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7.6.14

Pobre senhor



Pobre señor presidente
ya no hay nadie que lo aguante
nunca hubo aquí gobernante
con menos dedos de frente

pobre tirano casero
tan pacheco y tan porfiado
mandón pero bienmandado
si el que manda es un banquero

pobre jerarca aprendiz
tant terco ensoberbecido
tan solo y desentendido
de la gente y del país

pobre y grave mandamás
tan llenador y tan hueco
tan púgil y tan pacheco
y tan sin pueblo detrás

pobre jorge que termina
y ya rumia su condena
en la estancia de anchorena
o en la paz de su piscina

pobre terco que especula
no aflojar cueste a quien cueste
pero no es garra celeste
sino técnica de mula

cuando lo dejan sus fieles
o le pegan revolcones
visita los batallones
y añora sus reverbeles

pobre dictador perdido
tras los miedos de su quinta
presidente pura pinta
tan violento y repetido

pobre primer mandatario
tan joven y tan reseco
tan tozudo y tan areco
tan pedante y tan otario

pobre señor cuando luce
tan mediocre en su tarea
uno comprende que sea
primo hermano de lanusse

y ya que todo le falla
y no hay que tener rencor
yo opino que lo mejor
lo mejor es que se vaya.

Mario Benedetti 
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O PS e o messianismo



Para começar, uma declaração de interesses: não fui, não sou, nem penso vir a ser eleitora do PS, quer o secretário-geral tenha como apelido Seguro, Costa, xpto ou mesmo que não se chame António. Não «prefiro», nem terei de escolher, qualquer deles, mas, como cidadã interessada, sigo a novela com epicentro no Palácio da Praia e sei que o seu desfecho será importante para o futuro próximo do país.

Sobre o episódio de ontem – o discurso de lançamento de candidatura, que António Costa fez no Porto – confesso que não entendi a escolha do título: «Apresentação das linhas estratégicas». Quem sou eu para duvidar que Costa tenha linhas estratégicas, distintas das de Seguro, para orientar o partido que quer dirigir, mas, se as tem, continuou a guardá-las num bolso.

Adiante porque não é disso que quero falar, mas sim de dois fenómenos, dos quais o candidato em questão nem é directamente responsável, e que me parecem pertinentes: o sebastianismo que está a rodeá-lo e uma parte das razões para que tal aconteça.

Quanto ao primeiro ponto, em texto publicado hoje, no i, Ana Sá Lopes afirma que «não deixa de espantar a onda de sebastianismo a crescer à volta de Costa», que «não aconteceu com ninguém», « que junta gente muito, muito à esquerda do PS com gente muito, mas muito à direita do PS, numa salada de frutas inesperada. Uns acreditam que Costa será o homem que fará a ponte à esquerda (...). Outros que fará o bloco central com Rui Rio ou com alguém do PSD que não se chame Coelho. Outros ainda que "a abrangência" fará o PS conquistar num ápice a maioria absoluta. António Costa está a ser santificado na praça pública: o Messias está a chegar ao Largo do Rato.»

«Bingo!», no meu entender.

Quanto a uma parte dos possíveis motivos para que tal aconteça, Pacheco Pereira (num texto globalmente arrasador para António José Seguro, note-se) põe o dedo na ferida, na sua crónica semanal no Público de hoje: «No conflito Seguro-Costa, Seguro tem muitas desvantagens à partida nessa simpatia “externa” ao PS e nalguns casos pelas piores razões. A origem social é em Portugal um enorme óbice, numa sociedade estratificada e onde um olhar novo-rico de uma certa burguesia urbana ilustrada e vagamente intelectual reconhece como “seus” aqueles cujo trato do mundo lhes parece próximo. Seguro faz parte daquele círculo de políticos que seria o alvo típico do Independente, o jornal que adorava o “velho dinheiro”, cuja corrupção e malfeitorias nunca denunciou, e detestava os políticos da “meia branca”. E dessa complacência social de que Seguro não goza, muitos outros beneficiaram. Mário Soares ou Sá Carneiro, Balsemão e Mota Pinto, Almeida Santos e Louçã, e muitos outros vinham da classe média alta, com longas vidas políticas na resistência à ditadura, ou com sólidas credenciais académicas ou profissionais, extenso currículo político, e isso conta muito em Portugal. Não garante nada, mas conta. (...) E a verdade é que o mesmo anátema social desfavorecia Cavaco, “o filho do gasolineiro”, e José Sócrates, o engenheiro que não era engenheiro e fazia projectos de arquitectura. Cavaco e Sócrates deram a volta por cima e nalguns dos seus actos políticos estavam implícitos traços de vingança social, fazendo ir comer à sua mão alguns daqueles que os desprezavam profundamente.»

