19.7.14

Manuel Alegria, bits e bytes



A revista Sábado desta semana traz um extensíssimo dossier sobre a vida rocambolesca de um personagem que dá pelo nome de Manuel Alegria, que terá sido adjunto de Sá Carneiro, que tinha fortes ligações à família Espírito Santo e que fugiu do país em 1975, com ou sem uma mala cheia de dinheiro. Tem agora 80 anos, vive em Bruxelas e, de lá, respondeu a uma espécie de entrevista que a Sábado divulga. Devo dizer que os detalhes da história pouco me interessam, mas o nome fez-me recuar nada menos do que 45 anos.

Nos idos de 1969, mais do que fartíssima de dar aulas na secção de Filosofia da Faculdade de Letras de Lisboa (que caracterizar como cinzenta seria considerá-la demasiado garrida), decidi virar-me para a informática, tirar uns cursos e aceitar uma proposta de emprego, a meio tempo, numa empresa que hoje seria de «Outsourcing» e se definia então como um «Service Bureau». SERTE era o seu nome, proprietário, ou pelo menos principal sócio e director executivo, o tal dr. Manuel Alegria. Saíra há algum tempo da IBM (o dossier da Sábado refere o facto) e eu para lá transitei depois de passar um ano no dito «Service Bureau» – uma bela tarimba a que muito fiquei a dever.

Sobre essa experiência, ontem «desenterrada», publiquei há nove anos, num outro blogue, um texto que hoje repesco e altero um pouco. Absolutamente matusalénico para quase todos, julgo que memorialístico para uns tantos. Os factos são todos absolutamente verídicos (mangas de alpaca incluídas), apenas alterei os nomes.

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O Sr. Santos aperta a mão a cada um dos colegas, como todos fazem quando chegam de manhã.
O Sr. Silva vira a página do calendário e enfia as mangas de alpaca pretas, com elástico em cima e nos punhos, para poupar o casaco cinzento que comprou no Natal.
O Sr. Martins tira o meio lápis que já tinha guardado atrás da orelha e pega no escantilhão para continuar a desenhar o complexo fluxograma que colocará mais tarde na corticite a que encosta a cadeira.
A Célia começa a perfurar um programa novo em cartões azuis.
A Leonor queixa-se das insónias da noite anterior.
As duas doutoras verificam cuidadosamente os maços de cartões que a Célia pôs nas suas secretárias e voltam a colocar elásticos em cada um. Nessa noite, seguirão de avião para a Bélgica os seus primeiros programas.

É assim que se prepara a chegada de um novo computador, numa cave de Almirante Reis, numa manhã da Primavera de 1970.
O chamado material clássico e os pesados computadores a cartões, todos cinzentos, continuam a executar as aplicações de salários e de contabilidade dos clientes. Mas não chegam para satisfazer as exigências e a visão que o Dr. José Azevedo tem para a sua empresa, no início de uma nova década.
Por isso vem aí «O» computador que ainda precisará de cartões, mas que terá também discos e bandas magnéticas e 30K bytes (leram bem...) de memória! O espaço já está reservado e devidamente envidraçado, o chão falso colocado e a instalação de ar condicionado não tardará. As duas doutoras foram admitidas por causa dele.

O Sr. Martins explica às doutoras por que razão é preciso utilizar tantas instruções de condensação nos programas: há que poupar meios bytes sempre que possível, todo o desperdício pode ser fatal, mesmo com o grande sistema que aí vem.
O Sr. Silva combina com os outros homens mais uma almoçarada com frango de churrasco e tenta convencer as doutoras a participarem. Fazem sempre campeonatos para verem quem come mais. Elas dizem que talvez para a semana. As perfuradoras levam comida de casa e as doutoras, normalmente, fazem companhia uma à outra num restaurante perto da Praça do Chile.

