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1.6.13

Próxima paragem



O próximo post será escrito a 1 000 quilómetros daqui, mais coisa, menos coisa: desta vez não irei para muito longe, será apenas uma curta semanita numa esquina perto de nós.


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Para memória futura e sobre ilusões do momento que passa


António José Seguro, interrogado sobre a reunião promovida há dois dias por Mário Soares, em que não compareceu (Expresso de hoje, 1º caderno, p.8): 

«Sobre a possibilidade de uma futura "convergência de esquerda", subliminar à iniciativa, Seguro lembrou o seu discurso de encerramento do último congresso socialista: "O PS tem um rumo. Quer maioria absoluta nas próximas eleições, mas defende um diálogo político com todos, sem tabus, sem nenhum complexo, com todos partidos.» 

Há quem diga que é para se demarcar das histórica alianças do PS com a direita. Boa vontade, muito boa vontade! 

 (Regressa Zorrinho, estás perdoado!) 
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Linhas vermelhas



«O insulto ao Presidente da República tornou-se banal. Nas ruas, nos cafés, na Internet, nos jornais, nas televisões. Dos membros do governo é o que se sabe, vozearia e Zeca Afonso. O desrespeito pelo poder político há muito que ultrapassou a linha vermelha. Não estamos já no pântano. Estamos num processo acelerado de podridão coletiva. (...)

O recurso à mentira e às promessas vãs feitas na última campanha eleitoral também não ajudaram à credibilidade dos políticos. Portugal sofreu um golpe. Hoje reconhecido mesmo por algumas vozes de direita. Os portugueses foram deliberadamente enganados. Daí a convicção, generalizada e perversa, de que os políticos são todos aldrabões. (...)

Como se isto não bastasse, outras linhas vermelhas têm sido largamente ultrapassadas. A da miséria acima de tudo. Cada vez mais crianças vão para a escola com fome. Há quem vasculhe, de novo, os caixotes de lixo. Nos supermercados roubam-se latas de atum. Os sem-abrigo aumentam. (...)

É por isso que a atual situação exige coragem, mais do que calculismo. Diz-se que isso não é possível. A Troika não deixa. Mas será que um país pode sobreviver à dupla catástrofe de ver liquidada a sua economia e ao mesmo tempo assistir à degradação da sua vida cívica? Será que vermos, como ato banal do quotidiano, um Presidente ser chamado de palhaço e outros nomes ainda piores, pode ajudar a educar cidadãos responsáveis, tolerantes e participativos?

Em suma, o ambiente está podre. A grande linha vermelha está definitivamente ultrapassada. Aquela que se desenha entre a população e o poder político. Já não se trata de diferentes opções políticas, de opinião ou de jogo partidário. A situação é insustentável. Precisamos de uma regeneração. Não há outra maneira de a conseguir que não passe por derrubar este governo e partir para outra. Qualquer que ela seja. Não há nada mais importante para fazer neste momento da história deste pobre país. Tudo o resto é uma pura perda de tempo.»  

Leonel Moura

(O link pode não funcionar e o realce é meu.)
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Inevitavelmente



1 de Junho
Lisboa, 17:00

Entrecampos | FMI | Alameda D. Afonso Henriques

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31.5.13

Amanhã



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As fotos que esperávamos nunca ver



As desta galeria, sobre Portugal, publicada no New York Times.

Ou, como me disse João Sedas Nunes no Facebook: «Pelo contrário. As fotos que há muito esperava ver. São um instrumento particularmente eficaz de luta contra a ideia de que "eles não querem abdicar dos privilégios e da boa vida". Dito isto, a exibição instrumental (é disso que se tratará) da miséria e da aflição não deixa de ser monstruosa». 
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Lapsos que gritam



Passos Coelho, hoje, a propósito do desemprego: «Esperamos que ele ainda possa aumentar ao longo do ano»
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Assunção Esteves: bons presságios?




Mas houve mais pérolas, como esta de J. Manuel Canavarro, deputado do PSD: «As nossas mães não são para aqui chamadas»
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Como um drone



«Os drones liquidam em silêncio, sem que quem os comanda veja quem vá perder a vida. Os drones não têm emoções: cumprem ordens. Ninguém sabe quem as dá, ou porque dá.