Se non è vero, è ben trovato. Tudo isto ajuda a reflectir e a permitir algum recuo, sem que se fique sempre na crista da onda ou na cratera de um vulcão, e a colocar certas discussões no plano em que devem ter lugar e não reduzidas a puras loas acríticas ou a ataques pessoais descabelados. 
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Lido por aí (50)

Eurofagia


Do texto de Sandra Monteiro em Le Monde Diplomatique (edição portuguesa) deste mês:

«Mesmo na sua diversidade, os resultados das eleições de Maio para o Parlamento Europeu só são surpreendentes para quem não tiver em conta que o projecto europeu está a revelar aos povos um rosto claramente eurofágico. E nem sequer se trata apenas de uma eurofagia aguda, como alguns picos que entram pelos olhos adentro podem fazer crer – esta eurofagia é crónica. Os poderes económicos e políticos que controlam a configuração da arquitectura institucional e monetária europeia trabalham estruturalmente no sentido de governar em segredo, dispensando ou contrariando a participação popular. O alheamento dos povos em relação às eleições europeias, que a generalidade da comunicação social instiga, traduz-se há muitos anos em níveis recorde de abstenção. Quaisquer que sejam as razões para os cidadãos não exercerem o seu direito de voto, são inevitáveis as consequências negativas que isso tem para o exercício do músculo democrático e para o enfraquecimento da soberania popular. A este elemento, que não é novo, juntou-se agora, em particular em países como Portugal, a grande dimensão dos votos brancos e nulos, que é difícil dissociar de uma não identificação com a oferta da representação ou, pelo menos, de uma descrença na sua capacidade de efectivar mudanças positivas. (...)

Há aqui uma urgência, que impõe a consideração de três tempos e a intervenção em todos eles, em simultâneo. O tempo daqueles cujas vidas são estilhaçadas para alimentar a acumulação do capital é um tempo curto, muito curto. (...) O tempo da conjuntura em que se preparam e ocorrem eleições, em que se negoceiam orçamentos e acordos, não pode ser alheio àquela urgência nem contar apenas com os desafogos conjunturais que advêm de decisões pontuais como a do Tribunal Constitucional português, que tanto desorientam a Troika, o governo e os Fernandos Ulrichs nacionais. (...) E por fim, a esta escala, o tempo longo da estrutura é aquele em que se tem aprofundado a neoliberalização europeia. Sem atacar esta arquitectura, qualquer futuro digno é um lugar longínquo e, no presente, os trabalhadores e os desempregados terão sido completamente sacrificados para garantir a liberdade financeira e comercial.»

Na íntegra AQUI
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6.6.14

O presidente que nos sobra



O país político a arder, os portugueses a assistirem a comportamentos inaceitáveis do governo e dos partidos que o apoiam contra aqueles que têm a missão de fazer respeitar a Constituição, sem saberem o que os espera e com medo de piores cenários, e o presidente da República quebra hoje o silêncio de chumbo em que tem estado mergulhado para garantir que «findo o programa de ajustamento, Portugal recuperou a credibilidade (...) e a economia portuguesa é hoje mais competitiva, sustentável e mais integrada na economia global» e que «é este caminho que vamos continuar a trilhar».

