendi a mão à caridade pública, recebi tostões de mãos desconhecidas, de gente talvez pobre. E tenho pedido emprestado, com a convicção feita que não o poderei pagar. É assim.

Eu para o Luiz Pacheco, repito, não quero nada, não desejo nada, não preciso de nada; mas para os bambinos! E para o bebé que vai nascer! Roupas; leite; pão; um brinquedo velho… Dêem-me trabalho! Ou: dêem-me mais trabalho.

E para findar esta Comunicação, remato já depressa:

Peço uma esmola.

(Daqui.)

Ainda há manicómios com regime de internamento, certo?

Portas, o verdadeiro artista?



«Paulo Portas sabe que nunca ganhará eleições em Portugal. A direita verdadeira precisa que passem várias gerações para ganhar eleições em Portugal. Precisava que o 25 de Abril se desvanecesse geracionalmente, agora precisa que esta intervenção liberal da troika o acompanhe no tempo.

Mas Portas acredita que, bem manobrado, o seu pequeno bote pode chegar longe. Pode sair desta crise como o verdadeiro líder salvador do país, com ideias próprias, muito trabalho e muita campanha. A elite já percebeu isso, Portas já conquistou apoios e cumplicidades entre algumas das personalidades mais influentes da vida política, económica e empresarial do país. (...)

Paulo Portas sobreviveu a uma passagem difícil pelo poder. E já está a trabalhar para sobreviver a outra, desta vez desastrosa. A tarefa agora é bem mais complicada. Demitir-se seria afundar tudo e todos. Demarcar-se, chegar-se à proa do navio que ainda está à tona, é a única via. Porque o seu pequeno bote, bem manobrado, pode ser a diferença entre escapar ferido mas mais vivo politicamente que nunca, ou afundar-se no naufrágio em que se transformou este país desgovernado. E pouco importa ganhar eleições depois, se todos os sobreviventes estiverem agarrados a frágeis tábuas de salvação enquanto por eles passa um bote pequeno, mas bem manobrado.»

Pedro Ferreira Esteves

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«Passos Coelho e Vítor Gaspar, à vez, parecem-se cada vez mais com o mítico Sísifo: estão condenados pelos deuses da Europa a empurrar eternamente até ao cume de uma montanha uma roda de mármore que acaba sempre por voltar a cair no vale.

Sempre cada vez mais longe do cume e mais perto do verdadeiro pântano. É aqui que o núcleo duro do Governo não necessita de oposição: vai-se derrotando a si próprio. Paulo Portas, no domingo, só ajudou a empurrar mais um bocadinho a roda para baixo. (...)

Passos Coelho continua a olhar para trás. Portas olha para a frente. E estabeleceu uma linha, a partir da qual deixa de ser solidário: o dia em que a troika sair daqui, em 2014. Criticou a Europa e o FMI, explicou as medidas e estabeleceu a fronteira para a austeridade sobre os reformados.

Portas mostrou que já há dois Governos: um, dele com o CDS e algum PSD; o outro com Vítor Gaspar e ainda com Passos Coelho. A curto prazo o primeiro-ministro terá de decidir se continua a ser o ajudante de Sísifo. Falta um ano para o grande eclipse se nada mudar. Portas fez o aviso.»

Fernando Sobral

(Os links podem só funcionar mais tarde.)
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6.5.13

Ó tempo, volta para trás



(Clicar para ler)
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A menina Etelvina sonhou com Paulo Portas



A menina Etelvina morreu em 1975, à beira de completar 93 anos. Há muito que estava frágil, magérrima, muito calma e quase sempre calada. Até quase ao fim, numa cadeira baixinha, ao fundo do longo corredor da casa que já a tinha visto nascer, fazia metros e metros de renda para entremeios de lençóis, cortinas para vidraças, naperons de todos os tamanhos e feitios.

Mas de vez em quando acordava muito nervosa e contava umas histórias esquisitas: dizia ela que eram sonhos onde via o que ia acontecer daí a muito tempo. A família achava que devia ser dos nervos e até a levou ao Miguel da farmácia para ele lhe fabricar um velho calmante, com pó tirado de vários frasquinhos.

