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2.11.13

Relatório do interior



«Não havia problema em acreditar que o homem da lua era um homem a sério. Vias o rosto dele a olhar para ti do céu noturno e era sem dúvida o rosto de um homem. Pouco importava que este homem não tivesse corpo – não deixava de ser um homem para ti, e a possibilidade de que talvez houvesse uma contradição em tudo isto nem por uma vez te passou pela cabeça. Ao mesmo tempo, parecia perfeitamente credível que uma vaca pudesse saltar por cima da lua. E que um prato pudesse fugir com uma colher

Paul Auster, Relatório do interior, Asa, 2013, p. 9
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2 de Novembro no cinema



Pouco provável mas Luchino Visconti poderia fazer hoje 107 anos. Infelizmente, morreu antes de completar 70. Foi sempre um dos meus realizadores de eleição, talvez o maior, e seria grande a tentação de recordar aqui muitos dos seus filmes. Limito-me a três, mais do que trivialmente óbvios.

Rocco e os seus irmãos (1960):




O Leoprado (1963)




Morte em Veneza (1971):




E como foi também num 2 de Novembro, de 1975, que morreu Pasolini, hoje é de dia de celebração para cinéfilos. 
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Monstros sagrados



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E em breve serão lançadas rifas



... e quem tiver a boa ficará com a o Palácio de Belém, recheio pessoal incluído.

TPC para o fim-de-semana


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1.11.13

Coligação: a união faz a força



E a má educação também.

(Foto Expresso)
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O sistema/1



Os funcionários não funcionam. Os políticos falam mas não dizem. Os votantes votam mas não escolhem. Os meios de informação desinformam. Os centros de ensino ensinam a ignorar. Os juízes condenam as vítimas. Os militares estão em guerra contra os seus compatriotas. Os polícias não combatem os crimes, porque estão ocupados a cometê-los.
As bancarrotas são socializadas, os lucros são privatizados.
O dinheiro é mais livre que as pessoas. As pessoas estão ao serviço das coisas.

Eduardo Galeano, O livro dos abraços

Again and again



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Reforma do Estado – «querido, mudei-te o prédio»



«Existe um motivo para o enorme espaçamento e tamanho da letra: é para mostrar aos alemães por videoconferência. Ou isso, ou Paulo Portas não aguenta lentes de contacto e óculos, em público, nem pensar.

À primeira vista, 112 páginas parece muito para tão pouco tempo, mas com espaçamento e letra com corpo normal, a reforma do Estado deixa de ser tão africana, mirra e passa para 36 páginas. Portas nunca foi de poupar nas fotocópias. (...)

Quanto ao conteúdo, acho que aquilo não é um guião, é um livro de auto-ajuda feito por gente que só nos lixou. A reforma do Estado é o "Segredo" dos neoliberais. De certa forma, é demasiado abstracto para uma oposição concreta. (...) Deixou algumas pistas como: "os professores vão poder comprar escolas". Discretamente, lançou o "spin off" de instituições: os militares vão poder comprar submarinos! Portas parecia o vice-presidente da Apple a anunciar que, de agora em diante, só vão fazer esquentadores. Mudar assim, sem perguntar nada a quem cá mora, não me agrada muito. Uma espécie de "querido, mudei-te o prédio", sem darem cavaco ao condomínio, não me parece legal.»

João Quadros
O link pode só funcionar mais tarde.
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31.10.13

Heteronímia online



Ricardo Araújo Pereira, na Visão de hoje, num registo totalmente diferente:

«Há pessoas que são não-grotescas na vida real e grotescas na internet. São as mesmas pessoas, mas praticam uma espécie de heteronímia on-line. São um homem chamado Fernando Pessoa na vida real e um gorila chamado Álvaro de Campos na internet. É isto que explica o seguinte fenómeno: na vida real, não conheço ninguém que coleccione unhas, mas na internet há fóruns com debates, notícias e conselhos práticos para o coleccionador de unhas. (...)
E foi assim que presenciei uma ameaça de morte por causa da Bimby. Pareceu-me um momento histórico, pelo que fica registado.» 