Bem sei que o discurso era para investidor mexicano ouvir, mas ainda assim: aconteceu em Portugal, a 6 de Junho, neste ano (que não é) da graça de 2014. E nós não somos completamente parvos, mesmo se, por vezes, o parecemos: Cavaco Silva foi, é e será o eco do actual governo e, quando está calado, funciona como uma espécie de ventríloquo.
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O susto de cada dia nos dai hoje


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Confusão ou nem por isso



«A confusão é tão grande que já começo a baralhar os assuntos: ia jurar que a direcção do PS tinha pedido uma aclaração aos apoiantes de António Costa e que Passos Coelho tinha proposto umas primárias para escolher os juízes do TC. Segundo Passos e Seguro, são o TC e o AC que estão a pôr em causa as grandes vitórias conseguidas nos três últimos anos. Seguro está a um passo de dizer: "Atenção que os mercados não apreciam estas mudanças de liderança, na oposição, a meio de mandatos". Passos dá a entender que o TC quer ficar, ilegitimamente, com o lugar dele. Seguro, que era frontalmente contra as directas, agora clama por elas e já quase põe a hipótese de sortear um Audi (o do Zorrinho, que ele vai para Bruxelas) entre os simpatizantes do PS que forem votar. O Governo, que sempre teve declarações nebulosas, contraditórias e incompreensíveis, vem agora pedir a aclaração do acórdão do TC. Se eu estivesse no lugar do Tribunal Constitucional, contratava o Gaspar para ler o acórdão naquele tom que ele usou para nos explicar o ajustamento. (...)

A situação está complicada. Tanto num caso, como no outro, estamos perante a tartaruga de pernas para o ar: muito espernear para não sair do lugar. Não é uma batalha fácil. Não é errado afirmar que tanto o TC como o AC são mais populares que os seus oponentes. Se António Costa não fosse convocado ou se o Joaquim Sousa Ribeiro estivesse de baixa com uma tendinite no tendão rotuliano, os portugueses perdiam toda a esperança.»

João Quadros
(O link pode só funcionar mais tarde.)
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Lido por aí (49)

5.6.14

Melhor do que falecer



A minha vida de reformada anda animadíssima em Janeiro deste ano levaram-me parte da pensão de viuvez porque somada com outra ultrapassava não sei exactamente o quê em Abril devolveram-me algum porque tinha sido aplicada à dita pensão já reduzida uma CES que provocava uma tal de dupla tributação agora vão repor o que recebia antes e devolver-me mais alguma coisa mas quanto nem o Excel nem muita imaginação me podem ajudar porque se calhar regressa a CES porque desapareceu a dupla tributação entretanto já tinha recebido cartas dos senhores que pagam reformas com valores completamente errados mas onde está o problema quanto à outra pensão não de viuvez mas que recebo por estar viva e ter descontado durante muitos anos ainda é mais complicado reconstituir a novela porque já tem muitos episódios e deito a toalha ao chão sei apenas que pago uma CES que tem vindo a crescer e que pode ser que o Tribunal Constitucional a chumbe e me seja reposto sei lá o quê e quando mas só por algum tempo porque o governo decidiu hoje que a CES vai ser substituída em 2015 por uma CS que é diferente porque já não tem um E nem é provisória mas isto se ela não for contra a CRP porque este governo já está muito treinado e só sabe legislar contra a CRP e com isto até me esqueci de sobretaxas e de IRS mas eu é que devo ser esquisita porque tudo é normal olá se é porque será que alguém pensa que um simples mortal tem direito a saber quanto é que lhe vai ser posto no banco amanhã ou anteontem e isto é tudo para cuidar dos velhos e para que mantenham os cérebros activos então não se está mesmo a ver ou por causa do joelho do Ronaldo já nem sei. 
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Ricardo Araújo Pereira e as primárias no PS



Hoje, na Visão:

«António José Seguro não sabe se vai poder governar, por causa de António Costa, e Passos Coelho não sabe se vai poder governar, por causa da Constituição. Para um observador desapaixonado, como eu, parece-me que António Costa e a Constituição pretendem proteger o povo português de males maiores. (...)

O mais interessante, mas eleições internas do PS, é o facto de os candidatos prometerem apresentar cada um o seu programa político. Ou seja, o PS esteve estes anos todos sem um único programa e, de repente, ameaça com dois. Sempre é verdade que não fome que não dê fartura.»

