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28.12.13

Quando Lisboa parece Nápoles



Daqui, desta Lisboa compassiva,
Nápoles por Suíços habitada,
onde a tristeza vil, e apagada,
se disfarça de gente mais activa;

Daqui, deste pregão de voz antiga,
deste traquejo feroz de motoreta
ou do outro de gente mais selecta
que roda a quatro a nalga e a barriga;

Daqui, deste azulejo incandescente,
da soleira da vida e piaçaba,
da sacada suspensa no poente,
do ramudo tristôlho que se apaga;

Daqui, só paciência, amigos meus!
Peguem lá o soneto e vão com Deus...

Alexandre O'Neill

 
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Um ano inútil



Pessimista como quase sempre, certeiro hoje como muitas vezes, Miguel Sousa Tavares na sua crónica no Expresso:

«Não guardarei nenhuma memória particular deste ano, no que a Portugal diz respeito. Na verdade, quando passo mentalmente em revista os acontecimentos nacionais do ano, não me ocorre nada que tenha sido marcante, mas apenas acontecimentos que, em termos históricos, são irrelevantes. (...) 2013 foi um ano inútil. (...)

O objectivo político da maioria governamental para a primeira metade do ano que entra é apenas o de prolongar o estado vegetativo que vivemos em 2013. Desejam que o tempo avance sem perturbações como se esses cinco meses que faltam [para Julho próximo] não servissem para nada, a não ser para ver o tempo a passar. Não há pressa nem urgência, não há nada no calendário da acção governativa, coisa alguma importante para fazer. (...)

Não vejo que 2013, ou os dois anos e meio decorridos desde a vinda da sombria troika, tenham sido de alguma forma aproveitados para começar a mudar algumas coisas. É o mesmíssimo país, cada vez mais velho e agarrado às ilusões de sempre.» 
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Boas Festas, portugueses!



Expresso, 28/12/2013
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Sondagens? Mais uma



Depois de, há uma semana, a Eurosondagem ter divulgado estimativas quanto às intenções de votos dos portugueses se as eleições legislativas se realizassem agora, sabemos hoje, através do jornal i, os resultados da Pitagórica.

Que variações em relação ao estudo da mesma empresa em fim de Outubro? Não muitas quanto a PS e BE (exacta ou praticamente na mesma), CDS com mais 0,4%, PSD com mais 2% (bate-me que eu gosto...) e CDU com menos 2%. Mais: ao olhar para o que a Eurosondagem divulgou há uma semana, a convergência é também grande (*). Ou seja: quem não acredita em sondagens que se cuide, já que, neste momento, parece que apontam todas mais ou menos no mesmo sentido.

Quanto à Pitagórica de hoje: PS sempre à frente mas a quilómetros de uma maioria absoluta, aliança governamental a subir à custa do PSD, CDU a descer, BE tristemente constante na cauda da fila. A teórica maioria de esquerda, que se mantém (quase 55% se somarmos PS, CDU e BE), em termos de horizontes próximos futuros continua tão inútil como até agora.

Ou seja, globalmente e para usar um plebeísmo mais do que adequado na situação vertente: «Tudo como dantes, quartel-general em Abrantes.» 

(*) Eurosondagem em 20/12: PS 36,5 / PSD 26,5% / CDU 10% / CDS 8,5% / BE 6,5% 
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27.12.13

E se Joan Manuel Serrat faz 70 anos



...há que assinalar a data.

«El franquismo lo condena varias veces al ostracismo o en su caso al veto televisivo, entre otras prohibiciones, pero la figura de Serrat saldrá siempre victoriosa de los desafíos y censuras. Al otro lado del Atlántico países como Argentina, México o Chile lo acogen como uno de los suyos desde su primera visita a finales de la década de los sesenta. Se le compara con Gardel y se le abren los teatros hasta entonces vetados a la música popular. Durante los años más duros de las dictaduras latinoamericanas las canciones de Serrat se convierten en refugio o botiquín de primeros auxilios para muchos hombres y mujeres. Serrat es el cantor de la esperanza y la libertad.
Serrat cumple setenta años con el aval de ser uno de los intérpretes que ha colaborado en la transformación cultural de un país. La figura de Serrat ilumina estas casi cinco décadas de música popular como la de los grandes creadores que han ayudado a cambiar la sensibilidad de su tiempo y su sociedad. Un cantante y autor, a la vez, culto y popular.»






