21.5.15

Foi de barco que a Europa chegou a Creta e se tornou humana



Um grande texto de Pedro Góis no Público de hoje:

«A relação da União Europeia com o Mediterrâneo (e através dele com o mundo) está em crise. Na verdade estamos perante uma guerra civil intercontinental. Uma guerra civil de baixa intensidade. Não querendo ver este grande mar como um lago interior que une duas margens mas, ao invés, como um muro que separa dois mundos, a UE cria uma fronteira que separa em vez de unir. (...) A guerra civil é, como sempre, entre irmãos. É sempre trágica porque nela nos matamos uns aos outros ao tentar não morrer. A guerra civil é trágica porque matamos com medo de morrer. O gatilho é sempre o medo.

A ironia vem de não percebermos que a Europa é, ela própria, o resultado de uma migração. (...)

Em sucessivos momentos, a União Europeia tem tido medo da liberdade. Quando desafiada a aceitar a liberdade de circulação interna adiou, protelou, estabeleceu períodos de transição. Foi assim com a adesão de Portugal e de Espanha, depois com a adesão de vários países do leste da Europa. É assim com a Turquia. Mas, quando perdeu o medo da liberdade, a circulação das pessoas não provocou invasões de uns povos pelos outros. Ao contrário, criou uma sensação de liberdade em todos os que descobriram que as fronteiras não existem. Criou o Erasmus e os amores Erasmus e os filhos desses amores europeus ou as lowcost que reinventaram o turismo. (...)

Num momento em que as migrações são um desafio político, a provocação é o de pensar mais longe, muito mais longe. Não bastam quotas minimalistas e segurança maximalista. A estratégia europeia para as migrações tem que ser a de, num prazo realista, criar condições para a desinvenção do passaporte. Para fazer um trabalho de longo prazo que permita a liberdade de circulação de tod@s. Sei que não é para amanhã mas creio que um dia será. Se foi possível libertar os capitais e depois os produtos e serviços dos estreitos territórios onde se moviam, também será possível promover a liberdade de circulação global. Não tenhamos medo que não virão hordas de bárbaros invadir o nosso jardim.

Sem utopias não há esperança e sem esperança não há futuro. Pela liberdade global de circulação de pessoas é um grito do (e com) futuro. No fundo pela abolição da obrigatoriedade de viver onde não se quer e do direito universal de sonhar por “greener pastures”. Pela liberdade de ir.» 
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