Na íntegra AQUI.
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E não são perigosos esquerdistas

Pobre e mal-agradecido



Excertos de um excelente texto de Jorge Reis Novais, no Público de hoje:

«Este Governo, claro. Durante os primeiros cinco meses do ano, o Governo, que é pobre, cobrou um imposto especial e extraordinário incidindo exclusivamente sobre as grandes fortunas, portanto, sobre os trabalhadores da função pública que recebem mais de 675 euros por mês. Como se esperava, e seguindo jurisprudência firmada, o Tribunal Constitucional (TC) declarou este imposto inconstitucional e determinou a cessação da sua cobrança. Lamentavelmente, permitiu que o Governo retivesse os montantes entretanto ilegitimamente cobrados.

Acabou por ser um benefício ao infractor, tão mais perigoso quanto estimula o Governo, sabendo que conta com a prestimosa cooperação institucional do Presidente da República, a repetir a habilidade no próximo ano. (...)

Porém, este Governo, que é pobre, é também mal agradecido e, por isso, não lhe ocorreu melhor que pretender suscitar um inadmissível incidente de aclaração exactamente sobre o benefício que o TC lhe concedera. (...) Na realidade, o pedido de aclaração não faz qualquer sentido nem teria, mesmo se fosse bem sucedido, a mínima consequência prática. (...)

Pode ser pobre e mal-agradecido, mas, o seu a seu dono, tem uma lata incomensurável.»
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4.6.14

Desejos tomados por realidades



Passos Coelho ex-primeiro-ministro?

(Entretanto, na versão online do jornal, o erro já foi corrigido.)
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Lido por aí (48)

Guerra civil?



«Calculem agora a angústia que senti (...) ao ouvir o nosso Governo a exigir uma "aclaração do acórdão" do Tribunal Constitucional, por causa da "ocorrência" de "ambiguidade" e de "obscuridade", exigência enviada ao Parlamento, que vai convocar uma "conferência de líderes" para tratar do assunto. Conferência de líderes lembrou-me logo Ialta, Montenegro com capa de Roosevelt, Heloísa Apolónio com charuto de Churchill, Alberto Martins com boné de Estaline, todos prontos a fazer uma guerra fria quando chega Assunção Esteves e lança mais uma palavra quente para a fogueira: "Inconseguimento!" Dicionariamente falando, o Leste da Ucrânia é um jardim-de-infância comparado com o nosso inferno de boca.»

Ferreira Fernandes

Tiananmen foi há um quarto de século



4 de Junho de 1989 marcou o fim de quase dois meses de protestos na Praça da Paz Celestial, em Pequim, quando os tanques avançaram brutalmente sobre os manifestantes. Os factos são conhecidos, hoje estão a ser amplamente comentados, mas é sempre bom tê-los presentes – sobretudo em imagens, que falam por si e substituem, quase sempre com vantagem, muitas palavras.




Nos últimos dias, tudo é recordado, sobretudo por alguns protagonistas de 1989 ou pelas suas famílias.










Comemora-se a data com protestos em Hong Kong e, um pouco por todo o mundo, republicam-se fotos, fotos e mais fotos – é importante que as caras de há 25 anos continuem presentes.

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3.6.14

As desgraças cá da Graça



Se Sttau Monteiro ainda andasse por aí, matéria não lhe faltaria para novas «Redacções da Guidinha». Mas as antigas continuam actuais – essa é que é essa!

