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6.12.14

E é isto


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O surrealismo de cada dia nos dai hoje



Nicolau Santos, Expresso, Economia, 6/12/2014. 
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Portugal no seu melhor



O Expresso, responsavelmente ecológico, decidiu substituir os seus históricos sacos de plástico pelo equivalente em papel. Só que bastam 10 segundos para que as pegas se rasguem e o conteúdo se espalhe pelo chão. 
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Lido por aí (178)


@João Abel Manta

* O mundo mudou (Mariana Mortágua) 

* Ayotzinapa (Eduardo Galeano) 

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5.12.14

Lisboa não é lucrativa



Poema publicado hoje por Luis Sepúlveda, no Facebook, com dedicatória aos seus amigos portugueses. 

Lisboa no es rentable

El viejo tranvía de Lisboa no es rentable
ni los versos de Pessoa que leo con la misma lentitud
con que sube hasta el barrio alto.
Dejó de ser rentable la mesa de billar
en el Pabellón Chino y sus colecciones imposibles
tampoco son rentables.
Los árboles de la avenida de las Libertades en verano
las vendedoras de castañas en la rua Augusta
las historias que me cuenta el viejo Tejo
todo eso dejó de ser rentable.

El vino tranquilo de los portugueses no es rentable
los claveles de Abril tampoco son rentables
la solidaridad social de La Morería
¿cómo va a ser eso rentable?
La voz de José Afonso no es rentable
la serena nostalgia del fado
los lentos trenes que llegan a Santa Apolónia
y los ascensores que suben a Chiado
todo eso dejó de ser rentable.

Los banqueros decidieron que los sueños
que son parte de la vida vivida honestamente
que los músculos que lo levantaron todo
que los cerebros que lo imaginaron todo
que todo eso y más que eso, no es rentable.
Entonces impusieron la mezquina moral del usurero
para que el hedor y el virus, el miedo y la parálisis
la traición y la infamia
sean por cierto asuntos muy rentables.

Pero aún quedamos nosotros los tercos
los porfiados que no pedimos más que sombra al árbol
y al pájaro la levedad de su canto
y a la calle que nos lleve hasta una puerta amable
y al vino su oscuridad luminosa de amigos
y al niño la efímera alegría de su paso.

Nosotros el plural de los que podemos
vivir con tranvías lentos y trenes que llegan con retraso,
nos basta una luz, una sola para leer un verso,
un amor, uno solo para ser la humanidad
un día, uno solo y fundamos la existencia
y no nos importa si todo esto pueda ser o no rentable.

Luis Sepúlveda
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Circus is coming to town

Banco de Portugal – boas explicações?



«Há três anos, quando o Estado decidiu cortar os subsídios de férias e de Natal à função pública, houve uma grande polémica por causa dos funcionários do Banco de Portugal, que não foram afectados pela austeridade. Nessa altura, e para não dar a imagem de que os trabalhadores do banco central eram uns privilegiados, Carlos Costa cortou algumas mordomias no Banco de Portugal. Entre as várias regalias, o governador acabou com as comparticipações para a compra de colchões ortopédicos e reduziu as comparticipações para as próteses auditivas.

Até ao dia de hoje continuo sem perceber por que é que o Banco de Portugal subsidiava colchões ortopédicos. O problema não era tanto o ortopédico. O problema era mesmo o colchão. Por que haveria um banco central de subsidiar colchões? Depois dos casos BPN, BPP e BCP, e agora com o escândalo no Finantia e no BES, finalmente percebi por que é que o Banco de Portugal precisava de colchões. O banco central andou a dormir todos estes anos. E foi um grande erro ter cortado as comparticipações para as próteses auditivas, porque também não conseguiu ouvir aqueles que, como Pedro Queiroz Pereira, alertaram, a tempo e horas, de que algo ia muito mal no reino do Espírito Santo.»

Pedro Sousa Carvalho

4.12.14

Lido por aí (177)

Sócrates e os afectos



Ricardo Araújo Pereira, na Visão de hoje:

«Quando o assunto é José Sócrates, quase ninguém prescinde de uma declaração de interesses afectivos. (...)
Guardo a minha afeição para um conjunto de coisas realmente importantes, ao qual não pertencem actuais ou antigos primeiros-ministros. Eu gosto, por exemplo, de arroz doce. Mas não se pense que simpatizo especialmente com gelatina. No entanto, se uma taça de gelatina ou um prato de arroz doce forem acusados de corrupção, branqueamento de capitais e burla agravada, espero que tenham um julgamento justo. Não virei para a rua gritar que o arroz doce é inocente e que a gelatina nunca me enganou.»

