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16.11.15

A angústia de Cavaco



«A capa da Der Spiegel dizia tudo sobre um dos grandes políticos europeus do século XX, Helmut Schmidt. Citava-o: "Precisamos de determinação. E de cigarros." Hoje os cigarros são politicamente incorrectos.

E a determinação evaporou-se da política porque os estadistas implodiram. Em Portugal, precisamos de rapidez. Porque determinação parece não existir em Belém. Portugal votou a 4 de Outubro e estamos a 16 de Novembro. Sem Governo. Portugal não é a Grécia. É uma República do Terceiro Mundo que finge pertencer à Europa. Cavaco representa esta insuficiência, maior do que a dívida e o défice. Cavaco vive angustiado. Tem angústia por um país que considera seu, moldado pela sua presença tantos anos à frente do Governo e da presidência. Cavaco ainda se considera a consciência do PSD, algo que Passos Coelho sempre renegou. Passos é de um PSD que Cavaco não moldou.

Ao julgar que ainda é o herdeiro do país que criou, mas que abdicou já do seu criador, Cavaco arrasta uma decisão urgente. Portugal precisa de um Governo. E precisa de um OE. Para quem passa a vida a falar de estabilidade e previsibilidade, sempre com uma mão a segurar o fantasma dos mercados, Cavaco contradiz-se a si próprio. Não faz o que diz. E por isso esgota-se na sua inércia. O seu silêncio pode destruir as últimas teias que sustentam esta sociedade. Porque estão a contribuir para que se radicalize ainda mais. Cavaco só tem duas soluções: António Costa ou um Governo de gestão. Não há outra. Só tem de decidir. Tristes dias finais de Cavaco em Belém. E na política portuguesa.»

Fernando Sobral

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