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18.5.13

Troika Ano II


Dois anos depois da assinatura do Memorando de Entendimento, a troika, uma equipa de funcionários do Fundo Monetário Internacional e da União Europeia, conjunto de Estados livres e independentes em que Portugal se integra, continua a não prestar contas a ninguém. No decurso das sucessivas visita dos técnicos, o Governo, que responde perante a Assembleia da República e os portugueses, explica-se, presta contas da forma como executa o programa que os técnicos redigiram em três semanas e recebe uma avaliação.

Contra essa anomalia democrática, um conjunto de personalidade de várias gerações, sensibilidades políticas e formações profissionais, avaliam a troika e olham para o futuro de Portugal, na sequência da publicação do livro Troika Ano II, Uma Avaliação de 66 Cidadãos.

O IDEFF e o Instituto Europeu da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa organizam uma sessão, durante a qual será lançado o livro, e que terá lugar no próximo dia 20, com início pelas 9 e 30, no Salão Nobre da Reitoria da Universidade de Lisboa.

Mais informações aqui.

PROGRAMA: 

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Eternos



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Da vazia, sff



Expresso, 18/5/2013
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Um país do avesso



O povo anda perdido: os responsáveis pela República perderam o tino e já ninguém acredita que os comunas comam criancinhas ao pequeno almoço.

Não nos bastava um presidente que fala de santos a torto e a direito e vem agora o líder dos comunistas lembrar-lhe que «é pecado invocar em vão o nome de Maria».

Tenho para mim que algures, num planeta ainda desconhecido, Cunhal e a Irmã Lúcia estão a preparar o almoço de Sábado, ele rezando uma dezena do terço enquanto ela cantarola «A Internacional». 
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17.5.13

Jorge Videla – que a terra seja chumbo



Morreu Jorge Videla, um dos carrascos que governaram a Argentina entre 1976 e 1983 e que foram responsáveis por mais de 30.000 desaparecidos. Condenado em 2010 a prisão perpétua, viu a sua pena aumentada em mais 50 anos, em Julho de 2012, por ter dirigido uma rede que roubava bebés de prisioneiros políticos.

Num artigo intitulado «Nem Freud imaginou isto», Simone Duarte recorda o drama de algumas destas crianças e conclui: «É este o legado do general Videla. Uma geração que desapareceu. Outra que ficou sem saber quem era. E está até hoje a tentar descobrir».

O mundo ficou agora mais limpo. Espero que se dance o tango, pela noite fora, nas ruas de Buenos Aires.
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Este confiará em Nossa Senhora de Lourdes...



François Hollande continua a prometer que, antes do fim do corrente ano, se vai inverter o sentido da curva do desemprego quando este não pára de crescer há 23 meses consecutivos.

Em França, tal como cá, fala-se de quadratura do círculo e de esperança de um milagre... 

(Fonte)

Pode ser que os deuses nos oiçam



«Quando Portugal tem um Presidente que, a propósito da sétima avaliação da troika, evoca Nossa Senhora de Fátima, está tudo explicado. Colocámos o nosso destino nas mãos do divino e da crença e não na capacidade dos portugueses em determinarem o seu futuro. Tal como antes depositávamos a esperança no regresso de D. Sebastião ou num pastor que ordenasse o rebanho, agora a classe política portuguesa parece acampada à espera de um sinal vindo do céu ou dos três reis magos do FMI, da UE e do BCE. Este discurso de colocar as responsabilidades e o poder nas mãos de outros começa a ser a ideologia dominante na elite portuguesa. É a reprodução, como farsa, daquilo que, em "Os Maias", Ega dizia: "Portugal não necessita de reformas, Cohen, Portugal o que precisa é a invasão espanhola". E Cohen, inspirado em Burnay, sorria condescendente, porque ele ganhava de qualquer maneira, a começar pelos empréstimos externos. (...)

