Páginas

4.1.14

Quem já era grande


... nos anos 60 do século passado (ou mesmo um pouco antes...), certamente que ouviu e dançou ao som dos Everly Brothers. Ontem morreu Phil, o mais novo dos dois.


Quem não recorda?


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Esmola



«Não sei se há humilhação maior do que ter de estender a mão suja, que salta de um corpo e uma roupa também sujos, pedindo, com o corpo inclinado e o olhar perdido e suplicante: "Qualquer coisinha, tenho fome." Se é uma criança, com uma mãozinha pequenina, um velho, um deficiente, suplicando "por caridade, por caridade", parte-se-me a alma. Sinto-me muito envergonhado por mim e pela sociedade, e dou, numa indizível atrapalhação, pois precisaria de dizer-Ihes que não é por caridade, mas por dever. E desaparecer.» 

Anselmo Borges
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Vem aí o «Observador»



Vem aí um novo jornal online e copio o primeiro conteúdo da página experimental, não vá o futuro alterá-lo.

«O Observador é um meio de comunicação digital que nasce sem os condicionamentos do papel e assume o seu caráter inovador.
O Observador aproveita a oportunidade de nascer num momento de crise e de mudanças, um tempo que nos obriga a pensar e agir mais e melhor.
O Observador é independente, fruto de um novo grupo de comunicação que é 100% português e tem visão global.
O Observador tem um ponto de vista editorial: defende sem ambiguidades a democracia representativa, a economia de mercado e uma sociedade aberta e global – por isso estimulará debates públicos e não hesitará em tomar posição.
O Observador é livre, é de todos e é para todos, porque os factos não têm cor nem interesses.
No Observador vamos sempre reportar a verdade, tendo a transparência e a ética como princípios normativos. Se e quando errarmos seremos rápidos a reconhecer e a corrigir. Sabemos que a credibilidade é a chave de um bom trabalho, e que o jornalismo hoje é principalmente uma conversa com os leitores.
Vamos dando notícias.»

Nomes sonantes não faltam, José Manuel Fernandes e Rui Ramos imprimirão carácter e os muitos e galardoados investidores (António Carrapatoso, Alexandre Relvas, João Talone, Filipe de Botton...) não brincam em serviço.

Tudo «boa gente» que não permite que alguém duvide, nem por um minuto, que o novo jornal será «livre» e que «os factos não têm cor nem interesses»? Parvos seremos, muitas vezes, mas não tanto. 
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O rosto da Europa



«Olli Rehn é o rosto da Europa a que estamos presos como se fosse um colete-de-forças. Um burocrata que lembra um dos personagens cinzentos de "O Processo" de Franz Kafka. Ele olha para Portugal, como o tribunal olhava para Joseph K. (...)

Há uma frase que mostra que os líderes europeus deixaram de ser estadistas com um sonho; são meros contabilistas. Diz o senhor: "O sucesso ou o fracasso da estratégia para repor a sustentabilidade da divida publica será aferido pelo acesso de Portugal aos mercados de divida soberana a taxas de juro comportáveis". Ou seja, o sucesso de Portugal não será medido pelo clube a que pertence, mas sim aos "mercados", essa entidade invisível, líquida e não identificável. Não é a Europa, que sabemos quem é (Durão Barroso, Rehn, Merkel, Draghi) que aferirá do nosso sucesso ou insucesso. Eles apenas aplicam os modelos. (...)

O que apavora no meio do "buraco negro" que é o pensamento político de Olli Rehn, é o futuro de Portugal e dos portugueses. Nestes anos o Governo passou da fase de "farei o que for necessário, incluindo o que dizia que não ia fazer", à da "faço o que me obrigam a fazer, mesmo que não me goste". Como se tudo fosse uma fatalidade, à espera de uma nova folga eleitoral. (...) Enquanto Olli Rehn vai funcionando como actor de uma comédia sem piada, o país percebe que todo o esforço que se tem feito vai apenas servir para solidificar novos interesses e cumplicidades e criar um modelo económico com base nas exportações onde os salários baixos são a nossa mais-valia.»

Fernando Sobral, no Negócios de ontem. 
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3.1.14

Dia para isto



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A Europa em saldos



Não são apenas os centros comerciais e as lojas tradicionais que estão em época de saldos, é a Europa também. Com uma diferença: neste caso, não há data de fim à vista e ninguém sabe quando sairá a «Nova Colecção».