«Cá na Graça toda a gente pensa que a vida é uma coisa muito triste que aconteça o que acontecer as coisas caminham para pior que não há bem que sempre dure que o pior ainda está para vir e que a gente está sempre lixada já a minha avó que Deus tem coitadinha quando alguém dizia que Deus lhe tinha mandado uma desgraça dizia logo Não te queixes de Deus que se não houvesse Deus havia outra coisa qualquer para te lixar pessoas são assim pessimistas porque nunca lhes aconteceu nada de bom e nunca lhes aconteceu nada de bom porque os reaças nunca deixaram que lhes acontecesse uma coisa boa no tempo dos meus antepassados que Deus tem coitadinhos as coisas já eram assim cá na Graça apesar do povo fazer o que podia quando foi dum chamado Mestre de Aviz a malta foi para a rua aos berros e correu dum lado para o outro a fazer comícios a favor dele e vai fizeram-no rei e tudo correu bem durante uns tempos mas a verdade é que passados esses tempos que foram bem curtos as coisas começaram a correr mal outra vez porque engatavam cá a malta da Graça para ir nas caravelas coitadinhos e eles lá iam e muitas vezes não voltavam e quando chegavam ao fim das viagens não tinham ganho para pagar a prestação da casa ao J. Pimenta desse tempo que era um chamado Infante D. Henrique que era uma espécie de Tenreiro que em vez de peixe congelado tinha congelado bocados de África que lhe rendiam uns pilins bestiais enfim desgraças! nessa altura o Algarve era promovido por esse D. Henrique porque estas coisas passaram-se antes de haver Torralta mas a verdade é que mesmo nesse tempo aquilo era caro de mais para a malta da Graça lá ir passar as férias e mesmo que fosse barato não ia porque as pessoas tinham medo de serem apanhadas pelos angariadores de trabalho voluntário nas caravelas tal como agora têm medo de serem apanhadas pelos donos dos restaurantes e dos hotéis que lhes ficam com tudo e mais alguma coisa nessa altura foi apanhada muita malta da Graça mas é que mesmo muita e ninguém mais lhe pôs a vista em cima se algum dia rasparem o fundo do mar no Cabo da Boa Esperança dão com uma data de esqueletos "made in Graça" olá se dão! nesse tempo de desgraças enquanto o tal infante D. Henrique mais os sócios da Torralta da época enchiam a barriga de coisas boas vindas de África como cocos bananas e amendoins cá a malta da Graça rapava uma fome danada e comia um naquito de pão quando o apanhava a jeito mal constava que o tal infante tinha tido mais uma glória e tinha descoberto mais um sítio a malta fugia a sete pés para não ir lá parar porque era certo e sabido que quem ia malhar com os ossos às fortalezas gloriosas era a malta da Graça e quem lá morria com fome e febre era a malta da Graça e quem lá dava o corpo ao manifesto quando havia combates era a malta da Graça sim porque esse Tenreiro D. Henrique não levantava o rabo de Sagres que era o Hotel Alvor desse tempo mas as desgraças da malta da Graça não ficaram por aí não senhor quando um chamado D. António que era prior do Crato que não sei onde é nem quero saber resolveu salvar a Pátria que estava a ser atacada pelos espanhóis quem foi para o caneiro de Alcântara levar bumba no toutiço foi a malta da Graça porque os nobres e os cavaleiros e os mais accionistas das empresas do tempo cavaram por todos os lados e puseram-se do lado dos espanhóis sim quem foi falecer prematuramente a Alcântara foi a malta da Graça mais tarde veio um chamado D. Miguel Cazal Ribeiro ou qualquer coisa parecida que tinha ao seu serviço uma data de arruaceiros votados à defesa dos bons princípios e vai esses para defenderem os bons princípios davam com os cacetes nas cabeças da malta da Graça havia noites que o barulho das cacetadas era tão grande que até parecia que estalavam foguetes sim porque é certo e sabido que quando é preciso salvar o País quem leva com a cachaporra é a malta da Graça isto é tão certo como dois e dois serem quatro esse D. Miguel salvava a Pátria todos os dias e nessa altura como não havia bancos nos hospitais a malta da Graça tinha de curar as salvações da Pátria com que ficava no corpo com papas de linhaça e pupú de galinha enfim desgraças e mais desgraças vai a certa altura a malta da Graça que ainda tinha uns optimismos escondidos lembrou-se de fazer uma coisa chamada a República para ver se virava a moeda e durante uns tempos até a mudou mas depois veio outro salvador da Pátria chamado Salazar que não gramava a malta da Graça por nada deste mundo e que resolveu salvá-la outra vez ena pai ena pai ena pai que rica salvação! a primeira coisa que esse Salazar fez foi pôr adesivo na boca da malta toda para ela não falar a segunda coisa foi chamar os netos do tal D. Miguel e metê-los numa coisa que houve chamada pide que era um grupo de caceteiros que usava pistolas e metralhadoras em vez de cacetes e que metia a malta da Graça numa estância de Verão que esse Salazar tinha em Caxias enfim mais desgraças de maneira que não espanta que a malta da Graça agora ande com medo de ser salva outra vez sim porque se há coisas que a malta da Graça não aguenta é outra salvação como as antigas agora ou a salvação é diferente ou a malta da Graça acaba de vez porque não há ninguém que aguente tanta salvação o que eu quero dizer com isso é que a malta da Graça está de olho vivo a ver o que acontece porque está farta de curar as feridas das salvações e desta vez gostava que as coisas corressem de outra maneira por enquanto anda cheia de esperanças mas começa a dizer que há discursos a mais e feitos a menos no tempo do salvador Salazar que o Diabo tem levavam a malta ao futebol para distrair e para ela não pensar no que está a acontecer agora não a levam ao futebol não senhor mas há muitos futebóis diferentes e em matéria de distracções há futebóis em que não há bolas e que nem sequer são nos campos de futebol como há maneiras de pôr a malta a berrar sem ser a dar vivas ao Eusébio a malta da Graça já berrou tanta coisa no decorrer da sua vida que para ela as palavras são como as caganitas de cabra nos montes nem as come nem as apanha nem as leva a sério é por isso que está a ver menos televisão a ouvir menos rádio e a voltar aos cafés palavras leva-as o vento e agora o vento deve andar cheio delas porque a malta da Graça já está a meter algodão nos ouvidos de tanta palavra que para aí anda no ar.»