O problema é que continuamos a olhar para estudos como os da OCDE e do FMI como cartilhas maternais. Se era para seguirmos estudos, porque nunca aplicámos o de Michael Porter, que tinha um enquadramento teórico e prático para criar um modelo económico para Portugal? Há claramente uma fraca elite portuguesa, que coloca a culpa nos próprios portugueses. Esquecendo-se que foram as suas decisões, motivadas por motivos egoístas, que têm conduzido o país, de aumento cíclico da dívida e do défice, a este estado de ruína. Talvez Cavaco, afinal, tenha razão: coloquemos o destino nas mãos do divino. Pode ser que os deuses nos oiçam…»

Fernando Sobral

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«Temos que ser honestos, a frase do Presidente faz sentido. Se analisarmos bem, a própria Nossa Senhora de Fátima tinha um discurso Cavaquista. Os segredos de Fátima, revelados aos pastorinhos, não passam de um: "depois não digam que eu não avisei." O próprio local onde Nossa Senhora apareceu (uma paisagem campestre) é muito semelhante aos locais onde o nosso Presidente gosta de fazer declarações (feiras agrícolas). A grande diferença entre os dois é que Nossa Senhora conseguiu que os segredos de Fátima estivessem anos sem ser revelados. É a vantagem de não ter Marques Mendes no grupo de videntes.»

João Quadros
 
(Os links podem só funcionar mais tarde.)

Só faltam três dias


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16.5.13

Humberto Delgado, ainda – há 55 anos



No regresso do Porto de comboio, Humberto Delgado foi alvo de uma grande manifestação de apoio em Santa Apolónia, violentamente reprimida pela polícia. O governo de Salazar proibiu a divulgação de notícias que referissem o número de feridos, mas as mesmas apareceram na imprensa estrangeira que começou a dedicar mais atenção a Portugal.



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Elogio da loucura



Ricardo Araújo Pereira, sem faltar à chamada, hoje na Visão.

«O Governo tenta legislar, violando a lei. Um comentador convoca o Conselho de Estado e o Presidente confirma. Parte do Governo propõe uma coisa à Sexta-feira e outra parte propõe o contrário ao Domingo. Um ministro aceita uma medida que tinha considerado absolutamente inaceitável. O Governo apresenta a medida mas, em princípio, não quer aplicá-la.

Tendo em conta que, por defeito profissional, prefiro o caos à ordem, a loucura à sensatez e o absurdo à lógica, vejo-me obrigado a apoiar o Governo – muito contra a minha vontade.» 

 Na íntegra AQUI.
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Fátima, altar da pátria?


@Gui Castro Felga

Longe, muito longe de ser fã do novo cronista do Público - João Miguel Tavares – mas considero que acerta hoje em alvos ainda não mencionados quanto ao comportamento do inefável e devoto mariano que exerce as funções de presidente desta República. Alguns excertos do seu texto (sem link):

«Utilizar a intercessão de Nossa Senhora para justificar uma determinada linha de actuação política e económica só pode significar uma de duas coisas: ou uma manifestação de inadmissível ignorância por parte de um chefe de Estado português; ou uma vergonhosa afronta a todos os que lutaram para que 2013 não fosse igual a 1963 e que, ao contrário de Cavaco, nunca escreveram pelo seu próprio punho numa ficha da PIDE “integrado no actual regime político”. (...)

Factos são factos, e o certo é que a visão sacrificial dos três pastorinhos, toda ela muita penitência, arrependimento e oração, mais a sua explícita mensagem anticomunista, assentou como uma luva no discurso do regime, que com a cumplicidade da Igreja aproveitou, de caminho, para erguer Fátima a “altar do mundo”, reciclando a velha e mitológica ambição de grandiosidade nacional, agora através da via transcendente – já que para a via imanente não havia nem gente, nem dinheiro. (...)

Cavaco Silva não pode desconhecer as tentativas de invocar a mão de Deus, via Fátima, na instauração do regime do Estado Novo. E sabendo isso, vir agora invocar a mão de Nossa Senhora no escrupuloso cumprimento das directivas da troika e da sétima avaliação é de um mau gosto a toda a prova. Seguindo a sua fina linha de raciocínio, e em última análise, meter Deus nos assuntos de César significa neste caso o quê? Significa que é Deus que deseja a austeridade. Como era Deus que desejava o salazarismo. (...)