Um texto, hoje publicado no i, recorda alguns artigos do catálogo disponível para não europeus bem endinheirados, desde castelos na Polónia a arquipélagos gregos e ao desejadíssimo passaporte da EU à venda em Malta. Chineses e árabes (mas não só) serão os mais interessados e comprar seis ilhas no mar Jónico, para lá instalar as suas três mulheres e vinte e quatro filhos, foi uma pechincha para o emir do Qatar, enquanto um neozelandês deu uns míseros 2,9 milhões de euros por uma ilha paradisíaca ao largo da costa da Sardenha.

Parece que nem todas estas « privatizações» têm sido pacíficas, mas vão-se fazendo. Quem não tem cão caça com gato e quando se acabam os anéis vão indo os dedos.

Cá no burgo, o dr. Portas está feliz com as 471 autorizações de residência «visto gold» já aprovadas e são os chineses que mais nos amam, logo seguidos por cidadãos da Rússia, Brasil, Angola e África do Sul.

E por falar em Angola: os telejornais mostraram dezenas de festas à disposição dos portugueses nesta época natalícia, mas não penetraram (nem tinham de penetrar...) no mundo de faustosas celebrações de famílias angolanas que se reuniram em Portugal, vindas de Luanda e não só, para em conjunto celebrarem as efemérides nos seus luxuosíssimos apartamentos ou moradias. Desfilaram carros de gama mais do que topo, escorreu champanhe, sobraram lagostas. E registo (nem sei se para memória futura ou se passada) um detalhe de que tive conhecimento: as sobras foram tantas numa das ceias, que os restos foram dados a instituições de caridade da vizinhança – com naturalidade e sem sobranceria, note-se.

A História de Portugal do avesso, de pernas para o ar, para o bem e para o mal? Sei lá!... 
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Reformados do país inteiro



... calibrai-vos! 

Calibrar: «Procedimento que consiste em ajustar o valor lido por um instrumento com o valor padrão de mesma natureza. Apresenta caráter activo, pois o erro, além de determinado, é corrigido.» 
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Há 54 anos



No dia 3 de Janeiro de 1960, Álvaro Cunhal, Carlos Costa, Francisco Martins Rodrigues, Francisco Miguel, Guilherme da Costa Carvalho, Jaime Serra, Joaquim Gomes, José Carlos, Pedro Soares e Rogério de Carvalho fugiram da Fortaleza de Peniche, numa iniciativa absolutamente espectacular.

A mais completa e mais documentada descrição que já li da fuga foi feita por José Pacheco Pereira, em 31 páginas do terceiro volume da biografia de Álvaro Cunhal (*).

«Mesmo que, por qualquer motivo, a fuga tivesse sido abortada na sua segunda fase – o trajecto para os esconderijos na zona de Lisboa –, nem por isso deixaria de poder ser considerada um enorme sucesso político para o PCP e um momento alto contra o regime de Salazar. Poucas fugas de carácter político se lhe podem comparar, mesmo incluindo as mais célebres fugas ocorridas durante a II Guerra Mundial. Na história do movimento comunista, é um acontecimento ímpar.» (p. 724)

(*) Álvaro Cunhal. Uma Biografia Política. O Prisioneiro (1949-1960), volume 3, p.702-732.

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2.1.14

Em busca da Europa perdida



De um texto de João Caraça, no Público de hoje:

« A Europa foi atraída para uma segunda Grande Guerra, da qual saiu derrotada, devastada, dividida entre uma aliança com os Estados Unidos a ocidente e um pacto com a União Soviética a leste. A obsessão americana com a segurança bem como o terror de que os soviéticos chegassem às margens do Atlântico induziu as nações europeias aliadas, em reconstrução sob a alçada do Plano Marshall, a reagruparem-se em comunidade económica. A propaganda americana contra a ameaça do comunismo centrava-se sobre o conceito de mundo livre, defensor da democracia, em luta pelos direitos humanos. A palavra “capitalismo” desapareceu do domínio público e da política. E a esquerda social-democrata viu realizado o seu sonho de conquistar o poder. A grande promessa – transformar o mundo – que carregava no seu ventre desde o século XIX iria finalmente ser cumprida. De facto, a esquerda criou o Estado-providência nas suas várias declinações nacionais, mas foi basicamente surpreendida e dizimada pelas “crises do petróleo” e pela globalização financeira e económica que se lhes seguiram. Na realidade, a esquerda não transformara o mundo. Esquecera-se de que existia o capitalismo e de que o sistema-mundo capitalista em evolução não tolerava pretensões de hegemonia militarmente desestruturadas. (...)

