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12.10.13

Em busca de Preste João



Nem Pêro de Covilhã o encontrou, mas nunca se deve perder a esperança: pode ser que seja eu a descobrir o rasto do misterioso rei que já Marco Polo citava no seu diário de viagens e que, como reza a lenda, até seria descendente de um dos três reis magos, mais concretamente de Baltasar (e não de Gaspar, nunca de Gaspar...).

Vou daqui a pouco até lá, à Abissínia, hoje Etiópia, em mais uma daquelas digressões que me lavam a alma e me ajudam a conservar alguma saúde mental. Adoro viver em Lisboa, entre outros motivos por saber que estou a 10 minutos do aeroporto, mais coisa, menos coisa.

Quando planeei esta viagem, ainda Abebe Selassie nos «troikava» e vou dedicar-lhe um pensamento (im)piedoso na terra onde os seus antepassados dominaram durante décadas e um seu tio-avô foi deposto em 1974.

Darei as notícias possíveis, mas dizem-me que Pêro de Covilhã não terá deixado como legado estruturas de internet suficientemente sólidas. Logo se verá. Mas tenho muita curiosidade de ver uma parte de África, bem a Nordeste, para mim totalmente desconhecida. E muito prazer em sair deste país e da Europa durante alguns dias. 
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Para ler e reflectir

11.10.13

Piaf, sempre



Uns dizem que morreu em 10 de Outubro de 1963, muitos mais que foi no dia seguinte, poucas horas antes do seu grande amigo Jean Cocteau. Seja como for, aquilo que não parece real é que 50 anos tenham passado entretanto!

Piaf colou-se para sempre à «pele» da minha geração, como tantos outros cantores sobretudo franceses, quando este país era quase tão sombrio como os vestidos pretos que ela nunca largou. Mas acrescento uma nota pessoal: acabada de regressar de Portugal, onde tinha vivido a primeira parte da crise académica de 1962, eu vi-a e ouvi-a, em Lovaina, no mesmo dia (vim a sabê-lo algumas horas mais tarde) em que 1.500 estudantes foram presos na Cantina da Cidade Universitária de Lisboa. «L'hymne à l'amour» ficou para sempre associado, em mim, ao Dia do Estudante.




Mas há tantas, tantas outras recordações que não passam:






A mais terrível, na minha opinião:




P.S. - Site de homenagem a Piaf, criado neste 50º aniversário da sua morte.
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Passos versus Mao



«No Livro Vermelho de Mao Tsé-Tung encontramos as suas máximas. Nos discursos de Pedro Passos Coelho encontramos as suas mínimas. Há uma diferença enorme entre a qualidade de pensamento dos dois políticos. Mas, na essência, Passos é atraído pela unicidade ideológica que Mao tornou lei na China.»

Fernando Sobral, no Jornal de Negócios de ontem. 
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10.10.13

Ponto de situação



Estamos no XIX Governo Retroactivo de Portugal (a palavra Constitucional pode cair). 
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Maquiavel escreve a Passos Coelho



«Caro sr. primeiro-ministro,
O conjunto de medidas que me enviou para apreciação parece-me extraordinário. Confiscar as pensões dos idosos é muito inteligente. Em 2015, ano das próximas eleições legislativas, muitos velhotes não estarão cá para votar. Tem-se observado que uma coisa que os idosos fazem muito é falecer. É uma espécie de passatempo, competindo em popularidade com o dominó. E, se lhes cortarmos na pensão, essa tendência agrava-se bastante. Ora, gente defunta não penaliza o governo nas urnas.»

Na íntegra AQUI.
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Não há becos sem saída



Manifestação a 26 de Outubro, 15h, Rossio - São Bento 

Texto de apelo aprovado no plenário aberto realizado a 22 de Setembro, no Teatro do Bairro, em Lisboa.

Que se lixe a troika! Não há becos sem saída!