Na íntegra AQUI.
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Ainda sobre o tal Guião



«Paulo Portas quer ser o Giorgio Armani da reforma do Estado. Todos os anos o estilista apresenta os novos modelos e acaba com uma frase cintilante, um laço que embrulha o conjuntinho: "Proponho para esta estação ‘una donna moderna però rinovata’". Portas também deseja um Estado moderno (alguém deseja um Estado antigo?!) e renovado (alguém quer um Estado parado?!), mas não vai além disso. Não vai, aliás, a lado nenhum.

As "110 páginas úteis" do guião, como lhe chamou ontem, são de uma pobreza inacreditável. Não é sequer um catálogo de pronto-a-vestir político. É uma loja dos 300 onde, no meio de ideias copiadas, avulsas e superficiais, encontramos um ou outro ponto que é possível debater, mas apenas por causa do nosso desespero coletivo.»

André Macedo

A E I O U



Andaram aqueles pais a pagar estudos no S. João de Brito e o homem põe vírgulas entre o sujeito e o predicado!

«Porque várias das reformas aqui elencadas, excedem o tempo desta legislatura.»

(Logo na primeira página «útil» do Guião, depois há mais)
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Orgulho nacional



O Google decidiu celebrar o Halloween com uma imagem de Paulo Portas a apresentar o guião da Reforma do Estado?

(A descoberta foi de Nuno Serra, no Facebook)
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30.10.13

Para esquecer o malfadado guião



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Cave Canem



«No Século V a.c. houve em Atenas um político e militar brilhante, ambicioso e destituído de escrúpulos chamado Alcibíades, que estava a cair em desgraça. Tinha um cão caríssimo, enorme, bonito. Certo dia, mandou cortar a cauda ao cão. Toda a gente se indignou e na cidade não se falava de outra coisa: «Óptimo! É o que eu queria» - disse o cínico Alcibíades aos amigos. «Enquanto falarem do cão, não falam de mim.»

Mário de Carvalho no Fcebook
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O grande êxodo, sem a «valise en carton»



O Diário de Notícias publica hoje um importante dossier sobre o estado da população portuguesa – «o pior dos mundos possíveis em termos demográficos», como um especialista comenta, já que a uma saída elevadíssima de pessoas se acrescenta a quebra na entrada de estrangeiros, a redução dos nascimentos e o aumento do número de mortes.

Muito sumariamente, alguns números relativos a 2012: 
  • Menos de 90.000 nascimentos, novo mínimo histórico. (Mães estrangeiras contribuíram com 10%.)
  • Mais 4,6% de óbitos em relação a 2011, em consequência do progressivo envelhecimento da população.
  • Mínimo histórico do número de casamentos (cerca de 34.000) e tendência para queda no número de divórcios.
  • Last but not the least, em 2012 foi batido o recorde do número de saídas para o estrangeiro, que até aqui era detido pelo ano de 1966 (120.239) e que foi agora 121. 418.
Ou seja, em cada mês, cerca de 10.000 pessoas deixaram Portugal no ano passado – mais de 300 por dia. Não para fugirem à guerra colonial, à PIDE ou à miséria do Estado Novo, como na década de 60, mas sim ao inesperado flagelo do desemprego. Com uma enorme diferença: na sua grande maioria, os novos emigrantes sabem falar línguas, levam debaixo do braço diplomas prestigiados pagos pelas famílias e por todos nós, viajam em aviões low cost em vez do Sud-Express e não carregam uma «valise en carton».

Mas, tal como dantes, deixam para trás pais e irmãos, muitas vezes mulher ou marido e filhos, e vão com bilhete de ida sem volta prevista. Ficamos nós, os mais velhos, fica um país a dizer adeus aos seus melhores, a empobrecer de ano para ano. Claro que isto um dia há-de acabar. O pior é que ninguém sabe nem quando nem como e cada um de nós só tem uma vida para viver.
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2016 é depois de amanhã



«Há muito mais portugueses que querem ser milionários do que os que desejam ser presidentes. É uma legítima questão de opção, mas que diz muito sobre a sociedade de hoje: a salvação está no dinheiro e não no cargo, por muito mais honroso do que ele seja. Nada que admire: é preferível ser uma celebridade do que culto.