O Governo português rege-se pela estratégia dos drones. Actua sem emoções, como se os portugueses fossem alvos de plástico e não com corpo e alma. Acredita que tem uma missão purificadora. Mas, pelo contrário, as suas acções só provocam dor. Para o Governo os portugueses não têm cara, nem olhos, nem sentimentos, nem vida. Não precisam de saber o que pode mudar, porque o Governo encarrega-se de lhes trocar todas as voltas.

O Governo actua, mas não explica. Golpeia, mas nunca pede desculpa. O Governo não vê os portugueses. Tal como fazem os drones. (...)

O Executivo fecha os lábios. O Governo só cria insegurança e desconfiança. E depois pede investimento. Das empresas e dos portugueses. Como se alguém investisse num clima de incerteza. Aquela que o Governo promove como táctica para transformar Portugal num hospício. (...)

Este Governo fulmina como um drone.»

Fernando Sobral

(O link pode só funcionar mais tarde)
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30.5.13

Importa-se de repetir, dr. Zorrinho



Eu não sei se Carlos Zorrinho, líder parlamentar do PS, está neste momento na Reitoria de Lisboa, na reunião das esquerdas convocada por Mário Soares. Pena que não seja um dos oradores previstos para sabermos se repetiria o que disse hoje na Assembleia da República: «Temos uma alternativa e ambicionamos a maioria absoluta, uma alternativa que inclua todos os partidos da esquerda e da direita».

Nem mais: todos ao molho e fé em Deus. Vamos longe. 
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Ainda a palhaçada



O humor fininho de Ricardo Araújo Pereira

«Um homem vai ao médico e diz: "Doutor, estou deprimido. Preciso de ajuda." O médico concorda: "O seu caso é muito grave. Só há uma solução para si: tem de ir ver o palhaço Grimaldi." "Mas, doutor, eu sou o palhaço Grimaldi."» (...)

"Doutor, estou a promover um livro numa época em que as pessoas compram muito menos livros. Preciso de ajuda." O director da agência concorda: "O seu caso é muito grave. Só há uma solução para si: tem de criticar o Miguel Sousa Tavares." "Mas, doutor, eu sou o Miguel Sousa Tavares."»

Na íntegra AQUI.
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Disse e insistiu




Um lapso é um lapso, dois lapsos são outra coisa.
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Carta aberta ao Dr. Silva Lopes



Por Maria do Rosário Gama, Presidente da APRe!, Público, 29/5/2013 (sem link). Alguns excertos e o texto na íntegra.

«Ex.mo Sr. Dr. Silva Lopes

Foi com perplexidade que li no jornal PÚBLICO as declarações que o senhor prestou à Rádio Renascença, pois sempre me mereceu respeito por muitas das posições que já assumiu ao longo da sua vida, mas, desta vez, na minha opinião, ultrapassou o limite do razoável ao afirmar perentoriamente que “não há outro remédio” senão o corte das pensões.

O cidadão comum, ao ler a notícia do PÚBLICO, questiona-se sobre qual será o valor da(s) sua(s) pensão(ões), uma vez que está tão à vontade para sofrer os cortes que o Governo está disposto a implementar. Devia, antes de prestar essas declarações, fazer uma declaração de interesses e dizer a todos quanto recebe mensalmente.

Ao senhor, não fará diferença sofrer cortes de 10% ou de 20%, mas a maioria dos aposentados e pensionistas não aguenta mais cortes. (...)

Diz o senhor que a “a geração grisalha não pode asfixiar a geração nova da maneira como tem feito até aqui”, mas esquece-se de dizer que a geração mais nova é a geração dos nossos filhos e netos e esquece-se de dizer, ou não sabe, que a geração grisalha constitui, neste momento, o subsídio de desemprego daqueles que o senhor diz serem asfixiados. Gostaria de tê-lo ouvido dizer que o Governo e a troika não podem asfixiar os portugueses reformados ou no activo, que têm que adoptar uma política que leve ao crescimento económico e que combata o desemprego. Só assim a geração mais nova pode não viver asfixiada e não com os cortes nas pensões dos seus pais e avós. (...)