Na íntegra AQUI.
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Uma bela homenagem



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A espectacular fuga de Caxias – há 53 anos



Em 4 de Dezembro de 1961, oito presos políticos personificaram uma fuga do forte de Caxias, não menos espectacular do que a de Peniche ocorrida quase dois anos antes, mas muito menos conhecida provavelmente porque não envolveu a pessoa de Álvaro Cunhal.

Derrubar um portão de um forte com um carro blindado, supostamente oferecido por Hitler a Salazar, e fazê-lo depois de uma longa preparação que implicou que o seu principal intérprete tenha fingido «rachar» (ou seja passar para o lado da polícia), para se movimentar à vontade e preparar todos os detalhes, nada tem de trivial e é digno de homenagem e admiração. Pertencerá para sempre ao nosso património – material ou imaterial, como se preferir, mas bem real e a ser preservado.

1961, Anno Horribilis para Salazar. Faltava a cereja em cima do bolo: daí a uns dias, cairia Goa...

Descrição detalhada:


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3.12.14

Lido por aí (176)

Manda quem pode



(Expresso diário 3/12/2014)

A decisão é de 2011, mas só agora foi tornada pública.
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A transcendente causa dos sacos de plástico



Vai intensa a discussão sobre o projecto de reforma do IRS, que devia ter sido votado hoje, e com toda a razão: estão em causa medidas que afectarão – e muito – a vida dos portugueses, a partir do próximo mês.

Mas não posso deixar de sorrir ao ler que uma das propostas de alteração feitas pelo PS (sem que, no momento em que escrevo, saiba se foi ou não aceite pela coligação PSD/CDS) diz respeito a uma taxa a aplicar à compra de sacos de plástico. Na versão inicial do documento, cada cliente de hipermercados ou lojas passaria a pagar 1 euro por saco, o PS propõe que esse valor seja alterado para 20 cêntimos (IVA incluído, nos dois casos).

Não consigo vislumbrar a transcendência da causa defendida pelo partido rosado, já que ninguém, por mais pobre ou dificilmente remediado que seja, é obrigado a recorrer aos objectos em causa. Terá sempre por casa uns saquitos de pano ou poderá procurá-los nos baús das avós.

Será que os PS está a apoiar a Associação Portuguesa da Indústria de Plásticos que teme o «eventual ‘fecho’ das empresas envolvidas, desde as empresas que comercializam as matérias-primas, às indústrias que fabricam os sacos, às empresas que os comercializam, às superfícies comerciais que os utilizam, às unidades de recolha e selecção de resíduos plásticos e aos organismos que reciclam esses resíduos». Custa-me a crer... Se assim for, os nossos vindouros rir-se-ão muito desta iniciativa, como nós nos rimos hoje da existência da licença de isqueiro, em tempos que não deixaram saudades, que tinha como objectivo proteger a indústria de fósforos.

Também pode acontecer que algo me escape, mas...

Ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!
Alexandre O'Neill 
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Podia ser um autoretrato


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O preço da corrupção



«A corrupção cria entropias e ineficiências. Premeia quem não tem mérito e desincentiva quem o tem. Tem custos económicos e sociais brutais. Onde ela reina faz fraca a forte gente. (...)

A corrupção cria privilégios para alguns em prejuízo de todos os outros. Cria barreiras à progressão dos melhores e abafa o talento. Faz com que os dinheiros públicos sejam gastos em projectos com pouco ou nenhuma racionalidade económica, que não criam ou até destroem valor. Ou que a soma neles despendida seja superior ao que ditaria o mercado. Associada à fraude, faz com que todos paguemos mais impostos do que devíamos.

O país assistiu a várias destas ineficiências nos últimos anos. Seja nas decisões tomadas a nível do governo central, seja do local. Por má gestão. Por incompetência. Certamente. Mas terá sido também por suborno? É esse o véu que a Justiça nos vai destapar? O importante é que ela se faça. Seja em que sentido for. (...)

Não é à-toa que sete dos países que ocupam os dez primeiros lugares do Índice de Percepção da Corrupção da Transparency International, divulgado esta quarta-feira, estão também no top dez do Índice de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas. A corrupção também explica porque uns países são ricos e outros são pobres. Ela corrói a confiança nas instituições. E os povos falham quando as instituições lhes falham.»