É tempo de agir.
Sabemos que o regime de austeridade no qual nos mergulharam não é, nem será, uma solução. Voltamos a afirmar que não aceitamos inevitabilidades. Em democracia elas não existem.
É tempo de escolhas simples. Educação para todos ou só para alguns? Saúde pública ou flagelo? Transporte público ou gueto? Constituição ou memorando da troika? Cultura ou ignorância? Pensões e salários dignos ou miséria permanente?
Nós ou a troika?
Sectores vitais para a nossa sobrevivência estão a ser entregues a banqueiros e especuladores, que os reduzirão à razão do lucro: água, energia, transportes, florestas, comunicações. Querem forçar-nos a abdicar do que construímos: na Saúde, na Educação, nos direitos mais básicos como habitação, alimentação, trabalho e descanso.
A troika e os governos que a servem pretendem deitar fora o sonho de gerações de uma sociedade mais livre e igualitária.
A quem está farto de ver vidas penhoradas e esvaziadas, fazemos o apelo a que se junte a nós na construção da manifestação de 26 de Outubro.
A manifestação será mais um passo determinante na resistência ao governo e à troika!
Não há becos sem saída.


P.S. – Os nomes das várias centenas de subscritores que lançaram o apelo, em 9/10/2013, encontra-se AQUI.
Nota: Quem quiser subscrever o texto pode fazê-lo enviando um e-mail com o nome para plenario22set@gmail.com 
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Quando tanto se fala da Ponte 25 de Abril



6 de Agosto de 1966 foi um dia importante para quem vivia nas duas margens do Tejo: acabava a dependência dos nevoeiros que impediam, tantas vezes, que os cacilheiros navegassem e, sobretudo, as longas filas de espera quando era preciso embarcar também um automóvel.

Mas é óbvio que não se escapou a mais um discurso do inefável Américo Tomás:



Antes do início das cerimónias da inauguração, ao ver o seu nome num dos pilares, Salazar perguntou: «As letras estão fundidas no bronze ou simplesmente aparafusadas? É que, se estão fundidas no bloco de bronze, vão dar muito trabalho a arrancar.»


Já não estava cá para ver que foi assim, em 1974:



40 e muitos anos depois, discute-se se pode ser atravessada a pé ou só a correr. Surrealismo também é isto. 
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9.10.13

Brel foi-se embora há 35 anos



Adormeceu um dia. Excepto que estava muito longe de ser velho como os velhos que tão bem cantou: «Les vieux ne meurent pas, ils s’endorment un jour et dorment trop longtemps».




Mais algumas, entre muitas outras:








Já agora, Jacques Brel com dois outros monstros sagrados, Léo Ferré e Georges Brassens: 

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Parece que faria hoje 73 anos



John Lennon, estupidamente assassinado à beira de fazer 40 anos.

Tantas e tantas recordações a ele nos ligam! Mas hoje só consigo recordar a emoção com que a canção «Imagine» foi recebida em 1971 e como teríamos sido então totalmente descrentes se nos tivessem dito que ela viria ser mais actual e necessária do que nunca quarenta e alguns anos depois. Aqui fica, com nostalgia e alguma raiva.



Imagine there's no heaven
It's easy if you try
No hell below us
Above us only sky
Imagine all the people living for today

Imagine there's no countries
It isn't hard to do
Nothing to kill or die for
And no religion too
Imagine all the people living life in peace

You, you may say
I'm a dreamer, but I'm not the only one
I hope some day you'll join us
And the world will be as one

Imagine no possessions
I wonder if you can
No need for greed or hunger
A brotherhood of man
Imagine all the people sharing all the world

You, you may say
I'm a dreamer, but I'm not the only one
I hope some day you'll join us
And the world will live as one
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Dizem que é uma passageira...




E pergunto eu, ingenuamente: um objecto (sim, porque é disso que se trata) não pode ir no porão exactamente porquê? 
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Luís Amado: peca por alguma originalidade?



Luís Amado não é um português anónimo nem um militante socialista «de base». Tem uma longa carreira no partido do Largo do Rato, foi deputado, pertenceu a governos socialistas pelo menos desde 1995, foi ministro dos Negócios Estrangeiros (e até de Estado) em governos de José Sócrates.

Ontem, numa conferência realizada em Lisboa, resolveu «ajudar» o partido a que pertence, referindo as cautelas que este é obrigado a ter no seu posicionamento político por existirem na AR «forças revolucionárias» que identificou com a «extrema-esquerda parlamentar». Se não fosse patético (e pateta), seria apenas cómico dizer-se que PCP e Bloco são «forças revolucionárias», mas adiante.

O único objectivo de LA foi defender a criação de um bloco central (entenda-se uma grande coligação do PS com os partidos à sua direita). Lamenta mesmo que isso não tenha acontecido em 2009 (quando o PS formou o XVIII Governo Constitucional com maioria relativa), com um argumento curioso: teria sido mais fácil «a gestão das expectativas dos eleitores, por um lado, e dos credores, por outro, considerando que a mesma é "incompatível"», «porque, "a maioria [parlamentar] preocupa-se com os credores e a oposição com os eleitores"». Registe-se.