Não havia assim qualquer hipótese de o voluntarismo e os instrumentos da esquerda (os Estados-providência principalmente) resistirem ao confronto com a política de direita e a sua retórica de liberalização, desregulação e privatização. Talvez porque o campo da direita se tenha tornado internacional, seguindo os ditames do capitalismo informacional de hoje, ao passo que a esquerda se foi fragmentando e acantonando, tentando defender o que resta da soberania (os territórios) das nações, ou mesmo atirando-se para a frente se a oportunidade parece espreitar. Mas é claro que assim também não irá longe.»

P.S. – Porque não sei se o link funciona, e porque penso que o texto deve ser lido na íntegra, aqui fica:

Fantástico 2014



Ricardo Araújo Pereira estreia-se no novo ano.

«Se os indicadores são assim tão bons, porque é que a troika continua a mostrar-nos o dedo do meio? (...)
No primeiro semestre, Passos Coelho encontrará um sapo muito feio, a quem dará um beijo de amor. E o anfíbio transformar-se-á num lindo superavit da balança comercial. Tudo indica que vamos ter um 2014 fantástico.»

Na íntegra AQUI.
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A presidência grega e a ficção europeia



«Na Grécia, há 350 mil lares sem luz porque os seus habitantes não têm dinheiro para a pagar. Como não há forma de pagar o aquecimento das casas, os gregos fazem lareiras. (...)

No meio de um túnel sem lâmpadas, os gregos perguntam-se como os seus antepassados filósofos: se os olhos são a fonte da luz porque é que os objectos não são visíveis na obscuridade? Ou melhor, se a UE e a democracia são o gerador da luz porque é que o presente é cada vez mais negro? É esta Grécia que ocupa, desde o dia 1 de Janeiro, a presidência da União Europeia. (...)

A Grécia é presidente, mas não é. A presidência é um poder formal, fictício, para polir o ego de quem ocupa o lugar. O verdadeiro poder está longe: entre Bruxelas, Berlim e Frankfurt. (...) A Grécia faz agora o seu papel, fingindo que é o actor principal, na Divina Comédia que continua a ser um êxito popular nos Parlamentos europeus. A luz prometida pela UE é um semáforo avariado com via verde apenas para alguns países. O resto é uma ficção.»

Fernando Sobral, no Negócios de hoje. 
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1.1.14

E o conselho foi seguido



(1942)
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É bom não esquecer



1 de Janeiro é data para recordar a Revolta de Beja e alguém repescou hoje, no Facebook, um texto de Paulo Varela Gomes, que eu divulguei há dois anos (*). Volto a disponibilizá-lo: à medida que os anos passam, vai-se esbatendo a memória do que foi o sofrimento dos filhos dos grandes lutadores antifascistas.

Aquilo que é necessário

Na manhã do dia 1 de Janeiro de 1962, eu, o meu irmão e as minhas duas irmãs fomos acordados, não pelo meu pai ou a minha mãe como era costume, mas por um tio e uma tia. Mandaram-nos vestir um roupão sobre os pijamas e acompanhá-los. Atravessámos a curta distância que separava da casa do meu avô materno a casa onde vivíamos, e à qual nunca mais voltei. Durante semanas só nos disseram coisas vagas. As empregadas do meu avô calavam-se de repente quando passávamos. Soubemos depois que a família não tinha a certeza que o meu pai sobrevivesse aos ferimentos de bala que sofrera no ataque ao quartel de Beja na madrugada daquele dia 1. A minha mãe estava presa. Voltou para casa um ano e meio depois. Ele, ao fim de seis anos. Lembro-me: a minha mãe, a quem não deixaram abraçar os filhos pequenos, encharcando com lágrimas os punhos cerrados de fúria com que agarrava as grades do parlatório de Caxias. O nosso terror. O meu pai, numa cela da Penitenciária de Lisboa, entubado, magríssimo, a voz quase apagada, um fantasma desvanecido contra a luz da janela, aquele homem que eu recordava grande, alegre, garboso na sua farda. Desapareceu de vez a infatigável alegria do meu irmão, um miúdo palrador e de olhos cheios de luz. Ganhou dificuldades de fala e endureceu. Nunca mais encontrou a paz. Por mim, fui adolescente a querer ser homem sem ter para isso pai. Não foi fácil e não se tornou menos difícil depois. As minhas irmãs, eu sei lá, nunca falamos disso. A família juntou-se para nos acolher e ajudar, houve amigos que estiveram à altura da ocasião, mas vivíamos com alguma dificuldade. Quando a minha mãe foi libertada, tinha perdido a profissão que a PIDE a impediu de retomar. Arranjou os empregos possíveis. Dormia pouquíssimo, trabalhava loucamente e aguentou tudo. Só perdeu a juventude e a saúde.

