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26.10.13

Agora


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15 anos sem José Cardoso Pires



Foi-se embora há 15 anos, em 26 de Outubro de 1998. Uma década e meia passa bem mais depressa do que se pensa quando se é jovem, pesa muito quando a vida vai avançando. Continua a fazer-me falta como amigo e dou por mim a imaginar o que escreveria sobre o Portugal de hoje se ainda fosse vivo. Quanto a nós, cá vamos, como o Zé nos descreveu neste belo texto.

Lá vai o português

Lá vai o português, diz o mundo, quando diz, apontando umas criaturas carregadas de História que formigam à margem da Europa.

Lá vai o português, lá anda. Dobrado ao peso da História, carregando-a de facto, e que remédio – índias, naufrágios, cruzes de padrão (as mais pesadas). Labuta a côdea do sol-a-sol e já nem sabe se sonha ou se recorda. Mal nasce deixa de ser criança: fica logo com oito séculos.

No grande atlas dos humanos talvez figure como um ser mirrado de corpo, mirrado e ressequido, mas que outra forma poderia ele ter depois de tantas gerações a lavrar sal e cascalho? Repare-se que foi remetido pelos mares a uma estreita faixa de litoral (Lusitânia, assim chamada) e que se cravou nela com unhas e dentes, com amor, com desespero, ou lá o que é. Quer isto dizer que está preso à Europa pela ponta, pelo que sobra dela, para não se deixar devolver aos oceanos que descobriu com muita honra. E nisso não é como o coral que faz pé-firme num ondular de cores vivas, mercados e joalharia; é antes como o mexilhão cativo, pobre e obscuro, já sem água, todo crespo, que vive a contra-corrente no anonimato do rochedo. (De modo que quando a tormenta varre a Europa é ele que a suporta e se faz pedra, mais obscuro ainda.)

Tem pele de árabe, dizem. Olhos de cartógrafo, travo de especiarias. Em matéria de argúcias será judeu, porém não tenaz: paciente apenas. Nos engenhos da fome, oriental. Há mesmo quem lhe descubra qualquer coisa de grego, que é outra criatura de muitíssima História.

Chega-se a perguntar: está vivo? E claro que está: vivo e humilhado de tanto se devorar por dentro. Observado de perto pode até notar-se que escoa um brilho de humor por sob a casca, um riso cruel, de si para si, que lhe serve de distância para resistir e que herdou dos mais heróicos, com Fernão Mendes à cabeça, seu avô de tempestades. Isto porque, lá de quando em quando, abre muito em segredo a casca empedernida e, então sim, vê-se-lhe uma cicatriz mordaz que é o tal humor. Depois fecha-se outra vez no escuro, no olvidado.

Lá anda, é deixá-lo. Coberto de luto, suporta o sol africano que coze o pão na planície; mais a norte veste-se de palha e vai atrás da cabra pelas fragas nordestinas. Empurra bois para o mar, lavra sargaços; pesca dos restos, cultiva na rocha. Em Lisboa, é trepador de colinas e de calçadas; mouro à esquina, acocorado diante do prato. Em Paris e nos Quintos dos Infernos topa-a-tudo e minador. Mas esteja onde estiver, na hora mais íntima lembrará sempre um cismador deserto, voltado para o mar.

É um pouco assim o nosso irmão português. Somos assim, bem o sabemos.

Assim, como?

José Cardoso Pires, E agora, José?, Moraes Editores, 1977. 

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Falta pouco



@Pedro Vieira
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25.10.13

Juízes doTC – «quase comunistas»



O texto de que hoje se fala e que foi publicado no Financial Times de ontem: Portugal’s constitutional court threatens country’s bailout.

«The court is a thorn in the side of both the government and Brussels and is perceived as almost communist by the markets.»

PSD, CDS e PS que se cuidem: foram eles que nomearam 10 dos 13 perigosos quase-marxistas-leninistas juízes! 
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Amanhã estará bom tempo



Razão adicional para não ficar em casa.