Os valores mudaram e a ideologia que está a nascer deste mundo de austeridade e de fim de mobilidade social apenas reforça isso. Todos desejam ser Tio Patinhas ou Lady Gaga. Poucos pretendem ser Alexandre, o Grande ou Winston Churchill. Menos ainda querem ser Leonardo da Vinci.»

E, no entanto, com as presidenciais de 2016 no horizonte:

«Quem quer que pretenda ser o próximo PR terá de ser alguém que restitua o sonho e a confiança aos portugueses. Descrentes do Estado, desconfiados dos políticos, pobres como nos anos 60, os portugueses vão procurar alguém que lhes ofereça a fé que a actual situação lhes retirou em forma de impostos e desemprego. A questão é que, do nada, poderá surgir um candidato que tenha como bandeira o populismo.»

Fernando Sobral

29.10.13

CGD – Clientes forever



A minha mãe morreu em 1994 e teria hoje mais de 100 anos se fosse viva. Tinha uma conta na CGD, que então fechei, mas já percebi que aquele banco não deve retirar ninguém das suas bases de dados.

Hoje, «ela»  recebeu uma carta em que a CGD lhe propõe tornar-se «Cliente MAIS» para poder gozar de alguns privilégios, entre os quais «Crédito Pessoal para Formação». Touchée...
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Como ministra das Pescas ou da Agricultura?




Não estaria a pensar em aquários ou eucaliptos plantados em salas de estar? E não tem mais nada para fazer?
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Nunca esquecer que existiu um Tarrafal – foi há 77 anos



No dia 29 de Outubro de 1936, chegaram à Colónia Penal do Tarrafal, criada por Salazar alguns meses antes, os primeiros 153 deportados. Mais exactamente, desembarcaram no local onde eles próprios foram obrigados a construir o campo de concentração que os encarceraria. Durante a existência deste «Campo da Morte Lenta», por lá ficaram 32 vidas, 32 pessoas cujos corpos só foram transladados para Lisboa em 1978.

Encerrado em 1954, devido a pressões internas e internacionais, o Campo foi reaberto na década de 60 (e permaneceu ativo até ao 25 de Abril), com o nome de «Colónia Penal de Chão Bom», para albergar os lutadores pela independência de Angola, Guiné e Cabo Verde.


1978 - transladação e cortejo para o cemitério do Alto de S. João, em Lisboa: 


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28.10.13

Real Politik


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Awra Amba – uma experiência notável



Na minha viagem pela Etiópia, visitei Awra Amba, uma comunidade de cerca de 460 pessoas, que vive a 73 quilómetros de Bahir Dar, seguindo normas pouco usuais no país, das quais os seus membros fazem questão em destacar duas: a igualdade entre homens e mulheres, em todos os planos, e o respeito pelos velhos.

Não são nem cristãos, nem muçulmanos, nem membros de uma qualquer outra religião, o que também está longe de ser comum e nem sempre é bem aceite. Não existem igrejas nem mesquitas na aldeia e os seus habitantes dizem que afirmam a fé no trabalho árduo, no comportamento pacífico e no respeito por todos os seres humanos. A mutilação genital das mulheres e o casamento de crianças foram abolidos.

Com 40 anos de existência, Awra Amba começou por ser ignorada, e mesmo «olhada de esguelha», mas é hoje seguida atentamente pela UNESCO, e pelo próprio governo etíope, como um modelo a divulgar e expandir. O seu fundador, Zumra Nuru, não é considerado propriamente «o chefe», mas antes uma espécie de patrono ou consultor de um conjunto de «comités» eleitos pela população, que se ocupam dos diversos sectores da vida da comunidade: educação, saúde, idosos, crianças, biblioteca, etc., etc.

Tudo isto se passa numa região relativamente árida, e paupérrima como toda a Etiópia, mas Awra Amba é um verdadeiro oásis quanto a modo de funcionamento e atitude. Vive da agricultura e, sobretudo, dos têxteis que produz e nos quais se ocupa grande parte da população adulta. Os jovens estudam, até certo grau na própria aldeia, mais tarde fora dela, muitos deles em universidades.