Finalmente, acrescenta, nas suas declarações: “Se nós temos a Constituição e a interpretação do Tribunal Constitucional a impedir estas coisas, isto rebenta tudo”.

Ai rebenta, rebenta, mas não do modo como o senhor pensa… Rebenta pelo lado do mais fraco… O desânimo já é muito e as pessoas não são estúpidas. Sabem que há outras opções que permitem ao Governo ir buscar o dinheiro, em vez “roubar” aos aposentados, pensionistas e reformados e também aos funcionários públicos, que, tal como nós, são vítimas de um Governo vampiresco que sugará até à última gota de sangue se o deixarmos.» 


29.5.13

Petição dirigida à Assembleia da República

A IAC acaba de lançar a seguinte Petição: 

A austeridade não resolve, antes agrava o problema do endividamento. Depois de sucessivos cortes e confiscos, retrocessos sociais, alienação de recursos, o que temos é uma dívida em permanente crescimento com juros sempre a somar. É urgente renegociar a dívida pública.

O presente e o futuro do nosso país estão a ser postos em causa em nome de uma dívida, cujo pagamento envolve custos ética e socialmente inaceitáveis.

É responsabilidade do Estado e dos cidadãos tomar todas as medidas necessárias para libertar o país e a sociedade desta grave situação de espiral recessiva em que Portugal mergulhou, provocada pela austeridade e o sufocante serviço da dívida.

A renegociação da dívida pública, se necessário acompanhada de uma moratória ao seu serviço, é hoje reconhecida por diversos quadrantes na sociedade portuguesa como uma necessidade inadiável. O Estado Português tem de assumir as suas responsabilidades e abrir um processo de renegociação com todos os credores, incluindo a União Europeia, o Fundo Monetário Internacional e o Banco Central Europeu.

A renegociação, a ser desencadeada pelo Estado Português, deve ser entendida como uma afirmação de vontade e de soberania democráticas e ditada pela defesa do interesse nacional. A sociedade portuguesa deve mobilizar-se para este processo.

Nesse sentido, os cidadãos abaixo assinados instam a Assembleia da República a:

  • pronunciar-se a favor da abertura urgente de um processo de renegociação da dívida pública que envolva todos os credores privados e oficiais; 
  • promover, no âmbito das suas competências próprias, a criação de uma entidade para auditar a dívida pública e preparar e acompanhar o seu processo de renegociação; 
  • garantir que essa entidade, quer pela sua composição, quer pelo seu funcionamento, assegura isenção de procedimentos, rigor e competência técnicas, participação cidadã qualificada e condições de exercício do direito à informação de todos os cidadãos e cidadãs. 
A Petição pode ser assinada aqui:
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Escolha sábia



Pergunta:
«Com a sua idade respeitável, se pudesse optar entre Parkinson e Alzheimer, o que escolheria?»

«Parkinson, obviamente. Prefiro entornar metade do vinho do que não me lembrar onde pus a garrafa.»

(Via João Soares no Facebook)
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Mentiras perigosas



«Antes das eleições alemãs de Setembro conviria que falsidades sobre a crise financeira da Europa, tomadas por verdades pelos alemães, fossem desmentidas. Com votos à porta, não é de esperar que tal desmentido venha dos políticos que as espalharam (a começar por Angela Merkel e incluindo alguns dos seus opositores sociais-democratas). Mas é preciso que os eleitores sejam esclarecidos, sob pena do fosso entre o Norte e o Sul da Europa (e o fosso entre os alemães e quase todos os outros) se cavar ainda mais, do projecto político chamado União Europeia ser abandonado e, mais tarde ou mais cedo, da guerra tornar a ser um dos métodos usados pelos países europeus para resolverem problemas entre si.

A maioria dos alemães está convencida de que os países do Sul vão mal porque foram imprevidentes (como a cigarra da fábula de La Fontaine) e que eles, contribuintes alemães (a formiga da fábula) não estão mais dispostos a continuarem a sustentar vícios alheios. Acredita-se que há na Europa países permanentemente devedores (ao Sul) e países permanentemente credores (ao Norte). Por tudo isto, quer-se que a correcção técnica das falhas de governação financeira que contribuíram para a crise actual, sirva de castigo à alegada imoralidade da gente do Sul. (...)