O Sr. Martins é o chefe da Programação e Análise. Só tem a 4ª classe, mas todos acham que ele é um génio. Nem percebem para que servem doutores, o exemplo do Sr. Martins mostra bem que não são precisos canudos para lidar com computadores. Mas acham uma certa graça a que estejam lá agora duas jovens doutoras. 

A Drª Júlia telefona para o fornecedor do novo computador para que mande buscar os cartões com os programas. Estes serão compilados em Bruxelas. Tem de ser assim já que o dito computador será o primeiro da sua espécie, o maior, o mais rápido a ser instalado em Portugal. Os cartões são entregues a uma hospedeira da TAP, a mesma que, dois ou três dias depois, trará uma pesada listagem com o resultado das compilações e respectivos erros. E o ciclo recomeçará.
O Sr. Santos pergunta a todos se acreditam que o arranque do novo sistema se fará em Maio como previsto. Ninguém responde porque toda a gente duvida.
A Leonor diz à Célia (que é a responsável pela Perfuração, ou seja por ela própria e pela Leonor) que o papel higiénico de reserva não vai chegar até ao fim do mês se não houver um esforço colectivo de poupança.

É 6a feira, 1h da tarde. Os homens atravessam a avenida e vão comer o tal frango de churrasco. Já está calor desde manhã, mas ninguém sabia porque não há janelas na cave de Almirante Reis.
Os eléctricos passam devagar, meios vazios. Os portugueses continuam tristonhos, mas há algo de diferente nas ruas. As raparigas encurtaram muito as saias, há mesmo algumas de hot pants.

As duas doutoras não têm nada que fazer porque as listagens de Bruxelas só chegarão lá para 3ª feira. O tempo custa a passar.
A Célia recorda que há um lanche às 5h no átrio da casa de banho das senhoras porque a Leonor faz anos.
A Drª Júlia telefona ao namorado e combinam ir ao cinema. A Drª Rita pergunta-lhe o que vai ver. Diz que ainda não sabe: parece-lhe demasiado esotérico explicar que será «A Paixão de Joana d’ Arc», numa retrospectiva de Carl Dreyer, no Palácio Foz.
A Leonor diz que está desejando que o dia acabe para ir buscar a filha que só vê aos fins de semana: de 2a a 6a fica em casa dos avós na Malveira.

Acabou o fim de semana, passou-se mais um mês.
É noite e Marcelo Caetano entra pela casa dos portugueses com mais uma «Conversa em Família». Em Alfama, preparam-se as ruas para a noite de Santo António.

O computador chega entretanto. São abertas dezenas de caixotes, os técnicos do fornecedor esticam muitos metros de cabos. Alguns periféricos vêm embrulhados em longos panos prateados e a drª Júlia leva alguns metros para mandar fazer uma minissaia.
Já piscam luzinhas desde a véspera. É muito tarde, quase madrugada, mas ninguém se vai embora. Finalmente o sistema «arranca»! Só compila e só executa um programa de cada vez (modernices de multiprocessamentos só virão mais tarde), mas tem 30 K, é grande, é bonito e fica muito bem na sala envidraçada.
Vem o Dr. Azevedo, abre-se uma garrafa de champanhe. As perfuradoras põem batom, o Sr. Silva tira as mangas de alpaca.

P.S. – O verdadeiro nome do dr. Azevedo é Manuel Alegria. 
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4 comments:

José Canteiro disse...

Cara Joana Lopes,
Não me lembro do personagem (MA), mas vivi a época. Espectacular o seu texto!
Cumprimentos
J. Canteiro

Joana Lopes disse...

Muito obrigada!

Fernando Mota disse...

Cara Joana Lopes,
Regresso ao passado! um bom texto! a pré-história das informatiquices... ;)
Havia um outro Alegria pelo Porto que muito fez pela API - a Associação Portuguesa de Informática: era director no extinto BPA... e... um desfiar de um rol de recordações difusas....
Ainda bem q escreve assim para que a memória se não perca!
F Mota

Joana Lopes disse...

Muito obrigada, Fernando Mota.