André Veríssimo

2.12.14

Odetta Holmes - «A voz do movimento dos direitos cívicos»



Morreu em 2 de Dezembro de 2008 aquela que ficou conhecida como «A voz do movimento dos direitos cívicos» nos EUA. O seu nome ficou para sempre ligado a «Oh, Freedom», que cantou em 3 de Agosto de 1963, na marcha de Washington em que Luther King proferiu o seu célebre discurso «I have a dream».

Odetta Holmes teve uma grande influência, musical e ideológica, em muitos cantores, entre os quais Joan Baez e Bob Dylan.

Tinha esta voz fabulosa!




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Do Provedor ao Ministro



Vale a pena gastar alguns minutos com a leitura de uma carta, datada de 19 de Novembro, que o Provedor de Justiça enviou ao Ministro da Solidariedade, Emprego e Segurança Social sobre «Medidas contrato emprego-inserção e contrato emprego-inserção».

Dois excertos, entre muitos possíveis:




Há muito que os Precários vêm a chamar a atenção para este escândalo. Fazem-no agora, uma vez mais, respaldados pela posição do Provedor de Justiça:

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Lido por aí (175)

1.12.14

Novo blogue



Marina Mortágua acaba de lançar um blogue onde se propõe ajudar e perceber / ler o que se passa na Comissão de Inquérito ao BES. Serviço público. 
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Rosa Parks, num 1º de Dezembro



Foi há 59 anos, em Montgomery. A parte da frente do autocarro, reservada a passageiros brancos, já não tinha nenhum lugar vago e o condutor ordenou que Rosa Parks se levantasse e cedesse o seu. Recusou e foi presa.

Acto especialmente importante a ser recordado quando a América se debate, de novo, com graves problemas de racismo. Diferentes, certamente, a outro nível civilizacional, mas nem por isso menos dramáticos.





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Lido por aí (174)

Sem rede de segurança à vista



«Bertrand Russell dizia convictamente que os cientistas se esforçam por tornar possível o impossível, enquanto os políticos tentam fazer do impossível o possível. A classe política portuguesa das últimas décadas, aliada a grupos de interesses sedentos de dinheiro e poder, tentou comportar-se como cientistas. (...)

A corrupção que hoje saltita por aí, à vista desarmada, demonstra que os velhos equilíbrios tropeçaram na realidade da vida portuguesa. Asfixiada, a classe média que equilibra o país e na maior parte dos casos é o motor que o faz funcionar revoltou-se contra os desmandos há muito conhecidos e sempre calados. Porque todos tinham a ganhar com isso. Com a austeridade, esse idílio desfez-se. E por isso a aliança feita no topo entre interesses políticos e económicos desmorona-se como um castelo de cartas. Este arrepio colectivo que perpassa por Portugal tinha sido até agora evitado porque todos ganhavam alguma coisa com este "status quo", em que cada um fingia que era distraído. Mas a erva daninha não era só de cumplicidades económicas. Era de valores. E é tudo isso que agora está em causa.

O país naufragou no meio de um oceano sem terra à vista. Pode ser que isto a que se assiste, e que vai continuar dentro de momentos com outros "negócios" por explicar, seja o início de uma nova era. Mas também poderá ser o tremor de terra que o regime necessitava para que o fundamental não mude. Uma coisa é certa: vivemos tempos líquidos onde todas as seguranças desapareceram. Uma parte de Portugal revoltou-se. E não há rede de segurança à vista.»

Fernando Sobral
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30.11.14

Tempo para recordar



«A utopia está lá no horizonte. Aproximo-me dois passos, ela afasta-se dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.»

Eduardo Galeano
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Lido por aí (173)


@João Abel Manta

* Fundos europeus: realidade e ilusões (Carvalho da Silva)

* Vê lá, companheiro, vê lá como venho eu (António Simões do Paço)

* Putin: un discurso histórico (Atilio Boron)
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Circo mediático?



«Uma das principais queixas dos defensores não oficiais de José Sócrates é a de que a detenção deste – e o que sucedeu em seguida – foi um "circo mediático". A sério? Do que vi, e acreditem que vi muito, o "circo mediático" consistiu nas imagens recorrentes de dois ou três carros em ruas pouco iluminadas e de uma dúzia de repórteres plantados, género moita, nas imediações do TIC. Em matéria de espectáculo, há filmes romenos mais conseguidos. Se o objectivo fosse capturar, interrogar e prender José Sócrates em segredo a diferença não teria sido grande. Aliás, é difícil imaginarmos outra democracia em que notícia semelhante suscitasse tratamento tão discreto. A menos, como de resto é provável, que não sejam democráticos os exemplos que ocorram a essa gente.»

Pedro Marques Lopes