Luís Sttau Monteiro
A Mosca, 19 Outubro 1974
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Uma bela piada de Soares



Hoje, no DN:

«Mas[António José Seguro] nunca [esteve] claramente à esquerda, como foi sempre a posição do PS desde que se tornou um partido em 1973, data da sua constituição.»

Importa-se repetir??? 
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O TC como inimigo público



«Num dos diálogos típicos de "Sim, Sr. Ministro", Jim Hacker perguntava: "Humphrey, consideras como parte da tua função que deves ajudar os ministros a fazer de tolos?" E este respondia: "Bem, nunca encontrei um que precisasse de qualquer ajuda".

Nos últimos anos, como bons alunos, muitos membros da maioria têm seguido os ensinamentos de Humphrey, especialmente quando se trata de uma qualquer decisão do Tribunal Constitucional. O Governo continua a acreditar que a Constituição portuguesa é o memorando assinado com a troika. (...)

Prefere ter como inimigo público o TC. É uma boa desculpa para os seus dislates, a começar pela incapacidade de reformar o Estado. Quando em 2015 tiver de baixar o défice ainda mais, que mais cortes e impostos irá o Governo inventar?

O Governo continua incapaz de criar uma ponte com o TC e até agora nunca conseguiu explicar aos portugueses qual é o sentido de tantos cortes provisórios que se tornarão definitivos. (...) Controlar o défice e a dívida é uma coisa. Criar desculpas é outra.»

Fernando Sobral, no Negócios.

E por falar em Espanha...


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2.6.14

Lido por aí (47)


@João Abel Manta

* As origens do fascismo na Europa, antes e agora (Vicenç Navarro)

* On Inequality Denial (Paul Krugman)

* ¿Por qué abdica hoy Juan Carlos? (Luis Sepúlveda)
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Espanha: Dia da Criança especial



... para Felipe de Bourbon: Papá deu-lhe a Espanha.

«Mas porquê, papá?», terá perguntado Felipe ao Rei Juan Carlos.
«Porque és el dia de los ninos, mi pequenote», respondeu o Rei.
«Mas o dia de los ninos foi ayer, papá», lembrou o princípe.
«Conho. Puta madre. Estás viendo porqué te passo la corona? Ya no lo sé a quantas andió», concluiu o monarca. 
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Espanha e monarquia



O facto de o rei de Espanha ter renunciado ao trono a favor do filho parece ter levantado uma onda de entusiasmo inexplicável nas redes sociais portuguesas, como se a República estivesse a cinco minutos de voltar a Badajoz.

