26.4.14

Reflexões para o dia 26



«A sociedade civil portuguesa não se libertou. Calou-se e procura sobreviver. Juntou-se ao coro da queixa das almas jovens censuradas de que falava a mística Natália Correia. A contaminação do aparelho de Estado pelo Bloco Central de interesses tem minado muito do que deveria ser uma salutar relação do Estado com a sociedade civil. Só que a fragilidade desta não é deste tempo: é uma herança histórica. Nunca houve um grito do Ipiranga da sociedade civil portuguesa face ao Estado. Portugal parece mais rico do que em 1974. Mas pensava-se que nunca voltaria a esta figura de nação que estende a mão e que, tenda melhor geração em termos de preparação desde 1974, os voltasse a obrigar a emigrar. A pobreza parece ser o desígnio nacional. A ideologia hegemónica do FMI à UE e passando pelo Governo. Como escrevia há mais de um século Fialho de Almeida, "Entre nós, seja dito, não há perigo de que o luxo vá esbofetear a majestade das classes sofredores".

A dívida e o défice mantêm-se. A economia não se libertou do Estado. E este é cada vez mais um polícia fiscal. O concílio dos poderosos mantém-se: as elites políticas saltam do Estado para as empresas e para os escritórios de interesses e negócios. O sistema não se reforma. Nem com o FMI, que sustenta ideologicamente esta pretensa mudança. Navega à vista, esconde-se, no seu labirinto onde algumas portas se abrem para que a tempestade passe. E tudo volte ao mesmo. O 25 de Abril prometeu a regeneração. A desigualdade continua. Queria-se justiça, mas a balança desequilibrou-se. Queria-se progresso: chegou a austeridade sem fim. A comédia de enganos continua neste país imóvel. »

Fernando Sobral, no Negócios de 23 de Abril.
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