Joan Manuel Serrat e Mario Benedetti (poema)
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2013 e o intolerável êxodo



Há um ano escrevi este post:

A chapa que se vê na imagem está há anos na escada do meu prédio e tapa, mais ou menos atamancadamente, uma instalação eléctrica não sei bem de que tipo. Resultou de umas obras inadiáveis, decididas nessa instância absolutamente sinistra, que dá pelo nome de «reunião de condóminos».
Sempre olhei para ela de esguelha, não fosse o número da esquerda funcionar como presságio de repetição da calamidade recordada pela data da direita. 2013 não me dizia absolutamente nada, para além do temor dessa possibilidade, mas passou a dizer: seria o fim da crise, o último ano em que «os homens de negro» andariam por cá, a última vez em que não me pagariam dois meses de salário para os quais descontei durante décadas.
Hoje, parei de novo a observá-la sem saber o que pensar. Mas fotografei-a para a posteridade. Pode ser que algo de imprevisível aconteça em 2013, que seja o acordar deste pesadelo, que o Passos fuja para Angola, que o Cavaco vá viver com a Lagarde, que o Durão volte a ser maoista, que o Relvas assalte um banco… sei lá!... Mas isto há-de mudar um dia, não?

2013 está a acabar. Passos não fugiu para Angola, Cavaco não foi viver com a Lagarde, Durão não voltou a ser maoista, julgo que Relvas não assaltou nenhum banco e nós ainda não acordámos do pesadelo.

Por mais que o primeiro-ministro diga que isto já mudou para melhor, sabemos que pretende enganar-nos: não foram criados 120.000 empregos líquidos como ele afirma, a malfadada dívida é hoje mais incobrável do que nunca, os nossos benfeitores anunciam que nos esperam 15 ou mais anos de «ajustamento». Temos, sim, um entre muitos motivos para estarmos mais agrestes do que em Dezembro de 2012: aos 120.000 portugueses, jovens na sua maioria, que se viram obrigados a sair do país nesse ano, outros tantos se terão juntado em 2013. Como se a cidade do Porto e alguns arredores se esvaziassem totalmente em apenas dois anos. E isto corresponde a um retrocesso intolerável a uma situação que não esperávamos voltar a viver.

A placa da minha escada era afinal premonitória: 2013 não foi um ano mau, foi péssimo! 
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Querido, o emprego encolheu!



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Ricardo Araújo Pereira sobre «A insustentável sustentação da crise»



Na Visão de ontem, Ricardo Araújo Pereira substituiu a sua crónica habitual da última página da revista por um longo artigo, não propriamente humorístico, sobre o Acontecimento Nacional do Ano, em que defende que a crise política de 2013 foi fundamentalmente semântica: «o significado das palavras sofreu alterações profundas que a academia ainda não teve tempo de dicionarizar. Requalificação significa despedimento, resgatar significa subjugar, ajustar significa empobrecer e, e irrevogável não significa nada»

Nesse contexto, analisa, parágrafo a parágrafo, o irrevogável pedido de demissão de Paulo Portas. Por exemplo: 

«O segundo parágrafo é justamente célebre: "Com a apresentação do pedido de demissão, que é irrevogável, obedeço à minha consciência e mais não posso fazer." Há o pedido de demissão (que não se concretizou), há a irrevogabilidade (que não se verificou), há a alusão a uma alegada consciência (que não se detectou), e há o reconhecimento de mais não poder fazer (que não se confirmou). São 19 palavras, mas quase nenhuma significa o que costuma significar.»

E por aí fora...
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Nós e o Professor Pardal



«Há quem julgue que Portugal precisa de um Professor Pardal para nos explicar como nos devemos comportar, como devemos fazer leis, como devemos comer e como nos devemos vestir. Todos gostam do Professor Pardal mas, quase sempre, os seus inventos provocam destruições.

Temos muitos Professores Pardal disponíveis por aí: o professor FMI, a professora Comissão Europeia e a professora Angela Merkel. Todos acham, em nome da dívida e do défice, que Portugal deve ser assim ou assado. (...)

