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23.11.15

O novo declínio do Ocidente



«Robert Skidelsky foi, muito provavelmente, o autor do mais interessante artigo sobre o que sucedeu em Paris e os dilemas que ele coloca à própria civilização ocidental.

Partindo do ensaio "O Declínio do Ocidente" que Oswald Spengler escreveu em 1918, Skidelsky cita um relatório da Ipsos Mori: "A assunção de um futuro melhor para a próxima geração desapareceu em muito do Ocidente". Hoje não se fala de "declínio", mas de "estagnação secular". Daí que Skidelsky afirme: "A linguagem muda, mas a crença de que a civilização ocidental vive de tempo (e dinheiro) emprestado é a mesma". Incapaz de estabelecer um ambiente internacional baseado nos seus valores e modos de vida, o Ocidente falhou. Ao mesmo tempo que o seu modelo interno, especialmente na Europa, o Estado social, se desmorona. O tempestuoso mundo islâmico da actualidade alimenta-se disso: o terrorismo, a falência dos estados do Médio Oriente criados pelos mapas coloniais e os refugiados acertam no coração desta Europa caduca.

Skidelsky liga isso à questão do arrefecimento da globalização económica, que precisa de uma ordem política global estável. Que está a desaparecer. Pelo meio há que recordar que a globalização económica criou ligações que chocam com a essência, por exemplo, do Estado Islâmico: a França é "amiga" de países de onde vem a maior fatia do financiamento deste grupo, tendo com eles acordos de venda de material militar que à luz do que sucedeu em Paris parecem irracionais. (...)

O crescimento económico foi desligado do trabalho (só em Portugal ainda nos agarramos só ao valor do trabalho para termos empresas competitivas). O desemprego e a desigualdade, neste quadro de automatização, estão a transformar as sociedades e a liquidar, em muitos casos, a classe média, o pilar das democracias. Com a pressão das necessidades de segurança, e a limitação das liberdades, a ela associadas, caminhamos para um território muito negro. Os povos foram substituídos por mercados. Daí caminhamos para um capitalismo sem trabalho, como dizia Ulrich Beck? Ou para um "Blade Runner" de que falava Philip K. Dick? Ou para o "Admirável Mundo Novo" de Aldous Huxley? O problema é que, neste campo minado por interesses tão conflituantes que convivem nesta globalização económica e financeira, é o declínio dos valores do Ocidente (os do Iluminismo) que estão mais visíveis.»

Fernando Sobral

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