Indo ao que mais interessa. LA diz-se convicto de que «no próximo ano, ou no seguinte, isto [a formação de um bloco central] poderá acontecer». De acordo: o PS de Amado e de muitos outros não se aliará à perigosíssima «esquerda revolucionária» portuguesa presente na AR e cimentará a sua força de braço dado com a direita. Mas aquilo que eu apreciaria mesmo era que fosse feito um inquérito (com voto secreto, claro) dentro dos principais órgãos actuais do PS (Comissão Nacional e Comissão Política, por exemplo) e  saber-se-ia então para que lado penderia a balança em termos de desejos de alianças. Por mim, não tenho dúvidas: LA está muito longe de ser minoritário, porque é muito mais o que aproxima o actual PS da direita do que aquilo que tem em comum com a esquerda. Com «culpas» de todos? Certamente. Mas, contra factos, raramente há argumentos.

(Fonte)

8.10.13

A dívida é sustentável quando não há escrúpulos



José Vítor Malheiros escreve, no Público de hoje, um excelente artigo sobre a dívida e sua (in)sustentabilidade. 

Alguns excertos:

«Quando se decide pagar custe o que custar e não renegociar nunca, o incumprimento pode nunca acontecer, mesmo que as condições dos empréstimos sejam moralmente abjectas e economicamente destrutivas. Pode-se vender a Batalha e a Torre de Belém. Pode-se vender o Algarve e a Madeira. Pode-se vender o voto nas instâncias internacionais a quem pagar mais. Pode-se vender concessões mineiras sem exigir garantias para o ambiente. Pode-se garantir uma exportação de milhares de engenheiros por ano para a Alemanha (a Alemanha gosta de receber Fremdarbeiter). Pode-se oferecer o país para fazer experiências científicas difíceis de aceitar noutros países. Pode-se criar uma rede de bordéis para utilização de altos funcionários de organizações credoras. Pode-se fazer imensas coisas para gerar dinheiro, pagar a dívida e satisfazer os credores. Custe o que custar.

Inversamente, quando existe um mínimo de moralidade e de sentido patriótico, há abjecções a que não se admite descer e que fazem com que a dívida seja insustentável.»

Na íntegra AQUI.
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Se isto for verdade, o TC tem a tarefa facilitada




Ou seja: se alguém enviuvar enquanto for suficientemente jovem para estar ainda no mercado de trabalho, mesmo que tenha um salário dourado e esteja a receber uma choruda pensão de sobrevivência, não verá esta diminuída nem num único cêntimo. Mas qualquer viúvo reformado, que não seja mesmo pobre (não se sabe ainda exatamente quanto), passará a receber uma percentagem menor do fruto dos descontos que o seu marido, ou a sua mulher, fizeram durante toda uma vida de trabalho.

Tenho para mim que o governo quer mesmo ajudar os juízes do Tribunal Constitucional: não deve ser difícil arrumar isto na prateleira das inconstitucionalidades, em duas penadas e em meia dúzia de linhas. Ou será uma simples provocação? É que até parece...

P.S. – Muito se tem escrito sobre o tema do corte nas as pensões de sobrevivência, mas aconselho a leitura do excelente editorial de Eduardo Oliveira Silva, no jornal i de hoje: Nem os mortos escapam
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Teatro às escuras



Esta segunda-feira, um grupo de teatro de Coimbra estreou um espectáculo às escuras. Perante uma plateia cheia, seis actores fizeram o seu trabalho sem poder ser vistos e, portanto, o teatro não se cumpriu.

O episódio é insignificante perante o estado do Mundo e a tragédia é outra coisa, como eu sempre digo.

Ou então não.

O grupo é o TEUC e faz parte da Universidade de Coimbra. A estreia às escuras foi uma acção de resistência perante o desinteresse de todos pela actividade que desenvolve, significativamente, há 75 anos. Para o seu espectáculo, precisava de corrente trifásica. Que não teve porque o quadro da Associação Académica está velho e sobrecarregado pelas máquinas do bar; porque os Serviços de Acção Social da UC passaram a entender que o apoio às actividades culturais está fora da sua alçada; porque a Reitoria acha que o assunto não é com ela.