E o carácter punitivo da correcção é cegueira política. Causa muito sofrimento desnecessário e enraivece europeus uns contra os outros numa altura em que ou nos aguentamos todos juntos ou vamos pró maneta cada um para seu lado. Em Bona percebiam estas coisas. Em Berlim não sei. Era preciso que alguém ajudasse os alemães a aprenderem a lidar com o seu destino.» 

 José Cutileiro

 (O link pode só funcionar mais tarde e os realces são meus.)
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Sorria, está a ser roubado

28.5.13

Carambolar



«No bilhar, um jogador consegue uma carambola quando a sua bola consegue acertar nas duas outras existentes na mesa.

Quando a Europa avançou com a moeda única, esta acertou de raspão nas duas outras que equilibravam os países. Toneladas de dinheiro fácil destruíram as economias reais das nações periféricas. Maastricht anunciava o paraíso. O resultado da carambola é o inferno actual. Nada muda por Vítor Gaspar ter ido, mais uma vez, prestar vassalagem a Wolfgang Schauble em troca de um afago caloroso. E por, depois, ter decretado que o objectivo é agora o crescimento económico, num flic-flac à retaguarda que envergonharia qualquer ginasta olímpico.

Cometeu-se um erro colossal. E agora ninguém o quer admitir. O resultado é esta desagregação da credibilidade do poder político. A frase de Miguel Sousa Tavares sobre Cavaco apenas abriu o dique. Mais um. E é assim que se vai submergindo o pântano deste regime sem respostas. Os portugueses precisam de novas opções para este jogo de bilhar onde se joga o seu presente e futuro. Mas sobre isso o mutismo do regime é ensurdecedor.»  

Fernando Sobral
(O link pode só funcionar mais tarde.) 
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Uma campanha, uma petição



A IAC (Iniciativa por uma Auditoria Cidadã à Dívida), com o apoio de outras organizações da sociedade civil, lança amanhã, 29 de Maio, pelas 18:00 no Bar/Foyer do Cinema São Jorge em Lisboa, uma campanha que tem como objectivo incentivar o debate sobre a questão da dívida e mobilizar a cidadania em torno da exigência da sua renegociação com todos os credores.

A campanha envolve uma Petição a favor da renegociação, dirigida à Assembleia da República. A subscrição poderá ser feita a partir de amanhã, em site próprio que será oportunamente divulgado e também em papel. Depois de recolhidas as assinaturas, a Petição será entregue ao destinatário no final do verão. 

A entrada na sessão de amanhã é livre.
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Na Itália, é assim



Ontem, em Bolonha, a polícia acabou por se retirar.
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Um pouco de masoquismo por dia nem sabe o bem que lhe fazia



28 de Maio de 1926. Dia sinistro da nossa História, que pôs termos à 1ª República, daria mais tarde origem ao Estado Novo, e que foi devidamente assinalada todos os anos até 1973.

Foi num 28 de Maio, mais concretamente em 1936, no 10º aniversário da «Revolução Nacional», que Salazar proferiu um discurso que ficou tristemente célebre pela frase que se ouve no vídeo:

«Não discutimos Deus e a virtude; não discutimos a Pátria e a sua História; não discutimos a autoridade e o seu prestígio; não discutimos a família e a sua moral; não discutimos a glória do trabalho e o seu dever.»



Mas ninguém refere o resto do discurso que foi longo e que termina deste modo lapidar: «Nada valem filosofias e filósofos ou sonhos de sonhadores contra estas realidades.»

Não estamos em ditadura, mas sim numa democracia embora débil, e ouvimos todos os dias frases equivalentes a esta. Mas os «sonhadores» um dia vencerão – contra estas e contra muitas outras tristes realidades. 
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27.5.13

Uma prenda para Mia Couto



Venceu o Prémio Camões. É uma excelente notícia para quem, como eu, desde há muito que lê tudo o que ele vai publicando. Não só mas também por me trazer ventos da terra em que nasci.

Um pequeno poema seu em jeito de homenagem:

Horário do Fim

morre-se nada
quando chega a vez

é só um solavanco
na estrada por onde já não vamos

morre-se tudo
quando não é o justo momento

e não é nunca
esse momento. 