Não sei se Cavaco está como a irmã Lúcia, e fala com a Virgem à noite nos seus aposentos. Mas se assim for, faça como ela: entre para um convento de clausura, escreva vários volumes de memórias, e deixe a política para quem tem os olhos mais postos na terra do que no céu.» 
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Mais dissenso, sff



«Fala-se muito da necessidade de consenso, mas o que verdadeiramente faz falta é mais dissenso. Ou melhor, o que o alimenta: um efectivo pluralismo de perspectivas sobre a sociedade e uma autêntica diversidade na análise dos seus problemas. E onde hoje essa falta mais se sente é no domínio que, nas última décadas, absorveu quase integralmente a política: na economia.

Existe uma cartilha de onde tudo brota e tudo delimita, que se arroga um estatuto de ciência exata sem, contudo, satisfazer nenhum dos seus quesitos. Quer ela se designe como abordagem neoclássica ou como financismo, o seu estatuto mais parece divino, dado o modo como escapa aos próprios factos que sistematicamente a desmentem, tanto nos seus dogmas centrais como nas suas previsões mais banais.(...)

O mundo de hoje exige outras visões da economia, onde o pluralismo tem de ser a regra: um pluralismo crítico que ofereça aos estudantes (e aos cidadãos em geral) uma perspetiva global sobre a história e os procedimentos nucleares da disciplina. Um pluralismo doutrinário que apresente as várias linhas de pensamento económico existentes, promova a competição explicativa entre as suas argumentações e ofereça uma diversidade de pontos de vista. Um pluralismo interdisciplinar, que valorize os contributos de outras disciplinas e saberes na compreensão e tratamento dos problemas do mundo de hoje, que são cada vez mais polifacetados, interdependentes e complexos.

Tudo isto exige (...) mais dissenso do que consenso. Exige sobretudo que se compreenda que o consenso de que falam os zelotas do financismo divino é um mero garrote para, justamente, impedir que surjam e se trabalhem ideias e propostas alternativas àquelas que, apesar de falharem os seus proclamados objectivos, continuam, todavia, a dominar impunemente o mundo.»  (Os realces são meus.)

15.5.13

E porque vem bem a propósito


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Fugas de informação



... do exame de 4º ano. Fica a dúvida: apesar dos pontos de interrogação, a resposta terá sido marcada como certa ou como errada?
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Cavaco: qual senilidade, qual carapuça!



Foram às dezenas aqueles que, na blogosfera e sobretudo no Facebook, falaram de senilidade a propósito das declarações que Cavaco fez ontem sobre uma eventual intervenção de Nossa Senhora de Fátima na aprovação da troika.

Puro erro: já lá vão 24 anos, era então o actual presidente da República um garboso primeiro ministro à beira de chegar aos 50 e já não escondia a sua devoção político-religiosa pela Cova da Iria. Ou não se teria deslocado às cerimónias do 13 de Maio de 1989, «a título pessoal» mas devidamente acompanhado por três dos seus dilectos ministros: Leonor Beleza, Silva Peneda e Silveira Godinho.

Mas não é o único responsável desta República laica a nos declarar publicamente sob a asa protectora da Virgem. Um outro, que também ainda anda por aí, disse, já lá vão os nove anitos: «Eu acho que Portugal, na crise do 'Prestige', (...) foi muito ajudado por aquilo que eu, que sou crente, acho que foi uma intervenção de Nossa Senhora». Quem foi, quem foi?

Bem podiam ir agora ambos de rojo à Cova da Iria, para ver se a dita Virgem os mandava dar uma enorme volta ao bilhar grande... 
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Venha Dali e escolha



«Num dos seus mais fabulosos quadros, "A Persistência da Memória", o explosivo Salvador Dalí coloca-nos perante três relógios de queijo derretidos. São o símbolo na inutilidade funcional porque marcam horas que ninguém consegue ler. O tempo derreteu-se.

Menos surrealista, este Governo é queijo derretido. Como se fosse queijo de barra, margarina sem gosto, gelado só de água. O último episódio sobre a "TSU dos reformados" foi eloquente: para lá de ser um fiel papagaio da troika, o Governo é também uma espécie de Chapitô. O CDS ocupa hoje a tempo inteiro o divã de Freud e este já não tem solução para a sua bipolaridade. (...)