  • Manifestações em 14 cidades (já confirmadas).Horas e locais aqui.
  • Texto de apelo, subscrito por mais de 900 pessoas, aqui


Itinerário em Lisboa:

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Tribunal Constitucional: a última fronteira que falta transpor



«E subitamente, o Tribunal Constitucional (TC) transformou-se num dos principais actores políticos em Portugal. Não pelo que diz ou faz, mas pelo que dizem e fazem dele. Os juízes vão de irredutíveis "gauleses" (Vítor Bento) a "comunistas" (segundo o Financial Times). Não porque se tenham imbuído de um "activismo político" (relatório assinado pelo representante da Comissão Europeia em Portugal), mas simplesmente porque são, neste momento, o último baluarte da soberania nacional. (...)

Aqueles 13 juízes, dos quais dez são nomeados por acordo entre os partidos que assinaram o memorando da troika (PSD, PS e CDS), são a última fronteira que falta transpor. Sem Governo autónomo, sem moeda, sem investimento, o Estado português, enquanto entidade soberana, está preso pelo fio constitucional.»

Manuel Esteves

24.10.13

La Comédie humaine


Recebi do João Bernardo dois livros que ele decidiu divulgar, em formato pdf, junto dos seus amigos e amigos de amigos.

  • A Sociedade Burguesa de um e de outro Lado do Espelho. La Comédie humaine.
  • Os Sentidos das Palavras, Terminologia económica e social em La Comédie humaine

Podem ser lidos e descarregados a partir deste site, criado para o efeito pelo Miguel Serras Pereira.
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Juramentos e crenças



De Ricardo Araújo Pereira, obviamente.

«Creio em um só Deus, os Mercados todo-poderosos, criadores do céu e da terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis, e também das incompreensíveis. (...) Creio em um só Senhor, o Capital, filho unigénito de Deus, nascido do Pai antes de todos os séculos, cujos caminhos são misteriosos, uma vez que há operações financeiras que ninguém percebe exactamente como funcionam, como os swaps e os contratos das PPP.»

Na íntegra AQUI.
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Deve ser por isso que há tantos turistas brasileiros



Texto que terá sido publicado na revista brasileira «Turismo & Negócios de Maceió» e divulgado por «Mulher Moderna», em Portugal. 
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23.10.13

Grandes árvores (8)



Banhos Reais de Fasiledes 

(Gondar, 2013)






(Para ver a série, clicar na Label: ÁRVORES)
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Hungria: há 57 anos, a «Revolução»



Retomo em parte um texto que publiquei a propósito da «Revolução Húngara» que teve início em 23 de Outubro de 1956.

Tudo começou numa terça-feira, no centro de Budapeste, com uma manifestação de milhares de estudantes que tentaram ocupar a rádio e foram reprimidos. A revolta alastrou depois ao resto do país, provocou a queda do governo e a sua substituição. Em 4 de Novembro deu-se a invasão pelas tropas do Pacto de Varsóvia e a resistência acabou daí a seis dias.

A operação saldou-se por alguns milhares de mortos e por um verdadeiro êxodo de cerca de 200.000 húngaros, sobretudo jovens, que fugiram do país e pediram asilo um pouco por toda a Europa e também na América, do Norte ao Sul.

E é aqui que entra a minha história. Entre os muitos países procurados por jovens estudantes que foram saindo da Hungria assim que puderam, a Bélgica foi um deles e eu cheguei à Universidade de Lovaina um ano mais tarde. Já encontrei muitas dezenas e vi chegar outros, ainda com olhar inquieto depois de longas peregrinações por diferentes paragens. Partilhei residências universitárias com alguns e, curiosamente, houve imediatamente uma grande empatia ente húngaros e os pouquíssimos portugueses que por lá andavam.

Tudo era ainda muito recente, as histórias multiplicavam-se e estarreciam-me pela total novidade que eram para quem chegava do Portugal de Salazar e nunca tinha conhecido qualquer cidadão de Leste. Durante muito tempo, estudei, li e interpretei muitas realidades, não só mas também com «olhos húngaros». E, quando aconteceu Praga 68, foi Budapeste 56 que imaginei permanentemente.