Numa manhã acordou aos gritos. Que ouviu um senhor dizer que os avós iam ter de ajudar os filhos desempregados e até os netos (mas então vai ficar tudo ao contrário?). Que iam fechar outra vez as fronteiras, ele disse que havia uma que não podia deixar passar e que isso tinha a ver com reformados (mas porquê?) Que esse senhor até era ministro mas não primeiro, tinham dito que era segundo ou terceiro (mas então, no futuro, vai haver segundos-ministros?). Que ele não queria um cisma grisalho (grisalha tinha ela sido e cisma não é coisa de igrejas?) E que era preciso vermo-nos livres de uma gente muito má que invadiu Portugal e a que chamou troika . E foi aí que ela teve muito medo e que acordou aos gritos.

Deram à menina Etelvina uma dose dupla do calmante da farmácia do Miguel e ela foi fazer renda na cadeira baixinha. Mas muito preocupada com o seu país. 
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Da série «Cartas de Amor»



Este é o texto da tal carta que Passos Coelho escreveu à troika e cuja cópia terá enviado a António José Seguro quando este ia a caminho de uma entrevista na a TVI, na passada sexta-feira.

Nada de novo? Certamente. Mas depois da intervenção de Paulo Portas, ontem ao fim do dia, percebe-se melhor que o «consenso» que se diz procurar se situa, antes de mais e talvez exclusivamente, dentro do próprio governo. Esta frase tornou-se cristalina: «o valor global agora apresentado é superior ao necessário, dando-nos assim uma margem para diminuir a contribuição de sustentabilidade do sistema de pensões».


Lisboa, 3 de Maio de 2013
José Manuel Durão Barroso
Mario Draghi
Christine Lagarde

Na nossa carta de 10 de Abril assumimos o compromisso de identificar medidas de consolidação orçamental para 2014 e 2015 no valor de aproximadamente 2,5% do PIB. Escrevo hoje para vos informar das decisões tomadas recentemente pelo Conselho de Ministros.

Ontem mesmo decidimos propor a consulta pública um conjunto de medidas neste âmbito (ver tabela anexa) [*]. O processo envolverá agora os partidos políticos representados na Assembleia da República, a sociedade civil e os parceiros sociais. A iniciativa do Governo cumpre de forma substantiva a “ação prévia” prevista para conclusão do sétimo exame regular do Programa de Assistência Económica e Financeira a Portugal. De forma a permitir a construção do consenso, está previsto que algumas medidas sejam substituídas por outras de semelhante qualidade e efeito orçamental. Acresce que o valor global agora apresentado é superior ao necessário, dando-nos assim uma margem para diminuir a contribuição de sustentabilidade do sistema de pensões caso sejamos bem sucedidos na obtenção de poupanças estruturais noutras áreas, nomeadamente nos consumos intermédios do Estado.

No contexto do sétimo exame regular, as equipas da CE, BCE e FMI tiveram oportunidade de analisar medidas potenciais semelhantes às agora apresentadas. Tal deverá facilitar a sua apreciação final. A especificação detalhada destas medidas continuará a ser discutida entre as equipas técnicas nos próximos dias.

As medidas agora apresentadas colocam Portugal num claro e credível caminho para contas públicas equilibradas e para a redução da dívida pública, assegurando assim o cumprimento das regras comunitárias de disciplina e estabilidade orçamentais. Em 2011 e 2012 Portugal reduziu a sua despesa primária de 48% para 42% do PIB. Para 2014 e 2014 queremos centrar o nosso ajustamento em medidas permanentes de redução de despesa pública.

Com base no nosso esforço e no apoio internacional seremos capazes de estabelecer acesso pleno aos mercados e assim concluir com sucesso o Programa de Assistência. Após o Programa, Portugal assegurará condições para um crescimento sustentado e gerador de emprego, dada a profundidade e abrangência de reformas empreendidas nos mercados de trabalho e de bens e serviços. A estabilidade futura será ainda reforçada através de mudanças profundas nas regras e procedimentos orçamentais.

Com os meus melhores cumprimentos,

Pedro Passos Coelho 

[*]  Ver aqui Tabela aqui e Notas Explicativas. 
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Tirem-nos daqui



«Não é o país que está ingovernável, é o Governo. A intervenção de Portas de ontem desmente qualquer desmentido: naquela casa não manda ninguém porque aquela não é uma casa, é um quarteirão de arquitecturas inconciliáveis. Vai Passos agora demarcar-se de quem lhe liquidou três tabus? Portas pediu renegociação com a troika, pediu mais tempo, pediu para o Governo ter voz na Europa em vez de ser a voz da Europa. Gaspar, para cuja saída já estão a fazer o estrugido, está só. Até Passos, seu protector, se libertou da sua dependência intelectual ao aninhar noutra, a de Poiares Maduro. Não há convivência no Governo, quanto mais consenso fora dele. Esse é um problema de Passos, que ou o resolve ou é resolvido por ele.