Acredita-se que como o tempo está instável (nuns dias faz sol e noutros chove), os partidos do governo estejam a sofrer tonturas. Sabe-se que o Governo não pode cair. E que não devem existir eleições por causa da crise. Ou seja, este executivo deve durar pelo menos até meio do ano que vem. A culpa dos dislates não é só dele: entre o legado de Sócrates, a obtusidade do FMI, a insalubridade da UE e a demência de Berlim, venha Dalí e escolha.»

Fernando Sobral

(O link pode só funcionar mais tarde.)
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14.5.13

Cavaco Iria da Silva



@Pedro Vieira

«Foi tomada uma decisão muito importante para o nosso futuro, que foi colocar atrás das costas, finalmente, a sétima avaliação. (...) E eu penso que foi uma inspiração – como já a minha mulher disse várias vezes – da nossa Senhora de Fátima, do 13 de Maio».
Não é imprensa falsa. Ouvir para crer. 

A falta de senso deste senhor parece em crescimento acelerado. Que a sua amantíssima esposa reze o terço dia e noite, consagre a troika a Santo Expedito ou tome duche com água benta é lá com ela. Nós é que não temos nada a ver com isso.

Mas os conselheiros de Estado que se cuidem: a reunião do próximo dia 20 pode começar com uma Ave Maria. 
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Era óbvio mas não conseguiu demiti-lo



«Povo do Porto, a resposta está dada com esta manifestação. Façam eleições livres e venceremos!» Foi com estas palavras que Humberto Delgado se dirigiu à multidão que o aclamou em frente à sede da sua candidatura, na Praça Carlos Alberto, no Porto, em 14 de Maio de 1958. A fotografia passou a funcionar quase como uma espécie de ícone de uma campanha extraordinária, que abalou fortemente a ditadura de Salazar – mas sem conseguir derrubá-la.

Cinco dias antes, em 10 de Maio, no Café Chave de Ouro em Lisboa, no primeiro acto público de apresentação da sua campanha, Delgado disse a frase lapidar que viria a ficar célebre. Em resposta a uma pergunta do correspondente da France Press – «Qual a sua atitude para com o Sr. Presidente do Conselho, se for eleito?» – respondeu, sem hesitar: «Obviamente, demito-o!»




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Governo em tenda de circo



«O Governo vê-se de fora como uma tenda de circo. Adivinhamos o que lá se vai passando pelos gritos, pelas sombras de uma batalha, pelos artistas e pelos animais que entram, ursos em cima de bolas, focas que aplaudem, serpentes que engolem elefantes, cães atrás da cauda, atiradores de facas, homens-bala, contorcionistas. Portas nunca se engana. Ou enganou ou foi enganado. Mas mantém-se o prognóstico: ou cai a taxa sobre as pensões ou cai o Governo. Portas não aguenta este desaire, nem dentro do seu partido. Precisa de alternativas. E talvez queira vingar o sangue que derramou com o sangue de outros. Veremos. O Governo é outro desde domingo. (...)

O Governo brinda bebendo ácido até se extinguir. Corrompeu a sua relação e corroeu a coligação. Mas enquanto olham para as costas com medo das facas não vêem quem lhes está à frente. O pior não é deixar de acreditar num Governo, é deixar de acreditar no Estado. Descrer no sistema de pensões também é isso. Quem, hoje, crê?»


(O link pode só funcionar mais tarde.)
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Sem ofensa para a Blimunda



O terramoto tinha acontecido pouco antes, as réplicas não paravam, as águas do tsunami já chegavam a Campo de Ourique e ardiam muitos prédios.

Foi então que Blimunda chamou dezanove pessoas, ordenou que se sentassem e disse muito calmamente: «Vamos pensar naquilo que há a fazer em 1787».

(Imagem daqui)

E por falar em Conselho de estado



Concentração em Belém, dia 20, às 17:00.

«Vamos todos a Belém mostrar aos senhores conselheiros e ao Presidente que o tempo deste governo chegou ao fim. Obviamente, estão demitidos!»