Ficam algumas fotos das muitas que tirei, que não chegam para dar nem uma pálida ideia de uma realidade notável.

Escola e Biblioteca:





A fábrica (igualdade: a primeira vez que vi um homem tecelão, por esse mundo fora):





O «lar da 3ª idade» - uma realidade nunca vista no país:








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Modas e bordados



«Fazer a reforma do Estado não é, ao contrário do que pensa o Governo, um exercício de administração de LSD em doses sucessivas até o doente enlouquecer. O Governo não reformou o Estado nem se presta a fazê-lo, apesar das vãs esperanças de que Paulo Portas mostre o seu diagnóstico secreto ou de que nas próximas duas legislaturas se cumpra o destino, como diz um membro do executivo.

O Governo fez da reforma do Estado uma forma de destruir a administração pública. É uma mistura de corte e costura com modas e bordados. Por isso a política de estrangulamento de tudo o que é acção pública é feita por "boys" que chegam aos Ministérios sem saber que uma acção a montante causa uma catástrofe a jusante, sem escutar ninguém, e impõem decisões letais. (...)

Não é por acaso que o caos reina hoje na administração pública, que só não paralisa totalmente por milagre e devido à acção de quem serve o interesse público.»

Fernando Sobral, no Negócios de hoje.
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27.10.13

Menos um



... que tantas gerações marcou: Lou Reed (1942-2013)




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Ficamos assim a saber que Policarpo é confessor de M. Luís Albuquerque

Portugal não é a Grécia e eu estou desempregado



Texto escrito e lido por André Albuquerque, actor, numa das muitas intervenções que tiveram lugar ontem, em S. Bento, no fim da manifestação «Que se lixe a Troika! Não há becos sem saída!»

Portugal não é a Grécia e eu estou desempregado, um actor desempregado. Em Novembro volto à labuta. À bilheteira e sem direitos, que é para não pensar que desaperto o cinto das calças. Os humanos não passam sem pão e água e os países não existem sem Cultura. O Coelho gosta da Nini e do Lá Féria, o Costa dá praças ao Tony. Na Ajuda o cacilheiro está sempre primeiro. Portugal embarcado e emigrado. Portugal afundado e eu continuo desempregado.

De Bragança até Faro: corta na saúde, corta na educação, corta na cultura, corta na dança, corta no cinema, corta no teatro. E depois? Depois privatiza, privatiza filho. O Teatro S.Carlos Santander Totta apresenta! O Teatro Sonae S.João vai estrear! O D.Maria II BPN orgulha-se de apresentar: Duarte e Loureiro a caminho da Carregueira!...há coisas que só mesmo no teatro...

"Artigo 78.º, Fruição e criação cultural, ponto 1: Todos têm direito à fruição e criação cultural, bem como o dever de preservar, defender e valorizar o património cultural." Porra para a constituição...o que é que a constituição já fez por ti hoje? O que é que a porra da constituição já fez por ti alguma vez na vida? Queime-se a constituição, queime-se o código do trabalho, glória ao pai, ao filho e ao trabalho temporário!

Portugal não é a Grécia e eu estou desempregado.

E quero ainda dizer, que isto aqui, que isto aqui, é uma cambada de activistas, uma cambada de sindicalistas e uma cambada de lambões! Vão trabalhar, porra! Vão p'rá estiva 80 horas por semana, vão lavar escadas às 5h da manhã, vão ter dois empregos que é bom p'rá tosse, vão chapar massa em cima de andaimes, trabalham e ainda vêm a vista, vão servir às mesas, ficam com varizes, mas trabalham os gémeos, estão desempregados? Apanhem o cacilheiro gondoleiro. E a Luísa? Continua a subir a calçada...