Em Portugal, há quem julgue que há mentes iluminadas na Europa e nos EUA que pensam por nós. Mas desde que os ingleses nos ofereceram o Tratado de Methuen e nos disseram como deveria ser a nossa indústria que se percebe que não há almoços grátis. Tudo se paga com juros altos. (...)

Portugal, como os outros países latinos, é diferente dos do Norte da Europa. Por isso uns comem bacalhau fresco, outros em filetes e alguns, salgado. Não há uma receita única, como julgam algumas mentes pretensamente cosmopolitas da nossa elite. Nestes dias deveríamos, ao olhar para a mesa, pensar nisso.»

Fernando Sobral

26.12.13

E por vezes




E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites, não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos.

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos

David Mourão-Ferreira


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No dia em que o grande timoneiro faria 120 anos

O que estas coisas me irritam! A parvoíce não escolhe latitudes

Nem Nostradamus saberia prever



«O próximo ano não terá fim. Não terminará a 31 de Dezembro, porque a austeridade ultrapassará o ano civil e o ano fiscal. Não terminará a 30 de Junho. Não é Nostradamus que o prevê. É o FMI, o grande astrólogo dos tempos modernos, quem o diz. 2014 durará, pelo menos, entre 10 e 15 anos. O que atirará o futuro de Portugal para a próxima geração. Se tudo correr bem do ponto de vista dos astrólogos do FMI e da União Europeia. E se esta sobreviver. E se o euro não implodir. E se Portugal conseguir criar riqueza para pagar a dívida irrevogável. Ou revogável a prazo, consoante a conjugação de astros. (...) Preso pela dívida e pelo défice, mas também por uma elite política que não tem uma estratégia própria para o país diferente da que é servida nas cartilhas de Berlim e Bruxelas, Portugal continuará a viver à bolina. (...)

É possível imaginar o que será 2014 ou é tudo um exercício de probabilidades matemáticas onde as contas de sumir serão sempre mais determinantes do que as de somar? A troika sairá de Portugal ou terá cá um quarto de hotel reservado, 365 dias por ano, para veranear quando lhe apetecer? (...)

Nostradamus não teria uma resposta para um país que nem se governa nem se deixa governar. E que só tem receio. E por isso emigra. Continuamente.»

25.12.13

Para acabar o dia



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Ladainha dos próximos natais



 
Ladainha dos póstumos Natais

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito

David Mourão-Ferreira, in «Cancioneiro de Natal»
 

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24.12.13

Véspera



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Natal e os mercadores



El hijo

Nadie sabe cómo: Yahvé, el único dios que nunca hizo el amor, fue padre de un hijo.

Según los evangelios, el hijo llegó al mundo cuando Herodes reinaba en Galilea. Como Herodes murió cuatro años antes del comienzo de la era cristiana, Jesús ha de haber nacido por lo menos cuatro años antes de Cristo.

En qué año, no se sabe. Tampoco el día, ni el mes. Jesús ya había pasado casi cuatro siglos sin cumpleaños cuando san Gregorio Nacianceno le otorgó, en el año 379, certificado de nacimiento. Jesús había nacido un 25 de diciembre. Así, la Iglesia Católica hizo suyo, una vez más, el prestigio de las idolatrías. Según la tradición pagana, ése era el día en que el sagrado sol iniciaba su camino contra la noche, a través de las tinieblas del invierno.

Haya ocurrido cuando haya ocurrido, seguramente no se festejó aquella primera noche de paz, noche de amor, con esa cohetería de guerra que ahora nos deja sordos. Seguramente no hubo estampitas mostrando al bebé de rulitos rubios que aquel recién nacido no era; como no eran tres, ni eran reyes, ni eran magos, los tres reyes magos que iban camino al pesebre de Belén, tras una estrella viajera que nadie vio nunca. Y seguramente, también, aquella primera Navidad, que tan malas noticias traía para los mercaderes del templo, no fue ni quiso ser una promesa de ventas espectaculares para los mercaderes del mundo.

Eduardo Galeano - Espejos, una historia casi universal

O que quer que isso queira dizer para cada um



... Bom Natal para os que passarem por aqui. 
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23.12.13

Notáveis da diáspora? Sem Ronaldo?



Aníbal Cavaco Silva, Pedro Passos Coelho, Paulo Portas, Durão Barroso, António José Seguro, ministros e dirigentes de empresas em Portugal estiveram reunidos com 30 portugueses que saíram do país para (legitimamente) «ganharem o seu» e que tiveram nisso mais sucesso do que muitos milhões de compatriotas seus.