Não duvido que todas estas entidades sejam capazes de argumentar em sua defesa, atirando para as restantes as responsabilidades pelo sucedido. Mas é isso que irrita.

Perante um país em ruptura, mesmo as instituições com tradições e responsabilidades na contestação, no apoio aos mais fracos e no progresso das ideias sucumbem ao conformismo, convertem-se à lógica da rentabilidade e anulam-se a si mesmas.

Diz o TEUC, no comunicado em que explica a situação, que a redução dos apoios de que tem sido vítima vai acabar com o teatro universitário. Peca por defeito. As políticas que impediram a corrente trifásica de chegar à sua sala-estúdio e a cumplicidade de todos aqueles que se comportam como se isto fosse necessário e inevitável são as que conduzem o país inteiro para as trevas e que, pelos vistos, são tão eficazes a cortar-nos a energia vital.

Com ou sem consciência disso, os seis bravos actores que representaram às escuras ofereceram a quem os (não) viu uma extraordinária metáfora do estado em que estamos.

O teatro cumpriu-se, afinal. E nós?

(Via Pedro Rodrigues no Facebook)
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O espelho mágico



«Quando Portugal consulta o espelho mágico que só fala verdade vê nele a imagem, não de Branca de Neve, mas de Rui Machete. Não se deveria espantar: o ministro dos Negócios Estrangeiros é o reflexo da alegre teia de interesses desinteressados que vai governando o país como se este fosse um concurso de beleza. (...)

A política portuguesa reflecte-se em Rui Machete. E quando este, por motivos insondáveis, diz às claras o que nas sombras é comum entre nós, o país engasga-se contra o silêncio dos inocentes. Rui Machete é inocente de ter sido nomeado ministro dos Negócios Estrangeiros, numa altura em que acumulava 31 cargos em diferentes entidades. (...)

Rui Machete trocou o silêncio do inocente, porque nenhum destes políticos do regime faz "as coisas por mal", por frases e distracções que mostram que não sabe o que é a diplomacia nem a razão porque é ministro. Mas a culpa não é dele. É deste sistema acantonado em cumplicidades que, quando confrontado com a realidade, desata a gritar que o pecado mora ao lado.»

Fernando Sobral, no Negócios de hoje.
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A ouvir, do princípio ao fim


Rafael Marques, ontem, no jornal das 21:00 da SIC Notícias, sobre Machete e Angola.

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7.10.13

Tantas desculpas a serem pedidas!



«Mais uma vez, as nossas desculpas, isto é pequeno mas devia dar-vos imenso jeito, até para plantarem mais qualquer coisa, mas pronto, são coisas que não estão nas nossas mãos resolver, até porque o contrato foi celebrado em 1143 e eu nasci em 1940, vejam bem, cheguei tardíssimo» 
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Estão bem um para o outro



«Rui Machete deve sair pelo seu pé», disse ele, «ultrapassado este período mais quente». Talvez num próximos dia de chuva, quem sabe, ela deve estar a chegar!

Política de farsantes. 
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Querido cherne



«La gran noticia será precisamente la desaparición de José Manuel Durão Barroso al frente de la Comisión. El político portugués pasará seguramente a la historia de la Unión como una calamidad para la institución que representó. Bajo su mandato, la Comisión ha sido casi irrelevante desde el punto de vista político y la UE ha actuado de manera más intergubernamental que nunca, dominada sin reparos por Alemania. Un fracaso sin paliativos, aunque probablemente su dócil actitud le reporte beneficios personales y termine encontrando acogida en algún otro organismo internacional.

(Daqui)

Sim: bem nos ajudou / está a ajudar a entornar o caldo!
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«Perdoam-se» dívidas?



Frei Bento Domingues escreve todos os domingos no Público. Ontem, saiu dos seus temas mais habituais e decidiu, ele também, falar da «dívida», mais concretamente do seu «perdão». Alguns excertos e o texto na íntegra:

«Tornou-se uma banalidade e um expediente moralista dizer, com estilo enfático, que as nossas sociedades estão irremediavelmente dominadas por imperativos de produção, produtividade e crescimento dos lucros. Hoje, o poder não é militar, religioso ou ideológico, mas tecno-económico. Os modelos e instrumentos que usa – servidos por gráficos e mais gráficos, números e mais números – dispensam a preocupação com as pessoas e os seus estados de alma ou de corpo.