In Raiz de Orvalho e Outros Poemas

E uma frase que li já nem sei onde e que nunca mais esqueci: «Não é o tabaco que a gente consome. A gente fuma é a tristeza.» 
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Desmentido de Nossa Senhora de Fátima



De uma carta do Comendador Marques de Correia a Cavaco Silva, onde o primeiro resume ao segundo um diálogo com a dita Nossa Senhora. (Enquanto formos rindo, menos mal vão as coisas.)

«Eu — Nossa Senhora, o Presidente Cavaco disse que foi devido a um milagre seu o fecho da sétima avaliação da troika em Portugal...
N.S. — Ó valha-me Deus! Não foi nada disso. Eu, em matéria política, só tive intervenção uma vez sem exemplo, que foi naquele segundo segredo da conversão da Rússia. A partir daí, intervim várias vezes, mas sempre em assuntos diferentes, tipo reumático, paralisias e doenças várias. Em política, Deus me livre! Nunca mais me meti!

Eu — Mas o Presidente até citou a mulher dele, para dar mais credibilidade à coisa...
N.S. — Sim, eu sei. Mas a Dona Maria é verdade que pediu pelo fecho da avaliação da troika e pelo fim de umas dores que tinha nas cruzes, derivado à idade. Do que eu lhe cuidei foi das cruzes, mas a natureza humana é mesmo assim: mal lhes passam as dores, enchem a cabeça de outras coisas.

Eu — Mas a Nossa Senhora de Fátima não é a favor da troika?
N.S. — Essas coisas de política é mais, no geral, com o Santo Agostinho e o São Tomás de Aquino, e em Portugal com o D. Januário Torgal Ferreira e o senhor bispo de Bragança-Miranda. Eu não tenho opinião sobre a troika, salvo que não gosto do Gaspar!

Eu — Do ministro?
N.S. — Sim! Não gosto. Ninguém gosta. Tem olhar de velhaco e fala à velhaco. Claro que se ele tiver uma espondilose e disser 'Valha-me Nossa Senhora de Fátima!' eu valho-lhe porque nunca confundi o meu dever com a política. A minha política é o milagre e acabou, mas também tenho as minhas preferências!»

Revista do Expresso, 25/5/2013
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Estará a Grécia a tornar-se num «imenso Portugal»?



Esta manhã, em Creta, uma mulher de 58 anos entrou numa repartição de finanças com um cutelo na mão e reclamou aos gritos: «Devolvam-me o meu dinheiro!» Com dívidas ao fisco, tinha acabado de constatar que lhe tinham ido buscar a quantia respectiva à sua conta bancária.

Comentário do site que publica a notícia: 
«Trata-se de um caso isolado na Grécia mergulhada em dura austeridade, recessão e sobrecarga de impostos. Confrontados com a mão do Estado, normalmente os contribuintes médios sofrem um avc ou um ataque cardíaco. Alguns suicidam-se.»
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Optimismos...


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República, democracia e política não são sinónimos



O texto de Pedro Santos Guerreiro no Negócios de hoje é excelente. Se algumas comparações e imagens mais coloridas mais não fazem do que juntar-se a tantas outras dos últimos dias, vai bem mais longe quanto ao essencial. Chamo especialmente a atenção para o primeiro parágrafo.

«País, Estado e Nação não são sinónimos. República, democracia e política não são sinónimos. Habituados à estrutura, julgamo-la eterna. Mas todas as histórias acabam – e a História acaba nunca. Para servir o Estado não basta o melhor possível – em épocas como esta, tem de ser o necessário impossível. Não é fácil nem é leve – é o Estado. Temos instituições fracas por conveniência do sistema que nelas se auto-preserva. Eis o drama. 
A qualidade das instituições é o que determina ou aniquila a prosperidade perene de um país. (...) As nossas instituições vivem num situacionismo de conservação que tem projectado Portugal para o declínio. Económico. E social. (...)

A Presidência da República é o pináculo do sistema. É uma instituição respeitada mas, hoje, o Presidente tem a popularidade mais baixa de sempre. Não foi o insulto que arrasou a reputação de Cavaco, foi a reputação do Presidente que tornou possível o insulto. (...) O insulto não é o debate político aceitável, nem das elites nem contra elas, ele tem de ser civilizado. Ao mesmo tempo, foi vestindo de cores garridas um Presidente que se percebeu que o rei vai nu. (...)