Claro que se percebe o posicionamento de alguma esquerda espanhola que está a exigir um referendo para a escolha entre Monarquia e República (o caminho faz-se caminhando), mas já se sabe que ele não terá lugar. Nem a Europa deixaria! Há doze estados europeus governados por reis, entre os quais Espanha, Reino Unido, Bélgica, Holanda, Suécia, Dinamarca, Noruega e Luxemburgo, e não se comportam tão mal assim.

Além disso, e num outro cumprimento de onda, para todos os que hoje incensam Juan Carlos e o seu papel, é dia de recordar este seu juramento, «fiel aos princípios do movimento nacional» e reconhecendo a legitimidade política de Franco, saída do golpe de 1936.



Quem gostaria de poder trocar a nossa Revolução pela Transição espanhola que levante o braço. 
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Mas é assim que se governa um país?



«Ontem o porta-voz do PSD veio criticar o timing da decisão do TC, notando que, “se esta decisão ocorresse a partir do dia 16 de Junho, isto é, daqui a pouco mais de 15 dias, seria um momento a partir do qual” o país já não estaria dependente dos “credores internacionais, uma vez que o FMI no dia 16 daria por encerrado o programa de assistência financeira”. Mas, para Marco António Costa, o facto de o anúncio ter ocorrido agora “é como que um arrastar do país para, novamente, ter de dialogar com os credores, ter de dialogar com a troika relativamente a esta situação”.

Ou seja, com estas declarações ficámos a saber que afinal a troika não se foi embora. Está cá, não se vai limitar a tratar de questões técnicas e não se irá embora enquanto o Governo não apresentar um plano B para compensar os chumbos. E não vale a pena criticar o timing do TC, mas sim o timing daqueles que começaram a deitar foguetes antes da festa.»

(Do Editorial do Público de hoje) 

Além disso: na lógica do que disse o porta-voz do PSD, se o TC só tivesse anunciado as suas decisões no dia 17 de Junho, o que seria diferente? O governo não se sentiria obrigado a cumprir os limites do défice para este ano? Bateria palmas, aliviado, e festejaria as decisões tomadas no Palácio Ratton? Querem fazer de nós parvos?

E se desejam outras «boas» notícias, não desanimem: vem aí a reprovação da CES.
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Já não se vende banha da cobra?




Esta criatura é um susto!
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1.6.14

Eu ainda sou do tempo


... em que ninguém ligava nenhuma ao «Dia da Criança» e em que o futuro do PS era decidido em sótãos.
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Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band – há 47 anos



Foi em 1 de Junho de 1967 que os Beatles lançaram o álbum em Londres (e, nos Estados Unidos, no dia seguinte). Considerado um dos mais importantes exemplares da história do rock e, em 2003, colocado em primeiro lugar na lista dos 200 álbuns definitivos no Rock and Roll Hall of Fame, pela revista «Rolling Stone», foi gravado numa fase de um certo «recuo», com os Beatles cansados de digressões e no rescaldo do escândalo provocado pelas declarações de John Lennon quando afirmou que o conjunto de Liverpool era mais popular do que Jesus Cristo. Trata-se de um álbum extremamente inovador, desde a capa à técnica de gravação.

A BBC considerou que várias canções tinham letras influenciadas por drogas e proibiu que fossem transmitidas («A Day in The Life», «Lucy in the Sky with Diamonds»), mas, só nos EUA, foram vendidas mais de 11 milhões de cópias do LP.

Bem difícil se torna a escolha de algumas canções, entre as treze, mas repesco três das minhas preferidas:






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Não, não é na China



... mas si aqui ao lado, em Benidorm.
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Algo vai mal neste reino da Europa



«Se a Europa me explica com todo o detalhe como é que se deve pescar um peixe-espada, mas não me diz nada sobre como salvar um imigrante que se afoga, isto quer dizer que alguma coisa está a correr mal.»

Matteo Renzi (citado por Teresa de Sousa, no Público de hoje. 
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Lido por aí (46)