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29.11.14

Saudades de outros horizontes



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Tudo ainda está a começar



Expresso de hoje, 1º Caderno, p2.

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Lido por aí (172)


@João Abel Manta

* Podemos y el principio de Arquímedes (Javier Ayuso)

* Qui sauvera les migrants du cimetière de la Méditerranée? (Stefania Summermatter)

* Primer Buenos Aires (Antonio Muñoz Molina)
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28.11.14

Uma capa terrível!


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Lido por aí (171)


@João Abel Manta

* A "humanidade" da justiça (Saragoça da Matta)

* A artimanha Juncker (Francisco Louçã)

* El resurgimiento de la otra España (Vicenç Navarro)
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Quando pensamos que nada mais poderá espantar-nos



... ele diz, no Dubai, que Portugal tem sol, mulheres bonitas, cavalos e aviões para vender.
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Da avó alemã



«Enquanto em Portugal nada se discute para lá de Sócrates, o mundo europeu defronta-se com os seus medos. O Para Francisco foi claro: a Europa é uma avó que deixou de ser fértil e vibrante. (...)

Uma Europa cada vez mais unipolar, gerida por Berlim, que faz identificar os interesses de toda a Europa com os seus interesses estratégicos e económicos. Uma entrevista dada há dias por Romano Prodi, antigo presidente da Comissão Europeia, ao "Il Messaggero", é eloquente: a França está desorientada e a Grã-Bretanha perdeu o seu poder. Assim, como diz, "todos os países que anteriormente mantinham um equilíbrio entre a Alemanha, França e Grã-Bretanha (da Polónia aos estados bálticos, e passando pela Suécia e Portugal) estão a reagrupar-se debaixo do chapéu-de-chuva alemão". (...)

Sucintamente, a Alemanha tornou-se o árbitro da Europa. Como sabemos, as regras do futebol cumprem-se quando o árbitro apita e agora a Alemanha mostra cartões amarelos a muitos países". O problema é que, confrontada com os seus próprios fantasmas, como diz Prodi, a Alemanha nega a sua própria liderança, pensando apenas na austeridade e nos limites orçamentais. Destruindo qualquer hipótese de ar fresco que faça renascer a vitalidade. E que permita que os países da periferia ganhem fôlego e que a avó possa passar por uma fonte da juventude.

A Alemanha envelhece e ao mesmo tempo faz com que todos os que se abrigam debaixo da sua protecção sejam contagiados por esta entropia. Ao mesmo tempo o conceito de Europa como uma forma de democracia alargada, entre países iguais e democráticos, esvai-se. E a Europa, quando a política de alianças se fragmenta, geralmente perde a noção da realidade e perde-se em tragédias várias. É uma pena que, em Portugal, se passe ao lado deste momento histórico que definirá o futuro da União Europeia. E do euro.»

Fernando Sobral

27.11.14

Mais



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Viver abaixo das possibilidades



Ricardo Araújo Pereira sobre o tema inevitável:

«O próprio alegado esquema é triste, na medida em que envolve um motorista que funciona como multibanco, um amigo que funciona como offshore e uma mãe que funciona como agente imobiliária. Se é para continuarmos a precisar de precisar de pedir dinheiro à mães e aos amigos, mais vale não entrar no mundo do crime. (...) A confirmar-se a acusação, José Sócrates tem 25 milhões de euros e, no entanto, vive da caridade dos amigos e viaja em económica. Afinal sempre há um português que vive abaixo das suas possibilidades.»

Na íntegra AQUI.
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Cante Alentejano. Sim, mas...



«Os cantadores de Serpa são as estrelas da companhia, mas não têm dignidade para serem convidados para a recepção que o senhor embaixador dá hoje em sua casa, precisamente a propósito do cante poder vir a ser inscrito na lista do património cultural imaterial da Humanidade. Os cantadores de Serpa dormem num pardieiro a mais de uma hora de Paris, enquanto os convidados do senhor embaixador pernoitem nos hotéis de várias estrelas das zonas “bien” da cidade.»