Deus no céu, Soares dos Santos na terra. Pingo Doce, venha cá! Venha cá ver como se destrói a produção nacional, venha cá ver como se faz uma fundação instrumental. Pingo Doce: um litro de vinho aliena e estupidifica um milhão de portugueses. O Pingo é mais doce com a sede na Holanda, o Pingo quer ir ser ainda mais doce para o meio da Colômbia, o Pingo já é doce na Polónia do Wojtila. Pingo Doce: erva, coca, igreja e exploração, e tudo sem custos de produção.

Portugal não é a Grécia e eu estou desempregado.

E queria chamar para junto de mim Isaltino Afonso de Morais! E queria chamar para junto de mim Alberto João Jardim! E queria chamar para junto de mim Avelino Ferreira Torres! E queria chamar para junto de mim Valentim Loureiro! E queria chamar para junto de mim Oliveira e Costa! E queria chamar para junto de mim Alves dos Reis! E queria chamar para junto de mim Al Capone!

"Artigo 20.º, Acesso ao direito e tutela jurisdicional efectiva, ponto 1: A todos é assegurado o acesso ao direito e aos tribunais para defesa dos seus direitos e interesses legalmente protegidos, não podendo a justiça ser denegada por insuficiência de meios económicos." Alguém tire a venda à Justiça, por amor da Constituição.

"Artigo 74.º, Ensino, ponto 1: Todos têm direito ao ensino com garantia do direito à igualdade de oportunidades de acesso e êxito escolar. Artigo 75.º, Ensino público, particular e cooperativo, ponto 1: O Estado criará uma rede de estabelecimentos públicos de ensino que cubra as necessidades de toda a população. Artigo 64.º, Saúde, ponto 1: Todos têm direito à protecção da saúde e o dever de a defender e promover. Ponto 2: O direito à protecção da saúde é realizado: alínea a) Através de um serviço nacional de saúde universal e geral e, tendo em conta as condições económicas e sociais dos cidadãos, tendencialmente gratuito." Ah, maldito tendencialmente! À venda neste leilão temos também um artigo de grande valor económico, um maravilhoso contrato swap dirigido à sua PPP de estimação, esqueça a lei fundamental do seu país e governe-se com artigos financeiros do mais tóxicos que há. Sabe qual é o preço certo?

Portugal não é a Grécia e eu estou desempregado.

“Faz-me um bocadinho de impressão que 15 pessoas por mais eminentes que sejam tenham o poder de condicionar a vida de milhões de pessoas da forma como têm”(1), a saber: O Ulrich dos aguentas, o Catroga dos pintelhos, o Ferreira do Amaral das pontes, o Luís e o Nuno Amado dos bancos, o Ulrich dos aguentas, o Salgado dos espíritos santos, o Belmiro dos carnavais, o Durão dos caldos entornados, o Pires de Lima das cautelas, o Seguro do qual é a pressa, o Ulrich dos aguentas, o Moedas dos especialistas adolescentes, o Portas dos submarinos e dos vices, o Passos Coelho das enxadinhas para trabalhar, o Cavaco dos muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito...e as pistolas do Buiça? Emigraram com ele para a Suíça. Foi ao Campo Pequeno não havia viv'alma, no Terreiro do Paço estavam umas pessoas a correr patrocinadas pela telefonia, pegou na mulher e nos filhos e toca de zarpar. Já não teve de dar o salto, mas as lágrimas caíram-lhe na mesma.

"O que é que não temos? Satisfação! O que é que nós queremos? Revolução!"(2) Hoje é outra vez o primeiro dia do resto das nossas vidas, temos todos e todas um brilhozinho nos olhos. A austeridade não é inevitável. O pensamento não é único. Eu cruzei a ponte. Pára o porto, pára Coimbra, pára Braga, pára Viseu, pára o Funchal, pára Vila Real, pára Évora, pára tudo! O Alentejo é nosso outra vez. "A paz, o pão, habitação, saúde, educação. Só há liberdade a sério quando houver liberdade de mudar e decidir, quando pertencer ao povo o que o povo produzir."(3) "Não nos venham com cantigas, não cantamos para esquecer, nós cantamos para lembrar que só muda esta vida, quando tiver o poder o que vive a trabalhar."(4) Se o ataque é brutal, a greve é geral. Salários e pensões não pagam dívidas, o empobrecimento não paga dívidas, a exploração não paga dívidas. Trabalhadores e trabalhadoras em luta contra a carestia de vida. A troika cheira mal dos pés, a troika é burra, morra a troika, morra pum! A troika é a velha, mas nós não somos nêsperas.

