6.7.15

Quiseram dizer «Não», mesmo que fiquem sem comer



«“As pessoas quiseram dizer 'não', mesmo que fiquem sem comer”. Stavros Stellas tem 60 anos e anda de lágrimas nos olhos na Praça Sintagma com a bandeira de Portugal quando a jornalista Joana Pereira Bastos o topa. Porquê a bandeira? Porque estamos a passar pelo mesmo, diz. Mas não da mesma maneira: “O governo português vai ter de explicar ao seu povo porque não lutou pelos direitos das pessoas, como lutou o nosso aqui na Grécia. Vai ter de explicar porque disse que sim a tudo, porque nunca fez frente à UE.” Ouve-se isto e engole-se em seco. (...)

É exactamente por causa desta tibieza política e pela opção pela dissimulação consentida em Portugal que se olha para o povo grego e se admira a coragem, mesmo que ela abra portas para salas tenebrosas onde não há uma só luz que alumie o futuro. Ajuda? Os gregos não precisam de esmola, precisam de um plano que funcione). O que é indisputável é o contrário, os gregos querem ajuda. Não estão a virar as costas à Europa, estão a abrir o peito da sua dignidade e a mostrar com as suas próprias cicatrizes – desemprego, recessão, pobreza, cortes de salários, de pensões e noção esclarecida de que vai ser assim durante décadas – que a austeridade levou de mais e trouxe de menos. Não é só ser doloroso, é ser estúpido insistir num modelo que, trazendo austeridade, não traga mais que austeridade. (...)

É também por isso que as reportagens da noite de domingo estão cheias de emoção, daqueles que falam e também de muitos que lêem. Festeja-se uma espécie de liberdade que não vem da vitória em si mas da dignidade de quem, mesmo sabendo que vai passar fome, não aceita mais planos de austeridade inférteis. Stavros Stellas é só mais um e nós devíamos perceber que aquela bandeira portuguesa que ele leva nos braços não é a representação de um credor mas de um povo. Afinal, é isso que eles são, o povo grego. Afinal, é isso que nós nunca seremos, o povo da Europa. E se desistimos deles, desistimos de parte de nós. É que o “não” ganhou. E cinco anos de austeridade depois, os gregos não estão a querer tirar, estão a querer dar. Para que o sacrifício valha a pena. O deles. E o nosso.»  

Pedro Santos Guerreiro