(Diário do Alentejo)


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Barril de pólvora


«Portugal está sentado em cima de um barril de pólvora. O desastrado Coiote usava-os na perseguição ao Papa-Léguas, só que normalmente era ele que explodia. Mas os desenhos animados permitiam que o Coiote renascesse sempre.

Portugal talvez tenha mais dificuldades em ressuscitar deste ano em que a "destruição criativa" prometida pelo Governo está a transformar-se numa "destruição maciça". Sócrates não consegue ser o mata-borrão de tudo. A OCDE diz tudo sobre o que existe e espera do País: Portugal vai continuar a ser "pobre" e "desigual". A tão aclamada desvalorização interna, como factor de competitividade, acelerou o processo sem contemplações. (...)

A corrupção tornou-se hoje um "reality-show" só à espera de um Herbert von Karajan capaz de pôr todos os instrumentos e vozes a cantar em uníssono. O barril de pólvora está montado. Só falta acender um pequeno rastilho. Caminhamos para um país mais fechado e ainda mais pobre. Onde a língua franca, a confiança, implodiu. E a questão é que a pobreza é económica e financeira, mas também política e cultural.

Aquilo que se adivinha é um Inverno sem fim. Nem o mítico Bloco Central, que alguns já dizem poder vir a salvar a Pátria em nome de um "consenso" cheio de bafio e bolor, colará estes cacos que políticos e burocratas que se movem como elefantes criaram por aqui. Por aqui criou-se o deserto onde pouco ou nada cresce e há quem ainda tenha a coragem de lhe chamar paz.»

Fernando Sobral

26.11.14

Ora bem...


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Há 47 anos, as cheias em Lisboa



«Na madrugada do dia 26 de Novembro de 1967, a região de Lisboa foi palco da ocorrência de fortes chuvadas que originaram 300 mortos, milhares de desalojados e a destruição de inúmeras habitações. A imprensa da época noticia a tragédia, de que transcrevemos alguns excertos.

“Lisboa mais abastada seguia para o cinema ou refastelava-se na poltrona caseira, assistindo ao famigerado folhetim 'Gente Nova' da RTP, à espera de mais uma aventura do 'Santo'. A Lisboa menos favorecida estava no café para a bica, ou ficara no bairro suburbano, julgando que o seu fim-de-semana iria ser igual aos outros. Quando o Roger Moore chegou aos receptores, já os tectos humildes começavam a meter água, as ruas pareciam rios, as praças, lagos; e os cinéfilos, bloqueados nos engarrafamentos de trânsito haviam esquecido o Éden ou o S. Jorge e pensavam na melhor maneira de voltar a casa.

Há doze horas que chovia. Os colectores não davam vazão à enxurrada e, logo que a maré do estuário onde eles despejam as águas que vão correndo pela cidade atingiu a sua altura máxima, já não se sabia onde acabava o Tejo e começava Lisboa.” (Flama, n.º 1030, Edição Extra, 1 de Dezembro de 1967, pág. 4)

“Como aconteceu? Como aconteceu? Repete-se a questão. Foi na madrugada de 25 para 26 de Novembro, de sábado para domingo. Chovia. É normal, no Inverno. Poderia ter sido uma chuva benéfica, capaz de abrir em frutos novos muitos campos. Mas não foi. Para muita gente (demasiada gente) ela foi a desgraça ou a morte. Ninguém sabe exactamente a que horas aconteceu a tragédia. Os ponteiros de muitos relógios agora parados indicam vários instantes precisos para diversas localidades. Duas e cinco aqui, uma e cinquenta e três acolá, três e treze noutro lugar. Poderá ter sido bastante mais cedo: pouco antes de terminar a festa que para milhões de espectadores ainda é a TV.” (Flama, n.º 1031, 18 de Dezembro de 1967, pág. 40-41)»

(Da página da Protecção Civil de Lisboa no Facebook)

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Ceci n'est pas un pays

Lido por aí (170)

Ide e lede

25.11.14

Sempre nesta data



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Lido por aí (169)


@João Abel Manta

* Os meninos de ouro (Nuno Ramos de Almeida)

* Democracia e Revolução (Raquel Varela)

* Radical left is right about Europe’s debt (Wolfgang Münchau)
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Talvez presciência?