Cavaco é um homem eleito pelo povo, líder de um povo mas súbdito da Nação que esse povo é. Está longe desse povo. Banalizou o Conselho de Estado. Fazer cordão policial ao Governo não é a melhor maneira de defender as instituições, é colocar-se entre o povo e elas. (...)

As instituições estão inutilizadas pela tibieza de uns e capturadas por um sistema que assim se preserva. O sistema de justiça permanece enredado e o sistema político é intocável. O povo descrê. Quem lidera as instituições depressa alinha, desiste ou é mudado. O Estado é o seu estrado. Uma tábua. Um trampolim. Um pódio. Mas às vezes as circunstâncias mudam, fazem da tábua uma prancha num navio em alto mar e é então que os homens se revelam ou não competentes e corajosos. Portugal não é um lugar nem um grupo de pessoas. É uma Nação. Uma República. Uma democracia. Um país. Ainda é um Estado. E merece passar do declínio para a regeneração. Ainda que para isso seja necessário pôr pessoas em causa. É sempre.»  

(Daqui.) 
 Os realces são meus e o link pode só funcionar mais tarde.
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26.5.13

Do Conselho de Estado, ainda



«Já não seria pouco termos percebido que o Presidente da República apenas convocou o Conselho de Estado não para discutir o pós-troika mas para segurar o Governo. Tentar criar a ilusão de que os seus conselheiros estariam também interessados no consenso em redor duma solução em que só Gaspar e Passos Coelho acreditam. (...)

Cavaco Silva convocou um Conselho de Estado para que este apoiasse a sua insustentável posição de não deixar cair o Governo e fragilizou-o ainda mais quando ficou claro que a ruptura entre o Governo e a esmagadora maioria dos sectores sociais é irreversível. (...)

Este Conselho de Estado foi mais um tremendo erro político de Cavaco Silva: mostrou que o consenso em redor das políticas do Governo é impossível e mostrou que o Presidente é incapaz de ser um moderador, um agregador de vontades, um verdadeiro garante do regular funcionamento das instituições, ou seja, é uma inutilidade institucional.»

Pedro Marques Lopes

O paraíso sueco




«La de estos días es una revuelta protagonizada por jóvenes sin escuela ni trabajo y, por tanto, sin esperanza ni futuro, que se consideran atrapados en una tierra de nadie, con unos padres que dejaron atrás sus raíces y unos profesores, policías, médicos, políticos, periodistas y estrellas de la moda o el espectáculo, que les prometen pero no les ponen fácil la entrada a una nueva vida, a un cambio de identidad. Es el grito de unos jóvenes que viven con la desazón de la ingratitud, de la pérdida del sentido de la comunidad que brilla en la imagen internacional del pueblo sueco y late en el retrovisor de su admirado Estado del bienestar.»

O Estado morreu



«Vamos substituindo a degradação das contas públicas de um Estado laxista por um Estado fantasma e impotente. O Estado é a raiz do mal, pois matemos o Estado. E com quê? Com mais Estado cobrador, num totalitarismo atípico deslizante. (...)

Neste cenário, além da dita ida aos mercados, ainda assim financiada a juros predadores, os únicos pilares financiadores do Estado são afinal o habitual grupo de pessoas, cada vez mais afunilado. Efeito de boomerang da austeridade sem metas de reorganização de um Estado, de uma justiça e de uma máquina administrativa que funcionem. Situações desta natureza pulverizam todas as funções de autoridade, equidade, segurança jurídica, proteção da sociedade e respeito pelos valores sociais e económicos. (...)

Sem reformas administrativas efetivas, sem qualificação da função pública, sem respeito pelas funções públicas substantivas, sem estímulos, sem Estado com função resta-nos o medo, a perigosa anemia da autoridade com a paralisia dos serviços administrativos públicos. Um Estado sem função pendurado na guilhotina do défice? (...)

Despojos de um Estado velho e apodrecido incapaz de se proteger da tempestade e de construir um novo com a ajuda dos seus melhores. Um Estado que morreu.» 

Maria José Morgado