Poderia contar dezenas de episódios, mas limito-me ao mais trágico: um surto de loucura (latente, certamente, mas que só se revelou alguns anos depois da fuga), numa rapariga impecável e inteligentíssima, que vivia na mesma residência que eu e com quem lidei durante anos, e que um dia se barricou no quarto durante várias horas, ameaçando suicidar-se, porque via caras de soldados russos reflectidos no lavatório e tinha outras alucinações do mesmo tipo. Só cedeu a um polícia, também inteligente, que do outro lado da porta a convenceu de que vinha prender os russos e a levou para um hospital psiquiátrico.

No dia seguinte, defendi a minha tese de doutoramento e dois dias depois regressei a Portugal. O fim da minha longa estadia belga ficaria para sempre ligado a uma terrível recordação de Budapeste 56. 
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Por cá, vai-se de autocarro



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Do pequeno país



«O nosso pequeno país cá vai, bem mandado, mas de ser apaparicado à chegada ao clube [UE] passou, depois de 2008, a ser sujeito a tratos de polé. Uma interpretação alemã das causas da crise – golpistas desleixados do Sul abusando de gente séria e trabalhadora do Norte – e uma receita alemã para sair dela – austeridade (que tem aumentado a dívida e minado a democracia) – apesar de erradas foram aceites como boas não só em Lisboa, mas nas outras capitais da Europa. (...)

Entretanto o pequeno país escolhe às vezes para chefes gente com a visão do saguão e o instinto da porta de serviço. Ou então gente tão zelosa que, ao ministrar o remédio para a crise que os alemães ordenaram, decidiu ser mais troikista que a troika. (...)

E por fim Angola, jóia da nossa coroa imperial – no tempo da guerra colonial nenhum cartaz em Lisboa rezava "Moçambique é nosso" - a fazer-nos passar por vergonhas (sempre o malfadado instinto da porta de serviço). "Só nos faltava mais esta" teria comentado o Dr.Salazar quando lhe vieram dizer que havia petróleo em Angola. É muito pior ainda do que ele imaginava.»

(O link pode só funcionar mai tarde.)
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22.10.13

Faria hoje 92



Brassens, Georges Brassens, nasceu em 22 de Outubro de 1921.

«Mourrons pour des idées, d'accord, mais de mort lente
D'accord, mais de mort lente.»



Mourir pour des idées, l'idée est excellente
Moi j'ai failli mourir de ne l'avoir pas eu
Car tous ceux qui l'avaient, multitude accablante
En hurlant à la mort me sont tombés dessus
Ils ont su me convaincre et ma muse insolente
Abjurant ses erreurs, se rallie à leur foi
Avec un soupçon de réserve toutefois
Mourrons pour des idées, d'accord, mais de mort lente,
D'accord, mais de mort lente.

Jugeant qu'il n'y a pas péril en la demeure
Allons vers l'autre monde en flânant en chemin
Car, à forcer l'allure, il arrive qu'on meure
Pour des idées n'ayant plus cours le lendemain
Or, s'il est une chose amère, désolante
En rendant l'âme à Dieu c'est bien de constater
Qu'on a fait fausse route, qu'on s'est trompé d'idée
Mourrons pour des idées, d'accord, mais de mort lente
D'accord, mais de mort lente.

Les saint jean bouche d'or qui prêchent le martyre
Le plus souvent, d'ailleurs, s'attardent ici-bas
Mourir pour des idées, c'est le cas de le dire
C'est leur raison de vivre, ils ne s'en privent pas
Dans presque tous les camps on en voit qui supplantent
Bientôt Mathusalem dans la longévité
J'en conclus qu'ils doivent se dire, en aparté
"Mourrons pour des idées, d'accord, mais de mort lente
D'accord, mais de mort lente".

Des idées réclamant le fameux sacrifice
Les sectes de tout poil en offrent des séquelles
Et la question se pose aux victimes novices
Mourir pour des idées, c'est bien beau mais lesquelles ?
Et comme toutes sont entre elles ressemblantes
Quand il les voit venir, avec leur gros drapeau
Le sage, en hésitant, tourne autour du tombeau
Mourrons pour des idées, d'accord, mais de mort lente
D'accord, mais de mort lente.