Mais oportuno do que nunca



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Dois 25 de Novembro: 1975, 2014



25 de Novembro de 1975 foi o primeiro dia sem PREC, hoje é o primeiro não sabemos exactamente de quê – mas é. Iremos percebendo e entranhando, sem exageros nem dramas excessivos.

E será bom lembrar que não somos todos mestres em Direito Penal, que não foi implantada uma república de juízes, que o regime não caiu e que a Terra continua a girar à volta do Sol. 
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24.11.14

António Gedeão, 1906



Rómulo de Carvalho / António Gedeão completaria hoje uns improváveis 108 anos. Professor de Química, estudioso e grande divulgador da História da Ciência (razão pela qual se celebra, nesta data, o Dia Nacional da Cultura Científica), também poeta, autor de numerosos livros.

Neste manuscrito, uma parte do poema «Como será estar contente», publicado em Máquina de Fogo (1960):


Para muitos, «nasceu» com a Pedra Filosofal, quando, em 1969, Manuel Freire musicou o poema, publicado em Movimento Perpétuo (1956).


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À espera



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Noé



«Noé foi uma personagem com bastante popularidade. Muitos admiram ainda hoje o seu instinto de sobrevivência, a forma como actuou perante a tragédia, a sua liderança no meio do caos. (...)

Os Noé do nosso tempo chamam-se Couto dos Santos e José Lello. Defensores da sobrevivência da sua própria espécie enquanto os outros são fustigados pelas ondas da tragédia anunciada. Não importa que, num espírito leninista, tenham dado um passo à frente e dois atrás. E que a sua proposta de reposição das subvenções vitalícias para os políticos tenha sido colocada no frigorífico à espera de mais calor para voltar a nascer.

Nada evita o naufrágio definitivo destes nossos Noé, que só têm bóias de salvação para si próprios. A sua proposta (que tinha apoios fortes no PSD e no PS) demonstra que alguma classe política portuguesa não aprendeu nada com estes anos de loucura consumista e de austeridade tenebrosa. Acreditam que tudo voltará a ser como dantes. A sua proposta não era moral, nem imoral. Era amoral, a pior de todas. Porque não media as consequências, nem políticas nem morais, do que está em causa.

Esta classe política vive numa arca estilo clube do Bolinha: o povo comum não entra. É dispensável. É por termos deputados assim que o regime se desagrega e se enche de bolor. E vai afastando os cidadãos dos eleitos abrindo o dique para o populismo. Couto dos Santos e José Lello estão há tantos anos no Parlamento que se confundem com a mobília do regime. Será que, nas próximas eleições, ainda serão escolhidos pelas lideranças do PSD e do PS para se voltarem a eleger?»

Fernando Sobral

23.11.14

Os Convencidos da Vida




«Todos os dias os encontro. Evito-os. Às vezes sou obrigado a escutá-los, a dialogar com eles. Já não me confrangem. Contam-me vitórias. Querem vencer, querem, convencidos, convencer. Vençam lá, à vontade. Sobretudo, vençam sem me chatear.

Mas também os aturo por escrito. No livro, no jornal. Romancistas, poetas, ensaístas, críticos (de cinema, meu Deus, de cinema!). Será que voltaram os polígrafos? Voltaram, pois, e em força.

Convencidos da vida há-os, afinal, por toda a parte, em todos (e por todos) os meios. Eles estão convictos da sua excelência, da excelência das suas obras e manobras (as obras justificam as manobras), de que podem ser, se ainda não são, os melhores, os mais em vista.