Alguns desses ilustres emigrantes, escolhidos a dedo, já tinham aparecido no último «Expresso da 1/2 Noite» e nem o que então disseram saiu do plano do puro bom senso, nem pareceram dispostos a fazer algo de extraordinário por Portugal. (E por que o fariam??? )

Por isso mesmo, não se vislumbra o que habilita especialmente estes «conselheiros de Portugal no mundo» (!???) a debaterem os três temas que terão estado em análise – «mobilidade inteligente», «financiamento alternativo das empresas portuguesas» e «discussão sobre se Portugal está pronto para o futuro» –, nem se percebe a importância dada à sessão por todas as forças supremas do país, a não ser por um provincianismo tristemente pacóvio de que não conseguimos libertar-nos.

E já agora: o Ronaldo terá sido convidado? Há alguém que venda melhor Portugal?

Quanto à foto de família, ela é elucidativa e deve ser guardada para memória futura: estão lá (quase) todos e nada faz crer que nos livremos deles tão cedo. Mas não resisto a copiar para aqui um comentário que o meu amigo João Batata fez no Facebook: «Reconhecem que é Penalti. Estão todos com as mãos a defenderem-se da bolada!» 
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Está quase



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Ainda bem que não votamos nos comunistas



Um texto de Rosa María Artal, publicado pela ATTAC Espanha, e que é para ser lido com atenção.

Menos mal que no votamos a los comunistas

No votéis a los comunistas porque, cuando gobiernen, os quitarán vuestras casas (“Un desahucio cada 15 minutos”).  Nacionalizarán las compañías eléctricas y os subirán el recibo de la luz (“El recibo de la luz se disparará más de un 11% en enero”). Se gastarán todo el dinero de vuestros impuestos en nacionalizar los bancos (“El Gobierno destina otros 41.000 millones de dinero público para ayudar a la banca. Los avales del Estado pasan de 217.043 a 258.000 millones”). Y arruinarán a los pequeños empresarios impidiendo que se puedan financiar “(La financiación a las empresas desciende un 10% y también toca mínimos de toda la crisis”). 


Como resultado de todo ello, vendrán tiempos de pobreza y hambre (“La crisis obliga a ‘millones de personas’ a alimentarse de la basura, según la Fadsp”). 

Además, os quitarán las libertades, como hicieron en Rusia, os multarán si os manifestáis (“Multas de 600.000 euros por convocar una protesta en Twitter ante el Congreso”) o incluso comprarán un camión para disolver con chorros de agua las manifestaciones ciudadanas “(La Policía comprará un camión antidisturbios lanza agua”) . 

Por supuesto, los comunistas intentarán controlar a través del Estado tu vida privada y tus principios morales (“150 organizaciones suscriben un pacto contra la reforma de la Ley del Aborto”; “La asignatura de Religión ‘resucita’ en las aulas”). 

Menos mal que, al final, no votamos a los comunistas. De la que nos hemos librado.  
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Nesta Lisboa de outras eras



O «Natal do Sinaleiro» era tradição incontornável. Os primeiros sinaleiros terão aparecido em 1927, parece que há cinco anos andavam por aí quatro, não sei se sobra neste momento algum. 
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Um Governo avestruz



... mas que não corre, nem consegue eliminar os parasitas.

«Diz-se que a avestruz esconde a cabeça quando se sente ameaçada. Olhando para o Governo não seria difícil descortinar nele o perfil desta avestruz mítica, que teria medo não da sua sombra, mas do país que pretende moldar ao seu modelo.

Não é assim na realidade. Poderosa, a avestruz corre a mais de 70 quilómetros por hora, o que lhe permite fugir a qualquer predador, mesmo que ele seja o Tribunal Constitucional ou o PS. Os especialistas dizem que a avestruz coloca a cabeça na areia para que a temperatura desta elimine os parasitas ou para passar despercebido. Esta tese tem mais a ver com o actual Governo. A sua postura de avestruz tem mais a ver com esta versão mais moderna.»

