28.6.15

Europa, pobre Europa



«Portugal não pode, como desejam Passos Coelho, Cavaco Silva ou Maria Luís Albuquerque, fechar os olhos e dizer que tem os "cofres cheios", como se eles valessem algo num mundo financeiro global. A conversa, de resto, cheira a mofo: Portugal, há quatro décadas, tinha os cofres cheios de ouro, emigração sem fim e estradas de areia. Essa pobreza de ideias, depois da pobreza económica forçada, está de volta com políticos que se dizem jovens. A Europa vive um dos seus momentos determinantes. A Grécia é apenas o aperitivo para o que será depois de a Grã-Bretanha decidir se sai ou fica, dos acordos comerciais discutidos às escondidas com os EUA e que ameaçam tornar os Estados reféns das maiores multinacionais, ou da próxima crise financeira. A Europa parece hoje um cata-vento, incapaz de decidir sensatamente, como se vê na crise dos refugiados que contornam o Mediterrâneo e buscam o Norte paradisíaco.

A história mostra-nos que esta Europa está presa com adesivos da loja dos 300. Tendo perdido o seu centro de poder (hoje entregue totalmente a Alemanha), e os seus equilíbrios, parece perdida. (...)

Não admira que a crise grega eclodisse. Com o FMI, o polícia mau de serviço, pelo caminho e com as suas receitas servidas em qualquer latitude pelo mesmo Excel. Só que este euro está a chocar com os nacionalismos e os interesses próprios (...). E a deixar de fora as questões políticas e estratégicas que se acumulam: desde a saída da Grécia e o colapso do flanco sul da NATO à crise dos refugiados que ninguém quer e que a União Europeia parece considerar que é um problema da Itália. Enquanto estes vão ultrapassando fronteiras até chegar onde querem: à Alemanha, à Grã-Bretanha, à Escandinávia. Perante tudo isto, o Governo português parece uma múmia paralítica.»

Fernando Sobral