Spartacus morreu na cruz, a Revolução Francesa morreu na cruz, o 25 de Abril ainda está na cruz, é tempo de o resgatarmos.

"Artigo 1.º, República Portuguesa, Portugal é uma República soberana, baseada na dignidade da pessoa humana e na vontade popular, e empenhada na construção de uma sociedade livre, justa e solidária."

Liberdade, igualdade, fraternidade. Eu sou Spartacus. O povo, quando estiver unido, jamais será vencido.

"Artigo 21.º, Direito de resistência: Todos têm o direito de resistir a qualquer ordem que ofenda os seus direitos, liberdades e garantias e de repelir pela força qualquer agressão, quando não seja possível recorrer à autoridade pública." A austeridade ofende os meus direitos, as minha liberdades e as minhas garantias.

Liberdade, igualdade, fraternidade. Eu sou Spartacus. Portugal não é a Grécia e eu estou desempregado, mas resisto. A maré vai-se levantar. Eu cruzei a ponte. Não há becos sem saída. O Povo contra-ataca. Nós ou a troika?

(Daqui)
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Ainda a propósito do «regresso»



Um texto de São José Almeida, no Público de ontem, realça e comenta bem dois temas importantes abordados nas muitas declarações recentes de José Sócrates: [1] a sua falta de inclinação «para voltar a depender do favor popular» e [2] o cariz milagroso do famigerado PECIV, que o agora engenheiro-mestre em Teoria Política continua a defender acerrimamente

[1] «"Ouça, tenho uma boa vida. Se voltei ao comentário político, é porque me quis defender, estava a ser atacado sem defesa. Não sinto nenhuma inclinação para voltar a depender do favor popular." (...) Esta é a forma como Sócrates responde à pergunta sobre uma eventual candidatura sua a Presidente da República, na entrevista ao Expresso. (...)

Quando o que caracteriza a democracia política é a igualdade de decisão entre todos, ou seja, a garantia de que a escolha política assenta no princípio de “uma pessoa, um voto”, Sócrates revela uma pesporrência que ultrapassa toda a sua anterior retórica. É que falar da hipótese de uma candidatura eleitoral como sendo algo por que se sente “inclinação” e da eleição em si como de uma circunstância em que o candidato se faz “depender do favor popular” manifesta um nível de arrogância, que ultrapassa os níveis de vaidade pessoal que num ou noutro momento da sua vida política demonstrou.» (...)

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[2] «O que parece mais difícil de compreender é que Sócrates acredite mesmo que a situação hoje em Portugal seria muito diferente do que é, se o seu PEC IV tivesse sido aprovado. É que, ainda que a aprovação do PEC IV não tivesse precipitado a assinatura do memorando de entendimento para assegurar que a União Europeia viabilizava empréstimos financeiros a Portugal, a realidade é que o PEC IV — assim como o PEC III — continha já muito do que eram a essência das orientações políticas que a União Europeia queria impor para alterar o modelo de organização do Estado português. Até porque à subida de impostos e aos cortes na despesa pública existentes já no PEC II no PEC III somaram-se o congelamento de pensões e os cortes no rendimento da função pública. E foi, recorde-se, no Orçamento para 2011 que foi criado o “imposto” sobre o 14.º mês.

Em suma, José Sócrates pode queixar-se do PSD, por Passos Coelho lhe ter tirado o tapete para chegar ele mesmo a primeiro-ministro. Mas não pode dizer que o PEC IV salvava o país da política de austeridade – simplesmente porque foi com Sócrates que a política de austeridade começou e foi Sócrates que cedeu às receitas neoliberais. A diferença entre Sócrates e o que fez e faz Passos é só de grau de intensidade.»
(Os realces são meus.)

P.S. – O texto na íntegra pode ser lido aqui
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