Praticam, uns com os outros, nada de genuinamente indecente: apenas um espelhismo lisonjeador. Além de espectadores, o convencido precisa de irmãos-em-convencimento. Isolado, através de quem poderia continuar a convencer-se, a propagar-se? (...)

No corre-que-corre, o convencido da vida não é um vaidoso à toa. Ele é o vaidoso que quer extrair da sua vaidade, que nunca é gratuita, todo o rendimento possível. Nos negócios, na política, no jornalismo, nas letras, nas artes. É tão capaz de aceitar uma condecoração como de rejeitá-la. Depende do que, na circunstância, ele julgar que lhe será mais útil.

Para quem o sabe observar, para quem tem a pachorra de lhe seguir a trajectória, o convencido da vida farta-se de cometer «gaffes». Não importa: o caminho é em frente e para cima. A pior das «gaffes», além daquelas, apenas formais, que decorrem da sua ignorância de certos sinais ou etiquetas de casta, de classe, e que o inculcam como um arrivista, um «parvenu», a pior das «gaffes» é o convencido da vida julgar-se mais hábil manobrador do que qualquer outro.

Daí que não seja tão raro como isso ver um convencido da vida fazer plof e descer, liquidado, para as profundas. Se tiver raça, pôr-se-á, imediatamente, a «refaire surface». Cá chegado, ei-lo a retomar, metamorfoseado ou não, o seu propósito de se convencer da vida - da sua, claro - para de novo ser, com toda a plenitude, o convencido da vida que, afinal... sempre foi.»

Alexandre O'Neill, Uma Coisa em Forma de Assim

José Sócrates, uma luzinha que se apaga


No Público de hoje, Manuel Carvalho escreve o mais lúcido e sensato dos textos, que li até agora, sobre a detenção de Sócrates e suas implicações.

«Não sejamos ingénuos: um ex-primeiro ministro que é detido para interrogatório à noite, à porta de um aeroporto, por agentes destacados num automóvel à paisana, é um político previamente condenado ao ostracismo. Há feridas na imagem que são irreparáveis para quem depende da confiança dos eleitores. Por muito que José Sócrates não seja acusado de coisa nenhuma, ainda que seja capaz de explicar em público quais são as suspeitas que sobre ele impendem e como ele as esvaziou perante a Justiça, o que lhe aconteceu nas últimas horas é um golpe fundo na sua credibilidade política e um tiro mortal no seu polémico legado. Não, o problema não está na diligência judicial em si mesma – nenhum cidadão inocente está livre de ser suspeito e de ser detido e interrogado. O problema é que a detenção de José Sócrates é o epílogo de uma longa série de relações perigosas com casos que, muitas vezes, ficaram longe do esclarecimento total. A necessidade de, um dia, ter de se explicar na Justiça estava escrita nas estrelas.

Da sua casa no centro de Lisboa às assinaturas em obras para efeitos de licenças municipais, do Freeport ao estranho caso da licenciatura ou às escutas no processo Face Oculta, José Sócrates sempre teve à sua volta a auréola do homem público a agir nas margens da legalidade. Até ao dia de ontem, ele e os seus defensores sempre puderam argumentar, com razão, que em causa estavam invenções que a Justiça se encarregara de negar, que era vítima da perseguição da imprensa ou do ódio de muitos dos que tiveram de se confrontar com a sua personalidade dura e teimosa. Ontem, esta construção desfez-se e deu consistência a todas as dúvidas e suspeitas que se foram levantando nos últimos anos. Mesmo que os casos anteriores tenham ficado encerrados pelo arquivamento preliminar ou pelo despacho burocrático de altas figuras como a do ex-presidente do Supremo Tribunal de Justiça, que mandou destruir as escutas do caso Face Oculta, Sócrates e a lei têm finalmente uma oportunidade de pôr tudo em pratos limpos.»

Porque o texto merece ser lido na íntegra, e porque o link para o Público pode não funcionar, transcrevo-o AQUI
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Lido por aí (168)

Ironias dos destinos


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