Seja como for, num mundo onde tudo se compra e vende, parecerá ridículo falar de “perdão da dívida”, embora seja uma questão inevitável, mesmo para Portugal. (...)

Não seria eticamente aceitável fazer despesas com o propósito de as não pagar. Mas o “perdão da dívida”, desde as épocas mais recuadas até aos tempos mais recentes, nada tem de insólito. A própria Alemanha, depois de guerras criminosas, beneficiou largamente desse gesto ancestral.

Há 60 anos, 20 países, entre eles a Grécia, Irlanda e Espanha, decidiram perdoar mais de 60% da dívida da Alemanha Ocidental. Segundo uma análise de Éric Toussaint – historiador e presidente do Comité para a Anulação da Dívida do Terceiro Mundo –, a dívida antes da guerra ascendia a 22,6 mil milhões de marcos, com juros. A dívida do pósguerra foi estimada em 16,2 mil milhões. No acordo assinado, em Londres, estes montantes foram reduzidos para 7,5 mil e 7 mil milhões respectivamente. Isto equivale a uma redução de 62,6%. O historiador alemão, Albrecht Ritschl, confirmou que existiu um perdão de dívida gigantesco ao país, que, no caso do credor Estados Unidos, foi quase total. Em 1953, os Estados Unidos ofereceram à Alemanha um haircut, reduzindo o seu problema de dívida a praticamente nada (Cf. Dinheiro Vivo 28/02/2013).

Pedir o perdão da dívida pode ter inconvenientes. Não lutar por ele é continuar com o país estrangulado. Na Eucaristia, os cristãos confessam que é no perdão que Deus manifesta o seu poder. Demos essa oportunidade a Angela Merkel.»



6.10.13

No dia em que percebemos que estamos entregues a vampiros que se julgam urubus

Europa: bem-vindos os mortos



Na passada sexta-feira, o primeiro-ministro da Itália, Enrico Letta, anunciou que todos os mortos no naufrágio de Lampedusa receberão a nacionalidade italiana. À mesma hora, em Agrigento (Sicília), os adultos resgatados eram acusados de imigração clandestina, crime punível com uma multa que pode ir até 5.000 euros e com a expulsão do país.

«De Lampedusa parte um desfile de caixões fechados, alguns brancos, sem nome, numerados de um a 111: "Morto 54, mulher, provavelmente 20 anos. Morto 11, homem, provavelmente três anos ... ".»


Iam 500 pessoas a bordo e, tendo em conta as que foram resgatados, as últimas notícias avançam que o número de mortos pode chegar, ou mesmo ultrapassar, 300.

Fico sem perceber se é proibido enterrar emigrantes ilegais em Itália, e se seria caro deportá-los para os seus países, ou se se considera uma homenagem e uma honra que sejam italianos e europeus post mortem. Realidade fortemente simbólica neste triste continente! 
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Sim, o quê?


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O rei vai nu



«Há um clima de embuste, de perda de vergonha, de mentiras, de desprezo absoluto pelos cidadãos que começa a ser asfixiante. Ainda não se tinha acabado de contar os votos das eleições autárquicas e já o Presidente da República, o vice-primeiro-ministro mais a sua assistente Maria Luís e os senhores da troika vinham colaborar na absurda farsa que o País está a viver. (...)

Que ele [Paulo Portas], a troika, Passos Coelho, Banco de Portugal e qualquer português que saiba somar dois mais dois tenham a certeza de que o limite de quatro por cento de défice para 2014 não vai ser atingido e que vai ser negociado lá para Março e renegociado em Maio e voltar a ser negociado em Setembro, mas prefiram fingir que estão a falar a sério, já estamos habituados. (...)

Mas que raio mede a troika? A capacidade de Portas conseguir falar sem dizer nada durante duas horas ? A falta de vergonha que permite a um país civilizado continuar a ter Rui Machete no Governo apesar de todas as mentiras, faltas de memória e sugestões feitas no estrangeiro de que em Portugal não há uma efectiva separação de poderes?

A troika não quer assumir que o seu plano foi um falhanço completo e prefere continuar a destruir um país a ter de arrepiar caminho. Talvez seja mau para o currículo dos arquitectos do plano admitir que não resultou. Talvez dizendo muitas vezes que o plano está a resultar os mercados acreditem e resolvam baixar as taxas. Talvez não queiram embaraçar o primeiro-ministro que achava o plano tão bom, tão bom que o levaria sempre a cabo e até iria para além dele.»

Pedro Marques Lopes