Quando visitávamos os meus pais em Caxias, em Peniche, encontrámos pessoas que sofreram muito mais que nós e estavam muito mais desamparadas. Especialmente os familiares de militantes do PCP, gente heróica sem bravata. Aprendemos que, para além dos nossos pais e dos que, com eles, foram a Beja (alguns, com menos sorte e resistência física que o meu pai, para lá morrerem), havia em Portugal muitas pessoas rectas que, ao fazerem o que era necessário fazer, causaram danos colaterais como aqueles que a minha família sofreu. Aprendemos que é mesmo assim, que nada se consegue sem danos colaterais. Aprendemos também, todavia, que a maioria das pessoas não suporta esta ideia e quer somente paz e sossego. É a vida, mas felizmente haverá sempre aqueles que são maiores que a vida. Se os não houvera, a iniquidade venceria necessariamente.

Coincide com os 50 anos da Revolta de Beja a perseguição movida pelo regime que hoje vigora em Portugal contra Otelo Saraiva de Carvalho, o operacional responsável pela revolta seguinte, o 25 de Abril de 1974. Que isso não nos impeça de dizer e fazer o que é necessário. A iniquidade não pode vencer.

(*) Divulgado em 7/1/2012, sem link, no suplemento, P2 do Público, o texto está agora online (acabo de o descobrir...), inacreditavelmente atribuído, pelo próprio jornal, a outro autor!

P.S. (7 de Janeiro): depois de contacto meu com o jornal, o erro foi corrigido e a autoria está agora atribuída a PVG.
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Só de pensar que Cavaco vai falar mais logo...



... nem sei se não tenho saudades dos discursos, de antologia, que Américo Tomás fazia no primeiro dia de cada ano. Pelo menos ríamo-nos! Hoje, nem isso...

«Decorreu célere, como os que o precederam, o ano que acabou de sumir-se na voragem do tempo. Outro o substituiu, para uma vida igualmente efémera. Nesta mutação constante, afigura-se haver agora um fenómeno de visível incongruência, pois, quando tudo se processa a ritmo que se acelera constantemente, pareceria lógico que de tal circunstância resultasse um aparente alongamento no tempo e não precisamente o inverso. Se sempre o presente, mal o é, se torna logo em passado, nunca, como nos nossos dias, tão evidente verdade pareceu mais evidente.» (1 de Janeiro de 1966)

«À medida que a população aumenta, vai aumentando, também, a maldade; e tudo seria diferente se, em vez de aumentar a maldade, aumentasse a bondade.» (1 de Janeiro de 1969)

«Eis-nos chegados ao primeiro dia da oitava década do século XX, pelo que precisamente de hoje a trinta anos surgirá, para os que então viverem, o primeiro dia do século XXI.» (1 de Janeiro de 1971)
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Bom dia



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31.12.13

Keep calm


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E pronto



Excelente 2014 para todos os que por aqui passarem!
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Vemos, ouvimos e lemos



É quase um ritual: em 31 de Dezembro regresso à passagem do ano de 1968 para 1969. Há sempre quem não saiba que a Cantata da Paz, tão divulgada por Francisco Fanhais depois do 25 de Abril, foi por ele «estreada» nessa noite, numa Vigília contra a guerra colonial, com letra propositadamente escrita para o efeito por Sophia de Mello Breyner.



Em 31 de Dezembro de 1968, cerca de cento e cinquenta católicos entraram na igreja de S. Domingos, em Lisboa, e nela permaneceram toda a noite, naquela que terá sido a primeira afirmação colectiva pública de católicos contra a guerra colonial. O papa Paulo VI decretara que o primeiro dia de cada ano civil passasse a ser comemorado pela Igreja como dia mundial pela paz e, alguns dias depois, os bispos portugueses tinham seguido o apelo do papa em nota pastoral colectiva.