Encore s'il suffisait de quelques hécatombes
Pour qu'enfin tout changeât, qu'enfin tout s'arrangeât
Depuis tant de "grands soirs" que tant de têtes tombent
Au paradis sur terre on y serait déjà
Mais l'âge d'or sans cesse est remis aux calendes
Les dieux ont toujours soif, n'en ont jamais assez
Et c'est la mort, la mort toujours recommencée
Mourrons pour des idées, d'accord, mais de mort lente
D'accord, mais de mort lente.

O vous, les boutefeux, ô vous les bons apôtres
Mourez donc les premiers, nous vous cédons le pas
Mais de grâce, morbleu! laissez vivre les autres!
La vie est à peu près leur seul luxe ici bas
Car, enfin, la Camarde est assez vigilante
Elle n'a pas besoin qu'on lui tienne la faux
Plus de danse macabre autour des échafauds!
Mourrons pour des idées, d'accord, mais de mort lente
D'accord, mais de mort lente.
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A derrota final?



«Passaram dois anos e os portugueses foram atingidos por medidas de austeridade de uma violência só equivalentes às executadas na Grécia. Mas, o que se conseguiu, afinal? Recessão pelo terceiro ano consecutivo, taxa de desemprego de 18%, défice público certamente superior a 6% (o plano de recuperação de receita fiscal dificilmente atingirá os desejados 700 M€) e uma dívida de 127.8% do PIB. Pela parte menos visível, aumento da pobreza e degradação da qualidade dos serviços públicos. (...)

Um primeiro-ministro sem preparação, mas que se considera tocado por uma entidade divina e um Presidente no último mandato que detesta aborrecimentos não podem ignorar o insucesso deste e dos OE anteriores. Se nada for feito, será nossa (dos portugueses) a derrota final.»

Manuela Arcanjo

Painéis electrónicos para quê?



O meu regresso da Etiópia começou ontem assim (e terminou muuuitas horas depois).
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21.10.13

Em casa da rainha de Saba



Axum, no Norte da Etiópia, é um paraíso para os arqueólogos, tantos são os rastos de civilizações antiquíssimas já descobertos e os muitos que há ainda por explorar.

Conta a lenda que um filho de Noé, pai de todos os povos de pele castanha, era avô de Etiopos que foi enterrado em Axum e deu o nome a todos os habitantes do país. Seja como for, sabe-se hoje que as origens da civilização etíope remontam o século X a.c.

Poderia descrever túmulos e obeliscos (ficam apenas fotos), falar da «verdadeira» Arca da Aliança que os etíopes reivindicam ter aqui em Axum, mas falta-me tempo e limito-me a referir a rainha de Saba que, segundo as crónicas, teria regressado de uma viagem a Jerusalém grávida de um filho do rei Salomão, criança essa que viria a ser o célebre rei Menelik, fundador da dinastia Salomónica que perduraria na Etiópia até ao século XX e viria a ter, como último representante, o imperador Haile Selassie (tio avô ndo nosso «troiqueiro»).

As ruínas do palácio da rainha de Saba não são mais do que isso mesmo – ruínas –, mas chegam para dar uma ideia do que se terá vivido entre aquelas muitas paredes.




20.10.13

A cidade imperial (*)



O que há de mais extraordinário para ver em Gondar é a «cidade imperial», um conjunto de seis castelos construídos seguindo técnicas introduzidas pelos portugueses no século XVI, implantados numa grande cerca que chegou a ter doze portas. A construção do primeiro teve início em 1640.

Durante o reinado do imperador Fasiladas (1632-1667), Gondar, que até então era uma vila sem importância, tornou-se capital do reino e, no auge do seu esplendor, chegou a ter mais de 80.000 habitantes. Em meados do século XIX era ainda o principal centro de comércio da Etiópia, mas acabou por ser destruída pelo imperador Teodoros que mandou incendiar os principais monumentos e igrejas da cidade.

As imagens dispersas, que aqui ficam, não conseguem dar uma ideia do conjunto, verdadeiramente notável. Este vídeo ajuda.







(*) Este post foi escrito no dia 16, quando a internet andava «avariada». 
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Em verdade...


Em verdade vos digo que ler a entrevista de Sócrates ao Expresso, à espera de um avião, num aeroporto dos confins da Etiópia, é uma experiência transcendental muito estranha. Kant deve ter escrito algo sobre o assunto (ou terá sido Voltaire?). 
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