(Daqui, no Facebook.)
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13.5.13

Para já, vamos bem



Assim sendo, a reunião do Conselho de Estado, que o presidente da República convocou para o próximo dia 20, tem como agenda:

Sitiado num outros planeta do Sol, que não a Terra, Cavaco Silva nada sabe sobre os dias que correm e está apenas preocupado com os que um dia hão-de vir, sabe-se lá quando e como? Faz de nós parvos, é o que é. 
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Os cogumelos andam adulterados, acreditem...




Marques Guedes dixit: Paulo Portas, «líder do principal partido da oposição»
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No dia em que estive a um metro de Salazar e da irmã Lúcia



Foi há 46 anos, em Fátima, por ocasião da primeira visita de um papa a Portugal. Eu pertencia então à Junta Central da Acção Católica, uma poderosíssima organização que contava com mais de 100.000 membros e que, pela primeira vez na sua história, não era presidida por um bispo ou por um padre, mas sim por Sidónio Paes (pai de Bernardo Sassetti). Dela faziam parte, não só mas também, alguns dos chamados «católicos progressistas» que por lá andaram dois anos até entrarem em rota de colisão irreversível com o cardeal Cerejeira.

Quando se confirmou que Paulo VI viria a Fátima por ocasião do cinquentenário das aparições, em Maio de 1967, instalou-se uma grande consternação nos meios da oposição, sobretudo católica, pelo que seria visto, no mínimo, como uma quebra do isolamento em que Portugal se encontrava na cena internacional por causa da guerra em África – isolamento que aprovávamos e no qual depositávamos grandes esperanças, não só para a resolução do problema da guerra em si, mas para a própria queda do fascismo.

Todas as pressões para que a visita não acontecesse falharam, mas porque contra factos poucos argumentos nos restavam, passámos ao ataque, já que se havia algo que então nos caracterizava era a tentativa de «irmos a todas». Entre várias iniciativas, foi preparada uma a que se deu grande importância: a elaboração de um documento altamente sigiloso, a fazer chegar directamente ao Papa (e nunca através da Nunciatura...), no qual um numeroso grupo de antigos e então actuais dirigentes da Acção Católica e de outras organizações informava detalhadamente o Papa sobre a situação política e social existente em Portugal, por eles considerada inaceitável e mesmo contrária aos ensinamentos da própria Igreja – texto forte quanto a termos e quanto a conteúdo. Havia que garantir que o documento fosse entregue em boas mãos e alguém nos indicou a pessoa certa: um antigo secretário particular do papa João XXIII, que integraria a comitiva de Paulo VI. 

Como membros da Junta Central da Acção Católica fomos convidados privilegiados, juntamente com as autoridades civis e eclesiásticas, e estivemos por isso presentes, como tínhamos aliás exigido (em parte para que esta acção planeada pudesse ser levada a bom termo), na tribuna de honra, em Fátima, muito perto de Salazar e da irmã Lúcia (e do Papa e de Américo Tomás, claro...). Com o nosso livre- trânsito, circulámos por toda a parte e encontrámos facilmente o tal mensageiro seguro, a quem um outro membro da Junta e eu própria entregámos a preciosa missiva (sem que, por razões óbvias, os outros membros da Junta, que de nada sabiam, se tivessem apercebido de qualquer manobra). De Roma, viria mais tarde um cartão com a indicação de «missão cumprida».

Tudo isto parecerá hoje inócuo, mas não o era então. E saímos de Fátima com a consolação de termos feito uma finta durante um desafio em terreno mais ou menos adverso, num tipo de jogada em que as circunstâncias nos tinham tornado quase especialistas. E que nos divertiam bastante, devo confessá-lo.