Assim sendo, nada melhor do que tirar partido de uma oportunidade única: depois da missa presidida pelo cardeal Cerejeira, quatro delegados do grupo de participantes comunicaram-lhe que ficariam na igreja, explicando-lhe, resumidamente, o que pretendiam com a vigília:

«1º – Tomar consciência de que a comunidade cristã portuguesa não pode celebrar um “dia da paz” desconhecendo, camuflando ou silenciando a guerra em que estamos envolvidos nos territórios de África.

2º – Exprimir a nossa angústia e preocupação de cristãos frente a um tabu que se criou na sociedade portuguesa, que inibe as pessoas de se pronunciarem livremente sobre a guerra nos territórios de África.

3º – Assumir publicamente, como cristãos, um compromisso de procura efectiva da Paz frente à guerra de África.»

Entregaram-lhe também um longo comunicado [que está online] que tinha sido distribuído aos participantes, no qual, entre muitos outros aspectos, era sublinhado o facto de a nota pastoral dos bispos portugueses, acima referida, tomar expressamente partido pelas posições do governo que estavam na origem da própria guerra, ao falar de «povos ultramarinos que integram a Nação Portuguesa».

Apesar de algumas objecções, o cardeal não se opôs a que permanecessem na igreja, ressalvando «a necessidade de uma atitude de aceitação da pluralidade de posições».

Pluralidade não houve nenhuma e, até às 5:30, foram discutidos todos os temas previstos e conhecidos: vários testemunhos, orais ou escritos, sobre situações de guerra na Guiné, Angola e Moçambique.

Hoje, tudo isto parece trivial, mas estava então bem longe de o ser. Aliás, seguiu-se uma guerra de comunicados entre Cerejeira e os participantes na vigília. Com data de 8 de Janeiro, uma nota do Patriarcado denunciou «o carácter tendencioso da reunião», terminando com um parágrafo suficientemente esclarecedor para dispensar comentários: «Manifestações como esta, que acabam por causar grave prejuízo à causa da Igreja e da verdadeira Paz, pelo clima de confusão, indisciplina e revolta que alimentam, são condenáveis; e é de lamentar que apareçam comprometidos com elas alguns membros do clero que, por vocação e missão, deveriam ser não os contestadores da palavra dos seus Bispos, mas os seus leais transmissores».

A PIDE esteve presente (há disso notícia em processo na Torre do Tombo), mas não houve qualquer intervenção policial. Alguns jornais (Capital e Diário Popular) noticiaram o evento, mas sem se referirem ao tema da guerra colonial – terão provavelmente tentado sem que a censura deixasse passar. A imprensa estrangeira, nomeadamente algumas revistas e jornais franceses, deram grande relevo ao acontecimento. E foi forte a repercussão nos meios católicos.

P.S. – Quatro anos mais tarde realizou-se uma outra vigília pela paz, na Capela do Rato, com consequências bem mais gravosas porque envolveu uma greve de fome, prisões e despedimentos da função pública.
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É isso!


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Quando o futuro parece já ter acontecido



José Vítor Malheiros no Público de hoje:

«George Steiner fala num texto feliz de como, durante a Revolução Francesa, todo o futuro parecia estar finalmente ali, à mão de semear, de como todo o futuro parecia que ia acontecer “segunda-feira de manhã”. Hoje, em Portugal, e em grande parte da mesma Europa da Revolução Francesa, o futuro parece já ter acontecido todo há muitos anos e a sua simples invocação parece um cruel exercício de cinismo, quando não de hipocrisia.

E, no entanto, devia ser fácil despertar paixões e mobilizar vontades. Devia ser fácil reunir milhões de cidadãos em torno de um programa de justiça social e de decência, de progresso económico e de emprego, de qualificação e inovação, em vez da apagada e vil tristeza da actualidade, da destruição do Estado para enriquecer os mais ricos e para empobrecer os mais pobres.» 
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30.12.13

O melhor que guardo de 2013



... cá dentro, foram os dias que passei lá fora – umas quatro semanas ao todo, mais dia menos dia.

Lamento ter desiludido os fãs do dr. Cavaco (que los hay...), aqueles que corresponderam ao seu apelo de passar férias intramuros para melhorar o PIB português, mas nunca tive vocação para esvaziar o mar como uma simples concha, para além de o meu patriotismo já ter tido melhores dias.