É por isso que pode ser tarde de mais. Não há disponibilidade social de quem já deu tudo e não percebe se foi para nada. Não há estabilidade política de quem é incapaz de explicar o quê e o porquê das vagas de austeridade, sucessivas e contraditórias. Este não é um programa pós-troika, é um programa pós-fracasso. (...)

Os portugueses merecem flexibilização da troika e o Governo, se conseguir cortar despesa no Estado e souber o para quê e não apenas o quanto, também. Porque isto está a correr mal de mais. Não é à troika - é a nós, Portugal. Tirem-nos daqui. Não é a nós: é a eles.»

Pedro Santos Guerreiro

(O link pode só funcionar mais tarde.)
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5.5.13

A bicefalia é que está a dar



... cada vez mais e no governo também. Não se sabe é como nem por quanto tempo. Mas se Paulo Portas ganhar (já ganhou?) esta sua pequena batalha TSU II, os reformados, agradecidos e venerandos, prometem tudo fazer para que lhe seja dado o estatuto de sócio honorário da APRe! Ainda acaba a cantar a Grândola na AR, acreditem... 
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Celebração da fantasia



Foi na entrada da aldeia de Ollantaytambo, perto de Cuzco. Eu tinha-me livrado de um grupo de turistas e estava sozinho, olhando de longe as ruínas de pedra, quando um menino do lugar, esquelético, esfarrapado, se aproximou para me pedir que lhe desse como presente uma caneta. Eu não podia dar a caneta que tinha, porque estava a usá-la para fazer sei lá que anotações, mas ofereci-me para desenhar um porquinho na sua mão. Subitamente, correu a notícia. E de repente vi-me cercado por um enxame de meninos que exigiam, aos berros, que eu desenhasse nas suas mãozinhas, rachadas de sujidade e de frio, pele de couro queimado: havia os que queriam um condor e uma serpente, outros preferiam periquitos ou corujas, e não faltava quem pedisse um fantasma ou um dragão.

E então, no meio daquele alvoroço, um desamparadozinho que não chegava a mais de um metro do chão, mostrou-me um relógio desenhado com tinta negra no seu pulso:

Quem me mandou o relógio foi um tio meu, que mora em Lima —disse ele.
E funciona bem? —perguntei.
Atrasa um pouco —reconheceu.

Eduardo Galeano, O livro dos abraços


E para ajudar a imaginar a cena, duas imagens de Ollantaytambo. (E o que eu não daria para lá estar de novo neste preciso momento!...)

...

Nem mais


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Contaram-nos muitas histórias



O texto foi escrito em Espanha mas podia ser português porque estamos no mesmo grande barco – esperemos, ainda, que não se chame Titanic.

«Disseram-nos que um ratinho nos deixaria a liberdade debaixo da almofada se fôssemos obedientes e dormíssemos depressa.. E nós acreditámos. Depois, escreveram num documento chamado Constituição uma série de direitos e de liberdades e pensámos que tinha finalmente chegado o dia em que todos, ao levantar os olhos, podíamos ver uma terra com a palavra liberdade. Mas crescemos, ficámos sem ratinhos e passamos agora o tempo a apalpar os bolsos porque temos a impressão de que nos roubaram esses direitos e essas liberdades. (...)

Contaram-nos histórias fascinantes, mas agora sabemos que estamos nas mãos de algumas mega-empresas financeiras e de lóbis superpoderosos que decidem o presente e o futuro de qualquer país do mundo, incluindo o nosso. Acreditávamos que os nossos parlamentares, espanhóis e europeus, decidiam e votavam pensando no interesse geral e no bem comum da cidadania que pretendiam representar, mas, na verdade, votam e decidem o que o seu partido e o seu grupo parlamentar mandam e os responsáveis destes são assessorados e persuadidos pelas grandes empresas e por lóbis, ao serviço de quem estão. (...)

Mais histórias não, por favor.»

 Na íntegra aqui
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