Fernando Sobral, no Negócios de hoje.
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Dantes



... comprava-se perus no Largo do Rato em Lisboa. Agora, nem isso.
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22.12.13

Espanha: aborto e herança do franquismo



O vergonhoso retrocesso que a Espanha está a viver, depois da aprovação de um projecto-lei que limita drasticamente o direito ao aborto, tem provocado ondas de protesto e de indignação dentro e fora do país.

No jornal Público (espanhol), Lidia Falcón, fundadora da Organização Feminista Revolucionária (1977) que esteve na origem do Partido Feminista de Espanha, põe o dedo na origem de tudo o que está a acontecer: a ferida profunda, ainda não sarada, que é herança do franquismo.

«No creí que se atrevieran. Durante dos años, y antes, en la campaña electoral, los dirigentes del PP han estado amenazando a las mujeres, y en general a toda la sociedad, con penalizar, prohibir y dificultar la posibilidad de practicar el aborto. (...)

Transcurridos treinta años de aquellas luchas, parece una pesadilla encontrarnos de nuevo en la calle gritando que nuestro cuerpo es nuestro, que nuestros vientres y su capacidad para procrear no pertenecen ni a la Iglesia católica, ni al legislador, ni al juez ni al médico, ni siquiera al hombre que ha engendrado el embrión, todos los poderes que siempre se han apropiado de la capacidad de reproducción de las mujeres, haciéndose dueños de su útero y de su vida. (...)

Quiero hacer una reflexión de lo que esta ley supone desde una óptica política. Es una demostración más, con la Ley de Memoria Histórica, el archivo de los procesos contra los asesinos franquistas, el abandono de la búsqueda de los restos de las víctimas en todas las cunetas de España, la ocultación de la historia de este siglo último en las escuelas y los medios de comunicación, de que el franquismo ni se ha extinguido ni se ha archivado ni se persigue, sino que sigue gobernando.

La persecución del aborto fue una de las señas de identidad del fascismo que perduró en nuestro país bastante más que los cuarenta años que se señalan de dictadura. (...)

Si alguna revancha tenía que tomar el gobierno de ultra derecha que nos oprime contra los tímidos avances que el feminismo había logrado, si de alguna manera podía vengarse de que las mujeres ya no seamos las esclavas que disponía la legislación de la dictadura, si finalmente tenía que presentarse ante la Iglesia católica, su gran aliada y cómplice, como el garante de los principios tridentinos, tenía que ser volviendo a prohibir el derecho de la mujer a ser dueña de su cuerpo y de su destino. En el ADN de la derecha, de la Iglesia, de todas las fuerzas reaccionarias está dominar a las mujeres, someterlas a su insustituible labor maternal, mantenerlas como las fuerzas reproductoras a las que hay que obligar a parir, tanto si lo desean como si no.»
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António Gedeão – «Dia de Natal»



Hoje é o dia de era bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.

É dia de pensar nos outros- coitadinhos- nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua
miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.

Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
Entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.

De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus
nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso
antimagnético.)

Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.

Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de
cerâmica.

Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.

A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra- louvado seja o Senhor!- o que nunca tinha pensado
comprado.

Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.

Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.
De manhãzinha,
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.

Ah!!!!!!!!!!

Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.

Jesus
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.

Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
Tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.

Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.

Dia de Confraternização Universal,
Dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.

António Gedeão, «Dia de Natal»
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Isso era dantes!


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Porque (ainda?) temos um Estado de direito



«Nunca um Governo teve tantos diplomas relevantes para a sua governação chumbados. É difícil perceber qual a verdadeira razão que leva o Governo a insistir em desrespeitar a Constituição que jurou respeitar. O mais provável é ser uma combinação de negligência, vontade de afrontar o texto constitucional, desprezo pelo órgão fiscalizador e desconhecimento do papel da lei fundamental numa democracia. (...)

Não há uma única Constituição duma democracia liberal que consinta na suspensão do princípio da igualdade, confiança ou proporcionalidade em função dum problema económico. Ou seja, que consinta a suspensão do Estado de direito.

Eu sei que já cansa repetir, mas, pelos vistos, há quem não tenha ouvido ou não queira ouvir: não têm sido normas constitucionais promovidas pelo ambiente revolucionário (que aliás há muito foram retiradas da Constituição nas suas várias revisões), nem delírios esquerdistas, que têm suportado as deliberações do TC, são princípios comuns a todas as democracias e Estados de direito.»

Pedro Marques Lopes
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