Se numa primeira curta escapadela não passei da Catalunha (e, sim, gostei muito de ver e rever Gaudí), e se numa segunda decidi conhecer a Escócia que não me encantou (excepção feita para Edimburgo), foi sem dúvida a Etiópia que marcou o meu ano de 2013.

Fiquei «prisioneira», não há um único dia em que não pense que gostava de conhecer melhor, muito melhor, esse país e as suas gentes, tão diferentes de tudo o que tinha visto até então. Enquanto lá estive escrevi alguns textos (*), apressados porque o tempo era escasso, incompletos por falta de engenho e arte.

Desse país extensíssimo (o segundo de África), percorri apenas algumas centenas de quilómetros onde quase tudo é totalmente verde e fértil, com montes e vales bem cultivados (o celeiro etíope) e milhares de cabeças de gado que tornam o país praticamente autossuficiente em termos de alimentação. Mas falta tudo o resto e a pobreza é portanto extrema, as estradas e muitas outras infraestruturas são quase inexistentes ou muito rudimentares. Como mais do que rudimentares são os instrumentos usados na agricultura, numa terra onde «quem trabalha são as mulheres e os burros» – burros que são mesmo um ícone, tão grande é a sua quantidade, tão importantes as funções que exercem como meio de transporte de pessoas e de mercadorias.

Mas não há só paisagem, há também um povo altivo, orgulhoso da sua etnia («a Norte temos os árabes, a Sul os negros, nós estamos no meio»...), do facto de nunca ter sido colonizado e da sua História e das suas lendas sem fronteiras muito distintas.

E depois há a Cidade Imperial de Gondar e, acima de tudo, as igrejas de Lalibela! Não há palavras que possam dar uma ideia, mesmo aproximada, do que são esses doze templos, escavados na rocha e em muitos casos ligadas por túneis, distribuídos por dois conjuntos separados por um rio, estando fisicamente afastado o décimo primeiro: último a ser construído e o mais espectacular, com a sua forma em cruz, enterrado, e com quinze metros de altura.

Fico por aqui, mas com um conselho: se querem ver mesmo tudo isto e muito mais, não percam um excelente documentário – Mar das Índias, os terraços de Prestes João –, magnificamente apresentado por Miguel Portas. Não perderão o vosso tempo.

(*) Se se clicar, no fim deste post, na Label ETIÓPIA, eles aparecem todos. 
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Malvados! Não bastava o Constitucional?!

New York, New York





Durante todo o mês de Outubro, Banksy foi «grafitando» ruas de Nova Iorque, numa espécie de grande exposição a céu aberto. Na primeira obra, pode-se ler: «O graffiti é crime». 

No P3 Público, 49 belas imagens.
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A guerra contra os velhos



Um texto de João Cravinho, no Público de hoje – Solidariedade e equidade entre gerações e a infame guerra aos velhos – merece ser lido na íntegra, não porque o tema seja novo, mas porque é abordado com frontalidade pouco habitual. Só estará acessível para alguns, mas ficam aqui estes excertos.

«Para pessoas decentes e bem formadas, a guerra aos velhos promovida pelo primeiro-ministro a pretexto da justiça e equidade entre gerações é absolutamente infame.

A solidariedade e equidade entre gerações são princípios civilizacionais basilares. É nesse terreno fecundo que se enraíza e aprofunda a ética de responsabilidade que, por todo o lado e a cada momento, procura construir as necessárias pontes entre presente e futuro, individual e coletivo.

Nenhuma sociedade contemporânea minimamente decente e justa será sustentável contra essa ética de responsabilidade alicerçada na solidariedade e equidade entre gerações. (...)

As transferências entre gerações funcionam de modo exatamente contrário ao que vem sendo falsamente propagandeado: os beneficiários líquidos têm sido historicamente as gerações mais novas e não as mais velhas. De facto, as investigações mais profundas e documentadas até hoje efetuadas provam, contra os resultados enviesados na base do enganador quadro informacional da primeira vaga da contabilidade dita geracional, que nos países ocidentais, no cômputo geral de uma vida, o dinheiro tem ido dos velhos para os novos e não em sentido contrário. (...)

Cada geração, e cada indivíduo, vive, realiza-se e ganha a sua vida aos ombros das gerações precedentes que lhe fizeram o legado de sucessivos blocos de capital humano, de capital cultural, organizacional e social e de capital físico infra-estrutural ou diretamente produtivo.