Esta vinda de Paulo VI a Fátima, pela desilusão que constituiu, com tudo o que a precedeu e que a rodeou (e que seria longo contar aqui), foi decisiva para o lento abandono da Igreja por muitos católicos. João Bénard da Costa veio a escrever mais tarde: «Se me perguntarem de quando eu dato a minha saída da Igreja, respondo que do dia 13 de Maio de 1967, o dia da visita de Paulo VI a Portugal.» Quanto a mim, também nunca mais regressei às redondezas da Cova da Iria. A não ser para almoçar no Tia Alice
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Fronteira a salto



«Portas ganha nova base social de apoio, além dos feirantes e agricultores. Depois do que aconteceu ao "esta é a fronteira que eu não posso deixar passar", ele tornou-se campeão dos contrabandistas: "Portas como guarda fronteiriço é que nos dava um jeitaço." E o melhor é que ele teve esta vitória sem fazer nenhuma cedência. Na reunião do Governo e com os seus olhos coruscantes, queixo levantado e dedo em riste , Portas conseguiu que a tal taxa só possa ser usada "como solução de último recurso." Ora, ninguém está a ver este Governo a deitar mão a soluções de último recurso, pois não?

Ferreira Fernandes

12.5.13

Mas que saudades



... do ajuizadíssimo governo deste senhor! 
Ou: «atrás de mim virá quem....».
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Não há crise para quem a comenta



«O império dos comentadores onde quem manda são os políticos» é o título de artigo de hoje no Público, que contém alguns números estonteantes.

Para começar este: «Se aos quatro canais generalistas se juntarem os canais de informação portugueses no cabo (RTP Informação, SIC Notícias e TVI24), é possível assistir a 69 horas de comentário político por semana. O equivalente a quase três dias completos em frente à televisão.» Que ninguém se queixe de falta de interesse das televisões pela política: mais do que isto só futebol!

Dos 97 comentadores com presença semanal na televisão, 60 são actuais ou ex-políticos. Sem espanto, em termos de número de comentadores, o primeiro lugar do pódio é ocupado pelo PSD, seguido pelo PS e pelo CDS. E embora o PCP tenha mais deputados na Assembleia da República do que o Bloco, este está quantitativamente melhor representado.

Mas os números de facto impressionantes, se verdadeiros, são alguns (poucos) que são divulgados quanto à maquia que estes senhores levam para casa. E se não me suscita qualquer aplauso o facto de José Sócrates ter querido falar pro bono na RTP (a que título?), considero um verdadeiro escândalo que Marcelo Rebelo de Sousa ganhe 10.000 euros / mês (mais do que 20 salários mínimos por pouco mais de meia hora por semana a dizer umas lérias), Manuela Ferreira Leite metade disso e que Marques Mendes tenha preferido passar para a SIC por esta estação ter subido a parada da TVI que só lhe propunha 7.000. Claro que estamos a falar de estações privadas, em guerras de concorrência. Mas algo de muito estranho e esquizofrénico se passa num país quando o valor de mercado destes senhores é deste calibre. Estaremos em crise, mas comentá-la compensa e recompensa – e de que maneira! 
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Título para quê...


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Pensões mínimas para todos


@Eduardo Gageiro

Em entrevista hoje publicada no Diário de Notícias, Jorge Moreira da Silva, vice-presidente do PSD, nega que o governo esteja a atacar os pensionistas, mas vale a pena ouvir o que diz no vídeo (sobretudo um minuto, a partir de 1:38). A justificação que dá para os cortes no valor das reformas assenta no seguinte princípio: eles são necessários para proteger os pensionistas mais pobres, para pagar subsídios de desemprego e para ajudar os mais carenciados. Ou seja: de todas as verbas existentes no OE, é ao dinheiro que é devido àqueles que trabalharam e descontaram uma vida inteira que se deve ir buscar o que for preciso para a protecção de outros. Seria bom que se soubesse em nome de que princípio, mas talvez fosse pedir demasiado...

Caricaturando um pouco, ou talvez não: como as pensões muito baixas são cada em vez em maior número, como o desemprego não cessa de aumentar e o batalhão de carenciados aumenta todos os dias, e será em breve invadido por milhares de ex-funcionários públicos, os cortes nas pensões só pararão quando todas baixarem até ao mínimo. Este governo, se durasse o suficiente, esfregaria as mãos de contente quando conseguisse esse maravilhoso equilíbrio de ter todos os velhos do país a receberem mais ou menos 400 euros por mês ou algo assim. Isso é que era!


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