O Portugal de hoje não é de modo algum comparável ao Portugal dos anos 50 e 60 do século passado, muitíssimo mais pobre tanto no plano do rendimento e nível de vida como no do capital humano, cultural, organizacional, social, infra-estrutural e produtivo. A diferença, quase que abissal, é benefício líquido das novas gerações obtido na base do esforço e investimento das gerações que hoje estão na reforma ou próximo dela. As novas gerações, por mais que venham a cumprir o pacto social intergeracional em vigor até recentemente, nunca chegarão a fechar o seu saldo devedor para com as velhas gerações.» (Os realces são meus.) 
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Os remorsos de Filipe la Féria



Leitura obrigatória, no DN de ontem: Remorsos de um encenador de teatro.

«Muita gente me acusa de ser o culpado do estado de desgraça do nosso país por ter reprovado Pedro Passos Coelho numa audição em que eu procurava um cantor para fazer parte do elenco de My Fair Lady. (...)
Passos Coelho era barítono e a partitura exigia um tenor. Foi por essa pequena idiossincrasia vocal que Passos Coelho não foi aceite, o que veio a ditar o futuro do jovem aspirante a cantor que, em breve, ascenderia a actor protagonista do perverso musical da política. Se não fosse a sua tessitura de voz de barítono, hoje estaria no palco do Politeama na Grande Revista à Portuguesa a dar à perna com o João Baião, a Marina Mota, a Maria Vieira (...).
Assumo o meu mais profundo remorso. Devia ter proporcionado ao rapaz um futuro mais insignificante mas mais feliz. Mas, tal como Elisa Doolittle, que depois de ser uma grande dama prefere voltar a vender flores no mercado de Covent Garden, talvez o nosso herói renegue todas as vaidades e vicissitudes da política e suba ao palco do Politeama para interpretar a versão pobrezinha mas bem portuguesa de Os Miseráveis!» 
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29.12.13

Um dos que se foi embora em 2013



Esse grande compagnon de route que foi para tantos de nós, de várias gerações, Georges Moustaki, morreu em 2013.

Giuseppe Mustacchi, francês mas nascido no Egipto de pais judeus gregos, foi Paris, onde se instalou desde os 17 anos, que o viu crescer e consagrou. Tornou-se «Georges» em honra do grande mestre Georges Brassens, apaixonou-se por Edith Piaf (escreveu Milord...), compôs para Yves Montand, Juliette Gréco, Serge Reggiani e muitos outros. 

Difícil é escolher...





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A mulher ideal em 1953

Alta costura


«No filme Zuzu Angel, a importante estilista brasileira dos anos 70 é questionada pelo filho, militante do MR-8: “Por que fica fazendo isso, mãe? Costurando pra mulher de general?” Ao que a mãe responde: “Me faz o seguinte: ganha sua revolução, depois eu faço os vestidos das mulheres do comité central”. Assunto encerrado.»

(Daqui)

Ei-los que partem



«Acredito que a maioria destes 120 mil e de tantos outros que também partirão e de outros tantos que já partiram, aqueles que desperdiçamos, aqueles em quem tanto investimos, não serão os ocupantes de bidonviles das novas Franças. Muitos serão bem-sucedidos, não no léxico provinciano do Conselho da Diáspora, mas tão simplesmente assumindo que terão uma vida sem grandes problemas, que poderão criar sem sobressaltos de maior os seus filhos e poderão exercer a profissão para que foram formados. Farão, com certeza, muito pelos países onde viverão. Nem tudo se perdeu: pelo menos a nossa comunidade ajudou-os a prosperar noutro lado.

Para a nossa comunidade é mais uma catástrofe, repito. Ao desperdiçarmos tanta gente arrasamos o nosso potencial de crescimento, hipotecamos a próxima geração, criamos ainda de forma mais vincada um país de crianças e velhos, talvez mesmo só de velhos: um país sem futuro.

Era capaz de jurar que os promotores do Conselho da Diáspora ainda não perceberam isto, nem se maçaram sequer a levantar estas questões.

A nossa emigração é tantas vezes a história de grandes sucessos individuais, de aventuras, de feitos extraordinários, mas é sobretudo a prova de um enorme falhanço como comunidade. Um falhanço demasiadas vezes repetido.»

Pedro Marques Lopes

Sugerido como «ilustração» pelo próprio PML, no Facebook:

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